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sábado, 15 de abril de 2023

O povo de Chaviães (Melgaço) pede a proteção divina (1910)


 

 

Em tempos antigos os surtos epidémicos eram bastante frequentes na nossa região. Doenças como o tifo, a tuberculose, a pneumonia ou a varíola, entre outras, provocavam frequentes picos de mortalidade entre a população. 

A generalidade das pessoas tinha uma inabalável fé em Deus e com uma certa frequência o povo organizava rituais religiosos para que Deus os livrasse da fome ou das doenças fatais.

Pela leitura dos jornais melgacenses, sabemos que em 1910, o povo de Chaviães saiu em procissão, desde a sua igreja até à capela de Gondufe, em Paços, levando a imagem de São Sebastião e implorando proteção divina contra a epidemia de varíola que tinha feito bastantes vítimas por estas bandas. De facto, no “Jornal de Melgaço” de 27 de Janeiro desse ano, podemos ler: 

 

“Procissão de penitência 

Implorando a proteção divina por causa da terrível epidemia da varíola, que tantas vítimas têm causado neste concelho, realizou-se, no último domingo, na freguesia de Chaviães, uma posição de penitência, levando à sua frente o glorioso mártir São Sebastião.  

A concorrência do povo era extraordinária. Na capelinha de Gondufe, aonde se dirigiu aquela posição, houve sermão pelo Reverendo Francisco José Dias, que, apesar de não estar preparado, proferiu uma linda oração. 

Bem hajam os habitantes de Chaviães pela sua iniciativa, porque se Deus não velar por nós com mais cuidado do que aqueles que, na terra, tinham por dever empregar todos os meios ao seu alcance para afastar aquela moléstia, estamos irremediavelmente perdidos. 

Melhor seria que em vez de, em certos tascos, agora se censurarem os atos de quem, no exercício das suas funções, procede dignamente, se fosse mais humanitário, menos malcriado e até atrevido. 

Mas estejam certos, esses cavalheiros, que um dia, talvez não muito tarde, lhes será cortada a ponta da língua já que a tem cumprida demais. 

A bom entendedor...” 

 

Extraído de: “Jornal de Melgaço”, edição de 27 de Janeiro de 1910. 


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Melgaço, 1881 - Notícia de um violento temporal


Estamos em 1881, no último quarto do século XIX. Melgaço atravessava uma grave e longa crise que flagelou o concelho durante a quase totalidade dessa centúria. Para piorar o já delicado estado de coisas, em 27 de Janeiro desse dito ano de 1881, Melgaço é afetado por um episódio meteorológico extremo devastador e os estragos são imensos. Tal facto é contado, na primeira pessoa, numa notícia do jornal "O Valenciano": "Chegado de Melgaço, vou dar-lhe notícias daquela vila que parece separada completamente do país e como esquecida. Não faltaram ali sustos alaridos motivados pelo violento temporal do dia 27 do mês findo (27/1/1881), das 8 para as 9 da manhã daquele dia. O vento fortíssimo que então soprava levantou telhados, claraboias, chaminés, quebrando árvores e arrancando outras; foi pequena a sua duração, de contrário deixaria muitas casas apenas com as paredes. Em uma janela da casa onde se acha a repartição telégrafo-postal daquela vila, quebrou vidros e caixilhos, sendo para lamentar que ainda esteja sem eles e assim continue se o digno director da estação não pedir providências porque, segundo dizem, o dono do prédio esmera-se tanto com as casas que tem alugadas como se esmera com a sua; é como aqueles que estragam na farinha e poupam no farelo. O tempo de rigoroso inverno que ali tem havido, muito tem prejudicado os povos daquele concelho, que estará dentro em pouco a braços com a miséria se mão divina não melhorar o tempo e mão humana não puser termo aos actos de perfeita insensatez praticados pela municipalidade daquele concelho, que secunda a intempérie do tempo com a rigorosa inflexibilidade com que lhe exige o que ao tempo consegue escapar. A Câmara Municipal, para que os habitantes daquele pobríssimo concelho, onde só prospera a calúnia, a vingança e a miséria, não sintam tanto os males que a maior parte deles sofreram, exige-lhes mais de quatro contos de réis, derrama de cinquenta por cento! A medida não é má e pouco incomodativa. A criação de uma barca de passagem no rio Minho, em frente à estação do caminho-de-ferro (Arbo, Galiza), disso não trata, porque dá trabalho, e o rendimento da exploração é mais sólido e não fere os interesses dos compadres. Todos os meios indirectos de aumentar a receita são postos de parte para só os conseguir directamente, da algibeira dos contribuintes, que não podem, se não mal, adquirir meios de subsistência. Em outros concelhos recorre-se sempre, em último caso, àquele extremo e isto é não só conforme com a justiça como com a lei. Mas a lei suprema daquela corporação é o querer e poder; aquele meio directo, é o mais produtivo e o menos incomodativo. Pague o povo e não bufe! Não tenha estradas, nem melhoramentos, nem regalias algumas das que são concedidas aos outros povos, mas pague, como eles ou mais do que eles! Melgaço, na escala das povoações, é sem dúvida a última; conhece a civilização por ouvir falar nela; sabe que há estradas, caminhos-de-ferro, todos os elementos de prosperidade, enfim, porque o ouve dizer. Quanto a possuir, nem um desses elementos: ignorante e apática, os seus deputados, em vez de a ligarem com o resto do país pela civilização e pelo progresso, ligam-na pelo sofrimento e pelos sacrifícios!”

