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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A linguagem oral das gentes de Melgaço eternizada há cerca de um século atrás



O etnólogo José Leite de Vasconcelos é seguramente um dos maiores imortalizadores das tradições melgacenses. Esteve em Melgaço entre a década de 90 do século XIX e várias vezes durante o primeiro quarto do século XX. Visitou várias freguesias do concelho, desde Paderne ou Cristoval até Cubalhão ou Castro Laboreiro.
Entre outras tradições melgacenses que eternizou na sua obra, encontra-se a maior inventariação de palavras, expressões ou cantigas populares da nossa terra alguma vez feita e que seria publicada na Revista Lusitana, ainda na década de 20 do século passado.
José Leite de Vasconcelos deixou-nos uma impressionante recolha de quase 400 palavras usadas na tradição oral da nossa terra de há cerca de um século atrás. Alguns termos ainda se usam, outros caíram entretanto em desuso. Tudo compilado numa espécie de "dicionário". Faça uma viagem entre as palavras que os nossos avós pronunciavam...


VOCABULÁRIO






























Extraído de:

- VASCONCELOS, José Leite de (1926) - Linguagem de Parada do Monte. In: Linguagens de Portugal e Hespanha. Separata da Revista Lusitana, Lisboa.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Cristoval (Melgaço, 1933) - Notícia da descoberta de águas milagrosas

Cevide (Cristóval - Melgaço)
Foto de Filipe Oliveira

O concelho de Melgaço é conhecido desde há mais de um século pelas suas águas termas que brotam nas nascentes no Peso que atraíram, durante os seus anos de ouro, inúmeros aquistas. Contudo, noutros pontos do concelho existem várias nascentes de onde brotam águas que se diz terem caraterísticas medicinais. Já publiquei sobre as antigas Caldas de Paderne e Fiães, a Fonte Santa, em Penso, e a nascente da Pesqueira Longa, em Paços. Haverá ainda outras de que já algumas pessoas me falaram que dizem ter propriedades específicas.
Hoje recupero uma notícia de um jornal melgacense publicada há mais de 80 anos que nos fala na descoberta de uma nascente da qual nascia uma água que se pensaria ter propriedades medicinais. Podemos ler no “Notícias de Melgaço”, na sua edição de 17 de Dezembro de 1933 “O nosso estimado conterrâneo e importante capitalista, senhor Adriano dos Santos Sobrinho, residente, há bastantes anos, em Lisboa, registou provisoriamente uma nascente de águas minerais que descobriu nas suas propriedades dos Caneiros, Cevide, na freguesia de Cristóval, deste concelho. Estiveram há dias no local da nascente dois engenheiros e o subdelegado de saúde, senhor Dr. Cândido da Rocha e Sá, com o fim de procederem a estudos. Desejamos que a análise dessas  águas acuse propriedades medicinais que as tornem úteis para combater algumas doenças de que sofre a humanidade, e sejam um motivo de prosperidades para o nosso concelho e para o senhor Santos Sobrinho ver compensados os seus trabalhos e despesas.”

A nascente aparece identificada no Novo Aquilégio onde é designada como nascente do “Pinheiral da Rocha” e caraterizada como “digestiva e muito leve (ausência de cálcio)”. Mais se diz que “é semelhante à água do Peso em Melgaço, tem o mesmo sabor, já foi engarrafada” em tempos (segundo um informante).

Fonte: Jornal "Notícias de Melgaço", edição de 17 de Dezembro de 1933.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Voando sobre S. Gregório (Melgaço)



Veja um vídeo com fantásticas imagens da povoação raiana de S. Gregório, na freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço. 
Uma visão deslumbrante!
Vídeo de Foto General.


1

domingo, 28 de agosto de 2016

A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte II)

