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sábado, 1 de fevereiro de 2014

O cerco a Melgaço (1388) na Crónica d' El Rey D. João I (Parte III)


Capitulo CXXXVI
Como el rei cobrou a villa de Melgaço por preitezia(1)

"Enquanto se estas obras faziam, não cessavam os da villa em lançar trons ao arraial, e do arraial à villa pedras d'engenho. Vendo os do logar aqueles artificies feitos, e receando-se de receber d'elles damno, mandaram dizer a João Fernandes Pacheco que lhe fosse falar, e el rei o mandou lá, e chegou á barbacã, e Alvaro Paes ao muro, e fallaram por espaço e não se accordaram. Nesse dia escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da villa, e outra do arraial. Andaram ambas aos cabellos, e venceu a do arraial, e des-ahi cada dia
tiravam os trons e engenho uns aos outros, e o engenho fazia muito mal na villa, e os trons não impéciam em nada.
E em esto chegou a rainha de Monsão, tres léguas de Melgaço, e vinham com ella o Doutor João das Regras, e João Affonso de Santarem e outros cavalleiros. E depois se veiu a rainha ao mosteiro de Feães, uma légua de Melgaço.
E isso mesmo chegou ao arraial o conde D. Gorçalo e João Rodrigues Pereira, e escaramuçaram os do conde com os da villa, e foram feridos d' ambas as partes, e nenhum morto.
E veiu recado a el-rei que a villa de Salvaterra, que lhe dera D. Pedro, que a deram um tabellião e dois homens d'armas a Paio Sorodea. El-rei mandou logo lá o Priol com muita gente, mas não aproveitou nada. E querendo el-rei mover seus artifícios pera combater o logar, fez saber á rainha que viesse ver o dia do combate, e veiu e esteve ali.
E em uma segunda feira, depois de comer, três dias do mez de março, mandou el-rei que abalasse a bastida com seus corregimentos contra a villa, como tinha ordenado, e moveu com mui gran força de gente; pero foi bem dezoito braças, desahi moveu uma ala, e depois a outra, e estiveram ambas defronte do muro, arredada urna da outra, e tiraram-lhe sete trons, que não fizeram damno. Depois moveu outra vez, e foi bem rijamente, e chegaram-se tanto à villa que punham um pé dentro no muro e outro na escala, e subiu muita companha, e o Priol primeiro que todos, e mandou el-rei que atirassem afora.
Entonce se fez prestes pera mandar combater, e mandou dez homens d'armas que subissem no mais alto sobrado, onde iam as pedras de mão, e moveu tudo juntamente, as escalas pera pousar e a bastida em que iam os homens d'armas e besteiros. E da bastida sahiam homens com grossos paus, que acostavam ao muro, e puzeram muitos d'elles, e ficavam de fundo amparados, e pero de cima d'elles lhe lançavam pedras grandes e fogo, não lhes impécia nada, e tiraram de fundo alguns cantos, afora outra pedra, de guisa que os de dentro entenderam que não havia em elles conselho, posto que trabalhassem por se defender. Fizeram saber a el-rei que lhes fizesse fallar, e foi lá o Priol e fallou com elles, e el-rei não queria consentir em nenhuma avença, cousa que aos outros lagares fazia de boamente quando lh'a commettiam. Mas todavia tomai-os por força, por se vingar d' algumas desmesuradas palavras que contra elle diziam por vezes; e sobre esto havia refeita se o faria ou não. João Rodrigues de Sá disse que lhe parecia que era bem, pois lhe moviam preitezia de a fazer, porque tomando-os por força, lhe podiam matar uma tal pessoa, que elle não quereria depois por quantos no jogar jaziam.
El-rei disse com queixume: «Quem medo houver não vá na escala.»
-Eu, senhor, disse João Rodrigues, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conhecestes.
-Nem eu, disse el-rei, não o digo por vós, mas digo-o, porque os hei já por tomados.
Os que roubar desejavam, da gente meuda e meã, queriam que o tomasse por força, outros muitos tinham com João Rodrigues. Enfim consentiu el-rei na preitezia, e tornou lá o Priol, o qual, leixadas algumas razões, que mingua não fazem de escrever, foi d'aquena guisa:
Que dessem a villa e o castello a el-rei, e que sahissem em gibões sem outra cousa.
Havendo já cincoenta e tres dias que el-rei jazia sobre elles, e tendo lançadas da villa ao arraial cento e vinte pedras de trons, que nenhum nojo fizeram, e do arraial á villa trezentas e trinta e seis, que damnaram gran parte dela.
E preitejada por esta maneira, foi fama pelo arraial que todos haviam de sahir em gibões, e com senhas varas na mão. Os cachopos todos, sem lho nenhum mandar, apanharam varas, cada um seu feixe, e tinham-nas prestes á porta da villa por onde haviam de sahir.
Em esto sahiu um mancebo pouco mais de vinte annos, e chegou onde el-rei estava, e fincou os joelhos ante elle e disse d'esta maneira:
«Senhor, eu sou escudeiro fidalgo que vim a este logar por serviço d'el-rei meu senhor, cujo vassallo sou, e por minha desaventura, sendo estas as primeiras armas que eu tomei pera o.servir, parece-me que é forçado que as perca, segundo a preitezia, que ouço dizer que entre vós e os da villa tendes trautado, que é cousa de que tomo tão grão nojo, que maior ser não pode, não por a perda das armas, que sua valia não é tamanha, mas porque me parece que já com outras não poderei haver nenhum bom aquecimento, se estas de tal guisa perdesse. Porém vos peço, senhor, por mercê, que mas mandeis dar, que pode ser que inda vos eu com ellas faça tal serviço, guardando a honra d'el-rei meu senhor, e a minha lealdade, que vós as hajaes em mim por bem empregadas.»
El-rei disse que lhe prazia muito e que mandava lh'as dessem, se achadas fossem, ou das outras, umas quaes elle escolhesse, e que viesse, e assim foi feito.
Em outro dia, uma segunda feira, foram lançados todos fora d'aquelle geito, e os cachopos mettiam-lhe senhas varas nas mãos, e elles tomavam-n'as, e alguns por sabor diziam ao que lh'a dava:
- “Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa”.
E assim se foram, que não ficou nenhum, e o Priol em sua guarda, não embargando os pregões e defesa d'el-rei que andava pelo arraial.

