sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O antigo solar e Quinta de S. Cibrão (Penso - Melgaço): algumas notas históricas


Solar da Quinta de S. Cibrão
(Foto em www.idealista.pt)

A Quinta de S. Cibrão situa-se na freguesia de Penso, no concelho de Melgaço, localizada entre a margem do rio Minho e a estrada nacional, no limite administrativo entre este concelho e Monção.  Hoje, creio ser conhecida como a Quinta da Casa Nova, e trata-se de uma propriedade com um antigo solar e capela no interior e que tem vários séculos de História, encontrando-se aqueles em processo de degradação. O nome da quinta é uma derivação de S. Cipriano, santo a quem tinha sido construída uma primitiva capela dentro da propriedade. De facto, há referências bibliográficas do século XIX que citam que no local onde se encontra atualmente a capela, existiu em tempos muito antigos um templo, de evocação a Júpiter, de origem romana. Contudo, creio não haver provas físicas da existência do mesmo sendo aludido até, como se pode ler adiante, que tal não passaria de um estória inventada para valorizar a quinta.
A Quinta de São Cibrão deve ter passado a pertencer a João de Araújo e Caldas e sua esposa Filipa de Sousa de Faria, por volta de anos 1620, já que alguns filhos deste casal nascerem na freguesia de Paderne e em 1640, estes ainda viviam nesta quinta de S. Cibrão. Posteriormente, foi senhor desta quinta o seu filho, o capitão-mor de Valadares Filipe de Araújo e Caldas, casado com Isabel de Sousa e Castro, e o irmão Manuel de Araújo e Caldas, veio viver para a quinta do Rosal em Valadares e foi sargento-mor. A Quinta de S. Cibrão foi destruída nos anos 1656 pelos Espanhóis, durante a Guerra da Restauração, pelo facto de o capitão Filipe de Araújo e Caldas ter destruído algumas aldeias na Galiza. A quinta depois passou, sucessivamente, para o filho de Filipe Caldas, Luís de Azevedo Araújo que era casado com Maria Teresa de Araújo, seu neto João de Araújo Azevedo casado com Maria Lima de Melo, seu bisneto Manuel Giraldo de Sousa Azevedo "Sottomaior" casado com uma terceira ou quarta prima da quinta do Rosal, Mariana de Araújo Azevedo Sottomaior.
O Padre Carvalho da Costa no seu livro “Corografia Portuguesa”, publicado em 1706, menciona que o nome da Quinta de S. Cibrão refere-se a uma capela dedicada ao dito santo que inclusivamente era, na época, destino de enfermos à procura de curas para certas maleitas. O autor refere acerca desta quinta que Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possui Felippe de Araújo de Caldas, Cavaleiro do Hábito de Cristo, Capitão-mor e Monteiro-mor de Valadares. Tomou este nome de uma capela antiga deste Santo Cipriano, que ali está; é tradição que foi templo da Gentilidade dedicado a Júpiter; o tio é fúnebre e desacomodado no meio de um campo com pouca veneração e menos o fora a não ser advogado das cézoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem ali tremendo e voltam sãos”.
No livro “Portugal Antigo e Moderno”, volume VI, do professor Pinho Leal, publicado em 1875, menciona-se sobre a quinta que “É nesta freguesia a quinta de S. Cybrão, do Sr. Philippe d'Araújo Caldas. Segundo a tradição, no sítio onde está a capela desta quinta, houve um templo romano dedicado a Júpiter. Supõe-se que a existência do tal templo, foi uma fábula inventada para enobrecer esta propriedade, que, mesmo sem aquela circunstância, é notável, pela antiguidade e nobreza dos seus proprietários; e também porque produz óptimo vinho.”
No livro “O Minho Pittoresco”, José Augusto Vieira descrevia a freguesia de Penso, em 1886, como “uma vilota em miniatura” e confirma algumas informações já escritas pelo Padre Carvalho da Costa 180 anos antes. Replica também alguma informação já descrita pelo professor Pinho Leal: “Na quinta de S. Cibrião [Cipriano], é tradição que existiu um templo gentílico, dedicado a Júpiter, no ponto onde está hoje a capela. Há quem diga, porém, que essa tradição foi inventada com o fim de enobrecer a quinta, já de si notável pela família que possui e pelo bom vinho que produz.”

