sexta-feira, 26 de julho de 2019

A capela de Santo António (Melgaço): um pouco de História




Quem vem de Santo Cristo em direção à Escola Secundária de Melgaço, descendo a Avenida Salgueiro Maia, encontra do lado direito uma capela dedicada a Santo António, umas das poucas dedicadas a este santo em Melgaço. Em tempos antigos, esta encontrava-se no interior da Quinta de Galvão. Foi fundada por seis irmãs ainda em finais do século XVII, ainda que só tenha sido concluída a sua construção já em pleno século XVIII.
As origens desta capela remontam a 1694. Nesse mesmo ano, a 28 Novembro é lavrada uma escritura para a constituição da fábrica de uma capela pelas seis filhas de António Lobato de Sousa e Castro (D. Madalena Felgueiras Soares, D. Francisca de Cavedo Araque, D. Maria Lobato de Castro, D. Jacinta Zores de Castro, D. Antónia Soares Barbosa e D. Juliana Felgueiras), as quais viviam com o seu irmão D. António de Castro de Sousa Lobato, capitão de cavalos, familiar do Santo Ofício e cavaleiro da Ordem de Cristo, casado com D. Joana Maria Menezes Cardoso. Na escritura, referem como encargos impostos pela sua devoção e vontade duas missas anuais a celebrar nesta capela: uma no dia de Santo António e outra a 2 de Fevereiro, consagrada à Purificação de Nossa Senhora.
Em 1703, a 16 Dezembro, concretiza-se a instituição do vínculo de morgado por D. António e sua esposa, destinando para o mesmo os seus terços das casas que os instituidores tinham começadas na Quinta do Galvão que encostaram e uniram às que herdaram de seus seus pais. As irmãs uniram todos os seus bens aos do irmão para constituição do morgadio, de que faziam parte a Quinta de Galvão, com 432 varas cada um de 10 palmas de comprimido, circundada a norte pelo rio que ia para a Ponte Pedrinha e do sul com a estrada real que ia para a vila de Melgaço, bem como outros bens que tinham em Corujeiras, no Carvalho do Lobo, Rouças, Galvão de Baixo, Caneiro, Beatas, Arrochal e várias pensões. Posteriormente, as seis irmãs aumentaram o número de missas anuais na capela para 13, que seriam ditas a Nossa Senhora da Conceição, a Nossa Senhora, a Nossa Senhora da Encarnação, a Nossa Senhora do Rosário, uma no dia de Natal, duas a Santo António (uma no seu dia e outra noutro dia), outra a Santa Maria Madalena, outra a São José, outra à Paixão do Senhor, outra a São Francisco, outra a Santa Joana. As fundadoras da capela escolheram como primeiro administrador, o irmão António de Castro de Sousa Lobato, passando depois para os seus sucessores no morgado.
No ano de 1750, a 1 Julho, o visitador, o Dr. Domingos Fernandes Ramos, reitor de São Pedro de Merufe, acha a capela necessitada de alfaias e obras.
Em 1754, a 4 Setembro, segundo o visitador, o Padre Marcelino Pereira Cleto, era administrador da capela, Joaquim António de Castro.
Em 1758, a 24 Maio é referido nas Memórias Paroquiais pelo padre Bento Lourenço de Nogueira que a capela era particular.
Em 1771, D. Margarida Matildes de Morais Sarmento, mulher do morgado de Galvão, solicita autorização para ela e sua família se confessar na sua capela, que já tinha confessionário feito na forma da constituição.
A capela de Santo António apresenta alguns aspetos de interesse arquitetónico. Possui planta longitudinal, de corpo retangular, com sacristia retangular, adossada a sudoeste. Apresenta volumes escalonados, com coberturas diferenciadas em telhados de duas e uma água.
As fachadas são rebocadas e caiadas e em alvenaria de granito, sendo, no corpo da capela, percorridas por cornija saliente, com pilastras nos cunhais, sobrepujados por pináculos com esferas, e cruzes sobre acrotério, no remate das empenas. A fachada principal, virada a sudeste, termina em frontão triangular truncada por sineira, com ventana de arco pleno, assente em pilastras, encimadas por cornija recortada e coroada por cruz. É rasgada por duas janelas retangulares, avivadas superiormente por cornija saliente, enquadrando portal de verga reta, encimado por arquitrave. No tímpano, e interrompendo a linha do entablamento, pedra de armas com timbre e largo paquife.
A fachada nordeste é rasgada por uma janela rectangular. A fachada sudoeste, onde é visível o escalonamento dos corpos, é rasgada por janela retangular na sacristia. A fachada posterior apresenta-se com uma porta retangular na sacristia.
O interior da capela é rebocado e caiado e com embasamento pintado, com pavimento cimentado e lajeado e tendo teto de madeira, de 3 panos. O lado da Epístola possui uma pia de água benta, estriada, e nicho de remate em arco pleno, com parapeito saliente sobre mísula decorada com enrolamentos, e do lado do Evangelho apresenta porta de verga reta e janela retangular, gradeada, comunicando com a sacristia. Sobre supedâneo, com acesso por dois degraus, assenta sobre pano de muro rebocado, retábulo-mor em talha policroma, albergando, centralmente, uma imagem da Virgem. A sacristia é rebocada e caiada e com embasamento pintado de azul, com teto em madeira, tendo pavimento cimentado.