Á quinta feira, foi entregue a villa e castello a João Rodrigues de Sá, a quem o el-rei deu, e elle tornou com a senhora rainha pera a villa de Monsão, que eram d'ahi tres leguas, como dissemos." 

Nota (1): Preitezia significa que tomou a vila por meio de uma negociação.

Extraído de: LOPES, Fernão (1897) - Chrónica d' El-Rei J. João I. Vol. IV, Edição da Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa.

Veja a parte I em http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/01/o-cerco-melgaco-na-cronica-d-el-rey-d.html
Veja a parte em II http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/01/o-cerco-melgaco-1388-na-cronica-d-el.html

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O cerco a Melgaço (1388) na Crónica d' El Rey D. João I (Parte II)




Capítulo CXXXV
Da bastida e escalas que el-rei mandou fazer

"Havendo nove dias que el-rei jazia sobre este logar, tendo já os da villa lançadas sessenta pedras de trons que não fizeram porém damno, mandou el-rei armar um engenho em cima da ponte da villa e logo esta quarta-feira lançou cinco pedras, e tres foram dentro no logar e duas deram no muro, e responderam-lhe de dentro com doze pedras de trons, que nenhum damno fizeram. À quinta feira lançou do engenho vinte e cinco pedras, das quaes deram dezasseis no muro, e duas em dois caramanchões, que foram logo derribados, e as sete cahiram na villa, que fizeram gran perda em casas que derribaram e destruíram. Com esto não quedavam de derribar, e acarretar a madeira que el-rei mandava fazer pera fazer duas escalas e uma bastida pera mover todo juntamente e pousar sobre o muro, e como foi lavrada fizeram as rodas do carro pera a bastida, em que havia em grosso por testa dois palmos, e de roda a roda em ancho treze cavados, e ao longo, de padral a padral, que ia por cima d' ellas. Havia vinte e seis cavados, e em alto, d'onde se começava por cima dos carros, havia treze braças e meia. Em ella havia trez sobrados pera irem homens d'armas e besteiros juntos ou apartados, como vissem que cumpria, o qual sobrado primeiro ia madeirado de pontões mui grossos, estrados de mui grossos caniços pera andarem por cima. Havia d'arredor cento e trinta e seis pontões, e a parte de traz ficava aberta, em que iam escadas d'alçapão por que haviam de subir; e por esta guisa o segundo sobrado que havia de redor cento e vinte e quatro oontões, e o terceiro cento e trinta escadas d'alçapão de um a outro, e em cima d'este sobrado outro pequeno com cento e vinte oito meios pontões de redor, em que iam trez mil pedras de mão, que mandaram apanhar as regateiras, e no segundo sobrado quinze trebolhas grandes cheias de vinagre, pera deitar ao fogo se lho lançassem, e esta bastida levava diante seis grandes caniços forrados de carqueja, e vinte e quatro couros de bois, verdes, pregados sobre ella por guarda do fogo e dos trons.
Mandou mais fazer duas escalas, que levava cada uma quatro rodas e os eixos de ferro bem grossos, e sobre ellas seis traves altas como esteios, acompanhadas d'outros paus pera se manterem, não todos de uma altura, segundo cumpriam, e em cada uma duas poles de guindar, que guindavam doze cabres grossos de linho canhene; e trez debadouras de traz pera guindarem, e dois grandes cabrestantes, como de naus, e iam cada uma escala pregadas de táboas grossas sobre quatro paus compridos como pontões, em que havia de longo quarenta e oito covados, e em ancho nove, e cincoenta degraus de meios pontões e caniços, e couros de vaca, verdes, nos logares onde cumpria, para irem cada um da parte da bastida.

