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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O "Leão das Montanhas" (1859-1920): "Der Schulmeister von Castro Laboreiro"




Der Schulmeister von Castro Laboreiro” é o título de um inesperado mas muito interessante artigo de um jornal americano acerca de uma das personalidades melgacenses mais marcantes de finais do século XIX e início do século XX, conhecida na época como o “Leão das Montanhas”.
O professor Mathias de Sousa Lobato, nascido em Alvaredo em 1859 em Alvaredo e falecido na vila de Melgaço em 1920, dedicou boa parte da sua vida às gentes de Castro Laboreiro. Foi, durante décadas, professor de instrução primária e presidente da Junta da Paróquia de Castro Laboreiro o que lhe valeu uma enorme estima e gratidão pelas gentes castrejas, talvez só comparadas às que as gentes de Crasto tinham pelo Padre Aníbal em tempos mais recentes. O carisma e a singularidade da personalidade do professor Mathias foram assunto para um curioso artigo no jornal norte-americano “Der Deutsche Correspondent”, periódico da cidade americana de Baltimore escrito em língua alemã para imigrantes germânicos, na sua edição de 8 de Setembro de 1912.
No artigo, são citados alguns factos ocorridos em Castro Laboreiro na época. Em 1912, o Posto da Guarda Fiscal da Ameijoeira foi assaltado, alegadamente, por um grupo de homens afetos à causa monárquica, tendo roubado armas e munições e de seguida, fugiram para Espanha. Nessa altura, em Castro Laboreiro, o ilustre Professor de instrução primária Mathias de Souza Lobato, conhecido na época como o “Leão das Montanhas”, é acusado de exibir uma bandeira monárquica e ter dados vivas à Monarquia. Foi suspenso de funções e preso.
No artigo pode ler-se:

Der Schulmeister von Castro Laboreiro

O professor de Castro Laboreiro foi preso por ter “içado” a bandeira monárquica. Dom Mathias é um gigante na sua estatura. Sobre as pernas relativamente curtas, mas robustas, assenta um vigoroso tronco sobre o qual se ergue um poderoso crânio. O rosto emoldurado por uma barba negra e selvagem poderia parecer assustador, se não fosse o seu nariz avermelhado e brilhante, e dois olhos pequeninos de quem bebe, denunciam que nesse corpo de gigante vive a alma duma criança. E tal como sua aparência é a sua atitude.
A potente voz e os gestos de herói de comédia conta piadas e faz pequenas brincadeiras inofensivas, tão inofensivas como a sua vida de professor de aldeia, que, pelo mora a pelo menos 60 km de qualquer cultura, e acorda numa espécie de casa entre um monte de rochas. Só quando houve conversas sobre política, o meu anfitrião acorda para a vida plena. Afirma orgulhosamente que possui duas ou até três ordens (comendas), que já foi visitado por ministros na sua casa e que sempre permaneceu o modesto professor da aldeia, embora pudesse, é claro, ter tido cargos muito mais lucrativos. Mas o seu povo, os aldeões incultos, são-lhe tão queridos que ele apenas planeia deixar aquele lugar quando tiver que ir “desta para melhor”.
Agora, claro, por enquanto terá que trocar as suas montanhas agrestes pela prisão no Porto porque a convicção republicana que mostrou em 5 de Outubro de 1910, não era genuína, e que para seu mal se desmascarou quando um bandido gritou "Viva a monarquia".
Agora ele pode citar a donzela de Orleans e exclamar com o seu gesto altaneiro "Adeus, montanhas …".
O professor Mathias foi absolvido destes alegados factos e foi-lhe levantada a suspensão da atividade docente.


Artigo original (clique para ampliar)




Tradução do artigo da autoria de Ramona Fritz e Conceição Coimbra.
Nota - Um grande obrigado à amiga Teresa Lobato.



sexta-feira, 24 de março de 2017

O Assalto à Guarda Fiscal da Ameixoeira (Castro Laboreiro) e a prisão do "Leão das Montanhas" (1912)


