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sábado, 2 de maio de 2020

Os lugares de Melgaço no mais antigo mapa de Portugal (1560)




O mapa de Portugal mais antigo conhecido até hoje tem quase 500 anos e foi elaborado em 1560. O seu autor é o cartógrafo Fernando Álvares Secco.
Trata-se de um mapa com um grau de pormenor bastante elevado e onde podemos encontrar a representação de diversos lugares e linhas de água. Uma outra particularidade é que o mapa aparece orientado de forma diferente daquela a que estamos habituados a ver. Assim o Oeste aparece posicionado para o topo da página, ou seja, em vez de vermos Portugal continental posicionado “na vertical” com o norte voltado para o topo do mesmo, o território aparece-nos numa posição “horizontal” tal como se pode observar no mapa integral.

Mapa original e integral
" A Descrição atual e precisa de Portugal, antiga Lusitânia"
de Ferando Álvares Secco (1560)
Ficheiro de grande resolução
clique AQUI

No mapa, podemos encontrar assinalados diversos lugares de Melgaço e, além do rio Minho, os traçados dos rios Trancoso e Laboreiro ainda que não se encontrem referidos os seus nomes. O traçado dos dois pequenos rios encontram-se, contudo, desenhado com pouco rigor: Por um lado, o seu traçado é desenhado dentro do território português e não representam a linha de fronteira como seria o correto. Por outro lado, no mapa, o rio Trancoso, à época chamado de Ribeira das Bárzias, é local de desembocadura das águas do rio Laboreiro. Assim, no mapa, o rio Laboreiro em vez de correr em direção ao rio Lima, vai encontrar-se com o Trancoso e as suas águas vão em direção ao rio Minho. Daqui se nota que o autor do mapa não tinha o mínimo conhecimento do terreno da nossa região. No mapa, o rio Laboreiro, além de ser um afluente do Trancoso, é colocado com a nascente na serra do Soajo.
No mapa, aparece traçado também o rio Mouro e representada a Ponte do Mouro. O autor achou importante marcar a localidade onde nasce o dito curso de água, Lamas de Mouro, mas inscreveu-o com a designação de “Mouco” em vez de “Mouro”. Aparentemente, parecem tratar-se de erros de transcrição e não formas arcaicas dos topónimos.
Chamo à atenção que neste mapa, apesar de aparecerem assinalados vários lugares dos, à época, concelhos de Melgaço e Castro Laboreiro, a vila de Melgaço não merece nenhuma referência, ao contrário da vila castreja. Também Paderne ou Fiães não aparecem assinalados. Ao contrário, encontram-se marcados no mapa, próximos do rio Minho, de Oeste para Este, a Várzea (próximo do Peso, à época era freguesia), Remoães (no mapa “Ramoas”), Prado (no mapa “Prados”) e S. Paio.
Curiosamente, S. Paio aparece assinalado de forma errada como situado próximo da margem do Minho, tal como Remoães e Prado. Este erro pode ser explicado da seguinte maneira. Durante séculos, as igrejas de Remoães e Prado eram subordinadas à de S. Paio e por alguma razão o autor foi induzido em erro colocando S. Paio na margem do Minho.
No território do antigo concelho de Castro Laboreiro, além da vila, aparece representada a Branda do Rodeiro. Temos ainda inscrito um lugar designado de “Os Viduais”. Não sabemos se o autor se queria referir ao lugar ao atual lugar do Vido, mesmo sabendo que a localização não é muito rigorosa.
Aparecem ainda inscritos no mapa dois outros locais situados, aparentemente em terras de Castro Laboreiro: “Corvelhe” (local totalmente desconhecido em terras castrejas nunca citado, creio, em documentos antigos). Será algum erro de transcrição e quereria o autor inscrever o lugar da “Corveira” (forma antiga de “Curveira”)?
O mesmo tipo de observação podemos fazer para outro local identificado no mapa como “Carvalher”. Quereria o autor escrever “Carvalheira”, lugar que se desconhece em documentos antigos como topónimo em terras castrejas? Ou estaria a tentar referir-se ao Porto dos Cavaleiros (Cavaleiros), antigo lugar situado entre Castro Laboreiro e Lamas de Mouro? É mais plausível esta segunda hipótese mas não passa de uma conjetura.
Uma última nota para a designação que é dada à unidade de relevo a que pertencem as terras altas de Melgaço. Hoje em dia, damos nomes vários às várias unidades de relevo situadas dentro do atual território de Melgaço tais como a Serra do Laboreiro, Serra da Peneda ou Serra do Pomedelo. Tal como podemos ver neste mapa, todas as terras altas, a sul do rio Minho, dentro dos concelhos (à época) de Melgaço e Castro Laboreiro são designadas como a “SERA (Serra) DA STRICA”. Essa designação é replicada em mapas posteriores durante o século XVII e XVIII.
Parece ser um equívoco do autor. Na atualidade, ainda temos o sítio e localidade de Estrica que fica perto de Sistelo, no vizinho concelho de Arcos de Valdevez. Em mapas do século XVIII e XIX, encontramos a designação da Serra da Estrica atribuída a uma unidade de relevo a sudoeste de Castro Laboreiro e dentro de terra arcuenses. Creio contudo que este nome da serra se encontra em desuso, existindo contudo o lugar de Estrica.
Uma última nota para este mapa que não se pretende criticar com este pequeno apontamento. Temos que ter em conta que estamos em meados do século XVI e elaborar este mapa foi certamente uma tarefa monstruosa. Por isso, é um marco na cartografia em Portugal e é o mais antigo mapa do nosso país até hoje conhecido.
Hoje, a arte da Cartografia é incrivelmente mais fácil com todos os meios que temos ao dispor.
No tempo de Fernando Álvares Secco tudo era diferente.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Como defender Melgaço de uma invasão em finais do século XVIII?


