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sexta-feira, 30 de março de 2018

As apreensões de contrabando em Melgaço nos jornais de há mais de 100 anos atrás


Antiga Ponte Internacional de S. Gregório sobre o rio Trancoso (1903)

Os estudos sobre o fenómeno do contrabando nas fronteiras de Melgaço são muito concentrados no período histórico respeitante ao Estado Novo. Contudo, o contrabando nesta região é tão antigo como a definição das fronteiras há muitos séculos atrás, apesar de as fronteiras melgacense estarem muito bem guardadas, sobretudo desde meados do século XIX.
Pela leitura dos jornais melgacenses de finais do século XIX e início do século XX, ficamos a saber que o fenómeno estava bem vivo e os periódicos locais, regularmente, publicavam notícias sobre as apreensões realizadas por cada posto da Guarda Fiscal. É curioso que as mercadorias apreendidas com mais frequência eram tecidos de lã e algodão, açucar, tabaco e azeite.
Partilho com vocês dois recortes de jornais melgacenses da época que nos relatam apreensões de contrabando pelas autoridades em vários pontos de Melgaço. O primeiro recorte foi extraído do jornal de Melgaço “A Espada do Norte”, da sua edição de 29 de Dezembro de 1892 e fala-nos de:
“Apprehensões
Eis aqui as apprehensões realisadas nos diferentes postos d’esta secção durante o mez corrente:
Pelas praças do posto de Pousafolles, foram apprehendidas diferentes fazendas de lã e algodão, no valor de 10 000 réis.
Pelas mesmas praças, 200 grama de tabaco em charutos, no valor de 900 réis.
Pelas praças do posto fiscal de S. Gregório, differentes géneros alimentícios  algumas fazendas de lã e algodão, no valor de 3130 réis.
Pelas praças da columna volante, azeite, assucar e algumas fazendas de algodão, no valor de 3000 réis.
Pelas praças do posto de Cevido, differentes fazendas de lã e algodão, azeite e assucar, tudo no valor de 5000 réis.
Pelas praças do posto de de S. Martinho, 2 chailes d’algodão, azeite, arroz, assucar e tabaco, tudo no valor de 10100 réis.
Pelos 2 polícias fiscaes, em serviço n’esta vila, foi apprehendido 1 kilo de tabaco, no valor de 4500 réis.”

extraído do jornal "A Espada do Norte", edição de 29 de Dezembro de 1892

Folheando o jornal “Correio de Melgaço”, na sua edição de 28 de Julho de 1912, podemos ler acerca de mais apreensões de contrabando feitas pela guarda fiscal e não só. A notíci diz o seguinte:
“No dia 23, os soldados da guarda fiscal, João Luiz Lourenço, José Albano Domingues, Manuel Esteves Pinto, Manoel de Faria e os agentes da Companhia dos Tabacos, apreenderam a Bento Domingues, do lugar das Bouças, de Alvaredo, um revolver espanhol, uma camisola e algum tabaco, pelo que teve que pagar 16$400 réis de multa.
No mesmo dia, pelas 21 horas, os empregados acima referidos, apreenderam a Manoel Martins e Manoel Inácio, do mesmo lugar e freguesia, diversos tecidos de lã e algodão, no valor de 6$060 réis, tendo de pagar 27$5755 réis de multa.
No dia 26, os guardas do posto fiscal de Alcobaça, apreenderam a Rosa Domingues, diversos retalos de tecidos de algodão, azeite e arroz, no valor de 2$500 réis, pelo que pagou 9$590 réis de direitos e multa”

