sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Castro Laboreiro na Guerra da Restauração (1640-1668)



Em Melgaço, durante a Guerra da Restauração, as operações militares decorreram sobretudo ao longo da fronteira do Trancoso e na chamada raia seca. Num trabalho de João Garcia e Luís Moreira, os autores dão-nos uma luz sobre as movimentações dos exércitos na raia castreja e na região. "A Guerra da Restauração, que durou entre 1640 e 1668, transformou a Província de Entre Douro e Minho, e em especial o espaço de entre Minho e Lima, num dos principais palcos da guerra, ainda que nenhuma das grandes e decisivas batalhas tenha sido travada. As razias, os saques, a destruição infligida e a manutenção de um clima bélico como consequência da presença de importantes efetivos militares inimigos, revelaram-se decisivos para a vitória portuguesa.
No Minho, as ações militares iniciaram-se logo em 1641 e, enquadradas na estratégia nacional definida pelo Conselho de Guerra, revestiram-se de um caráter ofensivo sob o comando do 2º Conde de Castelo Melhor. Tais ações só se tornaram possíveis graças ao reforço por parte de vários contingentes de oficiais e soldados mercenários, especialmente franceses, que as primeiras embaixadas de D. João IV a França tinham conseguido, sob o patrocínio do Cardeal Richelieu.
Nestes contingentes de mercenários vieram alguns oficias de artilharia e de engenharia, com a missão de dirigirem as obras defensivas, de organizarem as unidades, de transmitirem os seus conhecimentos aos oficias portugueses e de procederem ao reconhecimento cartográfico do território. Para além de Charles Lassart, que se converteu em Engenheiro-mor do Reino, outros oficiais engenheiros, franceses e holandeses, estabeleceram-se nas várias províncias portuguesas, desempenhando papéis de grande relevo. Mereceram destaque os nomes de Nicolou de ~Langres, Nicolau de Lille, Jean Guillot, Pierre-Gilles de Saint-Colombe, Alain de Manesson Mallet, Jan Ciermans mais conhecido por Cosmander e, em particular, para o Entre Douro e Minho, George Duponsel e Michel Lescolles.

