sexta-feira, 10 de maio de 2019

Melgaço na História do Mosteiro da Batalha



O Mosteiro da Batalha foi mandado construir pelo rei D. João I em 1386, em cumprimento de uma promessa pela vitória na Batalha de Aljubarrota em 1385 e que garantiu a preservação da independência lusitana. Todavia, a História do Mosteiro da Batalha ficará para sempre ligada a Melgaço. Porquê?
Em inícios de 1388, a Praça de Melgaço era a única que permanecia nas mãos dos castelhanos pelo que o rei a mandou cercar durante 53 dias até que caiu em mãos lusas em Março do mesmo ano. Foi o próprio rei que veio comandar o seu cerco. Em Melgaço, encontrava-se, entre outros, Frei Lourenço Lampreia, que era confessor do rei e frade dominicano. Enquanto decorria a construção do Mosteiro da Batalha, em terras melgacenses o monarca luso deixou assente que iria entregar o dito mosteiro à Ordem de S. Domingos e o Frei Lourenço Lampreia viria a ser o primeiro Prior do Mosteiro da Batalha. Tudo isso é-nos contado no livro “Primeira Parte da História de S. Domingos”, publicado em 1866: E foi assim, que já havia três annos que a obra do Mosteiro corria, quando estando de cerco sobre o Castello de Melgaço, assentou de o dar à Ordem de São Domingos, segundo o achamos declarado no testamento, que muitos annos depois fez em huma verba, que diz assim: “Porque nós prometemos no dia da batalha que houvemos com el-Rei de Castella, de que Nosso Senhor Deus nos deu vitoria, de mandarmos fazer à honra de Nossa Senhora Santa Maria, cuja véspera então era, á cerca donde ella foi, hum Mosteiro: o qual depois que foi começado, nos requereu o Doutor João das Regas do nosso Conselho, e Frei Lourenço Lamprea, nosso Confessor, estando nós em cerco de Melgaço, que ordenássemos que fosse da Ordem de S. Domingos. E nós duvidamos de o fazer, porque assim foi nosso prometimento de se fazer à honra da dita Senhora Nossa Santa Maria. E responderão-nos que a dita Ordem especial era muito da dita Senhora, declarando-nos as razões porque: as quais vistas por nós, acordamos, e prove-nos de ordenar o dito Mosteiro que fosse da dita Ordem etc.”
Logo que a praça de Melgaço voltou para as mãos dos portugueses, o rei e o seu séquito abandonam terras melgacenses e seguiram até ao Porto onde parou, e nela mandou passar carta de doação à Ordem cujo traslado tirado do próprio que se guarda no Cartório do Convento, onde se pode ler o seguinte:
Dom João pela graça de Deus, Rei de Portugal, e do Algarve. A quantos está carta virem fazemos saber, que por honra da Virgem Maria, nossa defensora, e d’estes Reinos, considerando as muitas estremadas graças, que do seu bento Filho a rogo d'ella sempre recebemos, assim em guarda de nosso corpo, como exalçamento dos ditos Reinos em as guerras e mesteres em que somos postos, especialmente na batalha e campo que houvemos com os Castellãos, dando-nos deles vitória maravilhosa, mais por sua misericórdia, que polos nossos merecimentos, propozemos em renembrança dos benefícios por ella recebidos de edificar, e mandar fazer casa de oração, em a qual à honra, e louvor da dita Senhora se faça serviço a Deus. A qual de feito já mandamos começar apar da Canoeira. E porque segundo Deus, e verdade os Fraires Pregadores da Ordem de S, Domingos som mui devotos em ella, assim por as suas obras, como polo hábito que de suas mãos receberão, são outro si merecedores de todo bem, e mais, que a Nosso Senhor, e a dita Senhora, sua Madre servem em cada hum dia, e saberão servir ao diante rogando a elles por nós, e polos susoditos Reinos. Porende nós suzodito Rei a honra e louvor dos suzuditos Senhores de nosso próprio movimento, livre vontade, e por cumprir outro si aquillo que pressuposto haviamos, damos, doamos, e dedicamos à Ordem de S. Domingos o nosso Mosteiro de Santa Maria da Vitoria, que nós ora mandamos fazer a par do dito logo da Canoeira, termo de Leiria, à honra da dita Senhora com todos seus direitos e pertenças. E rogamos aos Frades da dita Ordem, áquelles, a que de direito he cometida a administração d'ella, especialmente a Frei Lourenço, nosso Confessar, que tome o encarrego e posse da dita casa, e Mosteiro por esta nossa carta: a qual queremos e outorgamos que seja firme e valedoura para todo sempre. E mandamos outro si, e rogamos a todos nossos filhos, nossos ereos, e sucessores que hajam o dito Mosteiro encomendado, e o acrescentem sempre de bem em melhor, e defendam em os privilégios e liberdades, que lhe per nós, e per as Padres Santos forem dados: em quanto seu poder abranger, e ao dito Mosteiro for necessário e compridouro, sob pena da nossa benção. E pera esto outro si haver mais pronta e comprida executação, rogamos, e mandamos ao Doutor João das Regas do nosso Conselho, que perante nos e suzoditos sucessores seja prometor e requeredor de todo o bem, prol, e honra do dito Mosteiro e Frayres d'elle. E em testemunho d'esto lhe mandamos dar esta carta assinada por nossa mão. Dada na cidade do Porto quatro dias de Abril. El Rei o mandou. Álvaro Gonçalvez a fez. Era de MCCCCXXVI annos. Rei. (Corresponde ao ano do Senhor de 1388).



