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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A Lenda da Inês Negra contada num jornal brasileiro (1927)


A Inês Negra é a heroína lendária da nossa terra, Melgaço. Não se conhece quase nada acerca desta personagem. Sabe-se que durante o cerco a Melgaço em 1388, houve um confronto entre duas mulheres. Isso é descrito nas Crónica do Rei D. João I de Fernão Lopes ou de Duarte Nunes de Leão que referem mais ou menos o mesmo. Na do segundo autor, podemos ler que “Nesse dia, houve uma escaramuça mais para ver que as até ali eram passadas. Porque duas mulheres bravas, uma do arraial e outra da vila se desafiaram e vieram aos cabelos e por fim venceu a do arraial, como mais costumada a andar na guerra”. Em termos de relatos históricos, são as únicas citações que existem. Nem o nome das mulheres é referido…
Não sabemos ao certo como é que foi construída a narrativa da lenda nem a origem do nome "Inês Negra". As descrições mais antigas documentadas da mais popular lenda melgacense datam da segunda metade do século XIX (conferir em Portugal Antigo e Moderno do professor Pinho Leal) e desde então já lemos a lenda contada de diferentes maneiras e com mais ou menos pormenores.
Uma dessas versões da lenda pode ser lida num texto de Júlio Dantas, publicado num jornal brasileiro (Correio da Manhã), na sua edição de 18 de Outubro de 1927:  

