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quinta-feira, 8 de agosto de 2024

A Guerra da Restauração também passou pelas fronteiras de Melgaço


A Restauração da Independência a 1 de Dezembro de 1640 marca o fim de 60 anos do domínio filipino em Portugal. Recuperada a independência, D. João IV é aclamado rei em Lisboa e vão seguir-se quase três décadas de guerra com Espanha. 

Nas fronteiras de Melgaço, decorreram algumas ações bastante violentas, particularmente ao longo da fronteira do rio Trancoso, mas também em Lamas de Mouro ou em Castro Laboreiro. O lugar de Alcobaça bem como outras aldeias em Paços, Cristóval ou Castro Laboreiro (Melgaço) foram incendiadas e saqueadas. Temos notícias que os de cá também destruíram e incendiaram alguns lugares (Crespos e Monte Redondo), em Padrenda. Era o estalar da Guerra da Restauração. Estes e outros episódios são narrados com um certo detalhe no livro "História do Portugal Restaurado", publicado em 1751. O dito livro conta-nos que, aí pelo ano de 1641, "...Nestes dias, andando em Melgaço, rondando as sentinelas junto do rio, o Capitão de Infantaria Francisco de Gouvea Ferraz, estimulado de ouvir da outra parte do rio a um soldado galego algumas palavras contra o decoro del rei, se lançou impetuosamento ao rio, e passando a nado, se achou da outra parte sem oposição, porque o galego, medroso, do seu lado se retirou, antes que ele chagasse, podendo facilmente tomar vingança da sua ousadia. Tornou da mesma forma a voltar a Melgaço, e logrou o merecido aplauso da sua resolução. 

De Janeiro até Julho se passou de uma e outra parte sem mais empresa do que estas primeiras ameaças de guerra. Em Julho quando se rompeu a guerra no Alentejo, conhecendo El Rei que menear as armas só para a defesa era multiplicar o perigo, e era a paz que se desejava e que se havia de conseguir fazendo guerra, ordenou aos governadores para dar armas de todas as províncias, que entrassem em Castela. Não dilatou D. Gastão a obediência e deu logo ordem a Frei Luiz Coelho da Sylva, Cavaleiro da Ordem de S. João, que com a gente de Viana, embarcada numa galeota, duas lanchas e alguns barcos passasse a queimar a vila da Guardia, situada defronte de Caminha. Mandou a D. João de Souza, Capitão Mor de Melgaço, que entrasse ao mesmo tempo pela Ponte das Várzeas (próximo a S. Gregório); António Gonçalves de Olivença pelo Porto dos Cavaleiros; por Lindoso, Manuel de Souza de Abreu e pela Portela do Homem, Vasco de Azevedo Coutinho. Todas estas entradas se executaram em lugares muito distantes uns dos outros e toda esta gente não levava mais disposição que a do seu valor. Porém ignorar os perigos que buscava, a fazia mais resoluta, achando a fortuna favorável, que costuma pôr-se da parte dos temerários. D. Gastão passou à Insula, pouco distante da Guardia, para observar deste sítio o sucesso dos Vianenses, de que não resultou mais, que voltarem-se com dois barcos de pescadores. Irritou-se muito D. Gastão deste desconcerto, como se as disposições desta empresa não insinuaram o sucesso dela. Na Insula, mandou D. Gastão levantar um reduto, parecendo-lhe sítio acomodado e que necessitava de segurança. Os mais que entraram em Castela saquearam e queimaram algumas aldeias e trouxeram despojos, que os obrigou a se animarem a maiores empresas. Governava o Reino de Galiza, o Marquês de Val-Paraíso. As prevenções e disciplina daquela parte não excediam muitas muito as nossas e só havia diferença de se haverem nomeado oficiais, que entendiam a guerra, de que resultava terem os soldados melhor notícia dela. 

