sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Documentário "Trabalhadores do contrabando": ex-contrabandistas falam na 1ª pessoa


“Trabalhadores do contrabando” é o nome de um documentário produzido na Galiza que nos fala desta atividade tão antiga como a existência das fronteiras. Ouça ex-contrabandistas melgacenses e de Arbo a falar sobre esses tempos onde o contrabando era um verdadeiro “modo de vida”, essencial para a sobrevivência de muitas famílias em tempos difíceis..... Veja o vídeo completo!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1969 (Parte 1)

Concurso do Cão de Castro Laboreiro (1969)
A publicação "O Mundo Canino", numa edição de 1969, conta-nos numa reportagem, como foi o Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro desse ano, realizado nesta localidade. Na dita peça jornalística, podemos ler que "Aquele ia ser um dia diferente, mesmo dentro da concepção do que deve ser o quotidiano de um jornalista: observação, retenção, descrição - e, eventualmente, crítica - de acontecimentos vários, originais, inesperados. E ia ser diferente porque não é vulgar, no contexto multimodo da profissão, um jornalista ocupar toda a sua jornada de trabalho com uma reportagem em que o cão é o assunto. Mais do que o cão, um cão. E por causa de um cão específico me levantei mais cedo e jordaneei, pela fresca, Portugal acima, rolando com o mar à esquerda, até chegar ao ponto onde um rio é fronteira e, depois, acompanhando o rio no sentido leste, rumar à vila de Melgaço, onde começaria a trepar para a povoação de Castro Laboreiro. Era aí que me esperava o meu cão.
Concurso do Cão de Castro Laboreiro (1969)

