“Trabalhadores do contrabando” é o nome de um
documentário produzido na Galiza que nos fala desta atividade tão antiga como a
existência das fronteiras. Ouça ex-contrabandistas melgacenses e de Arbo a
falar sobre esses tempos onde o contrabando era um verdadeiro “modo de vida”,
essencial para a sobrevivência de muitas famílias em tempos difíceis..... Veja o vídeo completo!
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1969 (Parte 1)
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| Concurso do Cão de Castro Laboreiro (1969) |
A publicação "O Mundo Canino", numa edição de 1969, conta-nos numa reportagem, como foi o Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro desse ano, realizado nesta localidade. Na dita peça jornalística, podemos ler que "Aquele
ia ser um dia diferente, mesmo dentro da concepção do que deve ser o quotidiano
de um jornalista: observação, retenção, descrição - e, eventualmente, crítica -
de acontecimentos vários, originais, inesperados. E ia ser diferente porque não
é vulgar, no contexto multimodo da profissão, um jornalista ocupar toda a sua
jornada de trabalho com uma reportagem em que o cão é o assunto. Mais do que o
cão, um cão. E por causa de um cão específico me levantei mais cedo e
jordaneei, pela fresca, Portugal acima, rolando com o mar à esquerda, até
chegar ao ponto onde um rio é fronteira e, depois, acompanhando o rio no
sentido leste, rumar à vila de Melgaço, onde começaria a trepar para a povoação
de Castro Laboreiro. Era aí que me esperava o meu cão.
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| Concurso do Cão de Castro Laboreiro (1969) |
A
viagem, com muitos atractivos paisagísticos e a breve paragem para o almoço,
num afamado restaurante de Monção, foram pormenores acessórios da empresa; o
objectivo era Castro Laboreiro e a anunciada cerimónia em que os cães que da
terra tiveram o nome iriam ser vedetas.
Por
isso, e contra o que seria normal, não demos ouvidos à voz do mar, ignorámos as
sugestões da folhagem cor-de-fogo e dos povos de casas baixas, antigas e
sólidas, atentámos no nevoeiro apenas porque a sua presença em farrapos húmidos
nos permitia, unicamente, visões parceladas do caminho e, quando o destino
estava próximo, um contacto mais íntimo com as fugidias pessoas e coisas que já
sabíamos fazerem parte do «habitat» do nosso «herói» da jornada, o Cão de
Castro Laboreiro.
Mas
que ia passar-se, afinal, em Castro Laboreiro? Para quê toda esta história de
viagem com fim determinado, na senda de um cão?
Tudo
principiara com uma conversa, uma alusão, um convite. Em Castro Laboreiro, lá
para a serra, ia reallzar-se um concurso anual de cães. Não um desses certames
muito reclamados e muito elegantes onde o desfile das damas e donzelas pretende
rivalizar, em porte, elegância, distinção e raça, com o próprio desfile dos
galgos, dos «caniches», dos «podengos», dos «danois» e dos «foxes». Este era um
concurso especial, tão puro como a serra, tão inocente como as pessoas, que com
os cães, iriam desfilar. Tal promessa me houvera sido feita, na véspera deste
dia diferente em que subi aos píncaros de Castro Laboreiro, acima do nevoeiro e
para lá - ou antes - da civilização e dos seus complicados rituais.
E
pronto, eis-nos chegados ao fim da estrada, ao cume da terra, à povoação
pendurada chamada Castro Laboreiro, que é onde um certo cão «tem o seu solar» e
«donde tirou o nome».
O
padre Aníbal, abrindo um sorriso com tantos dentes como há nos sorrisos de
Fernandel, dirigia a festa.
Após
as apresentações, ficou-se a saber que o padre Aníbal era um apaixonado pela
Natureza, um devoto de Santo Huberto («Dou os meus tirinhos, gosto de os dar -
aos pássaros, não às pessoas, evidentemente!», dizia o padre, num grande
sorriso) e um dos responsáveis pelo brilho já tradicional daquele concurso
quase ignorado.