Informações extraídas de:
ESTEVES, Augusto César, Obras Completas, vol. 1, tomo 1, Melgaço, 2003.


sábado, 20 de julho de 2019

Casas comerciais melgacenses de antigamente em artigos publicitários




No artigo de hoje, partilho uma pequena coleção de artigos e anúncios publicitários alusivos a casas comerciais melgacenses de outros tempos. Neste conjunto, encontramos desde recortes de jornais e revista até postais de época e cédulas fiduciárias que se estendem desde finais do século XIX até à segunda metade do século XX. Muitas destas casas comerciais já nem existem, de algumas ainda temos uma boa memória e muito poucas ainda existem.
Viaje no tempo!...

Finais do século XIX



Fonte: "Restaurante melgacenses" in Jornal "A Espada do Norte" (1892)



Primeira metade do século XX

Cédula Fiduciária (1920)


Cédula Fiduciária (1920)

Cédula Fiduciária (1920)


Postal circulado de início do século XX

Postal circulado de início do século XX

Postal circulado de início do século XX


Postal circulado de início do século XX



Anúncio de início do século XX


Fonte: Jornal "A Neve" (1920)


Postal circulado de 1912


Segunda Metade do século XX

Anúncio publicitário da 2ª metade do século XX (data incerta)


Anúncio publicitário da 2ª metade do século XX (data incerta)


Anúncio publicitário da 2ª metade do século XX (data incerta)


Anúncio publicitário da 2ª metade do século XX (data incerta)


Anúncio publicitário da 2ª metade do século XX (data incerta)

Anúncio publicitário da 2ª metade do século XX (data incerta)


Anúncio publicitário da 2ª metade do século XX (data incerta)

Fonte: Revista "Flama" (1967)

Fonte: Revista "Flama" (1967)

Fonte: Jornal "El Pueblo Gallego" (1965)

Fonte: Jornal "El Pueblo Gallego" (1965)


Fonte: Jornal "El Pueblo Gallego" (1965)

Fonte: Jornal "El Pueblo Gallego" (1965)



Fonte: Revista "Flama" (1967)


Fonte: Revista "Flama" (1967)

Fonte: Revista "Flama" (1967)