A viagem, com muitos atractivos paisagísticos e a breve paragem para o almoço, num afamado restaurante de Monção, foram pormenores acessórios da empresa; o objectivo era Castro Laboreiro e a anunciada cerimónia em que os cães que da terra tiveram o nome iriam ser vedetas.
Por isso, e contra o que seria normal, não demos ouvidos à voz do mar, ignorámos as sugestões da folhagem cor-de-fogo e dos povos de casas baixas, antigas e sólidas, atentámos no nevoeiro apenas porque a sua presença em farrapos húmidos nos permitia, unicamente, visões parceladas do caminho e, quando o destino estava próximo, um contacto mais íntimo com as fugidias pessoas e coisas que já sabíamos fazerem parte do «habitat» do nosso «herói» da jornada, o Cão de Castro Laboreiro.
Mas que ia passar-se, afinal, em Castro Laboreiro? Para quê toda esta história de viagem com fim determinado, na senda de um cão?
Tudo principiara com uma conversa, uma alusão, um convite. Em Castro Laboreiro, lá para a serra, ia reallzar-se um concurso anual de cães. Não um desses certames muito reclamados e muito elegantes onde o desfile das damas e donzelas pretende rivalizar, em porte, elegância, distinção e raça, com o próprio desfile dos galgos, dos «caniches», dos «podengos», dos «danois» e dos «foxes». Este era um concurso especial, tão puro como a serra, tão inocente como as pessoas, que com os cães, iriam desfilar. Tal promessa me houvera sido feita, na véspera deste dia diferente em que subi aos píncaros de Castro Laboreiro, acima do nevoeiro e para lá - ou antes - da civilização e dos seus complicados rituais.
E pronto, eis-nos chegados ao fim da estrada, ao cume da terra, à povoação pendurada chamada Castro Laboreiro, que é onde um certo cão «tem o seu solar» e «donde tirou o nome».
O padre Aníbal, abrindo um sorriso com tantos dentes como há nos sorrisos de Fernandel, dirigia a festa.
 Após as apresentações, ficou-se a saber que o padre Aníbal era um apaixonado pela Natureza, um devoto de Santo Huberto («Dou os meus tirinhos, gosto de os dar - aos pássaros, não às pessoas, evidentemente!», dizia o padre, num grande sorriso) e um dos responsáveis pelo brilho já tradicional daquele concurso quase ignorado.
Quase ignorado, é verdade, mas sem que isso impeça que o Concurso de Cães de Castro Laboreiro se realize há dezasseis anos consecutivos, e com progressivo aumento de interesse e repercussão. Conforme se pode ler no Regulamento do Concurso, este é «organizado pela Intendência de Pecuária de Viana do Castelo, de acordo com o Regulamento Oficial de Exposições Caninas e com o patrocínio do Clube Português de Canicultura, na sede da freguesia de Castro Laboreiro, do concelho de Melgaço», admitindo a inscrição de cachorros (entre 6 e 12 meses de idade) e de todos os animais da raça «Castro Laboreiro» com idade superior a 12 meses, estes numa «classe aberta».
E ali estava eu, no meio duma praça de aldeia, debaixo dum céu de chumbo e rodeado de nevoeiro aos farrapos, a olhar o povo aglomerado, na expectativa da função. Os cães, esses entretinham o tempo com o que é próprio dos cães: davam ao rabo, esticavam as trelas e conversavam, ladrando.
Seriam vinte, talvez vinte e cinco. À primeira vista, um leigo diria serem todos iguais, ou quase todos, mas o mesmo sucede quando a gente vê desfilar, sem preocupação de pormenor, as «misses» de um qualquer Concurso de Belezocas: todas tão certinhas e tão «misses» como se da mesma forma houvessem saído, para venda nos bazares a um preço fixo.
O caso é que - manda a lógica pensá-Io - se concurso havia, existiriam diferenças. Como com as «misses». E já se veria.
Os juizes eram dois: o Dr. António Cabral, presidente do Clube Português de Canicultura, que tinha vindo expressamente de Lisboa para o efeito, e o Dr. Teodósio Antunes, veterinário em Viana do Castelo. Eles decidiriam quais os bichos que mereceriam distinção gradual e prémio consentâneo. Sim, porque ali havia taças, medalhas e dinheiro à vista em disputa.
Agora, os concorrentes. Vinte, disse? Vinte e cinco? Por aí. E todos rigorosamente «Castro Laboreiro», de pelo grosso, liso curto, na cor mais habitual e preferida...
Os cães estavam pela mão dos donos. Coisa curiosa: percentagem esmagadora de mulheres, dois homens, e um rapazinho. Os homens eram velhos, cansados, lentos. As mulheres estavam todas (bem, menos uma) vestidas de preto, saia e blusa, capa barrosã pelos ombros e meias pretas (em certos casos, protegidas com uma espécie de safões curtos); nos pés, umas botinas de couro, rijas e cardadas, com aspecto de intermináveis. Coisa para gastar os trilhos da serra.
E as caras dessas mulheres, dessas raparigas, dessas meninas sem idade! Todas com menos anos do que poderia supor-se pelas caras queimadas, marcadas, riscadas de rugas, modeladas pelo vento, pelo frio pelo nevoeiro, pela monotonia, pela espera...
Pela espera de quê? De quem?
Dos homens delas, dos pais delas, dos filhos delas. Em 1918, após a Primeira Guerra Mundial, os homens de Castro Laboreiro desceram a serra, encafuaram-se no comboio e foram para França. As primeiras centenas de escudos ganhos com o suor do emigrante vieram como compensação das ausências e como chamariz de mais homens. As mulheres foram ficando sozinhas. E começaram a vestir-se de preto.