Castelo de Castro Laboreiro (desenho de Duarte d'Armas) no início do século XVI

Auxiliados pelos mercenários franceses, os soldados dos terços de Entre Douro e Minho conquistaram Salvaterra de Minho, frente a Monção, em 1643, tendo os engenheiros Anverts e Duponsel fortificado o lugar "à moderna". Esta conquista motivou um forte contra-ataque galego, lançado de forma sistemática entre  1643 e 1644, quer ao longo da linha do rio Minho (Lanhelas e Vila Nova de Cerveira), quer na raia seca, tentando a conquista do Castelo de Castro Laboreiro.
O novo comandante militar da Galiza, Enrique Pimentel y Guzman, 5º Marquês de Tavara, avançou sobre Castro Laboreiro com uma força de 4000 homens de infantaria apoiada por 200 homens de cavalaria. Contudo, e segundo D. Luís de Menezes, 3º Conde da Ericeira, os 25 soldados portugueses coadjuvados por 200 paisanos, dirigidos pelo Governador Pedro faria, opuseram uma defesa resoluta, repelindo todas as tentativas realizadas pelos espanhóis. Mais épica é a descrição de Fr. Rafael de Jesus, na Monarchia Lusitana: "Com o numeroso poder de 5000 infantes, e 300 cavallos entrou o castelhano pello concelho de Castro Laboreiro sahindo da Galiza por onde chamam a raya seca, terra assi montuosa, e áspera, que para se embrenharem a buscam as feras daquelles contornos. No mais alto pináculo de sua extremidade está situado o Castelo que chamão de Castro Laboreyro, então guarnecido por 25 soldados, e duas roqueiras, e governado pelo Capitão Pedro de Faria, valente e animoso Cabo. Por vezes, intentou o inimigo ganhar o castelo, e de todas largou a empreza tímido do estrago, que viu em seus soldados rodando pelas fragas, e despenhos do monte empelidos do tope, e da força das pedras, que os obrigavam a cair, e rodar. A inclinação, a que provocaram os mortos, e feridos, desfogou o Galego em queimar algumas palhotas dispersão tam pobres, e tam limitadas, que mais pareciam curraes de brutos, que abrigo de racinaes”.
Ainda em 1644, de Castro Laboreiro sairá a contra ofensiva portuguesa, para defender a fronteira de Trás-os-Montes. A descrição do mesmo cronista revela conhecimento geoestratégico da região, sem dúvida baseado na cartografia: “Abatida a arrogância de Castela pellas fronteyras da Galiza, como deixamos referido; e avisado o Conde de Castello Melhor da ouzadia com que pellas fronteyras de Traz os Montes infestava o inimigo as campinas de Chaves, se deliberou em as socorrer. (…) saíram de Castro Leboreiro, e atravessaram um grande cotovelo de terra que o Reyno da Galiza mete pello de Portugal, destruindo e queimando tudo quanto encontravam assi de oposição, como de lugares (:::) entrando em Chaves, aproveitados e indeminutos; e poupando assi o trabalho, e a dilação do rodeo, nas sete légoas de atalha: o que não fizeram de volta, marchando por terras de Portugal até à Província de Entre Douro e Minho.
