sexta-feira, 6 de abril de 2018

Melgacenses que combateram na Primeira Grande Guerra - Os Expedicionários da freguesia de Penso (Melgaço)





Neste ano, assinala-se o primeiro centenário do fim da Primeira Guerra Mundial. O blogue vai, nas próximas semanas, prestar uma merecida homenagem aos homens de Melgaço que tomaram parte neste conflito que mudou o rumo da História.
Depois das declarações de guerra mútuas entre Portugal e a Alemanha, a partir de 1916, o nosso país procedeu à mobilização maciça de jovens do sexo masculino.
Foram afixados editais de grandes dimensão nas portas dos edifícios públicos, nas câmaras municipais, praças publicas, etc., indicando os locais e as datas para apresentação dos homens, nas respectivas unidades mobilizadoras. Muitos destes homens, recrutados nas diferentes terras portuguesas de norte a sul do país, não tinham noção do que era uma guerra, muitos deles mal sabiam ler e escrever, muitos nunca tinham saído das suas aldeias.
De Melgaço, saíram a partir de 1917 em direção à frente de guerra na Flandres francesa, segundo os dados de que disponho, 72 soldados oriundos de diversas freguesias. Umas das freguesias do nosso concelho de onde saíram mais combatentes foi a de São Tiago de Penso. Daqui, eram naturais 11 soldados, 8 dos quais pertenciam à famosa Brigada do Minho (4ª Brigada de Infantaria do C.E.P). Esta Brigada era formada pelos Batalhões de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), nº 8 e 29 (Braga) e nº 20 (Guimarães) que se encontrava sediada em Levantie (França) e controlava o setor de Fauquissart na frente de guerra.
Dos 11 que partiram para a guerra, apenas o soldado Simplício de Lima faleceu em França, já depois do fim do conflito, vítima de uma Bacilose Pulmonar no dia 18 de Dezembro de 1918 no Hospital da Base.
Os restantes sobreviveram à guerra. Todavia, o soldado António Fernandes, natural do lugar de Ranhol (Penso), que combateu na Batalha de La Lys, foi dado como desaparecido em combate depois da batalha. Alguns meses depois, por comunicação da Comissão dos Prisioneiros de Guerra, soube-se que o soldado António Fernandes tinha sido feito prisioneiro de guerra pelos alemães durante as hostilidades e que tinha sido levado para o Campo de Prisioneiros de Münster II, no norte da Alemanha, tendo regressado a Portugal em Fevereiro de 1919.
Quem foram os soldados oriundos da freguesia de Penso que estiveram neste conflito horrendo? Vamos lembrar estes homens…
A quantidade de informações que consegui reunir não é muito abundante mas permite conhecer um pouco do percurso militar de cada um destes durante a guerra.
Eles foram:

1 - António Fernandes, 2º Cabo do 2º Grupo de Baterias de Artilharia (1ª Bateria). Nasceu às sete horas da manhã do dia 19 de Junho de 1891, filho de Agostinho Fernandes e Maria Rosa Esteves Cordeiro, natural do lugar de Ranhol, freguesia de Penso. À época de partida para a guerra, era casado com Emilia Domingues desde 24 de Agosto de 1913. Embarcou para França em 17 Novembro de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 33 557. Foi dado como desaparecido em combate na Batalha de La Lys em 9 de Abril de 1918. Contudo, posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, soube-se que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Münster II (Alemanha). Sobreviveu à guerra. O soldado António Fernandes embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.

Cartão de inventariação do prisioneiro de guerra do 2º Cabo António Fernandes
no Campo de Munster II (Alemanha)
(Fonte: Comité Internacional da Cruz Vermelha)

Aspeto do Campo de Prisioneiros de Munster II em 1918


Cemitério do Campo de Prisioneiros de Munster II

2 - Simplício de Lima, soldado do 1.º Esquadrão do Regimento de Cavalaria n.º 4. Nasceu às dez horas da noite do dia 18 de Junho de 1893 no lugar de Paranhão, lugar da freguesia de São Tiago de Penso, filho de pai incógnito e de Maria Teresa de Lima. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e morava no dito lugar de Paranhão, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 26 de Maio de 1917. Em 2 de Dezembro de 1918, já depois do Armistício, o soldado Simplício baixou ao Hospital da Base nº 2, vindo a falecer no dia 18 de Dezembro, vítima de Bacilose Pulmonar, tal como consta no seu Boletim Individual. Foi sepultado no Cemitério de Ambleteuse (França), coval 5F caixão nº 112. Posteriormente, os seus restos mortais foram transferidos para o Cemitério Militar Português de Richebourg l`Avoué, Talhão D, Fila 22, Coval 4.

