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domingo, 1 de abril de 2018
sexta-feira, 30 de março de 2018
As apreensões de contrabando em Melgaço nos jornais de há mais de 100 anos atrás
![]() |
| Antiga Ponte Internacional de S. Gregório sobre o rio Trancoso (1903) |
Os estudos sobre o fenómeno do contrabando nas fronteiras
de Melgaço são muito concentrados no período histórico respeitante ao Estado
Novo. Contudo, o contrabando nesta região é tão antigo como a definição das fronteiras
há muitos séculos atrás, apesar de as fronteiras melgacense estarem muito bem
guardadas, sobretudo desde meados do século XIX.
Pela leitura dos jornais melgacenses de finais do século
XIX e início do século XX, ficamos a saber que o fenómeno estava bem vivo e os
periódicos locais, regularmente, publicavam notícias sobre as apreensões
realizadas por cada posto da Guarda Fiscal. É curioso que as mercadorias apreendidas
com mais frequência eram tecidos de lã e algodão, açucar, tabaco e azeite.
Partilho com vocês dois recortes de jornais melgacenses
da época que nos relatam apreensões de contrabando pelas autoridades em vários
pontos de Melgaço. O primeiro recorte foi extraído do jornal de Melgaço “A Espada
do Norte”, da sua edição de 29 de Dezembro de 1892 e fala-nos de:
“Apprehensões
Eis aqui as
apprehensões realisadas nos diferentes postos d’esta secção durante o mez
corrente:
Pelas praças do posto
de Pousafolles, foram apprehendidas diferentes fazendas de lã e algodão, no
valor de 10 000 réis.
Pelas mesmas praças,
200 grama de tabaco em charutos, no valor de 900 réis.
Pelas praças do posto
fiscal de S. Gregório, differentes géneros alimentícios algumas fazendas de lã e algodão, no valor de
3130 réis.
Pelas praças da
columna volante, azeite, assucar e algumas fazendas de algodão, no valor de
3000 réis.
Pelas praças do posto
de Cevido, differentes fazendas de lã e algodão, azeite e assucar, tudo no
valor de 5000 réis.
Pelas praças do posto
de de S. Martinho, 2 chailes d’algodão, azeite, arroz, assucar e tabaco, tudo
no valor de 10100 réis.
Pelos 2 polícias
fiscaes, em serviço n’esta vila, foi apprehendido 1 kilo de tabaco, no valor de
4500 réis.”
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| extraído do jornal "A Espada do Norte", edição de 29 de Dezembro de 1892 |
Folheando o jornal “Correio de Melgaço”, na sua edição de
28 de Julho de 1912, podemos ler acerca de mais apreensões de contrabando feitas
pela guarda fiscal e não só. A notíci diz o seguinte:
“No dia 23, os
soldados da guarda fiscal, João Luiz Lourenço, José Albano Domingues, Manuel
Esteves Pinto, Manoel de Faria e os agentes da Companhia dos Tabacos,
apreenderam a Bento Domingues, do lugar das Bouças, de Alvaredo, um revolver
espanhol, uma camisola e algum tabaco, pelo que teve que pagar 16$400 réis de
multa.
No mesmo dia, pelas
21 horas, os empregados acima referidos, apreenderam a Manoel Martins e Manoel
Inácio, do mesmo lugar e freguesia, diversos tecidos de lã e algodão, no valor
de 6$060 réis, tendo de pagar 27$5755 réis de multa.
No dia 26, os guardas
do posto fiscal de Alcobaça, apreenderam a Rosa Domingues, diversos retalos de
tecidos de algodão, azeite e arroz, no valor de 2$500 réis, pelo que pagou
9$590 réis de direitos e multa”
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| extraído do jornal "Correio de Melgaço", edição de 28 de Julho de 1912 |
Etiquetas:
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melgaço,
s. gregório,
século XIX,
século XX
Local:
Vila Nova de Gaia, Portugal
sexta-feira, 23 de março de 2018
A paróquia de Lamas de Mouro (Melgaço) descrita no século XVIII
A igreja paroquial de Lamas de Mouro terá pertencido, em tempos medievais, aos templários, e ainda hoje apresenta vestígios românicos tendo por função ser o baptistério das
aldeias circundantes. Os detalhes do românico encontram-se tanto nas portas,
especialmente a lateral de norte, como nas próprias paredes, cujas pedras estão
pejadas de siglas.