Quase
ignorado, é verdade, mas sem que isso impeça que o Concurso de Cães de Castro
Laboreiro se realize há dezasseis anos consecutivos, e com progressivo aumento
de interesse e repercussão. Conforme se pode ler no Regulamento do Concurso,
este é «organizado pela Intendência de Pecuária de Viana do Castelo, de acordo
com o Regulamento Oficial de Exposições Caninas e com o patrocínio do Clube
Português de Canicultura, na sede da freguesia de Castro Laboreiro, do concelho
de Melgaço», admitindo a inscrição de cachorros (entre 6 e 12 meses de idade) e
de todos os animais da raça «Castro Laboreiro» com idade superior a 12 meses,
estes numa «classe aberta».
E
ali estava eu, no meio duma praça de aldeia, debaixo dum céu de chumbo e
rodeado de nevoeiro aos farrapos, a olhar o povo aglomerado, na expectativa da
função. Os cães, esses entretinham o tempo com o que é próprio dos cães: davam
ao rabo, esticavam as trelas e conversavam, ladrando.
Seriam
vinte, talvez vinte e cinco. À primeira vista, um leigo diria serem todos
iguais, ou quase todos, mas o mesmo sucede quando a gente vê desfilar, sem
preocupação de pormenor, as «misses» de um qualquer Concurso de Belezocas:
todas tão certinhas e tão «misses» como se da mesma forma houvessem saído, para
venda nos bazares a um preço fixo.
O
caso é que - manda a lógica pensá-Io - se concurso havia, existiriam
diferenças. Como com as «misses». E já se veria.
Os
juizes eram dois: o Dr. António Cabral, presidente do Clube Português de
Canicultura, que tinha vindo expressamente de Lisboa para o efeito, e o Dr.
Teodósio Antunes, veterinário em Viana do Castelo. Eles decidiriam quais os
bichos que mereceriam distinção gradual e prémio consentâneo. Sim, porque ali
havia taças, medalhas e dinheiro à vista em disputa.
Agora,
os concorrentes. Vinte, disse? Vinte e cinco? Por aí. E todos rigorosamente
«Castro Laboreiro», de pelo grosso, liso curto, na cor mais habitual e
preferida...
Os
cães estavam pela mão dos donos. Coisa curiosa: percentagem esmagadora de
mulheres, dois homens, e um rapazinho. Os homens eram velhos, cansados, lentos.
As mulheres estavam todas (bem, menos uma) vestidas de preto, saia e blusa,
capa barrosã pelos ombros e meias pretas (em certos casos, protegidas com uma
espécie de safões curtos); nos pés, umas botinas de couro, rijas e cardadas,
com aspecto de intermináveis. Coisa para gastar os trilhos da serra.
E as
caras dessas mulheres, dessas raparigas, dessas meninas sem idade! Todas com
menos anos do que poderia supor-se pelas caras queimadas, marcadas, riscadas de
rugas, modeladas pelo vento, pelo frio pelo nevoeiro, pela monotonia, pela
espera...
Pela
espera de quê? De quem?
Dos
homens delas, dos pais delas, dos filhos delas. Em 1918, após a Primeira Guerra
Mundial, os homens de Castro Laboreiro desceram a serra, encafuaram-se no
comboio e foram para França. As primeiras centenas de escudos ganhos com o suor
do emigrante vieram como compensação das ausências e como chamariz de mais
homens. As mulheres foram ficando sozinhas. E começaram a vestir-se de preto.
