domingo, 31 de dezembro de 2023
Programa "Vai dar uma curva" (TVI/CNN) em Melgaço
domingo, 18 de dezembro de 2022
Memórias do tempo do contrabando
A atividade do contrabando em terras melgacenses pratica-se desde tempos imemoriais. No século XX, contribuiu para tornar alguns ricos e mostrou-se um complemento de rendimento essencial para muitas outras famílias. O fim das fronteiras com a integração na então C.E.E acabou com essa fonte de rendimento. Em diversos trabalhos académicos, tem-se recolhido testemunhos orais que são essenciais para compreender a prática do contrabando na nossa região em diversos contextos políticos ao longo dos tempos.
No trabalho da Dra. Lídia Aguiar, “Os Patrimónios Alimentares nas Rotas do Contrabando”, publicado em 2020, mostra-nos uma série de testemunhos de antigos praticantes do contrabando em Melgaço, fossem eles homens, mulheres ou crianças. Deixámos aqui um muito interessante excerto: “D. Rosalina, pacatamente, fazia renda na biblioteca de Castro Laboreiro. Com 77 anos, para lá se desloca nos dias frios de inverno, já que em sua opinião, aí está mais quentinha. Fez questão de dar o seu testemunho, frisando bem que nunca foi contrabandista, embora, como todos os habitantes desta freguesia, foi muitas vezes às compras a Espanha, tendo por isso sido vítima da violência dos guardas, principalmente dos carabineiros. Sublinhou que quando ia nunca retornava pelo mesmo caminho. Era uma questão de segurança, a guarda podia ter visto ela passar para Espanha e aguardar o seu regresso. Deste modo, quando encetava a volta a Castro Laboreiro escolhia um caminho alternativo.
Eu nunca fui contrabandista pois tinha muito que fazer nos campos e que tratar do gado. Mas claro que ia a Espanha comprar umas coisitas que nós procurávamos sempre o mais barato. Lembro-me bem do azeite, que era mais óleo, aquilo até era branco, mas era barato. Lá íamos então ao Pereiro, à Luísa, vinha em latas de 5 litros, se nos apanhavam tiravam-nos as coisitas e os guardas espanhóis ainda nos batiam. (Rosalina Fernandes - Castro Laboreiro - 20/10/2013)
A D. Rosalina indica-nos que nunca entrou em grandes rotas de contrabando. Praticou o ato para sustento da sua própria família. Era hábito as mulheres juntarem-se em grupo, para mais facilmente se furtarem ao controlo das autoridades das fronteiras. D. Isolinda da Luz, também abrigada do frio na biblioteca de Castro Laboreiro, entra na conversa: Eu só trabalhei no do gado e mais tarde no das bananas. Mas sei de quem trabalhasse com contrabando de azeite, farinha, milho, ovos (os ovos iam para Espanha em saias especiais que as mulheres vestiam e disfarçavam na sua roupa). Outro contrabando forte foi o do café, esse ia em mulas até à fronteira e depois os galegos vinham buscá-lo. De noite eram umas 4h a andar. E também ia dinheiro, muitas vezes escondido nas tranças do cabelo ou na roda das saias.