sexta-feira, 12 de julho de 2019

Uma crónica sobre as Termas do Peso (Melgaço) em 1939




Há 80 anos atrás, as Águas de Melgaço continuavam a ser muito procuradas para os problemas de saúde dos visitantes enquanto estes procuravam desfrutar, durante a sua estadia, de tudo de bom o que a terra tinha para lhes oferecer. Numa crónica publicada no Diário do Minho de 12 de Julho de 1939, podemos ler: "Durante o mês de Junho findo foi sensivelmente diminuta a inscrição dos aquistas na Estância Termal. Atribuía-se este facto estranho à circunstância de os jornais terem propalado o boato da cheia caudalosa e destruidora, que tantos estragos deixou na sua passagem.
Os aquistas, apavorados, convenceram-se naturalmente de que a cheia havia levado consigo as fontes minerais. Mas isso correspondia a crer que uma grande inundação afogara os peixes. Não é verdade?
As circunstâncias, é claro foram outras. O boato só podia ter foros de viabilidade em cérebros avariados ou doentios. O tempo esteve igualmente variável no mês consagrado a Juno, e os doentes aguardavam dias quentes, que chegaram, de uma temperatura constante.
E agora eis que as camionetas de carreiras todos os dias, de manhã e de tarde, vomitam para os grandes hotéis e pensões centenas de hóspedes, que vêm a esta bela estância minhota, encontrar as afamadas águas, alívio e esperança de restabelecimento para os seus sofrimentos.
Nesta semana passada nada houve a registar. Pic-nics, excursões, passeios… nada disso. Está-se a haurir do repouso tónico alento para a distração. Daqui a dias, reina o turismo. Os carros passam para S. Gregório com excursionistas da estância. Passeios recreativos a Monção e à Brejoeira. O salão de jogos do café-bar oscila com o peso dos aquistas. O Martins de Lisboa inicia no Parque do Grande Hotel das Águas (Ranhada) as distrações populares. O Avelino do acordeão não tem pano para mangas na azafama dos concertos musicais. Começaram as rifas e os leilões de quinquilharias da firma acreditada no César & Monteiro. Vêm as cantadeiras de Lisboa ferir nota alacre dos fados e canções portuguesas.
Enfim, começa a vida viva da pitoresca Estância Termal. O sangue dos diabéticos corre por todas as artérias. Vêm estilizar-se da sangria as lavadeiras, as leiteiras, as vendedeiras de fruta, as vendedeiras ambulantes de chocolate, de latas de compota ou conserva de maracoton, as mulheres de recados, os almocreves que transportam nas muares, excursionistas para Fiães ou Castro Laboreiro, o Pires do Cinema, os carros ligeiros de aluguer, as levas numerosas de mendigos, etc., etc. Até a fábrica do Moreira da Silva é uma artéria lautamente beneficiada.
Temos no Peso (Melgaço) duas massas admiráveis: as fontes minero-terapéuticas e a manteiga do Moreira da Silva, cuja obesidade natural e face de cor do presunto de Chaves é um reclame eclatante do produto maravilhoso da sua fábrica.
Vamos adiante. Não vá o público supor que o cronista adiposo de grande diâmetro abdominal, engorda também à custa da Fábrica, por motivo de ali todas as tardes tomar o aromático café ao lado do amável e benquisto fabricante.
Pois é assim, Por enquanto, o espírito sedento de digressões e expansões recreativas deriva a sono solto. Mas breve sai por aí fora muito mexido, ofegante e folgozão.
Damos a seguir as entradas de hóspedes ilustres nos grandes hotéis e pensões:
- No Grande Hotel das Águas (Ranhada)
José Pereira Pimenta de Castro; Comandante José Cunha Santos; Capitão Morais Rosa Salvador Braga, Redactor do “Jornal de Notícias”; Dr. Vitor Viana, médico militar; tenentes coronel Bártolo Simões; Vitoriano Lopes Sampaio, Condessa de Sabrosa e Afonso Vieira Dionísio.

- No Hotel Rocha
Álvaro Lucena; Padre Teófilo de Andrade; D. Maria da Conceição de Lemos Magalhães e D. Margarida de Lemos Magalhães; D. Tereza Furtado da Antas de Figueiredo; Sebastião e Irmão, conscienciosos industriais de Vila Nova de Gaia.

- No Grande Hotel do Peso
Raul Marçal Brandão e esposa; Dr. José Joaquim Machado Guimarães; Elias da Cunha Pinto; Dr. Manuel de Oliveira Campos, médico; D. Mirita Abecassis e sua gentil filhinha D. Cecília; Avelino Vieira Braga e esposa do Porto; Leonardo Palhinha, abastado proprietário de Montemor-o-Novo.

- Na Pensão Boavista
Dr. Manuel Ribeiro da Costa, médico e esposa; Dr. Mexia; capitão César Pina; capitão José Augusto Marçal, esposa e galante filhinha.
Até para a semana.