extraído do jornal "Correio de Melgaço", edição de 28 de Julho de 1912

sexta-feira, 16 de março de 2018

Estórias antigas do contrabando do café em Melgaço


O contrabando do café e de outras mercadorias em que a Espanha franquista era deficitária mobilizou um número significativo de pessoas em Melgaço e noutros municípios raianos do Minho que fizeram da região uma complexa base logística de contrabando de algumas mercadorias que asseguravam uma alta rentabilidade. Esta prática minorou as dificuldades na subsistência de muitas famílias de ambos os lados da fronteira. Contudo, muitas das famílias dos contrabandistas ficaram marcadas pela repressão e a cadeia…
Em http://iasousa.blogs.sapo.pt/87445.html encontramos um extrato de testemunhos orais de quem vivenciou a atividade do contrabando do café: “O Sr. António Cândido Rodrigues, natural de Chaviães, morador na Vila, mais conhecido por “Toninho do Talho” diz que começou no contrabando quando tinha 12 anos (1947).
 As fronteiras estavam controladas através dos postos, cada qual com a sua área demarcada “…a minha área era entre o posto de “Portovivo”, em Chaviães e o de Paços, ambos junto ao rio…comprava o café na Loja Nova ao Manuel da Garagem e transportava-o na carroça do “Ronho” e tentava “filtrá-lo” pelos postos … passava o café numa batela pelo rio…ao chegar ao lado espanhol também tentávamos esquivar-nos aos carabineiros … depois da guerra era o café, o sabão, o azeite, o açúcar que iam para Espanha…”.
No tempo do café o Sr. António recorda “…tinha um sócio e no posto de “Portavigo” um guarda apanhou-me 10 embalagens de café Sical…ele queria uma importância para deixar a mercadoria … eu disse-lhe que essa mercadoria não era só minha e pedi-lhe para deixar passar essa que mais tarde passaria com outra e já lhe deixaria ficar alguma coisa…era o passares…eu sabia que no outro dia esse guarda iria ser transferido para o posto de Cevide…nós sabíamos de tudo…vigiávamos constantemente os guardas…
Frequentemente, sobretudo os pequenos contrabandistas, eram apanhados pelas autoridades, quer do lado português, quer do lado espanhol. Normalmente, o facto de uma pessoa ser apanhada não significava que deixasse de praticar o contrabando. Dando uma olhadela pelos jornal galegos de época, podemos observar noticiadas várias situações de prisão de melgacenses e apreensões de mercadorias de contrabando dos dois lados da fronteira.  Nas duas notícias que aqui apresento, podemos ver que um tal David Teixeira, melgacense que era taxista em 1971 e por isso circulava com frequência entre os dois lados da fronteira, foi apanhado nas malhas do contrabando do café pelo menos duas vezes, sempre do lado galego. Numa das apreensões, o volume da mercadoria ascendia a duas toneladas e meia. As notícias distam no tempo cerca de 19 anos sendo que a mais antiga refere-se a acontecimentos de 13 de Março de 1952:
“Pontevedra - Em la parroquia de Cequeliños, del Ayuntamento de Arbo, fueron sorprendidos los vecinos de la misma, Manuel Garcia Estévez y Valentin Gonzalez Fernandez, que com otros sujeitos, al parecer portugueses, que se dieron a la fuga, transportaban  558 kilogramas de café, que habian introducido procedente de Portugal por el rio Miño. De las gestiones practicadas por las autoridades parece deducirse era propriedad de David Teixeira, vecino de Melgazo (Portugal).”

(Jornal “La Noche”, edição de 13 de Março de 1952)

Dezanove anos mais tarde, mais concretamente em 1971, o mesmo Sr. David Teixeira é notícia pelo mesmo motivo, ou seja, por ter sido apanhado na Galiza com café de contrabando proveniente de Portugal:

“Café de contrabando
José Fernández Fernández, de 54 anos, vecino de San Cristóval - Monterrey, fue sorprendido por fuerzas de vigilancia fiscal del puesto de Cualedro, que cuando se disponia a trasladar a su domicilio 60 kilos de café tostado de procedência portuguesa que instantes antes habia comprado a un desconocido. La mercancia, valorada em 6000 pesetas quedó a disposición del Tribunal Provincial de Contrabando.
También fueron intervenidos otros 12 kilos de café tostado por fuerzas de la Guardia Civil de Cortegada, que David Teixeira, vecino de Melgazo - Portugal, taxista, transportaba debajo de los asientos de su vehiculo MO-53-73. La mercancia, valorada en 1200 pesetas quedó a disposicion de la autoridad competente.”

(Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971)


Fontes consultadas:
- Jornal “La Noche”, edição de 13 de Março de 1952;
- Jornal “El Pueblo Gallego”, edição de 1 de Abril de 1971.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O "Nacho" de Cristóval (Melgaço) e o Guarda Fiscal" (1905)

Cristoval (Melgaço)
Fonte: http://coxo-melgaco.blogspot.pt

As fronteiras de Melgaço são, desde sempre, um espaço onde abundou o contrabando e a emigração ilegal. A Guarda Fiscal era a autoridade encarregue de controlar o trânsito de pessoas e mercadorias ao longo da linha de fronteira.
No “Jornal de Melgaço” de 19 de Outubro de 1905, encontrámos uma notícia que nos fala de um episódio de aparente abuso da autoridade por parte de um guarda fiscal passada uns dias antes para as bandas de Cristóval. A vítima foi um homem conhecido como o “Nacho” de Cristóval, deste concelho. A notícia diz-nos o seguinte:

“Façanhas da Guarda Fiscal
Mais uma façanha praticada pela Guarda Fiscal de que resultou um homem ferido com uma bala de revólver, pôs em sobressalto parte da freguesia de Cristóval, de este concelho. Eis o caso: No sábado passado, 14 do corrente, às 11 horas da manhã, vinha da Galiza o inofensivo José Fernandes, o “Nacho”, do lugar da Porta, da freguesia de Cristóval, sendo portador de uma saca cujo conteúdo eram duas garrafas de azeite e 40 réis de sabão, de procedência espanhola. Próximo do lugar do Regueiro, da mesma freguesia, surpreendeu-o o Guarda Fiscal José A. Esteves, vestido à paisana, que lhe apreendeu os objetos descaminhados aos direitos e prendeu o condutor.
Seguiram ambos até ao portão da propriedade do Sr. Daniel José Rodrigues, e o “Nacho”, vendo ali um belo refúgio, tentou evadir-se, o que pôde conseguir, chegando a transpor o referido portão e ali, ambos engalfinhados, esforçavam-se por ver coroados de bom êxito os seus desejos.
O guarda, julgando-se impotente para arratar o “Nacho” para fora do portão, intimou-o a sair, e, como este se recusasse, puxou por um revólver e disparou contra o pobre “Nacho”, indo a bala atravessar-lhe a coxa da perna esquerda.
Nesta conjuntura, o guarda, vendo aproximar alguns artistas que trabalhavam na propriedade citada, pôs-se em fuga, sendo perseguido por alguns artistas que pretendiam prendê-lo.
O ferido foi conduzido para sua casa, onde está em tratamento.
São estas as informações que podemos colher, de que nos abstemos de fazer comentários, não nos inibindo de voltar ao assunto.
Pedem-se enérgicas providências e o mais severo cumprimento da lei contra selvajarias desta natureza.”


Notícia extraída de: Jornal "Jornal de Melgaço, edição de 19 de Outubro de 1905.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Assalto à Guarda Fiscal da Ameixoeira (Castro Laboreiro) e a prisão do "Leão das Montanhas" (1912)