“IGNEZ NEGRA

As mulheres também tem o seu lugar no friso da História guerreira de Portugal. Folheando as páginas das crónicas encontram-se, com frequência, mulheres que se bateram, que realizaram atos heróicos em defesa da Pátria, que estimularam, com ânimo varonil, a coragem dos combatentes, que sacrificaram, pela honra e pela independência, da terra que lhes foi berço, o que tinham de mais caro para o seu coração: o seus filhos. (…)
Mas os mais rico de todos os nossos ciclos guerreiros em figuras femeninas é, sem dúvida, o de D. João I. Deu-la-Deu Martins notabilizou-se na defesa de Monção; Brites de Almeida faz lampejar a pá do seu forno ao sol de Aljubarrota; Maria de Sousa, atravessando o peito de um castelhano, defende a vida do próprio rei; Inês Negra - um dos mais interessantes da História das campanhas do Mestre de Aviz - que eu venho constr-lhes hoje. Vale a pena. Porque em toda a vasta tapeçaria das batalhas que é vida de D. João I, não há talvz nenhum caso tão pitoresco como este.
 Todas as praças da fronteiras norte de Portugal se haviam já entregado aos portugueses. Viana fora liberta pelo povo, conduzido pela bravura do escudeiro Frisos. Ponte de Lima, resgatada pelos habitantes, cujos bustos o Mestre de Aviz mandou colocar no lintel de granito das portal.Monção, Vila Nova de Cerveira, Caminha tinham-nos caído nas mãos. Faltava apenas Melgaço, que levantava ainda a voz por Castela,e cujo alcaíde-mor, o castelhano Álvaro Paez Sottomayor,com trezentos homens de armas e outros tantos a pé, mantinha na pequena vila minhota m perigoso foco de resistência
D. João I, que havia pouco desposara a loura princesa de Lencastre, trouxe-a até Monção. Mandou-a depois para o convento de Fiães, com as suas donas e o chanceler João das Regras e foi assim em pessoa, por cerco ao castelo de Melgaço.
Estavamos em Janeiro de 1388. Recortando-se no céu nevoento dos invernos do Minho, a vila rebelde erguia, numa ligeira ondulação de terreno, os seus cubelos baixos, os panos babados de mugre das suas quadrelas, e a sua esbelta torre albarrã fenestrada de ajimezes e coroada de ballhesteiras. Durante dez dias, o pequeno exército do Mestre de Aviz foi apertando o cerco e construindo as obras de engenharia - a já complicada engenharia medieval dos assédios - necessárias para facilitar a entrada na praça. Enquanto os carpinteiros levantavam a grande bastida, alta torre de madeira montada sobre carros enormes, cheia de escadas e de bailéus, que, na hora do assalto, havia de caminhar até à muralhas, puxada por muitas juntas de bois, - os homens de armas, coruscantes de lanças e de bacinetes ponteagudos, vinham junto da barbacã escaramuçar. No arraial português, em volta de fogueiras, as mulheres dos arredores bailavam com os soldados, ao som de gaitas e de adufes.
Ora, entre as mulheres atraídas pela presença do rei e do exército (algumas houve, sobretudo castrejas, que, com os seus cães e os seus capeiretes negros, desceram da serra para o ver) tornara-se notada uma, a quem chamavam Inês Negra, vinte anos robustos, pequena de corpo, roliça de braços, pele trigueira acobreada do sol, olhos negros e pestanudos, que tinha, mesmo entre os homens, fama de atrevida e de valente e que segurava pelos chavelhos uma vaca barrosã - era boieira, ali perto em Valadares -  com a mesma graça com que se meneava e desnalgava dançando ao som do pandeiro. Todos gostavam dela, o próprio rei, amigo do povo, falava-lhe paternalmente, quando a via. Chegou a correr na vila que Inês Negra, vestida de armas como um homem, acompanharia as hostes de D. João I no assalto à praça. Quando a notícia foi conhecida da parte do povo de melgaço que pactuava com os castelhanos, uma mulher, também portuguesa e também decidida que, com outras da vila, acarretava pedras para as obras de defesa ordenadas pelo alcaide-mor, remangou-se irada, fincou os punhos na cinta e, com os olhos chispando lume, gritou que era mulher para outra mulher. Que para três como a Inês Negra, bastava ela: Que se o alcaíde-mor a deixasse, mandaria desafia-la para combate singular fora das barbacans e que havia de ver-se então quem vivia ali, se Castel, se Portugal. Não deixaram as crónicas o nome dessa heroína. Sabe-se apenas que lhe chamavam a Renegada e que, sendo moça espadaúda e alta, de pé miúdo a dançar nas socas e cabelos fulvos mal cobertos pelo manto de estamenha.
A alcaíde-mor, Álvaro Paes, consentiu no desafio. Inês Negra ao uivos e aos pinchos de alegria, aceitou-o logo. E, sem demora, os de um e outro campo assentaram que o combate se realizaria no dia seguinte, a meia distância entre o arraial e o castelo, saindo as duas mulheres armadas, como escudeiros, de cotas de malha de ferro de Milão, com sua espada e broquel, abrindo-se uma trégua entre sitiante e sitiados para que todos pudessem assitir ao imprevisto espetáculo.