In: Diário do Minho de 12 de Julho de 1939; republicada em "A Voz de Melgaço", de 1 de Julho de 2019.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A localização do Porto de Bergote: um mistério com mais de 700 anos



Os lugares que hoje conhecemos por um determinado topónimo nem sempre tiveram o mesmo nome. Nuns casos, o termo apenas sofreu a natural evolução, mas noutros há mesmo uma mudança radical de designação. Muitas vezes, quando lemos documentação antiga, encontramos nomes de lugares que nos são desconhecidos porque já não são usados na atualidade. Também temos casos desses em Melgaço. Por exemplo, em documentos muito antigos, é mencionada uma vila rústica, de nome Bergote, que, atualmente, não tem correspondência na toponímia local. Pelo que se depreende da leitura desses documentos, havia ali um porto de passagem de peregrinos e homens de negócios, para a Espanha, através do rio Minho. Depois de muito estudar, o Padre Manuel Bernardo Pintor alegou que Bergote poderia ter sido um nome primitivo de Paços ou o nome de uma vila medieval situada nesta freguesia.
Outras vilas rústicas, que viriam do tempo medieval, se não da época romana, são mencionadas em documentos do Cartulário de Fiães, como Acre, que dá origem ao nome do lugar Viladraque, ou ainda outros casos como o de Porto dos Cavaleiros, Ponte das Várzeas ou Porto dos Asnos, que hoje em dia estão em desuso ou então deixaram de se usar há séculos.
Como se disse acima, o Padre Bernardo Pintor julgava que a vila de Bergote, em tempos medievais se localizava em Paços, podendo até corresponder à atual sede de freguesia. Nesse sentido, refere na sua obra acerca de Paços em tempos medievais: “Movimento à localidade deve ter-lhe dado uma passagem que havia no rio Minho, por onde, em recuados tempos, passavam os peregrinos que demandavam o santuário jubilar de Santiago de Compostela, bem como pessoas que, das redondezas, se dirigiam para além Minho por motivo de seus negócios.
Era o Porto de Bergote. Tal devia ser a sua importância e o movimento da passagem que a localidade se chamava Bergote de cá e de lá, em ambas as margens do rio, como atesta um documento do mosteiro de Fiães do ano de 1223 pelo qual Toda Monis com os seus seis filhos e filhas de apelido Fernandes e mais os filhos de Marinho Fernandes, que, pelo apelido, se deve presumir ser irmão do marido, venderam uma herdade a Fernando Sanches. Aqui se declara: A mesma herdade está situada na vila que chamam Bergote. Vendemos-te quanto aí temos em uma parte do Minho e na outra.
Caso estranho é o facto de no fim do documento se mencionarem não as autoridades de Portugal mas, sim, as de Leão, entre o Senhor de Crecente, isto é, o governador, que era capelão régio, Pedro Fernandes.”
As Inquirições de D. Afonso III, em 1258, falam de Bergote, pertencente ao este concelho de Melgaço. Contudo, nas inquirições de D. Afonso III de 1288, refere-se que um tal Rui Pais de Valadares fora senhor da honra de Bergonte, no julgado de Melgaço, então na posse dos seus filhos e netos.
Todavia nas inquirições de D. Dinis, em 1290, referem Bregontim (não Bergote ou Bergonte), no julgado de Melgaço, antepondo-lhe, decerto por confusão, o qualificativo de freguesia. Nas Inquirições de 1307, já Bergote aparece sonegada aos direitos reais, desde há mais de seis anos. Nestas mesmas inquirições, refere-se o nome de Bergote a propósito dum fidalgo, de nome Pedro Fernandes de Castro que pretendia estabelecer uma honra na vila de Bergote. O inquiridor do rei, Aparício Gonçalves, não só não permitiu tal pretensão, como também aplicou uma coima pesada ao cavaleiro, a cobrar pelos juízes do concelho de Melgaço.
partir de inícios do século XIV, deixamos de ter referências a Bergote nos documentos que chegaram até nós. Não existem provas inequívocas (vestígios arqueológicas ou provas documentais) que provem a sua localização exata mas é consensual entre alguns autores que se localizaria entre Chaviães e Paços, neste concelho de Melgaço.
Deixo aqui uma possível pista em relação à localização do Porto de Bergote. Do lado da margem galega, existe em frente ao lugar dos Casais (Cristóval – Melgaço), um lugar chamado Borbote que pertence ao município de Crecente. Será que o Porto de Bergote se localizava entre este lugar e o dos Casais? Talvez um dia tenhamos a sorte de encontrar um primitivo documento que nos faça luz sobre o assunto.