Em finais do século XVIII, Portugal temia um novo conflito com Espanha e o clima de elevada tensão gerado na Europa pela Revolução Francesa, fez com a Coroa Portuguesa tomasse algumas medidas com vista a proteger as nossas fronteiras de possíveis ataques a partir do lado espanhol.
Desta forma, temia-se que a guerra estivesse eminente. Foi então ordenado ao exército, mais especificamente ao Real Corpo de Engenheiros, que realizasse uma série de memórias sobre as condições de defesa da fronteira e do território português. Um desses engenheiros era Custódio Villas Boas que nos deixou importantes apontamentos sobre as estruturas de defesa de Melgaço em finais do século XVIII:
"O território fronteiriço entre os vales dos rios Minho e Lima, era ocupado pela vasta serra da Peneda, considerada intransponível por um exército moderno, não obstante os caminhos existentes no planalto de Castro Laboreiro, por onde comunicavam as populações locais, de ambos os lados. Em todo o caso, estas estradas estavam em muito mau estado de conservação, dificultando a progressão de um qualquer exemplo que pretendesse viajar com todo o seu trem de artilharia e provisões. Na eventualidade de esta situação ocorrer, era aconselhado um ataque imediato nesta área, de forma a limitar as possibilidades do inimigo.
De qualquer forma, para a vigilância e proteção desta área, existia o castelo de Castro Laboreiro, de planta medieval reformulada ao longo dos anos de acordo com a exigências militares, equipado com algumas peças de artilharia.
Desde Castro Laboreiro, à entrada do rio Minho, a fronteira era estebelecida pelo vale do rio Trancoso - também designado por “rio das Várzeas” - cujo vale de margens abruptas era considerado impenetrável. Os únicos pontos de passagem seriam duas pontes: a Ponte de Pouzafolles, ainda em área de montanha, e e Ponte das Várzeas, constrída em madeira no lugar de S. Gregório.
Por ocasião da denominada “Guerra Fantástica, em 1762, foi construído um pequeno reduto para vigiar a estrada do vale do rio Minho, embora estivesse arruinado em 1800.
A partir do rio Trancoso, a fronteira entre Portugal e a Galiza passava a ser estabelecida pelo curso do rio Minho, considerado por Villas Boas “um formidável fosso aquático das praças fronteiras, com 80 a 100 braças de largura média, e barreira de força ativa que em tempos de guerra equivale a muita tropa e reduplica a defesa daquelas praças”.
A primeira das defesas da fronteira Norte do Alto Minho, seguindo o curso do rio de montante para jusante, era a vila de Melgaço, equipada com 15 canhões e uma “obra coroa” (fortificação exterior à muralha) sobre a estrada para a Galiza. O castelo, de muralha circular e antiga, não era considerado aptp para a defesa, pelo que, Villas Boas o indicava para servir de quartel e armazém de víveres das tropas estacionadas naquela parte do território.
Deste  modo, a defesa da entrada do rio Minho, deveria ser feita no rio Trancoso, onde seria necessário construir alguns entreicheiramentos, equipados com os canhões de Melgaço, ao mesmo tempo que se demoliria a Ponte das Várzeas a fim de dificultar o movimento inimigo.
Em caso de invasão, as tropas portuguesas retirar-se-iam para as montanhas oferecendo a maior resistência possível. Combinando as caraterísticas do terreno com os meios militares, era possível opor uma eficaz resistência ao invasor, apenas com um pequeno número de homens: 32 artilheiros, um batalhão de infantaria, e alguma milícia e ordenanças, se o inimigo fosse em número muito superior, peder-se-ia recorrer aos reforços de Monção.
Em 1800, Villas Boas indicava já que a Ponte das Várzeas estava arruinada e o castelo de Melgaço havia sido desguarnecido da suas artilharia havia pouco tempo. O autor nada diz sobre o possível exist~encia de entricheiramentos, mas esta informação poderá constituir um indício das preparações para a defesa da Província, seguindo as diretrizes apontadas por aquele engenheiro militar.
O vale do rio Minho, desde a sua entrada em Melgaço até Monção, corria apertado por margens escarpadas, sobretudo a margem norte, o que dificultava a sua passagem. Vallas Boas identificava apenas um local onde seria possível ao inimigo atravessar o rio: o lugar do Salto situado a meio caminho entre Melgaço e Valadares (o local está perfeitamente identificado nas diversas variantes do Mapa da Província). Este ponto fraco na linha de defesa portuguesa, era já conhecido pelos espanhóis que, em conflitos anteriores, tentaram ali atravessar o rio, pelo que os portugueses construiram uma bateria provisória que deveria ser renovada e construída com melhor qualidade."
A guerra vai acontecer em 1801 com a invasão franco-espanhola.