Também fui muitas vezes às compras a Espanha. Mas aí tinha de vir tudo muito bem escondido e havia que escolher bem os carreiros que usar. Era bem difícil. Os guardas, quer os portugueses quer os espanhóis se nos apanhavam tiravam-nos tudo. Mas valia a pena ir lá comprar, pois era tudo muito mais barato. (Isolina da Luz - Castro Laboreiro - 20/10/2013)
É com D. Isolina que temos acesso a indicações sobre o contrabando alimentar mais antigo e que mais perdurou na fronteira luso-espanhola: o café. Ela descreve a primeira fase deste tráfico, feito por mulheres, dissimulado em coletes costurados de forma especial, vestidos como de roupa íntima se tratasse. Quanto aos ovos disfarçados na roupa, referia-se Isolina a saias rodadas com sacos disfarçados de pregas, onde enfiavam ovo por ovo, até ao máximo de 5 ovos em altura. No que se refere ao café em maiores quantidades, como se verá posteriormente, o primeiro transporte utlizado foram as mulas. Dada a dificuldade, em breve os próprios Galegos se deslocavam através do rio Trancoso e o levavam às costas: No tempo da guerra ia para Espanha muito amendoim, açúcar e café. O meu pai é que foi do tempo mais antigo. Ele sim, fez contrabando de café para Espanha. Lembro-me que vinha muita gente buscar o café e de muito longe, até de Cortegada. Faziam com o saco do café cru, uma mochila para pôr aos ombros, mas tinham muito medo dos carabineiros e dos guardas portugueses também, que naquela altura os guardas eram muito maus. Também levavam do café já embalado, era o Café Sical. Mas por aqui passava muita coisa, que depois da guerra havia falta de tudo em Espanha. Chegou a vir gente de Vigo, eles tinham de procurar pela vida. Quando a vida em Espanha começou a melhorar, então também passou a vir mercadorias de lá. Lembro-me das uvas passas e do bacalhau no Natal. Aqui toda a gente passou a andar nisto, era a única sobrevivência. Mas valha-me Deus, muitos morreram no rio, que às vezes ia alto e as batelas eram fraquinhas e viravam. A carne também se ia lá buscar. É verdade, que vinha muito gado para cá, mas era velho, que o nosso gado novo, esse ia para lá. Isso sei eu bem, que o meu marido ainda andou a ajudar a passar alguns. Então toda esta zona ia lá comprar a carne, mas era contrabando. Até o pão era um problema. Aqui, em Cevide, não chegava o padeiro, apesar de isto ser muito povoado, não era como agora a menina vê. Do outro lado do regato, havia uma loja que vendia e nós chamávamos a Senhora para nos trazer o pão. Atirávamos uma guita e ela amarrava e mandava assim o pão pendurado por cima do regato. Mas os guardas quando viam a guita logo a atiravam ao regato. Por vezes, já estávamos tão habituadas que ela nos atirava mesmo por cima do regato. Mas então, estávamos condenados a não comer pão? É que ir a Melgaço era muito longe e não havia transportes. (Gloria Pires - Cevide - 23/1/2014)”
A D. Glória Pires transporta-nos para uma dupla realidade. A que ela própria viveu e a que se lembra de o pai ter praticado como grande contrabandista, na passagem de café para Espanha, ainda no tempo da Segunda Guerra Mundial. Nesta fase, por Cevide, pode-se afirmar que os patrimónios alimentares passados para Espanha foram dos mais variados, dadas as carências que o país vizinho vivia. O marido da D. Gloria contrabandeou gado, pela raia seca, pelo que ela nos informa que o gado que vinha era velho e o que ia era novo e de boa qualidade. A população sabedora que a boa carne ia para Espanha, acabava por a ir lá comprar, mesmo tendo de a contrabandear. Porém, o que mais enfatiza é a questão do pão, pois era obrigada a contrabandear, dado que o local onde habitava não tinha padeiro e do outro lado do rio, facilmente acessível se encontrava uma padaria, mas estava já em território espanhol. D. Gloria, ainda no presente não compreende a razão de não poder comprar o pão à sua vizinha, de quem até era amiga, só porque estava do lado de Espanha. Revela-se aqui a identidade de fronteira, onde os territórios muitas vezes se confundem e as barreiras alfandegarias pouco ou nada dizem para quem vive na raia. Este sentimento é comum nos dois povos da zona de fronteira e na linha cronológica em estudo.
E isso o podemos confirmar através de quem praticou este ato até bem próximo da abertura das fronteiras. Atente-se na entrevista seguinte: “No tempo do contrabando, vinha muita gente comprar aqui na nossa loja. Tinham de passar a pé pelo rio (refere-se ao Rio Trancoso). Levavam um pouco de tudo. Já foi nos 70/80 que começaram a ir as bananas, os figos, o bacalhau e o marisco. Nós comprávamos grandes quantidades e depois os portugueses mandavam vir os moços carregar e levavam para lá, mas isso já não era connosco. Sei que levavam para Cevide, onde tinham a carrinha. Aqui só passava alimentação. Os portugueses vinham e claro, depois tinham de passar a mercadoria pelo rio. A nossa loja esteve sempre orientada para Portugal. Também cá vinha muita gente no tempo de verão, os hóspedes das termas do Peso, e esses levavam muita coisa, faziam mesmo muitas compras. Eu também ia lá buscar o café. Aqui na loja sempre aceitei escudos e francos, pois tinha um senhor de Melgaço que vinha cá e me fazia o câmbio. Mas as bananas foi mesmo a grande quantidade. Nós comprávamos e guardávamos no nosso armazém. Depois os portugueses é que as buscar para carregar pelo regato. Eram muitos rapazes. De Cevide sei que eles as distribuíam para as cidades como o Porto e outras. Quem vinha a Cevide, não era o grande patrão, era uma filha e dois empregados de confiança, que organizavam tudo. Cada caixa pesava por volta de 12 quilos. Dependia da força de cada um. Uns levavam duas, outros três, mas havia quem levasse quatro. Amarravam-nas com umas cordas, pois quantas mais levassem mais ganhavam, pois eram pagos por caixa transportada. Começavam ao escurecer e andavam toda a noite a carregar.