Uma nova tentativa de invasão pela Chã de Castro foi feita 1649, quando algumas forças espanholas, depois de terem infrutiferamente tentado conquistar o Castelo de Lindoso, marcharam sobre Castro Laboreiro, na esperança de recorrer algum gado e alguns mantimentos mas, uma vez mais, foram rechaçados pelas forças portuguesas aí estacionadas.
A esta primeira fase ofensiva da guerra seguiu-se, de acordo com os preceitos estratégicos do Conselho de Guerra, um período essencialmente defensivo. A mudança da conjuntura geopolítica internacional (Paz da Vestefália, em 1648), e a eminente derrota da revolta da Catalunha, permitiram que o governo de Filipe IV concentrasse os seus esforços na recuperação do território português. Assim, em toda a fronteira de Entre Douro e Minho, e ao longo da década de 1650, foi tempo de reforçar e de reestruturar as fortalezas e Praças fortes: a Ínsua, em Caminha, Cerveira, Valença, Monção e Melgaço, para além dos pequenos fortes e fortins construídos em locais estratégicos com o intuito de travar a progressão das tropas inimigas.
Todas estas obras defensivas, exigiram planos detalhados, pelo que, os engenheiros militares realizaram vários levantamentos topográficos e cartográficos a diferentes escalas, neles se destacando o papel desempenhado pelo oficial francês Michel de Lescolles. Também para o planeamento das ações militares, à escala regional, a cartografia revelou-se um preciosa instrumento, especialmente numa altura em que a Espanha desenvolveu uma forte ofensiva em várias frentes.

Planta e alçado do Castelo de Castro Laboreiro (1650)

O ataque espanhol sobre o eixo Valença-Monção, em 1657-1658, permitiu, por um lado, a estabelecimento de uma testa-de-ponte no rio Minho, ligando os fortes de Amorin, na margem galega, ao de S. Pedro da Torre, na margem portuguesa e, por outro, a recuperação do forte de Salvaterra de Miño e a conquista de Monção, após quatro meses de cerco, em Fevereiro de 1659. Deste modo, ficaram cortadas as comunicações entre Valença e Vila Nova de Cerveira e entre Valença e Melgaço, pelo vale do Minho.
Quanto a Castro Laboreiro, temos notícias de um ataque em Junho de 1658, mas os espanhóis foram repelidos com perdas de certa importância: 18 mortos, 40 feridos, o Governador de Bande prisioneiro. No ano seguinte, a 18 de Novembro, um raio atingiu a torre medieval destruindo-a por completo, assim como os edifícios circundantes, entre os quais a capela de Nossa Senhora dos Remédios.
Àquela ofensiva, seguiram-se outras logo a partir de 1660-61, tendo o exército espanhol invadido e ocupado quase todo o território entre Minho e Lima, a partir do eixo Monção-Ponte da Barca-Braga. Dificilmente. Dificilmente foi possível travar a marcha do inimigo que, ainda assim, conquistou o castelo de Lindoso, tendo-o reforçado com uma cintura de muralhas “modernas”.
Durante alguns anos, toda a raia seca ficou à mercê do exército galego que, mesmo após a recuperação de Lindoso pelas forças portuguesas, em 1663, conquistou Castro Laboreiro, em 1666, ainda que de forma efémera, pois D. Francisco de Sousa, 3º Conde de Prado, comandante das forças portuguesas, entre outras ações, reconquistou Castro Laboreiro."