Nos tempos a seguir à implantação da República, o ambiente nas fronteiras de Melgaço é muito tenso. Fala-se da presença de guerrilheiros portugueses afetos à causa monárquica refugiados na Galiza. Estes estariam a preparar uma incursão em Portugal com o objetivo de voltar a implantar a monarquia. No meio destes acontecimentos, um grupo de monárquicos assaltou o posto da Guarda Fiscal da Ameixoeira (Castro Laboreiro) roubando armamento e munições e fugiram de seguida para Espanha. Supostamente, na sequência deste episódio, o professor de instrução primária da escola de Castro Laboreiro, Mathias de Souza Lobato, mais conhecido como o ”Leão das Montanhas” é acusado de ter exibido uma bandeira monárquica e logo é preso e suspenso da profissão docente.
Encontramos em imprensa da época, notícias que nos contam estes factos.   No Jornal do Brasil, na sua edição de 30 de Abril de 1912, fala-nos do assalto ao posto da Ameixoeira nestes termos: “Comunicam de Monção que uma guerrilha de conspiradores portugueses assaltou o posto fiscal de Ameixoeira, em Castro Laboreiro. Perseguida pelas forças republicanas, a guerrilha internou-se em Espanha.”
No mesmo jornal, na sua edição do dia seguinte, 1 de Maio de 1912, fala-nos com mais pormenor destes factos:
“A situação em Portugal
Os monárquicos fazem uma incursão e apoderam-se de grande material de guerra dos republicanos. Os monárquicos emigrados na Espanha fizeram agora uma incursão que tem sido motivo para muitíssimos boatos.
O Capitão Conceição Mascarenhas e o Coronel Almeida Fragoso, das forças republicanas que estavam na Ameixoeira comunicaram ao Governo que cinquenta conspiradores assaltaram o posto fiscal da Ameixoera, carregando todo o material de guerra que encontraram e que um professor arvorou a bandeira monárquica.
Desse ponto da fronteira chegam certas notícias importantes sobre esta sortida dos monárquicos cuja ousadia está sendo muito comentada.
O Ministro da Guerra, entrevistado por um redator de “A Capital”, sobre a invasão feita pelos monárquicos, que levaram todo o material de guerra que encontraram em Ameixoeira, sem que a força ali destacada pudesse impedir ou resistir com energia ao assalto, declarou que tal tentativa não tinha importância e que atribuia esse assalto ao posto fiscal a um pretexto para distrair a atenção das forças republicanas de qualquer golpe que os monárquicos pensam dar.
Acrescentou o Ministro que as últimas notícias recebidas da fronteira dizem haver ali completo sossego.
Foi preso o Comendador Mathias Lobato, professor oficial, por ser acusado de estar conivente com a incursão dos monárquiscos na Ameixoeira. O Comendador Lobato reside em Castro Laboreiro.”
Como atrás é referido, além de ser preso o ilustre professor de instrução primária da escola de Castro Laboreiro, Mathias Lobato, foi suspenso da sua atividade docente por despacho publicado no Diário do Governo em 2 de Maio de 1912 como aqui se comprova:


(extrato do Diário de Governo de 2 de Maio de 1912)

Contudo, este episódio que envolve o professor Mathias parece tratar-se apenas de uma falsa acusação num tempo de desenfreada guerrilha política. Desta forma, no Diário do Governo de 17 de Maio de 1912, é publicado o levantamento da suspensão sendo o professor ressarcido de todos os vencimentos cativados. 

(extrato do Diário do Governo de 17 de Maio de 1912)

O levantamento da suspensão ao Comendador Mathias Lobato seria noticiado também na imprensa. O jornal brasileiro “O Paiz”, na sua edição de 6 de Junho de 1912 conta-nos que “O professor de Castro Laboreiro, o célebre Mathias, sempre estava inocente, como “O Século” o disse pela boca de um seu correspondente. Dessa inocência também se inteirou o Governo que lhe levantou a suspensão e lhe mandou abonar os dias em que esteve suspenso.”
O professor Mathias era, provavelmente, a pessoa mais respeitada em Castro Laboreiro na época mas tinha atividade política e como tal muitos inimigos. Se lermos os jornal melgacenses da época, poderemos compreender que esta época são tempos de intensas lutas políticas mesmo em meios como Melgaço. Valia tudo!... Até intoxicar a imprensa com factos alternativos...



Fontes consultadas:
- Diário do Governo, de 1 de Maio de 1912;
- Diário do Governo, de 17 de Maio de 1912:
- Jornal “O Paiz”, edição de 6 de Junho de 1912;
- Jornal “Jornal do Brasil”, edição de 30 de Abril de 1912;
- Jornal “Jornal de Brasil”, edição de 1 de Maio de 1912.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço em fotos dos anos 50

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço e Torre de menagem (anos 50)

Neste edifício, funcionou durante muito tempo o quartel da Guarda Fiscal. Veja um conjunto de fotografias tiradas em meados da década de 50 do século passado, numa altura em que foi alvo de obras de requalificação. Atualmente, funciona neste edifício o Museu do Cinema do nosso concelho, desde 2005.

