sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Livro "Melgacenses na I Grande Guerra (e outras guerras do século XX)"



Domingo, dia 11 de Novembro de 2018, assinala-se um século sobre a assinatura do Armistício que punha fim à Primeira Grande Guerra, um conflito onde combateram dezenas de melgacenses e onde alguns deles tombaram em combate.
Da investigação de Joaquim A. Rocha e Valter Alves, nascerá, muito em breve, um livro onde os autores pretendem perpetuar a memória destes valentes combatentes filhos desta nossa terra. No prefácio desta obra, pode ler-se: “Foi há pouco mais de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Em África, já combatiam os alemães desde 1914.
Com base nos dados de que dispomos, de Melgaço, partiram para a Flandres, 73 homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 14 homens, Penso, com 12 homens e Vila, com 14 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895), à exceção dos oficiais que eram um pouco mais velhos.
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do Cais de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do Corpo Expedicionário Português.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na frente europeia, dos 73 homens naturais de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França).
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Foram eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, de Paços e o segundo sargento António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila de Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a grande maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys.
Os soldados da Brigada do Minho tinham passado a noite de 8 para 9 de Abril a arrumar armamento, munições e outros equipamentos e seus pertences. Iam ser rendidos por batalhões ingleses no dia 9 e hoje em dia acredita-se que os alemães sabiam disso. Sabiam também que a infantaria portuguesa não estava preparada para aquela guerra e que tinham sido treinados à pressa numa falácia vendida pelo regime republicano que apelidaram de “Milagre de Tancos”. Os soldados de Melgaço e de outras regiões eram lavradores, pedreiros e de outros ofícios. Muitos deles nunca tinham saído da sua terra. A grande maioria nem sabia ler e escrever. Um soldado não se faz num par de meses. Esta batalha foi, por essas e outras razões, um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. No dia seguinte, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais). Na 4ª Brigada de Infantaria, à qual pertenciam maioria dos melgacenses, as baixas situam-se em cerca de 60% entre mortos, feridos e prisioneiros. No Regimento de Infantaria 3 (Viana do Castelo), as baixas cifram-se em 570, de um total de 700 homens que estavam em posição naquela noite. Deste total de baixas, houve registos de 91 mortos (4 de Melgaço), 155 feridos, 7 desaparecidos e 317 soldados feitos prisioneiros. Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Na realidade, estes melgacenses foram todos capturados durante a Batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles os soldados Mário Afonso, de Santa Maria da Porta; António Fernandes, de Penso; Abílio Alves de Araújo, da Gave; Avelino Fernandes, de Alvaredo; António José Rodrigues, de Paderne; Inocêncio Augusto Carpinteiro, de S. Paio; Justino Pereira, de Cubalhão; António dos Reis, da Rua Direita (Santa Maria da Porta) e António Pires, de Rouças, tendo ficado dispersos por vários campos de prisioneiros na Alemanha.
Depois de La Lys, o C.E.P. não mais participou em operações militares relevantes ficando na dependência dos ingleses e relegado para tarefas secundárias.
Os que tombaram, repousam para sempre no Cemitério Militar Português de Richebourg l`Avoué (França). Os que regressaram, muitos deles voltaram com os traumas próprios de um conflito que a humanidade nunca tinha conhecido ou com os problemas de saúde que os acompanharam durante o resto das suas vidas.
Por tudo isto, estes homens foram heróis e merecem a nossa homenagem. Para que nunca sejam esquecidos!"

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Sobre uma célula comunista no Ribeiro (Castro Laboreiro) em tempos de repressão