Extraído de: GARCIA, João C & MOREIRA, Luís M. (2009) - Castro Laboreiro na Guerra da Restauração: análise de duas plantas do castelo. Separata do Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pedia-se uma estrada para Castro Laboreiro (1920)




Há cerca de 100 anos, para ir da vila de Melgaço para Castro Laboreiro, a viagem fazia-se por um antigo e tortuoso caminho que passava por Fiães e Alcobaça. A viagem fazia-se geralmente recorrendo a animais (mulas, burros ou cavalos) e levava de 6 a 8 horas dependendo da carga. O caminho não tinha condições para lá circular um dos raros automóveis que havia na terra. Na época, em 1920, tinha começado a ser publicado o jornal de Castro Laboreiro "A Neve" que se assumia como defensor dos castrejos e que dispunha a pugnar pelos interesses das gentes castrejas. Na sua edição de 20 de Novembro de 1920, encontramos um texto onde o autor chama à atenção da necessidade de se construir uma estrada que ligasse terras castrejas a Melgaço e que rompesse com o isolamento: "Visto que de hoje para o futuro teremos um jornalzinho para lançar ao país as nossas reclamações, principiemos. Precisamos de uma estrada. Já tantas vezes a tem prometido sem cumprirem a sua promessa que, para o futuro, duvidaremos de tudo mais, que nos prometam.
Agora seremos nós a pedi-la. Demorará, bem sabemos, mas ao menos que os nossos filhos tenham a satisfação de se aproveitar dela.
Que vantagem não traria tanto a Castro Laboreiro, como às localidades por onde passasse e mesmo a Melgaço essa estrada tão desejada?
Sabemos que está em projeto e que os engenheiros já fizeram as devidas marcações, mas sempre tudo como dantes!
Até agora tem-nos saciado com promessas. Mas cá nos encontramos em ocasião propícia, para lhe contarmos uma história. Os velhos amigos estão ausentes sem bilhete de volta e os que cá ficaram vendo a forma como isto corre, que devem fazer? Não saberei responder a esta pergunta. Eles que o façam. Diremos mais: estamos numa situação muito crítica.
O comércio mudou aos artigos os preços que eles tinham. Na indústria, a mão de obra encareceu pois os operários, não lhe chegando o ordenado, tiveram que pedir o aumento do referido ordenado para o equilibrarem com as assustadoras despesas.
O agricultor por sua vez também tem que também ter que elevar os preços aos seus géneros para justamente acompanhar a civilização dos preços dos géneros. E até o Governo entre nesta onda de doidice, pois promulga agora num dia uma imensidade de leis que no dia seguinte revoga, para dali a dias tornarem a valer. A próxima moeda, quem o diria, anda tão tolinha que ninguém a percebe! Daqui a pouco tempo teremos de a reformar por ser incapaz de todo o serviço. Não há nada que não endoidecesse.
Olhem para o tempo! Às vezes, pensamos ter um dia de Verão e fazemos logo os nossos projetos, logo ele se revolta e zás!, chuva, neve, vento, trovoadas, etc. Olhando para isto como não há-de a vida estar mais cara?! E esta gentinha que tudo compra e a quem faltam os recursos, como há-de viver?
Precisa comprar tudo a peso de ouro e às vezes nem assim se obtém. Como fazer? Não o direi também. Adivinhem-no. Os preços qual balão com vento favorável, sobem até desaparecer na obscuridade das nuvens, sendo preciso um binóculo de longo alcance para os não perder de vista.
Algumas pessoas têm-se arriscado a ir no balão sem medo. Esses têm sido os felizardos, pois têm tirado loucas vantagens ao passo que os que esperam que o balão se incendeie, apenas vivem de esperanças como os sebastianistas. Nós, o povo escravo de Castro Laboreiro, estamos nas mesmas condições. As nossas esperanças são como as dos sebastianistas.
Olhamos para as casas, vemo-las com o mesmo colmo, alongamos a vista pela montanha, aparecem-nos as mesmas fragas, os caminhos sempre os mesmos! Mas voltemos ao assunto principal. Os caminhos estão velhos e intransitáveis. Isto assim não pode continuar. Não deixemos que nos esqueçam.
Gritemos sempre bem alto, para que nos ouças os que estão lá no poder:
Queremos uma estrada!
Queremos uma estrada!"
A estrada só chegaria a Castro Laboreiro mais de 25 anos depois...