S. Gregório (Cristoval - Melgaço)
(Foto em coxo-melgaco.blogspot.com)
A Guerra da Restauração (1640-1668) foi um conflito que opôs Portugal e Espanha na sequência do golpe de 1 de Dezembro de 1640 que restabeleceu o nosso país como país independente. Na fronteiras de Melgaço e áreas envolventes foram travados duros combates entre os exércitos dos dois países. Aldeias de Cristóval, Paços, Fiães ou Castro Laboreiro foram incendiadas e saqueadas retribuindo os portugueses na mesma forma em aldeias galegas. Depois das primeiras escaramuças, os espanhóis constroem uma fortificação em Padrenda sediando ali a sua Praça de Armas de forma a melhor defender a linha de fronteira da raia seca, por onde os portugueses realizaram várias incursões em território espanhol. Estes episódios são contados no livro “História do Portugal Restaurado” publicado em 1751 onde podemos ler: “O Marquês de Val-Paraíso, governador da Galiza à época, considerando a sua experiência militar e o que mais convinha à defesa da Galiza e de que podia resultar maior dano a Portugal, elegeu para Praça de Armas o lugar de Padrenda, situada entre o Porto dos Cavaleiros (Lamas de Mouro) e a Ponte das Várzeas (junto a S. Gregório), lugares por onde a nossa gente mais continuadamente costumava entrar na Galiza. Do Porto dos Cavaleiros e Ponte das Várzeas que ficavam em dois lados opostos de Padrenda em distância de légua e meia, fez levantar redutos, conforme as capacidades dos sítios e tão vizinhos que uns a outros se defendiam, animando a todos um grande forte que guarneciam 600 infantes. Para dar fim a este trabalho, se alojou o Marquês em Padrenda com seis mil infantes e 600 cavalos, entendendo que aperfeiçoada esta obra, seria fácil a segurança dos lugares que governava, e infalível a sua ruína dos que pretendiam conquistar. Dom Gastão (que comandava a tropa portuguesa neste setor), tendo aviso deste novo intento do inimigo, reconhecendo o perigo de se conseguir, se resolveu a procurar todos os caminhos de o atalhar, e usando dos meios pouco proporcionais que naquele tempo dispensavam a confusão e falta de experiência. Animou-se com a resolução, a temecidade, ainda que a todos parece o valor imprudente de querer atacar fortificações bem fabricadas e melhor guarnecidas com um trapel de gente sem forma nem obediência, com poucas munições e menos bastimentos e sem mais instrumentos de expugnação que duas ligeiras peças de artilharia. Mas como Deus quiz sempre manifestar entre os nossos a sua misericórdia, não argumentem os que sabem os preceitos da guerra, lendo esta história, a causa das nossa fortunas. Tratem só de lhe dar crédito, na fé de que em nenhum século, e de outra nação, se escreveu até este tempo história mais verdadeira,  porque sem receio, sem ódio, e sem afeição escrevo em umas partes o que vi, em outras o que observarão todos aqueles com que trato e com quem confiro todas as matérias que escrevo.
Resoluto, D. Gastão a atacar o forte de Padrenda, e os redutos sem artifício nem dissimulação, convocou a gente de toda a província. Confiava a que se havia alistado para ser paga, uns quatro mil homens. Porém na disciplina, não havia diferença alguma porque ainda que algumas companhias estavam formadas, não se tinham dividido em terços e todo o corpo junto não era mais que um tumulto de gente valorosa. A maior parte da infantaria paga foi entregue por D. Gastão à ordem de Lopo Pereira de Lima, cavaleiro da Ordem de Malta a que assistia seu irmão Diogo de Melo da mesma Religião e Capitão Mor de Barcelos, alojados ambos em Lamas de Mouro, lugar vizinho ao Porto dos Cavaleiros. Com esta notícia, apressou o inimigo o trabalho e em quatro dias reduziu a obra de defesa. D. Gastão, com outro troço, ficou alojado na Ponte das Várzeas (Cristóval) e para que o inimigo divertisse o poder que tinha junto, mandou entrar na Galiza pela Portela do Homem a Vasco de Azevedo Coutinho e por Lindoso a Manuel de Sousa de Abreu, ordenando-lhes, que segunda feira, nove de Setembro, entrassem na Galiza. No mesmo dia ao amanhecer, dividiu D. Gastão a infantaria em três troços e levantando uma plataforma, fez jogar as duas peças de artilharia que levava, contra o reduto da Ponte da Várzeas (junto a Ponte Barxas) e foram de grande efeito, recebendo o inimigo considerável dano. Os três troços, que governavam Lourenço de Morim, Sargento Mor de Caminha e os Capitães Gaspar Casado Manuel e Martim Coelho Vieira, com grande valor e pouca ordem, superando o embargo de algumas estacadas, avançaram três redutos, e entraram ao mesmo tempo, degolando os soldados que os guarneciam. Ficando aberto o caminho para Monte Redondo, que os galegos haviam reparado, se retiraram os que fugiram para este lugar que ficava vizinho. Depois de arruinados os redutos galegos, os portugueses investiram contra as trincheiras de Monte Redondo, e desemparando o inimigo, entraram no lugar e saquearam-no uma segunda vez. O mesmo fizeram a algumas aldeias que ficavam pouco distantes. Os galegos acudiram àquela parte com três mil infantes e 400 cavalos e achando a gente carregada de despojos, avançaram com resolução e os soldados da ordenança, não querendo pôr em contingência o que haviam roubado, voltaram as costas, não valendo a D. Gastão as grandes diligências que fez para os deter na Ponte das Várzeas. Os oficiais e 500 soldados que ficaram, fizeram rosto ao inimigo e valendo-lhe a aspereza do sítio, se vieram retirando pelas veredas mais estreitas, e deixando 15 soldados mortos e dez prisioneiros, conseguiram valorosamente passar a Ponte das Várzeas sem maior dano. D. Gastão estimulado pela desordem e do mau sucesso, unindo a esta gente alguma que havia detido, logo que amanheceu, tornou a passar a ponte (junto a S. Gregório) e acabou de desfazer todos os redutos e trincheiras o que se conseguiu com tanta diligência que quando os galegos, que não esperavam segunda incursão e acudiram, já os redutos estavam desfeitos. Sem receberem dano, se retiraram à sua vila os nosso soldados. Diogo de Melo e Lopo Pereira, destinados contra os redutos do Porto dos Cavaleiros, juntaram cinco mil infantes e foram alojar-se com eles à vista deste lugar. Nesse dia, apareceu um velho de 70 anos, ao qual perguntando-lhe para o que fora chamado, respondeu que para o ataque daquelas fortificações. O Mestre de Campo António Solis, cabo daquele troço, tornou a remeter o velho para os Maltezes com uma carta, em que dizia que aquele homem fora colhido, e que constando da sua confissão, que era chamado para uma empresa tão galharda, como a de investir contra aquelas fortificações, não queria que se mal lograsse por falta de um soldado de tanta importância, e acrescentava a esta zombaria outras palavras exorbitantes. Teve esta carta resposta com maiores aprobios e à segunda feira executaram os Maltezes (Cavaleiros de Malta) a ordem de investir contra o forte e outros redutos, que era o mesmo dia em que D. Gastão tinha logrado o sucesso referido. Dividindo-se a infantaria em dois troços, dos quais eram cabos os dois irmãos: ao que governava Lopo Pereira, dava apoio o seu irmão António Pereira de Lima com 80 cavalos. Marchou este troço pela parte de Alcobaça e atacou o forte e redutos do sítio da Costa. Diogo de Melo escolheu para atacar o redutos e forte da serra, a empresa mais duvidosa, por ser um sítio mais áspero, o forte maior, e os redutos melhor defendidos e ter o inimigo formado da outra parte da serra, três mil infantes e 200 cavalos para defender o assalto. Conhecendo Diogo de Melo o risco desta empresa se uniu a seus irmãos e formou um corpo de mil infantes que entregou ao Sargento Mor Simão Pita com ordem para que ataque os redutos que primeiro corriam por conta de Lopo Pereira. Feita esta divisão com 4000 infantes e 80 cavalos, deu volta Diogo de Melo ao lugar de Chão de Castro e lançando 500 mosqueteiros por cada um dos lados da serra, com a mais gente ganhou a eminência por entre nuvens de balas e valendo-se da coragem dos soldados, investiu num reduto que os galegos, sem esperar o assalto, desempararam. Favorecidos da mosquetaria dos outros redutos, se recolheram ao forte que estava no alto da serra. Com pouco mais trabalho ganhou Diogo de Melo os outros redutos e seguindo a vitória chegou junto do forte. A grande guarnição que estava nele, entrando-lhe o receio antes de experimentar as feridas, largou o forte sem ter respeito aos oficiais que, ora com rogos, ora com estocadas pretendia detê-la. Mas como ordinariamente nos nossos conflitos em que se acham ânimos covardes, o receio excede ao perigo, se deixaram os galegos matar pelos seus capitães, para não chegar às mãos dos nossos soldados. Entraram eles no forte, de que resultaram muitas mortes. Os Maltezes, tendo logrado a vitória e os galegos, que estavam formados, desemparando o sítio que ocupavam, marcharam para formarem em sitio mais distante. Diogo de Melo com muito acordo mandou tocar a recolher.”


Extraído de: MENEZES, Luiz de (1751) – História de Portugal Restaurado. Tomo I; Oficcina de Domingos Rodrigues; Lisboa.