Nos tempos da guerra civil espanhola e nos anos seguinte ao conflito, afluíram a terras de Castro Laboreiro, centenas de refugiados galegos e de outras regiões de Espanha. Alguns deles eram ativistas políticos anti-franquista pertencente a forças de esquerda como o Partido Comunista Espanhol e contam com a colaboração de operacionais de esquerda do lado de cá da fronteira, além do precioso encobrimento que a população castreja lhes deu. Inclusivamente se fala que no Ribeiro (Castro Laboreiro) chegou a existir uma célula ativa do Partido Comunista Espanhol.
Num trabalho de investigação publicado em 2007, Angel Rodriguez Gallardo fala-nos dessa realidadeNo fim da guerra civil, na Serra de Castro Laboreiro, o Partido Comunista Espanhol mantinha um ponto de apoio de entrada em território espanhol controlado por vários dos refugiados que ali operavam e que tinham  como base de operações as aldeias do Ribeiro de Baixo e Ribeiro de Cima (Castro Laboreiro), muito próximas das aldeias galegas de Pereira e Olelas, no concelho galego de Entrimo. Estes lugares eram na época habituais pontos de passagem duma secular rota de contrabando. O grupo de refugiados estabelecido nestas terras serranas diversificou durante vários anos as suas atividades, pois dedicaram-se não só a atividades políticas ou de guerrilha, mas também ao contrabando e à obtenção de documentação para conseguir que alguns desses refugiados saíssem de Portugal em direção ao México ou outros países da América Latina.
Em 1940, o Partido Comunista Espanhol conclui a montagem da sua estrutura no norte de Portugal, graças à presença de quadros enviados de países da América Latina. Em 5 de Março de 1941, aconteceu um episódio na cidade do Porto, em que um grupo de comunistas galegos e vários polícias portugueses se enfrentaram, de que resulta a morte de um legionário e um soldado da Guarda Fiscal e um agente da PVDE gravemente ferido. Se antes deste episódio, as autoridade portuguesas vinham intensificando o controlo sobre os refugiados galegos e outros espanhóis no norte de Portugal, a partir deste incidente recuou a disposição repressiva sobre essa comunidade de exilados, que terminou com várias detenções. Apesar de a partir de Julho de 1941, o Partido Comunista Espanhol continuará com o objetivo de manter uma estrutura sólida em Portugal, os erros de organização e as caídas de quadros em diferentes pontos da Península Ibérica acabarão destruindo essa possibilidade. Tudo isto num contexto de militantes sitiados em diferentes locais com deslocações ilegais e contínuas em penosas condições no meio de uma guerra mundial e dentro de um país que tinha uma ditadura pro-nazi.
Os grupos de refugiados e de guerrilheiros que utilizavam Portugal como lugar de proteção começaram a ter problemas com essa cada vez mais numeroza presença de forças policiais portuguesas pela área de fronteira, especialmente aqueles que permaneciam com contactos estáveis na zona de Montalegre, Chaves e Vila Verde de Raia.
O enfrentamento em setembro de 1945, entre membros do grupo de Demetrio Garcia Álvarez, O Pedro, e Juan Salgado Riveiro, O Juan, moradores de Oimbra – Verin, com apoios em Cambedo e no Barroso, quando tentavam praticar um assalto e foram supreendidos por uma patrulha da Guarda Civil, fez piorar a situação dos refugiados espanhóis em Portugal. A partir desse episódio, intensificou-se o efetivo de controlo sobre a fronteira, que culminou nesta região com o cerco a Cambedo, em que se aconteceram as mortes de Juan Salgado Rivero e Bernardino Garcia, e a detenção de Demetrio Garcia Alvarez, em 22 de dezembro de 1946. Foi esse o mesmo ano em que Manuel Perez Rodriguez, galego que tinha estado refugiado duas vezes no norte de Portugal, a segunda em Castro Laboreiro, regressou à sua aldeia natal depois de ser apanhado em 1944 no Ribeiro de Baixo e ser conduzido a Madrid por estar implicado num processo militar. Dez anos depois de começar a guerra civil espanhola, Manuel Pérez Rodriguez podia contemplar desde a sua casa natal a ressaca de anos de efervescência na raia castreja, com a paulatina desaparição dos grupos de refugiados instalados no norte de Portugal. Ainda hoje, aos seus noventa e quatro anos, pode continuar a olhar para a raia, o pedaço de brumosa raia, perguntando-se pelas razões pelas quais um homem como ele, um silencioso protagonista da História, havia de ser vítima de dois fenómenos repressivos peninsulares do século XX, transformando-se assim, como tantos outros, num galego em fuga de Franco e da Repressão, num galego vítima de Salazar."




Extraído de: GALLARDO, Angel Rodriguéz (2007) - Refuxiados e Fuxidos nos Montes de Laboreiro. Cuaderno Arraiano, Verão 2007.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Viagem ao Convento de Paderne em fotos pelo século XX



Desconhece-se a data exata da fundação do Mosteiro de Paderne. Sabe-se contudo que será mais antigo que a independência da nação portuguesa. Na sua origem seria uma comunidade feminina, antes de ser exclusivamente masculina e pertencente aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. A extinção da comunidade monástica ocorreu em 1770 e aquelas pedras guardam segredos da sua longa História que importa perpetuar.
Hoje proponho-vos uma viagem por uma coleção de fotografia da igreja e convento de Paderne de várias épocas ao longo do século XX. 