A manhã despontou radioda. Havia muitos dias que as nuvens, mais dessas para as bandas da serra de S. Fins, não deixavam ver um tão belo sol de inverno. A torre de menagem de Melgaço, que se erguia, dourada, na claridade fresca da manhã. Todos os adarves das muralhas e dos cubelos, as próprias barbacans do lado norte, estava tudo coalhado de gente. Povo, homens de armas, besteiros cujos cascos de guerra cintilavam, mulheres com carpeiretes e manteus de cores vivas, assomando, espeitorando-se, risonhas, em ar de festa. Do lado do arraial, o mulherio dos arredores, os homens de armas da hoste, os cavaleiros das Ordens, os besteiros ingleses com os seus jaques e as suas brigandinas bordadas de licornes de ouro, o próprio rei, trigueiro, os braços cruzados, as guedelhas ao vento, esperavam, num vozear confuso, a hora do desafio. Finalmente, ouviu-se o sino da torre albarrã, e as duas mulheres, uma saindo da porta oeste do castelo, outra destacando-se da multidão do arraial, marchavam a pé, com os seus “segundos” - dois cavaleiros velhos sem armas - a caminha da pequena clareira, roçada no mato da charneca, em que devia realizar-se o encontro. De ambos os lados, soararm as trmbetas, como para um torneio real. Os gritos, as aclamações - por Portugal, por Castela! - atroavam os ares. Desfraldaram-se flamulas, bandeiras, pendões, gonfalões de cores nas lanças lampejantes. Duma parte e de outra, todas as atenções convergiram para as duas mulheres que avançavam sorrindo, firmes, vestidas de cotas e loudéis, mas sem manoplas e sem camalhas, as mãos nuas, a cara descoberta, a cabeça apenas defendida por um leve capelo de ferro. Inês Negra meã e forte, trazia no loudel a cruz vermelha de S. Jorge. A Renegada, alta, esbelta, figura de escudeiro mancebo, com os cabelos fulvos escorrendo do casco de ferro ponteagudo, vestia uma sobre-cota, com o falcão de prata de Castela em campo verde. Chagadas ao campo, embraçaram os escudos, receberam os estoques. As trmbetas, dum lado e de outro clangoraram. Ia começar o combate. Quem venceria, - Castela ou Portugal?
Uma das mentiras cenvencionais espalhadas pelo mundo é a da doçura e da fraqueza das mulheres. A mulher, quando luta, é vinte vezes mais agressiva, mais impetuosa e mais cruel do que o homem. A sua aparente graça tímida esconde um poder de combatividade que devia ter sido aproveitado nas guerras modernas. Prova-o - entre tantos outros este divertido episódio do duelo de Melgaço. A primeira a tirar-se, com vigor e com ímpeto, foi a Renegada. Mais alta  do que a outra, dominando-a pela estatura, descarregada golpes sobre golpes, que Inês Negra, ágil, a dançar-lhe na frente, aparava no largo escudo de couro de boi abrochado de cobre. Nenhuma delas conhecia o manejo de armas, atacavam-se e defendiam-se por instinto, com a fereza de duas lobas. Era tal a violência com que a Renegada fuzilava cutiladas sobre a inimiga, que o capelo de ferro voou-lhe da cabeça, e a espada das mãos. Todos suposeram que Inês Negra, vendo desarmada a outra, faria sobre ela a justiça dos vencedores. Mas não. Generosa, lançou fora a espada de que mal sabia servir-se, aeemessou por desprezo o escudo aos pés da adversária, e, rápida, como um podengo que aferra um porco bravo, atirou-se dum salto para ela, aos socos, às dentadas, às unhadas, aos pontapés. Dali a pouco, rolavam as duas abraçadas na arena, qual de baixo qual de cima, resfolegando, uivando, travando-se dos cabelos, ensanguentando-se, cuspindo-se.
À medida que a Renegada fraquejava, a outra parecia crescer em força. Subjugada um momento, dominava logo a inimiga, ferrava-lha os joelhos na arca do peito, varejava-a de punhadas, como quem amssa pão. No arraial, levantava-se um alarido de entusiamo. Mãos crispadas erguiam-se no ar, agitando bandeiras, incitando a Negra quase vencedora. Ainda, por instante, a Renegada, cobrando alento, pôde colher-se d epé, mas sofrendo de novo o embate da outra, vacilou, cambaleou, rodopiou, e mortalmente pálida, a grenha ruiva empapada de sangue, golfando sangue das narinas, caiu como um farrapo, os braços estendidos, de borco na terra. Tinha vencido Portugal. Como um só homem, todo o arraial português, em gritos bárbaros, se ergueu a aclamar a vencedora. As trombetas estrugiram os ares. Batiam, em festa, pandeiros e adufes. Até os besteiros ingleses, sapateando com os seus grossos borzequins de ferro, dançavam de contentamento. Enquanto a vencida, transportada em braços para o castelo, acordava do seu desmaio, - Inês Negra, os olhos brilhantes, os cabelos ao vento, as mãos tintas de sangue, era levada em triumfo para o arraial, sentada sobre os seu próprio escudo, aos ombros de quatro besteiros, e gritava para o rei, que viera recebê-la, á frente de todo o povo:
- A eles, senhor rei, que o castelo é de vossa mercê amanhã!
Com efeito, no dia seguinte, depois de um simulacro de assalto, o castelo de Melgaço entregava-se, sem resistência, aos portugueses”.



