
Este
é, desde há vários séculos, o lugar de maior dimensão do seu
povoado, tal como vamos verificar pelos dados relativos aos batismos
e óbitos durante os períodos estudados nestes últimos três
séculos que se apresentam elevados. Na freguesia, apenas o lugar
de Sante, meeiro entre São Paio e Paderne nesta época,
apresenta valores comparáveis. Pode o caro leitor ter uma noção
exata destes valores pela observação da tabela:
-
Períodos
(5 anos)
|
Nº
de Batismos
|
Nº
de Óbitos
|
1722
- 1726
|
18
|
5
|
1822
- 1826
|
7
|
10
|
1906
- 1910
|
25
|
7
|
Admitimos
que a origem do topónimo nos parece bastante incerta. Em todos os
registos documentais que conhecemos, o topónimo não sofreu nenhum
tipo de evolução que possamos considerar consistente, mas apenas
algumas pequenas variações, tais como “Cavaleiralvo”
(século XVI e XVII), ou “Cavaleirabro”, também na
mesma centúria. Aparentemente, pode tratar-se de um antroponómico
referente a um nobre cavaleiro que poderia corresponder a um antigo
proprietário destas terras. Na toponímia rural, é muito
frequente um lugar herdar o nome ou a alcunha de um antigo dono,
foreiro ou morador, neste caso, alguém com o título de
“cavaleiro” ou conhecido como tal. A partícula “Alvo”
corresponde uma forma arcaica para "branco", do
latim albus,
muito usada em toponímia para qualificar terrenos, águas ou pessoas
(cabelo, pele, roupa claros). Contudo, não podemos excluir que
“Alvo” possa ser alusivo ao nome do cavaleiro e que derive de
Alvarez ou Alvim.
A
referência documental mais antiga a este povoado tem cerca de
quinhentos anos e data de 1533. Num documento referente a uma reunião
municipal, nos velhos paços do concelho de Melgaço, podemos ler:
“Saybam quantos
este estormento de procuraçam virem como no ano
do naçimento de Nosso Senhor Iesus Christo de mill e
quinhentos e xxxiij [1533] aos tres dias
do mes dagosto demtro da villa de
Melgaço no paço do comselho da dita villa semdo camara
e semdo chamados todos os moradores da dita villa e
termo segundo custume pera o caso de que abaixo
fará memção estamdo jumtos em camara da
dita villa (...) Gonçallo Anes
de Cavalleiralvo...” Assim,
ficamos a saber que, entre os presentes nesta reunião municipal,
havia uma pessoa que residia neste lugar. Note-se a forma como o nome
do lugar aparece escrito, agregado numa só palavra.
Esta
forma de escrever o nome do lugar, citada no parágrafo anterior
aparece-nos ainda no século XVII em assentos paroquiais. A título
de exemplo, transcrevemos um pequeno excerto de um assento de óbito
referente a uma senhora falecida em 1692: “Aos
dezasseis de Março de mil e seis centos e noventa e dois annos foi
Nosso Senhor servido levar da vida prezente a
Ma [Maria] Diz [Dias] de Cavalleiralvo com
todos os sacramentos...”
Contudo,
conhecemos um documento de 1672 referente a uma propriedade neste
lugar. O manuscrito diz respeito à “Vedoria
do Casal Cavaleirabro sito na freguesia de São Paio de
Melgaço”,
que era possuído na época por um tal Pedro Meixeiro e
outros. Note-se a forma como aparece escrita o topónimo que faz
lembrar, pela sonoridade, o modo como evoluiu o topónimo do lugar
castrejo de “João Alvo” (grafia antiga) para “Dejanalvre”
(grafia atual). Todavia, ao contrário da inverneira castreja, o
topónimo “Cavaleiro Alvo” não evoluiu definitivamente para uma
forma deturpada da antiga.
Ainda
no século XVI, encontramos menção a este lugar no testamento do
Padre Tristão de Castro, que mandou construir a capela da Nossa
Senhora da Graça, na freguesia de Rouças. Nos papeis relativos à
fundação da capela, encontramos a escritura de doação de seus
bens para a constituição da fábrica da dita ermida, onde se pode
ler: “Doação
que fez o p.e Tristan de castro abade de rouças para
a fabiqua da ermida de nosa Sr.a q
fez Saiban quoantos este estromento de
doação de fabrjqua ou como melhor aja luguar virem
como no ano de nascimento de nosso sor Jezu xpto de
mil e quinhentos he noventa e seis anos aos coatro dias
do mez de dezembro do dito ano nesta quinta
de soribas do snor tristam de castro abade
de rousas termo da vila de melguaço…”
Entre
os bens hipotecados, encontramos uma “outra [propriedade] em
Cavaleiro Alvo convém a saber mea fanega uma fazenda de
Estevão Quintella...”