A certa altura, os homens deixaram-se ficar descansados na serra. Depois, voltaram a partir. Hoje, quase todos os homens de Castro Laboreiro estão em França a fazer casas muito altas, a calcetar ruas, a sonhar e a ganhar fortunas. As mulheres deles, em Castro Laboreiro, são todas viúvas. Não só as mulheres-esposas: também as mulheres-filhas, as mulheres-mães. Viúvas, todas elas, viúvas de homens vivos..."    (CONTINUA)

Extraído de: O Mundo Canino (1969)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Memórias de um jornalista em Castro Laboreiro (1984)

Castro Laboreiro: a pegureira, o rebanho e o cão (Foto de Ramon Blanco)
Há mais de 30 anos um grupo de jornalistas veio a Castro Laboreiro fazer uma reportagem sobre a sua famosa raça de cães. Um deles, deixou-nos num texto as suas impressões sobre a terra e as suas gentes durante a sua estadia em terras castrejas. Foi em 1984 e o texto diz o seguinte:
Castro Laboreiro, 1984 - Oração aos cães
Cheguei a Castro Laboreiro morto de frio. E assim fiquei durante os 8 dias que durou aquele trabalho. O frio, de rachar, contrariou-se com aguardente de maçã. De hora a hora, lá ia um copinho… aquilo a que hoje chamaríamos “shot”. Bebi muitos, como é bom de ver. Em Dezembro, lá no alto da montanha, repito, o frio é de morrer…
A aldeia fascinou-me. Pedregosa, mergulhada em neve, gelo e nevoeiro. Era um ambiente em tons de cinzento. Só tinha mulheres, baixinhas, sempre vestidas de negro, saíam à rua com um manto que lhes envolvia a cabeça e protegia o corpo do frio. Não havia mulher que não trouxesse um cão à ilharga. O cão de Castro Laboreiro é um bicho grande, escuro, de olhos amarelos. Mete medo. Talvez por isso as mulheres não dispensavam a companhia do seu, naqueles dias em que a aldeia foi invadida por um grupo de estranhos, que filmavam e fotografavam sem sentido aparente.
Pois, o que me levou até lá foram, precisamente, aqueles cães. Fiz uma reportagem sobre cães de raça portuguesa e o cão de Castro Laboreiro é um dos mais emblemáticos. É uma raça muito antiga, morfologicamente próxima do lobo. Os olhos amarelos e os dedos das patas virados para a frente não enganam… contudo, revela-se um animal meigo, pelo menos para os donos. As gentes de Castro Laboreiro usam o cão para guardar o gado. No Inverno, o cão encarrega-se disso sem necessidade de companhia humana. O rebanho de cabras fica-lhe entregue. Penso que será o único cão de guarda que faz este trabalho assim, sem ajuda do homem.
Na aldeia, durante a semana, só havia mulheres. Os homens trabalhavam longe e, quanto muito, iam a casa ao fim-de-semana. Mas a maioria nem isso. Muitos andavam pela França. O único homem que ficava era o padre Aníbal. Este padre tinha um forte sentido de protecção em relação à sua aldeia e à paróquia. Era um amante da arqueologia local. Não se cansou de nos levar a ver as pontes romanas, o castelo do século XII, os dólmenes, as pinturas rupestres. De facto, Castro Laboreiro é um sítio fascinante. Mas defendia, acima de tudo, a arqueologia viva que é o cão de Castro Laboreiro. Cheguei a ver o padre a apedrejar cães vadios, abandonados pelos caçadores, que se refugiavam na aldeia durante o Inverno à procura de calor e comida. O problema desses cães é que montavam as cadelas de Castro Laboreiro e, assim, abastardavam a raça. Por esse pecado, eram apedrejados impiedosamente…”

Extraído de: http://blogda-se.blogspot.pt/2006/01/castro-laboreiro-1984-orao-aos-ces.html 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Os milagres da Senhora da Orada contados há 300 anos