Sepultura do soldado Simplício de Lima, no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França)

3 - Gaudêncio Rodrigues, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às três horas da tarde do dia 23 de Outubro de 1893 no lugar da Carreira, freguesia de São Tiago de Penso, filho de Rosalino José Rodrigues e de Maria da Conceição Alves. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e morava no dito lugar da Carreira, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Maio de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Desconhecem-se mais dados do seu percurso militar durante o conflito. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em data desconhecida.

4 - Manuel Gonçalves, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às quatro horas e meia da tarde do dia 29 de Maio de 1893 no lugar das Mós, freguesia de São Tiago de Penso, filho de António Joaquim Gonçalves e de Ludovina Domingues. À época da partida para a guerra, era casado com Maria Martins e morava na mesma freguesia de S. Tiago de Penso. Tinha contraído matrimónio a 14 de Fevereiro de 1917, cerca de dois meses antes de partir para a guerra. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Abril, onde pertenceu à Brigada do Minho. Baixou ao hospital em 19 de Outubro de 1917, tendo alta no dia 23. Em 5 de Agosto de 1918, foi colocado no Quartel General do Corpo Expedicionário Português. Por ordem de serviço de 17 de Maio de 1918, por parte do Comando do Quartel General, marchou com vista a apresentar-se no Porto de Embarque, em Cherbourg, afim de ser repatriado. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 9 de Junho de 1919. Viria a falecer em 5 de Julho de 1948.

5 - Alberto Esteves, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às duas horas da tarde do dia 29 de Agosto de 1893 no lugar de Pomar, freguesia de São Tiago de Penso, filho de Manuel António Esteves e de Maria Solha. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no lugar do Pomar, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Dos registos inscritos no seu Boletim Individual, sabemos que foi hospitalizado em 22 de Março por motivo de ataque com gás. Em 27 de Outubro de 1917, foi punido pelo Comandante da Companhia com 10 dias de detenção por “ter sido nomeado para servir nas trincheiras e não se ter apresentado prontamente para esse serviço tendo sido necessário a intervenção do comandante da companhia para que desse cumprimento à ordem que nesse sentido tinha recebido…”. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 8 de Julho de 1919. Viria a falecer às 18 horas do dia 28 de Setembro de 1963.

6 - António Lopes, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às quatro horas da tarde do dia 27 de Outubro de 1893 no lugar de Pomar, freguesia de São Tiago de Penso, filho de João Luíz Lopes e de Maria José Vaz. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e morador no lugar do Pomar, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 18 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Dos registos inscritos no seu Boletim Individual, sabemos que baixou ao Hospital da Base em 11 de Abril de 1918. Foi julgado incapaz de todo o serviço em 13 de Maio de 1918, tendo alta em 13 de Maio e ficou "a aguardar confirmação junta que o julgou incapaz”. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em data que não vem inscrita no seu Boletim Individual e portanto se desconhece. Viria a falecer na freguesia de Penso (Melgaço) no dia 8 de Março de 1975.

7 - Jaime Rodrigues, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às dez horas da noite do dia 27 de Outubro de 1895 no lugar de Pomar, freguesia de São Tiago de Penso, filho de pai incógnito e de Maria Luíza Rodrigues. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no dito lugar do Pomar, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho, tendo combatido na Batalha de La Lys em 9 de Abril de 1918, fazendo parte do 2º Grupo de Pioneiros. Pelos registos que constam no seu Boletim Individual, sabemos que baixou ao Hospital da Base em 21 de Junho de 1918 tendo alta em 31 de Julho. Foi julgado incapaz de todo o serviço em 29 de Junho de 1918, tendo sido evacuado afim de ser repatriado em 6 de Agosto de 1918. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 25 de Agosto de 1918. Posteriormente, viria a casar com Olívia Vieites em 25 de Outubro de 1918, pouco tempo depois de ter regressado da guerra. Viria a falecer na freguesia de Penso no dia 13 de Setembro de 1971.