A
certa altura, os homens deixaram-se ficar descansados na serra. Depois, voltaram
a partir. Hoje, quase todos os homens de Castro Laboreiro estão em França a
fazer casas muito altas, a calcetar ruas, a sonhar e a ganhar fortunas. As
mulheres deles, em Castro Laboreiro, são todas viúvas. Não só as
mulheres-esposas: também as mulheres-filhas, as mulheres-mães. Viúvas, todas
elas, viúvas de homens vivos..." (CONTINUA)
Extraído de: O Mundo Canino (1969)
Etiquetas:
cão de castro laboreiro,
castro laboreiro,
concurso tradicional do cão de castro laboreiro,
melgaço
Local:
Vila Nova de Gaia, Portugal
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Memórias de um jornalista em Castro Laboreiro (1984)
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| Castro Laboreiro: a pegureira, o rebanho e o cão (Foto de Ramon Blanco) |
“Castro Laboreiro, 1984 -
Oração aos cães
Cheguei a Castro Laboreiro morto de frio. E assim fiquei
durante os 8 dias que durou aquele trabalho. O frio, de rachar, contrariou-se
com aguardente de maçã. De hora a hora, lá ia um copinho… aquilo a que hoje
chamaríamos “shot”. Bebi muitos, como é bom de ver. Em Dezembro, lá no alto da
montanha, repito, o frio é de morrer…
A aldeia fascinou-me. Pedregosa, mergulhada em neve, gelo e nevoeiro. Era um ambiente em tons de cinzento. Só tinha mulheres, baixinhas, sempre vestidas de negro, saíam à rua com um manto que lhes envolvia a cabeça e protegia o corpo do frio. Não havia mulher que não trouxesse um cão à ilharga. O cão de Castro Laboreiro é um bicho grande, escuro, de olhos amarelos. Mete medo. Talvez por isso as mulheres não dispensavam a companhia do seu, naqueles dias em que a aldeia foi invadida por um grupo de estranhos, que filmavam e fotografavam sem sentido aparente.
Pois, o que me levou até lá foram, precisamente, aqueles cães. Fiz uma reportagem sobre cães de raça portuguesa e o cão de Castro Laboreiro é um dos mais emblemáticos. É uma raça muito antiga, morfologicamente próxima do lobo. Os olhos amarelos e os dedos das patas virados para a frente não enganam… contudo, revela-se um animal meigo, pelo menos para os donos. As gentes de Castro Laboreiro usam o cão para guardar o gado. No Inverno, o cão encarrega-se disso sem necessidade de companhia humana. O rebanho de cabras fica-lhe entregue. Penso que será o único cão de guarda que faz este trabalho assim, sem ajuda do homem.
Na aldeia, durante a semana, só havia mulheres. Os homens trabalhavam longe e, quanto muito, iam a casa ao fim-de-semana. Mas a maioria nem isso. Muitos andavam pela França. O único homem que ficava era o padre Aníbal. Este padre tinha um forte sentido de protecção em relação à sua aldeia e à paróquia. Era um amante da arqueologia local. Não se cansou de nos levar a ver as pontes romanas, o castelo do século XII, os dólmenes, as pinturas rupestres. De facto, Castro Laboreiro é um sítio fascinante. Mas defendia, acima de tudo, a arqueologia viva que é o cão de Castro Laboreiro. Cheguei a ver o padre a apedrejar cães vadios, abandonados pelos caçadores, que se refugiavam na aldeia durante o Inverno à procura de calor e comida. O problema desses cães é que montavam as cadelas de Castro Laboreiro e, assim, abastardavam a raça. Por esse pecado, eram apedrejados impiedosamente…”
A aldeia fascinou-me. Pedregosa, mergulhada em neve, gelo e nevoeiro. Era um ambiente em tons de cinzento. Só tinha mulheres, baixinhas, sempre vestidas de negro, saíam à rua com um manto que lhes envolvia a cabeça e protegia o corpo do frio. Não havia mulher que não trouxesse um cão à ilharga. O cão de Castro Laboreiro é um bicho grande, escuro, de olhos amarelos. Mete medo. Talvez por isso as mulheres não dispensavam a companhia do seu, naqueles dias em que a aldeia foi invadida por um grupo de estranhos, que filmavam e fotografavam sem sentido aparente.
Pois, o que me levou até lá foram, precisamente, aqueles cães. Fiz uma reportagem sobre cães de raça portuguesa e o cão de Castro Laboreiro é um dos mais emblemáticos. É uma raça muito antiga, morfologicamente próxima do lobo. Os olhos amarelos e os dedos das patas virados para a frente não enganam… contudo, revela-se um animal meigo, pelo menos para os donos. As gentes de Castro Laboreiro usam o cão para guardar o gado. No Inverno, o cão encarrega-se disso sem necessidade de companhia humana. O rebanho de cabras fica-lhe entregue. Penso que será o único cão de guarda que faz este trabalho assim, sem ajuda do homem.