Para ler a "A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço" PARTE I, CLIQUE AQUI

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte 1)

As atrocidades cometidas nas aldeias de Melgaço durante a Guerra da Restauração (1641)

Cristóval (Melgaço) na atualidade
Mais de um século depois da Restauração da independência portuguesa em 1640, um livro intitulado "História do Portugal Restaurado", publicado em 1751, conta-nos muitos episódios da Guerra da Restauração. Entre outras passagens, fala-nos das atrocidades cometidas pelos soldados portugueses e espanhóis nas povoações raianas de Melgaço e localidades galegas do outro lado da fronteira no ano de 1641. Aldeias em Paços, Cristóval ou Castro Laboreiro (Melgaço) foram incendiadas e saqueadas. Era o estalar da Guerra da Restauração...
O dito livro conta-nos que: "Nestes dias, andando em Melgaço, rondando as sentinelas junto do rio, o Capitão de Infantaria Francisco de Gouvea Ferraz, estimulado de ouvir da outra parte do rio a um soldado galego algumas palavras contra o decoro del rei, se lançou impetuosamento ao rio, e passando a nado, se achou da outra parte sem oposição, porque o galego, medroso, do seu lado se retirou, antes que ele chagasse, podendo facilmente tomar vingança da sua ousadia. Tornou da mesma forma a voltar a Melgaço, e logrou o merecido aplauso da sua resolução.
De Janeiro até Julho se passou de uma e outra parte sem mais empresa do que estas primeiras ameaças de guerra. Em Julho quando se rompeu a guerra no Alentejo, conhecendo El Rei que menear as armas só para a defesa era multiplicar o perigo, e era a paz que se desejava e que se havia de conseguir fazendo guerra, ordenou aos governadores para dar armas de todas as províncias, que entrassem em Castela. Não dilatou D. Gastão a obediência e deu logo ordem a Frei Luiz Coelho da Sylva, Cavaleiro da Ordem de S. João, que com a gente de Viana, embarcada numa galeota, duas lanchas e alguns barcos passasse a queimar a vila da Guardia, situada defronte de Caminha. Mandou a D. João de Souza, Capitão Mor de Melgaço, que entrasse ao mesmo tempo pela Ponte das Várzeas (próximo a S. Gregório); António Gonçalves de Olivença pelo Porto dos Cavaleiros; por Lindoso, Manuel de Souza de Abreu e pela Portela do Homem, Vasco de Azevedo Coutinho. Todas estas entradas se executaram em lugares muito distantes uns dos outros e toda esta gente não levava mais disposição que a do seu valor. Porém ignorar os perigos que buscava, a fazia mais resoluta, achando a fortuna favorável, que costuma pôr-se da parte dos temerários. D. Gastão passou à Insula, pouco distante da Guardia, para observar deste sítio o sucesso dos Vianenses, de que não resultou mais, que voltarem-se com dois barcos de pescadores. Irritou-se muito D. Gastão deste desconcerto, como se as disposições desta empresa não insinuaram o sucesso dela. Na Insula, mandou D. Gastão levantar um reduto, parecendo-lhe sítio acomodado e que necessitava de segurança. Os mais que entraram em Castela saquearam e queimaram algumas aldeias e trouxeram despojos, que os obrigou a se animarem a maiores empresas. Governava o Reino de Galiza, o Marquês de Val-Paraíso. As prevenções e disciplina daquela parte não excediam muitas muito as nossas e só havia diferença de se haverem nomeado oficiais, que entendiam a guerra, de que resultava terem os soldados melhor notícia dela.
Poucos dias depois de retirada a nossa gente, mandou o Marquês de Val-Paraíso 800 infantes à freguesia de Cristóval (Melgaço), que é na raia junto ao rio Várzea (rio Trancoso), e queimaram algumas aldeias, sem perdoar o insulto ao sagrado das igrejas. Passaram à freguesia de Paços que segue a Cristóval. Acudiu D. João de Sousa e Francisco de Gouveia, o que havia passado o rio a nado, e trazendo consigo só 70 homens, ocuparam a passagem do rio e obrigaram os galegos a que se retirassem perdendo 40 homens. Estas entradas, que pareciam mais de bandoleiros que de soldados, se alternavam de uma e outra parte com pouca vantagem nos sucessos. Com a notícia da entrada que os galegos fizeram, tornou D. Gastão a convocar a gente, tornou D. Gastão a convocar a gente que havia dividido, e deu ordem ao Sargento Mor Simão Pita que entrasse na Galiza, pela Ponte das Várzeas, e Manuel de Souza de Abreu pelo Porto dos Cavaleiros. Simão Pita teve notícia que o inimigo engrossava por aquela parte o poder, e susteve a entrada. Manual de Souza passou o Porto dos Cavaleiros com três mil infantes e 40 cavalos e sabendo que o inimigo ocupava o lugar do Facho (Cristóval), por onde forçosamente havia de passar, mandou avançar António Gonçalves de Olivença com 400 infantes a desalojar os galegos, que se achavam com 400 infantes e 150 cavalos. Investiu-os valorosamente António Gonçalves e obrigou-os a se retirarem.
Sem embargo desta desordem, marchou Manuel de Sousa para o lugar de Monte Redondo (Padrenda), grande, rico e fortificado, com duas companhias pagas e outras da ordenança que guarneceu. Chegando ao lugar, mandou avançar as trincheiras pelos Capitães D. Vasco Coutinho, Cristovão Mouzinho e Luíz de Brito, entraram valorosamente e queimaram o lugar à custa das vidas de muitos galegos. A pressa, e o exemplo da gente de António Gonçalves inculcou a desordem porque muitos dos portugueses, que sabiam as veredas, se retiraram para suas casas com os despojos que colheram. Os galegos que saíram do lugar ocuparam a aspereza de um monte, que era o caminho por onde Manuel de Sousa forçosamente havia de passar. Vendo ele que era necessário vencer esta dificuldade, deu ordem a que avançasse toda a gente a desocupar aqueles sítio e não havendo melhor disciplina que a da competência, disse que aquele que chegasse primeiro, lograria o aplauso daquela ocasião. O valor de todos dissimulou este desconcerto. Porque avançando intrépidos por todas as partes, obrigaram os galegos com morte de alguns a largarem o posto. Aos que se retiravam, se uniram outros, que dos lugares vizinhos acudiram ao rebate e chagando ao número de mil infantes e 200 cavalos, e se formaram num vale, mostrando que desejavam pelejar. Facilmente lograram intento, se Manuel de Sousa se não achara com menos duas partes da gente que havia levado à empresa. Retirou-se queimando de caminho algumas aldeias. D. Gastão não estimou tanto o bom sucesso, como sentiu a desordem dos que se retiraram e castigando os que tiveram culpa e dando prémios aos que procederam com acerto, foi pouco a pouco reduzindo a melhor forma a gente daquela província e ao mesmo passo que ensinava, aprendia. Porém aqueles a que sucede serem primeiro generais que soldados, dificilmente saem grandes mestres na escola militar.
Dois dias depois do sucesso referido, entrou o inimigo pelo Porto dos Cavaleiros com dois mil infantes e 300 cavalos e derrotou os Capitães António de Barros, que com duas companhias pagas, guardavam aquele porto. Vindo-se retirando os socorreu a Capitão Mathias Ozório, a que dava apoio o Sargento Mor Simão Pita. Fizeram alto os galegos com perda de alguns oficiais e os soldados voltaram sobre o concelho de Laboreiro, e o lugar de Alcobaça, que destruíram e queimaram. A nossa infantaria recolheu ao Convento de Fiães de frades de S. Bernardo que com esta guarnição ficou livre dos danos que os galegos determinavam fazer-lhe."
A guerra, essa, apenas acabara de começar...  (CONTINUA)