sexta-feira, 1 de junho de 2018

MELGAÇO EM MEADOS DO SÉCULO XX (Por "FOTO PIRES")




Viaje até meados do século XX, época em que Melgaço era bem diferente daquele podemos contemplar hoje. Uma das melhores maneiras de podermos recordar esses tempos ou simplesmente conhecermos a terra nesse tempo é observarmos o legado fotográfico que nos deixou o senhor Manuel Luís Pires, da casa "Foto Pires". Ainda hoje, as suas fotografia circulam nas coleções de postais de época e são um importante legado de grande interesse histórico.
Recolhi uma pequena amostra da sua obra e compilei-a para um pequeno vídeo que percorre algumas das mais bonitas fotografias de Melgaço nessa época...

sexta-feira, 30 de março de 2018

As apreensões de contrabando em Melgaço nos jornais de há mais de 100 anos atrás


Antiga Ponte Internacional de S. Gregório sobre o rio Trancoso (1903)

Os estudos sobre o fenómeno do contrabando nas fronteiras de Melgaço são muito concentrados no período histórico respeitante ao Estado Novo. Contudo, o contrabando nesta região é tão antigo como a definição das fronteiras há muitos séculos atrás, apesar de as fronteiras melgacense estarem muito bem guardadas, sobretudo desde meados do século XIX.
Pela leitura dos jornais melgacenses de finais do século XIX e início do século XX, ficamos a saber que o fenómeno estava bem vivo e os periódicos locais, regularmente, publicavam notícias sobre as apreensões realizadas por cada posto da Guarda Fiscal. É curioso que as mercadorias apreendidas com mais frequência eram tecidos de lã e algodão, açucar, tabaco e azeite.
Partilho com vocês dois recortes de jornais melgacenses da época que nos relatam apreensões de contrabando pelas autoridades em vários pontos de Melgaço. O primeiro recorte foi extraído do jornal de Melgaço “A Espada do Norte”, da sua edição de 29 de Dezembro de 1892 e fala-nos de:
“Apprehensões
Eis aqui as apprehensões realisadas nos diferentes postos d’esta secção durante o mez corrente:
Pelas praças do posto de Pousafolles, foram apprehendidas diferentes fazendas de lã e algodão, no valor de 10 000 réis.
Pelas mesmas praças, 200 grama de tabaco em charutos, no valor de 900 réis.
Pelas praças do posto fiscal de S. Gregório, differentes géneros alimentícios  algumas fazendas de lã e algodão, no valor de 3130 réis.
Pelas praças da columna volante, azeite, assucar e algumas fazendas de algodão, no valor de 3000 réis.
Pelas praças do posto de Cevido, differentes fazendas de lã e algodão, azeite e assucar, tudo no valor de 5000 réis.
Pelas praças do posto de de S. Martinho, 2 chailes d’algodão, azeite, arroz, assucar e tabaco, tudo no valor de 10100 réis.
Pelos 2 polícias fiscaes, em serviço n’esta vila, foi apprehendido 1 kilo de tabaco, no valor de 4500 réis.”