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Melgaço, 1881 - Notícia de um violento temporal


Estamos em 1881, no último quarto do século XIX. Melgaço atravessava uma grave e longa crise que flagelou o concelho durante a quase totalidade dessa centúria. Para piorar o já delicado estado de coisas, em 27 de Janeiro desse dito ano de 1881, Melgaço é afetado por um episódio meteorológico extremo devastador e os estragos são imensos. Tal facto é contado, na primeira pessoa, numa notícia do jornal "O Valenciano": "Chegado de Melgaço, vou dar-lhe notícias daquela vila que parece separada completamente do país e como esquecida. Não faltaram ali sustos alaridos motivados pelo violento temporal do dia 27 do mês findo (27/1/1881), das 8 para as 9 da manhã daquele dia. O vento fortíssimo que então soprava levantou telhados, claraboias, chaminés, quebrando árvores e arrancando outras; foi pequena a sua duração, de contrário deixaria muitas casas apenas com as paredes. Em uma janela da casa onde se acha a repartição telégrafo-postal daquela vila, quebrou vidros e caixilhos, sendo para lamentar que ainda esteja sem eles e assim continue se o digno director da estação não pedir providências porque, segundo dizem, o dono do prédio esmera-se tanto com as casas que tem alugadas como se esmera com a sua; é como aqueles que estragam na farinha e poupam no farelo. O tempo de rigoroso inverno que ali tem havido, muito tem prejudicado os povos daquele concelho, que estará dentro em pouco a braços com a miséria se mão divina não melhorar o tempo e mão humana não puser termo aos actos de perfeita insensatez praticados pela municipalidade daquele concelho, que secunda a intempérie do tempo com a rigorosa inflexibilidade com que lhe exige o que ao tempo consegue escapar. A Câmara Municipal, para que os habitantes daquele pobríssimo concelho, onde só prospera a calúnia, a vingança e a miséria, não sintam tanto os males que a maior parte deles sofreram, exige-lhes mais de quatro contos de réis, derrama de cinquenta por cento! A medida não é má e pouco incomodativa. A criação de uma barca de passagem no rio Minho, em frente à estação do caminho-de-ferro (Arbo, Galiza), disso não trata, porque dá trabalho, e o rendimento da exploração é mais sólido e não fere os interesses dos compadres. Todos os meios indirectos de aumentar a receita são postos de parte para só os conseguir directamente, da algibeira dos contribuintes, que não podem, se não mal, adquirir meios de subsistência. Em outros concelhos recorre-se sempre, em último caso, àquele extremo e isto é não só conforme com a justiça como com a lei. Mas a lei suprema daquela corporação é o querer e poder; aquele meio directo, é o mais produtivo e o menos incomodativo. Pague o povo e não bufe! Não tenha estradas, nem melhoramentos, nem regalias algumas das que são concedidas aos outros povos, mas pague, como eles ou mais do que eles! Melgaço, na escala das povoações, é sem dúvida a última; conhece a civilização por ouvir falar nela; sabe que há estradas, caminhos-de-ferro, todos os elementos de prosperidade, enfim, porque o ouve dizer. Quanto a possuir, nem um desses elementos: ignorante e apática, os seus deputados, em vez de a ligarem com o resto do país pela civilização e pelo progresso, ligam-na pelo sofrimento e pelos sacrifícios!”

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O sonho da luz elétrica em Melgaço há um século atrás




