domingo, 25 de setembro de 2022

Notícias sobre a feira de Melgaço em Outubro de 1920

 



No início dos anos 20 do século passado, as condições de vida em Melgaço e na generalidade do país eram muito difíceis. Além da guerra, a nossa terra tinha sido fortemente atingida pela pandemia da Gripe Espanhola, numa altura de grave crise económica. Na edição do jornal “O Comércio do Porto” de 27 de Outubro de 1920, uma notícia fala-nos um pouco sobre os elevados preços praticados na feira de Melgaço e na falta de géneros. Eram tempos muito duros...

Na dita notícia, podemos ler: “MELGAÇO, 24 – Em virtude de o dia de hoje se apresentar chuvoso, a feira quinzenal que se realizou não foi concorrida como era de costume ser e a falta de géneros expostos à venda foi grande, vendendo-se os poucos que appareceram por preços altos, preços que só os novos ricos podem aguentar. 

O milho, que nesta quadra costumava vender-se por preço regular, tem-se vendido a 10$000 e 12$000 réis cada 80 litros, quando nos concelhos de Monsão, Valença e outros do districto se vendem os mesmos 80 litros a 6$000 réis. Feijão, batata e centeio, também atingiram já um preço que faz tremer os menos abastados, os que necessitam comprar e cujos rendimentos não chegam para fazer face a tão grossas despezas. E nos estabelecimentos como tudo sobe de dias para dia! É um horror! 

Desde que foi declarada a greve ferroviário, os géneros têm subido desmedidamente: o bacalhau, que se vendia antes a 1$600, passou logo a 2$000 e a 2$300 cada kilograma; o azeite, que se vendia a 8$000 o litro, passou a vender-se a 8$700! E os restantes géneros sobem de preço na mesma proporção. 

Era para isto que pediam a liberdade de commercio. 

Independentemente d’esta carestia, temos ainda a flagellar-nos os açambarcamentos dos géneros produzidos aqui, que os exportam para fora do concelho, a caminho da fronteira, passando-os para a Galliza, com a mira dos lucros que o preço do câmbio lhes dá. 

Se tivéssemos uma autoridade activa e cumpridora dos seus deveres, não sentiríamos a falta de muitos géneros nem seriamos tão explorados, com relação ao preço. Em todos os concelhos, as autoridades promovem que não haja falta de género, não deixando sahir o que faz falta: aqui, dá-se exatamente o contrário, tudo sai do concelho sem a mais leve oposição... 

 

 

Extraído de: Jornal “O Comércio do Porto”, edição de 27 de Outubro de 1920. 

domingo, 18 de setembro de 2022

O Mosteiro de Fiães em artigo do jornal "O Comércio do Porto" (1866)

 