Fontes consultadas:
- PINTOR, Manuel Bernardo (2005) – Obras Completas. Edição do Rotary Clube de Monção.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Sobre a desaparecida igreja paroquial de S. Fagundo de Melgaço





A localização exata da antiquíssima igreja paroquial de S. Fagundo de Melgaço perdeu-se no tempo. Sabemos por documentos de época que, onde hoje se situa a vila de Melgaço, existiam, até há cerca de 500 anos, não uma mas sim três paróquias: Santa Maria da Porta, Santa Maria do Campo e S. Fagundo. As igrejas paroquiais das duas primeiras ainda hoje existem, apesar de muito antigas. Acerca da de S. Fagundo, apenas sabemos que no primeiro quarto do século XVII já se encontrava em ruínas, não se conhecendo referências posteriores.
O saudoso Padre Bernardo Pintor num artigo de há meio século atrás traz-nos alguma luz sobre a paróquia de S. Fagundo, extinta na segunda metade do século XVI. No seu trabalho refere que “a primeira notícia da igreja de S. Fagundo encontra-se em um documento do Cartulário de Fiães outorgado em Junho de 1246, na arbitragem de um litígio entre o mosteiro de Fiães e a igreja de Chaviães, em que interveio como árbitro João Joanes, pároco de S. Fagundo e procurador de Santa Maria da Porta juntamente com Rodrigo Mendes, padre de Chaviães.
Vem esta igreja mencionada nas inquirições de D. Afonso III, de 1258, a par com as de Santa Maria da Porta e Santa Maria do Campo, sem qualquer referência em pormenor.
Em 1320 foram os rendimentos avaliados em 30 libras, como os de Santa Maria do Campo, o que a situava em posição baixa ao lado das outras.
No Igrejário de D. Diogo de Sousa, princípios do século XVI, vem mencionada como benefício de livre atribuição de arcebispo e já sem cura, isto é, já não tinham cura de almas, ou melhor, já não era paróquia. Qualquer leitor dado a estes estudos encontra nos livros antigos S. Facundo, mas eu prefiro a grafia evoluída S. Fagundo.
O falecido Dr. Augusto César Esteves achou referência à igreja de S. Fagundo até ao ano de 1619. O mesmo criterioso investigador das antiguidades melgacenses diz que a Fonte da Vila se chamou em tempos antigos Fonte de S. Fagundo, o que nos indica ter ficado nas proximidades a sua igreja.
Mais ainda: segundo elementos por mim fornecidos, aceitou a mudança da invocação da referida igreja para Sant’Iago, de que achou referências no ano de 1733. A velha igreja paroquial, já sem cura de almas na entrada do século XVI, deve ter sido reduzida à condição de simples capela, como aconteceu com a antiga paroquial da Santa Comba de Felgueiras, primeiro anexa a Paderne e depois incorporada em Penso, e uma outra de S. Vicente, ali em Alvaredo contra o rio Minho.
O Concílio de Trento deu aos Prelados das dioceses faculdades para anexar ou extinguir as paróquias cuja subsistência era demasiado precária ou para fundar novas paróquias onde fossem precisas, e daí terá vindo a extinção da de S. Fagundo.
A mudança do título tem a sua explicação e não é caso único. Aconteceu também com outras, como por exemplo com a padroeira de Chaviães que era Santa Seguinha e passou para Santa Maria Madalena.
O fundamento da mudança de S. Fagundo para Sant’Iago é o seguinte: Sabe o leitor que há vários santos com o mesmo nome, dois apóstolos são Sant’Iago, o maior e o menor. Mais conhecido por nós é o que se festeja em 25 de Julho, que em Compostela tem antiquíssimo culto, visitado por peregrinos das maiores categorias sociais e de terras distantes desde recuados tempos. É o Sant’Iago de Longe, como dizem os velhos.
Há um outro Sant’Iago, chamado Interciso, que a Liturgia recorda em 27 de Novembro, dia também dedicado a S. Fagundo. Como ambos os Santos são comemorados no mesmo dia, e S. Fagundo deixou de ser festejado na categoria de padroeiro da freguesia, porque ela tinha desaparecido, veio a sobrepor-se o culto, a Sant’Iago, Interciso.