Poucos dias depois de retirada a nossa gente, mandou o Marquês de Val-Paraíso 800 infantes à freguesia de Cristóval (Melgaço), que é na raia junto ao rio Várzea (rio Trancoso), e queimaram algumas aldeias, sem perdoar o insulto ao sagrado das igrejas. Passaram à freguesia de Paços que segue a Cristóval. Acudiu D. João de Sousa e Francisco de Gouveia, o que havia passado o rio a nado, e trazendo consigo só 70 homens, ocuparam a passagem do rio e obrigaram os galegos a que se retirassem perdendo 40 homens. Estas entradas, que pareciam mais de bandoleiros que de soldados, se alternavam de uma e outra parte com pouca vantagem nos sucessos. Com a notícia da entrada que os galegos fizeram, tornou D. Gastão a convocar a gente, tornou D. Gastão a convocar a gente que havia dividido, e deu ordem ao Sargento Mor Simão Pita que entrasse na Galiza, pela Ponte das Várzeas, e Manuel de Souza de Abreu pelo Porto dos Cavaleiros. Simão Pita teve notícia que o inimigo engrossava por aquela parte o poder, e susteve a entrada. Manual de Souza passou o Porto dos Cavaleiros com três mil infantes e 40 cavalos e sabendo que o inimigo ocupava o lugar do Facho (Cristóval), por onde forçosamente havia de passar, mandou avançar António Gonçalves de Olivença com 400 infantes a desalojar os galegos, que se achavam com 400 infantes e 150 cavalos. Investiu-os valorosamente António Gonçalves e obrigou-os a se retirarem. 

Sem embargo desta desordem, marchou Manuel de Sousa para o lugar de Monte Redondo (Padrenda), grande, rico e fortificado, com duas companhias pagas e outras da ordenança que guarneceu. Chegando ao lugar, mandou avançar as trincheiras pelos Capitães D. Vasco Coutinho, Cristovão Mouzinho e Luíz de Brito, entraram valorosamente e queimaram o lugar à custa das vidas de muitos galegos. A pressa, e o exemplo da gente de António Gonçalves inculcou a desordem porque muitos dos portugueses, que sabiam as veredas, se retiraram para suas casas com os despojos que colheram. Os galegos que saíram do lugar ocuparam a aspereza de um monte, que era o caminho por onde Manuel de Sousa forçosamente havia de passar. Vendo ele que era necessário vencer esta dificuldade, deu ordem a que avançasse toda a gente a desocupar aqueles sítios e não havendo melhor disciplina que a da competência, disse que aquele que chegasse primeiro, lograria o aplauso daquela ocasião. O valor de todos dissimulou este desconcerto. Porque avançando intrépidos por todas as partes, obrigaram os galegos com morte de alguns a largarem o posto. Aos que se retiravam, se uniram outros, que dos lugares vizinhos acudiram ao rebate e chagando ao número de mil infantes e 200 cavalos, e se formaram num vale, mostrando que desejavam pelejar. Facilmente lograram intento, se Manuel de Sousa se não achara com menos duas partes da gente que havia levado à empresa. Retirou-se queimando de caminho algumas aldeias. D. Gastão não estimou tanto o bom sucesso, como sentiu a desordem dos que se retiraram e castigando os que tiveram culpa e dando prémios aos que procederam com acerto, foi pouco a pouco reduzindo a melhor forma a gente daquela província e ao mesmo passo que ensinava, aprendia. Porém aqueles a que sucede serem primeiro generais que soldados, dificilmente saem grandes mestres na escola militar. 

Dois dias depois do sucesso referido, entrou o inimigo pelo Porto dos Cavaleiros com dois mil infantes e 300 cavalos e derrotou os Capitães António de Barros, que com duas companhias pagas, guardavam aquele porto. Vindo-se retirando os socorreu a Capitão Mathias Ozório, a que dava apoio o Sargento Mor Simão Pita. Fizeram alto os galegos com perda de alguns oficiais e os soldados voltaram sobre o concelho de Laboreiro, e o lugar de Alcobaça, que destruíram e queimaram. A nossa infantaria recolheu ao Convento de Fiães de frades de S. Bernardo que com esta guarnição ficou livre dos danos que os galegos determinavam fazer-lhe."

