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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O "Leão das Montanhas" (1859-1920): "Der Schulmeister von Castro Laboreiro"




Der Schulmeister von Castro Laboreiro” é o título de um inesperado mas muito interessante artigo de um jornal americano acerca de uma das personalidades melgacenses mais marcantes de finais do século XIX e início do século XX, conhecida na época como o “Leão das Montanhas”.
O professor Mathias de Sousa Lobato, nascido em Alvaredo em 1859 em Alvaredo e falecido na vila de Melgaço em 1920, dedicou boa parte da sua vida às gentes de Castro Laboreiro. Foi, durante décadas, professor de instrução primária e presidente da Junta da Paróquia de Castro Laboreiro o que lhe valeu uma enorme estima e gratidão pelas gentes castrejas, talvez só comparadas às que as gentes de Crasto tinham pelo Padre Aníbal em tempos mais recentes. O carisma e a singularidade da personalidade do professor Mathias foram assunto para um curioso artigo no jornal norte-americano “Der Deutsche Correspondent”, periódico da cidade americana de Baltimore escrito em língua alemã para imigrantes germânicos, na sua edição de 8 de Setembro de 1912.
No artigo, são citados alguns factos ocorridos em Castro Laboreiro na época. Em 1912, o Posto da Guarda Fiscal da Ameijoeira foi assaltado, alegadamente, por um grupo de homens afetos à causa monárquica, tendo roubado armas e munições e de seguida, fugiram para Espanha. Nessa altura, em Castro Laboreiro, o ilustre Professor de instrução primária Mathias de Souza Lobato, conhecido na época como o “Leão das Montanhas”, é acusado de exibir uma bandeira monárquica e ter dados vivas à Monarquia. Foi suspenso de funções e preso.
No artigo pode ler-se:

Der Schulmeister von Castro Laboreiro

O professor de Castro Laboreiro foi preso por ter “içado” a bandeira monárquica. Dom Mathias é um gigante na sua estatura. Sobre as pernas relativamente curtas, mas robustas, assenta um vigoroso tronco sobre o qual se ergue um poderoso crânio. O rosto emoldurado por uma barba negra e selvagem poderia parecer assustador, se não fosse o seu nariz avermelhado e brilhante, e dois olhos pequeninos de quem bebe, denunciam que nesse corpo de gigante vive a alma duma criança. E tal como sua aparência é a sua atitude.
A potente voz e os gestos de herói de comédia conta piadas e faz pequenas brincadeiras inofensivas, tão inofensivas como a sua vida de professor de aldeia, que, pelo mora a pelo menos 60 km de qualquer cultura, e acorda numa espécie de casa entre um monte de rochas. Só quando houve conversas sobre política, o meu anfitrião acorda para a vida plena. Afirma orgulhosamente que possui duas ou até três ordens (comendas), que já foi visitado por ministros na sua casa e que sempre permaneceu o modesto professor da aldeia, embora pudesse, é claro, ter tido cargos muito mais lucrativos. Mas o seu povo, os aldeões incultos, são-lhe tão queridos que ele apenas planeia deixar aquele lugar quando tiver que ir “desta para melhor”.
Agora, claro, por enquanto terá que trocar as suas montanhas agrestes pela prisão no Porto porque a convicção republicana que mostrou em 5 de Outubro de 1910, não era genuína, e que para seu mal se desmascarou quando um bandido gritou "Viva a monarquia".
Agora ele pode citar a donzela de Orleans e exclamar com o seu gesto altaneiro "Adeus, montanhas …".
O professor Mathias foi absolvido destes alegados factos e foi-lhe levantada a suspensão da atividade docente.