Fonte consultada: SOUSA, Frei Luís de (1866) - Primeira Parte da História de S. Domingos.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Notícias de uma carpeada de há 100 anos atrás em Castro Laboreiro




A carpeada é uma tradição muito antiga e que consiste no processo de transformação da lã depois de tosquiada e lavada, até à obtenção do fio. Em Castro Laboreiro, em tempos antigos, uma carpeada era uma autêntica festa. Além do trabalho com a lã que era feito pelas mulheres, havia o convívio, os namoricos, a música tradicional e as danças até altas horas e muito mais...
Há cerca de 100 anos, no jornal castrejo “A Neve”, na sua edição de 25 de Novembro de 1920, o autor do texto conta-nos como era uma carpeada na época em terras de Castro Laboreiro: “Uma noite passada, talvez às 9 horas, se não me engano, sentindo passar diversos rapazes pelo caminho próximo a minha casa, lembrei-me que tinha sido convidado juntamente com diversos conterrâneos, para assistir a uma carpeada que se realiza numa casa do lugar.
Eis que chegam os rapazes devidamente preparados para dali a instantes, na carpeada, conquistar a afeição das donzelas que todos nós esperavam. Dirigimo-nos ao edifício do “Primavera Sport Club”, ponto da reunião para a partida.
Fizeram-se ouvir os primeiros sons de concertina acompanhados por diversos instrumentos de corda, formando no conjunto uma harmoniosa orquestra que seria a música que deliciaria com o seu lindo e variado programa os ouvidos das castas donzelas que sentadas em volta duma sala, carpeavam a lã das ovelhas que nesta terra se criam em grande número.
Eis-nos transpondo o lumiar da casa.
Que comoção, sentindo cair sobre nós os meigos olhares daquelas raparigas aquém nós tanto amávamos!
Parou o concerto e a conversa generalizou-se por todos sendo apenas recortada às vezes para ouvir silenciosamente uma peça de música executada brilhantemente a solo pelo nosso bom amigo e inteligente administrador de “A Neve”, Sr. J. A. A. Carabel.
Terminada esta, no meio do merecido aplauso da assembleia, principiava outra vez a conversa amorosa entre os namorados que alegremente se contemplavam à luz dos gasómetros. Eis que soa a meia-noite no relógio da casa, pois a Ex.ma Câmara não tem verba (?) para nos dar um relógio para uso do público.
A lã, que há-de servir para fabricar parte do vestuário da família sua possuidora estava pronta, graças ao trabalho infatigável dessas adoradas meninas, que agora depois de servido um suculento repasto se divertiram bailando com aqueles que, quem sabe, um dia serão os seus companheiros inseparáveis.
Agora já não é unicamente o Sr. J. A. Carabel que nos delicia com as suas agradáveis músicas. Os tocadores revezam-se para todos poderem gozar dançando com o seu anjo estremecido.
Tudo alegre! Que felicidade reina entre nós! Como nós nos sentimos felizes longe do mundo, embora nestas ásperas montanhas!
É que aqui o céu é mais límpido, o ar é mais puro e a gente não é tão traidora para com os seus semelhantes.
Só o romper da aurora é que veio acordar estes seres hipnotizados pelo amor e pela música, fazendo perceber que eram horas de terminar, para dali a instantes, depois de descansar uns curtos momentos, ir à igreja ouvir a missa do domingo.
Eis-nos saindo a porta da casa da carpeada ao som duma triste melodia acompanhada a canto pelos rapazes e raparigas, retirando para suas casas.
Como esta última quadra me ficou profundamente gravada na memória, embora já a conhecesse por ser uma quadra muito popular!

Esta modinha das três
Esta modinha das quatro
Aqui anda o meu amor
Aqui anda o meu retrato.”

Porque seria então que tanto me impressionou?
Não sei. Muitas vezes a ouvi: mas só esta é que ma gravou profundamente na minha alma. Talvez fosse por significar a imagem querida que constantemente me acompanha.
Castro Laboreiro, 20-11-2019”.



Extraído de: Jornal “A Neve”, edição de 25 de Novembro de 1920.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Peso (Melgaço), 1917 - A generosidade do barqueiro Ponciano




Há mais de um século, mais concretamente em 1917, o Jornal de Melgaço trás-nos uma notícia que é uma bonita estória de solidariedade para com o próximo. A questão envolve um pobre mendigo que se encontrava tuberculoso, e que estava de passagem por Melgaço, e o barqueiro de S. Marcos, no Peso. A notícia é-nos contada na edição de 8 de Setembro de 1917: “Há dias apareceu por aqui [Melgaço] um fulano da Beira que, depois de ter casado com uma mulher de Orense resolveu emigrar para Buenos Aires; uma vez aí trabalhou e economizou de tal maneira que em pouco tempo conseguiu juntar 550 pesos; até aqui bem foi; mas… depois, sente-se doente, vai consultar um médico que lhe diz estar tuberculoso, e por isso tem de recuar imediatamente; o infeliz retira, trazendo consigo o dinheiro que só o acompanha até Lisboa, pois aí, com um pequeno descuido, fica sem dinheiro, sem conhecimento algum e sem roupa, além da que traz vestida. Como viajar nestas condições? Aí vem o desgraçado a pé desde Lisboa, mendigando uma esmola de porta em porta. E sabem o que o traz a Melgaço? A recordação de que em tempos mais felizes por aqui andou ele a trabalhar, e por isso encontraria por cá alguns dos seus amigos daquele tempo. Infeliz! Doente, e com fome talvez, ninguém o conhece! Dirige-se ao rio Minho para o passar a nado, mas vê que se encontra sem forças e nessas condições tal tentativa equivaleria ao suicídio. Em vista disso, aproxima-se do barqueiro e diz-lhe que desejava transitar para Espanha, mas que não tinha dinheiro para lhe pagar. Em virtude duma declaração tão franca, o barqueiro mandou-o entrar para a barca e não só o conduz gratuitamente à outra margem, como ainda na estação de Arbo promove uma subscrição que excede a importância do bilhete que no caminho de ferro lhe dá passagem até Orense; aliás, teria de fazer esse trajecto a pé e mendigando como de Lisboa a Melgaço. Quereis, leitores, que o nome desse barqueiro figure na lista dos benfeitores que vós conheceis? É o barqueiro do posto de S. Marcos, e chama-se Ponciano Ferreira.