Num
documento de 1753 já antes citado, o padre Domingos Gomes, refere
que “...há
a capela do Glorioso Mártir S. Paio sitta no lugar
de Cavalleyro Alvo...”
Note-se
que a grafia se apresentava muito semelhante à atual, algo distante
da forma como em 1751 voltamos a encontrar um documento da
Arquidiocese de Braga referente ao “Casal Cavaleirabro sito
na freguesia de São Paio de Melgaço”.
Curiosamente,
no manuscrito da Memória Paroquial, redigido pelo pároco em Maio de
1758, o mesmo escreve o topónimo numa forma exatamente igual à
grafia atual, descrevendo o lugar de Cavaleiro Alvo como “terra
de montanha”,
em oposição à generalidade dos outros lugares da freguesia que se
situam em cotas muito inferiores. Por esse motivo, o abade Domingos
Gomes menciona também que se colhe, na freguesia, “...abundância
de vinho, aceite pouco, vinho em abundância em toda ella excepto os
dous logares que estão no monte Cabaleyro Alvo e
Fonte Gonçallo.”
Temos
conhecimento de um documento da segunda metade do século XVIII
relativo a uma “Certidão
de aforamento de bens de Dom Luís Caetano de Sousa Gama”, fidalgo
da Casa da Serra, Prado, e que envolve uma propriedade de terrenos
baldios sita nas imediações deste lugar de Cavaleiro Alvo. No dito
manuscrito, pode ler-se: “Diz Luis Caetano
de Souza Gama Cap[ita]m Mor deste Termo que p[ar]a bem de sua
Justiça lhe he neçessario que o Escrivão
da Camera lhe passe por Certidão de quanto paga de
aforamento ao senado da Camera da terra que lhe aforou em o
monte Valdio de Cabaleiro Alvo sito
na freig[uesi]a de S. Pajo [São Paio]; e outro
sim tãobem o aforam[en]to de humas pesqueiras
chamadas os Burachos que são trez bocas na Costa
do prado, cujos forão feitos no valdio (...)
Mathias
da Silva Soares Escrivão da Camara desta villa de Melgaco,
e seu Termo que sirvo por provimento de Sua Magestade, e a fe do
meu Oficio Certifico que revendo o Livro dos aforam[en]tos do Senado
da Camara, que serve no prezente anno, e nelle a
folha trez, e a folhas outo se achaõ dous
aforam[en]tos da forma, e a seguinte // Aos trinta dias de Janeyro de
mil setecentos setenta e outo nesta villa de Melgaco em
as Cazas da Camara della em vereação
que fazião os Senhores Juiz Fronteiro e mais Oficiais o
Doutor Juiz de Fora Joze de Almeyda e Vasconcellos,
os Vereadores o Alferes João Manoel de Lima, e Emanoel Joze de
Souza, o Procurador do Senado Bento Roiz digo Bento Pires
todos abaxo assinados; E logo por elles foy dito
em prezenca de mim Escrivaõ, que elles aforavão como
de fecto aforado tem a Luis Caetano de Souza Gama
Capitão Mor d'esta villa (...) Aos dezasete dias
do mes de Fevereyro de mil Setecentos e setenta e
outo annos n'esta villa de Melgaco, em
as Cazas da Camara della, em Vereação que fazião os
Senhores Juiz Fronteiro e mais Officias O Doutor Juiz de
Fora Joze de Almeyda, e Vasconcellos, os
Vereadores o Alferes João Manoel de Lima, e Emanoel Joze de
Souza, o Procurador do Senado Bento Pires abaixo assinados E logo
por elles em prezenca de mim
Escrivão foy ditto q[ue] elles aforavaõ como
de fecto aforado tem a Luis Caetano de Souza Gama
Capitão Mor desta villa hum
monte valdio chamado Cabaleiro Alvo cito
na frey[guesi]a de S. Pajo; pertencente a o d[it]o Senado
assim como se acha demarcado para o
gozar elle e seos herdeiros pellos annos de
Sua Magestade pagando de foro em cada hum anno no
fim delle cem reis p[ar]a o Senado desta villa,
declarando o d[it]o procurador o dito aforamento ser util ao
d[it]o Senado E logo o d[it]o Capitaõ Mor
q[ue] prezente acceitou o
dito aforamento, e condicoins delle, e assinou com os
d[it]os Senhores Vasconcellos / Lima / Souza / Pires / Gama
/ E não se continha mais em os ditos aforamentos q[ue] aq[ui]
bem, e fialmente tirey do d[it]o Livro q[ue] me
reporto e q[ue] depois de o conferir a
q[ue] me asiney e passey a prezente. Melgaco quatorze
de Julho de mil setecentos setenta e outo a[nn]os”
O
aforamento relativo a estas terras baldias em Cavaleiro Alvo tinha
sido formalizado em 1746 e no documento são apresentadas as
demarcações o que nos ajuda a localizá-lo. No dito manuscrito,
pode ler-se: “Aos
vinte e quatro dias do mês de Janeiro do ano de mil e setecentos e
quarenta e seis anos nesta Vila de Melgaço e Paços do Concelho dela
onde estava o Doutor Juiz de Fora desta dita Vila e seu Termo por Sua