Nos tempos a seguir à implantação da República, o ambiente nas fronteiras de Melgaço é muito tenso. Fala-se da presença de guerrilheiros portugueses afetos à causa monárquica refugiados na Galiza. Estes estariam a preparar uma incursão em Portugal com o objetivo de voltar a implantar a monarquia. No meio destes acontecimentos, um grupo de monárquicos assaltou o posto da Guarda Fiscal da Ameixoeira (Castro Laboreiro) roubando armamento e munições e fugiram de seguida para Espanha. Supostamente, na sequência deste episódio, o professor de instrução primária da escola de Castro Laboreiro, Mathias de Souza Lobato, mais conhecido como o ”Leão das Montanhas” é acusado de ter exibido uma bandeira monárquica e logo é preso e suspenso da profissão docente.
Encontramos em imprensa da época, notícias que nos contam estes factos.   No Jornal do Brasil, na sua edição de 30 de Abril de 1912, fala-nos do assalto ao posto da Ameixoeira nestes termos: “Comunicam de Monção que uma guerrilha de conspiradores portugueses assaltou o posto fiscal de Ameixoeira, em Castro Laboreiro. Perseguida pelas forças republicanas, a guerrilha internou-se em Espanha.”
No mesmo jornal, na sua edição do dia seguinte, 1 de Maio de 1912, fala-nos com mais pormenor destes factos:
“A situação em Portugal
Os monárquicos fazem uma incursão e apoderam-se de grande material de guerra dos republicanos. Os monárquicos emigrados na Espanha fizeram agora uma incursão que tem sido motivo para muitíssimos boatos.
O Capitão Conceição Mascarenhas e o Coronel Almeida Fragoso, das forças republicanas que estavam na Ameixoeira comunicaram ao Governo que cinquenta conspiradores assaltaram o posto fiscal da Ameixoera, carregando todo o material de guerra que encontraram e que um professor arvorou a bandeira monárquica.
Desse ponto da fronteira chegam certas notícias importantes sobre esta sortida dos monárquicos cuja ousadia está sendo muito comentada.
O Ministro da Guerra, entrevistado por um redator de “A Capital”, sobre a invasão feita pelos monárquicos, que levaram todo o material de guerra que encontraram em Ameixoeira, sem que a força ali destacada pudesse impedir ou resistir com energia ao assalto, declarou que tal tentativa não tinha importância e que atribuia esse assalto ao posto fiscal a um pretexto para distrair a atenção das forças republicanas de qualquer golpe que os monárquicos pensam dar.
Acrescentou o Ministro que as últimas notícias recebidas da fronteira dizem haver ali completo sossego.
Foi preso o Comendador Mathias Lobato, professor oficial, por ser acusado de estar conivente com a incursão dos monárquiscos na Ameixoeira. O Comendador Lobato reside em Castro Laboreiro.”
Como atrás é referido, além de ser preso o ilustre professor de instrução primária da escola de Castro Laboreiro, Mathias Lobato, foi suspenso da sua atividade docente por despacho publicado no Diário do Governo em 2 de Maio de 1912 como aqui se comprova:


(extrato do Diário de Governo de 2 de Maio de 1912)

Contudo, este episódio que envolve o professor Mathias parece tratar-se apenas de uma falsa acusação num tempo de desenfreada guerrilha política. Desta forma, no Diário do Governo de 17 de Maio de 1912, é publicado o levantamento da suspensão sendo o professor ressarcido de todos os vencimentos cativados. 

(extrato do Diário do Governo de 17 de Maio de 1912)

O levantamento da suspensão ao Comendador Mathias Lobato seria noticiado também na imprensa. O jornal brasileiro “O Paiz”, na sua edição de 6 de Junho de 1912 conta-nos que “O professor de Castro Laboreiro, o célebre Mathias, sempre estava inocente, como “O Século” o disse pela boca de um seu correspondente. Dessa inocência também se inteirou o Governo que lhe levantou a suspensão e lhe mandou abonar os dias em que esteve suspenso.”
O professor Mathias era, provavelmente, a pessoa mais respeitada em Castro Laboreiro na época mas tinha atividade política e como tal muitos inimigos. Se lermos os jornal melgacenses da época, poderemos compreender que esta época são tempos de intensas lutas políticas mesmo em meios como Melgaço. Valia tudo!... Até intoxicar a imprensa com factos alternativos...



Fontes consultadas:
- Diário do Governo, de 1 de Maio de 1912;
- Diário do Governo, de 17 de Maio de 1912:
- Jornal “O Paiz”, edição de 6 de Junho de 1912;
- Jornal “Jornal do Brasil”, edição de 30 de Abril de 1912;
- Jornal “Jornal de Brasil”, edição de 1 de Maio de 1912.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Castro Laboreiro, 1916 - O "Leão das Montanhas" recebe visitas ilustres

Mathias de Sousa Lobato, em Castro Laboreiro num enterro, à esquerda segurando o chapéu (1914)

O Comendador Mathias de Sousa Lobato nasceu em Alvaredo em 29 de Junho de 1859. Frequentou a Escola do Magistério Primário na capital do Minho e tornou-se  professor aos 22 anos. Em 12 de Maio de 1887, foi nomeado professor vitalício de Castro Laboreiro. Durante muitos anos, foi ali o Presidente da Junta da Paróquia. Eram merecidos todos os votos da grande maioria da população castreja, pois o Professor Mathias estava sempre disponível para os castrejos. Ia-lhes sempre à vila de Melgaço tratar de assuntos relacionados com as Finanças, Conservatórias, Tribunal, Câmara, Administração, etc. Conseguiu obter um sino para a igreja e a ele se deve a construção do cemitério (até aí, os mortos eram enterrados na igreja).
O título Leão das Montanhas, foi atribuído pelo próprio ministro Hintze Ribeiro, contam uns, ou por um Governador Civil de Viana, contam outros. Não se sabe ao certo.
Em Agosto de 1916, quando já se encontrava doente, recebeu, na sua casa em Castro Laboreiro, a visita de alguns fidalgos da vila de Melgaço acompanhados do Administrador do concelho e de um deputado, o Dr. Amaro de Oliveira, que estava nas Águas do Peso. O narrador dessa excursão a Castro descreve-o assim: “O Zé e o Esteves partiram a galope avisar o Comendador Mathias da nossa chegada . E lá estava ele no meio da ponte, a barba desgrenhada, a barriga proeminente, escancarando a boca enorme numa saudação:  - Sejam bem-vindos!