Texto de Júlio Dantas, publicado no jornal brasileiro “Correio da Manhã” de 28 de Agosto de 1927.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A nogueira de Paderne (Melgaço) que encantou o escritor Júlio Dantas


Na revista brasileira "Fon-Fon" (!), na sua edição de 2 de Janeiro de 1926, encontramos uma crónica da autoria do célebre escritor Júlio Dantas, que nos fala de uma antiga nogueira em Paderne que encantou o autor numa viagem que ele fez a Melgaço na época. A dita nogueira terá captado a atenção do escritor ao ponto de o mesmo ter escrito um texto acerca dela e da terra. A dita crónica mereceu um comentário de um escritor brasileiro que aqui partilho:
"Acabo de ler uma bela crónica de Júlio Dantas: “A nogueira de Paderne”. É uma página magnífica, cintilante, viva, onde se reflete, espontânea e naturalmente, a alma sentimental do insigne artista da frase, cheia de encantos que comovem, emocionalmente mesmo, bordada de tópicos interessantíssimos sobre as velhas coisas do velho Portugal.
Foi em Melgaço, lá entre as montanhas verdes e gazeadas de neve do Alto Minho, que ele a esboçou no pensamento, ou talvez a tivesse escrito sentado a uma mesa colonial, naqueles terraços sombrios do solar de Penso, numa dessas manhãs luminosas de Junho, em que os campos da pátria lusitana se revestem de gala, a atmosfera refulge e os pássaros cantam, para receber a parcela quente de vida que o sol espalha, doirando as messes e pulverizando de luz as terras, os céus, os horizontes…
A Maldonado d'Anha, o velho fidalgo minhoto, deve Júlio Dantas a excursão aos contrafortes das serras de Pernidelo e da Tenreira, e consequentemente, a Paderne, onde ele viu, com os olhos marejados de lágrimas, a nogueira centenária, isolada na horta dum convento em ruínas, que os frades crúzios habitaram no século XIII: a árvore venerável. “Árvore de um bosque sagrado, cujo tronco gigantesco, harmonioso, lnçado com a nobreza duma coluna, rebentava ao alto em braçadas fortes, atiradas em atitudes humanas de súplica e de imprecação…”
O que ele descreve, ante à magestade daquele símbolo verde, quando só, no páteo do casarão antigo das monjas de D. Paterna, admirando-lhe o perfil estranho e austero, ouvindo-lhe o sussurro macio das folhas, olhando penalizado o cortex carcomido dos anos, como rugas de face humana, invocando, quem sabe, a tradição santa dos bosques orientais – o que ele discorda, é, como diria Wilde, admiravelmente belo!
O cronista, através da ramagens venerandas da nogueira de Paderne, teve a visão do culto religioso dos seus ancestrais, imaginou o ritual pagão com que os crentes medievos celebravam a adoração às árvores sagradas, sentindo, também, ímpetos de orgulho da velha raça ao contemplar o tronco patriarcal, irmão dos que formaram as quilhas singradoras “dos mares nunca dantes navegados”. Único descendente, talvez daquelas galeras de asas brancas pandas ao vento, que, como albatrozes da Civilização, rumavam os horizontes desconhecidos, levando às Índias e à América o padrão glorioso da gente lusa.
No entanto, a nogeira de Paderne estava condenada a morrer! Não sugerisse Maldonado d’Anha a ideia daquela excursão ao antigo solar dos castro Menezes, onde ela vivia serenamente desafiando a implacabilidade dos séculos, sorvendo com os derradeiros alentes o humus da terra avoenga que lhe dava o viço à galhardia pujante – ninho murmuroso das avezinhas de Paderne – da velha nogueira, agora, restaria apenas alguns destroços que o machado devastador do homem deixaria como vestígios de sua selvagem destruição. Mas, antevendo o mal, a bolsa do fidalgo abriu-se generosa, comprando ao “mendigo de Goya” a árvore-suplice, livrando-a, portanto, da sentença bárbara, cuja ação ele glorificou com um amplexo, estreitando nos braços o tronco ruguento da grande nogueira – num “abraço pantheísta de dois velhos”, no qual Júlio Danta admirou “o perfeito símbolo da união milenar da árvore e do homem”.
Essa página brilhante do ilustre cronista imortalizou o gesto de Maldonado d’Anha, que prolongou a existência da relíquia de Paderne, cuja árvore continuará vivendo com os séculos ramalhando frondosa e bela como um espectro venerável do passado, recordando a vida conventual dos ascetas crúzios…"




Extraído de: Revista FON-FON, edição de 2 de Janeiro de 1926, Rio de Janeiro.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Uma estranha história acerca do Solar do Reguengo de Melgaço publicada no Brasil (1935)



Há cerca de 80 anos, é publicada num jornal no Brasil, uma estranha história acerca do Solar do Reguengo de Melgaço. Nessa narrativa, o escritor Júlio Dantas descreve-nos o solar nessa época e fala-nos de uma história maldita relacionada com o local onde as chaves do solar teriam sido enterradas, mais concretamente junto a um cipreste, situado ao lado do casarão. Tanto quanto parece, a história é ficcional. Trata-se de um conto publicado no jornal brasileiro "Gazeta de Notícias" na sua edição de 9 de Junho de 1035. Como tal, não tem relevância histórica!
A história é a seguinte:
História de um velho solar
Em certo rincão do Alto Minho, a dois passos do rio que nos separa de Espanha, há um velho solar pertencente a um dos ramos dos Castros Menezes, - solar que, como quase todos os desta região, têm a sua história. Quando lá estive, fui vê-lo. Atravessaram-se uns campos de milho, descendo um côrrego estreito entre latadas verdejantes. Chega-se a um terreiro em meia laranja, onde dois leões de pedra, com a humildade de cachorros, dormem sobre socos esverdeados de mugre. E ao fim de uma rua lageada, sombria de parreiras, em cujas valetas, corre a água viva, o solar surge, de súbito, diante dos nossos olhos, com o ar ao mesmo tempo solene e carinhoso, magestoso e acolhedor, de todas as moradas fidalgas do norte de Portugal.