(Clique nas imagens para as ampliar)




Feira em Paderne em inícios do século XX (postal da época)

Convento de Paderne em postal circulado em 1907

Convento de Paderne em postal circulado de 1914
(Ilustração pintada sobre fotografia)


Fachada da Igreja do Convento de Paderne (Melgaço) em 1916.
Esta foto consta na capa da publicação "Ilustração Catholica", ligada à diocese de Braga na edição de 14 de Outubro de 1916 , nº 172.

Igreja do Convento de Paderne (Melgaço), em 1918
Cliché de Marques Abreu.
Livro "Arte Românica em Portugal"
Pórtico e fachada na Igreja do Convento em 1918
Esta foto consta do livro "Arte Românica em Portugal". 
Cliché da autoria de Marques Abreu.

Pórtico principal da Igreja do Mosteiro de Paderne, Melgaço, em 1918
Cliché de Marques Abreu.
Fonte: Livro "Arte Românica em Portugal".

Igreja e Convento de Paderne algures na década de 1920
(Arquivo Municipal de Melgaço)

Igreja do Convento de Paderne em postal da década de 1920

Igreja e convento de Paderne em 1932
(Arquivo Municipal do Porto)

Igreja e convento de Paderne em 1932
(Arquivo Municipal do Porto)

Claustro do Convento de Paderne em 1932
(Arquivo Municipal do Porto)

Porta lateral da igreja de Paderne em 1932
(Arquivo Municipal do Porto)

Igreja do antigo Mosteiro de Paderne (Melgaço), por volta de 1940.
Fonte: Espólio Cassiano Branco (Arquivo Municipal de Lisboa).

Igreja de Paderne por volta de 1940.
Fotografia que preenche a frente de um postal da autoria de Foto Pires.

Igreja de Paderne na década de 1940.


Mosteiro de Paderne por volta de 1950
Fotografia que preenche a frente de postal da autoria de Foto Pires


Igreja do Convento de Paderne (Melgaço) em 1954.
Foto de Mário Novais

Pórtico Principal da Igreja do Convento de Paderne (Melgaço) em 1954.Foto de Mário Novais


Fachada frontal secundária da Igreja do Convento de Paderne (Melgaço) em 1954.
Foto de Mário Novais

Pórtico da Igreja algures na 2ª metade do século XX


Igreja de Paderne em postal dos anos 70.

Igreja de Paderne em postal dos anos 90

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Sobre crenças antigas das gentes de Melgaço há 100 anos atrás