Informações extraídas de: MOREIRA, Luís Miguel (2008) - O sistema defensivo do Alto Minho em finais do sés. XVIII. In: Cad. Vianenses; nº 41; 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Cevide (Cristóval - Melgaço) no programa Agora Nós" da RTP (13-04-2017)



No programa "Agora Nós" da RTP 1 de 13 de Abril de 2017, falou-se do lugar de Cevide, na freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço. Aqui começa Portugal. Destaque para as lindas imagens destes local e para as entrevistas de Mário Monteiro, grande impulsionador da divulgação deste lindo recanto, e do Presidente da Câmara de Melgaço... Veja o vídeo do programa!



sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte III)

Vista para a vila de Castro Laboreiro (Melgaço)
Nas fronteiras de Melgaço, as operações militares durante a Guerra da Restauração, fazem-se sobretudo na raia seca. O Minho constituía um importante obstáculo natural que dificultava quaisquer tipo de incursões quer para os portugueses, do lado de Melgaço, quer para os galegos, em território estrangeiro. No vale do rio Trancoso e em Castro Laboreiro foram muitas as aldeias saqueadas e incendiadas na sequência das incursões dos combatentes espanhóis. No texto de hoje, descreve-se como, durante este conflito, em 1644, os portugueses foram incendiar várias aldeias em Crespos (Padrenda - Galiza), vingando alguns ataques sofridos por parte dos espanhóis. Em resposta, estes atacam o castelo de Castro Laboreiro mas não conseguiram conquistá-lo... Todos estes relatos os encontrámos num texto da época. Ora leia: “Desejando o Conde (de Castelo Melhor) satisfazer-se deste intento do inimigo, determinou queimar-lhe o lugar de Crespos, onde ele costumava ter gente para socorrer aos mais vizinhos e encarregou disto o capitão António de Abreu para que com quinhentos infantes o fosse executar. Ajuntou-se a esta gente, vinda de outras praças de Melgaço, e como forçosamente teve de caminhar pela ribeira do Minho, o inimigo descobre-os, e apercebe-se das movimentações. Mas não obstante isto, a vinte e seis de Abril, à noite António de Abreu de Melgaço avança para terras galegas, e quando amanheceu sobre Crespos, queimou este lugar com outros sete lugares perto deste. Acudiu o inimigo com dois mil homens em boa ordem. Chegam a defrontar-se com os nossos, mas  estes puderam retirar-se com perdas de gente. E dando depois António de Abreu uma volta pela Galiza, queimou o lugar do Condado e outros seis lugares e se recolheu sem mais perdas que a de um soldado e um tambor mortos com mais cinco feridos. Ao primeiro de Maio, entrou o inimigo por nossas terras, por onde chamam a Raia Seca com cinco mil infantes e trezentos cavalos e acometeu contra o pequeno castelo de Castro Laboreiro, mas Pero de Faria, cabo de vinte e cinco soldados, que ali o assistem com alguns moradores, o rechaçou com tanto valor que o obrigou a retirar-se deixando muitos mortos e levando muitos feridos. Enfim, podendo conseguir o intento, o que viera com a mágoa da sua perda, queimou algumas palhotas dos lavradores daquele concelho, que estes são os troféus que se pode ganhar nestas entradas. Às novas destes acontecimentos, acudiram de Melgaço, o Capitão Mor D. João de Sousa e o Capitão António de Abreu que chagaram quando o inimigo ia já de retirada e o obrigaram a fazer com a maior pressa.”