Capela da Senhora da Orada
Um livro publicado há cerca de 300 anos fala-nos dos milagres da Senhora da Orada num tempo em que à sua capela em Melgaço acorriam muitos peregrinos para a sua romaria. Ora leia: “Um tiro de mosquete pouco mais ou menos de distância da Praça de Melgaço se vê situado o Santuário e Casa de Nossa Senhora da Orada. Foi edificada sobre o mais alto de um monte eminente ao rio Minho que lhe fica da parte do norte, em igual distância do arrabalde da dita praça e vila de Melgaço de onde vem uma estrada pública que vai para o Reino de Galiza e Castela que passa junto ao átrio da capela. E desta até à vila se vê a estrada povoada e pomares, que tudo suaviza e recreia muito a vista a todos os que passam e também aos devotos da Senhora da Orada quando a vão buscar e venerar, tudo isto é um passeio.
É este templo de excelente estrutura, porque é fabricado de boa cantaria e é da jurisdição e administração dos Monges de Santa Maria de Fiães. Porque dele lhe fez doação El-Rei D. Sancho I deste reino, como coisa sua, pelo ter herdado de seu pai, o rei D. Afonso Henriques, que foi o que o reedificou depois da restauração de Espanha. De onde se colhe, que houve um templo mais antigo do que este, pois este foi reedificado sem dúvida ou porque o primeiro ameaçava ruína, ou estava já arruinado. Tudo isto consta de uma escritura de doação feita pelo referido rei D. Sancho em Santarém aos 3 dos idos de Setembro do anos de 1207 que assinou o mesmo rei com todos os seus filhos e prelados do reino que ali se achavam como era costume naqueles tempos. Esta escritura está no Livro das Datas do mesmo Mosteiro de Fiães o qual se conserva no cartório do referido mosteiro e assim se verifica ser este templo da Senhora da Orada antiquíssimo, como também o título da Senhora. Também daqui se colhe a particular devoção dos reis, fundadores deste reino. Como foi informado o padre António Carvalho da Costa, em dizer que este templo da Senhora da Orada era da Condessa Fronilla. A Quinta de Cavaleiros podia ser sua e fazer dela doação ao Convento de Fiães no ano de 1166 mas a Casa da Senhora da Orada não. !
A imagem da Senhora antiga com o decurso dos anos se desfez e a que existe é muito devota. É de perfeitíssima escultura, tem ao Menino Deus sobre o braço esquerdo e tem cinco palmos de estatura. É de madeira com as roupas estofadas de ouro. É muito milagrosa e como tal é buscada e invocada da devoção dos fiéis, os quais por sua intercessão, alcançam de seu Santíssimo Filho, o que justamente pretendem. A este santuário, desde o dia da ascensão do Senhor até à festa do Espírito Santo, vão em romaria as mães das freguesias da vila de Monção e do seu termo, a oferecer o resíduo do Círio Pascal e vai acompanhar a procissão ao menos uma pessoa de cada paróquia, com os seus párocos e isto por voto que antigamente fizeram em tempo de uma grande peste, de que ficou preservada a mesma vila e as freguesias do seu termo, as quais fizeram o referido voto e também muitas freguesias do termo de Valadares e todas as do termo de Melgaço. As gentes vão em procissão à Senhora da Orada e no mesmo tempo, umas por devoção e muitas por voto, com clamores e procissão no mesmo santuário, para implorar da Senhora os favores do Céu. E também em tempo que se necessita de sol, ou de chuva, vão muitas freguesias em procissão com ladainhas a pedir à Senhora os seus favores. O que com evidência experimentam, porque esta misericordiosa Senhora lhes alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem.
É tradição antiga, que por favor e intercessão desta milagrosa Senhora se livraram muitos cativos, que estavam em prisões em terras de Mouros e que milagrosamente ou por ministério dos Anjos, apareceram às portas do templo da Senhora da Orada com os grilhões e correntes com que estavam presos. Os quais invocando o favor da Senhora da Orada, ela compadecida do seu trabalho e os aliviava e trazia à sua Casa. Infinitos são os milagres que obra e tem obrado a Senhora, e o querer fazer deles relação, não haveria papel que os comprendesse.
O autor da Corografia, o Padre Carvalho, também confirma a grande devoção de todos aqueles povos para com esta Senhora mas queixa-se de que a devoção daqueles Monges de Fiães já hoje estava muito tíbia, tendo antigamente muito fervorosa e que esta indevoção se ia já pegando muito. Porque não só já hoje a gente é menos, mas a Casa da Senhora se via menos asseada e que temia que viesse a padecer ruína. Porque como os arcebispos primazes não se podem ali intrometer, também os não podem obrigar a que reparem a Casa da Senhora da Orada para que se não arruine de todo e extinga totalmente aquela grande e antiga devoção que todos aqueles povos tinham com aquela milagrosa e prodigiosa imagem da Senhora da Orada. Nem eu posso crer de religiosos tão solícitos da sua religião tenham tão grande descuido em uma matéria que merece tanto cuidado e atenção."