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)


Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (atual Museu do Cinema)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Histórias do tempo do contrabando em Melgaço

O contrabando no rio Minho

As memórias do contrabando costumas encantar-nos com narrativas que parecem  retiradas de romances picarescos: as mil e uma artes de ludibriar as autoridades, as reações de esperteza face a desafios imprevistos, a passagem de camiões desmontados nas pequenas embarcações do rio Minho, as solidariedades espontâneas ou as bizarrias de um companheiro. Mas existe uma outra face que espreita por entre estas palavras. O contrabando implicava uma vida de risco, de esforço e de sacrifício. As cargas eram pesadas e mal jeitosas. Uns não se davam bem com o sabão, outros com a chapa, outros com os couros, outros com a amêndoa, outros, ainda, com a tripa. Os sustos de outrora ainda agora arrepiam: uma turbulência no rio escuro ou a intercepção brusca de um agente da PIDE. Apesar da boa organização e do estreito entendimento com as autoridades, não deixava de haver apreensões, multas, dívidas, humilhações, perseguições, prisões, e, até mortes. Mulheres foram encarceradas em cadeias tão distantes como a de Orense. As mortes no rio Minho, às mãos da natureza ou das autoridades, portuguesas ou espanholas, não eram raras. Atente-se na notícia que segue, publicada na década de 1950 num jornal de Melgaço:
“Aparecimento de cadáver – Em 27 do mês findo, apareceu na Valinha, a boiar nas águas do rio Minho, o cadáver de José Fernandes, mais conhecido pelo “Zé do Diabo”, de Penso, que uns quinze dias antes, quando pretendia passar uma pequena porção de café para a Galiza, foi abatido a tiro pelos carabineiros”
Uma entre muitas tragédias. Por exemplo, dois jovens foram mortos a tiro, vítimas, segundo testemunhos, de uma denúncia que os descreveu, ao arrepio da verdade, como perigosos e armados. As denúncias, as ganâncias, os conflitos e as rivalidades também eram fruta da época. Acrescente-se que havia quem se sentisse, direta ou indiretamente, prejudicado nos seus negócios, por sinal legais, com os efeitos do contrabando. A memória desses tempos tem sombras.

O contrabando é uma atividade oportunista que tira partido das vicissitudes da fronteira. Constitui, portanto, um fenómeno bastante instável. Depende do muito que acontece, perto e longe, em Espanha, em Portugal e na relação entre os dois países. O mundo do contrabando é feito de mudança. Em poucos anos, sofre transformações radicais. Ora é mais num sentido, ora se inverte. Um dado produto, como o azeite, ora vai, ora vem. Tal produto ora dá, ora deixa de dar, ora volta a dar. Uma fase, como o do gado, sucede a outra, como a do café. Entretanto, os locais privilegiados de passagem deslocam-se do rio Minho para a raia seca. As vacas, antes “cordeadas” através do rio, caminham, agora, pelos planaltos. Num canto, fecham-se as pequenas lojas, no outro, proliferam as garagens para estacionamento de gado. Mudam os próprios protagonistas: os “patrões” , os “lugar-tenentes”, os “transportadores”, os fornecedores e os clientes deixam de ser os mesmos.
O balanço dos efeitos do contrabando suscita um consenso bastante alargado. Apesar de lucrativo, o negócio do contrabando gerou poucas riquezas. E estas, tal como os filhos, acorreram às cidades e às áreas metropolitanas. O investimento produtivo local resultou deveras escasso. O contrabando não sustentou a descolagem do desenvolvimento económico local, mas garantiu a sobrevivência condigna a uma população ameaçada pela miséria.
Esta espécie de balanço global não deve, no entanto, menosprezar o impacto local do contrabando. Basta percorrer a paisagem para o sentir. Antes da quebra recente, vários “oásis” do contrabando, como S. Gregório (na freguesia de Cristóval), eram animados por um rodopio de pessoas em busca de algum negócio ou de alguma oportunidade. Entretanto, a azáfama desertou, os comércios fecham, as propriedades vendem-se e a população diminui. 
Convém não dissociar o contrabando da emigração. Por um lado, como reparou um entrevistado, “mal o contrabando dava sinais de esmorecer, logo a emigração recrudescia. Todos os dias, partia alguém”.  Por outro lado, o contrabando, tal como a febre do volfrâmio, preparou o terreno para o surto emigratório dos anos 1950 e 1960. Ambos contribuíram para retirar parte da população da rotina do trabalho agrícola. Independentemente desta ou daquela lufada de prosperidade, ambos acalentaram ambições, abriram expetativas e alargaram horizontes. Uma vez dado o passo, ninguém concebia regressar ao antigamente. O volfrâmio e o contrabando propiciaram, também, vivências, conhecimentos e relações passíveis de mobilização noutros contextos e noutras paragens.. Proporcionou-se, em suma, um sentimento de inquietude com asas de esperança, umas das molas mais decisivas da emigração. Não é, certamente, por acaso que Melgaço primou, ao nível do país, tanto pelo contrabando como pela emigração. E, cada um a seu modo, ambos semearam a realidade atual. 