Em Melgaço, os primeiros acessos à luz elétrica remontam há mais de um século. Contudo, para a generalidade da população não passava de um sonho nessa época. O Dr. António Augusto Durães, enquanto administrador do concelho entre 1913 e 1914, terá sido dos primeiros a pugnar pela luz elétrica para Melgaço ainda que nunca tenha conseguido que tal se concretizasse durante o seu mandato.
O Peso e Castro Laboreiro seriam dos primeiros locais, em Melgaço, a possuir engenhos de produção de energia elétrica para diferentes fins em meados da segunda década do século XX. Em terras castrejas, foi Abílio Alves Carabel o primeiro a ter acesso a energia elétrica na sua fábrica de chocolate. Até então, as primitivas instalações que ocupavam parte do edifício em pedra do atual Núcleo Museológico de Castro Laboreiro, não tinham ao tempo energia elétrica, e o carvão, a que o pai Domingos Carabel sempre recorrera, onerava os custos. Abílio Carabel consegue então autorização dos Serviços Hidráulicos, onde chegou a trabalhar, para um barracão no rio Laboreiro, e aproveita a força motriz da água para gerar energia para a sua nova fábrica de chocolate.
No Peso, em 1913, as termas e os hotéis estão muito concorridos mas necessitam de se modernizarem. O complexo termal sonha com a luz elétrica. No jornal "Correio de Melgaço", na sua edição de 1 de Junho desse mesmo ano de 1913, podemos ler acerca de Cícero Solheiro que aspirava a instalar no Peso um cinematógrafo para a projeção de cinema e para isso precisava de energia elétrica: “Há indivíduos que pela sua ilustração e inteligência se impõem à nossa consideração e estima; outros, que pelo seu espírito verdadeiramente regional e empreendedor se impõem à nossa veneração. Neste caso está (…) Cícero Cândido Solheiro, que heroicamente trabalha para o engrandecimento material deste concelho, a quem adora, não se cansando de (…) lhe introduzir os melhoramentos indispensáveis à vida provinciana. O ano passado comprou (…) um magnífico camion para transporte de passageiros e bagagens, de Valença a esta Vila, e vice-versa, melhoramento de capital importância, já pela rapidez relativa da viagem, já pela comodidade com que nos transportamos, estradas em fora, numa distância de 42 kms. A sua actividade, porém, não parou aqui. Cícero Solheiro, estendendo as suas vistas de águia, reconheceu a necessidade de mais um camion, para quando houvesse grande movimento para as Águas do Peso e além disso poder facultar aos (…) hóspedes anuais digressões cómodas e agradáveis. Efectivamente, mais um luxuoso e elegante “Berliet” foi adquirido por este nosso amigo, melhoramento importante para o concelho, extraordinária e vantajosa comodidade para os seus hóspedes, que se podem transportar para onde lhes apraza, com a rapidez e conforto indispensáveis. Mas o Peso, dizia o bom do nosso Cícero, não tem uma única distracção, onde os aquistas possam relembrar a vida das cidades, onde passem algumas horas de ócio, despreocupadas e alegres. O Peso não tem outra distracção que não seja a beleza do nosso solo, tapetado de verdura e coberto de luxuriante vegetação. Dotar o Peso com luz eléctrica e um cinematógrafo era a ideia que mais o preocupava e que pôs imediatamente em execução, mandando-o construir e aplicar-lhe os mais aperfeiçoados aparelhos que a Companhia Cinematográfica Portuguesa pode fornecer e com cujo mecanismo fornecerá, de luz eléctrica, não só o salão cinematográfico, mas também os hotéis e estância das águas, caso queiram tal melhoramento, o que é muitíssimo plausível. Para deliciar os amadores de música adquiriu um lindíssimo e completo piano eléctrico, que também pode ser manual, ao qual adaptará belas composições musicais, ficando assim o Peso, até aqui de uma monotonia aldeã, transformado numa aprazível e encantadora estância. Sabemos que em 15 de Junho (…) será inaugurado o cinematógrafo, onde todos iremos, como verdadeiros regionais e amantes do progresso deste lindo rincão, prestar a nossa homenagem de consideração, veneração e estima, a esse novo, mas corajoso e intrépido trabalhador, a quem Melgaço deve todos os melhoramentos que possui. Mas a nossa veneração aumenta de intensidade ao lembrarmo-nos que Cícero Solheiro se não fora o grande amor pela sua terra (…), podia gozar despreocupado e sem canseiras, os seus avultados rendimentos. Mas não! Cícero Solheiro quer melhorar a sua terra, por cujo engrandecimento trabalha afanosamente, crendo nós bem que não haverá nenhum melgacense que ao pronunciar o seu nome não sinta por ele a veneração devida aos beneméritos da sociedade. Receba o nosso Cícero os cumprimentos do “Correio de Melgaço” pelo seu gesto dum verdadeiro patriota, dum sincero e desprendido regional”.
O sonho do Sr. Cícero Solheiro apenas se realizou em parte. Para tal, podemos dar uma leitura no referido jornal “Correio de Melgaço”, na sua edição de 24 de Agosto de 1913, que nos conta que “Inaugurou-se ontem, no Peso, com extraordinária concorrência, este belo salão cinematográfico… É uma bela casa de recreio, dotada de todos os aperfeiçoamentos modernos e requisitos indispensáveis a edifícios desta natureza; profusamente iluminado a luz eléctrica e pintado com muito gosto artístico. Admira-se ali um magnífico piano-concerto accionado a electricidade, que também pode ser tocado por qualquer pianista – sensacional novidade entre nós. Hoje há quatro sessões, que prometem muito, pela variedade e importância das fitas: às 14, 16, 20 e 22 h, que corresponderão à carreira de automóveis, entre a Vila e o Peso, pelo preço de 50 centavos, ida e volta, com direito a uma sessão. Há sessões todas as noites”.