Os rapazes andavam todos contentes pois ganhavam algum bom dinheiro. No tempo da fronteira fechada, isto aqui era muito movimentado. Só fechava a loja no dia 25 de Dezembro e no dia 1 de Janeiro. Para passar o regato o mais normal era porem uma árvore deitada e passarem por cima dela. Agora isto morreu. Os dois povos sempre se relacionaram. A fronteira, nada impediu. Aqui não há raças, não queremos saber se somos espanhóis ou portugueses. Claro que com a fronteira fechada sempre havia algum chato, mas nada nos impediu de nos sentir um só povo. (Isabel Fernandez Frieira . Galiza 22/1/2014)
Isabel Fernandez, relata-nos já um contrabando bem mais recente. Espanhola, moradora na Frieira, Galiza, onde ainda mantém a sua loja
aberta, mas com uma frequência muito limitada, quando a compara com o negócio do tempo em que a fronteira estava fechada. Realça as boas relações entre os dois povos, que considera que sempre comunicaram como de uma só comunidade se tratasse.
É ainda significativo o seu conhecimento das rotas até às grandes cidades, nomeando a cidade do Porto, sabendo que era em camiões carregados em Cevide, que geograficamente se situa frente a Frieira, Espanha, do outro lado do rio Trancoso, precisamente onde se situa a sua loja.
A corroborar a sua armação, Anselmo, foi um dos que muita carga fez entre a loja da D. Isabel e os camiões em Cevide: “Eu trabalhei com as bananas, mas para o Mário Corga. Esse era um grande contrabandista, mas também um grande Senhor. Nós tratava muito bem e era muito justo a pagar e sempre nos tratou de uma forma muito humana. Era um verdadeiro Senhor. Seriamos uns 30 homens a carrejar. A minha mãe com pena, lá ia com um caneco de limonada e ali se sentava a dar um copo de limonada a cada um que passava. Eu carregava no início da noite 6 caixas amarradas com uma corda, dava uns 75 quilos, estava com muita força, depois só trazia 50 quilos, ou seja, 4 caixas. Quantas mais caixas, mais recebia. Os guardas aí já eram mais livres. Pagavam-lhe um tanto por caixa. Então eles vinham no fim contar todas as que estavam nos camiões, se ainda houvesse que carregar, também ajudavam, pois, mais caixas no camião, mais ganhos. No fim, levavam o saco do dinheiro, mais uma caixa de bananas ou bacalhau”. Antero Pires Cevide (23/1/2014)
Com o testemunho de Antero, ficamos a saber que quem possuía os camiões eram contrabandistas de elevado poder financeiro, que contratavam rapazes novos para fazer o serviço duro de passar a fronteira com a mercadoria às costas. Neste caso, Antero, considera o seu patrão um homem justo, pois lhes pagaria um valor correto pelo serviço que praticavam. Constata-se igualmente que a guarda fiscal estava inserida nesta rede de contrabando. Porém, quando os camiões se afastam das zonas de fronteira torna-se difícil controlar as sucessivas brigadas que se encontra ao longo da estrada.
::::::::::::::::::::::CONTINUA:::::::::::::::::::::::
Extraído de: AGUIAR, Lídia (2020) - Os Patrimónios Alimentares nas Rotas do
domingo, 13 de dezembro de 2020
A fronteira melgacense no Tratado de Limites de 1864: do Marco nº 1, em Cevide... ao Marco nº 53
Em 29 de Setembro de 1864, foi assinado o Tratado de Limites em Lisboa entre Portugal e Espanha com vista a acertar a linha de fronteira que permanecia algo dúbia em alguns pontos o que motivava alguns conflitos. Em Melgaço, as fronteiras desenhadas pelos rios Minho, Trancoso e Laboreiro nunca ofereceram dúvidas ao contrário da raia seca e particularmente em terras castrejas. Assim, ao longo da linha de fronteira melgacense, esta é marcada por uma série de 53 marcos alguns deles bastante antigos e outros mais recentes. Do marco número 1, em Cevide (Cristóval), até ao marco número 53, em Castro Laboreiro...