O professor Mathias em Castro Laboreiro em 1914

Depois, os seus braços compridos estenderam-se e, abrindo a mão papuda, mostrando o pulso rijo e peludo, gritou:  - Alto! O meu povo há-de vir esperá-los aqui, pois então?
A uma pergunta do Zé e do Henrique: - Ó parente?! Então? Rijo, hein!? Ele respondeu: Bem, bem.
E o narrador conta-nos “e do fundo do peito saía uma gargalhada forte que atroava os ares, enquanto o olho esquerdo piscava (...), obrigando-o a enrugar aquela face corada e coberta de pêlos. Apresentaram-lhe os Doutores Joaquim e Amaro Oliveira. E ele, na sua figura imponente, apertava-lhes a mão, muito direita, muito firme, conservando um ar de “grand seigneur”, mostrando a sua pose rústica que o título de Leão das Montanhas tinha a sua razão de existir. E entre uma piscadela de olho e uma casquinada de riso, os bem-vindos cruzava-se, saíam numa confusão atroando a aldeia. Quando o povo chegou, o comendador botou discurso: “Meu povo!  Sois honrados com  visita de um deputado...”, e – diz-nos o narrador – uma piscadela de olho rematou as reticências. E por ali fora, continuou, ora erguendo a bengala ameaçadora, ora mexendo na barba inculta, gritando, misturando frases, confundindo pontos e vírgulas. O arroz, o bacalhau, o açúcar, o Dr. Afonso Costa, o Bernardino Machado, a liberdade, a honradez, o povo de Castro, saíram misturados, em união sagrada, numa dança macabra de palavras, de exclamações... O discurso acabara e ele, na sua voz forte, comandou: “Tudo para suas casas, ala...”.
E mais à frente “entramos em casa do comendador Mathias, por uma escadas toscas de degraus altos, comidos pelo tempo e pelo uso. A porta, muito baixa, dava entrada para a casa da escola, com carteiras desarrumadas, esbranquiçadas do pó. No andar de cima, os outros aposentos, muito pequenos, duma simplicidade quase desconfortável, de chão esburacado e teto baixo...”
Comia que nem um javardo! Diz o narrador: “... fazendo sair mais a barriga, trincando dois pasteis folhados ao mesmo tempo...”. E logo a seguir: “... com um copo enorme entre os dedos, abria a boca negra para lhe meter mais pastéis; na barba desgrenhada, havia pedaços de comida; e o bigode entrava-lhe pela boca, misturado com o vinho que ele bebia, todo deitado para trás, a mão afagando a barriga, o colete desapertado para estar mais à vontade.” E durante o piquenique fala aos seus hóspedes “ ... num retrato, num célebre retrato que ele tinha encaixilhado em madeira, junto a uma caixa de charutos, com o peito coberto de medalhas, e com a sobrecasaca vestida, uma sobrecasaca muito antiga – que lhe ficava a matar – dizia ele”.
Depois do repasto, em direção ao castelo ”... o comendador, que caminhava à frente, monologava: - Oh! Que gente! Meio copinho e pronto! Eles estão aí que nem cachos! Olhem para mim! Nem com vinte canadas!”.
O comendador viria a falecer em Agosto de 1920 em casa de sua irmã Ana. Morreu solteiro. Contudo, a pessoa que narrou este encontro conta-nos que na sua casa de Castro tinha a sua mais que tudo, de nome Isabel, que de criada fora promovida a governanta! Aquando da visita do deputado, ela traz café da cozinha “dentro de uma garrafa de vinho. Dentro de um cesto, aparecem as chávenas, uns copos muito grossos, quase opacos”. O administrador do concelho, depois de provar perguntou “Que licor é este?” “Isso é café!”, cantarolou a Isabel, encostada à porta da cozinha, descansando as mãos na barriga proeminente.
Apesar de ter sido um altruísta, arranjou alguns inimigos, do grupo do Jornal de Melgaço, sobretudo por causa da política. Não se pode agradar a gregos e a troianos ao mesmo tempo.


Mathias de Sousa Lobato, à porta de sua casa em 1911

Informações recolhidas em:   
- ROCHA, Joaquim (2007) - A Febre Tifóide e os seus protagonistas. in: Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço, Melgaço.

NOTA: Um enorme OBRIGADO a Diana Carvalho pela partilha de documentos que possibilitou a publicação deste texto.