Extraído de: MENEZES, Luiz de (1751) – História de Portugal Restaurado. Tomo I; Oficcina de Domingos Rodrigues; Lisboa.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Cevide (Cristóval), um Lugar de Culto

O rio Trancoso, à sua passagem por Cevide (Foto de Marco Caldas)
Na edição deste mês de “A Voz de Melgaço”, é feita referência a um conto intitulado “Lugar de Culto” da autoria de António Pacheco Costa, com a pequena aldeia de Cevide (Cristóval – Melgaço) no centro de uma bonita história. No conto, o autor parece querer misturar ficção com uma verdade oculta em estórias dum tempo passado desta bonita aldeia, Cevide. Vale a pena ler o conto! Tomei a liberdade de o partilhar no blogue!
Lugar de culto
 “Houve em tempos numa aldeia, na pequeníssima aldeia de Cevide, ponto mais setentrional de Portugal, um bar, também ele pequeníssimo. Mal abriu, logo declarou insolvência. Destarte, inaugurando-se às vinte e uma horas em ponto de uma quarta-feira e fechando as portas a título definitivo na quinta-feira que imediatamente se lhe seguiu à mesma hora, esse bar, como o leitor já se terá apercebido, apenas esteve aberto ao público durante um dia – o que em matéria de estabelecimentos nocturnos será o mesmo que dizer, uma noite. Tinha o elucidativo nome de Finisterra e era um negócio, desde o seu nascimento, condenado à ruína. O primeiro problema, e porventura o principal, residia no cardápio. Tratava-se de um pesado volume de pele preta apenas comparado a uma lista telefónica, em tamanho. No frontispício cintilava um monograma gótico – FT – gravado a folha de ouro , e nas entranhas, com um cuidado gráfico que deixaria lacrimejantes de orgulho os olhos de Gutenberg, como formigas espalmadas, um índice de todas as bebidas do mundo em papel de bíblia. Sejamos justos: preços, havia-os para todos os bolsos – desde uma aguardente de medronho, com o valor simbólico de 1 cêntimo por copo comercializada por um lavrador de Vinhais, até uma garrafa de Chateaux Lafite, envasilhada em 1847, subtraída da adega privada de um coleccionador de vinhos de Hong Kong e assinalada com o preço da última licitação feita em leilão, passando por uma cerveja conventual belga produzida por frades católicos que a confeccionavam seguindo uma receita secular, para a vender ao portão do mosteiro onde viviam numa embriaguez eterna.
O estabelecimento propriamente dito era, de facto, mais antigo que Cevide. A entrada fazia-se por uma porta vassala que servia um casario de dois pisos caiado de branco, de janelas empedradas na fachada, viradas para a rua, e telhas portuguesas enegrecidas pelo sol e pela acidez das chuvas – enegrecidas, enfim, pelo tempo, na sua dúplice acepção: climatérica e cronológica. Mas na vez desse acesso servil se abrir, como seria de esperar, para uma cozinha de casa fidalga, ampla e alta, de tachos poeirentos ao dependuro, a abanar a heráldica de uma Casa extinta ante um forno de lenha com espaço de sobra para acomodar, de pé, um cabrito, precipitava-se, não sem perigo, para uma escarpa de degraus assimétricos de granito que exalavam um odor bafiento a humidade e a passado, descendo muito, num estreitamento espiral de convento manuelino, até se aliviarem numa pequena salinha: o bar, strito sensu. Espante-se o leitor, tratava-se de uma antiquíssima igreja visigótica subterrânea, despojada de símbolos, datada do tempo em que esse povo germânico se convertera ao cristianismo, por sua vez erigida, numa sobreposição de cultos – fisica e ideológica – sobre as ruínas de um templo romano dedicado a Mercúrio.
A informação que se detém sobre esta catacumba não é fidedigna, já que a fonte de que dispusemos é um documento nebuloso, uma «História de Cevide» publicada em parcelas num jornal minhoto, escrita por um historiador autóctone que, apesar de alguns vícios académicos, demonstra todo o seu amadorismo na hora de preferir lendas na vez de factos. Espremendo o essencial, e omitindo todas as suas referências a demasiados reis de Portugal, que é sempre um recurso fácil para agigantar um povoado, a «História de Cevide» diz-nos que para além da justaposição dos templos, atestados com recurso à arqueologia, é sabido que o seu acesso primitivo se fazia por uma porta anã, dissimulada num suposto estábulo. Daqui, deduz-se uma intenção de segredo, apesar de se ignorar, ao contrário do que nos faz crer o documento, os motivos do sigilo. Também desconhecemos em que circunstâncias se ergueu o casario sobre as ruínas do suposto estábulo, apesar de sabermos que a obra ficou concluída no ano de 1839, data essa que ainda hoje se pode ver gravada na pedra, sobre a porta principal. O primeiro registo concreto data da II Guerra Mundial, onde serviu de abrigo subterrâneo a um grupo de judeus italianos naturais de Treviso, antes de embarcarem num paquete com destino à América, revelação inédita feita nestas linhas. Esta função, de esconderijo, terá estimulado a imaginação dos contrabadistas de Cevide – local que pela sua geografia fronteiriça, separado de Espanha por um rio de curto caudal, fizera parte da rota do contrabando durante as ditaduras ibéricas –, servindo de arrecadação a muitos víveres até ao alvorecer democrático da Península.
Entre esse tempo e o nosso, este lugar acumulou camadas de pó e de esquecimento, umas por cima das outras, numa escuridão pululada por morcegos e ratos, até que uma mão, de supino génio, habituada a reabilitações e lides quejandas e evidentemente conhecedora da importância de um património preservado com a mais alta estima, o converteu num elegante abrigo de noctâmbulos. O soalho e a mobília de nogueira escura providenciavam o achonchego vedado às paredes graníticas e o balcão, peça única, minimalíssima, de aço inoxidável, lembrava um altar dedicado à veneração de deuses concepturos – um arrojo audaz de futuro na antiguidade tumular da atmosfera. Atrás dele, um espelho que cobria não apenas toda a parede, como também o tecto, arquitectava uma grandeza ilusória que duplicava tudo: no lugar de quatro mesas vazias havia oito, no lugar de dezasseis cadeiras trinta e duas, e no lugar de um bartender, dois, que eram em tudo iguais para quem os visse de cá, mas que se distinguiam pelo facto de um ser fronteiro de cara e corpo, e outro traseiro, de nuca e rabo. Sobre este sujeito há pouco a dizer: para lá da alva camisa sem gomos, colete e laço preto, como manda a lei, e dos olhos lúcidos que pareciam encerrar os equilíbrios do Universo, nada mais havia nele que fosse digno de menção – tão grande era o seu sentido de discrição que nem se reparava que existia.