Fonte: Jornal "A Neve", edição de 20 de Novembro de 1920.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A Cruzada de S. Gregório (Melgaço) em tempos da Guerra Civil




A primeira metade do século XIX pelas bandas de Melgaço e no Alto Minho em geral é quase anárquica. ESTEVES, A (2006) conta-nos, no seu trabalho que “em 1818, as povoações ribeirinhas do rio Minho, quer do lado português, quer da Galiza, eram constantemente atacadas por bandos de salteadores encapuzados, que não só roubavam como invadiam as aldeias, intimidando as populações com tiros e ocupando tabernas e vendas. Alguns destes bandos tinham motivações políticas e contavam, inclusive, com a conivência do poder judicial”. Em Melgaço, o mais célebre era o bando do Tomás das Quingostas, que chefiava um bando de salteadores que no entanto tinha uma conotação política traduzida na lealdade a D. Miguel e à causa absolutista. Além deste, no nosso concelho, existia desde 1827, um outro bando numeroso conhecido na época como a “Cruzada de S. Gregório”, por se encontrar supostamente sediada no dito lugar da freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço. Era formado, segundo registo documental, por cerca de 120 homens, entre soldados de infantaria, provavelmente desertores, e voluntários da terra. Tem a particularidade de quase a quase totalidade dos seus efetivos serem naturais de Cristóval e um número significativo de S. Gregório conforme se pode comprovar nos documentos mostrados abaixo. O seu objetivo era defender na região os interesses de D. Miguel na sua pretensão ao trono, antecipando uma possível guerra civil que se veio a concretizar.
Qual a origem destes bandos com conotação política? Temos que recuar ao momento da morte do rei D. João VI em 1826. O herdeiro do trono seria o seu filho D. Pedro, imperador do Brasil que não poderia suceder a seu pai por ocupar o trono do Brasil. Assim, D. Pedro abdica do trono português em favor de sua filha D. Maria da Glória que contava à época com apenas 7 anos e por isso ficou D. Miguel como regente até D. Maria atingir a maioridade e assumir o trono. Entretanto, D. Miguel tinha ordenado a criação de grupos de milícias populares a que chamou “Companhias de Voluntários Realistas” para defender a sua causa nas diferentes regiões do reino. Entre 1826 e 1828, encontrava-se estacionada em S. Gregório a “Primeira Companhia de Voluntários Realistas de S. Gregório na Província do Minho que defenderam os Direitos de El-Rey Senhor D. Miguel I”. Era formada por alguns militares de carreira e por uma maioria de voluntários oriundos de Cristóval, sendo boa parte de S. Gregório, entre outras freguesias de Melgaço. Esta milícia seria dissolvida em Julho de 1828.
Em 1828, D. Miguel acaba por proclamar-se rei absoluto, contando com importantes apoios na sociedade portuguesa. Mais tarde, D. Pedro abdica do trono brasileiro e regressaria a Portugal com vista a destronar D. Miguel. Começa em 1828 uma guerra civil entre absolutistas, partidários de D. Miguel, e liberais, apoiantes de D. Pedro que irá durar até 1834 com a vitória dos liberais e o exílio para D. Miguel.
A “Cruzada de S. Gregório”, além de manter uma ação de terror, à semelhança de outros grupos de operavam em terras melgacenses na época, participou em ações militares durante a Guerra Civil contra os liberais. Entretanto com o fim da guerra, em 1834 com a derrota da causa absolutista, a sua ação não terminou. Contudo, viria a ser desmantelado e os seus membros perseguidos pelas tropas liberais. A “Cruzada de S. Gregório” era liderado pelo Capitão Manuel Joaquim Veloso, natural de S. Gregório (Cristoval - Melgaço) sendo este capturado em quatro de Novembro de 1834 e julgado e condenado em Junho de 1836.
A não aceitação da vitória liberal por parte deste bandos afetos à causa absolutista, contribuiu para o desenvolvimento de uma política de guerrilha. Constituiu o primeiro passo para a continuação da atividade destes bandos organizados, que se dedicavam à prática de todo o tipo de atentados e se refugiavam nas terras altas de Melgaço como por exemplo Castro Laboreiro e por vezes até passavam a fronteira.
Apesar da detenção, no decurso do ano de 1835, de algumas das figuras destacadas da guerrilha, e, Janeiro de 1836 o provedor de Melgaço traçou um cenário desolador. Algumas estradas, nomeadamente a que ligava a freguesia de Penso a Valadares, estavam praticamente intransitáveis, devido ao clima de medo imposto por bandoleiros, sendo o mais conhecido o tal Tomás das Quingostas, que deambulavam por aquelas terras. Por outro lado, funcionários judiciais recusavam-se a entrar nas aldeias e afixar editais contra eles, com receio de perder a vida, imperando, por isso, um verdadeiro clima de medo e delação. (ESTEVES, A., 2006)
Nos tempos a seguir ao fim da Guerra Civil em 1834, em Melgaço,os bandos de criminosos prosseguiram com os atentados contra a propriedade pública e privada. Para a sua persistência contribuiu, decerto, a opulência de alguns e a miséria de muitos, o que servia para aguçar a cobiça dos mais pobres, lançando-os na pilhagem de bens que lhes eram inacessíveis devido à indigência em que estavam mergulhados. Por outro lado, a organização judicial era alvo de críticas, nomeadamente a instituição do júri, por ser considerado impreparado para o julgamento de crimes mais graves e permitir a soltura de alguns dos seus autores. Em 1836, quando decorria o julgamento de Manuel Joaquim Veloso, líder da quadrilha denominada “Cruzada de S. Gregório”, o administrador do concelho de Melgaço teve conhecimento de que os seus antigos apaniguados tinham subornado metade dos jurados. A situação foi resolvida atempadamente e o salteador foi condenado a degredo perpétuo” (ESTEVES, A. 2006).
Tomás das Quingostas apenas seria capturado em 1839 e morto em S. Paio, na Ponte de Alote pelos soldados supostamente por ter tentado escapar.






sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Cozer o pão em Castro Laboreiro: crenças e orações