Contudo, o complexo termal do Peso apenas iria ter luz elétrica nos espaços públicos e nos hotéis em 1931. Esse momento marcante é-nos contado no jornal “Notícias” de Melgaço”, na sua edição de 17 de Maio desse mesmo ano onde nos relata a instalação da electricidade em vários prédios desta estância: 500 lâmpadas no Hotéis Rocha, Quinta do Peso e filiais, no Parque e avenidas da empresa das Águas. Anunciava a inauguração para os primeiros dias de Junho sendo a energia fornecida pela Companhia do Tambre com sede na vila de Noia, província da Corunha, Espanha.
Amiudadas vezes faltava a luz, como refere o correspondente no Peso daquele jornal: “É raríssima a noite em que nesta localidade se conserve a luz eléctrica toda a noute sem por vezes se apagar, o que causa grandes prejuízos não só à casas particulares, como aos hotéis, casas de pensão e casas comerciais… Assim é que os hoteleiros e casas de pensão são obrigados a ter em depósito em sua casa de caixas de velas”.
O emprego da electricidade possibilitou a que se fizessem no balneário aplicações de diatermia, para o que foi adquirido um aparelho; ampliou-se também a secção de banhos carbo-gasosos. O balneário ficou provido de um serviço completo de banhos de imersão, carbo-gasosos, duchas escocesas e sub-aquáticas. Em 1935 começou a direção clínica “a empregar sistematicamente as curvas glicémicas como meio de investigação dos efeitos das águas na diabetes”.
Com maior frequência o Parque, o Pavilhão das Águas, os salões dos hoteis se animaram com as galas de iluminações nocturnas, as harmonias de bandas de música e orquestras, a elegância dos bailes e a alegria das quermesses. Era a beneficência, o melhor incentivo das festas, segundo as boas tradições das estâncias portuguesas. Contribuir para a filial que a Associação Protectora dos Diabéticos Pobres, em 1931, instalou no Peso, contribuir para o hospital da Misericórdia de Melgaço, contribuir para os pobres, tornou-se pretexto para amiudadas festas”.
Em 28 de Agosto de 1932 o “Notícias de Melgaço” descrevia assim a animação na estância que agora se prolongavam durante o período noturno até à madrugada: “As 9 horas da manhã deu entrada no Peso a afamada Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, com um primoroso passo dóbli e depois de executar várias peças do seu vasto reportório no Parque do Grande Hotel Ranhada, dirigiu-se para o parque das Águas, e aí permaneceu até à noite, tendo início dentro do Pavilhão das Águas e fora, um concorridíssimo baile que se prolongou até às três horas do dia 29. Durante a tarde houve jogos variadíssimos e diferentes divertimentos. A ordem era mantida por uma patrulha de marinheiros fardados e devidamente armados, comandada pelo Sr. E. P. de Mendonça, que devido à boa educação de todo o povo que foi assistir a estes festejos, não foi alterada a ordem da força acima referida”.
Três dias depois houve, no Peso, um outro baile, “por iniciativa de alguns hóspedes no Grande Hotel Ranhada e realizou-se a convite, visto encontrarem-se ali as damas mais distintas não só da vila de Melgaço como também desta localidade. O baile correu animadíssimo até às 2 horas da madrugada; foi oferecido às damas à meia noute um explêndido chá. A música constava de um quarteto composto de uma concertina, violão, flauta e violino, dirigido pelo Sr. Dinis de Brito, que fez executar com a inteligência e exactidão inumeráveis peças do seu grande reportório”.
O Parque do Grande Hotel do Peso conheceu também noites animadas como a da ‘Festa da Caridade’ realizada em 17 de Setembro de 1932, “por iniciativa das Ex.mas Sras. D. Judit Alheas, D. Maria José Nascimento e D. Sara Brou da Rocha Brito que foi abrilhantada com Iluminação, Bailes, Quermesses, Barracas de chá e petiscos nacionais servido por gentis senhoras com trajes a carácter. As Barracas muito originais e de um fino gosto artístico foram obra do Ex.mo Sr. Lino do Nascimento tendo como auxiliar o incansável Ex.mo Sr. Rocha Brito.
Às vinte e duas horas, entrou com um primoroso passo doble a banda de Valadares que depois de dar entrada no seu respectivo coreto, ali se conservou executando inúmeras peças do seu vasto reportório até às três da madrugada”.
No concelho de Melgaço, além do Peso, em 1931, foi também montada a iluminação pública com luz elétrica na vila de Melgaço. Até esta altura, existia na vila de Melgaço ou em Castro Laboreiro, iluminação pública fornecida por candeeiros a gás. Para instalar luz elétrica nas ruas de Melgaço, a Câmara Municipal pediu autorização, à Secretaria Geral das Finanças, para contrair um empréstimo de 150 contos para financiar tal operação. Numa missiva enviada pelo Governador Civil de Viana do Castelo ao Secretário Geral do Ministério das Finanças em 9 de Janeiro de 1930, podemos ler:

Ex.mo Sr. Secretário Geral do Ministério das Finanças

Tendo sido autorizado por Sua Ex.a, o Ministro do Interior, um empréstimo de 150.000$00 a contrair pela Câmara Municipal de Melgaço para a instalação da iluminação pública na Vila sede de concelho e encontra-se o respetivo processo nesse Ministério, venho solicitar a Vossa Ex.a se digne mandar submeter este assunto a despacho com a urgência que for possível.
Saúde e Fraternidade.
Viana do Castelo, 9 de Janeiro de 1930.”

O empréstimo recebeu o aval do Secretário Geral do Ministério das Finanças em 22 de Maio de 1930. A iluminação pública seria inaugurada em 1931. A energia elétrica da rede pública será assegurada pela empresa espanhola J. Valverde & C.ª. Esta empresa galega, mais tarde, vai obter da Câmara Municipal a concessão da exploração da rede elétrica no concelho. A energia que alimentava esta rede elétrica era proveniente de Espanha através de uma linha de transporte. A dita empresa manterá esta concessão até Setembro de 1962, quando a Empresa Hidro-Eléctrica do Coura, Lda, a empresa já concessionária em quase todo o distrito, assume essa função.
A luz elétrica só chegou à última aldeia de Melgaço já no século XXI.

Fontes consultadas: 
- Correio de Melgaço, edição de 1 de Junho de 1913;
- Correio de Melgaço, edição de 24 de Agosto de 1913;
- FIGUEIRA, João José (2012) - O estado da eletrificação portuguesa. Dissertação de Doutoramento apresentado à Faculdade de Letras da UC; Coimbra.
- Notícias de Melgaço, edição de 17 de Maio de 1931;
- Notícias de Melgaço, edição de 28 de Agosto de 1932;
- Carta do Governador Civil de Viana do Castelo ao Secretário Geral das Finanças.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A criação do jornal "A Neve" e do "Primavera Sport Club" em Castro Laboreiro há 100 anos atrás