E todo esto foi feito em quinze dias, e não quedavam em tanto de fazer caminhos e calçada, por onde haviam de ir a bastida e escadas."

.....................................................CONTINUA.......................................................

Extraído de: LOPES, Fernão (1897) - Chrónica d' El-Rei J. João I. Vol. IV, Edição da Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

O cerco a Melgaço (1388) na Crónica d' El Rey D. João I (Parte I)





CAPÍTULO CXXXIV
Como El Rei foi cercar Melgaço 

"Tornando a el-rei, que ficou em Braga assaz fadigado da guerra em que era, pero fosse tempo de inverno, não deu vagar porém a seu trabalho, e ordenou de ir sobre Melgaço, cinco léguas acima de Tuy, e meia Iegua do rio Minho, villa cercada sem arrabalde, de bom muro e forte castello, do senhorio de seu reino, que lhe tinham os inimigos tomada.
A este logar chegou el-rei com sua hoste, e era no mez de janeiro, na qual ia D. Pedro de Castro e o Priol do Esprital, e João Fernandes Pacheco e outros capitães e senhores, e seriam por todos umas mil e quinhentas lanças, e muita gente de pé.
E os que dentro estavam por defensão do lugar, eram Alvaro Paes de Souto Maior e Diogo Preto Eximeno, e em sua companhia até trezentos homens d'armas e outros muitos peões escudados.
E logo como el-rei chegou, foram armadas as tendas e pousado o arraial, não porém longe da villa, e sem dar mais espaço, começaram de dentro d'atirar os trons e escaramucar com os de fora, e não se fez dano de nenhuma parte a outra, nem com os trons que lançaram.
No seguinte dia escaramuçaram e deram uma setada a Pero Lourenço de Távora, e da villa morreram alguns. e foram outros feridos; e pero este dia lançassem nove pedras de trons aos do arraial, não lhe fizeram nojo, e nos dois dias depois este, lançaram vinte pedras sem outra escaramuça, que não fizeram dano.

À sexta-feira não lançaram trons, mas foi uma escaramuça, em que mataram um do arraial e foram feridos muitos de uma parte e da outra, e ao sábado lançaram três trons e um de noite, sem fazer nojo. Ao domingo foi feita uma escaramuça entre os da villa e os de D. Pedro de Castro, e mataram dos de D. Pedro um homem d'armas e dois de pé, e d'outros, por todos até seis, e da villa foram alguns feridos, e nenhum morto. Nos dois dias seguintes, deitaram oito trons que não fizeram dano."


...................................................................CONTINUA............................................................................