Para ler “A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte II) CLIQUE AQUI


Para ler “A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte I) CLIQUE AQUI




Extrato retirado de: FIGUEROA, Diogo Ferreira (1644) – Relaçam dos Gloriosos Successos de Portugal, devidas as Armas del Rey D. Joam IV, contra os castelhanos. In: Nova Grammatica Portugueza. Impresso na officina de M. C. Bock, Hamburgo, 1785.

domingo, 28 de agosto de 2016

A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte II)

S. Gregório (Cristoval - Melgaço)
(Foto em coxo-melgaco.blogspot.com)
A Guerra da Restauração (1640-1668) foi um conflito que opôs Portugal e Espanha na sequência do golpe de 1 de Dezembro de 1640 que restabeleceu o nosso país como país independente. Na fronteiras de Melgaço e áreas envolventes foram travados duros combates entre os exércitos dos dois países. Aldeias de Cristóval, Paços, Fiães ou Castro Laboreiro foram incendiadas e saqueadas retribuindo os portugueses na mesma forma em aldeias galegas. Depois das primeiras escaramuças, os espanhóis constroem uma fortificação em Padrenda sediando ali a sua Praça de Armas de forma a melhor defender a linha de fronteira da raia seca, por onde os portugueses realizaram várias incursões em território espanhol. Estes episódios são contados no livro “História do Portugal Restaurado” publicado em 1751 onde podemos ler: “O Marquês de Val-Paraíso, governador da Galiza à época, considerando a sua experiência militar e o que mais convinha à defesa da Galiza e de que podia resultar maior dano a Portugal, elegeu para Praça de Armas o lugar de Padrenda, situada entre o Porto dos Cavaleiros (Lamas de Mouro) e a Ponte das Várzeas (junto a S. Gregório), lugares por onde a nossa gente mais continuadamente costumava entrar na Galiza. Do Porto dos Cavaleiros e Ponte das Várzeas que ficavam em dois lados opostos de Padrenda em distância de légua e meia, fez levantar redutos, conforme as capacidades dos sítios e tão vizinhos que uns a outros se defendiam, animando a todos um grande forte que guarneciam 600 infantes. Para dar fim a este trabalho, se alojou o Marquês em Padrenda com seis mil infantes e 600 cavalos, entendendo que aperfeiçoada esta obra, seria fácil a segurança dos lugares que governava, e infalível a sua ruína dos que pretendiam conquistar. Dom Gastão (que comandava a tropa portuguesa neste setor), tendo aviso deste novo intento do inimigo, reconhecendo o perigo de se conseguir, se resolveu a procurar todos os caminhos de o atalhar, e usando dos meios pouco proporcionais que naquele tempo dispensavam a confusão e falta de experiência. Animou-se com a resolução, a temecidade, ainda que a todos parece o valor imprudente de querer atacar fortificações bem fabricadas e melhor guarnecidas com um trapel de gente sem forma nem obediência, com poucas munições e menos bastimentos e sem mais instrumentos de expugnação que duas ligeiras peças de artilharia. Mas como Deus quiz sempre manifestar entre os nossos a sua misericórdia, não argumentem os que sabem os preceitos da guerra, lendo esta história, a causa das nossa fortunas. Tratem só de lhe dar crédito, na fé de que em nenhum século, e de outra nação, se escreveu até este tempo história mais verdadeira,  porque sem receio, sem ódio, e sem afeição escrevo em umas partes o que vi, em outras o que observarão todos aqueles com que trato e com quem confiro todas as matérias que escrevo.
Resoluto, D. Gastão a atacar o forte de Padrenda, e os redutos sem artifício nem dissimulação, convocou a gente de toda a província. Confiava a que se havia alistado para ser paga, uns quatro mil homens. Porém na disciplina, não havia diferença alguma porque ainda que algumas companhias estavam formadas, não se tinham dividido em terços e todo o corpo junto não era mais que um tumulto de gente valorosa. A maior parte da infantaria paga foi entregue por D. Gastão à ordem de Lopo Pereira de Lima, cavaleiro da Ordem de Malta a que assistia seu irmão Diogo de Melo da mesma Religião e Capitão Mor de Barcelos, alojados ambos em Lamas de Mouro, lugar vizinho ao Porto dos Cavaleiros. Com esta notícia, apressou o inimigo o trabalho e em quatro dias reduziu a obra de defesa. D. Gastão, com outro troço, ficou alojado na Ponte das Várzeas (Cristóval) e para que o inimigo divertisse o poder que tinha junto, mandou entrar na Galiza pela Portela do Homem a Vasco de Azevedo Coutinho e por Lindoso a Manuel de Sousa de Abreu, ordenando-lhes, que segunda feira, nove de Setembro, entrassem na Galiza. No mesmo dia ao amanhecer, dividiu D. Gastão a infantaria em três troços e levantando uma plataforma, fez jogar as duas peças de artilharia que levava, contra o reduto da Ponte da Várzeas (junto a Ponte Barxas) e foram de grande efeito, recebendo o inimigo considerável dano. Os três troços, que governavam Lourenço de Morim, Sargento Mor de Caminha e os Capitães Gaspar Casado Manuel e Martim Coelho Vieira, com grande valor e pouca ordem, superando o embargo de algumas estacadas, avançaram três redutos, e entraram ao mesmo tempo, degolando os soldados que os guarneciam. Ficando aberto o caminho para Monte Redondo, que os galegos haviam reparado, se retiraram os que fugiram para este lugar que ficava vizinho. Depois de arruinados os redutos galegos, os portugueses investiram contra as trincheiras de Monte Redondo, e desemparando o inimigo, entraram no lugar e saquearam-no uma segunda vez. O mesmo fizeram a algumas aldeias que ficavam pouco distantes. Os galegos acudiram àquela parte com três mil infantes e 400 cavalos e achando a gente carregada de despojos, avançaram com resolução e os soldados da ordenança, não querendo pôr em contingência o que haviam roubado, voltaram as costas, não valendo a D. Gastão as grandes diligências que fez para os deter na Ponte das Várzeas. Os oficiais e 500 soldados que ficaram, fizeram rosto ao inimigo e valendo-lhe a aspereza do sítio, se vieram retirando pelas veredas mais estreitas, e deixando 15 soldados mortos e dez prisioneiros, conseguiram valorosamente passar a Ponte das Várzeas sem maior dano. D. Gastão estimulado pela desordem e do mau sucesso, unindo a esta gente alguma que havia detido, logo que amanheceu, tornou a passar a ponte (junto a S. Gregório) e acabou de desfazer todos os redutos e trincheiras o que se conseguiu com tanta diligência que quando os galegos, que não esperavam segunda incursão e acudiram, já os redutos estavam desfeitos. Sem receberem dano, se retiraram à sua vila os nosso soldados. Diogo de Melo e Lopo Pereira, destinados contra os redutos do Porto dos Cavaleiros, juntaram cinco mil infantes e foram alojar-se com eles à vista deste lugar. Nesse dia, apareceu um velho de 70 anos, ao qual perguntando-lhe para o que fora chamado, respondeu que para o ataque daquelas fortificações. O Mestre de Campo António Solis, cabo daquele troço, tornou a remeter o velho para os Maltezes com uma carta, em que dizia que aquele homem fora colhido, e que constando da sua confissão, que era chamado para uma empresa tão galharda, como a de investir contra aquelas fortificações, não queria que se mal lograsse por falta de um soldado de tanta importância, e acrescentava a esta zombaria outras palavras exorbitantes. Teve esta carta resposta com maiores aprobios e à segunda feira executaram os Maltezes (Cavaleiros de Malta) a ordem de investir contra o forte e outros redutos, que era o mesmo dia em que D. Gastão tinha logrado o sucesso referido. Dividindo-se a infantaria em dois troços, dos quais eram cabos os dois irmãos: ao que governava Lopo Pereira, dava apoio o seu irmão António Pereira de Lima com 80 cavalos. Marchou este troço pela parte de Alcobaça e atacou o forte e redutos do sítio da Costa. Diogo de Melo escolheu para atacar o redutos e forte da serra, a empresa mais duvidosa, por ser um sítio mais áspero, o forte maior, e os redutos melhor defendidos e ter o inimigo formado da outra parte da serra, três mil infantes e 200 cavalos para defender o assalto. Conhecendo Diogo de Melo o risco desta empresa se uniu a seus irmãos e formou um corpo de mil infantes que entregou ao Sargento Mor Simão Pita com ordem para que ataque os redutos que primeiro corriam por conta de Lopo Pereira. Feita esta divisão com 4000 infantes e 80 cavalos, deu volta Diogo de Melo ao lugar de Chão de Castro e lançando 500 mosqueteiros por cada um dos lados da serra, com a mais gente ganhou a eminência por entre nuvens de balas e valendo-se da coragem dos soldados, investiu num reduto que os galegos, sem esperar o assalto, desempararam. Favorecidos da mosquetaria dos outros redutos, se recolheram ao forte que estava no alto da serra. Com pouco mais trabalho ganhou Diogo de Melo os outros redutos e seguindo a vitória chegou junto do forte. A grande guarnição que estava nele, entrando-lhe o receio antes de experimentar as feridas, largou o forte sem ter respeito aos oficiais que, ora com rogos, ora com estocadas pretendia detê-la. Mas como ordinariamente nos nossos conflitos em que se acham ânimos covardes, o receio excede ao perigo, se deixaram os galegos matar pelos seus capitães, para não chegar às mãos dos nossos soldados. Entraram eles no forte, de que resultaram muitas mortes. Os Maltezes, tendo logrado a vitória e os galegos, que estavam formados, desemparando o sítio que ocupavam, marcharam para formarem em sitio mais distante. Diogo de Melo com muito acordo mandou tocar a recolher.”