Um bar que apenas está aberto durante vinte e quatro horas não pode conhecer as mais-valias da restauração em geral – entre as quais se destaca, como benefício supremo, a reputação – mas desengane-se aquele que estiver a pensar que este bar, tão generosamente abastecido, não conheceu clientela durante a sua efémera vida. Com efeito, o seu primeiro cliente fez-se chegar com uma pontualidade britânica às vinte e uma horas e um minuto daquela quarta-feira inaugural e, à falta de melhor informação, chamar-lhe-emos Freguês Primeiro. Quando este abriu a porta do Finisterra ouviu música abafada, como vozes distantes, e foi com agrado que, à medida que descia o caracol de pedra das escadas, reconheceu a big band de Charles Mingus conjurando santos negros e senhoras de pecado. Era jazz, era um bom presságio. Um bar, tal como uma pessoa, diz muito sobre si através da música que elege. Pediu um gin-tónico em copo de long drink, já que considerava efeminado o hábito recente de se servir gins em copos de balão, e sentou-se a um canto, bebericando-o, e depois outro, e já ele ia a meio do terceiro copo quando, às vinte e duas horas e dezoito minutos se ouviu reverberar nas escadas os passos periclitantes do segundo cliente – que foi, em simultâneo, o último –, e que por razões óbvias de coerência baptizá-lo-emos de Freguês Segundo. Este, por sua vez, pediu um copo de água da torneira, bebida que constava na lista com essa mesma designação singela, e sentou-se no outro canto.
O ser humano é um mamífero com muitas lacunas. Desde logo, não é anfíbio, o que num planeta com mais água que terra só pode constituir uma desvantagem; também não tem asas, o que num planeta com continentes separados por oceanos não deixaria de ser um apanágio. Mas se há algo que não se pode dizer sobre a raça humana é que é uma espécie uniforme, na acepção darwinista do termo. Estes dois fregueses, o Primeiro e o Segundo, eram um exemplo de como o Homem, por se servir de algoritmos genéticos tão diversos, pode chegar a parecer dois animais distintos: o Freguês Primeiro era um sujeito elegante, moreno, esticado e seco de carnes; os seus olhos capciosos chamejavam num constante luzir vulcânico que lhe alumiava o sorriso giocôndico, sempre esquecido nos lábios finos. Vestia a última moda, mas não seria honesto rotulá-lo de andrajoso. Não. É verdade que o português comum não se arriscaria a passear na via pública com aqueles sapatos de camurça azul, aquelas calças de sarja castanha descendo a perna fina como um funil, aquela camisa de linho vermelho-sangue pontilhada por um padrão infinito de cornucópias minúsculas, nem tão pouco aqueles anéis dourados que lhe ornamentavam as mãos musicais, de pianista – curiosos adereços,
diga-se, para quem rejeitou de modo tão assertivo um copo de balão por razões de virilidade. Mas também é verdade que esse mesmo homem comum, que reprovaria, peremptório, a sua extravagância de Dalí, seria o mesmo que não deixaria de admirar o seu queixo imperial levantado ao alto, ou o seu nariz aristocrático, ou o seu jeito de cruzar a perna esquerda, engavetando-a completamente na direita que marcava o compasso quatrenário que Dannie Richmond produzia no bombo e na tarola...Exclamando, de si para consigo – «Que dândi!».
Ao lado dele, o Freguês Segundo, coitado, parecia um farrapo: mais baixo que alto, tinha as costas encurvadas sobre um corpo de uma flacidez adiposa que a gravidade puxava sem piedade para o hipocentro da Terra. Os seus sapatos quadriformes estavam tão gastos como as mãos pálidas e langorosas, de unhas roídas, encafuadas numa camisola de lã muito grossa, pautada de bolas gordas de borboto que se lhe agarravam como aqueles peixinhos pegadores que nadam na sombra dos tubarões. A careca sebosa emoldurada por dois tufos de cabelo grisalho nas têmporas, mais brancos que pretos, lembrava um ovo pré-histórico e o rosto convexo de ratazana a converger no lábio inferior ao dependuro, abanando-se como um pêndulo na boca sempre aberta, tanto sugeria uma renite crónica como um indício de diminuição mental, de bebé envelhecido; mas os olhos muito vivos, de um azul oceânico que evocava marés, encerravam com toda a certeza muita inteligência em estado bruto. Fumava tabaco de onça e, com uma paciência de Jó e um sossego infantil, embrulhava um cigarro sem rugas, para gáudio do Freguês Primeiro que o observava divertidíssimo do outro canto da sala, esperando pelo fim da liturgia, coroada por um prazeroso influxo de fumo a flutuar no ar como um pedaço de alma, para o interpelar. Atravessou a sala, e com uns trejeitos diplomáticos, mantendo uma distância respeitosa, encetou conversa de copo na mão.
– O senhor e eu pertencemos à mesma espécie de homens – disse.
– A saber? – murmurou o outro, curvado.
– Os misantropos – respondeu o Freguês Primeiro, sorrindo fascinado, como se o evento mais sedutor da vida de um misantropo fosse o paradoxo de encontrar um semelhante.
O Freguês Segundo anuiu, pensativo, reflectindo mais do que concordando.
– Importa-se que me sente? – prosseguiu o primeiro, apontando o queixo a uma cadeira vazia.
O Freguês Segundo consentiu silenciosamente, fechando as pálpebras e abrindo-as com gravidade enquanto, de cotovelo na mesa, segurava o cigarro recém-aceso entre os dedos em V.
– Um brinde aos lobos solitários – retomou com grande pompa, elevando o gin – seres errantes num mundo que só tem olhos para alcateias.
– Um brinde – disse o Freguês Segundo, replicando o gesto com menos convicção.
– O mundo, de facto, ainda não atingiu o grau de esclarecimento necessário para apreciar devidamente as qualidades dos homens sós, o senhor não acha? Não sei se concorda comigo, mas a maioria deles é provido de maiores aptidões sociais que o mais sociável dos indivíduos. Uma vez encontrei um eremita, dos poucos que ainda persistem na Terra, e qual não foi a minha surpresa quando reconheci nele as mais finas capacidades de conversação que alguma vez apalpei: era intransigentemente surdo quando falava e mudo quando ouvia. Já alguma vez se cruzou com algum?
– Algum eremita?
– Sim.
– Uma vez, há muitos anos. Era um abade muito velho, o último de um mosteiro, que quando ficou só, quando todos pereceram antes dele, escolheu ficar lá abandonado, comendo o pouco que plantava numa horta e rezando muito.
– Espere – interrompeu o Freguês Primeiro – penso não haver dúvidas que esse dito abade era de facto um ser solitário, mas não será correcto apelidá-lo de eremita. Se bem percebi o caso, o sujeito não optou por viver à margem da sociedade, antes se resignara a levar a vida de clausura e penitência que sempre conhecera, com o agravo da solidão. Não