A Família Carabel, de Castro Laboreiro, era mão para toda a obra. Fundaram há cerca de 100 anos uma fábrica de chocolate em terras castrejas. O fabrico de chocolates constituía uma das suas fontes de rendimento, mas, tinham ainda uma loja aberta, em Castro Laboreiro onde vendiam tamancos, miudezas e fazendas, e também tratavam de caixões e funerais. Mais tarde, em 1920, começaram a publicar a publicar um jornal, chamado “A Neve” e tiveram papel importante na criação da coletividade castreja “Primavera Sport Club”. No dito jornal, eram anunciados os seus esmerados chocolates. A publicidade era também deliciosa nos dizeres: “Quereis um bom casamento? – Tomai o chocolate da afamada fábrica “Caravelos” de Castro Laboreiro, que atrai a simpatia”.
O jornal e o “Primavera Sport Club” surgem já quando a fábrica estava sob a gerência dos irmãos Abílio e Germano Carabel. Ambos eram redatores do jornal, e tinham jeito para a escrita. Sobretudo, o Abílio Alves Carabel. O diretor era um tal Abílio Domingos, professor primário em Castro Laboreiro, que depois se radicou em Braga, onde morreu. Seriam os três que financiavam o jornal, mas que deixou de se publicar, quando Germano Carabel foi dirigir a filial em Melgaço da Fábrica de Chocolates “Carabel, Sucessores”, antes de ter viajado para o Brasil, com a mulher e filhos, onde permaneceu alguns anos para gerir os bens da esposa.
A criação do jornal “A Neve” teve como uma das principais finalidades chamar à atenção da Câmara Municipal de Melgaço e outras instituições para a necessidade de dar atenção a Castro Laboreiro, nomeadamente à imperativa construção de uma estrada que ligasse terras castrejas ao resto do país com vista a facilitar a circulação de pessoas e bens.
A criação do “Primavera Sport Club” visava fomentar um espaço de convívio entre os castrejos bem como discussão pela defesa dos interesse da terra.
Estes pormenores são-nos contados, na primeira pessoa, num artigo publicado no jornal “A Neve”, na sua edição de 18 de Novembro de 1920: “Foi durante a viagem de Melgaço para Castro Laboreiro que nasceu a ideia da fundação do “Primavera Sport Club” e da criação do jornal “A Neve”.
Éramos dois os viajantes ou por outra os caminhantes, pois a pé é que nós tivemos de transpor essas montanhas que separavam Melgaço de Castro Laboreiro. Saímos dos “Pereiras”, sito na Calçada, pelas 13 horas, em direção à nossa querida Montanha.
Até ao cimo da Costa da Rolha, a nossa conversação recaiu sobre assuntos vários, falando não raras vezes em Amor. A conversa foi recaindo sobre Castro Laboreiro, nossa terra e digo nossa terra porque me orgulho de ter nascido nesta terra onde à honradez ainda se presta subido culto. Já acima de Fiães, diz-me o companheiro: “Como me sentiria feliz se Castro Laboreiro possuísse um jornal para defender os seus interesses e um club e aonde todos os conterrâneos se reunissem divertindo-se e instruindo-se ao mesmo tempo, incutindo uns nos outros o sagrado dever de pugnar pelos interesses comuns que são os interesses desta terra que se despe de todos os objectos para nosso interesse, tratando-nos como mãe. Estava lançada a ideia. Como eu também ansiava pela prosperidade da terra que carinhosamente susteve os meus primeiros passos!
Para a realização dos nossos projectos, faltava-nos apenas realizar um programa e o apoio dos conterrâneos. A nossa vontade de ferro tudo conseguiu com muito diminuto espaço. Mas ainda não é tudo! A obra está em princípio.
Triunfou dos primeiros obstáculos e agora já não ameaça a morte: contudo é preciso fortificá-la e fortificá-la-emos, pois agora pois agora é esse o desejo geral de todos os castrejos sequiosos do Progresso.
Sinto-me feliz e como eu se sentem todos oso que participaram deste trabalho coroado de êxito.
Não adormeçamos, fortifiquemo-nos para nos fazer respeitar.”

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A excelência do Presunto de Melgaço ao longo dos tempos