extraído do jornal "A Espada do Norte", edição de 29 de Dezembro de 1892

Folheando o jornal “Correio de Melgaço”, na sua edição de 28 de Julho de 1912, podemos ler acerca de mais apreensões de contrabando feitas pela guarda fiscal e não só. A notíci diz o seguinte:
“No dia 23, os soldados da guarda fiscal, João Luiz Lourenço, José Albano Domingues, Manuel Esteves Pinto, Manoel de Faria e os agentes da Companhia dos Tabacos, apreenderam a Bento Domingues, do lugar das Bouças, de Alvaredo, um revolver espanhol, uma camisola e algum tabaco, pelo que teve que pagar 16$400 réis de multa.
No mesmo dia, pelas 21 horas, os empregados acima referidos, apreenderam a Manoel Martins e Manoel Inácio, do mesmo lugar e freguesia, diversos tecidos de lã e algodão, no valor de 6$060 réis, tendo de pagar 27$5755 réis de multa.
No dia 26, os guardas do posto fiscal de Alcobaça, apreenderam a Rosa Domingues, diversos retalos de tecidos de algodão, azeite e arroz, no valor de 2$500 réis, pelo que pagou 9$590 réis de direitos e multa”

extraído do jornal "Correio de Melgaço", edição de 28 de Julho de 1912

sexta-feira, 16 de março de 2018

Estórias antigas do contrabando do café em Melgaço


O contrabando do café e de outras mercadorias em que a Espanha franquista era deficitária mobilizou um número significativo de pessoas em Melgaço e noutros municípios raianos do Minho que fizeram da região uma complexa base logística de contrabando de algumas mercadorias que asseguravam uma alta rentabilidade. Esta prática minorou as dificuldades na subsistência de muitas famílias de ambos os lados da fronteira. Contudo, muitas das famílias dos contrabandistas ficaram marcadas pela repressão e a cadeia…
Em http://iasousa.blogs.sapo.pt/87445.html encontramos um extrato de testemunhos orais de quem vivenciou a atividade do contrabando do café: “O Sr. António Cândido Rodrigues, natural de Chaviães, morador na Vila, mais conhecido por “Toninho do Talho” diz que começou no contrabando quando tinha 12 anos (1947).
 As fronteiras estavam controladas através dos postos, cada qual com a sua área demarcada “…a minha área era entre o posto de “Portovivo”, em Chaviães e o de Paços, ambos junto ao rio…comprava o café na Loja Nova ao Manuel da Garagem e transportava-o na carroça do “Ronho” e tentava “filtrá-lo” pelos postos … passava o café numa batela pelo rio…ao chegar ao lado espanhol também tentávamos esquivar-nos aos carabineiros … depois da guerra era o café, o sabão, o azeite, o açúcar que iam para Espanha…”.
No tempo do café o Sr. António recorda “…tinha um sócio e no posto de “Portavigo” um guarda apanhou-me 10 embalagens de café Sical…ele queria uma importância para deixar a mercadoria … eu disse-lhe que essa mercadoria não era só minha e pedi-lhe para deixar passar essa que mais tarde passaria com outra e já lhe deixaria ficar alguma coisa…era o passares…eu sabia que no outro dia esse guarda iria ser transferido para o posto de Cevide…nós sabíamos de tudo…vigiávamos constantemente os guardas…”
Frequentemente, sobretudo os pequenos contrabandistas, eram apanhados pelas autoridades, quer do lado português, quer do lado espanhol. Normalmente, o facto de uma pessoa ser apanhada não significava que deixasse de praticar o contrabando. Dando uma olhadela pelos jornal galegos de época, podemos observar noticiadas várias situações de prisão de melgacenses e apreensões de mercadorias de contrabando dos dois lados da fronteira.  Nas duas notícias que aqui apresento, podemos ver que um tal David Teixeira, melgacense que era taxista em 1971 e por isso circulava com frequência entre os dois lados da fronteira, foi apanhado nas malhas do contrabando do café pelo menos duas vezes, sempre do lado galego. Numa das apreensões, o volume da mercadoria ascendia a duas toneladas e meia. As notícias distam no tempo cerca de 19 anos sendo que a mais antiga refere-se a acontecimentos de 13 de Março de 1952:
“Pontevedra - Em la parroquia de Cequeliños, del Ayuntamento de Arbo, fueron sorprendidos los vecinos de la misma, Manuel Garcia Estévez y Valentin Gonzalez Fernandez, que com otros sujeitos, al parecer portugueses, que se dieron a la fuga, transportaban  558 kilogramas de café, que habian introducido procedente de Portugal por el rio Miño. De las gestiones practicadas por las autoridades parece deducirse era propriedad de David Teixeira, vecino de Melgazo (Portugal).”