Na aldeia, durante a semana, só havia mulheres. Os homens trabalhavam longe e, quanto muito, iam a casa ao fim-de-semana. Mas a maioria nem isso. Muitos andavam pela França. O único homem que ficava era o padre Aníbal. Este padre tinha um forte sentido de protecção em relação à sua aldeia e à paróquia. Era um amante da arqueologia local. Não se cansou de nos levar a ver as pontes romanas, o castelo do século XII, os dólmenes, as pinturas rupestres. De facto, Castro Laboreiro é um sítio fascinante. Mas defendia, acima de tudo, a arqueologia viva que é o cão de Castro Laboreiro. Cheguei a ver o padre a apedrejar cães vadios, abandonados pelos caçadores, que se refugiavam na aldeia durante o Inverno à procura de calor e comida. O problema desses cães é que montavam as cadelas de Castro Laboreiro e, assim, abastardavam a raça. Por esse pecado, eram apedrejados impiedosamente…”
Extraído de: http://blogda-se.blogspot.pt/2006/01/castro-laboreiro-1984-orao-aos-ces.html
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Os milagres da Senhora da Orada contados há 300 anos
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| Capela da Senhora da Orada |
Um livro publicado há
cerca de 300 anos fala-nos dos milagres da Senhora da Orada num tempo em que à
sua capela em Melgaço acorriam muitos peregrinos para a sua romaria. Ora leia: “Um
tiro de mosquete pouco mais ou menos de distância da Praça de Melgaço se vê
situado o Santuário e Casa de Nossa Senhora da Orada. Foi edificada sobre o
mais alto de um monte eminente ao rio Minho que lhe fica da parte do norte, em
igual distância do arrabalde da dita praça e vila de Melgaço de onde vem uma
estrada pública que vai para o Reino de Galiza e Castela que passa junto ao
átrio da capela. E desta até à vila se vê a estrada povoada e pomares, que tudo
suaviza e recreia muito a vista a todos os que passam e também aos devotos da Senhora
da Orada quando a vão buscar e venerar, tudo isto é um passeio.
É este templo de
excelente estrutura, porque é fabricado de boa cantaria e é da jurisdição e
administração dos Monges de Santa Maria de Fiães. Porque dele lhe fez doação
El-Rei D. Sancho I deste reino, como coisa sua, pelo ter herdado de seu pai, o
rei D. Afonso Henriques, que foi o que o reedificou depois da restauração de
Espanha. De onde se colhe, que houve um templo mais antigo do que este, pois
este foi reedificado sem dúvida ou porque o primeiro ameaçava ruína, ou estava
já arruinado. Tudo isto consta de uma escritura de doação feita pelo referido
rei D. Sancho em Santarém aos 3 dos idos de Setembro do anos de 1207 que
assinou o mesmo rei com todos os seus filhos e prelados do reino que ali se
achavam como era costume naqueles tempos. Esta escritura está no Livro das Datas
do mesmo Mosteiro de Fiães o qual se conserva no cartório do referido mosteiro
e assim se verifica ser este templo da Senhora da Orada antiquíssimo, como
também o título da Senhora. Também daqui se colhe a particular devoção dos reis,
fundadores deste reino. Como foi informado o padre António Carvalho da Costa,
em dizer que este templo da Senhora da Orada era da Condessa Fronilla. A Quinta
de Cavaleiros podia ser sua e fazer dela doação ao Convento de Fiães no ano de
1166 mas a Casa da Senhora da Orada não. !
A imagem da Senhora
antiga com o decurso dos anos se desfez e a que existe é muito devota. É de
perfeitíssima escultura, tem ao Menino Deus sobre o braço esquerdo e tem cinco
palmos de estatura. É de madeira com as roupas estofadas de ouro. É muito
milagrosa e como tal é buscada e invocada da devoção dos fiéis, os quais por
sua intercessão, alcançam de seu Santíssimo Filho, o que justamente pretendem.
