sexta-feira, 8 de março de 2019

A freguesia de Parada do Monte (Melgaço) no tempo dos nossos antepassados




Parada do Monte é uma freguesia que pertence ao concelho de Melgaço há pouco mais de 150 anos. Pertenceu ao antigo concelho de Valadares, tendo estado anexada, juntamente com a Gave, a Riba de Mouro, de Monção. Com a extinção deste concelho, por decreto de 24 de Outubro de 1855, foi desmembrada desta última freguesia, passando a fazer parte de Melgaço. No censo da população de 1864, figura sob a designação de Parada. Segundo o entendimento do saudoso padre Aníbal Rodrigues, o seu topónimo deverá indicar a existência de uma antiga via romana e do sítio onde os viandantes, a pé ou a cavalo, costumavam descansar depois de uma longa e difícil caminhada.
Há mais de 300 anos, mais concretamente em 1706, o Padre Carvalho da Costa, no seu livro refere-se a Parada do Monte nos seguintes termos: “S. Mamede de Parada do Monte, Vigairaria da mesma apresentação, que rende ao todo quarenta mil reis, e para o Commendador sessenta e seis mil reis. Tem cento e cincoenta vizinhos. Aqui se faz o melhor burel de lã das ovelhas Gallegas de todo o mais Reyno, donde he muy procurado para cubertas de camas de lavradores, ou criados, e ainda de muitos nobres para as meterem entre os cobertores. He muy branco, grosso e macio”. O Padre Carvalho da Costa refere-se ainda ao antigo Couto de Val de Poldros, que atingia os limites territoriais da freguesia de Parada do Monte: Nestas montanhas, em em que há muita caça e veação, houve antigamente hum Couto, a q chamavam Val de Poldros, o qual fez, marcou e defendeu Payo Rodrigues de Araujo, de que possui parte seu sexto neto Manoel de Araújo de Caldas, Sargento-mor de Valladares, ainda que atenuado em parte das grandes regalias que tinha”.
Em meados do século XVIII, o pároco Francisco de Caldelas Bacelar de Parada do Monte refere, nas Memórias Paroquiais de 1758, que os frutos que os moradores recolhem em maior abundância é o milho grosso, vulgarmente chamado milho maiz”. Cultivava-se nas leiras que bordejavam as margens do Mouro e onde também cresciam as latadas pois o vinho (12 cabaços) entrava na composição da renda que a freguesia pagava ao pároco. Na serra rodeavam-se as brandas de “centeio, algum milho miúdo, e pouco linho e muita herva no Verão de que fazem os labradores feno para darem de Inverno aos gados”. Mais afirma o pároco que “a criação de gados que tem esta serra é no tempo do Verão trazerem nella os labradores os seus bois de noutte [noite] e de dia dois outros mezes e as bacas e bezerros andam também na serra de dia e à noutte vão procurá-los e recolhem-nos nos lugares das brandas e o mesmo fazem ao gado miúdo de cabras e ovelhas”.
O Pároco de parada do Monte, em 1758, também refere que o rio Mouro tem um “curso arrebattado em toda a sua distância desde o seu nascimento até botar fora dos limites desta freguezia, somente em hum sítio chamado Agras de Mouro corre quite hum tiro de mosquete’. Rio pouco Mais refere que ”somente no tempo de Verão alguns rapazes caçam nelle algumas trutas pouca e pequenas, mas gostozas”.