Artigo original (clique para ampliar)




Tradução do artigo da autoria de Ramona Fritz e Conceição Coimbra.
Nota - Um grande obrigado à amiga Teresa Lobato.



sexta-feira, 24 de março de 2017

O Assalto à Guarda Fiscal da Ameixoeira (Castro Laboreiro) e a prisão do "Leão das Montanhas" (1912)


Nos tempos a seguir à implantação da República, o ambiente nas fronteiras de Melgaço é muito tenso. Fala-se da presença de guerrilheiros portugueses afetos à causa monárquica refugiados na Galiza. Estes estariam a preparar uma incursão em Portugal com o objetivo de voltar a implantar a monarquia. No meio destes acontecimentos, um grupo de monárquicos assaltou o posto da Guarda Fiscal da Ameixoeira (Castro Laboreiro) roubando armamento e munições e fugiram de seguida para Espanha. Supostamente, na sequência deste episódio, o professor de instrução primária da escola de Castro Laboreiro, Mathias de Souza Lobato, mais conhecido como o ”Leão das Montanhas” é acusado de ter exibido uma bandeira monárquica e logo é preso e suspenso da profissão docente.
Encontramos em imprensa da época, notícias que nos contam estes factos.   No Jornal do Brasil, na sua edição de 30 de Abril de 1912, fala-nos do assalto ao posto da Ameixoeira nestes termos: “Comunicam de Monção que uma guerrilha de conspiradores portugueses assaltou o posto fiscal de Ameixoeira, em Castro Laboreiro. Perseguida pelas forças republicanas, a guerrilha internou-se em Espanha.”
No mesmo jornal, na sua edição do dia seguinte, 1 de Maio de 1912, fala-nos com mais pormenor destes factos:
“A situação em Portugal
Os monárquicos fazem uma incursão e apoderam-se de grande material de guerra dos republicanos. Os monárquicos emigrados na Espanha fizeram agora uma incursão que tem sido motivo para muitíssimos boatos.
O Capitão Conceição Mascarenhas e o Coronel Almeida Fragoso, das forças republicanas que estavam na Ameixoeira comunicaram ao Governo que cinquenta conspiradores assaltaram o posto fiscal da Ameixoera, carregando todo o material de guerra que encontraram e que um professor arvorou a bandeira monárquica.
Desse ponto da fronteira chegam certas notícias importantes sobre esta sortida dos monárquicos cuja ousadia está sendo muito comentada.
O Ministro da Guerra, entrevistado por um redator de “A Capital”, sobre a invasão feita pelos monárquicos, que levaram todo o material de guerra que encontraram em Ameixoeira, sem que a força ali destacada pudesse impedir ou resistir com energia ao assalto, declarou que tal tentativa não tinha importância e que atribuia esse assalto ao posto fiscal a um pretexto para distrair a atenção das forças republicanas de qualquer golpe que os monárquicos pensam dar.
Acrescentou o Ministro que as últimas notícias recebidas da fronteira dizem haver ali completo sossego.
Foi preso o Comendador Mathias Lobato, professor oficial, por ser acusado de estar conivente com a incursão dos monárquiscos na Ameixoeira. O Comendador Lobato reside em Castro Laboreiro.”
Como atrás é referido, além de ser preso o ilustre professor de instrução primária da escola de Castro Laboreiro, Mathias Lobato, foi suspenso da sua atividade docente por despacho publicado no Diário do Governo em 2 de Maio de 1912 como aqui se comprova:


(extrato do Diário de Governo de 2 de Maio de 1912)

Contudo, este episódio que envolve o professor Mathias parece tratar-se apenas de uma falsa acusação num tempo de desenfreada guerrilha política. Desta forma, no Diário do Governo de 17 de Maio de 1912, é publicado o levantamento da suspensão sendo o professor ressarcido de todos os vencimentos cativados. 

(extrato do Diário do Governo de 17 de Maio de 1912)

O levantamento da suspensão ao Comendador Mathias Lobato seria noticiado também na imprensa. O jornal brasileiro “O Paiz”, na sua edição de 6 de Junho de 1912 conta-nos que “O professor de Castro Laboreiro, o célebre Mathias, sempre estava inocente, como “O Século” o disse pela boca de um seu correspondente. Dessa inocência também se inteirou o Governo que lhe levantou a suspensão e lhe mandou abonar os dias em que esteve suspenso.”
O professor Mathias era, provavelmente, a pessoa mais respeitada em Castro Laboreiro na época mas tinha atividade política e como tal muitos inimigos. Se lermos os jornal melgacenses da época, poderemos compreender que esta época são tempos de intensas lutas políticas mesmo em meios como Melgaço. Valia tudo!... Até intoxicar a imprensa com factos alternativos...



