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sexta-feira, 9 de abril de 2021

Melgaço, 9 de Junho de 1808 - No dia em que esta terra desafiou os invasores

 


Durante a primeira invasão francesa, iniciada em 1807, Portugal encontrava-se ocupado e a corte tinha fugido para o Brasil. A partir de Junho de 1808, a oposição à presença de tropas francesas leva aos primeiros levantamentos no norte do país. Segundo NEVES, J. (1811), Melgaço, em 9 de Junho deste ano de 1808, terá sido a primeira terra, ou das primeiras do país a desafiar a ocupação francesa...

"Naquela parte da província do Minho onde o rio deste nome, descendo da Galiza, entra em terras de Portugal, terminam estas num ângulo o mais setentrional do reino, e é aqui que está situada a vila de Melgaço, pequena e pouco considerável em si mesma, que, porém, deve ficar memorável na história. É em Melgaço que prendeu o fogo sagrado em 9 de Junho, para não mais se extinguir, nem mesmo na segunda invasão dos franceses debaixo do comando do Marechal Soult: ficou livre o recanto desta vila e seus contornos da nova torrente assoladora que se espalhou por todo o resto da província e abrangeu uma grande parte da Beira Alta e Trás-os-Montes. Feliz terra! Queira o céu conservar-te o brasão de nunca mais receberes as leis do usurpador, desde que naquele fausto dia abjuraste intrépida o seu nome odioso! 

D. António Maria Mosqueira de Lira, provinciano ilustre do reino da Galiza, e aparentado com alguns grandes de Espanha, apresentou-se em Melgaço em casa de seu cunhado Caetano José de Abreu Soares, e anunciando secretamente ao Corregedor, que servia de Juiz de Fora, Filipe António de Freitas Machado, aí veio este, e tiveram uma conferência. A este tempo concorreu também António de Castro Sousa Meneses Sarmento, descendente ilustre pela linha da primogenitura dos antigos Castros de Melgaço, o qual, tendo servido dignamente o Soberano e a pátria na carreira da magistratura, se achava então retirado em sua casa; do que todos conferiram e trataram, resultou ficar decidida a aclamação. 

Mosqueira tinha vindo prevenido com pouca gente armada, que deixara a pouca distância, e a fez logo entrar. Vieram também incorporados o Corregedor de Milmanda, o Abade de Esteriz e outras pessoas distintas da Galiza; e sendo dia de feira em Melgaço, e por isso de um numeroso concurso, os portugueses se unem aos espanhóis, e em presença do Juiz de Fora, que os observava no próprio campo da feira, soltam alegres vivas ao Príncipe Regente e detestações violentas contra Napoleão e seus delegados. Imediata ao campo da feira está a porta da vila, sobre a qual se achavam cobertas as Armas Reais; o povo as descobre num momento; passa depois a fazer o mesmo às da casa da Câmara e da fonte da vila; e para que a obra não ficasse imperfeita, o Corregedor de Milmanda com uma partida dos seus foi também descobrir as fonte de S. João da Orada, que ficavam em alguma distância. Tomás José Gomes de Abreu, Jacinto Manuel da Rocha Pinto, o Capitão mor João António de Abreu e o Doutor Miguel Caetano foram dos primeiros, e mais activos, que trabalharam nesta empresa, mas tiveram muitos outros companheiros que mostraram o maior patriotismo. 

Não contentes os habitantes de Melgaço com o que haviam praticado dentro dos muros e nos subúrbios desta vila, eles quiseram levar a revolução aos povos vizinhos. Com efeito, num dos dias seguintes eles foram aclamar o nosso legítimo Soberano e descobrir as Armas Reais na ponte de Mouro, termo de Monção, tendo na sua passagem praticado o mesmo no concelho de Valadares. 

Determinou-se para o dia 10 a inauguração solene do estandarte nacional em Melgaço. O da Câmara foi arvorado no revelim do castelo, por entre novos vivas e aclamações, e com repetidas salvas e toques de sinos, antes e depois de um Te Deum e sermão que se celebraram nesse mesmo dia; e como eram necessários dois estandartes, para não haver falta nas acções da Câmara, o Juiz de Fora convocou os alfaiates da terra para fazerem um novo, como realmente fizeram numa manhã, e não se afastou deles enquanto não o concluíram. Estas pequenas circunstâncias, que parecem pequenas a quem as lê de sangue frio, são as que melhor manifestam na efervescência dos espíritos os verdadeiros sentimentos que existem nos corações, a fidelidade e o entusiasmo dos que as praticam*.  