Segundo LEITE, A. & LEITE, M. (2009), tendo como base as Memórias Paroquiais e ainda pela análise das prestações entregues pelos foreiros e rendeiros aos monges de Fiães e Paderne (MARQUES, J., 1990) é possível reconstruir a composição da dieta alimentar das populações do interior montanhoso do Vale do Mouro. “A base da alimentação era fundamentalmente constituída por caldo de couves e feijões engrossado com farinha de milho à qual, por vezes, se seguia alguma carne de aves de criação, de porco (conservada nas salgadeiras) e em certas ocasiões a do cabrito ou a obtida pela caça nos montes onde abundava a perdiz, o javali e em menor número os corços, cuja carne ‘he como a de vittela” no dizer do pároco memorialista. O pescado raramente entrava nas ementas e limitavase às sardinhas de Caminha descarregadas na Lapela ou vindas de Arbo (Galiza) e vendidas em Melgaço pelas ‘sardinheiras’ (MARQUES. J., 2004). A lampreia, o sável e o salmão “pilhados” nas cabaceiras e botirões armados nas pesqueiras do Rio Minho eram quase exclusivamente consumidos pelas populações ribeirinhas ou pelos monges de Paderne e Fiães, detentores da propriedade de grande parte daquelas construções fixas para a pesca fluvial (LEITE, A., 1999). Recebiam o sal vindo de Caminha em barcos pello Minho acima, até á Lapella e depois em carros até o lugar de S. Gregório, aonde há armazéns, aos quaes se vem prover todos os povos do bispado d’ Orense” (VILLASBOAS, J., 1800).
Em 1758, Parada do Monte possuía cento e oitenta e nove vizinhos [agregados familiares] e quinhentas e vinte e duas pessoas entre grandes e pequenos”. Segundo o pároco, a igreja paroquial tinha três altares estando o da capela-mor dotado de uma tribuna. O seu pároco era apresentado pela reitoria matriz de São Pedro de Riba de Mouro e tinha uma “renda doze mil réis, doze fanegas de pão, doze cabaços de vinha e dois alqueires de trigo pera hóstias, que lhe paga o colhedor dos fruttos desta terra e tem mais de cada freguês cazado hum alqueire de pão e sendo veuvos [viúvos] meio e solteiros hum coarto”.
Na segunda metade do século XIX, a freguesia volta a ser citada em algumas obras de referência da época. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, publicado em 1876, a mesma é chamada de PARADA e descrita como freguesia já não pertecente a Valadares mas à comarca e concelho de Melgaço, 65 kilometros ao norte de Braga, 430 ao norte de Lisboa. Tem 180 fogos [agregados familiares]. Em 1757, tinha 189 fogos. O orago é S. Mamede. Arcebispado de Braga, districto administrativo de Vianna. O reitor de S. Pedro de Riba de Mouro, apresentava o vigário, collado, que tinha de rendimento 130 000 réis.” O autor volta a elogiar a qualidade da lã aqui produzida, nestes termos “Ha n'esta freguezia muito gado lanígero, que produz excelente Ian.” Replica a informação relativa ao antigo Couto de Vale de Poldros: Em Valle de Poldras, limites d'esta parochia, houve um couto, que marcou e defendeu Paio Rodrigues de Araujo. Em 1720, era este couto possuído pelo 6º neto do dito Paio, Manuel d' Araujo Caldas, de Valladares mas tinha já perdido a maior parte dos seus antigos privilégios.” Por último refere que “dá-se a esta freguezia, para a distinguir das outras, o nome de Parada do Monte.
Poucos anos depois, em 1886, é publicado o livro “O Minho Pittoresco”, obra incontornável da época para esta região. Na publicação, diz-se que ”a egreja de PARADA DE MONTE fica um kilometro ao sul do Rio de Mouro e dista de Melgaço uns dez kilometros. Foi reitoria que o reitor de Riba de Mouro apresentava e pertencia ao extincto concelho de Válladares. A freguezia é montanhosa e especialmente se entrega à industria do gado ovino, sendo muito apreciada a sua lã para a fabricação dos buréis e cobertores”. (VIEIRA, J., 1886).