(Jornal “La Noche”, edição de 13 de Março de 1952)

Dezanove anos mais tarde, mais concretamente em 1971, o mesmo Sr. David Teixeira é notícia pelo mesmo motivo, ou seja, por ter sido apanhado na Galiza com café de contrabando proveniente de Portugal:

“Café de contrabando
José Fernández Fernández, de 54 anos, vecino de San Cristóval - Monterrey, fue sorprendido por fuerzas de vigilancia fiscal del puesto de Cualedro, que cuando se disponia a trasladar a su domicilio 60 kilos de café tostado de procedência portuguesa que instantes antes habia comprado a un desconocido. La mercancia, valorada em 6000 pesetas quedó a disposición del Tribunal Provincial de Contrabando.
También fueron intervenidos otros 12 kilos de café tostado por fuerzas de la Guardia Civil de Cortegada, que David Teixeira, vecino de Melgazo - Portugal, taxista, transportaba debajo de los asientos de su vehiculo MO-53-73. La mercancia, valorada en 1200 pesetas quedó a disposicion de la autoridad competente.”

(Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971)


Fontes consultadas:
- Jornal “La Noche”, edição de 13 de Março de 1952;
- Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Memórias vividas do contrabando em Melgaço no século XX



Em 2016 foi publicado um estudo dedicado ao tema “Memórias de Fronteira em Melgaço: Contrabando e Emigração - Patrimonialização, Musealização e Fruição Turística”, onde a autora, Lídia Aguiar, contextualiza a problemática do contrabando e da emigração em Melgaço, no Norte de Portugal, ao longo do século XX. De certa forma, o artigo é um resgate de memórias em risco de desaparecimento, com o intuito de as divulgar mas também de as poder transformar em produtos turísticos para a fruição do turista cultural, valorizando um património imaterial esquecido, abandonado, frequente e injustamente menosprezado. Trata-se de um ótimo levantamento de testemunhos para memória futura e por isso importa aqui partilhar este extrato:
“Neste artigo, contextualiza-se a problemática do contrabando e emigração clandestina em Melgaço, desde a década de 30 até ao final do século XX. Convocam-se, então, várias memórias, hoje ameaçadas, das suas populações, notoriamente envelhecidas, que importa patrimonializar, registando-as para preservação de identidades. (…)
Para o sociólogo Albertino Gonçalves, o contrabando é uma ação intrinsecamente ligada à fronteira, da qual a população de Melgaço soube tirar partido em função da sua situação geográfica. Três quintos deste concelho confinam com a Galiza, sendo 22Km de fronteira terrestre e 39 Km de fronteira fluvial.
Certo é que ela, em muitos momentos, constituiu um importante motor económico para o sustento das famílias. Homens, mulheres e crianças, carenciados ou abastados, todos participaram, à sua maneira, nesta atividade. Na vida de fronteira, a profissão mais procurada era a de contrabandista.
A verdade é que o contrabando foi evoluindo por ciclos. No arco temporal a que este estudo se refere, inicia-se com o período da Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939). Dado o contexto politico assumido por Espanha, este país viria a ficar neste período (desde 1936 até alguns anos após o final da II Guerra Mundial), com as suas relações comerciais com o estrangeiro completamente cortadas. Deve-se entender que a Guerra Civil Espanhola foi um dos mais violentos e cruéis conflitos da História. Opôs os republicanos, então no governo desta nação, aos Falangistas, grupo de tendência fascista e comandado pelo general Francisco Franco. Terminou, em 1939, com a vitória do general Franco, que impôs um regime ditatorial de direita. Entretanto, tinham-se verificado mais de 400 mil mortos; prejuízos enormes na agricultura;