Até aqui era tudo alegria, mas dois dias depois houve uma terrível comoção, causada pela falsa notícia de que um exército francês havia desembarcado nas costas da Galiza, e tinha já um corpo de tropas na Caniça, povoação fronteira a Melgaço, para entrar nesta vila pela raia seca. A crise era terrível, porque achando-se estes povos absolutamente indefesos, não se lhes oferecia senão a alternativa de se humilharem ou resistirem; e em ambos os casos era muito arriscada a sua sorte: eles escolheram, sem hesitar, o mais heroico. Todos se puseram em movimento à voz dos sinos, e correram para a parte por onde se esperava o inimigo com duas peças de artilharia, as únicas que havia montadas, até o sítio da ponte das várzeas, onde residia o Capitão mor. Quando chegou o ajuntamento, já este sabia por um portador, que tinha mandado a Galiza, que tudo por lá se achava tranquilo, não havendo nem o mais leve rumor de inimigos por aquele lado. 

Quando não devia já tratar-se senão de se restituírem todos a suas casas, a intriga e a discórdia, inimigos implacáveis da humanidade, que raras vezes podem separar-se destes ajuntamentos tumultuários, principiaram a derramar os seus venenos sobre gentes que não se tinham ajuntado senão para o justo fim de defenderem os direitos do Soberano, a religião e a pátria. Um paisano insolente, ostentando valentias, quando a ideia do perigo se tinha desvanecida, incita os povos para que marchem mais adiante e se façam fortes, enquanto o Capitão mor lhes ordenava prudentemente que se retirassem, prevenindo as desordens que o ajuntamento podia produzir. O paisano, inculcando patriotismo e valor, chegou a meter as mãos a duas pistolas contra o Capitão mor; mas felizmente o seu orgulho ficou confundido às mãos de outro paisano honrado, que, no meio da sua justa cólera, não pôde conter o transporte de pegar no insolente e o pisar aos pés.  

Sufocado este primeiro sintoma vertiginoso, outro se levanta, que ia tomando um aspecto mais sério. Matias de Sousa e Castro, militar distinto com o posto de Tenente no desorganizado regimento de Valença, correu com os outros ao rebate de uma quinta onde se achava; e vendo arvorada na vila a bandeira encarnada, em sina de guerra, quis persuadir ao Juiz de Fora que a mandasse arrear, não por traição ou por fraqueza, pois pelo contrário foi um dos mais activos em dar as providências de defesa, mas sinceramente porque, dizia ele, a bandeira não aumentava nem diminuía as forças e os recursos, e vendo-a, os franceses se irritariam e passariam tudo à espada. O Juiz de Fora não anuiu à proposta, mas houve quem fosse espalhar a voz entre o povo, ainda congregado, que ele tinha feito arrear a bandeira, e foi o mesmo que lançar uma faísca sobre a pólvora. Levantou-se um tumulto em que ficou desde logo decretada a morte do Juiz de Fora; e para executarem este projecto, alguns dos amotinados se encaminharam para a vila; pararam e ficaram tranquilos, à vista da bandeira, que existia arvorada como dantes. Soube-se depois o conselho que o militar havia dado, e voltaram-se contra este, que, avisado a tempo, pôde a muito custo salvar a vida nos pés do seu cavalo. 

Por esse mesmo tempo recebeu o Juiz de Fora uma daquelas furiosas cartas que Lagarde tinha escrito aos ministros territoriais por ocasião dos movimentos do Porto; ele não a publicou, mostrando-a somente a algumas pessoas da sua confiança, e continuando sempre a animar os progressos da revolução. Como os povos se viam sem tropas, sem armas e sem munições, recorreram ao Bispo e à Junta de Orense, e não foi debalde, porque das tropas que ali comandava o Marquês de Valadares, se destacaram logo alguns corpos para Milmanda e Celanova, prontos a entrarem no território português em caso de precisão. 

Numa nota pessoal de Acúrsio das Neves, pode ler-se que “Como nenhum dos escritos que a imprensa tem publicado faz menção destes sucessos de Melgaço, ficando confundidos no quadro da revolução pela distância e pequenez do seu teatro, instruirei os meus leitores dos documentos por onde eles se me fizeram constantes. Além de outras memórias que me foram transmitidas por canais verídicos, tenho em meu poder [uma] certidão de um termo em que se referem sumariamente os ditos sucessos do dia 9, lançado a folha 197 do livro do registo da Câmara daquela vila, que teve princípio em 15 de Março de 1803, e é sobrescrita a certidão pelo respectivo escrivão Joaquim Daniel Torres Salgado. Consta-me que existira outro termo, em que se referiam com mais extensão estes sucessos, mas que fora rasgado quando se aproximaram a Melgaço as tropas do Marechal Soult na segunda invasão. Tenho mais uma atestação do mesmo escrivão, outra do próprio Caetano José de Abreu Soares, e outra da mesma Câmara, que conferem nos factos essenciais; e finalmente a cópia de um requerimento apresentado à Câmara por um particular, para ela o representasse aos Governadores do Reino, a fim de se restituir a Melgaço a primazia da restauração, que se queixava estar-lhe usurpada nos papéis públicos por outras terras do reino, no qual se faz uma miúda exposição dos factos, e se acha um acórdão do teor seguinte: Acórdão em Câmara, que visto serem verdadeiros os recontados factos, que atestamos, se registe este requerimento e se remeta. Melgaço, em Câmara de 4 de Outubro de 1808. Com quatro assinaturas.” 





Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 126-135]. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Acerca da contribuição de guerra de Melgaço para os franceses (1808)




Em Novembro de 1807, iniciava-se a primeira invasão francesa a Portugal, comandada pelo general Junot. Rapidamente, as tropas de Napoleão ocupam o país, contando com a preciosa ajuda de tropas espanholas, sem encontrar qualquer tipo de resistência por parte das nossas tropas. Durante a ocupação, o nossa país foi saqueado, tendo inclusivamente os franceses exigido a Portugal uma contribuição de guerra de 100 milhões de francos. Não satisfeitos, ordenaram a entrega das peças de ouro e prata das igrejas, capelas e confrarias.
De Melgaço, terão saído também algumas peças valiosas como parte dessa pesada contribuição de guerra, ainda que sejam muito escassas as provas documentais da entrega desses artigos. Um dos poucos documentos que atestam tais factos é um termo lavrado em Março de 1808, pertencente à velhinha Confraria do Espírito Santo, da vila de Melgaço, fundada no século XVI mas desaparecida há muito tempo. Esse velho manuscrito é citado por Augusto C. Esteves num livro publicado há quase 70 anos, “Melgaço e as Invasões Francesas”, onde o autor nos fala da entrega de um conjunto de artigos de prata da citada confraria, com vista a serem entregues aos franceses.
No dito livro, podemos ler: “Se por qualquer capricho da Fortuna, não ficou no Porto para os espanhóis, naqueles primeiros carros, como lembranças de Melgaço, lá ia também alguma coisa, afim de ser conduzida para França, no fim da campanha, graças à malfadada Convenção de Sintra.
E isto se escreve apesar de ninguém saber onde param os termos de entrega das pratas das igrejas, capelas, confrarias e irmandades do nosso concelho, termos lavrados na primeira quinzena do mês de Março [de 1808] , ao abrigo das instruções publicadas no dia 27 do mês anterior na casa do tesoureiro da décima, onde os culturais foram obrigados a levar aqueles bens igrejários confiados à sua guarda para serem relacionados e pesados na frente do Juiz de Fora da comarca, e isto se escreve e isto se afirma, porque na falta de tais documentos, guarda-se na minha casa memória de outra espécie.
Com toda a simplicidade, mas a reacender tanto limpeza de mãos como receio das consequências susceptíveis de surgirem num futuro incerto, ainda e sempre possível naqueles tempos de invasão estrangeira, se acaso não representa somente o simples protesto contra a forçada entrega ao invasor das coisas de Deus, di-lo um velho Livro de Actas duma velha confraria da Vila – a do Espírito Santo, fundada aí por 1578 e há muito desaparecida para os actos do Culto.
Ouçamos a voz longínqua:

"Aos seis dias do mês de Março de mil oitocentos e oito annos por Ordem do Governo deste nosso Reino se remeteu para a Cabeça da Comarca a prata desta confraria que foi a Cruz com sua haste, o Caldeiro com seu hezope, humas galhetas com seu prato, hum turibulo com sua naveta, e a vara do Reverendo Prior, que tudo pezou doze arrateis e meio, e meia quarta digo e meio, e hua quarta. E determinamos que para o transporte da dita prata visto as ordens determinarem ser à custa da Confraria, o Thezouro desta satisfará e enporte do seu transporte que se lhe levará em conta. E para constar se fez este termo que assynamos. Em meza do dia, mês, anno ut supra.
O Prior, Pedro da Ribeira Araújo Castro
O Padre Francisco António da Cunha
O Eleito, o Padre João Manuel Durães
O Prometor, Padre Manuel Alvarez Torres
O Procurador, Padre José Lopes”

E isto sabia-se aqui na terra, era público e era notório. Comentava-se. Havia más vontades...”
Em Melgaço, não há provas que atestem que tropas napoleónicas tenham passado por aqui. Sabemos que as autoridades melgacenses, ao contrário das ordens dos franceses no sentido de destruírem todas as armas reais nos edifícios públicos, mandaram colocar argamassa sobre as mesmas. Esse procedimento foi seguido, por exemplo, na Fonte da Vila ou na Câmara Municipal.
Os franceses foram expulsos de Portugal em 1808 mas voltariam mais duas vezes…





Fontes consultadas:
- ESTEVES, Augusto César (1952) – Melgaço e as Invasões Francesas. Tipografia Melgacense, Melgaço.
- SILVA, João Paulo Ferreira (2015) – Primeira Invasão Francesa – 1807 – 1808 – A invasão de Junot e a revolta popular. Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Quando alguns melgacenses foram socorrer os galegos dos soldados franceses (1809)