Notícia em:
- Jornal de Melgaço, edição de 8 de Setembro de 1917.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A Páscoa em S Paio (Melgaço) há quase 70 anos



Este é um pequeno filme do ilustre artista melgacense Manuel Alves de San Payo, natural da freguesia de São Paio. 
No filme, podemos ver momentos da visita pascal algures por volta de 1950 na paróquia de S. Paio. Num primeiro momento, podemos ver a chegada do compasso pascal à casa onde eu cresci, no lugar do Cruzeiro, junto à igreja. Num segundo momento, vemos a Procissão dos Passos que na época se realizava percorrendo, em grande parte do percurso, um caminho que sempre foi conhecido como o "Caminho do Calvário".
Na parte final do filme, vemos o compasso pascal a sair da igreja de S. Paio em direção à casa de família do autor do filme...
Veja o filme!


sexta-feira, 12 de abril de 2019

A instituição do Couto de Homiziados em Melgaço (1431)




Em Melgaço foi instituído em 1431 um couto de homiziados pelo rei D. João I. Talvez não haja muita gente que saiba daquilo que estou a falar mas tratava-se de uma medida com vista a povoar as áreas raianas como Melgaço.
Então, o que é um couto de homiziados? Constitua-se como um território onde os condenados por delito comum pudessem comutar a sua pena de prisão ou de degredo, para África e Oriente, em exílio forçado no território nacional pelo espaço de alguns anos (MESQUITA, J., 2014). 
Note-se que nessa época a nossa terra já sofria desse grave problema do despovoamento, tal como refere o rei no documento de constituição do couto. Assim, a instituição do couto de homiziados em Melgaço permite melhor povoar este concelho raiano permitindo assim uma mais eficaz defesa da fronteira contra ataques do exterior. Desta forma, os condenados poderiam fixar-se em Melgaço, podendo beneficiar de privilégios vários, nomeadamente em termos de impostos, que à frente se referem no documento lavrado pelo rei D. João I e assim evitar o cumprimento de parte da pena em contexto prisional, podendo trabalhar a terra, sempre sob a vigilância da autoridade local. Caso reincidissem, voltariam para a prisão ou iriam para o degredo.
Contudo, em relação a este tema, o Padre Bernardo Pintor acrescenta mais uma explicação para a pertinência do couto de homiziados em Melgaço e cita que “a guerra por causa da sucessão [1384 - 1388] do trono português foi de consequências nefastas para Melgaço. O facto de a fortaleza ter defendido as aspirações do rei de Castela ocasionou para muita gente uma falsa posição. Retomada a praça e expulsa a guarnição, os partidários do inimigo acharam por bem deixarem o nosso território.
No tempo de guerra cometem-se abusos e excessos. Aqueles que se acharam culpados entenderam sair da terra para fugir às inevitáveis represálias. A feira que se realizava em Melgaço desde o alvor da nossa independência decaiu. Com ela Melgaço tinha movimento e lucro, mas com a sua decadência sofreu a economia local. Para obviar a este mal, D. João I concedeu, em 14 de Fevereiro de 1391, regalias aos feirantes, não podendo ser molestados por causa de grande parte de crimes que acaso recaíssem sobre eles. Isto tanto na feira como na ida e volta durante certo espaço de tempo.”
Não era caso único mas praxe de outras feiras no país e no estrangeiro. Outro documento que interessa conhecer foi outorgado por D. João I a Melgaço, estabelecendo aqui um Couto de Homiziados com diversos privilégios.
O documento diz o seguinte:
“(...) A quantos esta carta virem fazemos saber que olhando nós e considerando em como a nossa vila de Melgaço, que é na correição de Entre Douro e Minho, é muito despovoada e danificada, e em como está no extremo dos nossos reinos e dos de el-rei de Castela, porém com vontade e desejo de acrescentarmos em ela, e ser melhor povoada, e querendo nós fazer graça e mercê aos homiziados dos nossos reinos e entendendo-o por nosso serviço, temos por bem e coutamo-la e fazemos dela couto assim e pela guisa que o é a nossa vila de Chaves. E queremos e mandamos que daqui em diante todos os homiziados que ora são e daqui em diante forem, vão morar e povoar, se quiserem, ao dito couto de Melgaço, no qual hajam todos os privilégios e liberdades, perdões, que nós mandamos que lhe sejam dados, guardados, e cumpridos, bem e cumpridamente, assim e pela guisa que os nós mandamos guardar ao dito couto de Chaves, sem lhe sendo posto a isso outro nenhum embargo em nenhuma guisa, e maneira que seja. Outrossim porque a nós é dito que o couto e termo do dito lugar de Melgaço é tão pequeno que os dito homiziados não teriam terra em que lavrar nem terra para criarem seus gados, salvo muito gastamente, e em como o termo de Valadares parte junto com a vila do dito couto de Melgaço, o qual termo de Valadares é bom para criarem e lavrarem, porém cremos e mandamos que por os ditos homiziados haverem maior vontade de irem morar e povoar ao dito couto de Melgaço, que seguramente e sem nenhum temor possam os ditos homiziados que em o dito couto morarem e povoarem, lavrar e ter seus gados, apanhar seus frutos no dito termo de Valadares assim pela guisa que o fazem os homiziados que estão no dito couto de Chaves. E isto seguramente sem lhe ser feito outro nenhum desaguisado, contanto que eles tenham suas casas no dito couto ou vila de Melgaço. E porém mandamos a todos os corregedores, juízes e justiças, alcaides e meirinhos dos nossos reinos, e a outros quaisquer oficiais e pessoas a que disto o conhecimento pertencer, a que esta carta ou treslado dela em pública forma feita por autoridade de justiça for mostrada, que assim o cumpram e façam cumprir e guardar porquanto nossa mercê e vontade é de assim ser cumprido e guardado e privilegiado como dito é. E por esta carta mandamos aos juízes e alcaides da dita vila e couto de Melgaço que daqui em diante recebam em a dita vila os ditos homiziados e os deixem em ela morar e povoar, fazendo logo assentar o dia e o mês e era em que se apresentam e os nomes dos ditos homiziados e os malefícios por que são homiziados. E isto em um livro que para isto seja feito, o qual livro seja bem guardado para se saber por ele quanto tempo moram para serem perdoados. Donde outra coisa uns e os outros não façais. Dada em a nossa cidade de Lisboa, 25 dias do mês de setembro. El-rei o mandou por Fernando Afonso da Silveira, cavaleiro seu vassalo e do seu desembargo, não sendo aí o Doutor Rui Fernandes seu porteiro. Fernando Rodrigues escrivão em lugar de João Esteves a fiz. Ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1431 anos.”
Este documento já nos aparece na contagem cristã que D. João I mandou adoptar em 1422 em vez da era romana, ou de César que já então ia em 1460.