poderemos considerá-lo, portanto, o arquétipo do eremita escolástico, sob a pena de nos vermos obrigados a alargar o conceito até ao ponto de o deturparmos por inteiro.
– Talvez tenha razão... quando o pobre velho me viu, na vez de me oferecer o seu repúdio, como seria de supôr de um eremita, chegou até a emocionar-se de alegria, mostrando um genuíno sorriso de gengivas. Aquele sorrir nunca me abandonou. Tinha tanto de franco como de horripilante, queratinoso, de cetáceo, de baleia.
– Ah...a fealdade! Detesta-a? – volveu o Freguês Primeiro, curioso.
– Do fundo do meu âmago, com amargura o confesso.
O Freguês Primeiro voltou a mostrar o seu sorriso capcioso, levantando os anéis ao balcão e guinchando estridentemente «Mais um!», incapaz de dissimular a excitação de se encontrar numa conversa estimulante.
– Cá eu sou um apreciador da fealdade, sem remorsos. – sublinhou. – Considero-a nutrida de beleza: a beleza decadente que têm as coisas tristes, que é, por vezes, quase artística. Por exemplo, a guerra. É tão linda, não acha? Não? Por mais que o senhor me reprove, o Cinema, a Literatura e a Pintura parecem concordar comigo, de tantas vezes se lhe terem apropriado da poesia. É o impulso mais natural, mais primário, mais animal que o homem pode ter. É uma necessidade que o espírito lhe pede, uma consequência legítima da vida em grupo – desconfio que nunca um eremita tenha começado um conflito armado – mas nos dias que correm já não se faz guerra como soía. Esteve cá desde o princípio e estará cá até ao grande final que, com toda a probabilidade, será por ela desencadeado, mas guerrear é cada vez mais difícil, fala-se muito em balas de canhão, mas cheira-se pouca pólvora. Ladra-se muito, morde-se pouco. Empurram-se uns países raquíticos para conflitos miseráveis de paus e pedras enquanto as grandes potências bélicas se sentam em secretárias. Secretárias! Pudera...Já viu as resmas de convenções e tratados internacionais que a regulam, ou antes, que a tentam regular? Que ilusão! Como se ela fosse possível de ser administrada pelas altas instâncias como uma empresa multinacional. Hoje, para se começar uma guerra, quase que se tem de abrir um processo!
– Mas como é que o senhor pode dizer que a guerra é um instinto primário do homem? – perguntou o outro, incomodado.
– Meu caro, se fizermos um périplo pelo reino animal, termo com que o homem se distancia da restante fauna por se julgar mais do que aquilo que é, veremos que todas as espécies – os cães, os gatos, os macacos, as girafas, só para citar mamíferos – fazem guerra, por território, por fêmeas, e etecetera, que o que não falta são motivos. E, se depois do safari, entrarmos num jardim de infância à hora do recreio, esses orfanatos interinos onde os progenitores abandonam as suas crias durante o dia para as poderem alimentar à noite, encontraremos pequenos guerreiros, aqui e ali, gladiando-se sem razões num alvorecer ternurento de guerra sem motivos. A guerra faz parte do jogo, porque não amá-la? O que seria de mim se não pudesse voltar à Ilíada, e o que seria da Ilíada se Páris não tivesse raptado Helena – aqui entre nós, mulher pouco séria – despertando a cólera do seu marido Menelau? Eu respondo-lhe: um forte soporífero em verso, capaz de provocar bocejos ao mais voraz dos leitores, sobre os longos gemidos de um jovem príncipe troiano, suspirando de angústia no seu palácio por um amor proibido.
– Se calhar o senhor precisa de se dedicar a leituras mais fleumáticas – respondeu o Freguês Segundo, notoriamente perturbado, e numa tentativa de saltar de tema –, se gosta de clássicos...
– Não me vai recomendar a sacrossanta leitura da Bíblia Sagrada, pois não? – interrompeu o Freguês Primeiro.
– Não ia, mas posso...
– Pode? Meu caro, meu caro amigo! Haverá livro mais sanguinário? Abre-se com a mais clássica forma de conflito bélico – o conjugal –, segue-se-lhe um fratricídio, que é outra das maneiras intemporais de guerrear – a testamentária. Depois, a lista é longa: os sumérios à pancada com os acádios, os assírios com os babilónicos, para não falar nos genocídios!
– Mas há um outro lado, uma outra leitura – respondeu o Freguês Segundo, pedagogicamente.
– Mas é claro que há, meu caro. Faço minha uma máxima axiomática de parca erudição: paz não existe sem guerra. E como uma não existe sem a outra, e como existirá sempre uma coisa ou a outra, numa alternância fatal, as duas existirão, sempre – assegurou, dando um longo gole no gin-tónico, e reparando que não estava a ser conveniente lançou uma pergunta jocosa para a qual já conhecia a resposta para arrefecer os ânimos: – Já agora, diga-me, quem é que escreveu a Bíblia? Sabe? É que o autor esqueceu-se de assinar a obra, e o Livro dos Números era digno de ser pelo menos rubricado, nem que fosse com um pseudónimo.
O Freguês Segundo riu, aceitando as tréguas.
– Decerto um homem que não viveu para gozar os rendimentos da autoria – respondeu.
Enquanto o Freguês Segundo se recompunha de uma gargalhada sonora, a big band de Charles Mingus guardou os instrumentos nas caixas e deu o lugar do leme ao “Love Supreme” de John Coltrane. Ambos se encolheram para receber, como uma hóstia, a apoteose do seu saxofone tenor e o Freguês Primeiro aproveitou a pausa para esvaziar o remanescente de gin e gelo derretido que lhe boiava no copo. Pediu mais um, agora só com um gesto dilatório por respeito à Arte, e reparou que o Freguês Segundo ainda tinha o copo de água da torneira mais cheio que vazio. «Tamanha penitência», pensou, tremendo de repulsa, «e ainda para mais, do cano!», mas não disse nada, pois se havia algo que ele nunca fizera em vida fora impingir os seus maus hábitos aos outros.
Quando o Freguês Primeiro ergueu os anéis a pedir outra bebida, assomou-se no juízo do Freguês Segundo um forte querer que o fez encarar seu bento copo de água com desdém, como se este fosse o último líquido capaz de lhe atender a sede. Questionou a sua própria abstinência. Teve vontade de abrir a pesada lista e procurar uma bebida exótica, mas controlou-se para não renunciar, assim tão sem luta, aos rigores rochosos que a sua consciência lhe impunha.
– Em que pensa? – inquiriu o Freguês Primeiro de boa-fé, ignorando o acaso.
– Na vida – respondeu o Freguês Segundo, como se largasse os olhos da popa de um grande veleiro à bolina, o que em todo o caso, não deixava de ser verdade.
– A vida; convenhamos, é uma palavra com pernas muito compridas... – volveu o outro, divertido, à laia de desafio.
– Será...pelo menos compridas o quanto baste para ser difícil vestir-lhe um propósito que não lhe fique pelos tornozelos. A cada segundo me pergunto: haverá sequer um propósito, uma finalidade em tudo isto?