Desde há vários séculos, variadíssimos documentos históricos atestam as virtudes do famoso Presunto de Melgaço. São destacados ao longo dos tempos aqueles que são feitos em Fiães e em Castro Laboreiro.
Há cerca de 500 anos, o presunto de Melgaço já fazia parte dos tributos a pagar ao rei D. Manuel I, conforme refere o foral manuelino de 3 de Novembro de 1513 o que comprova o seu elevado valor. Neste foral, diz-se que o rei e seus sucessores deviam receber por casais reguengos dispersos pelas freguesias de Rouças e Chaviães três presuntos por ano.
Já nesta altura, se faz referência ao facto de o presunto em Fiães não se conservar no sal mas sim curado e fumado. A comprovar o que se refere, basta aludir ao tal contrato de arrendamento das rendas do Mosteiro de Fiães, relativas ao ano económico iniciado no S. João de 1483 e a terminar na véspera da mesma festa do ano seguinte (1484), feito em 9 de Abril de 1483, pelo comendatário, D. Frei Justo Baldino, bispo de Ceuta, ao abade de Rouças, Álvaro Gonçalves, e ao padre Fernando Domingues, ambos moradores da vila de Melgaço, pelas quais deveriam pagar vinte e um mil reais brancos da moeda corrente “e mais uma dúzia de marrans (presuntos) secas e curadas e dezoito lampreas secas”.
No século XVIII, é a vez do Padre António Carvalho da Costa no seu livro “Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal”, publicado em 1706, fazer alusão ao nosso presunto destacando, quando se refere a Melgaço, que “tem boas e férteis terras, pela maior parte, mas em particular o vale da Folia [designação antiga para o atual território da freguesia de Remoães, concelho de Melgaço] com grandes vantagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal...”
Temos ainda dizeres comprovativos da qualidade superior “É effectivamente a carne mais saborosa de Portugal e o fiambre feito d’estes presuntos, é óptimo” na A Gazeta de Lisboa, nº 1, de Janeiro de 1824. Aqui publicita-se a venda dos presuntos de Melgaço em Lisboa “(…) na rua dos Franqueiros, loja de Sola nº 116, há para venda presuntos de Lamego e Melgaço de superior qualidade (…)”
Lucas Rigaud, cozinheiro real no tempo da rainha D. Maria I, refere na sua obra maior “O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinhar”, publicada em 1826, “(…) os presuntos que nos vem de Lamego, Montalegre e Melgaço são excelentes (…)”. A monarca terá provado o Presunto de Fiães (freguesia de Melgaço), do qual terá dito que “… era um dos melhores manjares até aos dias d’ hoje…”
Na publicação lisboeta “O Panorama”, em 1841, no seu volume V, referindo-se à economia doméstica alude a uma “(…) receita para preparar os presuntos de maneira que sejam iguais aos melhores de Melgaço ou Lamego (…)”.
Se consultarmos outros jornais durante o século XIX, reparamos que o presunto de Melgaço também era vendido na cidade do Porto. Por exemplo, no “Jornal do Porto”, na sua edição de 25 de Dezembro de 1869 encontramos um anúncio com os seguintes dizeres: “Presuntos de Melgaço – Próprio para Fiambre. Vendem-se na Travessa da Picaria, nº 23”.
Desde tempos recuados que os afamados presuntos de Melgaço atravessavam o Atlântico rumo ao Brasil. Tal é comprovado no livro “Portugal Antigo e Moderno”, publicado em 1875, da autoria de Pinho Leal, quando este refere que “São justamente famosos os presuntos de Melgaço, e do seu concelho, e se exportam em grande quantidade, para todo o reino e para o Brasil.
A comprovar a fama do presunto de Melgaço no Brasil, encontramos, na publicação brasileira “Jornal do Agricultor”, em 1880, uma receita de presunto de fiambre. Diz-se na receita, que para obter o melhor resultado, devia-se utilizar presunto de Melgaço ou de origem galega acrescentando que ”devem-se preferir destas procedências porque não precisam ser demolhados, nem de temperos para ficarem gostosos”.
Ainda no século XIX, é o grande Ramalho Ortigão que faz alusão ao precioso manjar melgacense no seu livro “As Praias de Portugal”, publicado em 1876. Quando nos fala de um hotel em Vila do Conde, conta-nos que “o proprietário distrae a attenção dos forasteiros (…) servindo-lhe magnífico vinho verde, admiráveis presuntos de Melgaço, de primeira ordem,...”
O mesmo Ramalho Ortigão, no seu livro “As Farpas” (1882), escreve que “Todas as especialidades culinárias se anunciam em grandes doses: os paios de Castelo de Vide, os presuntos de Melgaço (…)”. Neste mesmo ano, um outro escritor, João Penha, na sua obra “Rimas” faz um canto aos presuntos de Melgaço. O mesmo autor em 1893, dedica novamente ao presunto melgacense um soneto no livro "Poetas Minhotos".
Em 1886, José Augusto Vieira na obra “O Minho Pitoresco” escreve “O Presunto de Melgaço! Que epopeia seria necessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra (...) o Presunto de Melgaço, conhecido em todo o país é por assim dizer a syntese da phisiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxygenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a phrase de: - Ter a cara do Presunto de Melgaço - quando se falla de alguém com as boas cores de saúde (…) Apesar, porém, de todas as tuas deliciosas qualidades, ó apetitoso quadril suíno, força é esquecer-te, como a todas as cousas boas ou más d’este mundo(…)”.
No mesmo livro, o autor acrescenta “O presunto, aquele magnífico Presunto de Melgaço, cujas deliciosas qualidades te descrevi, leitor amigo, é especialmente curado em Fiães, onde o preparam sem sal, receita talvez d’algum monge epicurista...” De facto, o presunto fazia parte de um conjunto de produtos de fabrico doméstico que funcionavam como reserva alimentar e também como moeda de troca nas trocas comerciais. Já nos séculos passados, Melgaço mantinha uma relação muito estreita com a Galiza. José Augusto Vieira em 1886 dizia nas suas referências relativamente ao Presunto de Melgaço “(...) fazendo-se bastantes transacções com a Galiza, e exportando para todo o país os célebres presuntos e para os concelhos próximos algum vinho, lãs, cereais e castanha”.
Na viragem do século XIX para o século XX, a excelência do presunto de Melgaço mantém-se bem visível. Atentemos nesta notícia datada de 4 de Março de 1900 no jornal brasileiro “A Imprensa” onde se fala da presença do presunto de Melgaço na Exposição Universal de Paris. Na notícia, pode ler-se que ”O proprietário do Hotel Continental de Vigo e do Hotel Rio Minho, em Valença, pensa, de sociedade com um dos principais vinicultores e proprietários de Monsão, em instalarem restaurante durante a Exposição de Pariz, e no local onde já se encontra outras casas do género de differentes paízes, e onde serão servidas comidas minhotas, ou por outra, cosinhados minhotos, onde não faltará o presunto de Melgaço...”
Na década de 30 do século passado, a fama mantém-se como se atesta na referência no Anuário do Distrito de Viana do Castelo, Vol. I, em 1932 onde se pode ler relativamente ao concelho de Melgaço: “São afamados os presuntos, conhecidos no mercado sob a designação de Presunto de Melgaço”.
Em tempos menos recuados, continuamos a encontrar os merecidos elogios ao Presunto de Melgaço. Na publicação “Vida Mundial”, na sua edição de 20 de Maio de 1976, num artigo intitulado “Gastronomia Portuguesa” destaca de entre a gastronomia das várias regiões portuguesa, que “as carnes do Norte são magníficas, e por isso os enchidos são maravilhosas criações culinárias. O seu presunto de Melgaço, de Chaves e Montalegre, o seu salpicão e o seu fiambre, (...) são um prato digno dos deuses”.
Podíamos aqui colocar muitas mais referências que podemos encontrar em outros documentos em diversas épocas históricas. Os tempos mudaram ao longo dos séculos mas a sabedoria da saber produzir presuntos de excelência mantém-se intacta. Recentemente, estabelecimentos de restauração em Melgaço começaram a fazer constar nos seus menus a famosa e antiga receita dos “Bifes de Presunto de Melgaço”. Uma atitude inteligente, quanto a mim, já que, além de se contribuir para que não se perca esta receita ancestral, é um prato confecionado com um produto distintivo da nossa terra.