8 - Zeferino Domingues, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às duas horas da manhã do dia 24 de Agosto de 1895 no lugar das Lages, freguesia de São Tiago de Penso, filho de Manuel José Domingues e de Maria Joaquina Vaz. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no lugar das Lages, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português em 1917, em data incerta, onde pertenceu à Brigada do Minho. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 1918 ou 1919, em data incerta.

9 - Luíz Tavares, Alferes de do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às oito horas da noite do dia 22 de Fevereiro de 1885 no lugar de Telhada Grande, freguesia de São Tiago de Penso, filho de pai incógnito e de Adelina Tavares. À época da sua partida para a guerra era casado com Aminia da Conceição, desde 3 de Setembro de 1910 e era morador no concelho de Valença. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Já em França, baixou à ambulância nº 3 em 12 de Setembro de 1917. Foi evacuado para o Hospital da Base em 13 de Fevereiro tendo recebido alta no dia 17 do mesmo mês e ano, com 8 dias de convalescença. É promovido a sargento ajudante no dia 29 de Fevereiro de 1917. Promovido a Alferes por decreto de 9 de Fevereiro de 1918, sendo colocado no Regimento de Infantaria 20. Baixa ao hospital em 14 de Março de 1918, tendo alta em 8 de Abril. Obteve licença da Junta por 30 dias, sendo-lhe concedido gozá-los em Portugal para onde segue em 1 de Maio. Sobreviveu à guerra e desconhece-se se voltou para França após a licença por falta de registos. Viria a falecer no dia 21 de Outubro de 1949.

10 - José Garcia, Soldado de Infantaria (Companhia e Regimento desconhecidos). Nasceu em data desconhecida na freguesia de São Tiago de Penso (naturalidade indicada no Boletim Individual mas não consta no respetivo Livro Paroquial de Batismos), filho de Manuel Garcia e de Maria Garcia. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Maio de 1917. Os informações são escassas em relação ao percurso militar deste soldado durante a guerra. Sabe-se que durante a sua permanência em França, entrou no gozo de 10 dias de licença de campanha em 7 de Fevereiro de 1919. Estava presente no Comando Militar de Ambleteuse em 18 de Março desse ano e seguiu no mesmo dia para o Porto de Embarque (Cherbourg) com vista a ser repatriado juntamente com a sua unidade, embarcando para Portugal no dia 5 de Abril de 1919. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 13 de Abril de 1919.

11 - Manuel Pereira, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 1 (Lisboa), 6.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às três horas da tarde do dia 30 de Janeiro de 1893 no lugar de Alempassa, freguesia de São Tiago de Penso, filho de João Manuel Pereira e de Rosa Rodrigues. À época da partida para a guerra, era solteiro e morava na rua da Betesga, nos nº 95/96, na cidade de Lisboa. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 11 de Julho de 1917.  Já em França, durante a guerra, baixou à ambulância em 9 de Agosto de 1917. Foi julgado incapaz de todo o serviço ativo em sessão de Junta Médica de 13 de Agosto do mesmo ano. Teve alta no dia 14 do mesmo mês. Posteriormente, foi colocado no Quartel General do Corpo Expedicionário Português em 19 de Setembro de 1917. Seguiu para o Quartel General da Base com vista a ser repatriado em 5 de Julho de 1918. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 9 de Junho de 1919. Após a guerra, casou em 23 de Junho de 1927, com Amélia da Conceição Silva. Viria a falecer em 18 de Maio de 1977.

domingo, 1 de abril de 2018

Castro Laboreiro - Melgaço vestido de branco (31/03/2018)



Veja, neste pequeno vídeo, pode contemplar fantásticas imagens de Castro Laboreiro vestido de branco...

sexta-feira, 30 de março de 2018

As apreensões de contrabando em Melgaço nos jornais de há mais de 100 anos atrás


Antiga Ponte Internacional de S. Gregório sobre o rio Trancoso (1903)