Extraído de: GONÇALVES, Albertino (ano de publicação desconhecido) - Caminhos de inquietude: A organização do contrabando no concelho de Melgaço. O Miño, uma corrente de memória.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Histórias do contrabando em Melgaço noutro tempo

Perto do Peso (Melgaço), à beira Minho, noutro tempo

Desde que há memória, o contrabando sempre constituiu, a par da emigração, uma das atividades económicas mais importantes da população de Melgaço. Mobilizou todo o tipo de pessoas: carenciados e remediados, homens e mulheres, adultos e crianças. Alguns mulheres ocuparam lugares destacados nas redes do contrabando e da emigração. E alguns dos processos mais volumosos arquivados no Tribunal da Comarca de Melgaço dizem-lhe respeito. Muitas entregavam-se ao pequeno contrabando, por conta própria, de ovos, galinhas, café e outras mercadorias. Recorriam, inclusivamente, a pelas de vestuário adaptadas para disfarçar o transporte.
Quanto à participação das crianças, os próprios professores se queixavam das faltas às aulas por motivo de trabalho no contrabando. O seguinte ofício, de 2 de Junho de 1941, dirigido ao Diretor do Distrito Escolar de Viana, é, a este propósito, deveres elucidativo:
“Tenho a honra de comunicar a V. Exa. que, como o demonstra o mapa mensal referente a Maio, a frequência média da 3ª classe desceu de 33, em Abril, para 27. A causa desta anormalidade filia-se na razão de os pais de muitas crianças os mandarem para a “Frota” – nome por que é conhecido o contrabando de ovos e sabão para a Espanha. Tenho empregado os maiores esforços desde o pedido servil até à intimidação, mas como os lucros são fabulosos – uma criança chega a ganhar por dia 30 e 40$00, e a miséria é grande, nada tenho conseguido. Sei que não é esta escola a única a sentir estes perniciosos efeitos do contrabando, pois o mal é geral.”
Nos picos do contrabando, todos os braços eram, efetivamente, poucos. Os homens acorriam de longe, desciam as montanhas para locais como o Peso, face a Arbo, onde ficavam à espera da próxima carga ou descarga, normalmente noturna, para ganhar algumas “senhas”. Era, de facto, costume os transportadores receberem senhas em função das cargas, senhas que eram trocadas, nos dias seguintes, por dinheiro.
Melgaço é um dos concelhos portugueses com maior proporção de fronteira: três quintos do território confinam com a Galiza, num percurso que se estende por 61 Km’s: 22 Km’s de fronteira terrestre e 39 de fronteira (incluíndo os 19 Km’s correspondentes ao rio Minho). O traçado e a extensão da linha de fronteira, associados à intensidade e à diversidade do contrabando e da emigração clandestina, justificam que Melgaço tivesse a maior secção da Guarda Fiscal de todo o Vale do Minho. Em 1961, serviam, neste concelho, 2 sargentos, 16 cabos e 74 soldados distribuídos por 17 postos.
Neste contexto, o contrabando, para ser bem sucedido, carecia de boa organização. Havia vários patrões do contrabando. Alguns juntavam-se constituíndo uma espécie de consórcios, como, por exemplo, o do “Eixo” composto por meia dúzia de “patrões”. Havia os lugar-tenentes, homens de confiança que se distinguiam tanto pela sua capacidade como pela sua lealdade, os capatazes, os condutores, os bateleiros, os transportadores, os informadores... Mais os fornecedores, os intermediários e os clientes. Para além dos recursos humanos, eram ainda necessários meios logísticos: barcos, carros e camiões, para o transporte; meios de comunicação (por exemplo, radiotransmissores); armazéns e esconderijos (visíveis em muitas casas construídas nos anos de 1950 e 1960). Algum investimento em negócios de fachada também era conveniente para encobrir e branquear a atividade do contrabando. Tão pouco podiam  faltar os meios financeiros. A candonga e o mercado negro atingiram dimensões extraordinárias. Multiplicaram-se os postos de câmbios. Devido à emigração e ao contrabando, Melgaço desfrutava, em 1975, de uma das melhores coberturas bancárias de todo o país.