Está fechado: o aspeto é vetusto, as paredes ameaçam ruína. É uma construção maciça dos fins do século XVII, de largos cunhais de silharia e telhados amouriscados de quatro águas, formada por um corpo central, com o seu alpendre envidraçado, apoiado sobre colunas de granito e por dois corpos laterais, perpendiculares ao corpo principal, limitando um terreiro solarengo quase todo ocupado por uma escada nobre, exterior, que dá acesso à galeria alpendrada sobre cujo lintel repousa a pedra-de-armas dos Castros-Menezes. A ala direita, constituída em parte pela capela, em no seu prolongamento, para as traseiras do edifício, o antigo paço medieval, cujos restos se vêem ainda, representados por dois botaréus possantes e por uma janela geminada ogival, que olha, como uma vigia esperta, para as bandas de Espanha.
Em volta, nada de particularmente interessante. Campos de milho, com o seu canastro abençoado pela tradicional cruz de pedra na empena. Um cipreste, no terreiro fronteiro, nota melancólica comum a muitos solares minhotos. Uma arribana em cuja sombra se adivinham, pela grande porta aberta, manchas ruivas e buliçosas de gado. Subi a larga escada senhorial para ver melhor a paisagem. As montanhas longínquas, quase roxas no declinar da tarde: os pinhais imóveis e verde-negros, as latadas e os milhos alegres por onde escorria a baba de oiro do sol, - tudo parecia revestir-se duma serenidade virgiliana. Não se ouvia um ruído. Impressionado pelo silêncio da natureza e pelo abandono daquele velho paço desabitado. Ia retirar-me quando uma voz me interpelou:
- Deseja alguma coisa?
Procurei com o olhar a pessoa que se me dirigia. Não vi ninguém. Quando desci a escada, um velho, vestido de negro, meio oculto na sombra, encostado a uma das grossas colunas de granito que suportam a galeria envidraçada, olhava interrogativamente para mim. Era um padre. Pálido, curvado, senil, por certo octogenário, a batina no fio, a volta branca do pescoço esfarrapada, um chapéu mole, tão velho como ele, enterrado na cabeça, o homem singular que me aparecia harmonizava-se, pelo seu abandono, pela sua decrepitude e até pela serena dignidade da sua figura, com o aspeto confrangedor daquele palácio em ruínas. Dirigi-me a ele, de chapéu na mão:
- Pode visitar-se o solar?
- Não pode.
- Está habitado?
- Perderam-se as chaves há sessenta anos.
- Mas Vossa Reverência não vive aqui?
- Que lhe importa ao senhor a minha vida?
O proveto sacerdote tinha razão. Eu viera perturbar, com a minha presença a paz sepulcral daquelas ruínas, de que ele fazia parte integrante. Mas a hostilidade com o pobre velho me recebeu não conseguiu senão aumentar a minha curiosidade a seu respeito. Tirei um cigarro e ofereci-lhe a cigarreira aberta. Pintou-se na fisionomia uma tal expressão de júbilo, e com tanta avidez a sua mão decrepita, incerta, amarela, como um pergaminho antigo, avançou para os cigarros que – confesso – me comoveu.
Dei-lhe lume. O padre sorveu de olhos fechados, voluptuosamente, as primeiras fumaças. Depois, tirou o chapéu, e humilde, curvando a cabeça – um crânio pequeno, redondo, cujos cabelos rasos, duma brancura resplandecente, davam a impressão de um solideu de prata murmurou:
- Obrigado. Já não fumava há dois dias. O tabaco está muito caro.