As três invasões francesas, ocorridas em princípios do século XIX a Portugal mudariam o nosso país para sempre.
Não existem registos de que as tropas francesas tenham estado alguma vez em Melgaço. Contudo, em 1809, na 2ª Invasão Francesa, as tropas napoleónicas, pretendiam entrar em Portugal atravessando o rio Minho. Começaram por tentar entrar em Caminha, depois em Cerveira e depois ainda Valença enchendo barcas de soldados para atravessar o rio. O plano era ocupar esta última vila. Contudo, todas essas tentativas não foram bem sucedidas. A complicar a vida aos franceses, havia ainda a má relação entre as tropas napoleónicas e as comunidades da Galiza. Um dos episódios mais célebres foi a insurreição dos aldeões na Ponte de Mourentan (Arbo) encabeçada pelo padre Mauricio Trancoso, pároco do Couto, entre outros atos de revolta contra a presença francesa na região encabeçadas por este pároco. Alguns destes episódios, são-nos contados na publicação “Gazeta del Gobierno” espanhol de 17 de Março de 1809, especialmente quando alguns melgacenses foram socorrer os galegos dos soldados franceses:
Lisboa, 28 de Fevereiro - Escrevem de Viana, com data de 20 do corrente, que todo o dia 17 e parte do 18 (de Fevereiro de 1809) atiraram os franceses, posicionados na outra margem do Minho, com canhões de 18 e 24 e apesar de terem acertado em algumas casas, foi sem dano de maior. Vendo que com isto não se atemorizavam, ontem retiraram-se daquela paragem, depois de alguns saques, levando algumas donzelas. Contudo, logo os nossos, havendo observado, juntaram os frades do Convento de São Domingos e uma Companhia de Ordenança da mesma vila, passaram o rio até à margem oposta e trouxeram as duas peças com que os franceses os tinham atacado.
Das fronteiras da Galiza chagaram notícias do dia 20 deste mês, de que em Tui em frente a Vilanova e em Salvaterra havia bastante tropa inimiga, havendo muitos movimentos para entrar no nosso reino (Portugal) em barcas pelo rio Minho. Mas a nossa tropa fez-lhe dura resistência com ações de grande valor.
Acaba de chegar a notícia a Viana por três sujeitos, com testemunhos coincidentes, que no dia 19 em frente a Melgaço na Galiza, desconfiando os franceses dos galegos, começaram a “pasarlo todo á cuchillo”. Os galegos gritavam aos portugueses para eles os fossem socorrer, e estes passaram a toda a pressa num grande número de barcas, obrigando os franceses a retirar-se mais acima, ficando estes com 80 mortos (número certamente exagerado!) e dos nossos, apenas ficou um ferido.”
Em Melgaço, pelos vistos, falava-se que “os franceses eram piores que feras; queimaram uma igreja e alguns lugares em Sacariñas e Muzetan. Temos à nossa vista mais de 60 homens de infantaria e de cavalaria. Acredita-se que se dirigem para Lugo por não poderem realizar os seus intentos de entrar em Portugal”.
As tropas francesas iriam atravessar o rio Minho em Orense e iriam entrar em Portugal pela fronteira de Chaves, a partir de onde iriam avançar para Braga e depois para o Porto. Seriam expulsos pelas tropas portuguesas e inglesas e sairiam por Montalegre em direção a Orense.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Como defender Melgaço de uma invasão em finais do século XVIII?


