sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Castro Laboreiro e a exploração do volfrâmio em tempo de guerra

Na vila de Castro Laboreiro, década de 40.

Em 1942, estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. Por essa altura, chegam ao conhecimento da diretoria da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, acontecimentos ocorridos em Castro Laboreiro (Melgaço), a propósito da exploração de volfrâmio  nas proximidades do lugar da Seara desta freguesia.
Em resposta, a diretoria da polícia política solicita ao Posto do Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) um relatório acerca de tais factos. No mesmo relatório, a Guarda Fiscal comunica que “…passo a informar Vossa Excelência de tudo  o que foi possível averiguar acerca dos incidentes ocorridos na concessão de volfrâmio a que alude o citado ofício. As explorações de minério estão a fazer-se nuns terrenos baldios da freguesia de Castro Laboreiro e, ao que consta, foram uns garotos que descobriram a existência de volfrâmio mas o “castrejo” José Esteves, do lugar das Cainheiras, foi propositadamente à Câmara Municipal de Melgaço para registar como propriedade sua, o terreno aonde apareceu o minério. Uma vez na Câmara, ao expor o assunto que ali o leveva, certos funcionários da Câmara, ou quase todos, ao que se diz, tentaram dissuadir o “Castrejo” do seu intento, alegando que esse registo não se podia fazer. O castrejo José Esteves, aborrecido com a atitude dos funcionários da Câmara, vai para a sua terra seriamente indignado e fazendo constar aos seus vizinhos o que se tinha passado, também dizia que o queriam vigarizar. Dias depois, constata-se que os funcionários da Câmara tratavam, a toda a pressa, desse registo e da compra do terreno e pedido de concessão de exploração de minas.
O castrejo continua a manifestar publicamente a sua indignação contra os funcionários da Câmara e o resultado é ir parar à cadeia por ordem, ao que se diz do fotógrafo Manuel Alves de San Payo a quem o baldio foi vendido por quinhentos escudos. Posto em liberdade, o castrejo vai para Castro Laboreiro e pede proteção do padre Manuel Domingues que imediatamente toma a defesa deste seu paroquiano e é de opinião que a exploração mineira dos referidos baldios deve ser feita pelos habitantes da freguesia, em proveito deles e para melhoramentos locais que são urgentes.
Constam então, publicamente os seguintes factos: o tal terreno que é baldio e pertence portanto ao estado, dependia da Junta de Freguesia mas foi vendido ao fotógrafo San Payo por indicação do seu muito amigo Secretário da Câmara Municipal de Melgaço que vê nele o sócio ideal dadas as boas relações que o San Payo diz ter em Lisboa, aonde tudo resolve. Vão ambos a Castro Laboreiro e o certo é que os da Junta vem a Melgaço e de comum acordo fazem a escritura da venda do terreno, por quinhentos escudos, e outra escritura de sociedade na qual entram os da Câmara, os da Junta e o regedor de Castro Laboreiro. Não foram afixados editais da venda do terreno como determina a Lei mas para se furtarem a qualquer contratempo, o San Payo fotografou um edital que esteve exposto apenas o tempo suficiente para ser fotografado. Também se diz que na Junta de Castro Laboreiro foram lavradas atas com datas que não correspondem à verdade, isto a conselho do Secretário da Câmara que já fazia o que queria dos membros da Junta. E enquanto se realizavam todas estas tarefas, a Guarda Fiscal policiou o terreno para evitar a exploração. Concedida a autorização para a exploração, a Guarda Fiscal abandona o local mas a Sociedade vendo que a maior parte do povo de Castro Laboreiro se encontrava revoltado contra ela, requisita praças da Marinha para manter a ordem e poder arrancar o volfrâmio. Mas a força pouco tempo ali estaciona por saber que o padre Manuel Domingues ia participar que ela estava ali sem ordem superior e a prestar um serviço que não se coaduna com a missão da Marinha de Guerra. A sociedade requisita a seguir a G. N. R. de melgaço mas o comandante se secção vendo agitado o estado de coisas, ordena às praças que se retirem por não ter recebido ordens do Comando do Batalhão para que elas lá permanecessem. De novo, a Sociedade se vê seriamente embaraçada com a atitude dos castrejos que se dizm roubados por ela, e não podendo contar com a colaboração das autoridades, nomeia cabos de ordens, arma-os e estes vão para as minas onde disparam tiros para o ar afim de amedrontar os mais exaltados.
Como esta espécie de mantedores da ordem não desse resultado, a sociedade pôs-se em contacto com o fotógrafo San Payo a  pedir providências e o certo é que no passado dia 12, parece, chegou um cabo e três praças da G. N. R. com destino às minas. Entretanto, a sociedade alarmada com a atividades do castrejo José Esteves, arranja uma nova sociedade, ou melhor, uma outra sociedade da qual este passou a fazer parte com os senhores: Dr. Cândido de Sá, antigo presidente da União Nacional e atual sub-delegado de saúde em Melgaço, Manuel José Domingues, o “Mareco” e Domingos António Domingues.
Mas o padre Manuel Domingues é que não está pelos ajustes e não se cansa de proclamar ofendidos os direitos e interesses dos seus paroquianos. Já quizeram suborna-lo com elevada quantia e já instaram para que entrasse numa das sociedades mas ele tem repudiado todas as ofertas e foi para Lisboa queixar-se. A população de Castro Laboreiro aguarda com ansiedade o regresso do padre que lhe prometeu defende-los mas por outro lado as tais sociedades também aguardam os bons ofícios do fotógrafo San Payo que diz que tem o quer com os Senhores Ministros a, b, c, etc.
Já consta aqui que o fotógrafo San Payo foi recebido pelos Exmos. Diretores da P. V. D. E.  e que as coisas se encaminham bem para as sociedades mas a verdade é que são de esperar graves acontecimentos que ainda não se deram graças aos conselhos do padre Manuel mas que virão a dar-se se o assunto não for resolvido com justiça. E pelo que consta, afigura-se que está do lado que o padre defende.
E para findar, junto envio a V. Exa. uma folha do jornal “Notícias de Melgaço” de 20 de Setembro, onde vem anunciada a escritura da primeira sociedade que é constituída pelos Srs. Manuel Alves San Payo, fotógrafo; Abílio Domingues, Vice- presidente da Câmara de Melgaço em exercício; Doutor João de Barros Durães, Presidente da União Nacional e Presidente da Câmara Municipal de Melgaço; Herculano Arsénio Gomes Pinheiro, secretário da Câmara; Henrique Cordeiro Lucena, Fical da Câmara; Armando da Mota Solheiro, Amanuense da Câmara; José Agusto Esteves, Amanuense da Câmara; Domingos Alves, Presidente da Junta de Castro Laboreiro; António Bento Esteves, vogal da mesma Junta; José António Gonçalves, vogal da Junta e Abílio Alves Carabel, regedor da freguesia de Castro Laboreiro.
Também consta que esta sociedade compra o volfrâmio, a quem o explora, a menos de 30 escudos o quilo para ir vender – quase todo – a Espanha, de contrabando.
A bem da Nação.
Peso, 17 de Outubro de 1942”