Fontes consultadas:
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- LEITE, Antero & LEITE, Maria Antónia Cardoso (2009) - Parada do Monte, História e Património. ACER;
- MARQUES, José (1990) – O Mosteiro de Fiães, Braga;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa;
- VILLASBOAS, Custódio Jozé Gomes de – Descripção Topographica das Commarcas Fronteiras da Província do Minho, 1800 (inserido em Fernando de Sousa e Jorge Fernandes Alves- ‘Alto Minho. População e Economia nos Finais de Setecentos, Editorial Presença, Lisboa, 1997.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Sobre o traje de noiva típico de Castro Laboreiro (Melgaço)




O traje típico de Castro Laboreiro é de caraterísticas singulares. Foi por isso alvo de estudos etnográficos por alguns dos maiores investigadores na área durante o século XX.
Esta fotografia mostra-nos uma panorâmica da vila castreja em 1915. Onze anos antes, em 1904, já José Leite de Vasconcelos calcorreava os caminhos de Melgaço até Castro Laboreiro para estudar os costumes castrejos. Em relação ao traje típico de Castro Laboreiro, faz-nos, no seu trabalho publicado, uma descrição bastante pormenorizada. Quando chegou a Castro Laboreiro, era dia de feira e o investigador observou “muitos homens juntos: apresentavam-se geralmente de cara rapada, vestidos de çaragoça (jaqueta, calças e collete), traziam chapéus de panno ou carapuça, e varapau. Mulheres, por ser de gado a feira, não andavam lá muitas. O trajo ordinário d’ellas é: camisa; faxa vermelha; collete; jaqueta; saia branca; saiote; saia de cor, quási sempre,preta, feita de foloado «panno de lã de ovelha ou de linho» que se fabrica em Castro; mandil, singuidalho, do mesmo ou de outro panno; na cabeça capella, que pode ser substituída por lenço; nas pernas calções e piúcas, meias sem pés, que se prendem com uma liga ou baraça; e nos pés chancas.(…) No Inverno, tanto homens como mulheres, se abrigam das neves, chuvas e friagens com o corucho, espécie de capuz de burel que se traz na cabeça, e tem uma espécie de aba que se prolonga pelas costas abaixo."
Entre outros estudos etnográficos acerca das vestes típicas de Castro Laboreiro, é de salientar a obra de Alice Geraldes, publicado em 1979, que nos deixa um excelente apontamento sobre o traje de noiva típico de terras castrejas. Sobre o mesmo diz-nos que “a saia era feita de tecido xadrez, da Covilhã. Chegava a ter dois metros de largura e o comprimento ia até ao tornozelo. A beira da saia era debruada com uma fita de lã preta, à qual se seguia uma barra de um palmo de veludilho preto e cima desta uma tira de cetim da mesma cor. A barra de veludo era contornada com um fitilho de lantejoulas e vidrilhos.
A blusa era de castorina de cor escura. apertava à frente com botões e a manga era comprida. Por cima levava um peitilho em renda.
Algumas noivas, nem todas, vestiam um casaco de casimira ou saragoça preta, cujo comprimento não chegava bem à cinta. Aplicava-se-lhe também como guarnição uma tira de veludilho à volta e outra na ponta das mangas.
O "mandil" também preto, ou era de cetim com barra de veludo, ou de veludo com barra de cetim.
Na cabeça levavam as noivas um lenço de seda que, segundo a opinião da nossa informadora, era lindo: dourado, florido com franjas a toda a volta . Atavam as duas pontas sob o queixo.
Usavam ainda um xaile de casimira preta com barras às cores de larga franja tecida. O xaile era simplesmente posto sobre os ombros, sem ser traçado.
A saia, que usavam por baixo, era de linho e enfeitada com rendas e entremeios de crochet.
Ao pescoço, as noivas traziam um cordão de ouro com 3 ou 4 voltas, oferecido pelo noivo. Uma das voltas deste cordão passava por vezes debaixo do braço.
No dia da boda as noivas usavam sapatos.
(…) Segundo informações que nos foram prestadas, o primeiro casamento que se realizou na "Vila" com noiva à moda da cidade, isto é, sem ser à moda da terra, data de há 12 anos atrás [por volta de 1967]. Depois deste, o hábito pegou de forma radical e hoje já ninguém leva o trajo tradicional.
Sobre a quebra de tal costume, uma jovem na casa dos 19 anos, ainda solteira, deplorava que o tradicional trajo de noiva tivesse sido preterido por outro tão incaracterístico e a todos os títulos menos belo. Acalentava o sonho de ir vestida, se o namorado a isso não se opusesse, como as noivas antigas da sua terra, porque, segundo a sua opinião, a modernização não devia destruir o que de belo havia na vida da sua gente. Era uma moça inteligente, que tinha noções concretas e muito bem concertadas sobre o valor da cultura tradicional e do que havia de secundário e essencial nela.”