Informações extraídas de:
- MESQUITA, José Carlos Vilhena (2014) - Coutos e terras de degredo no Algarve. In: SAPIENTIA; Faculdade de Economia da Universidade do Algarve.
- PINTOR, Manuel António Bernardo (2005) – Obras Completas. Edição do Rotary Club de Monção.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A freguesia de S. Martinho de Alvaredo (Melgaço) em tempos antigos




A primeira referência conhecida à igreja de São Martinho de Alvaredo remonta a 1118, ano em que Onega Fernandes fez doação à Sé de Tui da quarta parte da igreja de São Paio de Paderne, equivalente da igreja de São Martinho de Valadares e outro tanto da vila chamada de São Vicente e da sua igreja. No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar, em 1320, para determinação da taxa a pagar, São Martinho de Alvaredo foi taxada em 60 libras. Enquadrava-se nessa época na Terra de Valadares.
No Censual de D. Frei Baltasar Limpo (1551-1581), que descreve a situação canónica dos benefícios eclesiásticos da comarca de Valença do Minho, diz-se que esta igreja era da apresentação de padroeiros, designadamente, de Pedro Gomes de Abreu.
Na obra do Padre Carvalho da Costa, publicada em 1706, diz-se de S. Martinho de Alvaredo que “em algum tempo se chamou de Paderne, é curato anual com título de Vigairaria do Morteiro de S. Fins dos Padres da Companhia de Jesus, com oito mil réis de ordenado, ao todo cincoenta mil reis, e para os Padres cento e vinte mil reis: tem cento sessenta vizinhos. Onega Fernandes senhora principal,sendo viúva, e tendo hábito de Religiosa deu a quarta parte desta Igreja a Dom Afonso, Bispo de Tui e àquela Sé em 15 de Abril da era de 1156, que é anno 1118, na qual confirmam seu filho Payo Dias e sua filha Aragonta Dias. Há nesta Freguesia duas Torres com alguma renda, chama-se uma de Vilar, outra a Torre somente, e de ambas são senhores os Marquezes de Tenorio. A que está defronte da Galiza é Solar dos Marinhos, que se entende haver sido do Dom Froyão, fidalgo Italiano, que veio a este Reyno com o Conde Dom Mendo ajudar a expulsar os Mouros dele. Entende-se que ele, ou algum filho fez esta Torre, e Casa solarenga de sua família, e não faz contra isto o que diz o Conde Dom Pedro, e outros Gallegos, que o segue, que os Marinhos são naturais da Galiza...”. A Torre da família dos Marinhos em Alvaredo era muito antiga. Já existia no século XIII sendo que esta família viveu nesta freguesia durante muitas gerações. Temos notícia que João Forjaz Marinho (1210 – 1250) foi Senhor Domus Fortis da Torre dos Marinhos. João Marinho terá nascido na Galiza e era Cavaleiro do Reino e foi governador por ordem real nas Terras de Valadares.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, segundo o pároco António Rodrigues de Morais, a freguesia de Alvaredo pertencia ao arcebispado de Braga, comarca de Valença e termo de Valadares. Tinha 220 fogos inteiros e meios fogos e 613 pessoas, entre ausentes, presentes e menores. A igreja ficava no meio do lugar de São Martinho, tinha duas naves com três arcos e os altares: o altar-mor, o de Nossa Senhora do Rosário, o altar das Almas, o altar de santo António, o altar da capela da Senhora da Expectação, o altar da capela de São Francisco e o altar da capela de São Miguel. A paróquia tinha uma confraria das Almas e o pároco era vigário anual apresentado pelo prior dos mosteiros de Sanfins e São João de Longos Vales, da Companhia de Jesus, como procurador do reitor do Colégio de Coimbra, e tinha de ordenado anual 8$000 e com o pé de altar ficava tudo em 60$000, de rendimentos certos e incertos.
Na obra “Portugal Antigo e Moderno” do Professor Pinho Leal, de 1876, replicam-se algumas informações que constam no livro do Padre Carvalho da Costa e acrescenta outras: “ALVAREDO, freguezia, Minho, (...) 160 fogos. Orago é S. Martinho. Arcebispado de Braga, distrito administrativo de Vianna. Chamava-se antigamente de Paderne. Foi de uma senhora, que depois de viúva se fez freira, chamada D. Onega Fernandes, que deu a quarta parte da freguesia ao bispo de Tui D. Afonso, em 13 de abril de 1118, o que confirmaram seus filhos Paio Dias e Aragonta Dias. Foi depois da Universidade de Coimbra. Há nesta freguesia duas torres, uma chamada de Vilar e outra simplesmente Torre. Eram dos marquezes de Tenório. A que está defronte da Galiza é solar dos Marinhos, e diz-se ser de D. Froylão, fidalgo italiano que veio a Portugal com o conde D. Mendo, a ajudar a expulsar os mouros, e fez esta torre. É o progenitor do atual sr. Pereira, morgado da Torre da Sobreira, em Pias, próximo a Monção.
Foi curato do couto de S. Fins, apresentado pela universidade de Coimbra, Há nesta freguesia a casa de Carvalharim, da qual procedem as casas de S. Cibrão, a de Sende e a de Aguiar dos Arcos.
Alguns anos mais tarde, no livro “Minho Pittoresco”, de 1886, as referências a esta freguesia fazem-se numa viagem que o autor faz de Melgaço em direção a Monção e de passagem por Paderne e Alvaredo onde o que chama mais à atenção do autor é a beleza das cangas do gado. O autor conta-nos que ”Deixando a histórica Paderne, fica-nos à esquerda, próximo da linha da estrada, ALVAREDO, chamada antigamente Alvaredo de Paderne e outrora curato do couto de S. Fins, em Valença. Onega Fernandes doou a quarta parte d'esta egreja ao bispo Afonso de Tuy, como já fizera com Prado.
A capela de S. Braz fica perto da estrada, e além, aquela outra ermida, que se vê junto do rio, e devotada a S. Bento e tem a sua festasinha em Julho.
Notámos em Alvaredo, como noutras freguesias limítrofes de Melgaço a singeleza das cangas dos bois, e a sua pequenez; talvez tenhamos ainda de referir-nos noutros pontos do nosso trabalho a estes aparelhos de jugo, tão rendilhados quando se desce para o sul da província,e que o nosso amigo e erudito investigador Leite de Vasconcelos estudou já no seu livrinho intitulado Estudo etnográfico a propósito da ornamentação dos jugos e cangas dos bois nas províncias portuguesas do Douro e Minho.



