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domingo, 17 de março de 2013

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte X)


Moralidade, Costumes e abandono de crianças

Numa região em que as actividades comunitárias e de interajuda eram frequentes, a presença e a estreita convivência entre os elementos de ambos os sexos não deixava de preocupar os moralistas e até aqueles que se manifestavam contrários à coexistência e complementaridade do trabalho com o convívio social e a produtividade. São exemplos disso as posições assumidas por Lima Bezerra, muito críticas em relação às “viciosas folgas” com que frequentemente se interrompia o trabalho rústico, além de se mostrar particularmente escandalizado com alguns costumes praticados nas desfolhadas tradicionais.
Depois de referir que cada freguesia tinha tantas desfolhadas quantas as eiras dos lavradores ou proprietários, onde apareciam os moços da lavoura mascarados para divertirem os presentes, este autor considerou tal costume como sendo altamente perturbador do normal desenvolvimento do trabalho. Além disso, não deixou de alertar para os perigos e males que poderiam advir do convívio nocturno entre as moças do campo e os rapazes mascarados.
Numa abordagem doutros costumes e tradições populares, Lima Bezerra também se insurgiu contra as romarias que proliferavam por toda esta região e que eram um pretexto para a folia e as diversões humanas. Considerava que os arraiais populares, os ajuntamentos de homens com mulheres, a que o vinho, a estação do ano, as cantigas e as danças davam tanto calor e furor, não deixariam de contribuir para a depravação dos costumes, sobretudo quando os romeiros se deslocavam juntos, de noite, pelos soutos e pelas devesas.
O resultado desta estreita convivência entre indivíduos de sexo diferente acabaria por se reflectir nos níveis de ilegitimidade que se registavam nesta região, cuja aceitação dependeria muito do contexto e das condições em que a mesma se gerava. Assim, enquanto a ilegitimidade que resultava de “fragilidades humanas” pontuais era socialmente aceite e protegida, o mesmo não se verificava nos casos de reincidência, muito menos se a mesma resultasse da prostituição, uma actividade proibida e socialmente condenada.
No primeiro caso, a sociedade e as instituições mostravam-se complacentes para com as mulheres solteiras pobres, protegendo, subsidiando e, se necessário, ocultando a criação dos seus filhos ilegítimos, com esse “pecado” a merecer uma oportunidade de reabilitação. O mesmo já não se verificava em relação às mulheres de “má vida”, interrompendo-se qualquer tolerância e compreensão social e institucional, sempre que se comprovasse a reincidência, embora as crianças acabassem por ser as principais vítimas desse sistema de filtragem social.
A câmara de Melgaço mostrou-se implacável para com a reprodução de comportamentos que deixavam de ser socialmente tolerados , como o prova o facto de, em 1872, ter admitido no Hospício uma filha de Felicidade Maria, «em virtude das suas circunstâncias». Tudo indica tratar-se de uma associação estreita entre a ilegitimidade e miséria, a partir do momento em que a autorizou a própria mãe a criar a criança, pagando-lhe um subsídio equivalente ao vencimento que era destinado às amas dos expostos. Porém, em 1878, a câmara suspendeu-lhe esses pagamentos, «em virtude dela continuar em caminho irregular, entregando-se ao deboxe, além de ter outro filho».
A mesma administração, um ano depois de ter concedido um subsídio para a criação de uma filha de Maria Luisa Puga, solteira, decidiu retirar-lhe esse vencimento e dar-lhe baixa «por continuar a mãe em mancebia, grávida e sem emenda». Na mesma altura, mandou «lançar fora do Hospício» um filho de Maria Rosa Lamas, solteira, de Paderne, «porque a mãe apareceu grávida, continuando a viver vida debochada e viciosa, não querendo a câmara concorrer para este procedimento». Numa situação bem mais complexa, registada no ano de 1888, a câmara não encontrou outra alternativa a não ser a atribuição de um subsídio para pagar a criação de uma criança a quem lhe havia falecido o pai e cuja mãe a desamparara. Esta, ainda em vida do marido, já esquecia os «deveres de fidelidade conjugal e o amor maternal».