Extrato em: 

- GERALDES, Alice (1979) - CASTRO LABOREIRO E SOAJO - Habitação, vestuário e trabalho da mulher; Edição do Serviço Nacional de Parque, Reservas e Património Paisagístico, Lisboa.
 LEITE, Antero & LEITE, Maria Antónia M. Cardoso - O Trajo Castrejo. ACER - Associação Cultural e de Estudos Regionais.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O legado de Manuel José Gomes (S. Paio, Melgaço, 1825-1901): o mais famoso pedreiro do seu tempo




Na segunda metade do século XIX, Melgaço conheceu todo o esplendor da arte de trabalhar a pedra pelo maior mestre do ofício do seu tempo. Refiro-me a Manuel José Gomes, mais conhecido na época como o “Mestre do Regueiro”.
Nasceu em Julho de 1825 no dito lugar da freguesia de S. Paio, deste concelho de Melgaço, filho de Manuel José Gomes e de Anna Joaquina de Freitas, lavradores, naturais e residentes no mesmo lugar do Regueiro.
No livro “Padre Júlio Vaz apresenta Mário”, o autor elogia os dotes artísticos de Manuel José Gomes nesta palavras: Em terras de Melgaço, é de crer que nenhum outro artista tenha deixado de si tantas e tão belas memórias escritas no duro granito da região como as que deixou Manuel José Gomes vulgo Mestre Regueiro, canteiro distinto que de toscas e rudes pedras obrou maravilhas. Os seus trabalhos quer pela solidez e perfeição de acabamento, quer pela pureza e harmonia de linhas denotam ter sido ele não só um artista consumado, como também um homem consciencioso e de vistas largas. Não era ceguinho… e no Alto Minho, apenas o deve ter igualado, igualado, mas não excedido, Mestre Francisco Luís Barreiros, de Ponte do Mouro, autor do célebre «Pedro Macau» deste lugar, do sumptuoso e formosíssimo escadório da Santuário da Peneda e de suas respectivas estátuas e de muitos outros não menos apreciados lavores.
Associado com seu irmão António bom artista também, mas muito longe de chegar às solas daquele Mestre Regueiro, deixou no concelho uma obra vastíssima, entre ela os prédios do sr. dr. Pedro Augusto dos Santos Gomes, na Praça da República, do sr. dr. António Cândido Esteves, na Rua Nova de Melo (1873); o que foi do médico Francisco Luís Rodrigues Passos, na Vinha das Serenadas (1885), e o que foi de Joaquim Luís Esteves, na Rua da Calçada; o edifício do Hospital (iniciado em 1875) [e concluído em 1892]; o [casarão onde mais tarde iria funcionar] “Asilo Pereira de Sousa”, em Eiró; o frontal, ou melhor a escadaria, da igreja de Prado (1884) e pouco depois a de Remoães; o artístico e aprimorado cruzeiro do Regueiro (1859) e a capelinha da Senhora dos Aflitos no mesmo lugar (1866); o cruzeiro de Fiães (1875), a pia baptismal e uma imagem em pedra da igreja de S. Paio, cuja perfectibilidade e acabamento dão a impressão de terem sido feitas em mármore, etc., etc.
Porém, o seu maior título de glória, é o falado cruzeiro do Regueiro, onde o artista atingiu, por assim dizer, o sublime. O seu maior título de glória é este, é; mas… ainda assim… tenho para mim que há outra obra à sua autoria atribuída que, se não iguala aquela, pouco lhe ficará a dever. E esta é, nem mais nem menos, do que o arrebatador e elegantíssimo fontanário da Casa do Reguengo (1875) uma joia… uma maravilhazinha em pedra lavrada, desconhecida ou quase da maioria dos Melgacenses.”