Os estudos sobre o fenómeno do contrabando nas fronteiras de Melgaço são muito concentrados no período histórico respeitante ao Estado Novo. Contudo, o contrabando nesta região é tão antigo como a definição das fronteiras há muitos séculos atrás, apesar de as fronteiras melgacense estarem muito bem guardadas, sobretudo desde meados do século XIX.
Pela leitura dos jornais melgacenses de finais do século XIX e início do século XX, ficamos a saber que o fenómeno estava bem vivo e os periódicos locais, regularmente, publicavam notícias sobre as apreensões realizadas por cada posto da Guarda Fiscal. É curioso que as mercadorias apreendidas com mais frequência eram tecidos de lã e algodão, açucar, tabaco e azeite.
Partilho com vocês dois recortes de jornais melgacenses da época que nos relatam apreensões de contrabando pelas autoridades em vários pontos de Melgaço. O primeiro recorte foi extraído do jornal de Melgaço “A Espada do Norte”, da sua edição de 29 de Dezembro de 1892 e fala-nos de:
“Apprehensões
Eis aqui as apprehensões realisadas nos diferentes postos d’esta secção durante o mez corrente:
Pelas praças do posto de Pousafolles, foram apprehendidas diferentes fazendas de lã e algodão, no valor de 10 000 réis.
Pelas mesmas praças, 200 grama de tabaco em charutos, no valor de 900 réis.
Pelas praças do posto fiscal de S. Gregório, differentes géneros alimentícios  algumas fazendas de lã e algodão, no valor de 3130 réis.
Pelas praças da columna volante, azeite, assucar e algumas fazendas de algodão, no valor de 3000 réis.
Pelas praças do posto de Cevido, differentes fazendas de lã e algodão, azeite e assucar, tudo no valor de 5000 réis.
Pelas praças do posto de de S. Martinho, 2 chailes d’algodão, azeite, arroz, assucar e tabaco, tudo no valor de 10100 réis.
Pelos 2 polícias fiscaes, em serviço n’esta vila, foi apprehendido 1 kilo de tabaco, no valor de 4500 réis.”

extraído do jornal "A Espada do Norte", edição de 29 de Dezembro de 1892

Folheando o jornal “Correio de Melgaço”, na sua edição de 28 de Julho de 1912, podemos ler acerca de mais apreensões de contrabando feitas pela guarda fiscal e não só. A notíci diz o seguinte:
“No dia 23, os soldados da guarda fiscal, João Luiz Lourenço, José Albano Domingues, Manuel Esteves Pinto, Manoel de Faria e os agentes da Companhia dos Tabacos, apreenderam a Bento Domingues, do lugar das Bouças, de Alvaredo, um revolver espanhol, uma camisola e algum tabaco, pelo que teve que pagar 16$400 réis de multa.
No mesmo dia, pelas 21 horas, os empregados acima referidos, apreenderam a Manoel Martins e Manoel Inácio, do mesmo lugar e freguesia, diversos tecidos de lã e algodão, no valor de 6$060 réis, tendo de pagar 27$5755 réis de multa.
No dia 26, os guardas do posto fiscal de Alcobaça, apreenderam a Rosa Domingues, diversos retalos de tecidos de algodão, azeite e arroz, no valor de 2$500 réis, pelo que pagou 9$590 réis de direitos e multa”