Majestade que Deus Guarde com os Oficiais da Câmara que abaixo
assinam em correição como em o meu ofício se faz e ali foi lido o
requerimento de Luís Caetano de Sousa Gama no qual pedia se lhe
fizesse aforamento de uma sorte de terra em o Monte de Cabaleiro Alvo
que parte do nascente com o caminho que vai para São Paio e do
poente com o ribeiro que desce da serra e do sul com a dita estrada
por onde tudo são baldios da Câmara e sem prejuízo de terceiro. E
logo pelo dito Juiz e Oficiais foi dito que vistos os autos de
vistoria e medição que se fizeram da dita terra e constar não
haver oposição de vizinhos nem de pessoa alguma, lhe faziam o dito
aforamento em três vidas pela pensão anual de quatrocentos réis
pagos no dia de São Miguel…”
Se
lermos o testamento de um tal Pedro de Sousa Gama, fidalgo da Casa da
Serra (Prado), lavrado em 20 de Maio de 1749, encontramos lá
referência a uma propriedade emprazada, designada como o “Prazo
de Cavaleiro Alvo”:
“Ittem disse nomea em
sua filha Dona Clara o prazo de Cavaleiro alvo, que herdou de seus
pais de que se paga vinte e dois alqueires de pão meado, ou o que na
verdade constasse...”
Todavia,
uma outra família de fidalgos melgacenses que detinha propriedade
em Cavaleiro Alvo era os Araújos do Campo da Feira, da vila de
Melgaço. De facto, sabemos que um tal Capitão João de Araújo
Azevedo determinou, em 2 de Abril de 1725, a transmissão
das suas propriedades emprazadas. Entre elas, constam que seu filho
Francisco tinha herdado de sua mãe Marianna de Araújo, o
prazo de Cavaleiro Alvo, que levava de semeadura, apenas dois
alqueires de centeio. A um outro seu filho, chamado Manuel,
transmitiu um outro prazo situado também em Cavaleiro Alvo, este de
“nove
e meio quartos de pão meado e duas galinhas, com obrigação de
pagar ao senhor em cada ano cento e sessenta réis”
(ESTEVES,
1989).
Num
outro manuscrito dos fidalgos da Casa da Torre, da vila de Melgaço,
mais concretamente um auto, relacionado com uma contenda judicial
pode ler-se: “Aos dezasete dias
do mes de fevereiro de mil e setecentos
e satenta e coatro annos neste lugar e
quinta da Cordeira aonde eu escrivão fui vindo com
o Alcayde deste juizo Antonio Bernardo Gomes
pera se fazer entregua dos bens que é, o que ao diante se
segue do que de tudo para da verdade constar fis este termo E
eu Jose Alves Bestejro escrivão que o escrevi.
(…) Entregou mais Mathias de Souza dois alqueires
de senteio no Cazal de Cavaleiro Alvo. Desta
forma si ouberão por entregues das parseleas conteudas nos
Itens acima que asignarão em prezença das
testemunhas abaixo asignadas...”
Já
no final do primeiro terço do século XIX, ainda existiam em
Cavaleiro Alvo, propriedades pertencentes a famílias fidalgas de
Melgaço. Arrolamos aqui uma carta de confirmação de posse pedida
por um tal João de Sá Sottomaior de Abreu Leonês, do concelho de
Coura e ligado à Casa do Reguengo (Paderne). A escritura data de
1831 e uma das propriedades em causa é o chamado “Casal de
Cavaleiro Alvo”, e nela podemos ler: “Auto
de Posse que tomou o procurador bastante dos Doados, do Casal
de Caballeiro Alvo = Anno do Nascimento de Nosso
Senhor Jezu Christo alias, aos quinse dias
do mes de Janeiro de mil oito centos e trinta e
hum annos neste Lugar de Caballeiro Alvo,
que he freguezia de e São Paio, termo da Villa de
Melgaço, adonde eu Escrivão fui vindo com o Alcaide
do Juizo Joze Romão Rodrigues Soares, para efeito de
darmos e Conferirmos Posse aos Dotados João Pereira de Castro Leite
e Sua molher, por Seu Procurador Joze Maria Barreiros,
do Casal chamado deste mesmo Lugar de Caballeiro Alvo, a
qual Posse com efeito lhe demos e Conferimos a elle Procurador,
e elle a tomou em poder de alguns Conçortes pelo
posseiro Ser de fora do termo, de dia e pello Sol à vista
e face de quem ver quis Sem contradição de pessoa alguma de que dou
fé. E para constar fis este auto sendo prezentes por
testemunhas Manoel Antonio Esteves do Lugar
de Lubio freguezia de Rouças e Manoel António de
Souza da freguezia de Chaviaens deste termo, que
aqui asignarão com o procurador empossado, e Alcaide Lido
de que dou fé por mim Jerónimo Joze de Souza Escrivão o
escrevi = Jeronimo Joze de Souza = Joze Maria
Barreiros = de testemunha Manoel Antonio Esteves Sua
Crus Singella = Manoel Antonio de Souza
= Joze Reimão Rodrigues Soares...”