Fontes consultadas:
- CAPELA, José Viriato (2005) - As freguesias do Distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património Casa Museu de Monção/Universidade do Minho.
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

sexta-feira, 29 de março de 2019

A freguesia de Rouças (Melgaço) em finais do século XIX




A freguesia de Rouças pertence atualmente ao concelho de Melgaço. Em finais do século XIX, já pertencia à comarca e concelho de Melgaço mas já pertenceu em tempos à comarca de Monção. Em finais do século XIX, havia nesta freguesia 225 fogos ao passo que em 1757, havia apenas 88 fogos.
O orago desta freguesia é Santa Marinha de Antioquia, santa mártir do século IV. Contudo, no livro “Portugal Sacro e Profano” é referido que é Nossa Senhora dos Anjos. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, editado em 1876, fala-se da freguesia de Rouças nestes termos: A mitra apresentava o abade, que tinha 350 000 réis de rendimento. Esta paróquia foi primeiramente padroado da antiga e nobre família dos senhores do Paço de Rouças, que era nesta freguesia, mas que há alguns séculos pertence à de S. Payo, contigua a esta. Ainda se vêem as ruínas de uma antiquíssima casa chamada o Paço, solidamente construída, e, em parte, ainda habitada. O lugar em que está, chama-se mesmo Paço, nome tomado da dita casa. O padroado passou depois para Manoel Pereira (o Mil-Homens) da vila de Monção, e o solar para os Castros, de Melgaço. Por fim, passou o padroado para os arcebispos de Braga. O território desta freguesia, tem 7 kilómetros de comprido, por 5 de largo, estendendo-se desde a encosta oeste da serra de Pernidelo, até junto das muralhas da vila de Melgaço, pertencendo ainda à freguesia de Rouças, as primeiras casas da vila. Ainda que em terreno muito acidentado, os seus vales são fertilíssimos, e o vinho que produz é de óptima qualidade principalmente o dos sítios das Barreiras e Vale de Cavaleiros, em nada inferior ao excelente vinho de Monção. É nesta freguesia a grande quinta que foi do mosteiro de Fiães, deste concelho, e que, ficando sobranceira à vila, é uma belíssima vivenda. É hoje propriedade particular do Sr. Dr. José Joaquim Gomes. A igreja matriz é das maiores, não só da comarca, mas do distrito administrativo. O zelo do reverendo abade atual, e a devoção e religiosidade dos paroquianos, tem convergido para que este templo esteja ornado com a maior magnificência. Estes melhoramentos principiaram em 1864. Tem altar-mor e quatro laterais, todos ricamente adornados, e as santas imagens que os decoram, são de excelente escultura, sendo notável a de Nossa Senhora da Soledade, de tamanho quase natural, e oferecida à freguesia pela benemérita família Salgado, aqui residente. A sua torre dos sinos, é bastante alta e tem dois bons sinos. O coro é bom, e tem um pequeno órgão. Tem óptimas alfaias e paramentos, para o culto divino, tudo feito há poucos anos. No teto da igreja há boas pinturas, representando os apóstolos e os evangelistas; e a Fé, Esperança e Caridade. Na parede exterior da capela-mor, está embutida uma lapide, com esta inscrição:

BLAZIUS D'ANDRADA DA
GAMA, ABBAS, IN UTRO-
QUE JURE LAUREA-
TUS, A FUNDAMENTIS
EREXIT. MDCLXXXX

Colige-se desta inscrição que o templo foi fundado em 1690, à custa do benemérito abade da freguezia, Braz d'Andrada da Gama. Está construída em um formoso sitio, pela sua posição elevada, e com dilatados horizontes. A festa da padroeira, faz-se a 18 de julho, que é o seu dia. É uma romaria concorridíssima, vindo gente até da Galiza, em grande número, com ofertas, para que Santa Marinha os cure, ou preserve de sesões. O lugar presta-se maravilhosamente para a romaria, porque é um vasto terreiro, o maior que se vê na província, em frente das igrejas, depois do de Fiães. Fica ao sul da igreja, e é assombrado por gigantescos e vetustos castanheiros, contemporâneos do primitivo templo. A residência paroquial foi reconstruida em 1870, desde os alicerces. É um edifício no gosto moderno, cómodo e decente e feito à custa dos paroquianos, que da melhor vontade, e por amor ao seu digno pároco, se prestaram a esta não pequena despesa. Há nesta freguesia seis capelas, que são: Santa Rita, na aldeia de Vilela, com missa em todos os domingos e dias sancificados. É publica; Nossa Senhora da Conceição, no Côto do Preto. Tem uma bem esculpida pedra de armas, da ordem da Conceição, sobre a porta principal. É particular; Santo António, no logar da Corga. É particular; Nossa Senhora das Dores, no lugar de Cavaleiros, com missa em todos os domingos e dias santos. É publica; S. João Batista, no logar do Fecho. É particular; Nossa Senhora da Graça, a poucos metros de distância da antecedente, e que é a melhor de todas, tanto pela sua posição eminente à vila, como pela magnifica pedra de cantaria de que é construída. Do monte onde está a capela, é que sabe o finíssimo granito para as construções de todos os edifícios destes arredores.
Nasceu nesta freguesia, o padre Manoel Alves Salgado, que, enquanto estudante, foi o maior perito caçador do Minho. Foi servidor do infante D. Gaspar, arcebispo de Braga, filho natural reconhecido de D. João V, e depois secretário da câmara eclesiástica do arcebispado, no tempo do mesmo príncipe. Era o padre Manoel Alves Salgado, um eclesiástico exemplar, e muito inteligente, sabendo reunir ao rigoroso cumprimento dos deveres do seu então importantíssimo cargo, a maior modéstia e afabilidade. Era sumamente caridoso, pelo que a sua morte foi sinceramente chorada, pelos desvalidos a quem a sua beneficência jamais deixara de socorrer. Por sua morte, nomeou sua herdeira, sua sobrinha, a Sra. D. Thereza Alves Salgado da cidade de Braga, hoje representada por suas duas filhas, as Srs. morgadas do Carvalhal, da mesma cidade. Ao reverendíssimo Sr. José Manoel Alves Salgado de Castro, que, por varias vezes, se tem dignado mandar-me valiosos e curiosíssimos apontamentos, para várias povoações do Minho; e que teve a bondade de me mandar bastantes sobre esta freguezia, agradeço tanta generosidade. Se todos os homens ilustrados das províncias fizessem como o Sr. Padre Salgado, sairia esta obra mais completa e perfeita.”