Na documentação do Tratado de Limites com Espanha de 1864, encontrámos uma descrição da localização de cada um dos marcos fronteiriços principais:
“Nº 1 - São dois marcos de cantaria de granito fronteiros um ao outro junto à foz do rio Trancozo ou Barjas que divide os dois Estados. O marco de Portugal deve ficar em um chão por cima de uma gruta de pedra e próximo a uns loureiros o de Hespanha sobre lajes e junto ao caminho que vem de Destriz para a barca de passagem do rio Minho. Estes marcos, por excepção, hão-de ter cada um a letra inicial da sua nação, isto é, o portuguez P e o hespanhol E, voltados um para o outro e ambos com o número 1.
Da confluência do Trancozo com o Minho segue a fronteira pelo rio Trancozo na distância aproximada de 11 kilometros ate ao sítio chamado Porto dos Cavalleiros ponto em que atravessa este rio um caminho que de vários povos vae para Alcobaça.
A demarcação da raia seca começa neste ponto e corresponde à provincia hespanhola de Orense e ao districto portuguez de Vianna do Castelo.
Nº 2 - No Porto dos Cavalleiros sobre uma rocha nascediça que fica junto à confluencia do rio Trancozo ou Barjas com o regato ou corga de Porto Mallon que é ponto onde cruza aquele regato um caminho de Portelinha para Monte Redondo. Em Porto de Cavalleiros a linha divisória deixa o curso do Barjas para seguir uns 400 metros da Corga até ao sítio denominado Porto Mallon que acima referimos.
Nº 3 - Junto ao Porto de Mallon na extremidade de um prado que alli ha e a 8 metros do regato ou corga deste nome e de um caminho que vem de Hespanha para Castro Laboreiro. Desde o marco n.º 3 caminhando com um rumo de 275º determinado pela agulha magnética da bússola de Bournier começa-se a subir ate ao cimo da serra de Laboreiro ou montes de Penagache.
Nº 4 - Subindo a altura chamada Coto dos Cabreiros antes de chegar a ella e na pendente do monte e sítio chamado das Cancellas a 240 metros do marco anterior. A linha da fronteira segue neste trajecto uns 100 metros a direcção duma vereda que se declarou commum em virtude do artigo 28 do Tratado de Limites.
Nº 5 - Próximo ao sítio do Saramagal ou Cabreiros e a 240 metros do marco n.º 4.
Nº 6 - No sítio chamado Couto dos Cabreiros em uns rochedos granito-schistozos e a 800 metros do marco n.º 5. Junto a este rochedo existe uma lage em que está gravada a era de 1686. É marco natural.
Nº 7 - No alto de Gontin sobre o cume da serra de Laboreiro e a 560 metros do n.º 6. A fronteira continua desde aqui a percorrer uma parte do cume da serra de Laboreiro ou Penagache divisória das águas antre os rios Lima e Minho.
Nº 8 - No sítio de Laboreirão a 580 metros do marco de Gontin. É ponto da raia muito antigo e conhecido e ha alli gravado em penhas vivas os annos de 1722 e 1686 e outros signaes.
Nº 9 - A 80 metros do marco de Laboreirão caminhando no alinhamento da Pedra Rubia e próximo a um caminho que vae para Adofreire. Fica em logar elevado.
Nº 10 - Marco natural. Cruz da Raia gravada nas Pedras Rubias penedo pouco elevado que está numa pendente e próximo ao caminho de Quinta para Adofreire a 240 metros do marco n.º 9.
Nº 11 - A 140 metros da Pedra Rubia mas no alinhamento do marco das Urzeiras que é o que segue. Este marco 11 fica em lugar elevado.
Nº 12 - Marco das Urzeiras a 211 metros do marco n.º 11. Fica junto do antigo marco deste nome que não tem signal algum.
Nº 13 - No alinhamento do marco das Roçadas e na distância de 180 metros. Fica em um alto de onde se avista os marcos das Roçadas e das Urzeiras.