Fontes consultadas:
- Diário do Governo, de 1 de Maio de 1912;
- Diário do Governo, de 17 de Maio de 1912:
- Jornal “O Paiz”, edição de 6 de Junho de 1912;
- Jornal “Jornal do Brasil”, edição de 30 de Abril de 1912;
- Jornal “Jornal de Brasil”, edição de 1 de Maio de 1912.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Castro Laboreiro, 1916 - O "Leão das Montanhas" recebe visitas ilustres

Mathias de Sousa Lobato, em Castro Laboreiro num enterro, à esquerda segurando o chapéu (1914)

O Comendador Mathias de Sousa Lobato nasceu em Alvaredo em 29 de Junho de 1859. Frequentou a Escola do Magistério Primário na capital do Minho e tornou-se  professor aos 22 anos. Em 12 de Maio de 1887, foi nomeado professor vitalício de Castro Laboreiro. Durante muitos anos, foi ali o Presidente da Junta da Paróquia. Eram merecidos todos os votos da grande maioria da população castreja, pois o Professor Mathias estava sempre disponível para os castrejos. Ia-lhes sempre à vila de Melgaço tratar de assuntos relacionados com as Finanças, Conservatórias, Tribunal, Câmara, Administração, etc. Conseguiu obter um sino para a igreja e a ele se deve a construção do cemitério (até aí, os mortos eram enterrados na igreja).
O título Leão das Montanhas, foi atribuído pelo próprio ministro Hintze Ribeiro, contam uns, ou por um Governador Civil de Viana, contam outros. Não se sabe ao certo.
Em Agosto de 1916, quando já se encontrava doente, recebeu, na sua casa em Castro Laboreiro, a visita de alguns fidalgos da vila de Melgaço acompanhados do Administrador do concelho e de um deputado, o Dr. Amaro de Oliveira, que estava nas Águas do Peso. O narrador dessa excursão a Castro descreve-o assim: “O Zé e o Esteves partiram a galope avisar o Comendador Mathias da nossa chegada . E lá estava ele no meio da ponte, a barba desgrenhada, a barriga proeminente, escancarando a boca enorme numa saudação:  - Sejam bem-vindos!