Capa do processo relativo às irregularidades na exploração de volfrâmio em Castro Laboreiro

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 1)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 2)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 3)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 4)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 5)

Escritura da constituição da Sociedade de exploração mineira publicada no jornal "Notícias de Melgaço"

Adicionar legenda


É muito provável que pelo menos parte deste volfrâmio extraído em Castro Laboreiro tivesse como destino a Alemanha nazi. Num relatório dos Serviços Secretos americanos é citado o castrejo Manuel José Domingues, mais conhecido como o Mareco, um dos maiores contrabandistas da região e membro que integrava a Sociedade Mineira Castro Laboreiro, Limitada. No dito relatório refere-se claramente que o citado Mareco negociava ilegalmente o volfrâmio com os alemães juntamente com outros contrabandistas, entre os quais Artur Rodrigues. 
No referido relatório podemos ler:
Manuel José Domingues
Manuel José Domingues de Castro Laboreiro enviou anteriormente volfrâmio, ouro e moeda ilegalmente através de Espanha para os alemães, e, segundo as notícias, ainda está negociando barras de ouro. Os seus associados eram Barros da Costa, o tenente Walter Thoebe, Artur Teixeira, Manuel Lourenço de Melgaço, António Esteves, Francisco Esteves, Manuel Pereira de Lima e Adolfo Vieira de Monção. Antes da guerra, as suas propriedades imobiliárias em Castro Laboreiro valiam cerca de 200 000 escudos. Actualmente, possui um património imobiliário avaliado em cerca de 4 000 000 escudos no concelho de Melgaço e Valença. No início deste ano, Domingues foi preso com dezessete barras de ouro no valor de 660 000 escudos na sua posse. Nada resultou dessa prisão…”