Cruzeiro, junto à capela de Nossa Senhora dos Aflitos (S. Paio, Melgaço)

De facto, o cruzeiro junto da capelinha de Nossa Senhora dos Aflitos, no lugar onde nasceu, é a obra maior deste pedreiro e merece uma demorada contemplação. Foi construído em granito, tal como todas as restantes obras mencionadas, e constituído por uma base rectangular de três degraus na qual assenta um plinto paralelipipédico que sustém a coluna de secção circular, com o terço inferior do fuste canelado sendo a parte restante lisa. Sobre este apresenta-se um capitel compósito onde se insere a cruz de braços cilíndricos estriados. Diversas esculturas ornamentam o cruzeiro: sobre o capitel dois querubins suportam coroa encimada por ave; na parte superior do fuste e logo abaixo do capitel encontra-se uma imagem da Virgem vestida de manto e uma pequena estatueta sobre mísula. Todo este trabalho escultórico é de qualidade pela minúcia e perfeição dos lavrados.
Na enumeração das obras do Mestre do Regueiro, o Padre Júlio Vaz, certamente por esquecimento, não citou outra obra admirável de Manuel José Gomes que são as Almas de S. Jerónimo em Parada do Monte, neste concelho de Melgaço.

Almas de S. Jerónimo (Parada do Monte, Melgaço)

Manuel José Gomes, o Mestre do Regueiro, nunca casou nem teve filhos. Faleceu no lugar do Regueiro, onde nasceu e sempre viveu em de Agosto de 1901, com 76 anos de idade. Foi sepultado no adro da igreja de S. Paio no dia 5 do mesmo mês e ano. Ficou a sua herança que chegou até nós.


Informações extraídas de: 
- VAZ, Júlio (1996) - Padre Júlio Vaz apresenta Mário. Edição de Autor.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Castro Laboreiro na Guerra da Restauração (1640-1668)



Em Melgaço, durante a Guerra da Restauração, as operações militares decorreram sobretudo ao longo da fronteira do Trancoso e na chamada raia seca. Num trabalho de João Garcia e Luís Moreira, os autores dão-nos uma luz sobre as movimentações dos exércitos na raia castreja e na região. "A Guerra da Restauração, que durou entre 1640 e 1668, transformou a Província de Entre Douro e Minho, e em especial o espaço de entre Minho e Lima, num dos principais palcos da guerra, ainda que nenhuma das grandes e decisivas batalhas tenha sido travada. As razias, os saques, a destruição infligida e a manutenção de um clima bélico como consequência da presença de importantes efetivos militares inimigos, revelaram-se decisivos para a vitória portuguesa.
No Minho, as ações militares iniciaram-se logo em 1641 e, enquadradas na estratégia nacional definida pelo Conselho de Guerra, revestiram-se de um caráter ofensivo sob o comando do 2º Conde de Castelo Melhor. Tais ações só se tornaram possíveis graças ao reforço por parte de vários contingentes de oficiais e soldados mercenários, especialmente franceses, que as primeiras embaixadas de D. João IV a França tinham conseguido, sob o patrocínio do Cardeal Richelieu.
Nestes contingentes de mercenários vieram alguns oficias de artilharia e de engenharia, com a missão de dirigirem as obras defensivas, de organizarem as unidades, de transmitirem os seus conhecimentos aos oficias portugueses e de procederem ao reconhecimento cartográfico do território. Para além de Charles Lassart, que se converteu em Engenheiro-mor do Reino, outros oficiais engenheiros, franceses e holandeses, estabeleceram-se nas várias províncias portuguesas, desempenhando papéis de grande relevo. Mereceram destaque os nomes de Nicolou de ~Langres, Nicolau de Lille, Jean Guillot, Pierre-Gilles de Saint-Colombe, Alain de Manesson Mallet, Jan Ciermans mais conhecido por Cosmander e, em particular, para o Entre Douro e Minho, George Duponsel e Michel Lescolles.