LINK PARA O LIVRO - História do Portugal Restaurado (1751)

Mais curiosa ainda é a referência a Melgaço e a Lamas de Mouro nesta mesma guerra num livro de poesia publicado em 1649 com o título “O Phaenix da Lusitania, ou, Aclamaçam do serenissimo Rey de Portugal D. Ioam IV”. No mesmo, o autor celebra a Restauração da independência de Portugal e os feitos na guerra com Espanha. Faz alusão à existência um reduto de defesa em Lamas do Mouro, bem como à morte de quatro irmãos da família de fidalgos dos Castros de Melgaço. Pode o caro leitor conferir abaixo nesta página 226, na estrofe 35, a referência ao tal reduto de Lamas de Mouro.


Conforme referimos atrás, também há, neste livro, uma referência à morte de quatro irmãos da família fidalga dos Castros de Melgaço durante esta guerra. Confira, o ilustre leitor, na página 255, estrofe 121, mostrada abaixo:


LINK PARA O LIVRO - O Phaenix da Lusitania (1649)


Fontes consultadas: 

- MENEZES, Luiz de (1751) – História de Portugal Restaurado. Tomo I; Oficcina de Domingos Rodrigues; Lisboa.

- TOMÁS, Manuel (1649) - O Fênix da Lusitânia, ou, Aclamaçam do sereníssimo Rei de Portugal Dom Ioam IV. do nome: poema heroico. Impresso em Ruam: Por Lourenço Maurry.

sábado, 15 de abril de 2023

O povo de Chaviães (Melgaço) pede a proteção divina (1910)


 

 

Em tempos antigos os surtos epidémicos eram bastante frequentes na nossa região. Doenças como o tifo, a tuberculose, a pneumonia ou a varíola, entre outras, provocavam frequentes picos de mortalidade entre a população. 

A generalidade das pessoas tinha uma inabalável fé em Deus e com uma certa frequência o povo organizava rituais religiosos para que Deus os livrasse da fome ou das doenças fatais.

Pela leitura dos jornais melgacenses, sabemos que em 1910, o povo de Chaviães saiu em procissão, desde a sua igreja até à capela de Gondufe, em Paços, levando a imagem de São Sebastião e implorando proteção divina contra a epidemia de varíola que tinha feito bastantes vítimas por estas bandas. De facto, no “Jornal de Melgaço” de 27 de Janeiro desse ano, podemos ler: 

 

Procissão de penitência 

Implorando a proteção divina por causa da terrível epidemia da varíola, que tantas vítimas têm causado neste concelho, realizou-se, no último domingo, na freguesia de Chaviães, uma posição de penitência, levando à sua frente o glorioso mártir São Sebastião.  

A concorrência do povo era extraordinária. Na capelinha de Gondufe, aonde se dirigiu aquela posição, houve sermão pelo Reverendo Francisco José Dias, que, apesar de não estar preparado, proferiu uma linda oração. 

Bem hajam os habitantes de Chaviães pela sua iniciativa, porque se Deus não velar por nós com mais cuidado do que aqueles que, na terra, tinham por dever empregar todos os meios ao seu alcance para afastar aquela moléstia, estamos irremediavelmente perdidos. 

Melhor seria que em vez de, em certos tascos, agora se censurarem os atos de quem, no exercício das suas funções, procede dignamente, se fosse mais humanitário, menos malcriado e até atrevido. 

Mas estejam certos, esses cavalheiros, que um dia, talvez não muito tarde, lhes será cortada a ponta da língua já que a tem cumprida demais. 

A bom entendedor... 