Segundo uma confirmação de 21 de Abril de 1355 feita pelo pároco
ao bispo João de Tui, a igreja de Lamas de Mouro tinha como padroeiros os
cavaleiros de S. João do Hospital.
Pelo Censual de Dom Manuel de Sousa (1545-1549), a Igreja de S.
João foi avaliada em 10.000 reis. No Censual de D. Frei Baltazar Limpo (1551-1581)
aparece como pertencendo à “Terra de Melgaço” sendo da colação do Arcebispo. A
comarca de Valença obtinha dela um benefício de 3.000 reis.
Chegados ao século XVIII, dispomos de duas importantes fontes
históricas para traçarmos uma quadro realista sobre a realidade de Lamas de
Mouro nesta centúria. Uma dessas fonte de informação é a obra “Corografia portugueza e descripçam
topografica do famoso Reyno de Portugal”, do padre Carvalho da Costa,
publicada em 1706, diz-nos que “S. João
de Lamas de Mouro é Abbadia do Ordinario, rende quarenta mil réis, tem quarenta
vizinhos, que são privilegiados de Malta pela Commenda de Távora, a que pagão
muito foro, não sendo a terra por ruim capaz de tanto. Dizem que algum tempo
foy esta Igreja de Templários e delles, quando se extinguiram, passou aos aos
Maltezes. O como saiu deles para o Ordinário não alcançámos, que naquelles
tempos os mais dos contratos eram verbaes. Aqui nasce o rio Mouro, nome que
tomou daquelle poderoso, ou régulo , de que já falámos, e que neste monte tinha
sua coutada de recreação para caçar. O rio ainda que pequeno, dá saborosas
trutas, e se engrossa com o da Mendeira, que pouco abaixo lhe entra.”
Uma outra importante fonte que nos ajuda a conhecer esta terra são
as Memórias Paroquiais de 1758, datadas de 22 de Maio desse ano. Nelas, o
pároco de Lamas de Mouro à época, Constantino Dias, respondeu ao Inquérito
afirmando que na freguesia viviam “dezoito
vizinhos, carenta e cinco pessoas de sacramento, menores cinco, tem mais treze
de sacramento…” Neste caso, o termo “vizinhos” não se refere ao número de
pessoas mas sim ao número de fogos (agregados familiares).
É curioso a forma como o abade explica a origem do topónimo “Lamas
de Mouro”. Segundo o mesmo, “chama-se a
esta freguesia Lamas de Mouro e tomou o apelido “de Mouro” porque dezião os
antigos que fora aqui mesquita de mouros”. Não se conhece documentação ou
prova arqueológica que suporte esta anotação. Atualmente, aceita-se que o nome
da freguesia e paróquia se deva ao facto de aí nascer o rio Mouro. A origem
para o pequeno curso de água se designar
de “Mouro”, leva-nos, segundo Pinho Leal, ao tempo da presença dos mouros na
Península Ibérica, que, nesta região, nunca foi significativa. No livro
“Portugal Antigo e Moderno”, volume 4, publicado em 1874, o autor refere que
por aqui um mouro chamado Jusão tinha uma coutada para caçar. Na memória
paroquial, o pároco refere que “nasce na
freguesia um rio chamado de Mouro que principia na Serra do Lagarto e corre no
estreito desta freguesia, vagaroso, tem um pontilhão chamado a Ponte de Mouro,
tem três moinhos (…). Nesta freguesia não tem senão hum pontilhão de pedra e no
sítio chamado de Porta Trabaços tem humas passadiças de pedra.”
O abade refere-se também àquilo que se cultivava na paróquia,
mencionando que “Os frutos da terra hé
centeio, não se recolhe outro fruto senão linho (…) As terras são poboadas de
hurzes, carrameijas, carqueijas, tojo e penhascos, em algumas partes da serra
se semea nellas chamados labores, não dá senão (centeio) … Cream-se nesta terra
gados grandes, cabras e obelhas, lobos, jabalizes, veados, coelhos, perdizes,
codornizes e rollas”. Claro que tais aspetos estavam relacionados com o
ritmo climático ao longo do ano. A este respeito, o padre carateriza o tempo em
Lamas da seguinte forma: “A qualidade do seu temperamento é no tempo do Verão
quente e no Inverno (…) cair muita neve que nella permanece mais de oito dias,
dez, doze e quinze.”
A paróquia de Lamas de Mouro seria, neste século XVIII, uma
comunidade pequena vivendo da agro-pastorícia e alguma caça. Os seus rendimentos
eram poucos e deles tinham de retirar o valor 35.000 réis de foro que pagavam
aos religiosos da Ordem de Malta.