O professor Mathias em Castro Laboreiro em 1914

Depois, os seus braços compridos estenderam-se e, abrindo a mão papuda, mostrando o pulso rijo e peludo, gritou:  - Alto! O meu povo há-de vir esperá-los aqui, pois então?
A uma pergunta do Zé e do Henrique: - Ó parente?! Então? Rijo, hein!? Ele respondeu: Bem, bem.
E o narrador conta-nos “e do fundo do peito saía uma gargalhada forte que atroava os ares, enquanto o olho esquerdo piscava (...), obrigando-o a enrugar aquela face corada e coberta de pêlos. Apresentaram-lhe os Doutores Joaquim e Amaro Oliveira. E ele, na sua figura imponente, apertava-lhes a mão, muito direita, muito firme, conservando um ar de “grand seigneur”, mostrando a sua pose rústica que o título de Leão das Montanhas tinha a sua razão de existir. E entre uma piscadela de olho e uma casquinada de riso, os bem-vindos cruzava-se, saíam numa confusão atroando a aldeia. Quando o povo chegou, o comendador botou discurso: “Meu povo!  Sois honrados com  visita de um deputado...”, e – diz-nos o narrador – uma piscadela de olho rematou as reticências. E por ali fora, continuou, ora erguendo a bengala ameaçadora, ora mexendo na barba inculta, gritando, misturando frases, confundindo pontos e vírgulas. O arroz, o bacalhau, o açúcar, o Dr. Afonso Costa, o Bernardino Machado, a liberdade, a honradez, o povo de Castro, saíram misturados, em união sagrada, numa dança macabra de palavras, de exclamações... O discurso acabara e ele, na sua voz forte, comandou: “Tudo para suas casas, ala...”.
E mais à frente “entramos em casa do comendador Mathias, por uma escadas toscas de degraus altos, comidos pelo tempo e pelo uso. A porta, muito baixa, dava entrada para a casa da escola, com carteiras desarrumadas, esbranquiçadas do pó. No andar de cima, os outros aposentos, muito pequenos, duma simplicidade quase desconfortável, de chão esburacado e teto baixo...”
Comia que nem um javardo! Diz o narrador: “... fazendo sair mais a barriga, trincando dois pasteis folhados ao mesmo tempo...”. E logo a seguir: “... com um copo enorme entre os dedos, abria a boca negra para lhe meter mais pastéis; na barba desgrenhada, havia pedaços de comida; e o bigode entrava-lhe pela boca, misturado com o vinho que ele bebia, todo deitado para trás, a mão afagando a barriga, o colete desapertado para estar mais à vontade.” E durante o piquenique fala aos seus hóspedes “ ... num retrato, num célebre retrato que ele tinha encaixilhado em madeira, junto a uma caixa de charutos, com o peito coberto de medalhas, e com a sobrecasaca vestida, uma sobrecasaca muito antiga – que lhe ficava a matar – dizia ele”.
Depois do repasto, em direção ao castelo ”... o comendador, que caminhava à frente, monologava: - Oh! Que gente! Meio copinho e pronto! Eles estão aí que nem cachos! Olhem para mim! Nem com vinte canadas!”.
O comendador viria a falecer em Agosto de 1920 em casa de sua irmã Ana. Morreu solteiro. Contudo, a pessoa que narrou este encontro conta-nos que na sua casa de Castro tinha a sua mais que tudo, de nome Isabel, que de criada fora promovida a governanta! Aquando da visita do deputado, ela traz café da cozinha “dentro de uma garrafa de vinho. Dentro de um cesto, aparecem as chávenas, uns copos muito grossos, quase opacos”. O administrador do concelho, depois de provar perguntou “Que licor é este?” “Isso é café!”, cantarolou a Isabel, encostada à porta da cozinha, descansando as mãos na barriga proeminente.
Apesar de ter sido um altruísta, arranjou alguns inimigos, do grupo do Jornal de Melgaço, sobretudo por causa da política. Não se pode agradar a gregos e a troianos ao mesmo tempo.


Mathias de Sousa Lobato, à porta de sua casa em 1911

Informações recolhidas em:   
- ROCHA, Joaquim (2007) - A Febre Tifóide e os seus protagonistas. in: Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço, Melgaço.

NOTA: Um enorme OBRIGADO a Diana Carvalho pela partilha de documentos que possibilitou a publicação deste texto.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Professor Matias de Sousa Lobato, o "Rei das Montanhas" (1859 - 1920)

(PARTE II)
O Professor Matias e as guerrilhas políticas no início da 1ª República

Prof. Matias de Sousa Lobato (de chapéu) em Castro Laboreiro (1911)

Apesar de ser uma pessoa muito popular em Melgaço mas sobretudo em Castro Laboreiro, o professor Matias de Sousa Lobato granjeou algumas inimizades. 
Na verdade, no Diário de Governo de 2 de Maio de 1912, podemos ler que o Professor Matias foi suspenso de funções devido a incompetência no exercício da docência, de acordo com o artigo evocado para a suspensão. 


(extrato do Diário de Governo de 2 de Maio de 1912)

Contudo, no Diário do Governo de 17 de Maio de 1912, é publicado o levantamento da suspensão é levantada, sendo o professor ressarcido de todos os vencimentos retirados. 
Não consegui apurar os factos concretos que levaram a esta suspensão. Sabemos que em Castro Laboreiro o professor Matias era tido com alguém muito competente no seu ofício sendo por isso surpreendente essa acusação.