Informações extraídas de:

- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa.

sexta-feira, 22 de março de 2019

A freguesia de São Tiago de Penso (Melgaço) em tempos antigos



A primeira referência conhecida à igreja de São Tiago de Penso remonta ao ano de 1118. No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar em 1320 para a determinação da taxa a pagar, São Tiago de Penso pertencia então à Terra de Valadares.
Em 1546 há notícia de que se encontrava já anexada ao mosteiro de São Salvador de Paderne. Na cópia do Censual de D. Frei Baltasar Limpo (1551-1581) sobre a situação canónica destes benefícios, diz-se que o abade de Messegães beneficiava dos frutos da igreja do Penso, de consentimento com o prior e cónegos do mosteiro de Paderne. O direito de apresentação desta igreja pertencia ao mosteiro a que era anexa.
Américo Costa descreve-a como vigairaria da apresentação do mosteiro de Paderne e, mais tarde, da Casa dos Caldas, no termo de Valadares. O mosteiro vendeu o direito de apresentação a esta família, que ficou com o padroado da igreja, recebendo os seus vigários a denominação de reitores.
No início do século XVIII, o Padre Carvalho da Costa na sua obra descreve esta freguesia nestes termos: “Santiago de Penso, Vigairaria do Morteiro de Paderne com de dez mil reis, ao todo oitenta mil reis, e para os Frades cento e dezoito mil reis, tem duzentos vizinhos. Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possui Felippe de Araújo de Caldas, Cavalleiro do Habito de Cristo, Capitão-mor, e Monteiro-mor de Valladares ;tomou este nome de uma Capella antiga deste Santo Cipriano, que ali está; he tradição foy templo da Gentilidade dedicado a Júpiter. O tio é fúnebre, e desacomodado no meio de hum campo com pouca veneração, e menos o fora a não ser advogado das cézoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem alli tremendo, e voltam sãos”.
Temos notícias de Penso nas Memórias Paroquiais de 1758. Na resposta ao inquérito, o pároco Diogo Manuel de Sousa Gama de S. Tiago de Penso refere que, além da igreja paroquial, “tem esta freguesia quatro ermidas, uma de Sam Bartolomeu, outra de Sam Thomé, outra da Senhora da Boa Morte e outra de Sam Sipriano”. Mais acrescenta que são pertencentes da freguesia “exceto a da Senhora da Boa Morte e a de Sam Sipriano que pertencem à Casa de Manuel Giraldo de Azevedo e Sotto Maior”, da Casa e Quinta de S. Cibrão. Diz-nos ainda que a freguesia tem 209 fogos.
O pároco memorialista da freguesia de Penso refere-se, ainda em 1758, ao lado de “pescarias livres e dízimas a Deus que os donos usam sem foro algum e se pagam tão só as dízimas a Deus”, outras de “vários donos e senhorios que pagam foros de peixe, especialmente aos religiosos de Santo Agostinho do Mosteiro de Paderne e aos religiosos de S. Bernardo do mosteiro de Fiães”.
O padre de Penso já em 1758 nos fala da chamada “Fonte Santa”, que seria rica em enxofre e teria “várias virtudes especialmente para” doença do fígado, lepra, tratamento de feridas e aumentaria o apetite de comer “se tiver fastio”, trataria também a dita água das doenças de “umores quentes”.
Em 1876, no livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, a freguesia de Penso é assim descrita: “PENSO—freguezia, Minho, comarca e concelho de Melgaço (foi da comarca de Monção, extinto concelho de Valladares) 65 kilometros a Nordeste de Braga, 425 ao Norte de Lisboa. Tem 255 fogos. Em 1757, tinha 209 fogos. Orago, S. Thiago, apostólo. O prior dos cónegos regrantes de Santo Agostinho (crúzios) de Paderne, apresentava o vigário, que tinha 130 000 réis de rendimento. O mosteiro vendeu isto aos Caldas, de Badim, que, desde então até 1834, ficaram com o padroado d'esta igreja passando os seus vigários a denominarem-se reitores.
É n'esta freguezia a quinta de S. Cybrão, do sr. Philippe d' Araújo Caldas. Segundo a tradição, no sitio onde está a capella d'esta quinta, houve um templo romano dedicado a Júpiter. Supõe-se que a existência do tal templo, foi uma fábula inventada para enobrecer esta propriedade; que, mesmo sem aquela circunstância, é notável, pela antiguidade e nobreza dos seus proprietários; e também por que produz óptimo vinho. É terra fértil, gado, peixe do rio Minho (que lhe passa próximo, ao norte) e caça.”
A referência à Quinta de S. Cibrão é uma constante em alguma literatura e outros documentos desde o século XVII o que atesta a extrema importância da quinta e dos senhores da mesma na região. A mesma volta a ser citada no livro “O Minho Pittoresco” de 1886. O autor escreve na sua chegada a Penso: O carro segue sempre e aqui nos fica à esquerda a freguezia de PENSO, uma villota em miniatura, antiga vigararia do mosteiro de Paderne e depois da casa dos Caldas, de Badim, por compra que fizeram ao mosteiro.
Na quinta de S. Cibrão (Cypriano) é tradição que existiu um antigo templo gentilico, dedicado a Júpiter, no ponto onde está hoje a capela. Há quem diga, porém, que essa tradição foi inventada apenas com o fim de enobrecer a quinta, já de si notável pela familia que a possuiu e pelo bom vinho que produz. Em Penso existe ainda a capela de Santa Comba, cuja festa é pelo mez de julho, e junto da estrada, à nossa esquerda, está a capelinha de S. Bartholomeu, cuja festa se faz em 24 de agosto.
Sobranceira a essa capelinha fica um templosinho modesto, mas da religião do mais largo ideal— a instrução do povo. Um bando de rapazes, rodeando o professor, entrava na escola, no momento em que nós passávamos. E foi gratíssima, devemos confessa-lo, essa impressão ultima que em nós deixou a derradeira freguezia que percorríamos do concelho do Melgaço”...