A este santuário, desde o dia da ascensão do Senhor até à festa do Espírito
Santo, vão em romaria as mães das freguesias da vila de Monção e do seu termo,
a oferecer o resíduo do Círio Pascal e vai acompanhar a procissão ao menos uma
pessoa de cada paróquia, com os seus párocos e isto por voto que antigamente
fizeram em tempo de uma grande peste, de que ficou preservada a mesma vila e as
freguesias do seu termo, as quais fizeram o referido voto e também muitas
freguesias do termo de Valadares e todas as do termo de Melgaço. As gentes vão
em procissão à Senhora da Orada e no mesmo tempo, umas por devoção e muitas por
voto, com clamores e procissão no mesmo santuário, para implorar da Senhora os
favores do Céu. E também em tempo que se necessita de sol, ou de chuva, vão
muitas freguesias em procissão com ladainhas a pedir à Senhora os seus favores.
O que com evidência experimentam, porque esta misericordiosa Senhora lhes
alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem.
É tradição antiga, que
por favor e intercessão desta milagrosa Senhora se livraram muitos cativos, que
estavam em prisões em terras de Mouros e que milagrosamente ou por ministério
dos Anjos, apareceram às portas do templo da Senhora da Orada com os grilhões e
correntes com que estavam presos. Os quais invocando o favor da Senhora da
Orada, ela compadecida do seu trabalho e os aliviava e trazia à sua Casa.
Infinitos são os milagres que obra e tem obrado a Senhora, e o querer fazer
deles relação, não haveria papel que os comprendesse.
O autor da Corografia, o
Padre Carvalho, também confirma a grande devoção de todos aqueles povos para
com esta Senhora mas queixa-se de que a devoção daqueles Monges de Fiães já
hoje estava muito tíbia, tendo antigamente muito fervorosa e que esta indevoção
se ia já pegando muito. Porque não só já hoje a gente é menos, mas a Casa da
Senhora se via menos asseada e que temia que viesse a padecer ruína. Porque
como os arcebispos primazes não se podem ali intrometer, também os não podem obrigar
a que reparem a Casa da Senhora da Orada para que se não arruine de todo e
extinga totalmente aquela grande e antiga devoção que todos aqueles povos
tinham com aquela milagrosa e prodigiosa imagem da Senhora da Orada. Nem eu
posso crer de religiosos tão solícitos da sua religião tenham tão grande
descuido em uma matéria que merece tanto cuidado e atenção."
Extraído de: SANTA
MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens
milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram;
Lisboa.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Uma visita à romaria da Nossa Senhora da Peneda de 1912
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| Vista para o Santuário da Senhora da Peneda |
"NO MINHO PITORESCO - A CÉLEBRE ROMARIA DA PENEDA
Nos subúrbios de Guimarães, S. Torcato, um
dos celestes ímans milagreiros com mais créditos granjeados no espírito do povo
minhoto, pela tradição de bastantes séculos, atrai anualmente ao seu templo
milhares e milhares de visitantes.
E é por isso que nos dias de festa lá afluem
aos terraços e espaçosas alamedas inúmeras peregrinações de devotos, na ânsia
de se abeirarem daquele santo, para
assim cumprirem as promessas solenemente feitas em horas de indizíveis
atribulações ou nos transes dolorosos duma doença grave. Entretanto, a romaria
de S. Torcato, apesar da concorrência
assombrosa dos forasteiros, nada tem de característico ou peculiar,
destacando-se apenas pelo grande formigueiro humano que vai procurar ali o
folguedo compensador das habituais canseiras da lavoura, depois de contemplar
com acafamento próprio de uma crença inveterada os restos mumificados do santo
vimaranense. A Senhora da Peneda, porém, alapardada entre distanciadas
montanhas, cujas cristas parecem topetar nos astros, sem proporcionar aos
crentes ou aos turistas meios razoáveis de comunicação ou facilidade de
transporte, indubitavelmente exerce na religiosidade do povo uma ação magnética
superior à do consócio S. Torcato, arrastando por serranias inóspitas, por
barrancos e despenhadeiros escabrosos, e por fraguedos de perigoso acesso, a
massa anónima das aldeias galegas e minhotas. O aprazível local da romaria é
defendido por um castelo natural em que as serras parecem fazer o papel de
muralhas impermeáveis ao influxo osmótico da modernidade e civilizadora. É por
isso que, enquanto S. Torcato, nos arredores
Guimarães, nos dá a impressão duma romaria atualizada, a Senhora da
Peneda, pelo contrário, conserva como primitivas características aquelas
práticas constantes dum ascetismo grosseiro, sobejamente evidenciadas nas
exibições grotescas da crendice popular.