a destruição de prédios, igrejas e casas em várias cidades. Neste mesmo ano, iniciou-se a II Guerra. O general Franco tomou uma posição pró nazi, fação que viria a sair derrotada neste último conflito. Por esta razão, a Espanha, vê-se impedida, pelos países vitoriosos, em aceder aos mercados comerciais internacionais, com normalidade.
Foi pois, a economia subterrânea que forneceu o país vizinho de tudo quanto podia e lhe era solicitado: bens de primeira necessidade, café, aço, peças de automóveis; de tudo um pouco passou quer pelas batelas do Rio Minho, quer pela raia seca, diga-se, Planalto de Castro Laboreiro.
“Depois da Guerra tudo ia para a Espanha. Eles não tinham nada. Eu era gaiato pequeno, mas lembro-me bem de ouvir a minha mãe e a minha avó contar isso. Depois de 1945, finda a guerra, houve muita convivência com os galegos.
Isso das fronteiras não afetava nada. Os guardas fechavam os olhos. Ia de tudo para lá: sabão, sal, azeite, imagine que até carros velhos iam, pois eles não tinham nada. Daqui ia muito pão, pois os fornos comunitários trabalhavam todos os dias” Adelino Esteves – Castro Laboreiro – 29/10/2013.
“O meu pai guardava café. Tinha café cru em sacos grandes e café Sical já embaladinho. Vinham espanhóis de muito longe buscar, mas os guardas eram muito maus. Era a ditadura. Esta gente levava de tudo: café, açúcar, amendoins, até sabão, linhas e velas, tudo lhes servia para levar. Depois da Guerra foi mesmo uma miséria. Até gente de Vigo vinha cá buscar coisas.” Glória de Jesus Pires – Cevide – 23-1-2014
A partir de 1955, Espanha começa a sua recuperação económica. Havia já passado 10 anos após o final da II Guerra, pelo que os mercados comerciais se começaram a abrir a este país, que rapidamente aproveitou as oportunidades oferecidas. O contrabando toma então dois sentidos, já que a diferença cambial começa a favorecer os Portugueses na compra de bens em Espanha.
As trocas comerciais intensificam-se. Para que, neste novo contexto, o contrabando seja bem-sucedido, a boa organização tornou-se essencial. Aparecem, então, as primeiras redes bem organizadas, conduzidas pelo que a população ainda hoje denomina “Os Senhores do Contrabando”.
“Foi então que vieram os Senhores do Contrabando: Sr. Freitas, Sr. Alexandre, O Rita dos Casais. Esse tinha uma batela no rio e o cunhado Miguel e ainda o Maia de St. Gregório” Glória de Jesus Pires – Cevide – 23-1.2014
Alguns destes “Senhores do Contrabando” organizaram-se em consórcios, criando verdadeiras redes que atingiam todo o país e se alargavam igualmente a Espanha. Estas associações eram bastante complexas. Envolviam muito capital e muitos homens e mulheres a trabalhar para elas (carregadores, condutores, bateleiros, fornecedores, intermediários e informadores). Os meios logísticos também eram fundamentais, como as batelas, carros, camiões, radiotransmissores. Perante esta complexidade, era essencial que a rede fosse flexível e estivesse preparada para agir perante os imprevistos. Um dos mais perigosos, era sem dúvida, a patrulha da Guarda-fiscal.
Tudo poderia estar bem organizado, mas o grande sucesso das cargas esteve sempre dependente de conivências da Guarda-fiscal. Era, pois, normal os guardas-fiscais fazerem, eles próprios, uma contabilização do despacho das mercadorias, na hora da carga, para depois receberem a sua parte do negócio.
“Eu trabalhei para os Senhores do Contrabando, o Sr. Freitas, o Sr. Alexandre, O Rita dos Casais e o Maia de S. Gregório. As pessoas aqui do regato trabalhavam por uma miséria. Carregava 50Kg a 75Kg de caixas atadas por cordas. Os guardas chegavam quando o camião já estava quase carregado, para verificar a quantidade e receber o seu. Por vezes ainda ajudavam a carregar. Digo-lho eu que estava presente.” Antero Pires – Cevide – 23-1-2014
