sábado, 1 de fevereiro de 2014

O cerco a Melgaço (1387) na Crónica d' El Rey D. João I (Parte III)


Capitulo CXXXVI
Como el rei cobrou a villa de Melgaço por preitezia(1)

"Enquanto se estas obras faziam, não cessavam os da villa em lançar trons ao arraial, e do arraial à villa pedras d'engenho. Vendo os do logar aqueles artificies feitos, e receando-se de receber d'elles damno, mandaram dizer a João Fernandes Pacheco que lhe fosse falar, e el rei o mandou lá, e chegou á barbacã, e Alvaro Paes ao muro, e fallaram por espaço e não se accordaram. Nesse dia escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da villa, e outra do arraial. Andaram ambas aos cabellos, e venceu a do arraial, e des-ahi cada dia
tiravam os trons e engenho uns aos outros, e o engenho fazia muito mal na villa, e os trons não impéciam em nada.
E em esto chegou a rainha de Monsão, tres léguas de Melgaço, e vinham com ella o Doutor João das Regras, e João Affonso de Santarem e outros cavalleiros. E depois se veiu a rainha ao mosteiro de Feães, uma légua de Melgaço.
E isso mesmo chegou ao arraial o conde D. Gorçalo e João Rodrigues Pereira, e escaramuçaram os do conde com os da villa, e foram feridos d' ambas as partes, e nenhum morto.
E veiu recado a el-rei que a villa de Salvaterra, que lhe dera D. Pedro, que a deram um tabellião e dois homens d'armas a Paio Sorodea. El-rei mandou logo lá o Priol com muita gente, mas não aproveitou nada. E querendo el-rei mover seus artifícios pera combater o logar, fez saber á rainha que viesse ver o dia do combate, e veiu e esteve ali.
E em uma segunda feira, depois de comer, três dias do mez de março, mandou el-rei que abalasse a bastida com seus corregimentos contra a villa, como tinha ordenado, e moveu com mui gran força de gente; pero foi bem dezoito braças, desahi moveu uma ala, e depois a outra, e estiveram ambas defronte do muro, arredada urna da outra, e tiraram-lhe sete trons, que não fizeram damno. Depois moveu outra vez, e foi bem rijamente, e chegaram-se tanto à villa que punham um pé dentro no muro e outro na escala, e subiu muita companha, e o Priol primeiro que todos, e mandou el-rei que atirassem afora.
Entonce se fez prestes pera mandar combater, e mandou dez homens d'armas que subissem no mais alto sobrado, onde iam as pedras de mão, e moveu tudo juntamente, as escalas pera pousar e a bastida em que iam os homens d'armas e besteiros. E da bastida sahiam homens com grossos paus, que acostavam ao muro, e puzeram muitos d'elles, e ficavam de fundo amparados, e pero de cima d'elles lhe lançavam pedras grandes e fogo, não lhes impécia nada, e tiraram de fundo alguns cantos, afora outra pedra, de guisa que os de dentro entenderam que não havia em elles conselho, posto que trabalhassem por se defender. Fizeram saber a el-rei que lhes fizesse fallar, e foi lá o Priol e fallou com elles, e el-rei não queria consentir em nenhuma avença, cousa que aos outros lagares fazia de boamente quando lh'a commettiam. Mas todavia tomai-os por força, por se vingar d' algumas desmesuradas palavras que contra elle diziam por vezes; e sobre esto havia refeita se o faria ou não. João Rodrigues de Sá disse que lhe parecia que era bem, pois lhe moviam preitezia de a fazer, porque tomando-os por força, lhe podiam matar uma tal pessoa, que elle não quereria depois por quantos no jogar jaziam.
El-rei disse com queixume: «Quem medo houver não vá na escala.»
-Eu, senhor, disse João Rodrigues, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conhecestes.
-Nem eu, disse el-rei, não o digo por vós, mas digo-o, porque os hei já por tomados.
Os que roubar desejavam, da gente meuda e meã, queriam que o tomasse por força, outros muitos tinham com João Rodrigues. Enfim consentiu el-rei na preitezia, e tornou lá o Priol, o qual, leixadas algumas razões, que mingua não fazem de escrever, foi d'aquena guisa:
Que dessem a villa e o castello a el-rei, e que sahissem em gibões sem outra cousa.
Havendo já cincoenta e tres dias que el-rei jazia sobre elles, e tendo lançadas da villa ao arraial cento e vinte pedras de trons, que nenhum nojo fizeram, e do arraial á villa trezentas e trinta e seis, que damnaram gran parte dela.
E preitejada por esta maneira, foi fama pelo arraial que todos haviam de sahir em gibões, e com senhas varas na mão. Os cachopos todos, sem lho nenhum mandar, apanharam varas, cada um seu feixe, e tinham-nas prestes á porta da villa por onde haviam de sahir.
Em esto sahiu um mancebo pouco mais de vinte annos, e chegou onde el-rei estava, e fincou os joelhos ante elle e disse d'esta maneira:
«Senhor, eu sou escudeiro fidalgo que vim a este logar por serviço d'el-rei meu senhor, cujo vassallo sou, e por minha desaventura, sendo estas as primeiras armas que eu tomei pera o.servir, parece-me que é forçado que as perca, segundo a preitezia, que ouço dizer que entre vós e os da villa tendes trautado, que é cousa de que tomo tão grão nojo, que maior ser não pode, não por a perda das armas, que sua valia não é tamanha, mas porque me parece que já com outras não poderei haver nenhum bom aquecimento, se estas de tal guisa perdesse. Porém vos peço, senhor, por mercê, que mas mandeis dar, que pode ser que inda vos eu com ellas faça tal serviço, guardando a honra d'el-rei meu senhor, e a minha lealdade, que vós as hajaes em mim por bem empregadas.»
El-rei disse que lhe prazia muito e que mandava lh'as dessem, se achadas fossem, ou das outras, umas quaes elle escolhesse, e que viesse, e assim foi feito.
Em outro dia, uma segunda feira, foram lançados todos fora d'aquelle geito, e os cachopos mettiam-lhe senhas varas nas mãos, e elles tomavam-n'as, e alguns por sabor diziam ao que lh'a dava:
- “Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa”.
E assim se foram, que não ficou nenhum, e o Priol em sua guarda, não embargando os pregões e defesa d'el-rei que andava pelo arraial.

Á quinta feira, foi entregue a villa e castello a João Rodrigues de Sá, a quem o el-rei deu, e elle tornou com a senhora rainha pera a villa de Monsão, que eram d'ahi tres leguas, como dissemos." 

Nota (1): Preitezia significa que tomou a vila por meio de uma negociação.

Extraído de: LOPES, Fernão (1897) - Chrónica d' El-Rei J. João I. Vol. IV, Edição da Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa.

Veja a parte I em http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/01/o-cerco-melgaco-na-cronica-d-el-rey-d.html
Veja a parte em II http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/01/o-cerco-melgaco-1388-na-cronica-d-el.html

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