O pároco refere ainda que a igreja tem “três altares”, sendo “o
principal de S. João Baptista, outro a Senhora dos Remédios e outro de S.
Gonçalo” acrescentando que a paróquia “não tem irmandades”.
A paróquia “não tem correyo e serve-se do correyo de Monção que
dista della coatro legoas”.
Fontes Consultadas:
- Memórias Paroquias de Lamas de Mouro, Valadares (1758);
- COSTA, Carvalho (1706) - Corografia portugueza e descripçam
topografica do famoso Reyno de Portugal. Lisboa.
- LEAL, Augusto Pinho (1874) - Portugal Antigo e Moderno. Volume
IV; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Lisboa.
sexta-feira, 16 de março de 2018
Estórias antigas do contrabando do café em Melgaço
O
contrabando do café e de outras mercadorias em que a Espanha franquista era
deficitária mobilizou um número significativo de pessoas em Melgaço e noutros
municípios raianos do Minho que fizeram da região uma complexa base logística
de contrabando de algumas mercadorias que asseguravam uma alta rentabilidade.
Esta prática minorou as dificuldades na subsistência de muitas famílias de
ambos os lados da fronteira. Contudo, muitas das famílias dos contrabandistas
ficaram marcadas pela repressão e a cadeia…
Em http://iasousa.blogs.sapo.pt/87445.html encontramos um extrato de testemunhos orais de quem vivenciou a atividade do
contrabando do café: “O Sr. António
Cândido Rodrigues, natural de Chaviães, morador na Vila, mais conhecido por
“Toninho do Talho” diz que começou no contrabando quando tinha 12 anos (1947).
As fronteiras estavam controladas
através dos postos, cada qual com a sua área demarcada “…a minha área era entre o posto de “Portovivo”, em Chaviães e o de
Paços, ambos junto ao rio…comprava o café na Loja Nova ao Manuel da Garagem e
transportava-o na carroça do “Ronho” e tentava “filtrá-lo” pelos postos … passava
o café numa batela pelo rio…ao chegar ao lado espanhol também tentávamos esquivar-nos
aos carabineiros … depois da guerra era o café, o sabão, o azeite, o açúcar que
iam para Espanha…”.
No tempo do café o Sr. António recorda “…tinha um sócio e no posto de “Portavigo” um
guarda apanhou-me 10 embalagens de café Sical…ele queria uma importância para
deixar a mercadoria … eu disse-lhe que essa mercadoria não era só minha e
pedi-lhe para deixar passar essa que mais tarde passaria com outra e já lhe
deixaria ficar alguma coisa…era o passares…eu sabia que no outro dia esse
guarda iria ser transferido para o posto de Cevide…nós sabíamos de
tudo…vigiávamos constantemente os guardas…”
Frequentemente,
sobretudo os pequenos contrabandistas, eram apanhados pelas autoridades, quer
do lado português, quer do lado espanhol. Normalmente, o facto de uma pessoa
ser apanhada não significava que deixasse de praticar o contrabando. Dando uma
olhadela pelos jornal galegos de época, podemos observar noticiadas várias
situações de prisão de melgacenses e apreensões de mercadorias de contrabando
dos dois lados da fronteira. Nas duas
notícias que aqui apresento, podemos ver que um tal David Teixeira, melgacense que
era taxista em 1971 e por isso circulava com frequência entre os dois lados da
fronteira, foi apanhado nas malhas do contrabando do café pelo menos duas vezes,
sempre do lado galego. Numa das apreensões, o volume da mercadoria ascendia a
duas toneladas e meia. As notícias distam no tempo cerca de 19 anos sendo que a
mais antiga refere-se a acontecimentos de 13 de Março de 1952:
“Pontevedra - Em la parroquia de
Cequeliños, del Ayuntamento de Arbo, fueron sorprendidos los vecinos de la
misma, Manuel Garcia Estévez y Valentin Gonzalez Fernandez, que com otros
sujeitos, al parecer portugueses, que se dieron a la fuga, transportaban 558 kilogramas de café, que habian
introducido procedente de Portugal por el rio Miño. De las gestiones
practicadas por las autoridades parece deducirse era propriedad de David
Teixeira, vecino de Melgazo (Portugal).”