Todos os recursos de fuga às autoridades de pouco serviriam sem a conivência das próprias. Neste contexto, verifica-se que estes consórcios vão sofrer mais apreensões longe da linha de fronteira, quando os interessados transportavam as mercadorias para as cidades como Braga, Porto, ou Lisboa.
“O último contrabando que por aqui existiu foi o das bananas. Carregou-se muita banana. Só na altura em que veio para cá o Tenente Abrantes, o conhecido Zeca Diabo, é que tivemos de cortar um bocadinho, que esse não alinhava. Mas depois tudo continuou. De Ponte da Barca até ao Porto é que era tudo mais complicado. Sabe como é, o pessoal via muitas carrinhas a sair daqui serra abaixo e a coisa dava nas vistas (…)” João António Abreu – Melgaço – 22-1-2014
O contrabando evolui por ciclos. Em Melgaço, o café foi um dos ciclos mais longos, dado Portugal ser excedentário neste produto, devido à produção que lhe chegava das suas ex-colónias. Um outro ciclo importante foi o do gado, que se inicia na década de 60 e perdurou praticamente até abertura das fronteiras. Este tomou os dois sentidos.
Para Portugal vinham vacas e para Espanha seguiam vitelos. Este grande ciclo de gado coexistiu com o último grande ciclo, ou seja, o das bananas, tendo este tido inicio só no inicio da década de 70.
Juntamente com estes produtos, ao longo dos anos as mercadorias contrabandeadas foram muito diversas. Desde o tabaco, gado suíno e ovino, bacalhau, azeite, ouro, prata, cobre até peças de automóveis inteiros que depois eram montados em Espanha. De tudo um pouco passava ora num sentido, ora no outro, utilizando quer a raia seca quer as batelas do Rio Minho.
A mulher contrabandista assumiu um papel importante. São astutas por natureza, ou porque a vida assim as fez. Na sua larga maioria entregavam-se ao contrabando por conta própria: ovos, galinhas, café, e na perspetiva inversa, farinha e azeite para Portugal. Numa época mais tardia, peças de vestuário, perfumes, chocolates e bacalhau. Era normal elas recorrerem a peças de vestuário apropriadas para disfarçar o transporte de mercadorias mais contrabandeadas. Também o uso de longas tranças enroladas lhes permitia esconder no cabelo peças pequenas. O que foi muito usado para o tráfico de divisas e jóias.
O tráfico de divisas, também conhecido por bolsa negra, era largamente utilizado pelos emigrantes espanhóis, que face à ditadura do seu país, estavam impedidos de enviar as remessas de dinheiro diretamente às suas famílias.
Desta forma, este era depositado em Portugal e levantado pelos contrabandistas que em seguida o passavam ilegalmente para Espanha e o distribuíam aos familiares dos emigrantes.
“Ir a Espanha era um trabalho para quem não tinha medo à vida. Por vezes tinha de se fazer mais quilómetros para fugir aos guardas, é que nós não podíamos repartir com eles. Os melhores dias eram os de nevoeiro ou chuva miudinha. Assim eles não andavam pela serra. Fomos ganhando para ter para a casa; ia então buscar, bacalhau, azeite, chocolate, baunilhas e tudo o que me encomendassem, assim ganhava o meu vendendo porta a porta. Lá ia eu com o carrego à cabeça e os meus filhinhos pela mão. Era uma vida bem dura. Mas lá nos governamos com uns tostões. Sim que os nossos governantes só (…)” Maria Emília Domingues – Cousso – 7-1-2014.
O contrabando foi um negócio lucrativo, mas efémero. Enquanto durou, criou muitos comércios e alimentou muitas famílias. Deve-se compreender que constituindo uma economia paralela, os seus lucros nunca foram orientados para o desenvolvimento local. Permitiram, no entanto, uma sobrevivência condigna a uma população pobre, que vivendo num território limítrofe, dependia de uma parca agricultura e pastorícia de subsistência."


