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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Um retrato de São Gregório (Cristóval - Melgaço) no início do século XX

 


Em tempos antigos, S. Gregório conheceu uma prosperidade assinalável, cuja economia girava, sobretudo, à volta da atividade comercial, quer pela via legal, quer através do contrabando. No “Jornal de Melgaço”, na sua edição de 15 de Agosto de 1907, podemos ler uma notícia que nos dá um retrato a esta linda terra na época: "S. Gregório, a primeira povoação portugueza cá do extremo norte, apparece ao viajante no fim da estrada real nº 23. É um pequeno largo rodeado de edifícios com bons estabelecimentos commerciaes, uma pharmacia, uma capella, etc., e segue direcção oblíqua descendente, formando itenerariamente, uma rua de, talvez, uns 400 metros, a sua Rua Verde, que vae até à ponte da Várzea, a primeira ponte internacional (de 6 metros de comprimento, 4 de alto e 2 de largo) de que damos a gravura.



Por esta rua se encontram também alguns bons prédios de granito, sobressaindo o do Sr. Dr. José Joaquim de Abreu, e a 15 decámetros da capella depara-se com o bem montado estabelecimento commercial encyclopedico, onde está também a delegação do correio. Mais abaixo a escola do sexo feminino e, lá no fundo, junto á ponte, o posto fiscal.

Pertence S. Gregorio à freguezia de Christoval, que  é phisicamente de terreno accidentado, - desde Cebido, onde o Trancoso tem a sua confluência no Minho, confluência que é o vértice de um ângulo recto, cujos lados, margens esquerdas do Minho e do Trancoso, são seus limites de fronteira - Os seus outeiros, de natureza eruptiva, que a geologia nos diz serem a consolidação pelo resfriamento de massas líquidas que pressões enormes de gazes produzidos pelo calor central impelliam do interior, lá nas remotissimas epochas da formação do globo, e os seus baixos que a decomposição e as águas etc., tornaram aqui ricamente productivos formam na epocha da florescência um panorama belíssimo, como não tem outro o pittoresco Minho. 

Vamos transcrever o que a respeito de S. Gregorio diz «A Nossa Pátria», revista illustrada da vida portugueza:— «Distante de Melgaço cerca de 8 kilómetros, encontra o viajante, que percorra o nosso Minho, a povoação de S. Gregorio, que fica situada no extremo norte de Portugal; e ali depara com bellissimos panoramas que a cada momento se metamorphoseiam, fazendo-lhe lembrar, o serpentear da magnífica estrada e o arvoredo que a ladeia, algumas passagens de Cintra e do Bussaco. 

Chegado a S. Gregório, sente o forasteiro desejo de ver e de passar a pequena ponte internacional, construída de madeira e sustentada, do centro para os lados, por quatro varões de ferro, ponte de que damos hoje a gravura, reproducção de photographia. N'essa gravura figuram dois carabineiros hespanhoes, vendo-se dois guardas fiscaes do lado de Portugal. 

O pequeno rio que estabelece ali a separação da fronteira, e que é berço de apreciadissimas trutas,apesar de durante todo o verão se passar a vau, é o rio «Trancoso», que tem a sua nascente em Portellinha, corre uma extensão total de 18 kilómetros e vae, a um kilómetro ao norte de S. Gregorio, desaguar no rio «Minho».

S. Gregório, que ainda hoje conserva estabelecimentos bem montados, foi uma das povoações, da raia, de maior movimento commercial para Hespanha, tendo contribuído para a sua decadência o progresso da indústria hespanhola e a facilidade de communicação que proporciona o caminho de ferro que liga Vigo com Orense e Monforte,o qual lhe fica fronteiro e data de 1880. 

De S. Gregorio ouvem-se cantar os gallos (sem exagero) em dois reinos, três províncias e três bispados e arcebispados; taes são; dois reinos, Portugal e Hespanha; três províncias; Pontevedra ao norte, Orense ao nascente e Minho ao sul; e bispados de Tuy e Orense e arcebispado de Braga. 