Em finais do século XVIII, Portugal temia um novo conflito com Espanha e o clima de elevada tensão gerado na Europa pela Revolução Francesa, fez com a Coroa Portuguesa tomasse algumas medidas com vista a proteger as nossas fronteiras de possíveis ataques a partir do lado espanhol.
Desta forma, temia-se que a guerra estivesse eminente. Foi então ordenado ao exército, mais especificamente ao Real Corpo de Engenheiros, que realizasse uma série de memórias sobre as condições de defesa da fronteira e do território português. Um desses engenheiros era Custódio Villas Boas que nos deixou importantes apontamentos sobre as estruturas de defesa de Melgaço em finais do século XVIII:
"O território fronteiriço entre os vales dos rios Minho e Lima, era ocupado pela vasta serra da Peneda, considerada intransponível por um exército moderno, não obstante os caminhos existentes no planalto de Castro Laboreiro, por onde comunicavam as populações locais, de ambos os lados. Em todo o caso, estas estradas estavam em muito mau estado de conservação, dificultando a progressão de um qualquer exemplo que pretendesse viajar com todo o seu trem de artilharia e provisões. Na eventualidade de esta situação ocorrer, era aconselhado um ataque imediato nesta área, de forma a limitar as possibilidades do inimigo.
De qualquer forma, para a vigilância e proteção desta área, existia o castelo de Castro Laboreiro, de planta medieval reformulada ao longo dos anos de acordo com a exigências militares, equipado com algumas peças de artilharia.
Desde Castro Laboreiro, à entrada do rio Minho, a fronteira era estebelecida pelo vale do rio Trancoso - também designado por “rio das Várzeas” - cujo vale de margens abruptas era considerado impenetrável. Os únicos pontos de passagem seriam duas pontes: a Ponte de Pouzafolles, ainda em área de montanha, e e Ponte das Várzeas, constrída em madeira no lugar de S. Gregório.
Por ocasião da denominada “Guerra Fantástica, em 1762, foi construído um pequeno reduto para vigiar a estrada do vale do rio Minho, embora estivesse arruinado em 1800.
A partir do rio Trancoso, a fronteira entre Portugal e a Galiza passava a ser estabelecida pelo curso do rio Minho, considerado por Villas Boas “um formidável fosso aquático das praças fronteiras, com 80 a 100 braças de largura média, e barreira de força ativa que em tempos de guerra equivale a muita tropa e reduplica a defesa daquelas praças”.
A primeira das defesas da fronteira Norte do Alto Minho, seguindo o curso do rio de montante para jusante, era a vila de Melgaço, equipada com 15 canhões e uma “obra coroa” (fortificação exterior à muralha) sobre a estrada para a Galiza. O castelo, de muralha circular e antiga, não era considerado aptp para a defesa, pelo que, Villas Boas o indicava para servir de quartel e armazém de víveres das tropas estacionadas naquela parte do território.
Deste  modo, a defesa da entrada do rio Minho, deveria ser feita no rio Trancoso, onde seria necessário construir alguns entreicheiramentos, equipados com os canhões de Melgaço, ao mesmo tempo que se demoliria a Ponte das Várzeas a fim de dificultar o movimento inimigo.
Em caso de invasão, as tropas portuguesas retirar-se-iam para as montanhas oferecendo a maior resistência possível. Combinando as caraterísticas do terreno com os meios militares, era possível opor uma eficaz resistência ao invasor, apenas com um pequeno número de homens: 32 artilheiros, um batalhão de infantaria, e alguma milícia e ordenanças, se o inimigo fosse em número muito superior, peder-se-ia recorrer aos reforços de Monção.
Em 1800, Villas Boas indicava já que a Ponte das Várzeas estava arruinada e o castelo de Melgaço havia sido desguarnecido da suas artilharia havia pouco tempo. O autor nada diz sobre o possível exist~encia de entricheiramentos, mas esta informação poderá constituir um indício das preparações para a defesa da Província, seguindo as diretrizes apontadas por aquele engenheiro militar.
O vale do rio Minho, desde a sua entrada em Melgaço até Monção, corria apertado por margens escarpadas, sobretudo a margem norte, o que dificultava a sua passagem. Vallas Boas identificava apenas um local onde seria possível ao inimigo atravessar o rio: o lugar do Salto situado a meio caminho entre Melgaço e Valadares (o local está perfeitamente identificado nas diversas variantes do Mapa da Província). Este ponto fraco na linha de defesa portuguesa, era já conhecido pelos espanhóis que, em conflitos anteriores, tentaram ali atravessar o rio, pelo que os portugueses construiram uma bateria provisória que deveria ser renovada e construída com melhor qualidade."
A guerra vai acontecer em 1801 com a invasão franco-espanhola.



Informações extraídas de: MOREIRA, Luís Miguel (2008) - O sistema defensivo do Alto Minho em finais do sés. XVIII. In: Cad. Vianenses; nº 41; 