Isto tem uma explicação e o leitor deve querer saber qual seja, por isso eu vou expô-la: Nos princípios do século XII, o arcebispo de Braga, D. Maurício, conseguiu trazer de Roma para a sua catedral o corpo de Sant’Iago Interciso, mártir da Pérsia do tempo das perseguições aos cristãos.
No tempo do arcebispo D. Agostinho de Jesus realizou-se em Braga um sínodo, ou seja um concílio diocesano, em 1606, com início a 18 de Outubro. Entre outras actividades do sínodo, teve lugar em 27 desse mês a transladação das relíquias de Sant’Iago Interciso para melhor jazida. Este facto provocou o revigoramento do culto do referido Santo cujas relíquias até então permaneciam na sacristia da catedral desconhecidas do público.
O seu culto estendeu-se a toda a diocese sobrepondo-se ao de S. Fagundo que assim foi esquecido em Melgaço com a vinda da memória do novo Santo, novo no culto dos fiéis.
Sobrepondo-se, no mesmo dia, à comemoração de S. Fagundo, absorveu a denominação da sua igreja e com o seu nome ficaram conhecidas as antigas terras ou passais, de S. Fagundo, conhecidas ainda nos nossos dias por campos de Sant’Iago, ali nas proximidades da nova escola primária da vila.
O Dr. Augusto César Esteves, na obra já citada, escreveu: «A alguns passos dos fossos pertinho da fortaleza, no caminho aquingostado para os Chãos, a vila ainda hoje situa o Poço de S. Tiago. No local onde se fez, há meia dúzia de anos, uma casa de campo, erguia-se uma igreja pequena, chamada pelo povo capela de São Tiago.»
Quanto à meia dúzia de anos, lembro que o livro do Dr. Esteves tem a data de 1952. Julgo ficarmos a saber com aproximação onde era a Igreja de S. Fagundo.”
Num interessante artigo publicado no jornal “A Voz de Melgaço”, na edição de Julho de 2017, com o título “Dois párocos de S. Fagundo de Melgaço – 1360”, aflora mais alguns pormenores acerca as parcas informações que hoje em dia temos acerca da igreja e desaparecida paróquia de S. Fagundo, acerca de factos ocorridos nesse ano: “É possível que o título deste breve artigo leve os leitores mais novos a interrogarem-se onde ficava esta paróquia melgacense, de que hoje nem o orago é conhecido. Para os mais interessados, esta e outras oportunidades contribuirão para conhecerem melhor a história do nosso concelho e das freguesia ou paróquias que o integravam.
Simplificando a resposta à pergunta sugerida, adiantamos que a freguesia de S. Fagundo era uma das três existentes ao longo da Idade Média e até ao terceiro quartel do século XVI, na sede do concelho de Melgaço e junto das muralhas do castelo, conhecidas pelos seus oragos ou titulares das igrejas paroquiais: Santa Maria da Porta, situada dentro das muralhas; Santa Maria do Campo, fora das muralhas, do lado sul, que tinha como sede a atual igreja da Misericórdia; e finalmente, S. Fagundo, a noroeste do castelo, cuja sede estaria nas proximidades da Fonte da Vila.
Três freguesias com as sua igrejas num espaço não concentrado, sabendo da crise demográfica a que Melgaço não ficou isento, apenas seria compreensível por respeito à tradição e à longevidade das mesmas. Depois do Concílio de Trento, encerrado em 3 de Dezembro de 1563, a cuja e terceira e última fase assistiu e na qual participou ativamente o arcebispo D. Bartolomeu dos Mártires, que muito gostaríamos de ver canonizado, na sequência do conhecimento direto desta e doutras situações pastorais existentes em Melgaço, que se impunha corrigir, extinguiu as paróquias de Santa Maria do Campo e de S. Fagundo, integrando-as na de Santa Maria da Porta, que ainda hoje não abrange uma área muito vasta, nem tem população excessiva.
Quanto à de S. Fagundo, perdeu-se o conhecimento do local exato da implantação da igreja paroquial e a memória dos clérigos designados para a orientação dos seus fiéis. Para isso, muito terá contribuído o facto de a região de Entre Douro e Minho, que – desde a célebre divisão diocesana realizada, em Lugo, em 569, sob a presidência de S. Martinho de Dume, arcebispo de Braga e metropolita de toda a Galécia Sueva, promulgada pelo rei Miro – também designado Teodomiro -, ter permanecido integrada na diocese de Tui, até 1381, e só após algumas vicissitudes, ter passado para a Arquidiocese de Braga, em 1514.