Em S. Gregório há vinhos muito bem trabalhados e de magnifico sabor, devendo especializar-se os do vinicultor Sr. Antonio Augusto de Araujo, que, dedicando-se com todo o afan ao tratamento, é incansável em estudar não só os progressos e aperfeiçoamentos desde a cultura até ao engarrafamento, como também em apresentar vinhos de velha data, que rivalizam com os melhores que apparecem no nosso mercado, pelo seu bom fabrico. Tem também uma marca de género Champagne, que é o mais que se pôde exigir em tal especialiade, segundo o que affirmam os entendedores.

Mas o que por S. Gregório maravilha, opticamente falando, é esse largo horizonte portuguez-hespanhol e todo esse recortado amphitheatro vegetal que se descobre ao passear, sobranceiro ao Minho, pela nossa estrada real até à capella, em construcção, da Senhora de Lourdes e.restringindo mais, no sítio das Portas de Paradella.

Por aqui passou há tempos um illustre viajante e disse que tendo percorrido todas as aleas e canteiros do «Jardim da Europa» jamais encontrara ponto de vista que tanto surprehendesse.

domingo, 26 de outubro de 2025

O estado da estrada de Valença a Melgaço e São Gregório em notícia de “O Comércio do Porto” (1866)

 

Estrada nas proximidades de São Gregório, Melgaço (1911)

 

Em tempos antigos, a via que percorria o vale do Minho entre Caminha e Melgaço e que se prolongava até São Gregório era a designada Estrada Real nº 23. Dizia-se em 1866, que o troço entre Valença e São Gregório se encontrava em muito mau estado e impunha-se o seu melhoramento. A urgência de uma intervenção é tema de uma notícia do jornal portuense “O Comércio do Porto” de 31 de Maio de 1866 onde se pode ler:

Estrada de Valença a S. Gregório - Publicando há tempos uma representação que a Câmara de Valença dirigira ao governo, pedindo a pronta construcção da estrada d’aquella villa a S. Gregório, no concelho de Melgaço, acompanhamo-la das reflexões que o assunto nos suggeriu, secundando a Câmara de Valença na sua justa solicitação. 

No "Diário de Lisboa" de 28 do corrente deparamos com algumas palavras pronunciadas na câmara efetiva pelo Sns. Joaquim Maria Osório, representante do Círculo de Melgaço, por ocasião de apresentar uma proposta relativa à construção da mesma estrada. Julgando essas palavras dignas de trasnscrição, porque veem em reforço do que se tem dito acerca da necessidade de melhoramento alludido, damo-las em seguida, bem como a proposta feita pelo mesmo Snr. Deputado para que se converta em realidade o que os habitantes do concelho de Valença com sobrada razão pedem que lhe seja concedido. 

Cumpre notar, porém, que não é esta a única vez que o Snr. Joaquim maria Osório, advogando os interesses da localidade que representa, tem feito ouvir a sua voz no parlamento a solicitar dos poderes públicos que tenham em consideração as reclamações dos povos de Valença, reclamações sobejamente fundadas n’este ponto, pelo estado de abandono a que se acha votada a comunicação entre aquella vill e a povoação de S. Gregório. 

Na passada sessão de 25 do mez passado, por ocasião de mandar para a meza a representação da Câmara de Valença, que n’este jornal foi transcrita, S. Ex.cia acompanhou-a de algumas reflexões, que muitos deviam influir para o seu diferimento, se a justiça de qualquer causa fosse sempre a melhor recomendação para ser attendida. 

Eis as palavras do illustre deputado: Não posso deixar de chamar à atenção do inteligentíssimo ministro das Obras Públicas para o estado em que infelizmente se acha a estrada de Valença a S. Gregório no concelho de Melgaço. É ele de tal natureza, que o excelentíssimo antecessor de Sua Excelência, o Sr. Conde de Castro, em uma das ocasiões a que aludi a este assunto, nesta casa e daquela mesma cadeira me disse que há quarenta anos, estando Sua Exelência em Melgaço, se tinha contristado de ver o miserável estado desta estrada, já então intransitável.  

