Há cerca de 100 anos atrás, o complexo termal do Peso de Melgaço era, frequentemente, palco de reuniões de académicos, médicos, ou outros notáveis da sociedade portuguesa. No jornal “Diário de Lisboa”, de 20 de Julho de 1928, encontramos uma notícia que nos fala de uma viagem a Melgaço, de uma comitiva da Associação Médica Lusitana, que ficou hospedada no Grande Hotel do Peso. Na dita notícia, podemos ler: “A Associação Médica Lusitana não é um organismo platónico, um organismo que apenas existe nas legendas do seu papel e dos seus envelopes timbrados...
Nada disso, senhores; é um organismo com vida própria, uma vida estuante de animação, de progresso, de patriótica propaganda em prol das termas portuguesas e de proveitosa divulgação das sciencias médicas. E, no cumprimento desse belo e útil programa, realiza várias conferências na sua sede e promove excursões de estudo. Foi agora uma dessas excursões – a 5ª excursão do Congresso de Estudo às termas portuguesas – que a referida associação realizou a Monção, Valadares e Peso, de visita às estâncias termais desta localidades.
Foram três dias de encantadora confraternização, em que o nosso espírito, acabrunhado pela vida intensa e agitada duma grande cidade, viveu novos ambientes, se desanuviou doar pesado e viciado da atmosfera citadina.
Setenta congressistas, entre os quais iam professores e médicos muito distintos, presididos pelo Sr. Dr. Alberto de Aguiar, ilustre director e professor da Faculdade de Medicina do Porto, foram de abalada até terras do Alto Minho.
A viagem do Porto a Monção fez-se encantadoramente - como não podia deixar de ser desde que a viagem tinha, a dar-lhe graça e beleza, a presença dalgumas senhoras… O calor era sufocante – mas a Empreza das Águas de Vidago Melgaço e Pedras Salgadas, para nos refrescar, pôs gentilmente à disposição dos excursionistas as suas deliciosas águas.
O “rápido”, que nos leva, vai devorando quilómetros, ladeado pela maravilhosa paisagem portuguesa que, como num “ecran” incomensurável, se desenrola ante a nossa vista em intermináveis películas... Estamos em pleno Minho; a paisagem agora atinge o cume da sua beleza. O sol nimba-se de oiro e põe-lhe luminosidades de encantar… Viana do Castelo surge em todo o seu esplendor panorâmico - esse maravilhoso esplendor que, por mais que as nossas pupilas andem cheinhas de o ver, jamais se cansam de o admirar… O rio Lima reverbera sob os ósculos queimosos daquele sol de brasas - como se as mãos misteriosas de fadas o houvessem semeado de pedaços refulgentes de cristal...
Cerca de Caminha, das bandas de Espanha, o monte de Santa Tecla parece escalar o céu, dominando, altaneiro e forte, a pobre povoação galega de Camposancos. O “rápido”, segue sempre vertiginosamente; Monção aparece, alfim. Os ares são abalados com o estrondear de poderosos morteiros. O sol é mais escaldante ainda; a própria sombra tem um hálito quente de fornalha…
Saudações, cumprimentos do estilo, apresentações – e eis-nos de abalada, de automóvel, para Peso de Melgaço, vinte intermináveis quilómetros de estrada má, atirada para um abandono turístico criminoso, em que os automóveis se desconjuntam – desconjuntando-nos os ossos e, com os solavancos, pondo-nos os intestinos nas goelas… Em todo o caso – dizem-nos – está melhor do que há dois anos, mas necessitando ainda de reparação urgente , completa e metódica, pois é a única via de comunicação da formosíssima estância do Peso de Melgaço com estação terminus da linha férrea do Minho. Com más estradas – o turismo é uma blague… E a estrada em referência merece as atenções do Governo, não só por conveniência do turismo—mas também para maior valorização ainda das afamadas águas de Peso de Melgaço, únicas do pais e das quais se contam curas verdadeiramente milagrosas. Enquanto sofremos o flagelo daquela estrada esburacada, nos lados de Espanha, através de pobres povoações galegas, o rápido Madrid-Vigo passa veloz, atirando ao ar colunas de fumo - como a comentar ironicamente o estado retrógrado daquelas paragens portuguesas... De lá o comboio cómodo e prático - de cá, para o povo em geral, “camionettes” sujas, incómodas, uma das quais com rodas maciças, como pneumáticos... de cimento... Valem-nos ao menos os automóveis de aluguer e a linda e confortável “camionette” do excelente Grande Hotel do Peso.