Extraído de: 
- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte XIX)

Nenhum outro elemento poderá expressar melhor os sentimentos manifestados em relação às crianças expostas como as mensagens escritas que as acompanhavam. Muitas delas apontavam para uma futura reintegração familiar, a justificarem um tratamento diferenciado daquelas que eram enjeitadas e que passariam a constituir um encargo exclusivo dos municípios. Mesmo que, no futuro, se viesse a provar não existir uma correspondência efectiva entre o conteúdo das mensagens e o destino das crianças expostas, o facto de terem sido elaboradas já revela uma preocupação particular com a sua sorte. Na prática, seria uma forma de manter uma ligação afectiva que a sua exposição não havia definitivamente quebrado. São muito variadas as expressões utilizadas nas mensagens que demonstram o desejo de continuar a acompanhar o percurso das crianças expostas, reveladoras da presença de fortes sentimentos pessoais e familiares. São expressões que, apesar de aparecerem sobretudo na documentação do século XIX e do primeiro quartel do século XX, não deixaram de aparecer esporadicamente no século XVIII, numa altura em que o número de expostos ainda era muito reduzido. Algumas dessas mensagens imploravam os favores das rodeiras para que lhes arranjarem amas boas que as tratassem “com amor” ou “com toda a humanidade e carinho”. Outras vezes, depois de recordarem que a caridade era a principal das virtudes, solicitavam o seu bom tratamento, “por caridade e amor ao próximo”, havendo mesmo uma que “pedia do coração todo o esmero possível” na criação da criança inocente.
Algumas das mensagens pretendiam justificar as razões que levaram à exposição das crianças, como se verificou com uma delas, ao informar que «a criança que se engeita não é por falta de amor que lhe têm seus pais, mas sim por circunstâncias», ao mesmo tempo que se comprometiam a recuperá-la mais tarde e a pagar toda a despesa que tivesse sido realizada pela Roda. Através do escrito que acompanhava esta criança (exposta na freguesia de Alvaredo, concelho de Melgaço, apenas com algumas horas de vida), informava-se que a criança ainda não fora baptizada e pedia-se «por amor de Deus que lhe pusessem o nome de Júlio da Glória e que havia nascido às 9 para as 10 horas da noite do dia 17 de Outubro de 1861». Ao mesmo tempo, prometia-se que iria ser procurada e a instituição ressarcida de toda a despesa realizada. Na verdade, em 20 de Agosto de 1862, esta criança foi procurada e entregue a João Correia dos Santos Lima, negociante da vila de Melgaço, que a exigiu e se responsabilizou pela sua criação e educação, não sendo possível saber se seria o seu pai.  Também não passou despercebido o facto de alguém ter escrito uma mensagem num papel em forma de coração, assim como a promessa de uma mãe em recompensar a ama que criasse o seu filho com todo o amor, cuja exposição a fazia “sofrer encarniçadamente”, mas que esperava poder vir a recuperá-lo no futuro, ultrapassadas as razões que a haviam obrigado a tal procedimento.

Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte VIII)


Muitas crianças terão morrido por serem incorrecta ou insuficientemente alimentadas. Provavelmente como reflexo de uma situação de extrema miséria, uma ama solteira, que também havia sido exposta, entregou na instituição de acolhimento em Melgaço um exposto que estava a criar, o qual se encontrava «em tal estado de magreza, como não pode explicar-se, sendo este devido á falta de alimento desde o princípio da sua criação». Era o que constava no atestado passado pelo médico municipal. Mesmo neste estado, este exposto ainda sobreviveu cerca de um mês.
Desta forma, corria o ano de 1875, a rogo da câmara de Melgaço, Maria Delfina Dias, solteira, lavradeira, de 20 anos de idade, inscreveu-se como ama para criar a exposta Maria Olímpia, a qual havia entrado na “Roda” “quase expirante”, não podendo ser amamentada por ser «aleijada da boca e não poder extrair o leite da mama». Segundo o bilhete que trazia, a menina tinha um mês de vida, já estava baptizada e «desde que nasceu ainda não mamou, tendo-se sustentado com sopas de trigo». Mesmo nesta situação, não deixa de surpreender o facto desta criança ter sobrevivido quase três meses, tendo falecido no dia 29 de Junho do mesmo ano, «por suas circunstâncias de defecção assim o permitirem, visto não poder manter-se com a falta de amamentação».

Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

sábado, 3 de novembro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte VII)

As amas negligentes e madrastas

O facto do número de crianças expostas ser superior ao número de amas disponíveis nesta região, acabou por se revelar altamente prejudicial para as primeiras, ao mesmo tempo que impossibilitou uma filtragem selectiva das candidatas a amas, excluindo do sistema todas as mulheres que não garantissem a sua boa criação. Efectivamente, esse crescente desequilíbrio entre a oferta e a procura acabou por abrir espaço ao aparecimento de algumas amas mercenárias, que alguns investigadores não hesitaram em apelidar de “madrastase, até, de “assassinas”.
Enquanto não foi implementado o sistema de matrícula das candidatas a amas – o que apenas se veio a operacionalizar na segunda metade do século XIX – a recomendação de que se procedesse à entrega das crianças expostas às amas, num prazo máximo de três dias, abrindo caminho às amas menos responsáveis, sempre à espreita de qualquer oportunidade para angariar algum dinheiro. Sendo assim, o problema da falta de amas teria de ser ultrapassado pela contratação de mulheres candidatas ao exercício do cargo, mas muito pouco conscienciosas. Estas terão sido responsáveis pela morte de muitas crianças expostas, por negligência ou pela falta de prestação dos cuidados higiénico-alimentares que seriam indispensáveis à sua sobrevivência.
Estas causas, conjuntamente com as doenças hereditárias, a falta de uma rápida aplicação dos remédios próprios, bem como as situações de abandono em que eram deixadas as crianças, enquanto as amas se ocupavam dos trabalhos agrícolas, seriam as principais responsáveis pela mortalidade registada entre os expostos.
Depois de já se ter, aqui neste blogue, relatado histórias onde algumas amas que deixaram morrer muitos dos expostos que criavam, é importante também registar alguns casos de flagrante negligência das amas, simultaneamente com uma certa inoperância do sistema vigente.
São casos que nos colocam perante uma atitude de resignação e conformismo, face à elevada mortalidade dos expostos, em contraste com a tão propalada mentalidade iluminista e populacionista.
Depois de se haver inscrito como candidata a ama na administração municipal de Melgaço, foi entregue a Ana Rita Martins, natural da freguesia de Paderne, solteira, lavradeira, com 30 anos de idade, o exposto José Maria, no início de Novembro de 1860. Contudo, em acto de revista, realizado no dia 1 de Setembro de 1863, verificou-se que o menino, não obstante já ter 3 anos de idade, ainda não andava nem se movia gatinhando. Depois de averiguar as razões de tal estado, descobriu-se que tal paralisia se ficaria a dever ao facto da ama o conservar sem qualquer exercício e sempre no berço, deixando-o só em ocasiões em que saía de casa, eventualmente para continuar a exercer a actividade agrícola. Como penalização, foi-lhe retirada a criança, sendo riscada do livro de matrículas, «atenta a falta de cumprimento do seu dever».
Em 1 de Junho de 1879, Maria Luisa Gomes, solteira, jornaleira, de 23 anos de idade, natural de freguesia de Paderne, matriculou-se como ama dos expostos do concelho de Melgaço. Algum tempo depois, esta ama «foi banida de tal exercício, pois sendo má mãe, não pode ser boa ama», depois de se verificar que havia fugido e deixado o filho a uma outra mulher.
Também verificámos que algumas mulheres se inscreveram como amas para poderem criar os próprios filhos, subsidiados pelas câmaras, por viverem numa situação de extrema pobreza. No entanto, mesmo nestas situações, os abusos eram frequentes. Veja-se o que aconteceu com a ama Felicidade Esteves, de 21 anos de idade, solteira, jornaleira, natural da freguesia de Gávea, concelho de Melgaço, inscrita em 1872, para «ser ama da filha Rosa Lina, admitida como subsidiada». Em 1878, a câmara de Melgaço deu-lhe por terminado o período da criação, «visto ela continuar, além de já ter tido outro filho, em vida abusiva», aplicando incorrectamente os subsídios que recebia do cofre do distrito, por se ter verificado que a sua filha estava a viver com a avó.


Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

domingo, 21 de outubro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte VI)

O selo dos expostos

Para que o sistema assistencial funcionasse correctamente, não bastava que houvesse amas disponíveis. Seria absolutamente fundamental que estas fossem mulheres honestas, responsáveis e cuidadosas. Para incentivar a envolvência destas amas, chegou a propor-se a atribuição de prémios às que se revelassem mais zelosas, uma medida que seria inviabilizada pela falta de recursos financeiros. Em qualquer circunstância, todas as amas se deveriam comprometer a tratar os expostos «com todo ozelo e caridade», embora só excepcionalmente sob um ritual administrativo que incluiria o juramento e a elaboração de um termo de responsabilidade.
Algumas câmaras da região preocupavam-se com o estado em que se encontravam os expostos, exigindo que fossem observados pelo médico do partido ou, em alternativa, obrigando as amas a entregarem um atestado comprovativo do seu tratamento. Apesar de todas as irregularidades praticadas, alguns atestados davam conta de que os expostos estavam em “estado sofrível”, “bem tratados”, “bem gordos” ou “bem nutridos”, uma situação que também poderia ser comprovada em actos de revista. Excepcionalmente aparece a indicação de que uma determinada criança estava bem nutrida porque o filho da ama havia falecido, o que lhe permitiria ser melhor amamentada e melhor tratada.
De facto, não seria fácil a uma ama gerir a amamentação conjunta de um filho biológico e de uma criança adoptiva ou postiça, sendo muito provável que privilegiasse o filho, em detrimento da criança exposta.
Um caso considerado exemplar é o caso da ama Albina Clara de Castro, de 23 anos de idade, solteira, costureira, natural da freguesia de Chaviães, concelho de Melgaço, poderá ser apontada como um exemplo de profissionalismo e responsabilidade. Na verdade, depois de se candidatar ao exercício do cargo de ama de leite, foi-lhe entregue uma exposta, em 9 de Fevereiro de 1863. Contudo, «por deixar de ter rapidamente falta de leite», disso deu conta à administração da Roda de Melgaço, tendo-se mostrado indisponível para continuar a ser ama, salvo se voltasse a ter leite.
Em 22 de Janeiro de 1876, foi-lhe entregue o exposto Baltazar José, por se ter verificado «ter leite em abundância», uma actividade que se viu forçada a abandonar novamente, «por adoecer gravemente e o exposto defecar rapidamente», ainda a tempo de o fazer entregar a uma outra ama para que pudesse completar a sua criação. A mesma avaliação positiva foi feita em relação a uma outra ama de Melgaço, Maria da Conceição Sanches, solteira, da freguesia de Alvaredo, a qual, em 1883, foi considerada pela câmara como «das melhores amas no cumprimento dos deveres».


Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte V)


Um exemplo de longevidade no exercício das funções de ama foi protagonizado por Maria Luisa Fernandes, casada, lavradeira, natural da vila de Melgaço. Matriculada oficialmente, em 8 de Agosto de 1860, quando tinha 37 anos de idade, esta mulher ainda exercia as funções de ama, em 1881, ao serviço do Hospício de Melgaço, tendo sido oficialmente reconhecida como uma das melhores amas do Hospício. Primeiro como ama de leite, mais tarde como ama de seco, esta mulher acompanhou de perto as mudanças institucionais que se registaram a nível distrital, quando as Rodas foram substituídas pelos Hospícios.
No momento em que o seu nome foi registado em livro próprio (por força do novo regulamento distrital que entrou em vigor a partir de 1857), esta ama já criava o exposto Manuel Maria. Contudo, após um novo parto e no dia em que lhe faleceu o filho, deixou de ser ama de seco para voltar a exercer as funções de ama de leite, substituindo a criança que estava a criar por uma outra que acabava de ser exposta. A morte desta, em 4 de Setembro de 1864, privou-a momentaneamente do respectivo salário, tendo manifestado às autoridades locais a sua disponibilidade para voltar a ser ama de seco ou de leite, depois de declarar estar novamente grávida e com parto próximo.
Em 5 de Janeiro de 1865, tomou conta do exposto António Oroeste, depois de provar que tinha leite. Este exposto sobreviveu até ao dia 22 de Agosto de 1865, logo substituído pela exposta Patronilha Maria, a qual continuou na sua posse, mesmo após ter completado os 7 anos de criação. Em 2 de Janeiro de 1873, já com 50 anos de idade, foi-lhe entregue o exposto Bento Monteiro, depois de retirado à ama anterior. Também este exposto atingiu os 7 anos de idade e ficou em seu poder, continuando a merecer a confiança da administração municipal que a considerou «apta para continuar a ser de seco quando se precisasse, por ser uma das melhores amas do Hospício». Com perto de 60 anos de idade, esta mulher ainda mantinha a sua inscrição como ama de seco, mas não dispomos de mais dados para saber se voltou a exercer esta função remunerada, que havia substituído ou complementado a anterior actividade de lavradeira.


Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

domingo, 14 de outubro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte IV)


As amas de leite e as amas de seco

Sem um limite temporal bem definido, o período de aleitação deveria prolongar-se pelo menos durante um ano, embora a sua interrupção acabasse muitas vezes por coincidir com o momento em que secava o leite das amas.
Num sistema assistencial em que não era fácil comprovar se as crianças estavam a ser ou não amamentadas, algumas das amas mais conscienciosas, a quem secava o leite, decidiam levar as crianças à Roda a Melgaço para que lhes fosse encontrada uma outra ama que desse continuidade ao período de amamentação. Pelo contrário, as menos conscienciosas procuravam ocultar tal facto para continuarem a receber os respectivos salários, uma situação que poderia nunca vir a ser conhecida, por falta de uma adequada vigilância dos médicos de partido ou porque essas crianças acabaram por falecer. Na realidade, a sobrevivência dos expostos poderia ser abruptamente interrompida quando o leite das amas era precocemente substituído por alimentos alternativos, incluindo o leite de vaca ou cabra, mais ainda quando ministrado sem os cuidados higiénico-sanitários aconselháveis.
Terminado o período de criação de leite, as crianças passavam a ser criadas por amas de seco, geralmente as mesmas que as haviam amamentado, por um período que se poderia prolongar até completarem os 7 anos de idade. Assim, enquanto umas crianças apenas conheceram uma única ama, outras acabaram por ter duas ou mais amas, independentemente de serem amas reais como fictícias, uma consequência natural do complexo jogo de estratégias que se foram desenvolvendo ao longo do processo de criação.
A mudança de ama poderia ser voluntária ou compulsiva. No primeiro caso, seriam as próprias amas a pedir a substituição, por falta de leite, incapacidade ou indisponibilidade, enquanto que a mudança compulsiva seria o resultado do conhecimento público de maus tratos praticados por amas negligentes ou por suspeitas de que fossem conhecidas dos familiares das crianças e por eles “tratadas”.
Não se revelava fácil controlar todo o universo das amas de alguns concelhos, tanto pelo seu elevado número, como pelo facto da sua distribuição ultrapassar os limites administrativos do próprio concelho. Embora alguns regulamentos previssem a realização periódica de “vistorias” às criações e comportamentos das amas, estas nem sempre se realizavam ou apenas tinham uma periodicidade trimestral, coincidindo com o acto de pagamento dos respectivos salários.
Se a identificação das amas nem sempre foi uma tarefa facilitada, mais difícil seria o controle das crianças expostas, muitas vezes substituídas por outras, como forma de garantir os pagamentos. Sem marcas identificadoras específicas, como aconteceu ao longo de quase todo o período estudado, em consequência da resistência à implementação do “selo dos expostos”, as irregularidades eram frequentes, como o procurámos demonstrar nesta investigação.
Com a falta de amas de leite, a quem haviam falecido os filhos ou terminado o período de amamentação, a alternativa passava pela entrega dos expostos a mulheres que se dispusessem a partilhar o leite dos filhos biológicos com os “filhos postiços”. Foi o que aconteceu com a Maria José de Sousa, de 44 anos de idade, solteira, tecedeira, da freguesia de Penso, do concelho de Melgaço, que, depois de lhe ter falecido o exposto que criava, manifestou vontade em continuar inscrita como ama de seco ou voltar, mais tarde, à condição de ama de leite, por se encontrar novamente grávida.
Numa outra situação, a ama Maria Joaquina da Gama, de 23 anos de idade, solteira, costureira, natural da freguesia de Alvaredo, tendo-lhe falecido o exposto Boaventura, em 9 de Dezembro de 1860, acabou por declarar não estar interessada em continuar inscrita como ama de leite, uma intenção com que a câmara se conformou, «por suas circunstâncias não serem as melhores para ama de leite, por se achar no estado de gravidez». Porém, já depois do nascimento do filho, esta ama mostrou-se novamente disponível para voltar a exercer a actividade de ama de leite, «visto já estar nas circunstâncias de prestar leite, tendo a criança 4 meses completos».



Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte III)


Não se tem conhecimento, nos registos da RODA de Melgaço, na época em causa, de nenhuma exposição que tivesse sido efectuada em locais completamente isolados ou de fraca acessibilidade. A terem acontecido, estes casos não deixariam de configurar um cenário de infanticídio. Poderia ser esse o caso de quem expôs uma menina na freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço, no dia 26 de Agosto de 1862, tendo-a deixado debaixo de uma figueira, sobre um roço de silvas, a qual foi achada na madrugada desse dia, «quasi expirando por estar chovendo e sem agasalho». Esta menina estava «embrulhada em dois panos velhos de algodão que são inúteis e sem préstimo», assim como por um pequeno enxoval, constituído por uma camisa d’elefante e uma outra com as mangas sem pregar. Todavia, o facto de estar acompanhada por um pequeno enxoval, como vinha descrito no seu registo, afasta a hipótese de se tratar de uma forma de infanticídio deliberado, antes de uma negligência grosseira de quem se encarregou de a expor. Estes crimes seriam passíveis de punição, se fossem conhecidos e identificados os seus autores.

Este tipo de situações não passaram de casos isolados, como actos negligentes que terão sido gerados em contextos de extrema miséria ou em consequência de situações de desespero, estados de loucura ou irresponsabilidade dos condutores. Contudo, estes actos não terão passado despercebidos a uma sociedade atenta, sempre pronta a agir em favor dos mais carenciados. Essa intervenção poderia acontecer no momento do parto, ajudando as parturientes e expondo as crianças nas Rodas/Hospícios ou em locais onde pudessem ser recolhidas e tratadas.

Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte II)


“Como primeira responsável pelo acolhimento e tratamento das crianças expostas,o desempenho da rodeira não deixaria de se reflectir directamente no bom ou mau funcionamento da instituição, pelo que a sua escolha e nomeação deveria revestir-se de cuidados particulares, por parte das administrações municipais.

A rodeira deveria estar em condições de amamentar as crianças expostas. A isso mesmo obrigava uma resolução da câmara de Ponte de Lima, aprovada no dia 29 de Julho de 1778, segundo a qual, a partir dessa data, não poderia ser “ama dos enjeitados” senão mulher que tivesse leite e lhes pudesse dar de mamar, para se evitar, como muitas vezes acontecia, que não aparecesse logo ama que os levasse para criar. Foi o que se verificou com um menino que foi exposto no concelho de Melgaço e que «chegou de tal forma desfesado que parecia estar expirando ou próximo disso». Como não apareceu nenhuma ama que quisesse aceitar «este inocente, em atenção ao estado que vinha», a câmara obrigou a rodeira a ficar com ele, «por estar de parto recente». Contudo, o menino acabou por falecer dez dias depois.

Uma situação idêntica foi vivida por dois meninos gémeos que foram expostos na freguesia de Penso, concelho de Melgaço, em 23 de Julho de 1878, acompanhados de um único bilhete, a pedir que pusessem à criança o nome de Gaspar Eduardo, provavelmente uma mensagem elaborada antes de se confirmar um parto duplo. O problema foi resolvido no momento do baptismo, com um deles a receber o nome solicitado de Gaspar Eduardo, enquanto o outro se passou a chamar Eduardo Gaspar.

Estes expostos eram prematuros e um deles estava quase moribundo, pelo que não apareceu nenhuma ama disposta a criá-los, ficando ao cuidado da ama do Hospício de Melgaço, tendo ambos falecido alguns dias depois.

Os primeiros regulamentos locais recomendavam que a rodeira deveria ser substituída, logo que deixasse de ter leite.”




Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.