Na actualidade, pôde Sua Excelência ajuizar qual será o seu estado, e quais serão os perigos a que se têem sujeitado os habitantes dos concelhos de Valença, Monção e Melgaço, que se vêem na dura precisão de a transitarem. Tornando-se estes perigos muito mais graves nas ocasiões invernosas, em que o rio Minho com as suas cheias a inunda. 

Acresce a este mal os prejuízos que sofrem os proprietários de não poderem levar os seus géneros agrícolas e industriais aos pontos de consumo. 

Não tratarei agora de enumerar os factos lamentáveis que se têem dado naquela estrada, porque não desejo cansar a atenção da câmara e a do nobre ministro. Mas não posso deixar de chamar a atenção de Sua Excelência sobre a quase paralisação em que se acham os trabalhos da estrada dos Arcos a Monção, pelo diminuto pessoal que ultimamente ali se tem empregado. Espero que Sua Excelência dê as providências necessárias para activar a construção desta estrada, e para mandar continuar os trabalhos na direcção de Melgaço, por ser essa a directriz a seguir. 

Também não posso deixar de chamar a atenção do nobre ministro sobre o estado em que se encontra a estrada de Valença a Paredes de Coura. 

A câmara sabe que Coura é um ponto importantíssimo para o comércio, porque é sem duvida o celeiro do Minho, e os proprietários não têem meios alguns de fazerem sair os seus géneros agricolas para consumo, como acontece aos de Melgaço e Monção, do que lhes resulta graves prejuízos. 

Confio que o nobre ministro tomará em consideração estas minhas observações, que são verdadeiras. Leu-se na mesa a seguinte proposta: Proponho que da verba, destinada para as estradas, seja aplicada a quantia necessária para a construção das estradas de Valença a S. Gregorio no concelho de Melgaço, e da de Valença a Paredes de Coura no concelho de Valença. 

O deputado, Joaquim Maria Osorio. 

Enviada á comissão de fazenda.” 

A nova estrada até São Gregório ficaria concluída ainda na década de oitenta do século XIX...


Extraída de: "O Comércio do Porto", edição de 31 de Maio de 1866.

sábado, 11 de novembro de 2023

Fotos de Melgaço nos anos 20 do século passado



Trata-se de um pequeno conjunto de fotografias tiradas em Melgaço há cerca de 100 anos e que nos mostram a muralha do castelo na vila sede do concelho, a Calçada, Fiães ou São Gregório na época...


Alvaredo (Melgaço) ???
Foto de Jorge Marçal da Silva
(Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)


Fiães
Foto de Cassiano Branco
(Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)


Fiães
(Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)



Vista parcial sobre São Gregório
Foto de Jorge Marçal da Silva
(Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)



Vista sobre São Gregório e antiga ponte internacional
Foto de Jorge Marçal da Silva
(Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)


Na antiga ponte internacional de São Gregório
(Frame do filme "Saudades de Portugal", 1929)
Fonte: Cinemateca Portuguesa




Castelo de Melgaço
Foto de Jorge Marçal da Silva
(Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)



Procissão a passar na Calçada
(Frame do filme "Saudades de Portugal", 1929)
Fonte: Cinemateca Portuguesa


Procissão a passar na Calçada
(Frame do filme "Saudades de Portugal", 1929)
Fonte: Cinemateca Portuguesa


sexta-feira, 5 de agosto de 2022

A luta entre a Monarquia e a República nas fronteiras de Melgaço (1911)


 

Após a implantação da República em 5 de Outubro de 1910, os tempos não foram pacíficos. Os monárquicos tentaram, por todos os meios, derrubar o regime republicano. Contudo, os republicanos acabaram, através de uma operação militar, por empurrá-los para o norte do país e daqui para terras galegas. Durante anos, os monárquicos, chefiados pelo General Paiva Couceiro, reagruparam-se na Galiza, junto à fronteira do Minho e Trás-os-Montes, tentando organizar incursões militares em território português com o objetivo de voltar a implantar a Monarquia no nosso país. 