Extraído de: LOPES, Fernão (1897) - Chrónica d' El-Rei J. João I. Vol. IV, Edição da Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O cerco ao Castelo de Melgaço contado no livro "Neves de Antanho" (1918) pelo Conde da Sabugosa (parte IV)

A rendição dos castelhanos



Alguns escritores, seduzidos pela ideia de atribuir a este episódio o resultado da empresa, outros copiando aqueles, (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações) afirmam ter sido decisiva para a entrega do castelo a pugna entre as duas mulheres. Fantasias!
A verdade é que, se este duelo animou e excitou a coragem dos Portugueses, foi só daí a horas, na manhã de Segunda-feira, três de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos. Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças. Depois à escalada dos que «se chegavam tanto à Villa que punham um pé no muro outro na escala», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital. A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) enquanto outros se atiravam ao muro com grossos paus, De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com imprecações e insultos («desmesuradas palavras») que assanhavam o animo de D. João I. Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a própria inferioridade, pediam novamente tréguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assédio à viva força. Então João Rodrigues de Sá, o das Gales, —voz sensata— alvitrou que era de boa política aceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu : — «Quem medo houver não vá na escala». Subiu uma onda de sangue às faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés na Ribeira de Lisboa. E resentido respondeu : 
— «Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conhecestes».
E o Rei, caindo em si, pois que nele estes assomos de cólera eram logo dominados pela força calmante da razão, emendou : — «Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, porque os hei já por tomados.»
Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta presa. Outros seguiam o alvitre razoável do ponderado Sá, com o qual o Rei concordou afinal, enviando o Prior do Hospital a aceitar a preitesia e estipular as condições. Foram todas aceites. Não só entregariam a vila e castelo a El-Rei, mas obrigavam-se a sair da fortaleza em gibões sem outra coisa...
Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castelo ia saindo era, por escárneo, obrigado a empunhar um desses ramos. Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.
Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a desonra, ao que D. João I galhardamente acedeu. Outros, contudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente «por sabor» de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes : — «Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa».
Não ficou nenhum ! Quando na Quinta-feira seguinte, depois de cinquenta e três dias de assalto, o castelo e vila de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar. E quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava esse pendão redentor. Era Inês Negra a batalhadora, imagem simbólica das energias femininas, proclamando assim a vitória que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal. Se Aljubarrota tem a ilustrá-la pitorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendária proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopeia joanina, entre as lutas pela independência, o feito autêntico e mais significativo de Inês Negra a heroína de Melgaço.

Texto extraído de:
CONDE DA SABUGOSA (1918) - Neves de Antanho. Edição da Livraria Bertrand, Lisboa. 

domingo, 15 de setembro de 2013

O cerco ao Castelo de Melgaço contado no livro "Neves de Antanho" (1918) pelo Conde da Sabugosa (parte III)