Os excursionistas hospedaram-se neste hotel, sendo acumulados de gentilezas pelo seu proprietário, o Sr. José Figueirôa—-um hoteleiro simpático, solicito, “gentleman”.
Após o opiparo jantar — que terminou com um “Porto de Honra” oferecido pela empresa das águas, que se fez representar na excursão pelo Sr. Tenente-Coronel Luciano Pacheco, a personificação da solicitude — seguimos para a risonha e airosa vila de Melgaço, onde se realizava um pitoresco arraial minhoto.
Peso de Melgaço está emoldurado numa paisagem de encantamento e tem um ar lavado, puro, benéfico, que nos limpa e fortalece os pulmões. As suas águas - ouvimos isto da boca de vários médicos - são de extraordinários efeitos de cura. A Estância tem tido grandes melhoramentos. Há em tudo um ar de asseio, comodidade e modernismo. O Balneário - completo nas suas secções, de construção ampla e elegante - o grandioso Pavilhão das Nascentes - onde o Sr. Dr. José Duro, distinto director-clínico da Estância, pronunciou-se sobre o maravilhoso valor terapêutico das águas - atestam o cuidado e a preocupação de engrandecimento da empresa.
No dia seguinte, de manhã, fomos a Melgaço e a S. Gregório, a doze quilómetros do Peso, por uma estrada portuguesa... que é como quem diz—péssima. S. Gregório é uma povoação pitoresca, um tanto incaracterística pelo seu estreito contacto com Espanha, de panoramas surpreendentes e onde há uma revoada de senhoras, lindas, gentis e moças, que nos deram a impressão dum canteiro de rosas a estiolarem-se sem os cuidados dum jardineiro… É que ali, senhores, elas só tem um rapaz da sua estirpe, segundo o que nos disseram…
Em S. Gregório descemos uns caminhos íngremes, pitorescos - e eis-nos na ponte internacional sobre o delgadinho Trancoso. A ponte internacional - menos dum minuto de passagem – é um brinquedo de criança, já muito usado e todo desconjunctado... As bandeiras portuguesa e espanhola - içadas nas casas dos guardas - quasi que se tocam. Entramos em Espanha; um guarda-fiscal português, por cedência do seu colega espanhol, cultiva uma portuguesíssima horta - que nos parece um sorriso de ternura naquela agreste, dura e pobre povoação de Puente de Varjas...
Regressámos ao Peso e, após um lauto almoço no Grande Hotel, seguimos para Valadares, em visita a uma nascente de águas ainda por explorar - onde fomos fidalgamente recebidos pelo seu co-proprietario, Sr, Manuel de Morais, que nos ofereceu um delicioso “copo de água”, — e, depois, para Monção. Visitadas as nascentes e o balneário, fomos ainda ver a Quinta da Brejoeira, que, na sua frontaria, lembra o Palácio da Ajuda; visitámos o parque,maravilhoso,enorme, paradisíaco.
A excursão teve a anima-la o humorismo perene e cintilante dos Drs. professor Almeida Garrett, Pedro de Sousa, Hernani Barrosa, Azeredo Antas, António Emílio de Magalhães, Arnaldo Braga, Mário Andrade e Ernesto de Azevedo.
A Comissão Administrativa da Câmara de Monção ofereceu, no Hotel Vaticano, um lauto banquete, servido por graciosas moças - oh! as lindas raparigas de Monção! - com musica e baile, pretexto para as senhoras da Terra de Deu-la-Deu dançarem com os médicos, que se revelaram uns exímios bailarinos, mormente o Dr. Ernesto de Azevedo, a alma entusiástica destas excursões. O baile prosseguiu, no salão da Assembleia, até 4 ou 5 horas da manhã. E dizem que a dança faz mal - quando os médicos dançam sem descanso!…