extraído do jornal "Correio de Melgaço", edição de 28 de Julho de 1912

sexta-feira, 23 de março de 2018

A paróquia de Lamas de Mouro (Melgaço) descrita no século XVIII



A igreja paroquial de Lamas de Mouro terá pertencido, em tempos medievais, aos templários, e ainda hoje apresenta vestígios românicos tendo por função ser o baptistério das aldeias circundantes. Os detalhes do românico encontram-se tanto nas portas, especialmente a lateral de norte, como nas próprias paredes, cujas pedras estão pejadas de siglas.
Segundo uma confirmação de 21 de Abril de 1355 feita pelo pároco ao bispo João de Tui, a igreja de Lamas de Mouro tinha como padroeiros os cavaleiros de S. João do Hospital.
Pelo Censual de Dom Manuel de Sousa (1545-1549), a Igreja de S. João foi avaliada em 10.000 reis. No Censual de D. Frei Baltazar Limpo (1551-1581) aparece como pertencendo à “Terra de Melgaço” sendo da colação do Arcebispo. A comarca de Valença obtinha dela um benefício de 3.000 reis.
Chegados ao século XVIII, dispomos de duas importantes fontes históricas para traçarmos uma quadro realista sobre a realidade de Lamas de Mouro nesta centúria. Uma dessas fonte de informação é a obra “Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal”, do padre Carvalho da Costa, publicada em 1706, diz-nos que “S. João de Lamas de Mouro é Abbadia do Ordinario, rende quarenta mil réis, tem quarenta vizinhos, que são privilegiados de Malta pela Commenda de Távora, a que pagão muito foro, não sendo a terra por ruim capaz de tanto. Dizem que algum tempo foy esta Igreja de Templários e delles, quando se extinguiram, passou aos aos Maltezes. O como saiu deles para o Ordinário não alcançámos, que naquelles tempos os mais dos contratos eram verbaes. Aqui nasce o rio Mouro, nome que tomou daquelle poderoso, ou régulo , de que já falámos, e que neste monte tinha sua coutada de recreação para caçar. O rio ainda que pequeno, dá saborosas trutas, e se engrossa com o da Mendeira, que pouco abaixo lhe entra.”
Uma outra importante fonte que nos ajuda a conhecer esta terra são as Memórias Paroquiais de 1758, datadas de 22 de Maio desse ano. Nelas, o pároco de Lamas de Mouro à época, Constantino Dias, respondeu ao Inquérito afirmando que na freguesia viviam “dezoito vizinhos, carenta e cinco pessoas de sacramento, menores cinco, tem mais treze de sacramento…” Neste caso, o termo “vizinhos” não se refere ao número de pessoas mas sim ao número de fogos (agregados familiares).
É curioso a forma como o abade explica a origem do topónimo “Lamas de Mouro”. Segundo o mesmo, “chama-se a esta freguesia Lamas de Mouro e tomou o apelido “de Mouro” porque dezião os antigos que fora aqui mesquita de mouros”. Não se conhece documentação ou prova arqueológica que suporte esta anotação. Atualmente, aceita-se que o nome da freguesia e paróquia se deva ao facto de aí nascer o rio Mouro. A origem para o pequeno curso de água  se designar de “Mouro”, leva-nos, segundo Pinho Leal, ao tempo da presença dos mouros na Península Ibérica, que, nesta região, nunca foi significativa. No livro “Portugal Antigo e Moderno”, volume 4, publicado em 1874, o autor refere que por aqui um mouro chamado Jusão tinha uma coutada para caçar. Na memória paroquial, o pároco refere que “nasce na freguesia um rio chamado de Mouro que principia na Serra do Lagarto e corre no estreito desta freguesia, vagaroso, tem um pontilhão chamado a Ponte de Mouro, tem três moinhos (…). Nesta freguesia não tem senão hum pontilhão de pedra e no sítio chamado de Porta Trabaços tem humas passadiças de pedra.” 
O abade refere-se também àquilo que se cultivava na paróquia, mencionando que “Os frutos da terra hé centeio, não se recolhe outro fruto senão linho (…) As terras são poboadas de hurzes, carrameijas, carqueijas, tojo e penhascos, em algumas partes da serra se semea nellas chamados labores, não dá senão (centeio) … Cream-se nesta terra gados grandes, cabras e obelhas, lobos, jabalizes, veados, coelhos, perdizes, codornizes e rollas”. Claro que tais aspetos estavam relacionados com o ritmo climático ao longo do ano. A este respeito, o padre carateriza o tempo em Lamas da seguinte forma: “A qualidade do seu temperamento é no tempo do Verão quente e no Inverno (…) cair muita neve que nella permanece mais de oito dias, dez, doze e quinze.”
A paróquia de Lamas de Mouro seria, neste século XVIII, uma comunidade pequena vivendo da agro-pastorícia e alguma caça. Os seus rendimentos eram poucos e deles tinham de retirar o valor 35.000 réis de foro que pagavam aos religiosos da Ordem de Malta.
O pároco refere ainda que a igreja tem “três altares”, sendo “o principal de S. João Baptista, outro a Senhora dos Remédios e outro de S. Gonçalo” acrescentando que a paróquia “não tem irmandades”.
A paróquia “não tem correyo e serve-se do correyo de Monção que dista della coatro legoas”.