Extrato do relatório dos Serviços Secretos Americanos, acerca de Manuel José Domingues, o Mareco

E a posição do Padre de Castro Laboreiro acerca deste assunto? Na próxima publicação…



Informações extraídas de:
-   "IRREGULARIDADES PRATICADAS COM A EXPLORAÇÃO E COMÉRCIO DE VOLFRÂMIO EM CASTRO LABOREIRO, CONCELHO DE MELGAÇO", Código de Referência "PT/TT/MI-DGAPC/E/3/244/10", Torre do Tombo.
- OSS Washington Secret Intelligence/Special Funds Records, 1942-1946 , Washington Office, Special Funds Division Finance, Intelligence (WASH-SPDF-INT)WASH-SPDF-INT-1: Documents 2301-2350, Page 171.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte III)

A vila de Castro Laboreiro, ao longe

Em terras de Castro Laboreiro, o autor da mítica obra “O Minho Pittoresco”, conta-nos como percorreu aqueles caminhos naquela época: “O professor Pinho Leal descreve, no livro “Portugal Antigo e Moderno” publicado uns anos antes (1874), refere-se aos costumes castrejos nos funerais. Fala no uso das comesainas mortuárias em casa dos doridos, e fala dos enterros, nos quais diz ser o féretro conduzido por mulheres, por não haver muitas vezes homens na freguesia, e ser seguido por uma comitiva delas, umas com broas, outras com açafates de bacalhau e diversos alimentos, que na igreja entregam ao pároco.
Perguntámos por esse uso, mas disseram-nos que não existia, pelo menos tal como o descreve o autor mencionado.
É certo que à falta de homens, o féretro é conduzido muitas vezes por mulheres, e que uma vai na frente do préstito levando um cesto com uma broa. Mas não existem depois os banquetes, como ainda são de uso em outras partes da província, e que teremos ocasião de ver.
Avizinhava-se a noite a largos passos e afiançavam-nos os guardas e os do povoado, que era temeridade a horas tais empreender a marcha através da serra, pois nada mais fácil que o encontro pouco amigo de qualquer alcateia de lobos.
O nosso guia, porém, que detestava Castro Laboreiro, falava-nos como um poeta lírico das blandícias do luar, e informava desfavoravelmente sobre a vila, onde não havia pouso para os animais, nem alojamento para nós.
— E que hão de os senhores comer? — perguntava solicitamente, como — se a pergunta não devera ser antes formulada: Que havemos nós de comer?
O pobre homem tinha apenas almoçado algumas cerejas com pão de milho e, ás 7 horas e 30 minutos da tarde, é crivel que o seu estômago tivesse exigências fortes, visto que o nosso se revoltava intransigente contra a perspectiva dumas novas cinco léguas a cavalo, sem ter conhecido o menu de Castro Laboreiro.
Apesar da minha boa vontade de ficar, para passar uma noite conversando à lareira com as castrejas, cujos usos se me oferecia ocasião asada para conhecer, não houve remédio senão ceder às instâncias da caravana e dizer por aquela vez adeus às cantigas que esperava recolher, às lendas, aos contos de carochinha da tradição local, a todos os apontamentos enfim que poderiam alçar a minha individualidade obscura aos olhos ávidos do folclorismo nacional.
Percorremos rapidamente as ruelas estreitas da vila e parámos para ver a igreja, cujo pórtico se achava de luto por ter pouco antes morrido o velho pároco da freguesia. O templo nada oferece de notável. Quando estávamos nesse ponto, um adventício, que não era evidentemente um castrejo, se acercou de nós pedindo esmola. Cumpre dizer que ninguém de Castro, mulher, homem ou criança, nos incomodou nesse sentido.
Quando mesmo Almeida tirava o croquis do rapazito trabalhador, que encontrámos no regresso do castelo e que figura no primeiro cromo, só depois de instado este aceitou de nós algum dinheiro, não obstante ser pouco remuneradora a sua profissão de carvoeiro, xisto que o pobre rapaz ia com uma irmãzita e com o seu jumento para a serra num dia, colhia a urze e fazia o carvão no outro, e no imediato ia vende-lo a Melgaço, onde lhe pagavam 400 réis pela carga! Durante esses três dias, o seu alimento era broa e agua pura do monte.
Educadas no trabalho tão de novo, as crianças tinham o orgulho de não mendigar. Quem era então esse estranho, que apelava para a nossa caridade? Imagina tu, se podes, meu leitor benévolo, que não te dá por certo a imaginação a chave do segredo.
Era um degredado!... Um degredado autêntico, que as justiças de Chaves haviam condenado a desterro dum ano, ali cumprido em Castro Laboreiro, pelo roubo de 2000 réis, de que o individuo se dizia inocente e depois de ter estado dois anos na cadeia daquela vila à espera de julgamento!
Ó inimitável justiça da nossa terra! Era um rapaz de 18 anos, não mais, mal vestido e mal alimentado, e com as mãos ainda sangrentas do trabalho de rachar lenha. Vivia livremente na povoação, tendo apenas de oito em oito dias de apresentar-se ao regedor. Como a justiça o condenara somente, sem se lembrar de que teria necessidade de pão para comer, ou da tábua dum leito para dormir, o rapaz vivia da caridade hospitaleira daquela pobre gente, à qual retribuía com o seu trabalho.
Deu-se finalmente a ordem para a partida e enquanto o guia nos preparava os animais e o tamanqueiro da terra construía essa pesada machina de madeira e sola, que o castrejo calça com o nome de chanca ou alabardeiro, pensámos nós em satisfazer o estômago. Era tempo já.
Sentámo-nos extenuados na soleira duma porta e arranjou-nos um dos guardas vinho e boroa, o único alimento que se podia conseguir em tais alturas. O vinho era detestável e escandalosamente aguado, a boroa grosseira e áspera, como toda aquela natureza selvática. Foi assim mesmo saboreada, que não admitia a fome escrúpulos de epicurismo. E se o meu estômago resistia, como o de bom Minhoto, o de Almeida, que tinha a dyspepsia dos Lisboetas, custava-lhe a resignar-se com o menu.
Só o outro companheiro se conservou sem entusiasmo perante aquela broa, que eu principiava já a achar deliciosa!
Era caso para cismar, quando era ele o que possuí ao mais valente estômago da caravana! Mas nem o nosso egoísmo pensou em resolver o problema. Só à ceia, em frente já do apetitoso presunto de Melgaço, é que ele nos desvendou aquele seu misterioso recolhimento de Castro!
Tinha visto comprar a broa na única tenda da terra, e a imundice, se era um privilégio de todos os outros interiores, chegava a ser um cúmulo no único estabelecimento comercial da vila! Nada víramos, porém, e melhor nos fora assim!"