sábado, 17 de outubro de 2015

Estratégia para defender Melgaço de uma invasão - o plano de um capitão inglês



William Granville Eliot era um capitão do Royal Regiment of Artillery, que exercia funções de engenheiro militar. Esteve em Portugal entre 1808 e 1809, sob as ordens do General Arthur Wellesley, responsável máximo pela organização da defesa portuguesa contra as tropas napoleónicas. O capitão William Eliot era um homem preocupado com a definição de uma estratégia para a defesa de Portugal contra os invasores franceses pois acreditava-se que haveria um terceira invasão como veio a concretizar-se.
Durante a sua estadia no nosso país, fez um trabalho de reconhecimento das áreas fronteiriças portuguesas e após a segunda invasão francesa em 1809, publica o livro “A treatise on the defence of Portugal, with a military map of the country”, editado em 1810. Este tratado de estratégia militar contem uma verdadeira estratégia de como, no entender dele, se deviam posicionar as tropas e a artilharia para defender as nossas fronteiras.
A propósito da nossa região, refere-se à existência de fortificações completamente obsoletas, construídas noutro tempo para um outro tipo de guerra. Contudo, o rio Minho representava um obstáculo natural que muito poderia dificultar qualquer tentativa de incursão, tendo em conta a inexistência de pontes entre as duas margens. A este propósito, o capitão Eliot refere-se ao curso do Minho à sua passagem por Melgaço, nestas palavras: “O rio Minho, entra em Portugal cerca de uma légua e meia acima de Melgaço e não dá para ser atravessado em qualquer parte do seu curso, exceto num local ligeiramente a montante deste lugar, e apenas nos anos em que o inverno e o verão são excepcionalmente secos. A corrente do Minho não é particularmente rápida. Não há pontes sobre o rio, e apenas algumas passagens de barco.”
Uma outra questão que poderia dificultar  os movimentos de tropas e artilharia no nosso concelho, era, segundo o entender do capitão, o estado das vias de comunicação. Então diz que “a estrada de Melgaço para Monção, com três léguas, encontra-se em mau estado, mas pode ser transitada por peças de artilharia ligeira. Há dois riachos no percurso desta estrada cujas margens são íngremes e rochosas, com pontes de pedra sobre os mesmos. Estas podem ser facilmente destruídas, o que iria aumentar a dificuldade de avançar por esta via. Caso contrário, não restaria outra alternativa senão evitar este setor e entrar em Portugal em Caminha, progredindo pela costa para o Porto. No caso dos rios Lima, Cávado e Ave, estes  podem ser atravessados.” Isto devido ao facto de, ao contrário do rio Minho, possuírem pontes.
O general William Eliot deixa considerações acerca da força necessária para defender a fronteira do Minho e em particular este setor da linha fronteiriça próxima de Melgaço: “Já observei que as fortalezas no Minho não estão em bom estado para se defenderem e que, a fim de remediar esta situação, seria mais vantajoso estacionar tropas com artilharia ligeira com uma certa proporcionalidade, em vez de gastar uma avultada soma de dinheiro na reparação das suas muralhas quase inúteis e obsoletas. Torna-se necessário fazer algumas considerações acerca do número de homens que seriam suficientes para defender esta fronteira nos seus pontos mais sensíveis de um ataque externo.”
Em função disto, o capitão define o posicionamento de tropas e artilharia para a linha de fronteira ao longo do rio Minho e aconselha: “Em Caminha, 300 homens com dois canhões “six-pounders”, pode ser suficiente. Em Vila Nova de Cerveira, 300 homens e dois canhões “six-pounders”. Em Valença do Minho, 1000 homens, com seis canhões, “nine pounders” ou “twelve pounders”; em Monção, a mesma situação, substituindo os canhões “six pounders” por armas mais pesadas. Em Melgaço, 300 homens de infantaria ligeira, e dois canhões “three pounders”. Em Alcobaça, uma pequena aldeia nas montanhas acima de Melgaço, 200 soldados de infantaria ligeira com dois canhões "three-pounders". “ Esta consideração revela alguma preocupação com este troço da raia seca.
Entre cada um desses lugares, seria necessário um pequeno destacamento de cavalaria para manter ativas as comunicações, e observar os movimentos do inimigo ao longo de todo o curso do Minho. No seu conjunto, entre soldados de infantaria e cavalaria, cerca de 4000 homens. Estes, auxiliados pelos camponeses armados, seriam capazes de impedir com eficácia qualquer tentativa  de incursão.”
Em relação à fronteira ao longo da raia seca na parte serrana de Melgaço e setor a sul na fronteira oriental a norte do Lima, o capitão Eliot julga que “sendo este um pequeno setor entalado entre o Minho e o Lima, não é um alvo provável por parte do inimigo.” A este respeito, acrescenta que isto se aplica perfeitamente à área “entre a povoação de Alcobaça e Castro Laboreiro, uma fortaleza antiga, situada no cume de um precipício, toda a região é um continuado de montanhas. Aqui não há estradas. Apenas se consegue circular com uma mula, e uma pessoa é frequentemente obrigado a desmontar, quando é necessário passar em locais mais escarpados o que dificulta os movimentos.
Contudo, mesmo que o inimigo, conseguisse fazer passar com sucesso um corpo de tropas de infantaria ligeira, sem artilharia nessa direção, o rio Lima apresentaria logo um outro obstáculo, embora não seja de dificuldade tão acentuado como o rio Minho. Aqui, encontrariam tropas preparadas para a defesa deste ponto e se fosse necessário, proceder-se-ia à destruição das pontes.”
Contudo, a terceira invasão francesa não passou por Melgaço. De qualquer forma,  este capitão inglês deixou ficar aquela que, no seu entender, seria a melhor estratégia para defender a nossa terra.