Extraído de:


- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

sexta-feira, 15 de março de 2019

O Mosteiro de Fiães e a Senhora da Orada (Melgaço) - Parte I




Há mais de 300 anos, um livro da autoria do Padre Carvalho da Costa, publicado em 1706, conta-nos como era o Mosteiro de Fiães (Melgaço) na época e como em tempos antigos era muito rico e poderoso. Esta obra fala-nos ainda das origens da Nossa Senhora da Orada e da sua relação com a antiga Quinta de Cavaleiros: No mesmo Concelho de Valladares, ficando-lhe para o Norte o de Melgaço, para o nascente o Reyno de Galliza, sobre huns altos montes, ao pé de outros mais altos está o Convento.de Fiães, fundado em tempo del Rey Ramiro Primeiro e de sua mulher a Rainha Dona Paterna, de que julgamos tomar o nome o valle de Paderne. Quando ella então não fosse a fundadora daquelle Morteiro, o seria do de S. Payo, que no termo de Melgaço houve. Foi este de Fiães de Monges Bentos com a invocação de S.Christovão, de que se acha noticia pelos anos de 851 e hum dos primeiros, que desta Ordem houve em Hespanha. Foi logo tão rico em seus princípios de rendas senhorios, que teve nesta Província, na de Trás os Montes e Galliza, que vulgarmentefe dizia não haver algum tão poderoso, como o Dom Abbade de Fiães, depois del Rey, pelo que se pode presumir ser obra sua. Ali viviam oitenta Frades de Missa, além dos Conversos, os quais em Lausperene assistiam continuamente no Coro de dia e de noite e com tão exemplar vida, que de todos eram chamados Santos e muitos faziam milagres pelo que se vinham aqui enterrar muitos príncipes, que lhe fizeram amplas doações. De três Infantes há noticia e de muitos fidalgos galegos, & portuguezes, Fernão Annes de Lima, pai do primeiro Visconde, está em sepultura levantada e magnífica com suas Armas junto da Capela de S. Sebastião. Tinha antigamente um banho, que por milagre de Nossa Senhora apareceu junto do Morteiro, e esta água era de tanta virtude, particularmente no dia do Bautista, que muitos doentes de várias enfermidades, e aleijoens incuráveis, que nele se vinham lavar, voltavam sãos. Mandou-se entupir há anos por mortes que houve entre os que haviam de entrar primeiro. Ainda hoje vem muitos buscar água, que dele emana e a levam a enfermos, que bebendo-a com fé , obra Deus por ela muitas maravilhas. Da imagem de S. Bento, que aqui está, e é visitada dos contornos em todo anno, particularmente em Teu dia, se contam grandes milagres. A fabrica deste Mosteiro, e celas dos Religiosos foi cousa grande, trezentos e tantos annos havia, que nele viviam estes Monges. Teve nesses tempos dois incêndios por desgraça, causa de sua total ruína, porque lhe queimarem os melhores títulos de suas rendas, com que se pôs em estado, que mal tem com que sustente oito frades, quanto mais para pagar à Capela Real quarenta mil reis, e vinte e cinco mil reis ao Convento do Desterro de Lisboa. Da primeira ruína o tirou a piedade Cristã de Afonso Paes, dois irmãos seus, que de novo o reedificaram e deram a Alcobaça. No ano de 1150 era tão grande a fama que corria da vida santa dos Frades Bernardos, que tinham vindo de França para este Reyno, que mandou o Dom Abade deste Mosteiro dois Monges ao de Alcobaça a pedir nova reformaçam dos institutos de Cister, e um Religioso para que melhor os instruísse pelo que haviam de obrar, ficando logo sujeitos àquela Real Casa, que de novo se ia edificando. Tanto que receberam a reforma, tomaram por Padroeira a Virgem Nossa Senhora, deixando a S. Christovão e se chama desde então Santa Maria de Feães, e em memória do grande gosto que tiveram de se mudarem a Bernardos, e da boa doutrina, que o novo Mestre lhes veio dar, puseram o nome de Alcobaça a uma aldeia arraiana, que então povoaram, e permanece. Donde seu princípio sempre teve Couto Cível, que lhe confirmaram EI Rey Dom Afonso Henriques, e seus sucessores; e o Dom Abade tem jurisdição Episcopal, Metropolitano imediato ao Papa, sem que o Arcebispo lhe visite os seus bditos, e reconhece os Breves Apostólicos, ou o seu Provedor, que é hum Religioso da Casa, a quem o Abade escolhe, e deles appella para Roma, ou Núncio. A mesma jurisdição tem em Galiza no Bispado de Tuy além do rio Trancoso em dois lugares chamados Lapella e A zureyra, em que exercita a dignidade Episcopal por sentenças que teve cá e lá contra o Primaz, e Bispo, que ambos lho quiseram tirar, cousa que não sei haja em outra Diocese. A Condessa Dona Fronilla deu a este Mosteiro e ao seu Abbade João em Janeiro do anno de 1166 a quinta de Cavalleiros junto de Melgaço, cousa boa, particularmente de vinhas entendemos que com ela lhe daria também a Igreja de Nossa Senhora da Orada alli pegado, que os Frades dizem foi Mosteiro de S. Bento, e fundado quando se edificou o de Feães, de que veio a ser Priorado. Outros dizem (o que tenho por mais certo, e alguns sinais mostra para isso) que foi de Cavaleiros Templários, de que esta quinta tomou o nome, que era passal seu. Pouco há se lhe viam ruínas de celas, claustros, e canos de pedra, pelos quais lhe vinha água.”

...............................CONTINUA...............................