Extraído de: 
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A história de um soldado de Chaviães nas trincheiras de França (1ª Grande Guerra)

Soldados portugueses nas trincheiras de França

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi provavelmente o mais duro conflito militar da História da humanidade, no que toca às condições de combate para os soldados. Em Agosto de 1914, começou o conflito que mudaria o mundo para sempre.
Em pouco tempo, Portugal prepara uma expedição para enviar para Angola e Moçambique com vista a defender estes territórios dos ataques frequentes dos alemães. Contudo, apenas a partir de Janeiro de 1917 é que o nosso país enviaria tropas para França na sequência da declaração de guerra da Alemanha a Portugal, em resposta ao confisco de navios alemães por parte de Portugal. Em poucos meses, foi organizado o designado Corpo Expedicionário Português (CEP), tarefa coordenada pelo general Norton de Matos.
No contingente português que combateu em França, ficou célebre a chamada “Brigada do Minho”, 4ª Brigada de Infantaria do CEP. Esta brigada conquistou uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na batalha de La Lys.
Algumas dezenas de soldados que compunham esta Brigada do Minho eram melgacenses e que merecem a nossa mais sentida homenagem. Um deles era o soldado José Maria da Cunha, de Chaviães.
O José Maria nasceu no lugar da Portela, na dita freguesia de Chaviães em 11 de Março de 1893, pela quatro da manhã, conforme se pode ler no assento de batismo. Era filho de Aníbal dos Anjos da Cunha, lavrador, natural das Carvalhiças, e de Felizbella Cândida Alves, natural de Chaviães. Foi batizado em 19 de Março do mesmo ano na igreja paroquial da sua freguesia (figuras 1 e 2).
O José Maria casou com Zalminda Rosa Rodrigues, natural da freguesia da Vila de Melgaço, filha de pai incógnito e de Silvana Rodrigues, em 24 de Agosto de 1912.