Daqui a pouco, eu e o padre Matheus – era o seu nome – sentados num poial de pedra, conversávamos mão a mão, como dois amigos. Contou-me ele, então que vivia ali, nas dependências da capela, por favor dos caseiros da quinta. Havia dois anos, ainda dizia missa. Depois, os últimos paramentos podres da humidade do arcaz, foram-se desfazendo aos poucos, os caseiros precisaram da capela para enceleirar o milho porque não cabia no espeigueiro, as pernas inchadas não lhe permitiam celebrar o santo sacrifício e – acrescentou o pobre velho – para ali se entretinha, agora, a ensinar doutrina e a ver qual das duas ruínas desabava primeiro, se ele, se o solar.
- Mas, de quem é este palácio – perguntei ao padre Matheus.
- Era da senhora morgada do Couto de Ruivães, Dona Angélica de castro Menezes de Sousa e Vasconcellos, que Deus haja em sua santa glória. Está desabitado desde que ela morreu.
- Há quanto tempo?
- Há sessenta e três anos. Tinha eu vinte e dois anos, e era, havia um ano, capelão da casa.
- Mas a senhora morgada não deixou descendentes?
- Uns primos de Braga. Logo que ela morreu, vieram aqui, com uma escolta de criados armados armados, levaram em carros de bois e em azémolas toda a mobília. Pratas e alfaias, e não voltaram. Deram depois, de arrendamento, a quinta a um antigo feitor.
- E o feitor, onde mora?
- Morreu. Morava numas casas, além adiante. No solar, nunca mais ninguém entrou, há sessenta anos.
- Apareciam almas do outro mundo?
- Não senhor. Perderam-se as chaves.
- E, há sessenta anos, ainda não tiveram tempo para mandar fazer outras?
Padre Matheus, sentado no poial, defronte de mim, olhou-me longamente. A sua face pergaminhada pareceu-me mais pálida ainda. As mãos tremiam-lhe sobre os joelhos. Tirou do bolso um lenço vermelho de Alcobaça, passou-o pela testa onde borbulhava o suor, sacudiu a cabeça, como a afugentar um maus pensamento, e, depois de um demorado silêncio, disse-me encolhendo os ombros:
Há coisas que parecem mais fáceis do que realmente são. O senho vê ali aquele cipreste?
- Vejo.
- Pois dizem que as chaves estão enterradas ali.
- Nesse caso, porque não as desenterraram?
- Porque quem tentar desenterrá-las, morre.
Não pude deixar de sorrir. A convicção com que aquele sacerdote octagenário, que devia conhecer a vida, se fazia eco dessa lenda ingénua, chegou a enternecer-me. A intenção dos herdeiros da morgada de Ruivães, ao inventar a história das chaves, era evidente. Não lhe convindo que alguém ali fosse, ou porque lá deixaram alfaias que não puderam transportar, ou porque suspeitavam de que as paredes, ou debaixo dos soalhos, houvesse tesouros escondidos, os primos de Braga tinham posto de sentinela ao solar o mais vigilante de todos os guardas: o medo da morte.
O senhor não acredita, - continuou o padre Matheus.
- Mas é verdade. Dois, vi-os eu cair mortos, como se os fulminasse a ira de Deus. Um foi o feitor Justino. Parece que o estou ver. Honrado, valente como as armas! A mulher queria meter aquela porta dentro, e ele não deixou.
- Não. A porta dos fidalgos não se arromba”.
Mais tarde, começou a correr que as chaves estavam enterradas ali, ao pé do cipreste. O feitor ria-se, como o senhor. Um dia, perguntou-me ele:
- Padre Matheus, porque não há-de a gente ver?
Despiu a jaleca, remangou duma enxada, e quando ia descarregar o primeiro golpe na terra (já se passaram sessenta anos e ainda parece que vejo faiscar o ferro, ao sol) caiu de borco, de braços estendidos, como se o tivesse varado uma bala.
- Alguma congestão, naturalmente.
- Só Deus o sabe. O certo é que, durante muitos anos, ninguém mais se atreveu, sequer, a pisar a terra em volta daquela árvore de morte. Aquele chão era sagrado. Uma tarde, porém, parou aqui um almocreve, homem ruivo, mal encarado, que fazia pela serra, a recovagem do Lindoso, e ouviu falar nas riquezas do solar e nas chaves enterradas. Contra o seu costume, porque nunca se albergava cá, pediu pousada aos criados nessa noite. Na manhã seguinte, foram dar com ele morto, ao pé do cipreste, com uma sachola nas mãos, já meio devorado pelos cães. Bem  feito, que era um ladrão! Estes foram os que eu vi. Mas houve outros. Um deles – moço de lavoura do feitor novo – ainda não se cumpriram dez anos sobre a sua morte. O feitor queria o paço todo para celeiro, mas não se atrevia a procurar, por suas mãos, os chaveirões na terra.
- Vou lá eu, patrão! – gritou o moço, travando da enxada. Estava ali, ao pé da arribana. Mal deu dois passos para a árvore , caiu por terra em convulsões, que parecia possesso do demónio. - Deus me perdoe! – e, dois dias andados, dava o corpo à terra, no adro de Paderne.
Ora o senhor quer ver o o solar, não é verdade? Pois bem. Vá buscar as chaves, onde elas estão, se é capaz.
Ri-me, encolhi os ombros com a fácil superioridade das pessoas que não acreditam nestas coisas, dei outro cigarro ao padre Matheus, e mudamos de assunto. Mas – confesso-o – apesar de ter a certeza de que, ao pé daquele cipreste, não se encontravam nenhumas chaves, eu ainda hesitaria antes de desbravar a terra, para as procurar.”