Extraído de: SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Uma visita à romaria da Nossa Senhora da Peneda de 1912


Vista para o Santuário da Senhora da Peneda
Na revista "Ilustração Portugueza", na sua edição de 12 de Outubro de 1912, encontramos uma reportagem intitulada "No Minho Pitoresco - A célebre romaria da Peneda". Na mesma, os autores contam-nos uma viagem que eles fizeram àquela que ainda hoje é uma das maiores romarias do Minho. Partilho aqui o conteúdo da dita reportagem:


"NO MINHO PITORESCO - A CÉLEBRE ROMARIA DA PENEDA
Depois de visitar os principais centros do país, o sociólogo francês Poinsard escreveu um livro intitulado “Le Portugal Inconnu” que desvenda à Europa culta aquilo que nos poucos dias da sua permanência entre nós poderia observar o espírito penetrante dum estrangeiro. Poinsard ficou conhecendo alguma coisa do Portugal urbano ou citadino, mas que diria ele se jornadeasse pelas serranias de Soajo, em longas caminhadas, e, ávido de sensações novas, fosse presenciar no Santuário da Peneda do Minho!
Nos subúrbios de Guimarães, S. Torcato, um dos celestes ímans milagreiros com mais créditos granjeados no espírito do povo minhoto, pela tradição de bastantes séculos, atrai anualmente ao seu templo milhares e milhares de visitantes.
E é por isso que nos dias de festa lá afluem aos terraços e espaçosas alamedas inúmeras peregrinações de devotos, na ânsia de se abeirarem daquele santo, para assim cumprirem as promessas solenemente feitas em horas de indizíveis atribulações ou nos transes dolorosos duma doença grave. Entretanto, a romaria de S. Torcato, apesar da concorrência assombrosa dos forasteiros, nada tem de característico ou peculiar, destacando-se apenas pelo grande formigueiro humano que vai procurar ali o folguedo compensador das habituais canseiras da lavoura, depois de contemplar com acafamento próprio de uma crença inveterada os restos mumificados do santo vimaranense. A Senhora da Peneda, porém, alapardada entre distanciadas montanhas, cujas cristas parecem topetar nos astros, sem proporcionar aos crentes ou aos turistas meios razoáveis de comunicação ou facilidade de transporte, indubitavelmente exerce na religiosidade do povo uma ação magnética superior à do consócio S. Torcato, arrastando por serranias inóspitas, por barrancos e despenhadeiros escabrosos, e por fraguedos de perigoso acesso, a massa anónima das aldeias galegas e minhotas. O aprazível local da romaria é defendido por um castelo natural em que as serras parecem fazer o papel de muralhas impermeáveis ao influxo osmótico da modernidade e civilizadora. É por isso que, enquanto S. Torcato, nos arredores  Guimarães, nos dá a impressão duma romaria atualizada, a Senhora da Peneda, pelo contrário, conserva como primitivas características aquelas práticas constantes dum ascetismo grosseiro, sobejamente evidenciadas nas exibições grotescas da crendice popular.
E é por isso que a Peneda, não obliterando a linha tradicional das suas usanças religiosas, se nos afigura mais interessante para quem quiser, em viagem de estudo e observação, ajuizar das antigas costumeiras litúrgicas, fossilizadas nas populações ruraes do Minho e da Galiza.
Quem decidiu o autor destas linhas a afoutar-se às contingências duma caminhada morosa e estopante para atingira a meta desejada - o santurio da Peneda - foi o incansável engenheiro agrónomo deste distrito, Sr. Conde de Bobone, que anceia conhecer “de visu” toda a área constitutiva da sua esfera de ação profissional para depois falar, com os elementos fornecidos pela observação, dos serviços agronómicos que mais convéem à região a seu cargo.
