A origem do culto a Nossa Senhora de Fátima no Facho, na freguesia melgacense de Cristoval remonta aos anos quarenta do século passado. Diz-se que a pequena capelinha foi mandada construir para cumprimento de uma promessa de uma pessoa, o Sr. Manuel Trancoso da Silva, que tinha a sua sobrinha gravemente doente. Num texto publicado no jornal "Voz de Melgaço", em Março de 1956, e acerca do assunto, podemos ler: "Monte
do Facho! Facho ardente de luz! Cantinho abençoado que muitos
desconhecem, mas que por certo ninguém devia ignorar. Nenhum outro
conheço mais feiticeiro, nenhum de maior aprazimento e encanto.
Lugar de signo tão feliz, que no Céu parece ter uma janela, donde
os amigos e as almas o contemplam.
Monte
do Facho! Quem haverá que subindo até junto de ti possa esquecer a
paisagem que os nossos olhos divisam?
Águas
e campos, montes e folhagens... aqui, Cristóval com a sua igreja,
que se levanta parece que em prece а Deus; acolá, aldeias com casas
caiadas de branco; mais além os rios Trancoso e Minho; ao fundo, S.
Gregório a linda aldeia que todos admiram e à qual um poeta
vianense chamou "a Suíça Portuguesa". E em frente que se
nos depara? A vizinha Espanha com os lugares de Padrenda, Notária,
Frieira, servidos por uma estrada que vem ligar à nossa em Puente
Barjas para nos levar até Vigo, Corunha. Madrid, etc.
E
que feliz inspiração teve o nosso conterrâneo Manuel Trancoso da
Silva, quando em cumprimento de uma promessa se lembrou de mandar
construir no mais alto do monte uma ermida (onde ele apesar de tão
rico muito trabalhou também), na qual havia de ser colocada a Virgem
de Fátima.
Em
cumprimento de uma promessa? Sim!…
E
que linda promessa para todos os que a ouvem contar, mas triste,
muito triste, para os que a viveram ou presenciaram.
Ildinha
era a filha única de um casal feliz que vivia em S. Gregório donde
era natural, sobrinha do Sr. Manuel Trancoso da Silva. Sempre amimada
e bem querida, cresceu em ambiente alegre e confortável. Mas chega
aos 11 anos e é necessário fazer dela uma menina instruída e culta
como é aspiração da família.
E,
para que não vivesse muito longe dos pais, resolvem pô-la a estudar
no colégio mais próximo da sua terra, para vigiarem de perto todos
os seus passos e ver que nada lhe falte. Mas, porque o destino é
impiedoso, apesar de tantos cuidados, já em férias, quando a
Ildinha passava a ferro o seu vestido novo com o qual iria passear no
dia de Páscoa em companhia das suas amigas, sente-se sufocada. Aos
gritos lancinantes acode a mãe aflita.
E
que triste espectáculo, Deus meu! Aquela inocente deitava sangue
pela boca, pelo nariz, pelos ouvidos. Uma tuberculose galopante
tinha-se apoderado dela no mais cobarde silencio. Principia com então
resignação a vida de martírio para aquele anjo que com tanta
resignação soube sofrer.
Procuram
os pais salvá-la. Fogem com ela à procura de remédios. Mas eis que
regressam de uma longa peregrinação pelos consultórios dos mais
célebres especialistas em doenças pulmonares, sem qualquer
esperança de cura. Parece que estou a vê-la ainda: prostrada no lei
quase inerte, com duas grossas tranças a contornar-lhe o rosto,
olhar meigo, sorriso vago nem triste nem alegre, como se fosse ao
mesmo tempo a expressão de uma saudade longínqua e a esperança de
uma felicidade que morre.
Lembra-se
então o tio de apelar para a Bondade Divina. Faz a promessa de
mandar erigir no Monte do Facho uma ermida, onde seria colocada a
Imagem da Virgem de Fátima, se a sobrinha, único bem da sua vida,
fosse curada. E, com tanta confiança fez a sua prece que, mesmo
antes de ser atendido, apressou-se em mandar vir a Imagem da Senhora.
Os trabalhos no Monte do Facho e a construção da nicho principiaram
em 1941, sob a orientação do Senhor Trancoso; grande devoto da
Virgem, devidamente autorizado pelo Rev.do Pároco, P. Manuel José
Pereira.
1942
era o Ano Jubilar das Aparições de Fátima. O Romano Pontífice Pio
XII, em nome da humanidade inteira; dessangrada por espantosa
carnificina, debatendo-se num espasmo de agonias incomportáveis;
iria consagrar o Mundo ao Imaculado Coração de Maria. Fátima foi o
altar da Virgem escolhido para realizar tão solene como
significativa cerimónia. Aproveitando este acontecimento invulgar na
História da Igreja em Portugal; e para dar cumprimento à sua
promessa, resolveu o Senhor Trancoso e com razão, escolher esta data
para a bênção e entronização da Imagem da Senhora de Fátima no
Monte do Facho.