Extratos transcritos de:

ELIOT, William Granville (1810) – A treatise on the defence of Portugal, with a military map of the country: to which is added, a sketch of the manners and customs of the inhabitants and principal events of the campaigns under Lord Wellington, in 1808 and 1809. London: T. Egerton, Military Library, Whitehall.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A revolta dos melgacenses contra os franceses e os alfaiates do concelho (1808)



Decorria o ano de 1808. Portugal sofria a segunda invasão francesa comandada pelo marechal Soult. Na obra de José Hermano Saraiva, este fala-nos como Melgaço foi a primeira praça portuguesa a revoltar-se contra os invasores franceses: "Em Melgaço, a revolta contra os franceses declara-se a 9 de Junho, a aclamação do príncipe é marcada para o dia seguinte, porque não existe na vila nenhuma bandeira portuguesa. O primeiro acto revolucionário consiste por isso na convocação dos alfaiates para confeccionarem as bandeiras que devem ser hasteadas na cerimónia solene da restauração. Na torre do castelo arvora-se a insígnia da guerra, e pouco depois corre o rumor de que o juiz de fora a mandara arriar. Isso provoca o furor dos camponeses, que assaltam a vila dispostos a matar o magistrado. A notícia não tinha fundamento. Em muitos lugares se verifica a mesma desconfiança popular contra as autoridades legitimas.
No dia seguintes, vieram também incorporados o Corregedor de Milmanda, o Abade de Esteriz e outras pessoas distintas da Galiza; e sendo dia de feira em Melgaço, e por isso de um numeroso concurso, os portugueses se unem aos espanhóis, e em presença do Juiz de Fora, que os observava no próprio campo da feira, soltam alegres vivas ao Príncipe Regente e detestações violentas contra Napoleão e seus delegados. Imediata ao campo da feira está a porta da vila, sobre a qual se achavam cobertas as Armas Reais; o povo as descobre num momento; passa depois a fazer o mesmo às da casa da Câmara e da fonte da vila; e para que a obra não ficasse imperfeita, o Corregedor de Milmanda com uma partida dos seus foi também descobrir as fonte de S. João da Orada, que ficavam em alguma distância. Tomás José Gomes de Abreu, Jacinto Manuel da Rocha Pinto, o Capitão mor João António de Abreu e o Doutor Miguel Caetano foram dos primeiros, e mais activos, que trabalharam nesta empresa, mas tiveram muitos outros companheiros que mostraram o maior patriotismo."

Extraído de: SARAIVA, José Hermano - História de Portugal.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Aclamação do Príncipe Regente em Melgaço (9 de Junho de 1808)