(Jornal
“La Noche”, edição de 13 de Março de 1952)
Dezanove
anos mais tarde, mais concretamente em 1971, o mesmo Sr. David Teixeira é notícia pelo
mesmo motivo, ou seja, por ter sido apanhado na Galiza com café de contrabando proveniente
de Portugal:
“Café de contrabando
José Fernández Fernández, de 54 anos,
vecino de San Cristóval - Monterrey, fue sorprendido por fuerzas de vigilancia
fiscal del puesto de Cualedro, que cuando se disponia a trasladar a su
domicilio 60 kilos de café tostado de procedência portuguesa que instantes
antes habia comprado a un desconocido. La mercancia, valorada em 6000 pesetas
quedó a disposición del Tribunal Provincial de Contrabando.
También fueron intervenidos otros 12
kilos de café tostado por fuerzas de la Guardia Civil de Cortegada, que David
Teixeira, vecino de Melgazo - Portugal, taxista, transportaba debajo de los
asientos de su vehiculo MO-53-73. La mercancia, valorada en 1200 pesetas quedó
a disposicion de la autoridad competente.”
(Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971)
Fontes
consultadas:
-
Jornal “La Noche”, edição de 13 de Março de 1952;
-
Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971.
sexta-feira, 9 de março de 2018
As Águas de Melgaço nos seus primórdios na imprensa
A descoberta das propriedades das águas do Peso (Melgaço)
só foram identificadas em 1884, aquando de um caso da esposa de um médico de
Vila Nova Cerveira, que sofria de uma doença de estômago e se conta que se
curou. A fama das águas depressa se espalhou e em 1885 Bonhorst efectuou as
primeiras análises, ano em que também foi construída uma primeira oficina de
engarrafamento, em madeira, sobre a fonte Principal. Alfredo Luíz Lopes, em 1892,
descreve essa construção e o projecto de uma nova exploração: “Pensa-se, porém, em constituir uma
companhia que lhe desenvolva a exploração. Hoje são em grande número as
garrafas transportadas
para diversas terras do Minho e principalmente para o Porto, onde existe um
depósito especial, bastante afreguesado.”
Contudo, já em data anterior, no jornal galego, “Crónica
de Pontevedra”, na sua edição de 31 de Agosto de 1888, podemos ler que as Águas
de Melgaço eram vendidas engarrafadas em várias farmácias ou drogarias galegas
em Baiona, Vigo ou Gondomar. O engarrafamento era realizado pelo farmacêutico
Domingos Ferreira de Araújo, proprietário da farmácia “Ferreira de Araújo”, que
ficava na vila de Melgaço. Ele próprio as certificava e garantia a sua
qualidade. Podemos ver tal informação neste recorte do jornal:
“De utilidad
Aguas
ferruginosas-alcalino-litiníferas de Melgazo, Alto Minho (Portugal). Segun el
análisis de estas aguas, reconocido por el Doctor D. Antonio Casares,
distinguido quimico de Santiago, se vé claramente que son muy útiles en las
dispepsias y otros padecimentos del estomago, en las afecciones del higado, vegiga,
etc., sustituyendo por esto com ventaja á las de Mondariz.
Se venden
embotelladas recientemente por el farmaceutico de Melgazo D. Domingos Ferreira
de Araujo, en las farmacias de los Srés.
Espinosa, en Gondomar, y del Rio Gimenez, en Bayona, y en la Drogueria de los
Sres. Bermejo Perez y Puente, en Vigo.
Estas botellas llevan
el nombre impresso del farmaceutico de Melgazo, para evitar falsificaciones.”
Melgaço e as suas águas sempre tiveram o efeito benéfico para o corpo e para a alma de quem nos visitava.
Às vezes, a descontração na hora de partir até era demais. Se não atente nesta
notícia extraída do periódico “La Correpondencia Gallega” que remonta a 3 de
Julho de 1901:
“Buen hallago
Unos acaudalados
portugueses que regresaban á Lisboa de las aguas de Melgazo, al tomar el tren
correo en la estoción de Arbo, dejaron olvidada en la sala zaguán una bolsa de
mano que contenía treinta mil pesetas en valores y albajas.
Recogida por el jefe
de la estación D. Félix Blanco, telegrafió su hallago á Guillarey, desde cuyo
subió á recogerla su dueño en el tren correo ascendente del mismo dia.
Digna de alabanza es
la conducta de este empleado del ferrocarril.”
Fontes consultadas:
- Jornal “La Correpondencia Gallega”, edição de 3 de
Julho de 1901.
- Jornal “Cronica de Pontevedra”, edição de 31 de Agosto
de 1888.
- Lopes, A. L. (1892) - Águas Minero-medicinais de Portugal.
Lisboa.
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