Tamanha complexidade não impedia que as redes do contrabando fossem ágeis e flexíveis, capazes de responder, de imediato e sem falhas, às urgências e pressões do momento: um carregamento imprevisto, uma alteração do plantão da guarda, uma troca de itinerário ou a trasladação da mercadoria de um armazém para outro ditada por uma ameaça de busca...
De qualquer modo, dois ingredientes permaneciam cruciais para o sucesso do contrabando: a confiança recíproca e o saber prático. Interdependentes, os “trabalhadores do contrabando” tinham de confiar uns nos outros, fosse qual fosse o lado da fronteira. Era um jogo muito sério em que competia a cada um (chefe, fornecedor, cliente, transportador, informador e, até, o vizinho) comportar-se segundo as expetativas, ou seja, em conformidade com os seus compromissos e as suas responsabilidades. Caso contrário, a cadeia rompia-se, e, sem ela, pouco ou nada se conseguiria, É certo que, aqui e além, sobrevinham pequenos abusos e algumas picardias. Contam-se, por exemplo, histórias de águas nos odres de azeite e de excesso de peso nas amêndoas humedecidas. Nada, porém, que ultrapassasse os limites ou fizesse perigar a continuidade do negócio.
O saber prático, transmitido de geração em geração ou conquistado pela experiência, orientava, por sua vez, as decisões e as ações quotidianas, referindo-se aos produtos, ao rio, à metereologia, aos trilhos, aos animais (evitar, por exemplo, o ladrar dos cães) e às pessoas. Saberes que davam azo a uma linguagem própria. Toda esta panóplia de recursos, de posturas e de saberes de pouco serviria sem a conivência das autoridades. Importava assegurar e custear a sua cumplicidade. Cobravam à carga ou, mais raro, ao mês. Era, assim, normal a peregrinação de guardas fiscais pelas casas dos “contribuintes” ou, então, a sua presença, discreta mas vigilante, durante o despacho “contabilizado” das cargas. Nem todos os guardas aceitavam colaborar. Dos mais renitentes se ocupavam os próprios colegas. Nas rondas, sempre aos pares, um vigiava o outro. Na primeira ocasião, eram destacados para postos, como, por exemplo, o da Ameixoeira, em Castro Laboreiro, onde o incómodo resultava menor.
Mas o transporte das mercadorias não se confinava à linha da fronteira. Alguns produtos vinham de Lisboa e destinavam-se a Madrid. As pessoas abasteciam-se de ovos nas feiras de Ponte de Lima. Os fornecedores do café estavam sediados em Braga, no Porto e em Lisboa. Por detrás do ouro e da prata, estavam bancos nacionais. Os fios da rede era de ta ordem que, segundo consta, houve períodos  em que o comboio parava ou abrandava antes de chegar às estações, como, por exemplo, a da Frieira, para receber ou largar mercadoria. A simples consulta de processos arquivados nos tribunais, minuciosamente instruídos pela PIDE, elucida-nos sobre quão extensas e labirínticas podiam ser as malhas do contrabando e da emigração clandestina. Boa parte das apreensões de contrabando não era feita nas imediações da fronteira mas nas estradas que ligavam ao Porto ou a Vigo. Era por isso, imperativo “trabalhar” as autoridades a montante e a jusante.

Os ganhos dos pequenos contrabandistas não davam para conquistar as boas graças das autoridades. Sobre eles incidia, precisamente, o seu zelo. Não lhes perdoavam uma galinha e por uma bagatela eram autuados. Mesmo assim, num ou noutro ano, o volume das apreensões não bastava para mostrara serviço às instâncias superiores. Nestas circunstâncias, a fazer fé em vários testemunhos, os principais contrabandistas chegaram a quotizar-se cedendo as mercadorias necessárias para que a “colheita” dos guardas locais conseguisse encher ou tapar os olhos às administrações centrais.

Extraído de: GONÇALVES, Albertino (ano desconhecido) - Caminhos de inquietude: A organização do contrabando no concelho de Melgaço. O Miño, uma corrente de memória.