Trazemos uma notícia com mais de cem anos no jornal lisboeta “A Capital”, que nos fala de alguns aspetos da nossa terra, a começar pela feira do gado de Paderne. A mesma vem publicada na edição de 2 de Outubro de 1923 e começa por nos dizer que esta feira de gado era a maior da região...
“CARTAS DO MINHO
FEIRA DO GADO - CONTRABANDO PARA A ESPANHA – CASTELO EM RUÍNAS - AO ABANDONO – BATOTA – O PREÇO DO DURO
MELGAÇO, 27 – Na povoação próxima desta vila, denominada Paderne, realizou-se hoje a feira mensal de gado, que é por assim dizer a mais concorrida, dos concelhos de Melgaço, Valença e Monsão, afluindo ali grande numero de vendedores e compradores, dos Arcos de Val de Vez, Ponte da Barca e Ponte de Lima.
Os lavradores que têem já concluídas as colheitas do vinho e do milho aproveitaram a ocasião para venderem o gado que tinham adquirido antes, e que durante o ano vão criando e engordando, para o ano próximo, lhes fazer os trabalhos dos campos.
O numero de compradores, foi grande sendo a maioria absoluta de espanhoes, que compravam o gado por todo o preço, fazendo-o depois, transportar para a Galiza, pela raia seca, da serra de Castro Laboreiro.
Os espanhoes não se limitavam à compra de gado bovino; adquiriram também bastantes galinhas, que chegaram a atingir os preços de 20$00 e 22$00, certos da impunidade do crime de levarem para fora do paiz, aquilo que cá nos está fazendo bastante falta.
Na feira tive ocasião de trocar algumas palavras com um lavrador, pelas quais se vê a ignorância deste povo que pouco se importa que os seus compatriotas de outras regiões morram de fome.
— Quanto quer pela junta de bois – perguntei?
— Cinco contos.
— Mas o cambio?
— Que me importa a mim o cambio? O que eu quero é que o gado dê dinheiro?
— E o paiz?...
— Eu não percebo dessas coisas. O que sei é que de ano para ano pago mais contribuições.
Se tivesse falado com muitos outros lavradores, teriam dito a mesma coisa. O que eles pretendem é dinheiro, não olhando ao seu valor.
De volta para Melgaço tive ocasião de falar com o Sr. João Pires Teixeira, presidente da Câmara Municipal; que teve a amabilidade, de me mostrar os pontos mais interessantes da vila.
Da velha muralha do castelo, que outrora, marcavam os pontos de resistência às invasões estrangeiras, apenas restam umas pequenas pedras dispersas aqui e alem.
O castelo, esse ainda conserva o seu velho relógio, que é secular.
Nas caves que serviram para deposito de material de guerra, esta agora instalada uma cocheira e no pavimento superior um armazém de palha.
— O concelho de Melgaço – diz-nos o sr. presidente da C. M – está completamente ao abandono; aqui não há hotel e temos um café apenas. Não há coisa alguma. O estado tem-se desinteressado completamente deste concelho…
— Iniciativas particulares?
— Não há. Aqui há mezes é que se fundou para ahi uma sociedade, onde se joga a batota descaradamente, sem que as autoridades intervenham.
Melgaço tem uma velha aspiração, que bastante viria a desenvolver o seu comercio e sua agricultura; é o caminho de ferro. Note que são apenas 15 a 17 kilometros de Monção aqui. Pouca despesa se faria. O povo do concelho, para isso, pagaria de bom grado mais 2% sobre as suas contribuições.
— Quantos habitantes tem o concelho?
— O ultimo censo deu-nos uma população de cerca 16 000 habitantes. O nosso concelho é rico. É dos concelhos do Minho que mais dinheiro dá ao estado e que menos recebe. Para terminar, acrescentou o Sr. Pires Teixeira, dir-lhe-ei que no próximo inverno vamos ficar sem correio para aqui. A estrada está intranzitavel. Há bastantes anos que não é reparada e o carro que traz o correio, do Monsão não poderá passar do Pezo para cima.
— Porque não reclamam?
— Junto de quem? Aqui só há energia, vida e atividade, nos tempos de eleições, quando precisam de nós. Servidos, esquecem-nos por completo.
Durante a feira de Paderne, a única casa de cambio que aqui existe, fez um excelente negocio, chegando a vender o duro a 22$00.”

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