Na edição do jornal “O Comércio do Porto” de 13 de Dezembro de 1866, encontrámos um artigo dedicado ao mosteiro de Fiães e ao seu antigo Couto e que recupera escritos extraídos do livro “Corografia Portuguesa” do Padre Carvalho da Costa, obra publicada em 1706. No dito artigo, podemos ler: “No mesmo Concelho de Valladares, ficando-lhe para o Norte o de Melgaço, para o nascente o Reyno de Galliza, sobre huns altos montes, ao pé de outros mais altos está o Convento de Fiães, fundado em tempo del Rey Ramiro Primeiro e de sua mulher a Rainha Dona Paterna, de que julgamos tomar o nome o valle de Paderne. Quando ella então não fosse a fundadora daquelle Morteiro, o seria do de S. Payo, que no termo de Melgaço houve. Foi este de Fiães de Monges Bentos com a invocação de S.Christovão, de que se acha noticia pelos anos de 851 e hum dos primeiros, que desta Ordem houve em Hespanha. Foi logo tão rico em seus princípios de rendas senhorios, que teve nesta Província, na de Trás os Montes e Galliza, que vulgarmentefe dizia não haver algum tão poderoso, como o Dom Abbade de Fiães, depois del Rey, pelo que se pode presumir ser obra sua. Ali viviam oitenta Frades de Missa, além dos Conversos, os quais em Lausperene assistiam continuamente no Coro de dia e de noite e com tão exemplar vida, que de todos eram chamados Santos e muitos faziam milagres pelo que se vinham aqui enterrar muitos príncipes, que lhe fizeram amplas doações. De três Infantes há noticia e de muitos fidalgos galegos, & portuguezes, Fernão Annes de Lima, pai do primeiro Visconde, está em sepultura levantada e magnífica com suas Armas junto da Capela de S. Sebastião. Tinha antigamente um banho, que por milagre de Nossa Senhora apareceu junto do Morteiro, e esta água era de tanta virtude, particularmente no dia do Bautista, que muitos doentes de várias enfermidades, e aleijoens incuráveis, que nele se vinham lavar, voltavam sãos. Mandou-se entupir há anos por mortes que houve entre os que haviam de entrar primeiro. Ainda hoje vem muitos buscar água, que dele emana e a levam a enfermos, que bebendo-a com fé , obra Deus por ela muitas maravilhas. Da imagem de S. Bento, que aqui está, e é visitada dos contornos em todo anno, particularmente em Teu dia, se contam grandes milagres. A fabrica deste Mosteiro, e celas dos Religiosos foi cousa grande, trezentos e tantos annos havia, que nele viviam estes Monges. Teve nesses tempos dois incêndios por desgraça, causa de sua total ruína, porque lhe queimarem os melhores títulos de suas rendas, com que se pôs em estado, que mal tem com que sustente oito frades, quanto mais para pagar à Capela Real quarenta mil reis, e vinte e cinco mil reis ao Convento do Desterro de Lisboa. Da primeira ruína o tirou a piedade Cristã de Afonso Paes, dois irmãos seus, que de novo o reedificaram e deram a Alcobaça. No ano de 1150 era tão grande a fama que corria da vida santa dos Frades Bernardos, que tinham vindo de França para este Reyno, que mandou o Dom Abade deste Mosteiro dois Monges ao de Alcobaça a pedir nova reformaçam dos institutos de Cister, e um Religioso para que melhor os instruísse pelo que haviam de obrar, ficando logo sujeitos àquela Real Casa, que de novo se ia edificando. Tanto que receberam a reforma, tomaram por Padroeira a Virgem Nossa Senhora, deixando a S. Christovão e se chama desde então Santa Maria de Feães, e em memória do grande gosto que tiveram de se mudarem a Bernardos, e da boa doutrina, que o novo Mestre lhes veio dar, puseram o nome de Alcobaça a uma aldeia arraiana, que então povoaram, e permanece. Donde seu princípio sempre teve Couto Cível, que lhe confirmaram EI Rey Dom Afonso Henriques, e seus sucessores; e o Dom Abade tem jurisdição Episcopal, Metropolitano imediato ao Papa, sem que o Arcebispo lhe visite os seus súbditos, e reconhece os Breves Apostólicos, ou o seu Provedor, que é hum Religioso da Casa, a quem o Abade escolhe, e deles appella para Roma, ou Núncio. A mesma jurisdição tem em Galiza no Bispado de Tuy além do rio Trancoso em dois lugares chamados Lapella e Azureyra, em que exercita a dignidade Episcopal por sentenças que teve cá e lá contra o Primaz, e Bispo, que ambos lho quiseram tirar, cousa que não sei haja em outra Diocese.” 

 

 

Extraido de: Jornal “O Comércio do Porto”, edição de 13 de Dezembro de 1866. 

domingo, 14 de agosto de 2022

A freguesia de São Lourenço de Prado (Melgaço) descrita em meados do século XVIII

 


Para conhecermos a freguesia de São Lourenço de Prado em meados do século XVIII, podemos recorrer à leitura do manuscrito das Memórias Paroquiais de 1758. Tal documento foi redigido em 6 de Maio desse ano pelo vigário Duarte Vaz Torres e no manuscrito podemos ler o seguinte: 