Naquela parte da província do Minho onde o rio deste nome, descendo da Galiza, entra em terras de Portugal, terminam estas num ângulo o mais setentrional do reino, e é aqui que está situada a vila de Melgaço, pequena e pouco considerável em si mesma, que, porém, deve ficar memorável na história. É em Melgaço que prendeu o fogo sagrado em 9 de Junho, para não mais se extinguir, nem mesmo na segunda invasão dos franceses debaixo do comando do Marechal Soult: ficou livre o recanto desta vila e seus contornos da nova torrente assoladora que se espalhou por todo o resto da província e abrangeu uma grande parte da Beira Alta e Trás-os-Montes. Feliz terra! Queira o céu conservar-te o brasão de nunca mais receberes as leis do usurpador, desde que naquele fausto dia abjuraste intrépida o seu nome odioso!
D. António Maria Mosqueira de Lira, provinciano ilustre do reino da Galiza, e aparentado com alguns grandes de Espanha, apresentou-se em Melgaço em casa de seu cunhado Caetano José de Abreu Soares, e anunciando secretamente ao Corregedor, que servia de Juiz de Fora, Filipe António de Freitas Machado, aí veio este, e tiveram uma conferência. A este tempo concorreu também António de Castro Sousa Meneses Sarmento, descendente ilustre pela linha da primogenitura dos antigos Castros de Melgaço, o qual, tendo servido dignamente o Soberano e a pátria na carreira da magistratura, se achava então retirado em sua casa; do que todos conferiram e trataram, resultou ficar decidida a aclamação.
Mosqueira tinha vindo prevenido com pouca gente armada, que deixara a pouca distância, e a fez logo entrar. Vieram também incorporados o Corregedor de Milmanda, o Abade de Esteriz e outras pessoas distintas da Galiza; e sendo dia de feira em Melgaço, e por isso de um numeroso concurso, os portugueses se unem aos espanhóis, e em presença do Juiz de Fora, que os observava no próprio campo da feira, soltam alegres vivas ao Príncipe Regente e detestações violentas contra Napoleão e seus delegados. Imediata ao campo da feira está a porta da vila, sobre a qual se achavam cobertas as Armas Reais; o povo as descobre num momento; passa depois a fazer o mesmo às da casa da Câmara e da fonte da vila; e para que a obra não ficasse imperfeita, o Corregedor de Milmanda com uma partida dos seus foi também descobrir as fonte de S. João da Orada, que ficavam em alguma distância. Tomás José Goemes de Abreu, Jacinto Manuel da Rocha Pinto, o Capitão mor João António de Abreu e o Doutor Miguel Caetano foram dos primeiros, e mais activos, que trabalharam nesta empresa, mas tiveram muitos outros companheiros que mostraram o maior patriotismo.
Não contentes os habitantes de Melgaço com o que haviam praticado dentro dos muros e nos subúrbios desta vila, eles quiseram levar a revolução aos povos vizinhos. Com efeito, num dos dias seguintes eles foram aclamar o nosso legítimo Soberano e descobrir as Armas Reais na ponte de Moro, termo de Monção, tendo na sua passagem praticado o mesmo no concelho de Valadares.
Determinou-se para o dia 10 a inauguração solene do estandarte nacional em Melgaço. O da Câmara foi arvorado no revelim do castelo, por entre novos vivas e aclamações, e com repetidas salvas e toques de sinos, antes e depois de um Te Deum e sermão que se celebraram nesse mesmo dia; e como eram necessários dois estandartes, para não haver falta nas acções da Câmara, o Juiz de Fora convocou os alfaiates da terra para fazerem um novo, como realmente fizeram numa manhã, e não se afastou deles enquanto não o concluíram. Estas pequenas circunstâncias, que parecem pequenas a quem as lê de sangue frio, são as que melhor manifestam na efervescência dos espíritos os verdadeiros sentimentos que existem nos corações, a fidelidade e o entusiasmo dos que as praticam*.
Até aqui era tudo alegria, mas dois dias depois houve uma terrível comoção, causada pela falsa notícia de que um exército francês havia desembarcado nas costas da Galiza, e tinha já um corpo de tropas em Caniça, povoação fronteira a Melgaço, para entrar nesta vila pela raia seca. A crise era terrível, porque achando-se estes povos absolutamente indefesos, não se lhes oferecia senão a alternativa de se humilharem ou resistirem; e em ambos os casos era muito arriscada a sua sorte: eles escolheram, sem hesitar, o mais heróico. Todos se puseram em movimento à voz dos sinos, e correram para a parte por onde se esperava o inimigo com duas peças de artilharia, as únicas que havia montadas, até o sítio da ponte das várzeas, onde residia o Capitão mor. Quando chegou o ajuntamento, já este sabia por um portador, que tinha mandado a Galiza, que tudo por lá se achava tranquilo, não havendo nem o mais leve rumor de inimigos por aquele lado.
Quando não devia já tratar-se senão de se restituírem todos a suas casas, a intriga e a discórdia, inimigos implacáveis da humanidade, que raras vezes podem separar-se destes ajuntamentos tumultuários, principiaram a derramar os seus venenos sobre gentes que não se tinham ajuntado senão para o justo fim de defenderem os direitos do Soberano, a religião e a pátria. Um paisano insolente, ostentando valentias, quando a ideia do perigo se tinha desvanecida, incita os povos para que marchem mais adiante e se façam fortes, enquanto o Capitão mor lhes ordenava prudentemente que se retirassem, prevenindo as desordens que o ajuntamento podia produzir. O paisano, inculcando patriotismo e valor, chegou a meter as mãos a duas pistolas contra o Capitão mor; mas felizmente o seu orgulho ficou confundido às mãos de outro paisano honrado, que, no meio da sua justa cólera, não pôde conter o transporte de pegar no insolente e o pisar aos pés.
Sufocado este primeiro sintoma vertiginoso, outro se levanta, que ia tomando um aspecto mais sério. Matias de Sousa e Castro, militar distinto com o posto de Tenente no desorganizado regimento de Valença, correu com os outros ao rebate de uma quinta onde se achava; e vendo arvorada na vila a bandeira encarnada, em sina de guerra, quis persuadir ao Juiz de Fora que a mandasse arrear, não por traição ou por fraqueza, pois pelo contrário foi um dos mais activos em dar as providências de defesa, mas sinceramente porque, dizia ele, a bandeira não aumentava nem diminuía as forças e os recursos, e vendo-a, os franceses se irritariam e passariam tudo à espada. O Juiz de Fora não anuiu à proposta, mas houve quem fosse espalhar a voz entre o povo, ainda congregado, que ele tinha feito arrear a bandeira, e foi o mesmo que lançar uma faísca sobre a pólvora. Levantou-se um tumulto em que ficou desde logo decretada a morte do Juiz de Fora; e para executarem este projecto, alguns dos amotinados se encaminharam para a vila; pararam e ficaram tranquilos, à vista da bandeira, que existia arvorada como dantes. Soube-se depois o conselho que o militar havia dado, e voltaram-se contra este, que, avisado a tempo, pôde a muito custo salvar a vida nos pés do seu cavalo.
Por esse mesmo tempo recebeu o Juiz de Fora uma daquelas furiosas cartas que Lagarde tinha escrito aos ministros territoriais por ocasião dos movimentos do Porto; ele não a publicou, mostrando-a somente a algumas pessoas da sua confiança, e continuando sempre a animar os progressos da revolução. Como os povos se viam sem tropas, sem armas e sem munições, recorreram ao Bispo e à Junta de Orense, e não foi debalde, porque das tropas que ali comandava o Marquês de Valadares, se destacaram logo alguns corpos para Milmanda e Celanova, prontos a entrarem no território português em caso de precisão.

Extraído de:
- http://asinvasoesfrancesas.blogspot.pt/2011/06/aclamacao-do-principe-regente-em.html