(extrato do Diário do Governo de 17 de Maio de 1912)

Contudo, levanta-se a suspeita de que este episódio seja apenas mais um em que se vê envolvido o Professor Matias num clima de guerrilha política que se fazia sentir nos primeiros anos do regime republicano.
A mostrar isso, o "Correio de Melgaço" de 31 de Maio de 1914, diz-nos que “Os juízes da vara e balandrau de Castro Laboreiro, devido a desavenças políticas e desinteligências pessoais, intentaram proceder contra o digno professor da escola daquela freguesia, o comendador Matias de Sousa Lobato. A reclamação contra este homem de bem e filantropo social foi levada até às instâncias superiores (pois se ele não era de panelinha) e segundo nos consta, as mesmas vão averiguar da culpabilidade do citado professor”.
Mais tarde, no "Correio de Melgaço" de 9 de Junho de 1914 esclarece-se tudo: a Câmara Municipal de Melgaço nomeara dois delegados escolares para Castro Laboreiro os quais (sendo contrários politicamente ao Prof. Matias, então no Partido Democrático como vogal da Junta da paróquia daquela freguesia serrana), acusam o professor de incompetência, de não cumprir os seus deveres de mestre-escola. Queriam ver-se livres dele. Os correligionários de Matias de Sousa Lobato, através do Correio de Melgaço, atiram-se à Câmara e aos delegados escolares como autênticas feras. Por um lado, estava um homem com um curso, com 30 anos de bom desempenho ao serviço da instrução, do outro, segundo os do Correio de Melgaço, estavam dois analfabetos: Manuel Joaquim Monteiro e outro (talvez Francisco José Rodrigues, ajudante do registo civil em Castro Laboreiro). O jornalista apela ao bom sendo, à unidade, e não à vingança. Escreveu: “é necessário arrancar Portugal da miséria e do analfabetismo que a monarquia nos legou”. Em causa aqui também estava a pensão de aposentação do professor. O Dr. Afonso Costa, o primeiro chefe de governo republicano, descentralizara o ensino primário, atribuindo às Câmara Municipais essa responsabilidade. Ora, se um mestre de crianças fosse expulso do ensino por incompetência ou desleixo, teria que arranjar outro trabalho. Felizmente para o Prof. Matias, vieram em sua defesa Manuel António Fernandes, vice-presidente da Junta de paróquia Civil e vogal da Comissão Paroquial Republicana em Castro Laboreiro, e o Padre José António Alves, também de Castro, tendo ambos publicado protestos contra os delegados. O primeiro tinha um filho na escola e o padre fora aluno do prof. Matias e gaba a sua competência. O tempo apaziguou os ânimos e tudo continuou como dantes.
No Correio de Melgaço de 13 de Agosto de 1916, o correspondente em Castro Laboreiro escreveu: Com superior estima recebemos a notícia da próxima aposentação do nosso professor Matias de Sousa Lobato. Quando o julgávamos em águas, eis que nos apresenta com a sua nota de inatividade, como professor. Folgamos, pois, se ele folga também com o veredito da Junta Médica, e cumprimentamos o nosso Comendador – como doravante o trataremos, orgulhoso por tal se haver feito aqui”.
No meio deste clima, sabemos que em 15 de Março de 1917, o prof. Matias arrematou ao Estado por 110$00, um prédio sito em Castro Laboreiro. Devia ser a casa onde morava, na qual funcionava a escola.
Todavia, em 1919 publicou-se no Jornal de Melgaço, acerca dele, um texto repleto de ironia: ”Este ilustre cavalheiro e nobre cavaleiro veio passar as férias nesta vila. É costume, quando um funcionário está em férias, dar ordens às criadas para dizerem – a quem o procura – que está a descansar ou que não está em casa, evitando assim toda a sorte de maçadas. Mas não é assim que procede o “Leão das Montanhas” durante a sua estada nesta vila. Quase diariamente o víamos rodeado de castrejos, hoje seus conterrâneos, acompanhando-os ora para a repartição de Finanças, ora para a Administração do Concelho, ora para a Câmara, ora enfim para onde as necessidades dos seus conterrâneos chamam a presença do comendador. Vimo-lo um dia encaminhar-se para um carro onde estavam uns castrejos que depois soubemos serem parentes de José Bento Alves, António Joaquim Rodrigues, José Bento Rodrigues, José Domingues, Luís Rodrigues (o Barroso) e Adelino Fernandes que, dirigindo-se para as Astúrias, aonde iam aplicar a sua atividade, em Vigo são presos pela polícia secreta. Pernoitam uma vez em Redondela, outra em Tui e daí seguem para Valença, afim de seguirem sob prisão para o Porto. Por igual crime – o de emigração clandestina – foi preso, e remetido para juízo, um indivíduo que nesta comarca respondeu em Julho e foi condenado nas custas e selos do processo. Pois igual crime cometeram esses trabalhadores de Castro Laboreiro e o “Leão das Montanhas” vai a Valença, conseguindo fazer-se acompanhar dos seus conterrâneos que em número de seis voltam para o convívio de suas famílias, sem qualquer outra despesa que não fosse a da viagem e sustento próprio!”
Enfim, retalhos documentados da vida do prof. Matias de Sousa Lobato a quem as gentes de Castro Laboreiro da época muito ficaram a dever. Tudo isto numa época de intenso caciquismo político mesmo nos meio locais...