Fontes citadas:
- AGUIAR, Lídia (2016) - Memória do Contrabando e Emigração Clandestina em Melgaço: Patrimonialização E Musealização. In: Percursos & Ideias, Revista Científica do ISCTE, Cadernos de Turismo - Nº 7 - 2ª Série 2016.

- GONÇALVES, Albertino (2008) - Memórias do Contrabando no Concelho de Melgaço cit in Boletim Cultural de Melgaço (2008) pp 33-39. Melgaço: Câmara Municipal de Melgaço.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O "Nacho" de Cristóval (Melgaço) e o Guarda Fiscal" (1905)

Cristoval (Melgaço)
Fonte: http://coxo-melgaco.blogspot.pt

As fronteiras de Melgaço são, desde sempre, um espaço onde abundou o contrabando e a emigração ilegal. A Guarda Fiscal era a autoridade encarregue de controlar o trânsito de pessoas e mercadorias ao longo da linha de fronteira.
No “Jornal de Melgaço” de 19 de Outubro de 1905, encontrámos uma notícia que nos fala de um episódio de aparente abuso da autoridade por parte de um guarda fiscal passada uns dias antes para as bandas de Cristóval. A vítima foi um homem conhecido como o “Nacho” de Cristóval, deste concelho. A notícia diz-nos o seguinte:

“Façanhas da Guarda Fiscal
Mais uma façanha praticada pela Guarda Fiscal de que resultou um homem ferido com uma bala de revólver, pôs em sobressalto parte da freguesia de Cristóval, de este concelho. Eis o caso: No sábado passado, 14 do corrente, às 11 horas da manhã, vinha da Galiza o inofensivo José Fernandes, o “Nacho”, do lugar da Porta, da freguesia de Cristóval, sendo portador de uma saca cujo conteúdo eram duas garrafas de azeite e 40 réis de sabão, de procedência espanhola. Próximo do lugar do Regueiro, da mesma freguesia, surpreendeu-o o Guarda Fiscal José A. Esteves, vestido à paisana, que lhe apreendeu os objetos descaminhados aos direitos e prendeu o condutor.
Seguiram ambos até ao portão da propriedade do Sr. Daniel José Rodrigues, e o “Nacho”, vendo ali um belo refúgio, tentou evadir-se, o que pôde conseguir, chegando a transpor o referido portão e ali, ambos engalfinhados, esforçavam-se por ver coroados de bom êxito os seus desejos.
O guarda, julgando-se impotente para arratar o “Nacho” para fora do portão, intimou-o a sair, e, como este se recusasse, puxou por um revólver e disparou contra o pobre “Nacho”, indo a bala atravessar-lhe a coxa da perna esquerda.
Nesta conjuntura, o guarda, vendo aproximar alguns artistas que trabalhavam na propriedade citada, pôs-se em fuga, sendo perseguido por alguns artistas que pretendiam prendê-lo.
O ferido foi conduzido para sua casa, onde está em tratamento.
São estas as informações que podemos colher, de que nos abstemos de fazer comentários, não nos inibindo de voltar ao assunto.
Pedem-se enérgicas providências e o mais severo cumprimento da lei contra selvajarias desta natureza.”


Notícia extraída de: Jornal "Jornal de Melgaço, edição de 19 de Outubro de 1905.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Os anos de ouro das Águas de Melgaço em artigos publicitários



Vamos recuar ao tempo em que as Águas de Melgaço eram procuradas por gente dos quatro cantos do país. Eram várias as indicações mas eram sobretudo publicitadas como sendo eficazes no tratamento da diabetes. Não havia em Portugal, mais nenhuma nascente termal com estas caraterísticas. Pelas suas termas e paisagens, Melgaço era falado em todo o Portugal e no estrangeiro. 
Venha conhecer melhor as Águas de Melgaço nesse tempo pelos anúncios publicitados de época, produzidos entre o início do século XX e a década de 80 do século passado...