Extraído de: MENEZES, Luiz de (1751) – História de Portugal Restaurado. Tomo I; Oficcina de Domingos Rodrigues; Lisboa.

Para ler a "A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço" PARTE I, CLIQUE AQUI

sábado, 14 de novembro de 2015

As riquezas do rio Minho em Melgaço noutros tempos


Recuamos a um tempo em as água do rio Minho tinham um riqueza que o leitor poderá achar impensável. Um tempo em que encontrávamos neste rio uma variedade de espécies de peixe que hoje em dia é absolutamente inimaginável. Houve tempos em que se apanhavam no rio Minho salmões e camarões de rio. Há pouco mais de um século, o rio Minho, era o único rio onde ainda se pescavam bons salmões em Portugal...
No livro “Notas sobre Portugal” de 1908, podemos ler que “A partir do norte do país, o Minho, que é o primeiro curso de água que banha o nosso território, tem o seu principal destaque por ser o único onde, actualmente, se faz a pesca do salmão, quase desaparecido de outros rios em que antigamente também aparecia, como no Lima, no Cávado e até no Ave. Agora, porem, só um ou outro exemplar desgarrado é conhecido como relíquia de uma pesca tão importante em outros países.
O Minho, que é fronteira portuguesa desde S. Gregório, é aqui bastante largo, de fundo pedregoso, de seixos e calhaus rolados, começando depois a estreitar-se pouco a pouco entre Melgaço e Monção, onde, em alguns lugares, as margens talhadas em rochas graniticas são cortadas quasi a pique. De Monção até a barra o rio espraia-se e as margens tornam-se planas. Este rio não tem açudes que o atravessem de lado a lado, mas sim muros de pedra, chamados pesqueiras, de comprimento variável, que forçam as águas a tornar-se tumultuosas em algumas passagens. O salmão não encontra porem obstáculos à sua subida e dirige-se para as zonas superiores, nas quais a temperatura e a natureza dos fundos são mais favoráveis para a desova.
Neste rio, também vive a truta, que se encontra principalmente nos seus afluentes, onde se refugia no verão, dos quais o primeiro, o ribeiro de Trancoso, que é fronteira oriental, desce de Alcobaça, povoação insignificante situada a uns 800 metros de altitude na vertente da serra de Castro Laboreiro. O ribeiro corre por entre as montanhas fronteiriças portuguesas e espanholas e com grande declive, recebendo as águas de ambas as vertentes, águas frescas e de terrenos graniticos e que descem tumultuosas por entre os despenhadeiros das serras. Ao passar por Alcobaça, o ribeiro atravessa-se por cima de pedras durante o verão. A sua origem fica pouco acima no maciço granítico que se eleva logo atrás daquela povoação e que corre a poente de Castro Laboreiro, um dos pontos culminantes do Alto Minho e de onde deve ir ver-se todo o admirável sistema serrano daquela província e do leste espânico”.
A este respeito, em 1894, o biólogo Adolfo Moller, de Universidade de Coimbra fez a sua “Excursão à Serra de S. Gregório” e refere-se à  riqueza dos rios Minho e Trancoso. Menciona que “No rio Minho encontra-se a truta, boga, escalo, e a enguia, camarões e mexilhões. Na época própria, pescam-se salmões, truta marina, sáveis e lampreias. Em Melgaço, vimos a vender no mercado barbos que diziam ser pescados n'este rio. Na ribeira de Trancoso só se encontram a truta e a enguia.”
O que é que aconteceu a toda esta riqueza do rio Minho. Algo mudou. Que pena...