Foi no início do século XX que se fizeram algumas das mais importantes recolhas da tradição oral das gentes de Melgaço, sobretudo da autoria de José Leite de Vasconcelos. Alguns destes estudos debruçam-se sobre as crenças antigas e rituais para s mais variadas situações do quotidiano. 
Por exemplo, era comum na época, na nossa terra, a crença de que as crianças, quando ainda estavam por baptizar, se encontrarem em perigo, acrescendo o perigo quando saem de casa. Dizia-se que quando os meninos estão por baptizar e andam ao collo da mãe, é preciso pôr-lhes atravessados no braço as calças do pae, para as bruxas os não levarem”. O estado de “excecionalidade” destas crianças colocam-nas em situações de risco muito graves. “Neste estado de desgraça ficam mais sujeitas a sofrer acções sobrenaturais e outros males. As mães devem pôr debaixo do travesseiro uma meada de linho ou estopa, sem cozerem, quer dizer, sem ser fervida [porque se ferve a meada com cinza-barrela, para ganhar a cor branca], a fim de evitar que as bruxas ou o Inimigo lhes façam mal” (VASCONCELOS, J. L., 1985). Segundo a crença religiosa cristã, a criança nasce com o pecado original desaparece com o batismo, daí o facto de as crianças nesta época serem batizadas, geralmente, nos dias seguintes ao seu nascimento. Havia o receio de que morressem em pecado.
Leite de Vasconcelos ouviu em Prado, neste concelho de Melgaço, falar em «más vistages que fazem mal à gente» e de más olhadas, dadas por gente que tem vista fina, que quebra vidros. Para talhar ou cortar uma olhada ruim, que causa dor de cabeça, pega-se em areia de sal virgem (que não serviu) e, benzendo o doente, diz-se:
Dois olhos me feriram,
E quatro me sararão
Dois sejam de Nossa Senhora:
E dois de S. João.
Pela graça de Deus e da Virgem Maria
Um padre-nosso e uma ave-maria.”
(VASCONCELOS, JL, 1985)
Voltando às fadas, Leite de Vasconcelos também nos diz que “em Melgaço, lava-se a criança, pela primeira vez, com água em que se deita prata ou ouro (um anel, por exemplo) e diz-se:
Boas auginhas te lavem,
Boas fadas te fadem,
Pela graça de Deus e da Virgem Maria Nossa Senhora”.
No concelho de Melgaço, faziam-se também os chamados "batizados na barriga". Levavam a mulher para debaixo de uma ponte que tenha nome de santo, antes da meia-noite, e a primeira pessoa que passar a ponte depois da meia-noite, ainda que seja o Diabo, é obrigada por bem, ou à força, a fazer o baptismo, que consiste em deitar água do ribeiro ou rio que passa sob a ponte na barriga da mulher com um púcaro de barro vidrado, novo, que se enche de cima da ponte, atado a um cordão (as mulheres desapertam a blusa, deitando-se-lhes a água por aí, ou abaixavam um pouco a saia na cinta, mostrando um pouco do ventre, ou ainda levantam a saia, lançando-se-lhes então a água por baixo), e dizendo as seguintes palavras: «Eu te baptizo com a água do rio em nome do Padre e do Filho». Depois disso, à pessoa que fez o baptismo, é servido vinho e comida com muitas tostas até que não queira mais. A pessoa que faz este baptismo é também a que depois vai servir de padrinho, na igreja (VASCONCELOS, JL, 1985).
Na época, havia na freguesia de Paços, um homem chamado Manuel Afonso, nascido em Castro Laboreiro, conhecido como o “Sábio de Vila Draque”. Conforme o registo de Leite de Vasconcelos, o «Sábio de Vila Draque» curava certas doenças pegando num pedacinho de aço, posto em cruz na casa, ou na cama sobre o doente, e dizendo a seguinte oração: «Ó aço, que picaste em terra, sirvas para benefício da minha casa! Deixa este corpo são e salvo!». Acrescenta o mesmo autor que o «bruxo» possuia «um pedaço de aço de três pontas que mandou fazer a um ferreiro e benzeram-lho num convento». (VASCONCELOS, JL.,1985).
Há um século atrás, ouvia-se falar também de ensalmos para talhar o ar sendo que o investigador descreve-nos como se proceder para levar a cabo um ritual:
Toma-se sal virgem (que nunca tenha servido), e com ele na mão, fazem cruzes sobre o rosto do paciente, dizendo:
Talho mau ar,
Corrimento [dos ventos]
E tolhimento
Bota-te fora deste corpo,
Vai-te para o mar coalhado:
Ar de vivo,
Ar de morto,
Ar de excomungado,
Ar de empecimento
E ar de inveja,
Q’antas calidades d’ares
Possa haver e empecer,
Eu te desconjuro
Para o mar coalhado.
Deixa este corpo
São e salvo
Como na hora
Em que foi nado.
Deita-se o sal em cruz para trás das costas do doente e para os lados. Toma-se mais sal miúdo e coloca-se com cuspo na testa, queixo e fontes, dizendo, simultaneamente:
Nada tirei,
Mezinha farei
Pela graça de Deus e da Virgem Maria”.
Num tempo em que as crenças ocupavam um lugar muito importante na vida das gentes, existiam também rituais para desmanchar um feitiço. Para tal, tomava-se um quartilho de azeite, benzido por um padre que não seja amante de mulheres e o indivíduo com feitiço vomita-o imediatamente (recolha feita em Melgaço em 1918). Para se saber se alguma pessoa tem quebranto, deitam-se três pingos de azeite em água: se o azeite se espalhar tem, se ficar junto não tem.
Uma outra crença da época em terras de Melgaço estava ligada a “encomendar ou  aumentar as almas” e consistia em ritual no qual se lembravam os nomes das almas para as encomendar a Deus. A encomendação é realizada dentro de um signo-saimão (parecido com uma estrela de cinco pontas, para o operador não ser tentado pelo Diabo, concluindo a cerimónia com a exclamação: «Peço um Padre Nosso e uma Ave Maria por todas as almas em geral que estão nas penas do purgatório», seguida da respetiva recitação em voz muito alta. Em Castro Laboreiro, consoante informação que deram ao antropólogo José Leite de Vasconcelos, um homem ia (às quartas e sextas-feiras, de noite) a um lugar ermo e alto, armado, «por causa das coisas más», desenhava um signo-saimão no chão (parecido a uma estrela de cinco pontas), de modo que uma árvore ficasse no meio dele, subia a ela e, em voz fúnebre, entoava um cântico religioso, com o qual provocava medo a quem o ouvisse.
E muitas mais crenças ficam por contar…