Conhecemos as circunstâncias em que se processou essa transferência, incluindo a de alguns livros de registo, até então, utilizados na chancelaria episcopal de Tui, que, devidamente autenticados, passaram para a chancelaria arquiepiscopal bracarense. Entre eles, embora desnecessariamente, veio também para Braga um códice pergamináceo, com os registos das confirmações, isto é, das cartas de nomeação e confirmação dos presbíteros e, eventualmente, de outros clérigos, incumbidos da ação e do governo pastoral das diversas paróquias,à medida que iam vagando , pelos mais diversos motivos ou por transferências decididas pelo bispo de Tui que, de 1351 a 1385, foi D. João de Castro, da conhecida família dos “Castros”, com extensões em Portugal. Trata-se do códice nº 314 do Arquivo Distrital de Braga, cuja publicação está a ser ultimada.
A informação anunciada em epígrafe encontra-se no registo nº 234, datado de Tui, em 10 de Setembro de 1360, integralmente em latim, que vamos expor nas suas linhas gerais, de forma a identificarmos os dois párocos de S. Fagundo – Melgaço, publicando-o na íntegra, a fim de respondermos à eventual curiosidade dos mais interessados.
Pelo teor deste documento, ficamos a saber que, em 1360, o reitor ou pároco de S. Fagundo de Melgaço era Martim Gil (Martinus Egidii), que foi para a igreja ou paróquia de Santa Maria de Panton, na diocese de Orense, com plena anuência do bispo de Tui, D. João de Castro. Impunha-se por isso, preencher a vaga aberta pela saída de Martim Gil. Aqui surge uma informação inesperada, quanto ao padroado desta freguesia melgacense, que pertencia ao bispo de Tui e ao Mosteiro de S. João de Longos Vales, cada um destes padroeiros com direito de apresentação sobre metade do benefício, cabendo, no entanto, ao bispo o direito de decidir sobre a idoneidade do candidato proposto pelo outro padroeiro e de proceder à necessária confirmação.
Estas eram as disposições canónicas inerentes ao direito de padroado, de que o prelado diocesano era guardião e lhe competia observar. Como é compreensível, em relação ao clérigo apresentado pelo Prior e Convento de S. João de Longos Vales, além de não o ter identificado nem mencionado o motivo da falta de idoneidade para assumir as funções de pároco – opção compreensível, inerente ao sigilo episcopal, limitou-se a afirmar apesar de lhes pertencer o direito de apresentação para metade deste benefício, não apresentaram pessoa idónea - “presentaverunt persona minus idonea” - não o tendo aceitado.
Nessas condições, considerou o direito de apresentação do Mosteiro de Longos Vales ineficaz, a título devolutivo - “iure devoluto” -, por esta vez somente, passava a pertencer-lhe também o direito de apresentar para a metade do mosteiro agostinho de Longos Vales. Como lhe pertencia o direito de apresentar para a outra metade, podia apresentar e confirmar, de pleno direito, o novo pároco de S. Fagundo, que passou a ser o padre Lourenço Domingues, natural de Melgaço, que, na data acima referida, investiu nessas funções, de acordo com as formalidades do estilo, reiteradamente expressas no citado códice das Confirmações, a publicar brevemente.
A decisão tomada pelo bispo de Tui, D. João de Castro, que sabemos ter passado por diversas localidades de Entre o Douro e Minho, como Fontoura, S. Pedro da Torre, S. Paio de Paderne (atualmente designada apenas, S. Paio), Orada, Corujeiras, Mazedo, Merufe, Ganfei, Friestas e Viana, revela mais um ponto de ligação entre o mosteiro de S. João de Longos Vales e Melgaço, além da já conhecida colaboração na construção das muralhas do nosso castelo...”





Fontes citadas: 
- PINTOR,  Padre Bernardo (2005) - Obra Histórica. Edição do Rotary Club de Monção.

- MARQUES, José (2017) - Dois párocos de S. Fagundo de Melgaço - 1360. In: "A Voz de Melgaço", edição de 1 de Julho de 2017.