Extraído de :
- JUDICE, António Teixeira (1908) – Notas sobre Portugal. Volume I; Exposição Nacional do Rio de Janeiro – Secção Portuguesa; Imprensa Nacional, Lisboa.

- MOLLER, Adolfo Frederico (1894) - Excursão à serra de S. Gregório. in: Annaes de Sciensias Naturaes, Volume Primeiro, publicado por Augusto Nobre.

sábado, 8 de agosto de 2015

Assim era S. Gregório (Melgaço) e o rio Trancoso há 130 anos atrás...

Rio Trancoso

No livro "O Minho Pittoresco", de 1886, o autor dá-nos uma rara descrição do lugar e S. Gregório, na freguesia raiana de Cristóval nessa época:
"Chegámos enfim a S. Gregório, o mais importante lugar da freguesia de Cristóval, cuja igreja oculta por detrás da encosta, onde assenta S. Gregório, é o templo que fica mais ao norte em território português.

S. Gregório (Cristóval - Melgaço) no início do século XX

S. Gregório apresenta o aspecto duma pequena vila inclinada sobre o rio Trancoso, que ali voltámos a cumprimentar, como a nossa primeira artéria internacional, artéria que junto a Cevide, último lugar de Cristóval, vai desaguar no Minho e cuja confluência marca igualmente o ponto em que este formoso rio se interna em plena Galiza, ou melhor, em que ele, ao vir de lá, beija pela primeira vez a terra portuguesa.
S. Gregório é, por assim dizer, uma rua única, uma rua verde, em ladeira íngreme até à ponte da Várzea, essa ponte que o nosso desenho representa, e que é a primeira ponte internacional lançada entre os dois países, se não quisermos falar nas poldras de Pousafoles, mais ao nascente, no curso do Trancoso.
Mas, enfim, a ponte da Várzea tem já os seus 4 metros de altura, 6 de comprimento e 2 de largo! É quase a ponte de um lagosinho!
Não se riam dela, contudo, que ali onde a vêem, com os seus dois troncos de castanheiro, lançados de margem a margem, e os seus torrões como pavimento macio, é um símbolo de fraternidade entre dois países que vivem em plena paz, e seria um baluarte de independência a conquistar, quando o clarim de guerra ressoasse desoladoramente por aquelas quebradas fora.
Ponte Várzea é o lugar espanhol, donde o pontilhão tira o nome e que pertence à alcaidaria de Padrenda, com quem S. Gregório faz o seu comércio meio lícito, meio... de contrabando!
Que diabo queriam, porém, que fizesse S. Gregório, se no inverno é a margem de Ponte Várzea que lhe dá por empréstimo um bocadito de sol, a cujos raios vão aquecer-se aqueles pobres friorentos gelados das suas sombras de meses!
Na pequena vila, — chamemos-lhe assim, que não seja senão por patriotismo, — há uma capela onde se festeja Santa Bárbara! Há também... uma aspiração legítima e justa, que os governos só lembram por ocasião de eleições — é a duma estrada que os ligue com Melgaço!