Castelo de Castro Laboreiro (desenho de Duarte d'Armas) no início do século XVI

Auxiliados pelos mercenários franceses, os soldados dos terços de Entre Douro e Minho conquistaram Salvaterra de Minho, frente a Monção, em 1643, tendo os engenheiros Anverts e Duponsel fortificado o lugar "à moderna". Esta conquista motivou um forte contra-ataque galego, lançado de forma sistemática entre  1643 e 1644, quer ao longo da linha do rio Minho (Lanhelas e Vila Nova de Cerveira), quer na raia seca, tentando a conquista do Castelo de Castro Laboreiro.
O novo comandante militar da Galiza, Enrique Pimentel y Guzman, 5º Marquês de Tavara, avançou sobre Castro Laboreiro com uma força de 4000 homens de infantaria apoiada por 200 homens de cavalaria. Contudo, e segundo D. Luís de Menezes, 3º Conde da Ericeira, os 25 soldados portugueses coadjuvados por 200 paisanos, dirigidos pelo Governador Pedro faria, opuseram uma defesa resoluta, repelindo todas as tentativas realizadas pelos espanhóis. Mais épica é a descrição de Fr. Rafael de Jesus, na Monarchia Lusitana: "Com o numeroso poder de 5000 infantes, e 300 cavallos entrou o castelhano pello concelho de Castro Laboreiro sahindo da Galiza por onde chamam a raya seca, terra assi montuosa, e áspera, que para se embrenharem a buscam as feras daquelles contornos. No mais alto pináculo de sua extremidade está situado o Castelo que chamão de Castro Laboreyro, então guarnecido por 25 soldados, e duas roqueiras, e governado pelo Capitão Pedro de Faria, valente e animoso Cabo. Por vezes, intentou o inimigo ganhar o castelo, e de todas largou a empreza tímido do estrago, que viu em seus soldados rodando pelas fragas, e despenhos do monte empelidos do tope, e da força das pedras, que os obrigavam a cair, e rodar. A inclinação, a que provocaram os mortos, e feridos, desfogou o Galego em queimar algumas palhotas dispersão tam pobres, e tam limitadas, que mais pareciam curraes de brutos, que abrigo de racinaes”.
Ainda em 1644, de Castro Laboreiro sairá a contra ofensiva portuguesa, para defender a fronteira de Trás-os-Montes. A descrição do mesmo cronista revela conhecimento geoestratégico da região, sem dúvida baseado na cartografia: “Abatida a arrogância de Castela pellas fronteyras da Galiza, como deixamos referido; e avisado o Conde de Castello Melhor da ouzadia com que pellas fronteyras de Traz os Montes infestava o inimigo as campinas de Chaves, se deliberou em as socorrer. (…) saíram de Castro Leboreiro, e atravessaram um grande cotovelo de terra que o Reyno da Galiza mete pello de Portugal, destruindo e queimando tudo quanto encontravam assi de oposição, como de lugares (:::) entrando em Chaves, aproveitados e indeminutos; e poupando assi o trabalho, e a dilação do rodeo, nas sete légoas de atalha: o que não fizeram de volta, marchando por terras de Portugal até à Província de Entre Douro e Minho.
Uma nova tentativa de invasão pela Chã de Castro foi feita 1649, quando algumas forças espanholas, depois de terem infrutiferamente tentado conquistar o Castelo de Lindoso, marcharam sobre Castro Laboreiro, na esperança de recorrer algum gado e alguns mantimentos mas, uma vez mais, foram rechaçados pelas forças portuguesas aí estacionadas.
A esta primeira fase ofensiva da guerra seguiu-se, de acordo com os preceitos estratégicos do Conselho de Guerra, um período essencialmente defensivo. A mudança da conjuntura geopolítica internacional (Paz da Vestefália, em 1648), e a eminente derrota da revolta da Catalunha, permitiram que o governo de Filipe IV concentrasse os seus esforços na recuperação do território português. Assim, em toda a fronteira de Entre Douro e Minho, e ao longo da década de 1650, foi tempo de reforçar e de reestruturar as fortalezas e Praças fortes: a Ínsua, em Caminha, Cerveira, Valença, Monção e Melgaço, para além dos pequenos fortes e fortins construídos em locais estratégicos com o intuito de travar a progressão das tropas inimigas.
Todas estas obras defensivas, exigiram planos detalhados, pelo que, os engenheiros militares realizaram vários levantamentos topográficos e cartográficos a diferentes escalas, neles se destacando o papel desempenhado pelo oficial francês Michel de Lescolles. Também para o planeamento das ações militares, à escala regional, a cartografia revelou-se um preciosa instrumento, especialmente numa altura em que a Espanha desenvolveu uma forte ofensiva em várias frentes.