E é por isso que a
Peneda, não obliterando a linha tradicional das suas usanças religiosas, se nos
afigura mais interessante para quem quiser, em viagem de estudo e observação,
ajuizar das antigas costumeiras litúrgicas, fossilizadas nas populações ruraes
do Minho e da Galiza.
Quem decidiu o
autor destas linhas a afoutar-se às contingências duma caminhada morosa e
estopante para atingira a meta desejada - o santurio da Peneda - foi o
incansável engenheiro agrónomo deste distrito, Sr. Conde de Bobone, que anceia
conhecer “de visu” toda a área constitutiva da sua esfera de ação profissional
para depois falar, com os elementos fornecidos pela observação, dos serviços
agronómicos que mais convéem à região a seu cargo.
Ele, o seu amigo
António Pereira da Cunha, filho e neto de dois ilustres poetas do Minho, e eu
partimos desta vila dos Arcos de Valdevez, na tarde do dia 4 do mês corrente,
transpondo sucessivamente as freguesias de Giela, Azere, Grade e Cabana Maior, e,
depois de vaguearmos, incertos, no Alto do Mesio, já com os membros lassos e o
estômago a recordar a fábula de Menenu Agripa, fomos
saborear a conhecida hospitalidade do abade de Soajo, hospitalidade que previamente
haviarnos impetrado. Ao entrarmos no povoado principal da freguesia, vimos com
surpresa extinguirem-se as
luzernas que mais de longe se divisavam nos rústicos casebres. Com uma noite
caliginosa, a percorrer lobregos caminhos velhos, sem a cooperação de um guia
experimentado e sem uma frouxa lanterna que rasgasse uma linha de luz na
espessa escuridão noturna, talvez fosse impossível ultimar o itinerário até à residência
paroquial de Soajo se, depois de várias chamadas infrutíferas à porta duma
casa, não obtivéssemos a ansiada resposta.
- Ó mulherzinha,
venha cá ! Olhe que está aqui o administrador dos Arcos.
A portada duma janela abriu-se, enfim, e uma soajeira assomou então a
atender a interpelação dos viandantes.
- Então porque foi que vossemecês apagaram a luz quando nós nos
aproximávamos? - inquiriu curioso o sr. conde de Bobone.
- Nós -, tartamudeou indecisa a mulherzinha, - temos ouvido dizer que anda por aí tudo
revolvido...
Feita esta bronca alusão à conspirata fronteiriça e cedidas umas
lumieiras de colmaço - improvisadas fachos a produzirem mais incomodativo fumo
que benéfica luz - chegámos à residência.
Finem dedit Deus magnis
itineribus ab illo die! A afabilidade do polido pároco de Soajo e uma ceia reparadora,
naquelas alturas, indemnizaram os caminheiros dos dispêndios de energia que
uma viagem em estafados rocinantes implacavelmente exigia. Depois, custa a crer
que entre serras, onde a viação não faz progressos, os tenha feito entretanto a
culinária, proporcionando as delícias duma bem servida mesa a esfomeados
adventícios. Aquela residência foi também a nossa pousada noturna, onde o sono
reconfortante nos insuflou novos alentos para a caminhada do dia imediato. Com
efeito, na manhã seguinte, orientados por melhores guias, com o abade e regedor
de Soajo a desbravar caminhos, prosseguimos na continuação do nosso longo itinerário,
cujo percurso, sem espalhafatosas gloriolas, chega a ser um ato heróico de
resistência desportiva. Ao atravessarmos a serrania, o Sr. Conde
de Bobone preconizava a necessidade imediata de se submeterem ao regime florestal
os montes circunjacentes, arborizando-os para futura riqueza daquela região acidentada.
- Isso daria lugar
a um levantamento do povo, - atalhou o regedor do Soajo convicto.
- Onde é que nós haviamos
de ir buscar o pasto para o gado e o roço para o adubo das terras?
Então o Sr. Conde de
Bobone, mostrando mais uma vez ter sido na agronomia que a sua inteligência
especializou os seus conhecimentos científicos, começou a dizer-lhe que a arborização
se faria parcialmente, por lotes de terreno, a fim de que a freguesia se não
ressentisse da falta de montados, durante o período de proteção às plantas.