Os singulares costumes e tradições das gentes de Castro Laboreiro davam um longo compêndio. Um dos costumes ímpares nesta terra é o ato de cozer o típico pão castrejo, normalmente em forno comunitário. A importância e a qualidade deste pão desde tempos muito antigos comprova-se pelo facto de ser mencionado no foral, citado pelo Padre Bernardo Pintor, que D. Sancho I concedeu foral a Castro Laboreiro há cerca de 800 anos: «... quando fosse a Castro Laboreiro, o Rei recebia de cada casa 2 pães...».
Em tempos mais recentes, a investigadora Maria Lamas, no seu livro “As mulheres do meu país”, aludindo ao pão de Castro Laboreiro, acrescenta que é «... o mesmo pão negro e grande como a roda de um carro, cozido no forno comum, uma vez por mês, e conservado fora do alcance dos ratos nas prateleiras da "camboeira", suspenso do teto, a um lado da cozinha». O pão de Castro Laboreiro também é referido na obra da autora francesa Mouette Barboff na sua obra “O pão das mulheres”, por serem estas que geralmente o confecionavam.
O ato de cozer o pão em Castro Laboreiro, assim como noutros pontos do nosso concelho e do país, está repleto de rezas e crenças, umas de raiz religiosa e outras de raiz pagã as quais são consideradas pelas gentes castrejas como fundamentais. Localmente, a preparação do pão é assim descrita de forma muito sucinta: «Peneirar a farinha centeia. Peneirar a farinha milha ou triga. Misturar as farinhas e juntar água, sal e o fermento. Mexer com a mão. Amassar e dobrar a massa (palhada).» Como fermento, usa-se massa preparada anteriormente e deixada a levedar durante 12 Horas. Diz a lenda que «a água ou orvalho de S. Pedro quando usada para fazer o fermento não deixa o pão azedar». Pronta a massa, esta é colocada a levedar, durante 4 horas, coberta com um lençol de linho e uma manta de lã, fazendo-se a seguinte reza:

S. Vicente te acrescente
S. Mamede te levede
Imaculada Conceição
Faça de ti bom pão.”

Esta reza tem algumas variações. Por vezes, também se reza com os seguintes dizeres:

São Mamede te levede
São Vicente te acrescente
São João te faça pão
O Senhor te ponha a Sua mão.”

Ou ainda

São Vicente t’acrescente
São João te faça pão
Nossa Divina Senhora
Te ponha a sua mão”.

Enquanto o pão leveda, aquece-se o forno comunitário usando-se em especial a lenha de urze. Quando o forno está bem quente, retiram-se as brasas e com estas na pá fazem-se cruzes dizendo:

«Cresça o pão no forno
O Bem de Deus pelo mundo todo
P'rás feiticeiras um corno
E p'rá parranheira do forno”, e atiram-se as brasas para o chão.

Ao colocar cada broa de pão na pá, para de seguida enfornar, abençoava-se fazendo-se uma cruz sobre a sua carapaça, com um punhado de cinza retirado da fornalha.
No momento de colocar o pão no forno, dizia-se:

Cresça o pão no forno
E o bem de Deus pelo mundo todo
Saúde aos trabalhadores e aos bem feitores
Bruxas de Zangões vão para a
borralheira comer os carvões.”

Tradicionalmente a porta do forno é selada com estrume de bovino para evitar as perdas de calor. O tempo de cozedura é de 2 h aproximadamente, após o que o pão é armazenado na «camboeira».
A “tenda” era o primeiro pão a sair do forno e a ser consumido no interior da estrutura. Diz-se que só se podia “apartar” (partir) a “tenda” com as mãos, e se alguém passasse a lâmina do “cuitelo” (faca) pela “tenda”, as broas que estivessem dentro da “forneca” não coziam bem (CARVALHO, Diana, 2015).




- CARVALHO, Diana (2015) – Castro Laboreiro – do pão da terra aos fornos comunitários. Dissertação de Mestrado. FLUP, Porto.