Ponte da Várzea, entre S: Gregório (Melgaço, Portugal) e Ponte Barxas (Padrenda, Espanha)
Desenho de 1886 (in "O Minho Pittoresco)


S. Gregório (Melgaço), no início do século XX

Texto extraído de:
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Viagem a Melgaço e S. Gregório dos anos de 1930, descrita pelo escritor Júlio Dantas (Parte II)

S. Gregório, Cevide, o rio Trancoso e Ponte Barxas


S. Gregório (Cristoval - Melgaço) em 1937

Até pouco antes de São Gregório, os aspectos do vale do Minho não se modificam sensivelmente. O mesmo ritmo lento na ondulação das montanhas a orografia parece reflectir a calma e a doçura do carácter galego, tipicamente celta, os mesmos pinhais hirsutos e verdoengos. Aqui e além, um casal, com a sua varanda envidraçada voltada ao sul, e, acompanhando também a linha do rio, a estrada férrea Orense -Tui, por onde caminhava, quando passámos, um tramway vagaroso e sonolento.
À medida, porém, que vamos avançando, a natureza torna-se mais agreste. O granito aflora, a água jorra de toda a parte. A paisagem adquire uma fisionomia ao mesmo tempo mais expressiva e mais severa. Dez minutos ainda de caminho, e avistamos as primeiras casas de São Gregório, cabrejando na rocha, escoando-se por dois córregos estreitos gorgolejantes de água, íngremes como calejas de velho burgo medieval, que vão dar abaixo, ao rio, conduzindo à ponte internacional de madeira que nos separa da vizinha povoação galega de Puente de Bárzia. É curioso o contraste entre as duas povoações, que testam uma com a outra, de cá e de lá da fronteira. Puente de Bárzia limita-se a um punhado apenas de casebres, de proporções humildes e de nenhum interesse. São Gregório, pelo contrário, é relativamente grande, tem alguns bons edifícios e certo aspecto de prosperidade, expressão de uma actividade comercial que, sobretudo na primeira metade do século passado, parece ter sido considerável. Há nove anos, quando pela primeira vez visitei estas paragens, ainda se encontravam de pé as ruínas de umas casas antigas, com muralhas de fortaleza, refúgio outrora de contrabandistas que, por vezes, se defendiam a tiro. Esta diferença no desenvolvimento das duas povoações fronteiriças é facilmente explicável. O comércio local de São Gregório enriqueceu, noutro tempo, com o que vinha de Espanha, mais do que o de Puente de Bárzia prosperou com o que ia de Portugal.
Há pouco tempo ainda, a estrada de rodagem parava no cimo da povoação. Quem queria descer até ao rio e pisar os últimos palmos de terra portuguesa era obrigado a meter por um quebra-costas de lajedo que estreitava em congosta enfiando até à ponte, entre pocilgas de porcos e jorros de água cachoantes. Não pode afirmar-se que seja propícia a descida, e, muito menos, a subida. Mas a natureza tem, neste rincão minhoto, belezas compensadoras. Muitas vezes me lembrei do grande e saudoso Malhoa, ao transpor alguns recantos viçosos de parreirais em que o sol projectava sombras violetas, e alguns hortejos onde, na polpa das couves galegas, faiscava em gotas a água viva das nascentes. Agora, alcança-se o extremo de São Gregório pela estrada, prolongada há três anos até Espanha, no intuito de estabelecer ligação com a estrada espanhola começada a abrir, nas lombas dos montes galegos vizinhos, por iniciativa de Primo de Rivera. O troço português está pronto. O espanhol parou a pouca distancia da fronteira. Em todo o caso, já pude, de automóvel, atingir o extremo nordeste de Portugal, até ao rio Trancoso, que no verão leva pouca água e que os garotos transpõem de um salto. Parei, durante alguns momentos, nessa «terra última» em que se apoia um dos pilares da nova ponte internacional acabada de construir. De um lado e de outro, as culturas são as mesmas: campos de milho e vinhedos, dispostos em latada, à portuguesa. Ouvia-se, em terras de Espanha, uma voz alegre de mulher cantar em português. Os pardais revoavam, de uma para outra banda, sem respeito pelas determinações da polícia de emigração, e sem pensar que, num simples bater de asas, mudavam de país.
Por instantes, uma borboleta, faiscando ao sol, hesitou entre as duas nacionalidades. E eu, pensando nos destinos dos povos e nas vicissitudes da história, lamentei, não só que a estrada terminasse ali, — mas que terminasse ali Portugal.


Texto extraído da obra:
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

CEVIDE, a aldeia mais a norte de Portugal.

Interessante repostagem transmitida pelo Portocanal sobre a aldeia de Cevide, o ponto mais setentrional de Portugal e a coabitação com os vizinhos espanhois no passado e no presente.