Informações extraídas de:
- MARQUES, Alexandre da Silva (2014) – Lugares da Memória – A Ponte da Mizarela. Instituto de Ciências Sociais; Universidade do Minho, Braga.
- VASCONCELOS, José Leite de (1985) – Etnografia Portuguesa. Volume III, Tradições Portuguesas.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Melgaço no "Paíz dos Conspiradores" (1911)




Após a implantação da República a 5 de Outubro de 1910, muitos opositores ao novo regime político refugiaram-se no norte do país onde a simpatia para com a Monarquia era um pouco maior. Nas fronteiras do Minho e Trás os Montes, a perseguição aos monárquicos estendeu-se por vários anos. Alguns refugiaram-se na Galiza, havendo boatos que estariam a preparar uma invasão para restabelecer a Monarquia. As fronteiras de São Gregório e Castro Laboreiro eram dois pontos onde se suspeitava que os opositores ao regime republicano pudessem atravessar a fronteira.
Bem sintomática é uma reportagem publicada na revista “Ilustração Portugueza”, na edição de 3 de Julho de 1911, intitulada “No Paíz dos conspiradores”, referindo-se assim à fronteira do rio Minho entre S. Gregório (Melgaço) e Caminha, que inclui várias fotografias de S. Gregório.

Excerto da fotoreportagem "No Paíz dos Conspiradores",
in: "Ilustração Portugueza", edição de 3 de Julho de 1911.

Havia jornais e outras publicações que referiam Melgaço como sendo um dos pontos fronteiriços onde havia células de resistentes à República e que articulavam com os monárquicos refugiados na Galiza. Havia por aqui, segundo algumas fontes, depósitos de armas escondidas. Isso é-nos mostrado numa publicação da época afeta aos republicanos, “O Carbonário”, na sua edição de 2 de Julho de 1911, onde é citado o depoimento de um tal Botelho de Sousa que terá conhecimento de apreensões de armas na Galiza para serem passadas para Portugal e outro armamento que terá mesmo conseguido passar a fronteira. Essa apreensão teria sido feita por republicanos espanhóis. O mesmo Botelho de Sousa refere que se não fosse a sua vigilância aturada, todo esse armamento tinha passado a fronteira, como estou convencido que passaram outras remessas numerosas, que a esta hora estão acoitadas em logar seguro”. Então, o jornalista pergunta: “Em que região?” Botelho de Sousa esclarece: Em várias... Mas, estou convencido de que, se procurarem em Suajo, Peso de Melgaço e Monsão, lá encontrarão alguma cousa...”.
Nesta altura, a caça aos inimigos da República também passou por Melgaço. Como se vê, havia boatos na imprensa que nas Termas do Peso se encontravam indivíduos afetos à causa monárquica que importava neutralizar. No “Jornal do Commercio”, na sua edição de 20 de Maio de 1911, podemos ler uma notícia da prisão de um suposto monárquico no Hotel Ranhada. A notícia diz o seguinte: “No Hotel Ranhada do Peso, foram presos por uma força da Guarda Fiscal, comandada pelo Tenente Lebre, e conduzidos à administração do concelho, José Bentes Pereira, grande capitalista portuense, e seu sobrinho, quintanista de Direito da Universidade de Coimbra.
Deu lugar à prisão daqueles dois cavalheiros a singular ideia de que conspiravam contra as instituições actuais.
Após troca de telegramas entre o administrador do concelho e o governador civil de Viana do Castelo, foram aqueles cavalheiros postos em liberdade, ficando assim estabelecida a certeza de que a sua estadia nas Águas do Peso em nada se prendia com conspiratas.
Alguns dos senhores republicanos são mais papistas que o Papa. Em todos, ainda nas pessoas mais inofensivas, vêem conspiradores e daí os vexames que lhes infligiram, que afinal resultam em verdadeiros fiascos.
José Bentes Pereira, um homem da mais alta consideração, chegou já a sua casa do Bom Jesus do Monte”.


Estes boatos que apontavam para uma conspiração ao regime republicano e uma invasão a partir das fronteiras do Minho nunca se concretizaram. Algumas destas notícias fazem parte de uma intensa propaganda do novo regime republicano contra os partidários do causa monárquica. As únicas incursões monárquicas realizaram-se a partir da fronteira transmontana entre Chaves e Bragança entre 1911 e 1912.