– E a que conclusões chega?
– Conclusões? A nenhuma. Sou como aquele maratonista que, cruzando a meta, logo ouve um disparo a assinalar que na vez de alcançar a linha de chegada se encontra na partida de uma nova corrida, e depois outra, e assim sucessivamente, como dois espelhos que se enxergam num reflectir infinito.
O Freguês Primeiro passou-lhe o nariz pelas palavras e sentiu nelas, ou antes, nos espaços que as intervalavam, o cheiro derrotista do desespero, e ficou calado, só a cheirá-lo, pois o mesmo motivo que o levava a não impor os seus maus hábitos aos outros era o mesmo que o impedia de emprestar a sua serenidade de alma a intelectos desassossegados. Ainda assim, fingiu um semblante grave, verdadeiramente filosófico, como se cogitasse sobre a alegoria labiríntica do marotonista com uma absorção matemática.
– O senhor tem família? – perguntou-lhe o Freguês Segundo, sentindo que caía nele o ónus de anular o silêncio.
– Só enteados, para quem não constituo uma figura paternal, saliente-se – respondeu o Freguês Primeiro, resignado.
– Pois eu tenho muitos filhos, muitos. Eu já trouxe tanta gente ao mundo que não posso senão ser considerado um patriarca, na acepção tradicional do termo, e quando se é um patriarca é legítimo esperar a colheita de muitos frutos. Mas sou-lhes um parente muito distante, a todos eles, demasiado distante para me ser razoável a espera de emolumentos. Eles amam-me – todos me amam – mas, coitados!, o amor deles esgota-se no modo reverente com que se me referem...essa espécie de honrarias estéreis que as famílias sem brilho prestam a antepassados ilustres. Sabe do que falo? Ouça, uma vez cruzei-me com um sujeito numa praça pitoresca, virada para um rio e ademais muito portuguesa, e o sujeito, antes de falar, levantou o dedo hirto para a varanda sem janelas de um edíficio devoluto, decrépito, mas muito augusto, com ares de Câmara Municipal, onde se adivinhava um passado dourado a transbordar burguesia pelas chaminés, um porteiro diligente à porta, lajes de mármore cheirando a lavado, rodapés ornamentados com madeiras exóticas, talvez até um fresco no tecto da sala grande mostrando uma paisagem celeste com anjos de cabelos louros dedilhando arpas...e o homem, que se tinha esquecido de baixar o dedo, com olhos de estátua – como se vislumbrasse, numa admiração interior, esse porteiro, esses mármores, essas madeiras, esses anjos – e uma vaidade faustosa no falar, esclareceu-me «Ali, era o consultório do meu pai». Pensei, Puxa! Noblesse oblige. E admirando o imóvel com regalo – um consultório à antiga, do tempo em que a medicina era uma profissão liberal – reparei nas suas mãos negras como raízes, na rebeldia dos dedos grandes dos pés a espreitar pelos buracos dos sapatos velhos, na gabardina decomposta por noites ao relento...Depois ouvi-o a condensar, numa diminuição breve mas clara, a brilhante carreira que o papá tivera na oftalmolgia e na cátedra, antes de me pedir uma moeda, porque não comia nada desde a noite anterior.
À medida que falava o Freguês Segundo, o cheiro a desespero tornava-se mais forte nas narinas do Freguês Primeiro, e, ainda que num falso socorro, os usos da convivência obrigaram-no a lançar uma bóia de salvação para a tempestade atlântica daquele olhar, um pouco de humor, bem para todos os males:
– Mas que beleza decadente tão linda! Dava um filme! Quem é que escolhia para interpretar o papel de vagabundo? – perguntou, com um sorriso corriqueiro.
– Meu caro – interrompeu o Freguês Segundo, grave –, ainda não percebeu onde é que eu quero chegar. Eu sou esse pai e esse filho, ao mesmo tempo, mas controvertidamente: em parte sou esse pai, sem o incómodo de estar morto; em parte sou esse filho, sem a benesse de uma esmola. E quão longa tem de ser uma vida, ou as suas pernas, para se assumir estados de espírito tão heterogéneos! Longas demais – suspirou –, longas demais...
Acto contínuo, voltaram a emparelhar conversa e não deram tréguas ao silêncio, mas abordando temas mais leves, mais quotidianos, menos metafísicos. Falaram como quem troca segredos em voz baixa e pontuaram os discursos com aforismos que envidenciavam uma grande comunhão de ideias. Riram muito, partilharam ansiedades, conjuraram memórias, elencaram fobias: em suma, flanquearam-se, exposeram as fraquezas com o tipo de confissões preliminares que atestam uma empatia imediata e costumam ser, em não raros casos, prelúdio de amizades duradouras.
A conta ia num copo de água da torneira e nove gin-tónicos, sem contar com aqueles três que o Freguês Primeiro consumira de aperitivo, quando a música cessou e as luzes se acenderam, iluminando a pedra, revelando que os pilares eram rematados por capitéis jónicos, até então ocultos em sombras.
Quando saíram para a rua, Cevide amanhecia. Um passáro ibérico executava um solo de bico em G menor, inspirado pelos matizes arroxeados da manhã. Os fregueses, o Primeiro e o Segundo, estacaram à porta do Finisterra porque iam para caminhos opostos, e acenderam um último cigarro, adiando com bafuradas o fim inevitável de uma noite que desejavam ser imensa, até que o Freguês Segundo, esfregando as mãos por não ter nada melhor para fazer com elas, tomou a palavra:
– Parece que é a hora da despedida.
– Parece que sim – respondeu o outro, conformado.
– Amanhã à mesma hora? – perguntou o Freguês Segundo, com um sorriso que logo se desfez.
– Indubitavelmente que não! Não se esqueceu? Somos misantropos, o senhor e eu, é essa a nossa natureza. Todas as lutas travadas contra a natureza são lutas perdidas...
O outro, desconsolado, anuiu em silêncio – eram-no, de facto.
– Estamos condenados a viver sozinhos, não é? – suspirou.
– É o nosso fado. Mas, por favor, sem dramatismos teatrais! Decerto que não ignora, tal como eu, a inutilidade das despedidas!
De súbito, o Freguês Segundo sentiu-se duplamente só, se é que dentro da solidão cabem multiplicidades: duplamente porque, antes de tudo mais, já o era, de antemão; e como se já não bastasse apenas sê-lo, tinha sido abandonado. Endireitou as costas, solene, e um sopro de vento assobiado da Galiza sacudiu-lhe as roupas e os cabelos – mas também as folhas secas que jazem mortas, por varrer, nos claustros interiores da alma onde os pensamentos se arrastam como serpentes na floresta – e de mão estendida, perguntou:
– Como disse que se chamava?
– Não me cheguei a apresentar. Diabo. E o senhor?
– Deus.”
 (Conto: Lugar de Culto"; Autor: António Pacheco Costa; extraído de http://www.cim-altominho.pt/fotos/editor2/no19lugardeculto.nestorsaraiva.pdf)