Ele, o seu amigo António Pereira da Cunha, filho e neto de dois ilustres poetas do Minho, e eu partimos desta vila dos Arcos de Valdevez, na tarde do dia 4 do mês corrente, transpondo sucessivamente as freguesias de Giela, Azere, Grade e Cabana Maior, e, depois de vaguearmos, incertos, no Alto do Mesio, já com os membros lassos e o estômago a recordar a fábula de Menenu Agripa, fomos saborear a conhecida hospitalidade do abade de Soajo, hospitalidade que previamente haviarnos impetrado. Ao entrarmos no povoado principal da freguesia, vimos com surpresa extinguirem-se as luzernas que mais de longe se divisavam nos rústicos casebres. Com uma noite caliginosa, a percorrer lobregos caminhos velhos, sem a cooperação de um guia experimentado e sem uma frouxa lanterna que rasgasse uma linha de luz na espessa escuridão noturna, talvez fosse impossível ultimar o itinerário até à residência paroquial de Soajo se, depois de várias chamadas infrutíferas à porta duma casa, não obtivéssemos a ansiada resposta.
- Ó mulherzinha, venha cá ! Olhe que está aqui o administrador dos Arcos.
A portada duma janela abriu-se, enfim, e uma soajeira assomou então a atender a interpelação dos viandantes.
- Então porque foi que vossemecês apagaram a luz quando nós nos aproximávamos? - inquiriu curioso o sr. conde de Bobone.
- Nós -, tartamudeou indecisa a mulherzinha,  - temos ouvido dizer que anda por aí tudo revolvido...
Feita esta bronca alusão à conspirata fronteiriça e cedidas umas lumieiras de colmaço - improvisadas fachos a produzirem mais incomodativo fumo que benéfica luz - chegámos à residência.
Finem dedit Deus magnis itineribus ab illo die! A afabilidade do polido pároco de Soajo e uma ceia reparadora, naquelas alturas, indemnizaram os caminheiros dos dispêndios de energia que uma viagem em estafados rocinantes implacavelmente exigia. Depois, custa a crer que entre serras, onde a viação não faz progressos, os tenha feito entretanto a culinária, proporcionando as delícias duma bem servida mesa a esfomeados adventícios. Aquela residência foi também a nossa pousada noturna, onde o sono reconfortante nos insuflou novos alentos para a caminhada do dia imediato. Com efeito, na manhã seguinte, orientados por melhores guias, com o abade e regedor de Soajo a desbravar caminhos, prosseguimos na continuação do nosso longo itinerário, cujo percurso, sem espalhafatosas gloriolas, chega a ser um ato heróico de resistência desportiva. Ao atravessarmos a serrania, o Sr. Conde de Bobone preconizava a necessidade imediata de se submeterem ao regime florestal os montes circunjacentes, arborizando-os para futura riqueza daquela região acidentada.
- Isso daria lugar a um levantamento do povo, - atalhou o regedor do Soajo convicto.
- Onde é que nós haviamos de ir buscar o pasto para o gado e o roço para o adubo das terras?
Então o Sr. Conde de Bobone, mostrando mais uma vez ter sido na agronomia que a sua inteligência especializou os seus conhecimentos científicos, começou a dizer-lhe que a arborização se faria parcialmente, por lotes de terreno, a fim de que a freguesia se não ressentisse da falta de montados, durante o período de proteção às plantas.
Passada a capela do Senhora da paz e o lugar de Adrão, começamos a escalar o Alto do Miradouro. Como eu recordei então a frase de Aníbal, quando ele exortava, ao atravessar os Alpes, as tropas cartaginesas:
- Lembrai-vos, soldados, que galgando estas cumeadas alpinas, vós escalais os muros da própria Roma!