Castro Laboreiro em 1914


Informações extraídas de:
- Correio de Melgaço" de 31 de Maio de 1914;
- Correio de Melgaço" de 9 de Junho de 1914;
- Correio de Melgaço de 13 de Agosto de 1916,
- Diário de Governo de 2 de Maio de 1912;
Diário do Governo de 17 de Maio de 1912;
ROCHA, Joaquim, A. (2010) - Dicionário Enciclopédico de Melgaço. Edição de autor.

PS - Um especial OBRIGADO à Sra. Teresa Lobato pela partilha de informações e pela procura das suas raízes...

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Professor Matias de Sousa Lobato, o "Rei das Montanhas" (1859 - 1920)

(PARTE I)

Professor Matias de Sousa Lobato, em Castro Laboreiro em 1911

O professor Matias de Sousa Lobato, conhecido como o "Rei das montanhas" nasceu a 29 de Junho de 1859 na Casa do Rego em S. Martinho de Alvaredo (Melgaço). Era filho de Maria Benedita Martins e de Vitorino José Sousa Lobato.
Em 1904, encontra-se com José Leite de Vasconcelos na vila de Castro Laboreiro. No seu livro “De terra em terra”, o sábio refere-se ao professor Matias nestes termos: “Apesar da sua rusticidade, Castro Laboreiro procura acompanhar o progresso: possui algumas lojas de negócio, uma fonte de cantaria, e um Commendador, que é ao mesmo tempo o Professor primário da freguesia, o Sr. Mathias Lobato, pessoa amável, a quem os forasteiros ficam sempre devendo obséquios”.
Na revista Illustração Portugueza, nº 284, de 31 de Julho de 1911, numa reportagem do jornalista Bruno Buchenbacher é referido o seguinte: “Devido à amável recomendação do administrador do concelho de Melgaço, fui recebido com fidalga hospitalidade pelo Sr. Comendador e Cavaleiro fidalgo Mathias de Sousa Lobato, professor oficial de instrucção primária. Este cavaleiro, que sacrificou 28 anos da sua vida ao bem estar d’este povo, merece bem, pelo seu aspecto venerando, o cognome de rei das montanhas, que lhe foi conferido pelo falecido Hintze Ribeiro. Os serviços relevantes prestados ultimamente ao novo regíme, levaram o Sr. Dr. Alfredo de Magalhães a transformar a antiga designação autocrática, na mais popular denominação de “Leão das Montanhas”. Mas, mesmo assim, sempre rei…”
Em Junho de 1916, já se encontrava muito doente. Foi submetido a uma Junta Médica que o julgou temporariamente incapaz para o serviço, pelo que teve que passar à inatividade “conforme os seus desejos”. No entanto, em 1917, o seu nome constava de uma lista patrocinada pelo Dr. Vitoriano, como substituto do Procurador efetivo à Junta Geral do Distrito. A lista adversária era encabeçada por João Pires Teixeira e Justiniano António Esteves, ambos da vila de Melgaço.