Fonte: Jornal “Gazeta de Notícias”, edição de 9 de Junho de 1935.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Viagem a Melgaço e S. Gregório dos anos de 1930, descrita pelo escritor Júlio Dantas (Parte II)

S. Gregório, Cevide, o rio Trancoso e Ponte Barxas


S. Gregório (Cristoval - Melgaço) em 1937

Até pouco antes de São Gregório, os aspectos do vale do Minho não se modificam sensivelmente. O mesmo ritmo lento na ondulação das montanhas a orografia parece reflectir a calma e a doçura do carácter galego, tipicamente celta, os mesmos pinhais hirsutos e verdoengos. Aqui e além, um casal, com a sua varanda envidraçada voltada ao sul, e, acompanhando também a linha do rio, a estrada férrea Orense -Tui, por onde caminhava, quando passámos, um tramway vagaroso e sonolento.
À medida, porém, que vamos avançando, a natureza torna-se mais agreste. O granito aflora, a água jorra de toda a parte. A paisagem adquire uma fisionomia ao mesmo tempo mais expressiva e mais severa. Dez minutos ainda de caminho, e avistamos as primeiras casas de São Gregório, cabrejando na rocha, escoando-se por dois córregos estreitos gorgolejantes de água, íngremes como calejas de velho burgo medieval, que vão dar abaixo, ao rio, conduzindo à ponte internacional de madeira que nos separa da vizinha povoação galega de Puente de Bárzia. É curioso o contraste entre as duas povoações, que testam uma com a outra, de cá e de lá da fronteira. Puente de Bárzia limita-se a um punhado apenas de casebres, de proporções humildes e de nenhum interesse. São Gregório, pelo contrário, é relativamente grande, tem alguns bons edifícios e certo aspecto de prosperidade, expressão de uma actividade comercial que, sobretudo na primeira metade do século passado, parece ter sido considerável. Há nove anos, quando pela primeira vez visitei estas paragens, ainda se encontravam de pé as ruínas de umas casas antigas, com muralhas de fortaleza, refúgio outrora de contrabandistas que, por vezes, se defendiam a tiro. Esta diferença no desenvolvimento das duas povoações fronteiriças é facilmente explicável. O comércio local de São Gregório enriqueceu, noutro tempo, com o que vinha de Espanha, mais do que o de Puente de Bárzia prosperou com o que ia de Portugal.
Há pouco tempo ainda, a estrada de rodagem parava no cimo da povoação. Quem queria descer até ao rio e pisar os últimos palmos de terra portuguesa era obrigado a meter por um quebra-costas de lajedo que estreitava em congosta enfiando até à ponte, entre pocilgas de porcos e jorros de água cachoantes. Não pode afirmar-se que seja propícia a descida, e, muito menos, a subida. Mas a natureza tem, neste rincão minhoto, belezas compensadoras. Muitas vezes me lembrei do grande e saudoso Malhoa, ao transpor alguns recantos viçosos de parreirais em que o sol projectava sombras violetas, e alguns hortejos onde, na polpa das couves galegas, faiscava em gotas a água viva das nascentes. Agora, alcança-se o extremo de São Gregório pela estrada, prolongada há três anos até Espanha, no intuito de estabelecer ligação com a estrada espanhola começada a abrir, nas lombas dos montes galegos vizinhos, por iniciativa de Primo de Rivera. O troço português está pronto. O espanhol parou a pouca distancia da fronteira. Em todo o caso, já pude, de automóvel, atingir o extremo nordeste de Portugal, até ao rio Trancoso, que no verão leva pouca água e que os garotos transpõem de um salto. Parei, durante alguns momentos, nessa «terra última» em que se apoia um dos pilares da nova ponte internacional acabada de construir. De um lado e de outro, as culturas são as mesmas: campos de milho e vinhedos, dispostos em latada, à portuguesa. Ouvia-se, em terras de Espanha, uma voz alegre de mulher cantar em português. Os pardais revoavam, de uma para outra banda, sem respeito pelas determinações da polícia de emigração, e sem pensar que, num simples bater de asas, mudavam de país.
Por instantes, uma borboleta, faiscando ao sol, hesitou entre as duas nacionalidades. E eu, pensando nos destinos dos povos e nas vicissitudes da história, lamentei, não só que a estrada terminasse ali, — mas que terminasse ali Portugal.