 

Extraído de: “Jornal de Melgaço”, edição de 27 de Janeiro de 1910. 


sexta-feira, 20 de maio de 2022

A lenda da origem da imagem e do sino de Santa Ana contada há mais de 250 anos (Paços - Melgaço)

 


As Memórias Paroquiais de 1758 são das maiores fontes de informação sobre a vida nas freguesias em meados do século XVIII. Na freguesia melgacense de de Paços, o redator do manuscrito foi o pároco à época, o padre Manuel Joaquim Pinheiro. No dito documento, o padre Manuel conta-nos que Santa Maria de Paços, na época, tinha uma população “duzentos vizinhos, pessoas, seiscentos e quarenta e sete”. Note-se que o número de “vizinhos” corresponde ao número de fogos. 

Indica-nos igualmente quais eram os principais lugares da freguesia e, genericamente, o número de casas que cada lugar tinha. Assim, o padre Manuel Pinheiro conta-nos que a freguesia de Paços tinha, na época, “a aldeia chamada dos Casais, que tem oito vezinhos, a aldeia de Belleco, que tem dezassette, a aldeia da Cruz, que tem catorze vezinhos, a aldeia do Outeyro que tem vinte e quatro, o lugar de Gobende, que tem doze, o lugar da Pedreyra, que tem doze, o lugar de Merelhe que tem dezanove, mais o lugar de Viladraque que tem trinta e três. Tem mais o lugar de Sá que tem satenta e nobe vezinhos”. O padre Manuel Pinheiro acrescenta que a igreja, com orago de Santa Maria de Passos, ficava isolada, sem vizinho algum e quase no meio do lugar. 

O padre refere-se ainda à igreja e aos seus altares e escreve que “o orago he Santa Maria de Passos que se celebra a oito de Dezembro. Tem três altares, hum delles, o altar mor onde estava colocada a imagem de Nossa Senhora da Luz e o Apóstolo Sam Barnabé, outro colateral da parte do Evangelho que he da Nossa Senhora da Conceição dedicado a Nossa Senhora da Conceição, terceyro da parte da Epystulla que he do martyr  Sam Sebastião. Tem esta igreja huma irmandade que he da Confraria das Almas.” 

Algumas das informações mais curiosas que o pároco deixou registadas dizem respeito à origem lendária da imagem de Santa Ana e do sino da igreja. O facto da capela estar no lado de fora também tem uma explicação numa lenda popular. Nesse sentido, refere-se à especial proteção do toque do sino contra as calamidades meteorológicas na região. Acrescenta que o sino chamado de Santa Ana chegou à freguesia, vindo pelo rio Minho abaixo com a imagem da milagrosa, como referem os antigos. Deixo aqui a transcrição do extrato onde se faz referência à curiosa lenda da imagem e do sino de Santa Ana: “Tem esta freguezia huma capella encostada à capella mor da parte de fora que he da millagroza Sancta Anna que por tradição antiga, dizem os velhos desta freguezia, veio pello rio Minho abaixo juntamente com hum sino chamado de Sancta Anna, não só os moradores desta freguezia, mas em toda a parte que se ouça tocar, tem tal fé que aonde elle se ouvisse não tem havido pedraça nem rayo... 

No dito manuscrito, o padre Manuel Pinheiro explica que o motivo da capela estar construída do lado de fora se devia ao facto de que, depois da imagem ter aparecido nos limites da freguesia e ter sido colocada dentro da igreja, ela no dia seguinte aparecia sempre da parte de fora. Assim, foi entendido que a imagem queria estar onde pudesse ver o rio, motivo que levou a construir-se a capela exterior à igreja. Atentemos naquilo que o pároco escreveu: “...pella mesma razão que o motivo de estar de fora a capella da Senhora é que em o tempo que apareceu nos limites desta freguezia, a puseram dentro da igreja e que aparecia, no outro dia, da parte de fora,e que se colocou várias vezes que entenderam que queria a Senhora estar em parte onde visse o rio por onde viera, por cuja razão se lhe fizera a capella da parte de fora, não consta o registo de assento por constar que nas guerras antecedentes, se queimarão as Casas da Residência... 

Estórias contadas há mais de 250 anos pelo pároco de Paços...