Faleceu em Melgaço, em casa da sua irmã. Por sua morte, no Jornal de Melgaço de 29 de Agosto de 1920, podemos ler: “ Este nosso amigo, conduzido há pouco para o cemitério, nasceu em 1859 em Alvaredo, no Rego. Aos 22 anos de idade, obteve na capital do Minho o seu diploma de professor primário, conseguindo obter a sua nomeação temporária em 25 de Julho de 1882 para Tadim, Braga, e em 12 Maio de 1887 foi nomeado professor vitalício da escola de Castro Laboreiro, onde conseguiu captar as simpatias daquele povo, de tal forma que ele sozinho dispunha da maioria da votação daquela freguesia! E essa maioria, procedendo assim, cumpria tão somente o seu dever, pois a cada passo víamos o Matias na secção da Guarda Fiscal, na Administração do Concelho ou na Repartição de Finanças, a tratar dos interesses do seu povo, como o finado lhe chamava, e o cumprimento desse dever foi a causa do extinto alcançar grande influência política. A atestar esta importância, lá está o sino e o cemitério com que o finado dotou aquela freguesia, adquiridos de importantes donativos que para tal fim dos políticos soube conseguir. Um governador civil que uma vez esteve em Castro, e teve a ocasião de apreciar a popularidade do extinto, ao fim de jantar apelidou-o de “Rei das Montanhas”. E a atestar-nos a razão dessa popularidade lá estão os Diário do Governo, que nos dizem “Em 22 de Novembro de 1901, foi conferida ao cidadão Matias de Sousa Lobato, a mercê da Medalha de Prata para distinção e prémio, concedido ao mérito, filantropia e generosidade, pelos serviços que prestou em Castro Laboreiro, quando ali grassou a epidemia em 1897”.
Em 10 de Outubro de 1902, foi conferida ao cidadão Matias de Sousa Lobato a mercê de Cavaleiro da Ordem de Cristo, despachado no Diário do Governo 232, de 14 do mesmo mês e ano. Pelo Governo da República, foi agraciado com a medalha de cobre da Cruz Vermelha pelos seus serviços prestados em Castro Laboreiro, quando ali grassou a epidemia de tifo em 1913."
Daqui se vê que o extinto, não tendo sido nenhuma sumidade no magistério, podia ter sido uma notabilidade na medicina, se tivesses seguido a carreira para que a sua vocação o chamava. No estado de solteiro, tendo sempre dado provas de possuir um belo coração e, tendo completado em 29 de Junho, 61 anos de idade, faleceu no dia 16 do corrente (16/8/1920) o comendador Matias de Sousa Lobato. À sua extremosa irmã, Ana, e irmão, José, inteligente farmacêutico desta vila, enviamos os sentidos pêsames”.

Nesta foto, o Prof. Matias aparece de chapéu imediatamente à frente de um Guarda que se encontra junto à cruz do cruzeiro...
(Castro Laboreiro, 1911)

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::(CONTINUA)::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Informações extraídas de:
- "Como eu visitei Castro Laboreiro e Soajo", reportagem de Bruno Buchenbacher in: Illustração Portugueza, nº 284, de 31 de Julho de 1911;
- VASCONCELOS, José Leite de (1916) - Excursão a Castro Laboreiro. in: Revista Lusitânia, Lisboa;
- "Jornal de Melgaço", edição de 29 de Agosto de 1920;
- ROCHA, Joaquim, A. (2010) - Dicionário Enciclopédico de Melgaço. Edição de autor.

PS - Um especial OBRIGADO à Sra. Teresa Lobato pela partilha de informações e pela procura das suas raízes...