 “Informação da paroquia da freguezia de Prado 

Esta freguezia, cujo orago he S. Lourenço martir, está situada no termo da villa de melgaço, comarca no secullar da ouvidoria de Barcellos por ser da Sereníssima Caza de Bragança e no eclesiástico da comarca de Valença do Minho, Arcebispado de Braga Primaz donde dista doze legoas e da Corte de Lisboa satenta e duas. vigaiaria ad nuptum que aprezenta o abbade de São Paio com quem parte e rende para o vigário de coatro a oito mil réis de congrua, vinte alqueires e pão meado, dous de trigo e um almude de vinho, além do incerto do pé do altar. A igreja que está no meio da freguezia junto da estrada real que vai para a villa de Melgaço, tem três altares, o maior do dito orago em que está o Santíssimo, os colaterais, hum de Nossa Senhora do Rozario e o outro das Almas em que há confraria ou irmandade das mesmas. Foi erecta à paróquia esta freguezia no tempo do Senhor e venerável D. Frei Bartolomeu dos Mártires e está situada um hum valle fértil e mimozo capaz de dar produzir todo o género de fructos, mas pela sua estreiteza e pobreza dos moradores, a maior abundância de fructos milhão e vinho e linho. Descobre-se della a villa de Melgaço com quem parte pella parte do Norte a freguezia de Rouças, pelo Nacente a de São Paio e Paderne, pelo sul tudo athé o alto da serra do Pumedelo de que dista huma legoa e pelo Poente a freguezia de Remoaens com as quais sobredictas parte e mais della se descobre athé a Praça de Monção que dista três legoas. Pelo Minho abaixo também se descobre della a serra da Tranqueira, que do Reino da Galiza com sua freguezias e valles athé o rio Minho que divide os Reynos pela parte Norte a Poente. Tem de vezinhos, fogos e meios fogos, cento e cinquenta e dous. Tem pessoas velhas, moços e menores, quatrocentas devididas pelos lugares seguintes: Ferreiros, Cerdedo, Cotto, Santo Amaro onde está uma capela do mesmo pertencente à freguezia e nella há romagem a quinze de Janeiro; Brea, Raposos, Bouços, Bouça Nova, Trás do Coto, Barronda, Outeirão, Souto, Corte Nova, Serra onde há huma capella de Sãe Caetano de que administrador Luiz Caetano de Souza Gama, cappitam mor deste termo. Desta freguezia sahiram o Reverendo Doutor Frei António de Santa Maria dos Anjos Melgaço jubilado nos Reais Estudos de Mafra e seus irmans Frei Gaspar Da Virgem Maria, messionário do [Baratojo] e o padre Ignacio Santos da Companhia de Jesus, todos conhecidos pelas suas Letras. 

Nos lemites desta freguezia se pesca no rio Minho com redes armadas em caneiros que para isso se fazem de pedra e redeiros nos meses de Fevereiro, Março, Abril e Maio, quantidades de lampreas, sabeis, salmoens, trutas e bogas, nos referidos lemites que serão a vigessima parte de uma legoa parum minusve. Corre arrebatado do Norte a Sul e Poente. A sua margem inculta povoada de castenheiros e carvalhos postos por arte por ser monte baldio pertencente à mesma freguezia. Tem barco de remos para a passagem de um Reyno para outro pertencendo a renda do barco a metade à Câmera de Melgaço e o outo senhoria da Galiza. A cauza porque se erigiu esta parochia consta por tradição ser a distância e ribeiros que mediavam a villa de Melgaço, onde os moradores iam ouvir missa. E a congrua acima dita se paga pela igreja de Melgaço que nesta freguezia cobra meios dízimos, o que milhor há-de constar no archivo de Braga, no tombo das igrejas. E não me consta mais de que por verdade mandei escrever esta aos seis de Maio de mil e settecentos e cincoenta e oito annos que assinei. O vigário Duarte Vaz Torres. Por confinar o lemite da freguezia de Prado com a da freguezia de São Paio e contudo em tudo vai na verdade a informação que dá o reverendo parocho a assignei. O Padre João Rodrigues, cura de São Paio, do mesmo modo. O vigário de Remoaens, o padre Gregório Salgado.


Extraído de: IAN/TT, Memórias Paroquiais, Vol. 30, mem. 258, pp. 1933 a 1936.