sexta-feira, 8 de março de 2019

A freguesia de Parada do Monte (Melgaço) no tempo dos nossos antepassados




Parada do Monte é uma freguesia que pertence ao concelho de Melgaço há pouco mais de 150 anos. Pertenceu ao antigo concelho de Valadares, tendo estado anexada, juntamente com a Gave, a Riba de Mouro, de Monção. Com a extinção deste concelho, por decreto de 24 de Outubro de 1855, foi desmembrada desta última freguesia, passando a fazer parte de Melgaço. No censo da população de 1864, figura sob a designação de Parada. Segundo o entendimento do saudoso padre Aníbal Rodrigues, o seu topónimo deverá indicar a existência de uma antiga via romana e do sítio onde os viandantes, a pé ou a cavalo, costumavam descansar depois de uma longa e difícil caminhada.
Há mais de 300 anos, mais concretamente em 1706, o Padre Carvalho da Costa, no seu livro refere-se a Parada do Monte nos seguintes termos: “S. Mamede de Parada do Monte, Vigairaria da mesma apresentação, que rende ao todo quarenta mil reis, e para o Commendador sessenta e seis mil reis. Tem cento e cincoenta vizinhos. Aqui se faz o melhor burel de lã das ovelhas Gallegas de todo o mais Reyno, donde he muy procurado para cubertas de camas de lavradores, ou criados, e ainda de muitos nobres para as meterem entre os cobertores. He muy branco, grosso e macio”. O Padre Carvalho da Costa refere-se ainda ao antigo Couto de Val de Poldros, que atingia os limites territoriais da freguesia de Parada do Monte: Nestas montanhas, em em que há muita caça e veação, houve antigamente hum Couto, a q chamavam Val de Poldros, o qual fez, marcou e defendeu Payo Rodrigues de Araujo, de que possui parte seu sexto neto Manoel de Araújo de Caldas, Sargento-mor de Valladares, ainda que atenuado em parte das grandes regalias que tinha”.
Em meados do século XVIII, o pároco Francisco de Caldelas Bacelar de Parada do Monte refere, nas Memórias Paroquiais de 1758, que os frutos que os moradores recolhem em maior abundância é o milho grosso, vulgarmente chamado milho maiz”. Cultivava-se nas leiras que bordejavam as margens do Mouro e onde também cresciam as latadas pois o vinho (12 cabaços) entrava na composição da renda que a freguesia pagava ao pároco. Na serra rodeavam-se as brandas de “centeio, algum milho miúdo, e pouco linho e muita herva no Verão de que fazem os labradores feno para darem de Inverno aos gados”. Mais afirma o pároco que “a criação de gados que tem esta serra é no tempo do Verão trazerem nella os labradores os seus bois de noutte [noite] e de dia dois outros mezes e as bacas e bezerros andam também na serra de dia e à noutte vão procurá-los e recolhem-nos nos lugares das brandas e o mesmo fazem ao gado miúdo de cabras e ovelhas”.
O Pároco de parada do Monte, em 1758, também refere que o rio Mouro tem um “curso arrebattado em toda a sua distância desde o seu nascimento até botar fora dos limites desta freguezia, somente em hum sítio chamado Agras de Mouro corre quite hum tiro de mosquete’. Rio pouco Mais refere que ”somente no tempo de Verão alguns rapazes caçam nelle algumas trutas pouca e pequenas, mas gostozas”.
Segundo LEITE, A. & LEITE, M. (2009), tendo como base as Memórias Paroquiais e ainda pela análise das prestações entregues pelos foreiros e rendeiros aos monges de Fiães e Paderne (MARQUES, J., 1990) é possível reconstruir a composição da dieta alimentar das populações do interior montanhoso do Vale do Mouro. “A base da alimentação era fundamentalmente constituída por caldo de couves e feijões engrossado com farinha de milho à qual, por vezes, se seguia alguma carne de aves de criação, de porco (conservada nas salgadeiras) e em certas ocasiões a do cabrito ou a obtida pela caça nos montes onde abundava a perdiz, o javali e em menor número os corços, cuja carne ‘he como a de vittela” no dizer do pároco memorialista. O pescado raramente entrava nas ementas e limitavase às sardinhas de Caminha descarregadas na Lapela ou vindas de Arbo (Galiza) e vendidas em Melgaço pelas ‘sardinheiras’ (MARQUES. J., 2004). A lampreia, o sável e o salmão “pilhados” nas cabaceiras e botirões armados nas pesqueiras do Rio Minho eram quase exclusivamente consumidos pelas populações ribeirinhas ou pelos monges de Paderne e Fiães, detentores da propriedade de grande parte daquelas construções fixas para a pesca fluvial (LEITE, A., 1999). Recebiam o sal vindo de Caminha em barcos pello Minho acima, até á Lapella e depois em carros até o lugar de S. Gregório, aonde há armazéns, aos quaes se vem prover todos os povos do bispado d’ Orense” (VILLASBOAS, J., 1800).
Em 1758, Parada do Monte possuía cento e oitenta e nove vizinhos [agregados familiares] e quinhentas e vinte e duas pessoas entre grandes e pequenos”. Segundo o pároco, a igreja paroquial tinha três altares estando o da capela-mor dotado de uma tribuna. O seu pároco era apresentado pela reitoria matriz de São Pedro de Riba de Mouro e tinha uma “renda doze mil réis, doze fanegas de pão, doze cabaços de vinha e dois alqueires de trigo pera hóstias, que lhe paga o colhedor dos fruttos desta terra e tem mais de cada freguês cazado hum alqueire de pão e sendo veuvos [viúvos] meio e solteiros hum coarto”.
Na segunda metade do século XIX, a freguesia volta a ser citada em algumas obras de referência da época. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, publicado em 1876, a mesma é chamada de PARADA e descrita como freguesia já não pertecente a Valadares mas à comarca e concelho de Melgaço, 65 kilometros ao norte de Braga, 430 ao norte de Lisboa. Tem 180 fogos [agregados familiares]. Em 1757, tinha 189 fogos. O orago é S. Mamede. Arcebispado de Braga, districto administrativo de Vianna. O reitor de S. Pedro de Riba de Mouro, apresentava o vigário, collado, que tinha de rendimento 130 000 réis.” O autor volta a elogiar a qualidade da lã aqui produzida, nestes termos “Ha n'esta freguezia muito gado lanígero, que produz excelente Ian.” Replica a informação relativa ao antigo Couto de Vale de Poldros: Em Valle de Poldras, limites d'esta parochia, houve um couto, que marcou e defendeu Paio Rodrigues de Araujo. Em 1720, era este couto possuído pelo 6º neto do dito Paio, Manuel d' Araujo Caldas, de Valladares mas tinha já perdido a maior parte dos seus antigos privilégios.” Por último refere que “dá-se a esta freguezia, para a distinguir das outras, o nome de Parada do Monte.
Poucos anos depois, em 1886, é publicado o livro “O Minho Pittoresco”, obra incontornável da época para esta região. Na publicação, diz-se que ”a egreja de PARADA DE MONTE fica um kilometro ao sul do Rio de Mouro e dista de Melgaço uns dez kilometros. Foi reitoria que o reitor de Riba de Mouro apresentava e pertencia ao extincto concelho de Válladares. A freguezia é montanhosa e especialmente se entrega à industria do gado ovino, sendo muito apreciada a sua lã para a fabricação dos buréis e cobertores”. (VIEIRA, J., 1886).



Fontes consultadas:
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- LEITE, Antero & LEITE, Maria Antónia Cardoso (2009) - Parada do Monte, História e Património. ACER;
- MARQUES, José (1990) – O Mosteiro de Fiães, Braga;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa;
- VILLASBOAS, Custódio Jozé Gomes de – Descripção Topographica das Commarcas Fronteiras da Província do Minho, 1800 (inserido em Fernando de Sousa e Jorge Fernandes Alves- ‘Alto Minho. População e Economia nos Finais de Setecentos, Editorial Presença, Lisboa, 1997.