Planta e alçado do Castelo de Castro Laboreiro (1650)

O ataque espanhol sobre o eixo Valença-Monção, em 1657-1658, permitiu, por um lado, a estabelecimento de uma testa-de-ponte no rio Minho, ligando os fortes de Amorin, na margem galega, ao de S. Pedro da Torre, na margem portuguesa e, por outro, a recuperação do forte de Salvaterra de Miño e a conquista de Monção, após quatro meses de cerco, em Fevereiro de 1659. Deste modo, ficaram cortadas as comunicações entre Valença e Vila Nova de Cerveira e entre Valença e Melgaço, pelo vale do Minho.
Quanto a Castro Laboreiro, temos notícias de um ataque em Junho de 1658, mas os espanhóis foram repelidos com perdas de certa importância: 18 mortos, 40 feridos, o Governador de Bande prisioneiro. No ano seguinte, a 18 de Novembro, um raio atingiu a torre medieval destruindo-a por completo, assim como os edifícios circundantes, entre os quais a capela de Nossa Senhora dos Remédios.
Àquela ofensiva, seguiram-se outras logo a partir de 1660-61, tendo o exército espanhol invadido e ocupado quase todo o território entre Minho e Lima, a partir do eixo Monção-Ponte da Barca-Braga. Dificilmente. Dificilmente foi possível travar a marcha do inimigo que, ainda assim, conquistou o castelo de Lindoso, tendo-o reforçado com uma cintura de muralhas “modernas”.
Durante alguns anos, toda a raia seca ficou à mercê do exército galego que, mesmo após a recuperação de Lindoso pelas forças portuguesas, em 1663, conquistou Castro Laboreiro, em 1666, ainda que de forma efémera, pois D. Francisco de Sousa, 3º Conde de Prado, comandante das forças portuguesas, entre outras ações, reconquistou Castro Laboreiro."