Desta
forma, e por todas as fontes documentais arroladas, se comprova que
havia terras em Cavaleiro Alvo que eram detidas, quer pela
Arquidiocese de Braga, quer por famílias da nobreza melgacense, tais
como os fidalgos das Casas da Serra (Prado) e do Reguengo (Paderne) e
ainda pelos Araújos do Campo da Feira (vila de Melgaço).
Não
sabemos onde param os papeis da fundação da capela de São Paio,
neste lugar. A referência mais antiga à mesma aparece-nos no livro
“Chorographia moderna do reino de Portugal”, publicado em
1751, onde o autor refere que já nessa época existia no dito lugar
“uma ermida com a invocação de S. Payo”.
A sua origem deve estar relacionada com a demolição da ermida de S.
Paio, que ficava um pouco acima de Lobiô em local ermo. De
certa forma, a construção da capela neste lugar de Cavaleiro Alvo
em meados do século XVIII teve o objetivo de substituir a velhinha
capela de Lobiô que terá desaparecido na década de
quarenta da mesma centúria. Atente-se a forma como decorrem as
festividades em honra de São Paio neste lugar, com a procissão a ir
dar volta às imediações daquele lugar de Rouças, ou a forma como
a mesma se encerra com foguetes atirados em simultâneo dos dois
lugares. Isto denuncia, de certa forma, a estreita ligação
em Lobiô e Cavaleiro Alvo desde tempos antigos.
Sabemos
que, em 1758, a administração da capela de São Paio pertencia ao
povo desse lugar, segundo o citado pelo pároco Domingos Gomes na
Memória Paroquial. Em 1913, no documento referente ao “Arrolamento
dos Bens da Igreja”, menciona-se que esta capela tinha “um adro,
um altar, com uma imagem”.
Na
atualidade, o lugar mantém uma significativa extensão do povoado,
mas, nas últimas décadas, foi atingido por um processo de
despovoamento, mais ou menos transversal a todo o concelho. Conforme
se refere antes, o lugar chegou a dispor de um posto escolar que
recebia também crianças de Lobiô, facto fácil de entender
face aos valores da natalidade relativamente elevados, por exemplo,
ainda nos primeiros anos do século passado. Na “Voz de Melgaço”
de quinze de Fevereiro de 1961, pode ler-se: “O
Posto Escolar de Cavaleiro Alvo já começou a funcionar, estando
todas as crianças que pertencem ao núcleo obrigadas a
frequentá-lo”.
O mesmo já existia desde os anos trinta e mais se justificava tendo
em o usual péssimo estado da estrada que ligava Cavaleiro Alvo à
parte mais baixa da freguesia. Atente-se na notícia na edição de
15 de Fevereiro de 1947: “São
Paio, 2 - Encontra-se em deplorável estado o caminho que liga a
Estrada Nacional 202 com o lugar de Cavaleiro-Alvo, que, durante este
lnverno, ficará quase intransitável, se não forem tomadas as
necessárias providências. Chamamos a atenção das entidades
competentes para resolverem a incógnita deste assunto.”
Entretanto,
o acesso a Cavaleiro Alvo a partir da estrada nacional, em finais dos
anos sessenta, ainda era através de um velho caminho. Na Voz de
Melgaço, de um de Outubro de 1970, pode ler-se: “Estrada
- Agora pergunto eu! Quando irá a estrada para Cavaleiro Alvo, para
aqueles infelizes? Quem está naquele deserto? Pois eles também são
portugueses, não são espanhóis. Tem direito a uma estrada como
todos. Há pouco fui a um enterro e toca aqueles homenzinhos a
agarrarem na urna a pau e corda, como quem traz uma pedra. Quando
chegou à igreja, abriram a urna e a defunta não vinha de cara para
cima, de tantos trambolhões que deu pelo Queijeiro abaixo…”
Apenas em tempos mais recentes é que o lugar passou a estar ligado
ao resto da freguesia por uma estrada merecedora desse nome, tendo o
estabelecimento escolar fechado definitivamente já há algumas
décadas.