Nº 14 - Junto ao antigo marco das Roçadas a 525 metros do marco n.º 13. Desde aqui a raia segue em linha recta até ao marco n.º 17
Nº 15 - No sítio chamado Alto do Cabeço da Moega a 378 metros do marco das Roçadas e no alinhamento do marco 17. Este marco 17 foi posto para dividir ao meio as questões dos da Adofreire com os de Górgoa.
Nº 16 - Na mesma linha recta do marco 14, 15 e 17, no sítio chamado Alto da Amoreira da Fonte de Cepo, e a 252 metros do marco 17.
Nº 17 - Em um terreno inclinado junto a um caminho e a 280 metros do marco da Basteira que é o n.º 18. O marco 17 foi posto como já se disse acima para dividir ao meio o terreno questionado entre os da Adofreire com os de Górgoa.
Nº 18 - Cruz de Raia gravada nuns penedos situados na altura chamada da Basteira ou Cotos da Raia onde há outros penedos com cruzes antigas e distando 280 metros do marco 17. Nas pedras da Basteira partem os municípios da Galliza Padrenda e Leirado, sítio muito conhecido.
Nº 19 - No alinhamento do marco da Basteira com o da Portella de Pao em um alto e a 230 metros do marco 18.
Nº 20 - No montico chamado Portella de Pao sítio muito conhecido há alli uma lage que tem gravada a era 1728 e outros signaes. Dista 1225 metros do marco n.º 19.
Nº 21 - Junto ao caminho que vae de Castro Laboreiro para Banguezes a 300 metros do antecedente e no alinhamento dos marcos Portella de Pao n.º 20 e Lama do Ouro n.º 22.
Nº 22 - No sítio chamada Lama do Ouro sobre umas penhas vivas com cruzes antigas e a 363 metros do marco 21.
Nº 23 - No monte de terra chamado Motta-Grande a 118 metros do marco 22.
Nº 24 - Marco natural. Cruz de raia gravada em uma penha situada no cabeço da serra chamada Outeiro do Ferro onde há marcadas cruzes antigas e o anno de 1720 distante 340 metros do marco n.º 23.
Nº 25 - Junto a uma lage schistoza onde ha cruzes antigas a 560 metros do Outeiro de Ferro que é o marco n.º 24. Os marcos 23, 24 e 25 estão em linha recta.
Nº 26 - Junto à estrada que vae de Castro Laboreiro para Cella-Nova do lado direito e distante 320 metros do marco n.º 25.
Nº 27 - Fica em logar baixo em que há pastagens no alinhamento dos dois marcos antecedentes e a 220 metros do marco n.º 26. É posto este marco para dividir as pastagens que ha neste logar.
Nº 28 - No sítio chamado Brincadouro e junto a um velho marco o qual estava caido quando se marcou a raia e foi levantado nessa ocasião. Está a 345 metros do marco n.º 27. Os marcos, 25, 26, 27 e 28 estão em linha recta.
Nº 29 - Na lage baixa chamada Pedra Mourisca que fica a 460 metros do marco de Brincadouro que é o n.º 28.
Nº 30 - Na lage chamada da Escaramuça logar muito conhecido e que fica a 720 metros da Pedra Mourisca ou marco 29.
Nº 31 - No cume de um dos cerros mais elevados da serra de Laboreiro chamado Cabeço de Meda e distante 255 metros do marco n.º 30. Os marcos n.os 29, 30 e 31 estão em linha recta. N.º 32 Num pequeno valle pantanoso chamado Lama de Corno Dourado a 720 metros do marco n.º 31. Todas as águas que correm pelo regato deste valle e as que se acham dentro de Portugal a 30 metros do marco n.º 32 podem ser utilizadas pelos gados portugueses e hespanhoes como se concordou sendo, portanto de commum aproveitamento.
Nº 33 - No alto da ribanceira do Monte e a 60 metros à esquerda do regato acima dito a 38 metros antes de uma penha que tem gravada a era de 1849 distando 616 metros do marco 32.
Nº 34 - No sítio do Coto da Cabreira sobre uma lage que tem gravada a era de 1849 e cruzes antigas. Dista 498 metros do marco n.º 33.
Nº 35 - No sítio chamado da Lagoa a 185 metros do Coto da Cabreira ou do marco n.º 34. É um sítio alto de onde se avista o velho marco de Antella, e chama-se Alto das Campinas.