E nós também prosseguimos, afoitos. Já da parte superior de uma encosta se defrontava, perto, a povoação de Olelas, na Galiza, quando o abade nos referiu:
-Aqui, estiveram descansando, extenuados pela fadiga, aqueles doze conspiradores que fugiram de Valença, sob o comando do Marujinho... E acolá, junto daquela cruz, já se lobriga, no fundo, o santuário da Peneda.
Com efeito, ao longe, na garganta da serra, alvejava o anelado término da jornada.
Mas que interminável peregrinação pelas montanhas. De Soajo ao Senhor da Paz, do Senhor da Paz a Adrão, de Adrão a Tibo, de Tibo ao Baleiral... sempre a nossa caravana a quilometrar distancias em alimarias de passo lento, o único compatível com a escabrosidade daqueles caminhos, apenas trilhados nas outras épocas do ano por bestas de carga e respetivos almocreves. Todavia, recordando mais tarde estas dificuldades de trajeto por invias fragas, forsam et hoec otim meminissa juvabil, como dizia Eneias, segundo a passagem de Virgílio.
Depois do Baleiral, em três quartos de hora de caminho, atingimos a meta desejada. Até que enfim! Entrámos ufanos num dos espaçosos largos da Peneda. O edifício da filial do Grande Hotel dos Arcos, onde se está confortavelmente, dá-nos a impressão de que o progresso para ali só poderia ser remetido... em aeroplanos.
Entretanto, a multidão apinha-se, a música toca com retumbância, os caixões de “pseudo defuntos” desfilam aos nossos olhos curiosos, outros penitentes rastejam em ascéticas jenuflexões, e por fim a procissão do Terço, levantando o estrondoso clamor dos fieis, evoca a Lourdes do cosmopolitismo católico. Falta aqui um Lasserre para fazer a história da Senhora da Peneda e um Zola para fazer a descrição da “gritaria” fervorosa dos peregrinos. Quando os avanços da meteorologia permitirem o estudo completo das correntes atmosféricas e quando os aeroplanos sulcarem com segurança o oceano aéreo, a Senhora da Peneda será visitada pela gente de Lisboa e de Madrid.
Afora o templo, a Senhora possui uma loja comercial que está aberta durante os dias festivos. Esse estabelecimento encontra-se bem provido de caixões, mortalhas, rosários, estampas e medalhinhas. E para haver a equiponderação dos tributos, lá está uma balança decimal onde os miraculados se costumam ir pesar a cera e a cobre. Só falta à Senhora da Peneda um curral para nele meter as vacas e as juntas de bois que o povo de Hespanha e de Portugal lhe costuma levar de promessas. Estava eu a pensar nestas coisas, verificando que cada um pagava o milagre na proporção do peso do seu corpo, quando um padre coxo, português, se abeirou dum médico galego dirigindo-se-lhe em hespanhol. O Hipocrates da Galiza olhou, sobranceiro, para o interlocutor e respondeu, empertigado:
- Hable usted en su lengua que ya no hace poco, pues mi idioma no es para todos los hombres.
- Desculpe, - replicou o padre. Eu sou realmente um bruto por ter para consigo a deferência de lhe falar na própria língua. Mas você é outro bruto por corresponder a uma amabilidade minha com uma grosseria sua. Somos, portanto, dois brutos.
- Bien contestado,  conveio o médico de Entrimo.
E a situação explicava-se explicava-se com bom senso e com bom humor, sem que o génio hespanhol e português tivessem de derimir pleitos no campo da batalha.

Arcos de Val-de-Vez, Setembro de 1912."


Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912
Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912


Extraído de: Reportagem "No Minho Pitoresco - A Célebre romaria da Peneda". In: Ilustração Portugueza", Edição de 14 de Outubro de 1912, Nº 347.