sábado, 23 de janeiro de 2016

Os ataques à Guarda Fiscal de S. Gregório e Castro Laboreiro nos jornais franceses (1912)


Antiga Ponte Internacional de S. Gregório/Ponte Barxas sobre o rio Trancoso em 1903

Em Portugal, a República foi implantada em 5 de Outubro de 1910. A reação monárquica à implantação da República sucedeu quase de imediato. E o rosto dessa contra-revolução foi o militar condecorado, católico fervoroso e monárquico convicto Henrique Mitchell de Paiva Couceiro. Refugiado na Galiza, Paiva Couceiro foi o cérebro de duas incursões falhadas no Norte do País, em 1911 e em 1912.
Em 1911, a revista “O Occidente”, na sua edição de 20 de Outubro alude para a presença ameaçadora dos monárquicos na Galiza prontos para uma invasão pela fronteira norte portuguesa, especialmente por Melgaço e Monção. Na dita publicação, pode ler-se que “É entre estas vilas portuguesas, da província do Minho, que se defrontam com Galisa, que se vê a velha ponte romana, compondo o cenário extremamente pitoresco de toda a região do nosso lindo Portugal.
   São estas duas vilas, Melgaço e Monsão, das mais históricas do Minho, por feitos heróicos dos seus filhos nas guerras em defesa da integridade da pátria contra os assaltos de seus visinhos de Espanha.
   Então como agora são as terras de fronteira que despertam as atenções do público por serem o campo de acção dos que conspiram contra o novo regime.
   Refugiados na Galisa, mercê do governo de Espanha que lhes dá quartel,  os conspiradores portuguêses tentaram passar as fronteiras pelo Minho, antes de o fazerem agora por Traz-os-Montes, realisando de facto a incursão das suas forças por Vinhaes, entre Chaves e Bragança.
   O insucesso dessa incursão foi noticiado pelos telegramas, mais ou menos contraditórios sobre os resultados da aventura, sendo, todavia, certo que houve recontro com as tropas do governo, em que de parte a parte se deram ferimentos e até mortes.
   Entretanto os conspiradores não lograram seu intento, e debandaram novamente para a fronteira da Galisa, onde parece que se conservam uns, enquanto outros desanimados dispersaram-se abandonando seus camaradas, à frente dos quaes se encontra Paiva Couceiro.
   Agora voltam novamente suas vistas para o Alto Minho, tentando entrar em Portugal por algum destes postos de fronteira.
   Não é fácil prever quanto durará tal situação desde que estas incursões tomaram o caracter de guerrilhas, como em tempos, que já lá vão, aconteceu com os celebres Remichido e Galamba, nas lutas liberaes, que por muito tempo inquietaram e não pouco prejudicaram as provincias do Alentejo e do Algarve, especialmente.
   A Historia vae, infelizmente repetindo-se. É o mesmo povo, é o mesmo país, são as mesmas paixões, e quasi um seculo decorrido, parece tudo encontrar-se na mesma ignorancia e por isso no mesmo fanatismo!"
Uma outra publicação da época, “O Carbonário”, na sua edição de 2 de Julho de 1911, mostra-nos o depoimento de um tal Botelho de Sousa que terá conhecimento de apreensões de armas na Galiza para serem passadas para Portugal e outro armamento que terá mesmo conseguido passar a fronteira. Essa apreensão teria sido feita por republicanos espanhóis. O mesmo Botelho de Sousa refere que “se não fosse a sua vigilância aturada, todo esse armamento tinha passado a fronteira, como estou convencido que passaram outras remessas numerosas, que a esta hora estão acoitadas em logar seguro”. Então, o jornalista pergunta: “Em que região?” Botelho de Sousa esclarece: “Em várias... Mas, estou convencido de que, se procurarem em Suajo, Peso de Melgaço e Monsão, lá encontrarão alguma cousa...”
Nestes anos após a implantação da República, os monárquicos refugiados na Galiza levaram a cabo uma série de incursões e escaramuças em território português na zona raiana e em particular em Melgaço. Exemplo dessas incursões são os ataques realizados por parte do monárquicos aos postos da Guarda Fiscal de Castro Laboreiro e S. Gregório em 1912. Estes acontecimentos foram notícia em jornais franceses. No periódico “La Presse”, na sua edição de 1 de Maio de 1912, encontramos a seguinte notícia:
”Ofensiva dos monárquicos portugueses”
Movimentações na fronteira
Lisboa, 30 de Abril – O Novidades publicou um despacho de Monção, de 29 de Abril, dá-nos conta que alguns monárquicos terão assaltado um posto da Guarda Fiscal em Castro Laboreiro, na fronteira portuguesa, e retirou-se de seguida para Espanha. A guarnição de Monção já foi contactada.
Porto, 30 de Abril – Existe o rumor de que os monárquicos portugueses, exilados em La Cañiza, invadiu S. Gregório, na fronteira. Eles invadiram o escritório de alfândega e retiraram-se de seguida para La Caniza. Reforços de tropas serão enviadas para a fronteira.”

Jornal "La Presse", cabeçalho da sua edição de 1 de Maio de 1912


Jornal "La Presse", edição de 1 de Maio de 1912, corpo da notícia citada


Num outro jornal francês, o “Le Temps”, na sua edição de 1 de Maio de 1912, dá-nos conta dos mesmos acontecimentos na seguinte notícia:

“PORTUGAL
Incursões realistas

O Novidades de Lisboa publicou um despacho de Monção, na fronteira com a Galiza, onde dá conta que um grupo de exilados realistas portugueses assaltaram um posto da Guarda Fiscal em Castro Laboreiro, e fugiram para Espanha logo de seguida.
A guarnição de Monção foi contactada.
De acordo com outra versão atualizada no Porto, um grupo de monárquicos exilados na Galiza fizeram uma incursão em S. Gregório, junto à fronteira. Invadiram o posto da Guarda Fiscal e roubaram as armas, regressando a La Caniza logo de seguida.”

Jornal "Le Temps", cabeçalho da sua edição de 1 de Maio de 1912

Jornal "Le Temps", edição de 1 de Maio de 1912, corpo da notícia citada


As incursões dos monárquicos em território português iriam continuar até à derrota da Monarquia do Norte em 1919...



Informações recolhidas em:
- “La Presse”, edição de 1 de Maio de 1912.
- “Le Temps”, edição de 1 de Maio de 1912.
-  “O Carbonário”, Semanário Republicano Radical. Nº 32; Edição de 2 de Julho de 1911.

- “O Occidente, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro. Nº 1181; 20 de Outubro de 1911.