13
de Fevereiro de 1942 é a primeira data festiva. Na véspera, faz-se
a primeira procissão de velas. Saindo da capela de S. Gregório,
depois de nela se incorporarem centenas de pessoas cantando e
rezando, a procissão, fugindo ao itinerário, vai passar em frente
da casa onde aquele pobre anjo sofria. Tendo-a tirado da cama, lá a
vemos amparada na varanda, de joelhos, com os olhos postos na Virgem
que segue na procissão, pedindo em prece ardente, a sua cura. Todos
choram e soluçam ao contemplar tão triste espectáculo. O desfile
continua e, à medida que vamos subindo, presenciamos o que de mais
maravilhoso e sublime se pode admirar na terra. De cada janela que ao
longe ou ao perto se avista, em Portugal ou na vizinha Espanha,
erguem-se velas a arder; lembrando-nos quе naquele lar mora um casal
feliz, uma pobre viúva que dedilha as contas do seu rosário um
velho nos últimos anos da sua vida, todos rendendo homenagem àquele
andor sagrado, onde segue a Virgem que vi ser colocada na pequena
ermida no monte do Facho. No dia 13, missa campal e outros actos de
culto à semelhança daqueles que se realizaram na Cova da Iria.
Bendito seja Deus que nos deu por berço um cantinho tão lindo onde
a crença e a religião são filhos desta paisagem verde e mansa!
Mas
porque nem sempre proveitoso para a alma tudo quanto para bem do
corpo реdimos; Deus, achando talvez que aquela menina estava em
estado de graça, não quis ouvir as vozes que clamavam piedade na
terra e levou-a para junto de si para o Céu. Na noite de 5 de
Novembro de 1943, a Ildinha falece com 16 anos de idade. Parece-me
contemplá-la ainda na minha eterna saudade, vendo-a sempre dormindo
dentro de um caixãozinho branco coberto de flores, com as mãozinhas
débeis cruzadas sobre o peito…
O
povo receia que depois da sua morte as obras do Facho não se
concluam. Contudo o Senhor Manuel Trancoso da Silva não esmorece e;
no meio de tanta tristeza, faz o propósito de contribuir cada vez
mais para o progresso daquele Monte.
Absorvido
em Deus e na sua fé religiosa, procura com o trabalho esquecer a
imagem daquela sobrinha que lhe era tão querida e Deus levara para
junto de si. Os trabalhos prosseguem. Pensa ainda em mandar construir
perto do nicho onde está a Virgem de Fátima, uma capela à qual
seria dado o nome de “Capela de S. José”. Mas a morte
surpreendeu-o sem ver realizada a sua aspiração.
A
partir de 1943, a festa de N. Senhora realizou-se sempre no dia 13 de
Maio com tríduo preparatório e procissão de velas na véspera. Em
1947 teve lugar a grandiosa festa da coroacão da Senhora dos
Pastorinhos. Em Maio do ano anterior, 1946, Pio XII, acedendo ao
pedido insistente dos fiéis de toda a cristandade, apresentou ao
mundo a Virgem Santíssima como Rainha Universal dos povos.
A
coroação da Senhora, complemento brilhante da consagração,
verdadeiro plebiscito mundial, foi ocasião de singular alegria e
contentamento para todos os corações piedosos.
O
bom povo de Cristóval que nutre pela Senhora de Fátima entranhado
amor e viva dedicação, apressou- também a coroá-La. Tudo se
dispôs harmoniosamente para esta cerimónia emocionante. O Ex.mo e
Rev.mo Sr. Arcebispo Primaz foi convidado a presidir. Um coro misto
de portugueses e espanhóis num total de 100 elementos, sob a
regência de D. Castor Cartelle. abrilhantou os actos do culto. Os
nossos vizinhos espanhóis onde o amor à Virgem é de igual quilate,
estiveram largamente representados.
As
freguesias de Padrenda e Desteriz presididas pelos seus Revs. párocos
tomaram parte colegialmente, avançando pela ponte internacional com
as suas bandeiras e cruz alçadas. Um total de mais de 5 mil pessoas
enchia o largo recinto, donde se divisa uma das mais surpreendentes
paisagens do nosso religioso Minho.
A
coroa toda em ouro, num valor superior a doze mil escudos foi
oferecida por toda a freguesia. O precioso brilhante que a torna
inconfundível é generosa dádiva da Dona Palmira, esposa do Sr.
Manuel Trancoso da Silva. Chegada a hora emocionante da coroação,
os "vivas" e "hossanas" ecoaram a nono espaço
numa manifestação de júbilo e gratidão à Mãe do Céu.
Seguidamente
o Ex.mo Sr. Dr. Júlio Outeiro Esteves, ilustre filho da nossa terra,
leu em nome de todos, a Consagração a Nossa Senhora.”
Igualmente simbólica foi o evento da coroação de Nossa Senhora de Fátima, realizada em Maio de 1947, aqui referida numa notícia na "Voz de Melgaço", na edição de 1 de Maio desse ano: "S. Gregório – Festa da coroação de Nossa Senhora de Fátima – A
Comissão tem desenvolvido grande atividade para que esta festa tenha
o brilho desejado.
Já
está autorizada a passagem dos raianos espanhóis esperando-se que
seja grande a sua afluência.
Reina
grande entusiasmo em todas as freguesias vizinhas que tomarão grande
parte na grande peregrinação presidida por Sua Ex.a Rev. O Sr.
Arcebispo Primaz.
Está
já assegurado o concurso da afamada Banda Voluntários de Melgaço,
sob a regência de mestre Morais.
Os
coros e a parte coral da Missa Solene serão regidos pelo grande
amigo desta terra, D. Carlos Cartelle que gentil e espontaneamente se
pontificou a ensaia-los.
Que
sombra de exagero pode afirmar-se que esta será a melhor e mais
imponente festa desta freguesia e uma das mais brilhantes do
concelho? É pena que nem todos compreendam o grande significado de
tal acto de homenagem à Virgem Santíssima”.