Fontes consultadas:
- “A Imprensa” , edição de 4 de Março de 1900;
- Anuário do Distrito de Viana do Castelo (1932), Vol. I, 1932, Empresa Gráfica do Notícias de Viana, Viana do Castelo;
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- COSTA, Padre António Carvalho da (1868) - Corografia Portuguesa 2.ª Ed., tomo I, Typografia de Domingos Gonçalves Gouvea, offerecido A El Rey D. Pedro II;
- “Gazeta de Lisboa”, n.º 1, Janeiro de 1824, Lisboa;
- “Jornal do Agricultor”, edição de 3 de Março de 1880;
- “Jornal do Porto”, edição de 25 de Dezembro de 1869;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- MARQUES, José (1996) – Em torno do termo marrã. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - História, Porto.
- ORTIGÃO, Ramalho (1876) – As Praias em Portugal. Magalhães & Moniz Editores; Livraria Universal, Porto.
- ORTIGÃO, Ramalho (1882) - As Farpas – o país e a sociedade Portuguesa, Tomo V, Livraria Clássica Editora, Lisboa;
- “O Panorama” (1841), Vol. V, Typografia da Sociedade, Lisboa;
- PENHA, João (1882) - Rimas, Avelino Fernandes e Cª Editores, Lisboa;
- RIGAUD, Lucas (1826) - O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de cozinhar. 5.ª edição, Typografia Lacerda, Lisboa;
- “Vida Mundial”, edição de 20 de Maio de 1976;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

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