Nº 36 - Junto ao marco antigo de Antela a 1015 metros do marco 36 (sic) e a 2 metros antes do caminho que vem de Castro para Hespanha. Desde aqui começa a descer-se a vertente principal da serra de Laboreiro ate ao rio de Castro afluente do Lima.
Nº 37 - A 82 metros do marco de Antela no sítio alto onde se avistam os penedos chamados Coto dos Cravos.
Nº 38 - No alto dos Sepos Alvos a 280 metros do marco 37 no alinhamento do Coto dos Cravos. Fica sobre umas lages.
Nº 39 - Em umas pedras schistozas próximas ao sítio chamado dos Sepos-Alvos a 440 metros do marco n.º 38. Fica entre o ribeiro deste nome e um seu afluente que alli se une.
Nº 40 - Deve ficar em cima de uma grande pedra no sítio de Meia Martins no alinhamento do marco 37 com o Coto dos Cravos que é o marco 41. Desde o marco 40 ao Coto dos Cravos há 670 metros.
Nº 41 - Marco natural. Rochedos parecidos aos chamados Cotos dos Cravos de que dista 260 metros e também conhecidos por este nome. Ficam quasi no mesmo alinhamento os marcos, 37, 38, 39, 40, 41 e 42.
Nº 42 - Marco natural. Rochedos chamados Coto dos Cravos muito conhecidos na localidade. Dista 260 metros do marco anterior.
Nº 43 - Junto ao caminho que vem de Queguas para Portugal e a 37 metros para o lado reino (direito?) de umas pedras com cruzes feitas há pouco. Do Coto dos Cravos ou marco 42 ao 43 há 49 metros.
Nº 44 - No sítio chamado Curral dos Bezerros. O marco deve assentar em uma lage que está a 500 metros do marco 43 e antes 75 metros de umas pedras que ficam antes do começo da subida do enorme rochedo chamado Penedo Grande.
Nº 45 - Marco natural. Cruz de raia gravada na parte mais alta do Penedo Grande distante aproximadamente uns 250 metros do marco 44.
Nº 46 - Marco natural. É o Penedo do Homem pedra muito conhecida que esta sobposta a uns rochedos não longe da Capella da S.ª da Anaman. Desde este marco até ao 50 que está nos Coutinhos as escabrosidades do terreno não permitiram medir distância alguma.
Nº 47 - Junto ao caminho que vem a Hespanha e vae passar perto da Capella da S.ª da Anaman onde estão gravadas as eras de 1844 e 1845 e fica próximo à margem esquerda do rio de Agro.
Nº 48 - Marco natural. Cruz da raia gravada nos rochedos chamados Escuro Vermelho ou Salgueiros de Cadella Moura depois de atravessar o rio de Agro sobre as alturas da margem direita.
Nº 49 - Marco natural. Na Portella do Agro em uma rocha de onde se vê os rochedos do Escuro Vermelho e os Penedos dos Coutinhos junto a um caminho que vem de Meijoeira para o monte.
Nº 50 - Marco natural. Nos penedos dos Coutinhos junto ao caminho que vae de Meijoeira para o monte. Convencionou-se em declarar commum o citado caminho que desde Meijoeira vae à Portella de Agro sendo, portanto de livre transito para portuguezes e hespanhoes assim como o terreno compreendido entre este caminho e a raia.
Nº 51 - Marco natural. Rochedos chamados Penedo Redondo que dista 240 metros do marco anterior ou Penedo dos Coutinhos.
Nº 52 - No alto do Valle da Torre sobre uma lage que fica a 287 metros do marco 51 e na arriba esquerda do rio Castro.
Nº 53 - Sobre uma rocha a 20 metros da margem esquerda do rio Castro, em frente ao povo portuguez de Mareco que se acha na margem oposta. Este marco esta a 300 metros água abaixo das passadeiras do sítio chamado Porto de Pontes e a 130 metros do marco n.º 52.
Segue depois a fronteira pelo curso dos rios de Castro e Barcias numa distância aproximada de 12 kilometros e segue depois a corrente do Lima ate defronte do marco n.º 54 em uma distância também aproximada de pouco mais de dois kilómetros.“
Extraído de:
Livro da Comissão de Limites entre Portugal e Espanha com a demarcação da fronteira desde o rio Minho até ao Guadiana, conforme o tratado de 29 de Setembro de 1864. (IAN/TT – Gaveta 23, maço 3, n.º 11.)