                                                   (clique nas imagens para ampliar)
Fig.1 - Assento de batismo de José Maria da Cunha (pág. 1)

Fig. 2 - Assento de batismo de José Maria da Cunha (pág. 2)

Entretanto, no Verão de 1914, eclode a guerra. Inicialmente, pensou-se que seria um conflito breve que se resolveria antes da chegada do Inverno. Em vez disso, o conflito foi-se tornando cada vez mais global e sem fim à vista.  
Com as declarações de guerra  mútuas entre Alemanha e Portugal, em Março de 1916, a neutralidade portuguesa chega ao fim. É preparado o Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) e os primeiros soldados portugueses partem para o norte de França em Janeiro de 1917. O soldado José Maria da Cunha é alistado no C.E.P. e integrado na 1.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3. Embarca em Lisboa e parte para a guerra em França a 15 de Abril de 1917, conforme se pode ler na sua Ficha Individual (Figuras 3 a 6), onde era portador da placa de identificação número 49 027.
Chegado ao teatro de guerra, sabemos que esteve hospitalizado desde o dia 21 de Abril e só receberia alta em 31 de Maio segundo informações que constam na sua Ficha Individual do soldado. Não se sabe se este período de internamento se deveu ao facto de ter ficado ferido ou então ter contraído alguma doença durante a viagem de barco onde as condições eram bastante precárias.
Sabe-se também que o José Maria foi ferido em combate no dia 23 de Setembro desse ano de 1917. Na sequência deste mesmo episódio, foi-lhe atribuído um louvor “pela coragem que mostrou na defesa do flanco direito do seu posto, não o abandonando, embora já ferido, senão por ordem do respetivo comandante depois do mesmo terminado”, tal como consta na Ficha Individual do soldado. Posteriormente, foi condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª classe, atribuição publicada em Decreto de 5 de Novembro de 1917, premiando a sua bravura.

(clique nas imagens para ampliar)
Fig. 3 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 1)

Fig. 4 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 2)

Fig. 5 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 3)

Fig. 6 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 4)
Em 22 de Novembro do mesmo ano, o soldado José Maria da Cunha de Chaviães encontrava-se na primeira linha de combate, onde viria a morrer. Na Ficha Individual do soldado, pode ler-se que “faleceu na 1ª linha, por ter sido ferido em combate, em 22 do mesmo mês (Novembro de 1917), sendo sepultado no cemitério de Le Touret, coval nº 100”.
Este cemitério militar, localizado em Pas de Calais, no norte de França, foi criado no final de 1914 para o exército Inglês. Seria utilizado pelos portugueses, reunindo aí cerca de 264 soldados portugueses sepultados. Contudo, posteriormente os restos mortais do soldado José Maria e dos outros combatentes portugueses aí enterrados foram  transladados para o Cemitério Militar Português de Richebourg (França) a cerca de 75 quilómetros a sudeste de Calais, perto da fronteira com a Bélgica.

Os restos  mortais do soldado José Maria repousam no dito cemitério militar, no Talhão A, Fila 13, Coval 3. (Foto 3)

Foto 2 - Entrada do Cemitério Militar Português de Richebourg l'Avoué


Foto 3 - Sepultura do soldado José Maria da Cunha, com o seu nome gravado na pedra
(Cemitério Militar Português de Richebourg l'Avoué, França)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte II)