Extraído de: GARCIA, João C & MOREIRA, Luís M. (2009) - Castro Laboreiro na Guerra da Restauração: análise de duas plantas do castelo. Separata do Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pedia-se uma estrada para Castro Laboreiro (1920)




Há cerca de 100 anos, para ir da vila de Melgaço para Castro Laboreiro, a viagem fazia-se por um antigo e tortuoso caminho que passava por Fiães e Alcobaça. A viagem fazia-se geralmente recorrendo a animais (mulas, burros ou cavalos) e levava de 6 a 8 horas dependendo da carga. O caminho não tinha condições para lá circular um dos raros automóveis que havia na terra. Na época, em 1920, tinha começado a ser publicado o jornal de Castro Laboreiro "A Neve" que se assumia como defensor dos castrejos e que dispunha a pugnar pelos interesses das gentes castrejas. Na sua edição de 20 de Novembro de 1920, encontramos um texto onde o autor chama à atenção da necessidade de se construir uma estrada que ligasse terras castrejas a Melgaço e que rompesse com o isolamento: "Visto que de hoje para o futuro teremos um jornalzinho para lançar ao país as nossas reclamações, principiemos. Precisamos de uma estrada. Já tantas vezes a tem prometido sem cumprirem a sua promessa que, para o futuro, duvidaremos de tudo mais, que nos prometam.
Agora seremos nós a pedi-la. Demorará, bem sabemos, mas ao menos que os nossos filhos tenham a satisfação de se aproveitar dela.
Que vantagem não traria tanto a Castro Laboreiro, como às localidades por onde passasse e mesmo a Melgaço essa estrada tão desejada?
Sabemos que está em projeto e que os engenheiros já fizeram as devidas marcações, mas sempre tudo como dantes!
Até agora tem-nos saciado com promessas. Mas cá nos encontramos em ocasião propícia, para lhe contarmos uma história. Os velhos amigos estão ausentes sem bilhete de volta e os que cá ficaram vendo a forma como isto corre, que devem fazer? Não saberei responder a esta pergunta. Eles que o façam. Diremos mais: estamos numa situação muito crítica.
O comércio mudou aos artigos os preços que eles tinham. Na indústria, a mão de obra encareceu pois os operários, não lhe chegando o ordenado, tiveram que pedir o aumento do referido ordenado para o equilibrarem com as assustadoras despesas.
O agricultor por sua vez também tem que também ter que elevar os preços aos seus géneros para justamente acompanhar a civilização dos preços dos géneros. E até o Governo entre nesta onda de doidice, pois promulga agora num dia uma imensidade de leis que no dia seguinte revoga, para dali a dias tornarem a valer. A próxima moeda, quem o diria, anda tão tolinha que ninguém a percebe! Daqui a pouco tempo teremos de a reformar por ser incapaz de todo o serviço. Não há nada que não endoidecesse.
Olhem para o tempo! Às vezes, pensamos ter um dia de Verão e fazemos logo os nossos projetos, logo ele se revolta e zás!, chuva, neve, vento, trovoadas, etc. Olhando para isto como não há-de a vida estar mais cara?! E esta gentinha que tudo compra e a quem faltam os recursos, como há-de viver?
Precisa comprar tudo a peso de ouro e às vezes nem assim se obtém. Como fazer? Não o direi também. Adivinhem-no. Os preços qual balão com vento favorável, sobem até desaparecer na obscuridade das nuvens, sendo preciso um binóculo de longo alcance para os não perder de vista.
Algumas pessoas têm-se arriscado a ir no balão sem medo. Esses têm sido os felizardos, pois têm tirado loucas vantagens ao passo que os que esperam que o balão se incendeie, apenas vivem de esperanças como os sebastianistas. Nós, o povo escravo de Castro Laboreiro, estamos nas mesmas condições. As nossas esperanças são como as dos sebastianistas.
Olhamos para as casas, vemo-las com o mesmo colmo, alongamos a vista pela montanha, aparecem-nos as mesmas fragas, os caminhos sempre os mesmos! Mas voltemos ao assunto principal. Os caminhos estão velhos e intransitáveis. Isto assim não pode continuar. Não deixemos que nos esqueçam.
Gritemos sempre bem alto, para que nos ouças os que estão lá no poder:
Queremos uma estrada!
Queremos uma estrada!"
A estrada só chegaria a Castro Laboreiro mais de 25 anos depois...



Fonte: Jornal "A Neve", edição de 20 de Novembro de 1920.