- LAMAS, Maria (1948) – Mulheres do meu país. Editorial Caminho, Lisboa.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O antigo solar e Quinta de S. Cibrão (Penso - Melgaço): algumas notas históricas


Solar da Quinta de S. Cibrão
(Foto em www.idealista.pt)

A Quinta de S. Cibrão situa-se na freguesia de Penso, no concelho de Melgaço, localizada entre a margem do rio Minho e a estrada nacional, no limite administrativo entre este concelho e Monção.  Hoje, creio ser conhecida como a Quinta da Casa Nova, e trata-se de uma propriedade com um antigo solar e capela no interior e que tem vários séculos de História, encontrando-se aqueles em processo de degradação. O nome da quinta é uma derivação de S. Cipriano, santo a quem tinha sido construída uma primitiva capela dentro da propriedade. De facto, há referências bibliográficas do século XIX que citam que no local onde se encontra atualmente a capela, existiu em tempos muito antigos um templo, de evocação a Júpiter, de origem romana. Contudo, creio não haver provas físicas da existência do mesmo sendo aludido até, como se pode ler adiante, que tal não passaria de um estória inventada para valorizar a quinta.
A Quinta de São Cibrão deve ter passado a pertencer a João de Araújo e Caldas e sua esposa Filipa de Sousa de Faria, por volta de anos 1620, já que alguns filhos deste casal nascerem na freguesia de Paderne e em 1640, estes ainda viviam nesta quinta de S. Cibrão. Posteriormente, foi senhor desta quinta o seu filho, o capitão-mor de Valadares Filipe de Araújo e Caldas, casado com Isabel de Sousa e Castro, e o irmão Manuel de Araújo e Caldas, veio viver para a quinta do Rosal em Valadares e foi sargento-mor. A Quinta de S. Cibrão foi destruída nos anos 1656 pelos Espanhóis, durante a Guerra da Restauração, pelo facto de o capitão Filipe de Araújo e Caldas ter destruído algumas aldeias na Galiza. A quinta depois passou, sucessivamente, para o filho de Filipe Caldas, Luís de Azevedo Araújo que era casado com Maria Teresa de Araújo, seu neto João de Araújo Azevedo casado com Maria Lima de Melo, seu bisneto Manuel Giraldo de Sousa Azevedo "Sottomaior" casado com uma terceira ou quarta prima da quinta do Rosal, Mariana de Araújo Azevedo Sottomaior.
O Padre Carvalho da Costa no seu livro “Corografia Portuguesa”, publicado em 1706, menciona que o nome da Quinta de S. Cibrão refere-se a uma capela dedicada ao dito santo que inclusivamente era, na época, destino de enfermos à procura de curas para certas maleitas. O autor refere acerca desta quinta que Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possui Felippe de Araújo de Caldas, Cavaleiro do Hábito de Cristo, Capitão-mor e Monteiro-mor de Valadares. Tomou este nome de uma capela antiga deste Santo Cipriano, que ali está; é tradição que foi templo da Gentilidade dedicado a Júpiter; o tio é fúnebre e desacomodado no meio de um campo com pouca veneração e menos o fora a não ser advogado das cézoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem ali tremendo e voltam sãos”.
No livro “Portugal Antigo e Moderno”, volume VI, do professor Pinho Leal, publicado em 1875, menciona-se sobre a quinta que “É nesta freguesia a quinta de S. Cybrão, do Sr. Philippe d'Araújo Caldas. Segundo a tradição, no sítio onde está a capela desta quinta, houve um templo romano dedicado a Júpiter. Supõe-se que a existência do tal templo, foi uma fábula inventada para enobrecer esta propriedade, que, mesmo sem aquela circunstância, é notável, pela antiguidade e nobreza dos seus proprietários; e também porque produz óptimo vinho.”
No livro “O Minho Pittoresco”, José Augusto Vieira descrevia a freguesia de Penso, em 1886, como “uma vilota em miniatura” e confirma algumas informações já escritas pelo Padre Carvalho da Costa 180 anos antes. Replica também alguma informação já descrita pelo professor Pinho Leal: “Na quinta de S. Cibrião [Cipriano], é tradição que existiu um templo gentílico, dedicado a Júpiter, no ponto onde está hoje a capela. Há quem diga, porém, que essa tradição foi inventada com o fim de enobrecer a quinta, já de si notável pela família que possui e pelo bom vinho que produz.”