Ruínas do Castelo de Castro Laboreiro

Na viagem a terras de Castro Laboreiro contada por José Augusto Vieira no livro “O Minho Pitoresco”, há 130 anos, este sobe ao castelo e contempla os belíssimos pormenores deste cenário. O autor conta que “Chegados à base do gigantesco morro, o Almeida fez o esboço e nós enchemo-nos entretanto de coragem para fazer a ascensão dessa mole de granito, ameaçadora e bruta, que quase a prumo se erguia sobre as nossas cabeças.
Era pela chamada porta do Sapo, a do norte, mal distinta na nossa gravura, que teríamos de penetrar no castelo; para lá chegar porém, necessário era subir uns estreitíssimos degraus abertos na rocha viva, o que fizemos com a agilidade de que disporiam valentes animais trepadores, lutando ainda contra o frigidíssimo vento que nos açoitava,  ameaçando a cada momento desequilibrar-nos.
Chegados acima, uma sensação de terror nos gelou a medula. Entre nós e a porta, uma pequena rocha estreita, de poucos decímetros de largura, era a única passagem a transpor, e essa passagem dava sobre um abismo que media aproximadamente 500 metros de alto.
Bastava o escorregar dum pé, um ligeiro desequilíbrio, um nervosismo impertinente para nos fazer conhecer essa distância respeitosa, ao fim da qual a morte seria a consequência indubitável.
Retroceder seria, além de pouco praticável, uma verdadeira nódoa nos nossos brios de excursionistas! Avançámos, pois, e soltámos um  profundíssimo AH! de satisfação e alívio, quando transpozemos essa porta, que para nós representava a realização dum desejo e a certeza da salvação dum perigo tão próximo!
Os escritos, que temos lido sobre Castro, dizem que essa porta é estreita e fazem-a quase uma fresta que se torna necessário atravessar de rastos. Não é verdade isto. Um homem a pé passa por ela perfeitamente à vontade, e onde o rastejar é quase uma necessidade, é apenas na tal passagem a que nos referimos.
O castelo, que o povo atribui aos mouros, é evidentemente construção romana. Dentro encontram-se ainda vestígios de quartéis e há igualmente um poço, que os antigos dizem ter possuído agua nativa. Os muros atuais, arruinados bastante, são baixos e como que apenas coroam o castelo natural da penedia. Duas portas dão entrada para este recinto: a do norte por onde penetrámos, e a do sul, de acesso um pouco mais fácil, mas ainda assim perigoso.
O aspeto da paisagem é triste e árido. A penedia rendilha todas as montanhas e desponta por todas as encostas, tomando as formas mais variadas e mais caprichosas.
No inverno um lençol de neve cobre o seu dorso escuro e pardacento, no verão apenas destaca do desolado da rocha um ou outro talho de centeio verde-amarelado e os vidoeiros que se erguem no fundo do vale estreito, como sentinelas perdidas do grande exercito vegetal. Os carvalhos não passam de raquíticos arbustos e servem, assim como as
giestas, apenas para lenha. Nem uma única árvore de fruto, nem o mesmo pinheiro bravo se divisa num ponto único da serra. Apesar de ser verão, o céu era brumoso, com uma ou outra nódoa de azul esparsa na cúpula celeste. Renques de neblina corriam dos lados da Peneda, quebrando-se em vapor húmido contra as arestas das rochas e contra os muros do crasto. No fundo, o ribeiro Fraguedo serpenteia, como ondeante cobra, indo perder-se além, entre as serras de Lindoso, que deste ponto se avistam, para confluir no Lima. Foi sobre as margens deste regato que seguiu a pé D. Fr. Bartholomeu dos Martyres, quando visitou esta isolada freguesia da sua diocese.
A vol d'oiseau ficam-nos à esquerda as Inverneiras, escondidas numa profunda garganta, e à direita a vila de Castro Laboreiro, de lápis, penhasco, constituída pela aglomeração de choupanas cobertas de giestas e colmo, de entre as quais apenas a igreja e uma ou outra casa destacam os seus telhados negros e paredes esfumadas.
A igreja foi primitivamente vigararia da matriz de Ponte de Lima, depois abadia do bispo de Tuy, que João Fernandes Sotto Maior trocou em 1 308 com o nosso rei D. Dinis.
A vila tinha foral velho dado por Afonso III em Lisboa em 1271, e D. Manuel lhe deu outro em 1513, dando-lhe neste foral o nome de Castro Laboreiro.
Vários réis concederam aos castrejos muitos privilégios, que D. João V confirmou, e entre estes o de se não fazerem aqui soldados.
A fundação de Castro atribui-se a S. Rosendo, neto de Hermenegildo, a quem D. Affonso III doou estas terras de Lima, como prémio de ter vencido o conde Witiza, senhor destes lugares e que se revoltara contra ele. Hoje a vila está anexada à comarca e concelho de Melgaço e não haveria realmente fundamento para a considerar com os antigos privilégios, visto ser uma povoação decadente e miserável.
— Só por desgraça é que a gente vive aqui, meu senhor — dizia-me uma pobre mulher castreja, com quem conversávamos,— ainda se o governo nos fizesse a esmolinha de mandar para cá uma estrada!
A terra é fria e pouco fértil. As aguas duma deliciosa leveza e frígidas de neve. No inverno os castrejos, principalmente os de serra acima, abandonam as povoações do alto e recolhem às suas choças no fundo dos vales, as inverneiras, para as quais transportam o seu limitado trém de cozinha, os instrumentos do trabalho, as roupas e os gados. Chegada a Primavera deixam as suas casas de inverno e voltam para as do alto.
Nos fins de S. Miguel, os homens robustos e validos emigram para o Douro e Beiras, onde vão fazer paredes nos matos e campos. Chamam-lhes nessas províncias os tapisas ou tapúas. Ficam apenas as mulheres, os velhos e as crianças.
— Não há quem deite a mão a qualquer coisa, senhor.
— Se acontece de a neve entulhar as portas dos currais, mal nos avímos (havemos) para poder tirar o gadinho.
Qualquer homem que não siga o destino dos outros e que se deixe ficar na povoação, o que é raro, é considerado desprezado e as mulheres evitam-o sempre, não o atendendo as raparigas nos seus requestos, visto ser um calaceiro e não dar boas garantias de marido trabalhador.
No mês de Junho regressam aos seus lares e fazem os trabalhos agrícolas da colheita do centeio e batata, a apanha das lenhas e dos matos para as cortes dos gados, compram ou vendem nas feiras algum animal, concertam as choupanas, e, quando o inverno chega, depois de deixarem
feitas as sementeiras do centeio barrozo, emigram novamente. A cultura desta gramínea é feita roubando à serra pequenos canteiros de esteva por meio do incêndio; chamam a isto uma lavoura e é nesse rescaldo adubado pelas cinzas vegetais, que, depois de lavrado, se lança a semente. Nenhuma curiosidade oferecem os seus outros trabalhos agrícolas. Neles, como em quase todo o Minho, o auxilio mútuo é quase um princípio tradicional. Assim nas malhadas, por exemplo, os jornais não se pagam a dinheiro e são os vizinhos que reciprocamente se ajudam.”