Fontes Consultadas:
- Memórias Paroquias de Lamas de Mouro, Valadares (1758);
- COSTA, Carvalho (1706) - Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal. Lisboa.
- LEAL, Augusto Pinho (1874) - Portugal Antigo e Moderno. Volume IV; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Lisboa.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Estórias antigas do contrabando do café em Melgaço


O contrabando do café e de outras mercadorias em que a Espanha franquista era deficitária mobilizou um número significativo de pessoas em Melgaço e noutros municípios raianos do Minho que fizeram da região uma complexa base logística de contrabando de algumas mercadorias que asseguravam uma alta rentabilidade. Esta prática minorou as dificuldades na subsistência de muitas famílias de ambos os lados da fronteira. Contudo, muitas das famílias dos contrabandistas ficaram marcadas pela repressão e a cadeia…
Em http://iasousa.blogs.sapo.pt/87445.html encontramos um extrato de testemunhos orais de quem vivenciou a atividade do contrabando do café: “O Sr. António Cândido Rodrigues, natural de Chaviães, morador na Vila, mais conhecido por “Toninho do Talho” diz que começou no contrabando quando tinha 12 anos (1947).
 As fronteiras estavam controladas através dos postos, cada qual com a sua área demarcada “…a minha área era entre o posto de “Portovivo”, em Chaviães e o de Paços, ambos junto ao rio…comprava o café na Loja Nova ao Manuel da Garagem e transportava-o na carroça do “Ronho” e tentava “filtrá-lo” pelos postos … passava o café numa batela pelo rio…ao chegar ao lado espanhol também tentávamos esquivar-nos aos carabineiros … depois da guerra era o café, o sabão, o azeite, o açúcar que iam para Espanha…”.
No tempo do café o Sr. António recorda “…tinha um sócio e no posto de “Portavigo” um guarda apanhou-me 10 embalagens de café Sical…ele queria uma importância para deixar a mercadoria … eu disse-lhe que essa mercadoria não era só minha e pedi-lhe para deixar passar essa que mais tarde passaria com outra e já lhe deixaria ficar alguma coisa…era o passares…eu sabia que no outro dia esse guarda iria ser transferido para o posto de Cevide…nós sabíamos de tudo…vigiávamos constantemente os guardas…
Frequentemente, sobretudo os pequenos contrabandistas, eram apanhados pelas autoridades, quer do lado português, quer do lado espanhol. Normalmente, o facto de uma pessoa ser apanhada não significava que deixasse de praticar o contrabando. Dando uma olhadela pelos jornal galegos de época, podemos observar noticiadas várias situações de prisão de melgacenses e apreensões de mercadorias de contrabando dos dois lados da fronteira.  Nas duas notícias que aqui apresento, podemos ver que um tal David Teixeira, melgacense que era taxista em 1971 e por isso circulava com frequência entre os dois lados da fronteira, foi apanhado nas malhas do contrabando do café pelo menos duas vezes, sempre do lado galego. Numa das apreensões, o volume da mercadoria ascendia a duas toneladas e meia. As notícias distam no tempo cerca de 19 anos sendo que a mais antiga refere-se a acontecimentos de 13 de Março de 1952:
“Pontevedra - Em la parroquia de Cequeliños, del Ayuntamento de Arbo, fueron sorprendidos los vecinos de la misma, Manuel Garcia Estévez y Valentin Gonzalez Fernandez, que com otros sujeitos, al parecer portugueses, que se dieron a la fuga, transportaban  558 kilogramas de café, que habian introducido procedente de Portugal por el rio Miño. De las gestiones practicadas por las autoridades parece deducirse era propriedad de David Teixeira, vecino de Melgazo (Portugal).”

(Jornal “La Noche”, edição de 13 de Março de 1952)

Dezanove anos mais tarde, mais concretamente em 1971, o mesmo Sr. David Teixeira é notícia pelo mesmo motivo, ou seja, por ter sido apanhado na Galiza com café de contrabando proveniente de Portugal:

“Café de contrabando
José Fernández Fernández, de 54 anos, vecino de San Cristóval - Monterrey, fue sorprendido por fuerzas de vigilancia fiscal del puesto de Cualedro, que cuando se disponia a trasladar a su domicilio 60 kilos de café tostado de procedência portuguesa que instantes antes habia comprado a un desconocido. La mercancia, valorada em 6000 pesetas quedó a disposición del Tribunal Provincial de Contrabando.
También fueron intervenidos otros 12 kilos de café tostado por fuerzas de la Guardia Civil de Cortegada, que David Teixeira, vecino de Melgazo - Portugal, taxista, transportaba debajo de los asientos de su vehiculo MO-53-73. La mercancia, valorada en 1200 pesetas quedó a disposicion de la autoridad competente.”

(Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971)


Fontes consultadas:
- Jornal “La Noche”, edição de 13 de Março de 1952;
- Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971.