No jornal bracarense “Commercio do Minho”, na sua edição de 24 de Outubro de 1911, fala-se na presença de combatentes monárquicos (na notícia, são apelidados de “conspiradores”) perto das fronteira de Melgaço e que tinham sido enviadas para cá tropas:

“Conspiradores desarmados e dispersos 

Montalegre, 20 - As forças militares hespanholas desarmaram, na povoação de Sampaio de Araújo, nas faldas do Gerez, 380 conspiradores que alli se encontravam. Alguns não puderam ser desarmados por terem fugido. 

Madrid, 20 - Canalejos confirmou que a Guarda Civil, após uma balida de 36 horas, dissolveu uma coluna do Paiva Couceiro, apprendendo muitas armas.  

Alguns conspiradores internaram-se em Portugal. O governador respectivo telegraphou dizendo que somente ficaram em Verin sete portuguezes enfermos. 

Gerez, 20 - As autoridades hespanholas fizeram dispersar os conspiradores em Sampaio e Lóbios. Paiva Couceiro fugiu em automóvel. 

 

Situação dos conspiradores 

Viana do Castello, 21 - Notícias oficiais e particulares de Melgaço informam ter ontem, perto da noite, chegado às povoações hespanholas de Padrenda e Crespos, um bando de cerca de 280 conspiradores armados, ficando acampados à distância de dois kilómetros do posto fiscal de S. Gregório na raia secca, com o objectivo de fazerem uma incursão na madrugada.  

Foram tomadas todas as precauções e avisadas as autoridades militares, mandando-se imediatamente reforçar os postos da Guarda Fiscal, ficando sem efeito o regresso ao seu quartel da força de Infantaria 3 da guarnição do Monsão. 

Uma força da Guarda Fiscal, Marinha e voluntários, guardaram durante a noite o telegrapho e repartições públicas da villa de Melgaço. 

A coluna de Marinha conserva-se ainda em Valença, esperando reforço de metralhadoras e bem assim ordem de avanço. 

Até agora não consta quo os conspiradores tenham feito qualquer tentativa de avanço, conservando-se nas suas posições.  

As nossas patrulhas vigiam os movimentos dos conspiradores. Por enquanto o sossego é completo em todo o districto. 

Viana do Castello, 21 - Chegam notícias de que parte dos conspiradores, acampados em Crespos, tomaram hoje o comboio da manhã, da estação da Frieira, com destino ignorado. Para Melgaço partiram emissários para conhecer as povoações. 

Noticias oficiaes da Galliza confirmam o desarmamento de diferentes grupos, em número superior a 600, aprehendendo a cavalaria munições, armamento, trens, etc.  

Às cinco horas da tarde passou aqui um comboio especial conduzindo para Valença um esquadrão da Cavalaria 9, que seguiu logo para Melgaço.  

A coluna de Marinha da Valença destacou já para Monsão, 80 praças devidamente comandadas, afim de conjuntamente com a infantaria constituir a defesa no Alto Minho. 

Vianna do Castello, 21 - Confirma-se oficialmente a dispersão dos conspiradores que estavam em frente de S. Gregório, ignorando-se as localidades onde acamparam e o destino que levaram.  

Por informações ali colhidas por pessoa de confiança, sabe-se que uns seis tomaram o comboio para Tuy ou Nieves, entre os quaes iam dois tenentes-comandantes do referido bando de conspiradores, sendo um d’elles o ex-tenente de Caçadores 3, Virgílio da Silva.  

Há tranquilidade geral.”

Apenas iriam ocorrer incursões de monárquicos nas fronteiras de Trás-os-Montes. Em Melgaço, tais incursões nunca aconteceram... Os monárquicos tentaram, em 1919, estabelecer a chamada Monarquia do Norte na cidade do Porto, regime prontamente esmagado pelos republicanos. O general Paiva Couceiro viria a ser capturado em 1939 quando se preparava para passar a fronteira de Arbo para Melgaço.