::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::

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Extraído de: 
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte I)

Castro Laboreiro (Melgaço), início do século XX

Há cerca de 130 anos, José Augusto Vieira, autor do livro "O Minho Pitoresco" percorreu alguns caminhos das terras de Melgaço. Subindo por Fiães e Alcobaça, foi conhecer Castro Laboreiro. Deixa-nos no livro as suas impressões e deixa-se impressionar com os usos e os costumes das gentes castrejas, deixando contudo transparecer algum choque com algumas particularidades. Ora leia: "Retrocendo pelo caminho andado eis-nos de novo junto de Alcobaça e desta vez em direcção seguida para Castro Laboreiro.
O rio Trancoso esgotou-se já e a raia seca principia, delimitada de distância em distância por uns marcos quadrilongos de granito. Que impressão fez em nós essa pedra humilde, colocada entre as estevas da serra, ao mesmo tempo espanhola e portuguesa!
A raia líquida parece ainda uma separação natural. A gente compreende a sua independência. O nosso pensamento como que vai formulando a frase: De cá nós! De lá vós!
Mas quando essa fronteira natural termina, e quando em plena serra se encontra apenas um ou outro marco colocado pela mão do homem, sem que a vegetação se diferencie, ou sem que a paisagem seja diversa, o espirito mal pode seguir essa linha ideal de separação, e como que desejaria que aquele curso de água, ainda há pouco tão humilde, tivesse continuado a acompanhar-nos para murmurar a cada passo, na voz ciciante da sua corrente, a palavra patriótica de Independência.
Além está Castro!— apontou-nos o guia— aquillo é o castelo!
Estávamos num alto. A vegetação luxuriosa do Minho era para nós um sonho já. Nem uma árvore de fruto, nem uma pequena mata de pinheiros. O cavallo era raquíitico, um metro apenas de altura, as urzes estendiam-se por toda a parte, onde as fragas lhe não impediam o desenvolvimento.
Penedos caprichosos, aglomerações graníticas de formas fantásticas à direita e à esquerda, em frente de nós e pela rectaguarda. Uma verdadeira garganta de granito. E lá ao fundo, como um vulto sombrio, o castelo de Castro, eriçado nas suas arestas agudas.
A paisagem melancólica, o céu brumoso, a pedra aflorando por toda a parte, um ou outro boisinho barrozão equilibrando-se por entre as
estevas! Nem o gorgeio duma ave, nem o cântico panteísta da água corrente.
Atravessamos a Portelinha, cujas casas são já como as de Castro cobertas pelo colmo e giesta e depois, num piso mais regular, em dois ou três quilómetros de vale, serpenteado por um riacho, em cuja margem apenas os vidoeiros vegetam, alcançamos as primeiras casas de CASTRO LABOREIRO, da vila, como nos indicou orgulhosamente o primeiro castrejo que encontrámos.
A nossa casa de refugio foi o posto fiscal. Graças à obsequiosidade desses humildes funcionários, ali desterrados, conseguimos alojar os animais e relacionarmo-nos com aquela pobre gente semi-selvagem e desconfiada, que nos olhava como a personagens raros e curiosos, e que se perguntava uma á outra— o que iríamos nós ali fazer — como se gente civilizada não visitara a sua terra, senão para atentar contra alguma imunidade local.
 O tempo urgia e enquanto João d'Almeida, o desenhador destas páginas, se curvava sobre o seu álbum para apanhar um grupo de crianças e duas ou três raparigas que se prestaram a poser rodeado pelos mirones que afluíam em volta do seu banco de trabalho e dos seus lápis coloridos, eu estudava o interior duma daquelas cubatas, onde o fumo quase me asfixiou a princípio e conversava com uma pobre mulher doente, coberta com o seu manto de burel, sentada ao lar, onde se aconchegava com fortes calafrios de febre.