Passada a capela do
Senhora da paz e o lugar de Adrão, começamos a escalar o Alto do Miradouro.
Como eu recordei então a frase de Aníbal, quando ele exortava, ao atravessar os
Alpes, as tropas cartaginesas:
- Lembrai-vos,
soldados, que galgando estas cumeadas alpinas, vós escalais os muros da própria
Roma!
E nós também
prosseguimos, afoitos. Já da parte superior de uma encosta se defrontava,
perto, a povoação de Olelas, na Galiza, quando o abade nos referiu:
-Aqui, estiveram
descansando, extenuados pela fadiga, aqueles doze conspiradores que fugiram de Valença,
sob o comando do Marujinho... E acolá, junto daquela cruz, já se lobriga, no fundo,
o santuário da Peneda.
Com efeito, ao longe,
na garganta da serra, alvejava o anelado término da jornada.
Mas que interminável
peregrinação pelas montanhas. De Soajo ao Senhor da Paz, do Senhor da Paz a
Adrão, de Adrão a Tibo, de Tibo ao Baleiral...
sempre a nossa caravana a quilometrar distancias em alimarias de passo lento, o
único compatível com a escabrosidade daqueles caminhos, apenas trilhados nas
outras épocas do ano por bestas de carga e respetivos almocreves. Todavia,
recordando mais tarde estas dificuldades de trajeto por invias fragas, forsam
et hoec otim meminissa juvabil, como dizia Eneias, segundo a passagem de
Virgílio.
Depois do Baleiral, em três quartos de hora de caminho, atingimos a
meta desejada. Até que enfim! Entrámos ufanos num dos espaçosos largos da
Peneda. O edifício da filial do Grande Hotel dos Arcos, onde se está
confortavelmente, dá-nos a impressão de que o progresso para ali só poderia ser
remetido... em aeroplanos.
Entretanto, a multidão apinha-se, a música toca com retumbância, os
caixões de “pseudo defuntos” desfilam aos nossos olhos curiosos, outros
penitentes rastejam em ascéticas jenuflexões, e por fim a procissão do Terço,
levantando o estrondoso clamor dos fieis, evoca a Lourdes do cosmopolitismo católico.
Falta aqui um Lasserre para fazer a história da Senhora da Peneda e um Zola
para fazer a descrição da “gritaria” fervorosa dos peregrinos. Quando os
avanços da meteorologia permitirem o estudo completo das correntes atmosféricas
e quando os aeroplanos sulcarem com segurança o oceano aéreo, a Senhora da
Peneda será visitada pela gente de Lisboa e de Madrid.
Afora o templo, a Senhora possui uma loja comercial que está
aberta durante os dias festivos. Esse estabelecimento encontra-se bem provido de
caixões, mortalhas, rosários, estampas e medalhinhas. E para haver a
equiponderação dos tributos, lá está uma balança decimal onde os miraculados se
costumam ir pesar a cera e a cobre. Só falta à Senhora da Peneda um curral para
nele meter as vacas e as juntas de bois que o povo de Hespanha e de Portugal
lhe costuma levar de promessas. Estava eu a pensar nestas coisas, verificando
que cada um pagava o milagre na proporção do peso do seu corpo, quando
um padre coxo, português, se abeirou dum médico galego dirigindo-se-lhe em hespanhol.
O Hipocrates da Galiza olhou, sobranceiro, para o interlocutor e respondeu, empertigado:
- Hable usted en su lengua que ya no hace poco, pues mi idioma no es
para todos los hombres.
- Desculpe, - replicou o padre. Eu sou realmente um bruto por ter para
consigo a deferência de lhe falar na própria língua. Mas você é outro bruto por
corresponder a uma amabilidade minha com uma grosseria sua. Somos, portanto,
dois brutos.
- Bien contestado, conveio o médico de
Entrimo.
E a situação explicava-se explicava-se com bom senso e com bom humor, sem
que o génio hespanhol e português tivessem de derimir pleitos no campo da batalha.
Arcos de Val-de-Vez, Setembro de 1912."
Arcos de Val-de-Vez, Setembro de 1912."
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