Texto extraído da obra:
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Melgaço no livro "Viagens em Espanha" de Júlio Dantas (Parte I)

No centro histórico da vila de Melgaço (Foto de J. Melo)

A vila de Melgaço, a nova Câmara Municipal, o castelo e a Orada


"Um dos meus passeios predilectos, quando me encontro no alto Minho, é o chamado «passeio de S. Gregório», ao longo da fronteira de Espanha, desde Melgaço, cuja doirada torre se recorta no friso das serras galegas, até Puente de Bárzia, ou seja até ao extremo nordeste de Portugal.
A princípio, o caminho que levamos não nos oferece imprevistos, nem belezas que especialmente o recomendem. Campos verdes de milho, limitados, à beira das congostas, pelas latadas armadas sobre postes de granito. Aqui e além, os canastros, tão característicos da região, com a cruz numa das empenas e um relógio de sol na outra. De espaço a espaço, a bênção de pedra dos cruzeiros e das “alminhas”, que por toda a parte acompanha as carinhosas estradas minhotas. É na volta da vila que a paisagem começa a prender-nos a atenção.
Infelizmente, o novo edifício da Câmara, inestético e mal colocado, prejudica o efeito da torre do castelo, tão harmoniosa nas suas proporções, do alto de cujas balhesteiras, no tempo de D. João I, as trombetas saúdaram a vitória de Inês Negra, símbolo da mulher enérgica e robusta destes lugares, — torre, aliás, já estragada, como outras albarrãs pré-dionisianas, pelo relógio que lhe encastraram na silharia veneranda.
Todo o interesse de Melgaço se resume nessa relíquia da arquitectura militar do século XIII, onde se sobe com dificuldade para admirar um horizonte vasto, que se estende até ao oceano. Dali por diante, o caminho é uma maravilha. A estrada, recentemente reparada, uma das melhores da região, acompanha a linha de água, serpeando com o rio, que, ora calmo, ora em açudes que rumorejam, cintila ao sol vivo da tarde.
A certa altura -— tantas voltas dá a estrada — já não sabemos onde fica a Espanha e onde fica Portugal. O ponto em que o horizonte é mais extenso e mais belo é no cruzeiro da Senhora da Ourada.

Nas lombas dos montes galegos, a vegetação, por vezes rica, desentranha-se numa  orquestração de verde em vários tons, que vai desde o verde-negro das largas manchas de pinhal até ao verde-dourado dos vinhedos em socalco e ao verde-cinzento das lindadas e hortas que descem quasi à flor do rio. É aí, um pouco antes de chegar ao cruzeiro, que nós  podemos admirar a pequena ermida românica, com o seu pórtico de três arquivoltas, a sua sineira na empena, a enfiada de modilhões que, de um lado e de outro, sustentam a arquitrave, enriquecidos de motivos diferentes, e a nobreza dos seus silhares, todos eles marcados das siglas dos canteiros que os trabalharam. A nossa atenção divide-se entre esta jóia de pedra, onde se releva o escudo heráldico de São Bento e se descobrem, do lado do Evangelho, alguns modilhões de forte sentido naturalista, e a paisagem variada, ora bárbara ora idílica, cujo sentimento pagão o mestre arquitecto da ermida simbolizou na mulher nua que, num dos cachorros, ostenta os sinais da maternidade." 

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Texto extraído da obra:
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.