Nada mais sórdido que um desses interiores de Castro e nada mais humilde também! Num ângulo da parede, quase sempre uma rocha viva, forma-se o leito, o mais económica e singelamente que é possível; dois barrotes de madeira unidos entre si em ângulo recto, formam com as paredes um quadrilátero, sobre que ele assenta. A um desses barrotes está apenso um banco, ao outro um quadrado que serve de guarda-roupa, formando tudo como que uma só peça inteiriça, de que a gravura dá uma ideia bem clara.
Nesses leitos não havia lençóis! É um luxo de civilização, que o castrejo ainda não conhece. As mantas grosseiras de burel constituem as únicas roupas, com que se cobre! A um dos lados, numa cova aberta na terra, está o lar, à volta do qual ficam os escabelos, em que a família se senta para conversar ou comer. Como os tectos são de colmo ou giesta e não há tiragem por meio de chaminés, usam, para evitar os incêndios, alguns ramos interpostos entre o fogo e o tecto, que recebem as primeiras faíscas de lume, onde ordinariamente se convertem em fuligem, e que rapidamente são retirados, se acontece de incendiarem-se.
Anexo a este interior, o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo, e de mais anti-higiénico, ficam as cortes para os gados. A castreja, com quem conversávamos, assim como todas as que se relacionaram connosco, era de trato afável e simples, modesta e com uma fisionomia expressiva. Em todos encontrámos uma regularidade de traços, formando um conjunto agradável e simpático, repelente apenas pela porcaria, que era principio estabelecido e comum. O vestuário é grosseiro, burel oupicoto, segundo o termo local e tecido ali mesmo. As de Alcobaça são, como já vimos, as melhores tecedeiras, e nesta localidade usa-se por isso a roupa branca nas camas.
O nosso cromo dá uma ideia exacta do costume, cujas peças mais originaes são a monteia, espécie de lenço para a cabeça, o colete, o manteu largo deitado desde os hombros até aos joelhos, as piugas e os tamancos, que dão à castreja a pequenez do pé, como acontece na China com os borzeguins das altas damas. Chamam-lhe na linguagem local alabardeiros e deles dá uma ideia exata a nossa gravura de texto.
Perguntámos por industria local. Não havia senão a da cultura da terra nas proporções miseráveis que logo veremos.
— E manteiga não fabricam?
——Isso, sim senhor, mas só nas povoações do alto.
——Boa?
— Bonita e fresca, como olho de galo— respondeu-me em imagem  pitoresca e viva.
— E o pão, como fabricam vocês o pão?
— É com centeio e algum milho. As mulheres amassam em casa, fazem as bolas e levam-nas depois para casa do padeiro.
Pedimos para ver uma. Eram de forma mamilar, e grosseiro o seu fabrico. Depois de amassadas, colocam-as numa tábua e conduzem-as à cabeça para a casa do forno, que é comum à povoação, concorrendo todos para o seu concerto, quando disso ele necessita.
Além destas broas, fazem ainda no rescaldo do lar uns bolos, que servem enquanto não chega o pão do forno. Almeida tirara já os seus croquis e eu desejava mais tempo para os meus. Precisávamos, porém, dum esboceto do castello e roía-nos o desejo de visitar essa velha ruína da civilização romana, que tínhamos a uns 500 metros da povoação. A tarde avançava e o nosso estômago principiava a revelar umas certas impaciências pelo abandono a que o votávamos.
O grito geral era, porém, -Ao castelo! - e força foi que por esta vez o estômago condescendesse…"


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Extraído de: 
VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.