O episódio da Inês Negra




Sabendo que os dois chefes não se tinham acordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno dela. Era uma mulher daquela região, a quem chamavam Inez Negra. Negra por apelido de família ? Talvez.
David Negro se chamava o rabi de Castela que urdiu o enredo contra D. Leonor Teles. E Afonso Pires—o Negro —era o escudeiro de Nun'Alvares na véspera de Valverde. Famílias com o nome de Negrão e Negreiros tem havido em Portugal, pertencendo à primeira, no século XVIII, o poeta da Arcádia — Almeno Sincero. Ou, seria antes a nossa Inês, negra, porque a sua pele exageradamente trigueira, como a da Sulamite do Cântico dos cânticos, contrastasse com a das suas conterrâneas, quási todas alvas, de olhos claros cabelos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?
A iconografia portuguesa é assas pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres ilustres careça de qualquer documentação acerca das feições da modesta, mas valente portuguesa dos arredores de Melgaço. Figuramo-la, porém, por artifício de imaginação, com encrespado cabelo da côr do seu apelido. De olhos igneos como o seu nome de Inês, a pele acastanhada, adusta e curtida pelo mordente
sol dos campos, na ceifa. Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o lábio superior. Peito chato como a das amazonas. Tipo levemente aciganado e plebeu, mas não destituído de encanto. E no seu todo o interêssse que provoca
sempre uma personalidade fortemente acentuada. Visitando a casa onde segundo a tradição ela habitou depois da sua proesa, —a Venda de Angelina—(hoje um prédio modernizado), ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até à porta de D. Afonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompor uma efígie da Inês Negra, porventura sua remota parente. Devia ser assim como a evocámos!
Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da Arrenegada aceitou o repto. Entretanto El-Rei enviara à Rainha recado para que viesse. Os engenhos estavam concluídos, e quási aplanado o caminho pelo qual se de via fazer rodar a bastida e encostá-la às muralhas. É possível que o mensageiro anunciasse também no Mosteiro de Fiais, onde D. Filipa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço. E isso seria certamente escutado com curiosa atenção pelo mundo feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas Damas e cuvilheiras, de distrações e recreios, tão escassos naquela solidão. E logo entre o mulherio quantos comentários sobre o projectado duelo! Nas velhas, altos escarcéus, e motivo para ralharem de tão descomposta escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa de comoções. Por isso quando naquela manhã do princípio de Março a Rainha, com a sua Corte, se aprontou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas as discussões acerca do projectado combate. A primavera anunciava-se prometedora. O ar gelado da manhã bafejava a pele do rosto das senhoras, que, ao montarem, se embuçavam friorentas nos seus mantéus e biocos. Na descida, quási a pique, da íngreme ladeira, que durante uma hora percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das boas donas iam só atentas ao perigo, que oferecia o marchar hesitante dos cavalos sobre os pedregulhos das veredas agrestes. E quando as facas em que iam montadas punham o pé com menos segurança, o que trazia a iminência de um tropeção, ouviam-se exclamações aflitas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre as resolutas .Outras olhavam maravilhadas a paisagem deslumbrante, o panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se espreguiça voluptuosamente o rio Minho.
Além à esquerda os montes de Pernidclo, em cuja verdura se aninhava o conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a terra de Deu-la-Deu. E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quási se distinguia a nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra estranha, as pequenas povoações galegas tão maneirinhas... que apetecia dá-las como brinquedo a uma criança!
A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a vila de Melgaço, ali em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma coroa de ameias enfeitava, e para a povoação em redor dela, metida nas faixas das muralhas defensoras, prometendo um espectáculo atraente, quando se rendesse à força, como fêmea dominada pelo seu legítimo senhor. Por de fora dessa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de campanha o arraial português, sobresaindo a barraca elegante tomada em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para firmar a aliança inglesa.
E, informe, como um animal antediluviano, destacava-se a medonha bastida, pronta a atacar. A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descente. O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dois de fundo todos os do acampamento, sendo difícil a passagem quando de frente encontravam um boizinho barrosão de hastes enormes, ou as recuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quási escadaria) de mais de meia légua, desembocava abruptamente em pleno acampamento Neste, o Rei que logo veiu receber a Rainha, começou explicando o modo de arremeter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres. Na Corte dos Valois perto de três séculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo julgamento de Deus, tornaram-se solenidades quási festivas, que chegariam ao apogeu de brilho no célebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duqueza d'Etampes, i arretou o pomposo Chataignerie, defensor de Diana Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as sumidades da França.
Aqui, porém, nesse final do século XIV, e neste canto da Península, as escaramuças, perante uma Corte mais guerreira, que polida, mais austera que licenciosa, se não tinham o esplendor das cerimónias teatrais que deslumbram, não eram menos importantes os seus resultados. Pelo contrário. Na Corte de Henrique II digladeavam-se dois adversários para liquidarem uma intriga de alcova.
No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dois exércitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino. Nessa manhã do começo de Março em que a Arrenegada saiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora Inês Negra, todos, de um lado e outro, se dispuzeram a presenciar o espectáculo desta pugna de nova espécie, a que deram foros de combate, e que a crónica regista com a designação honrosa de escaramuça entre duas mulheres bravas. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas. Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do ariaial formavam círculo em volta das lutadoras, saudando com vozearia carinhosa Inês Negra a portuguesa, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã. As almas também têm sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicáveis, tantas anomalias flagrantes—homens mulherengos, mulheres viragos.
Nos corpos destas duas moravam almas de lutadores valentes, herdadas talvez de seus avoengos, dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Península as raças invasoras. Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com fúria, com sanha, com rancor atiraram-se uma à outra sem mais armas do que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacelavam. Atropelando-se, arrancando os cabelos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na luta. Ensanguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja. Davam mais a impressão de dois monstruosos animais enovelados em trapos, cabelos e sangue, que de duas mulheres humanamente construídas.

O drama começava a abalar o ânimo ainda dos menos- susceptíveis de sofrer comoções, quando a Arrenegada, ou porque tivesse menos elasticidade nos másculos que a Inês Negra, ou porque o espírito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, saindo logo desfalecida. Então Inês, que a suplantara, foi gloriosamente levada em triunfo e saudada com aclamações, ao som de trombetas e charamelas festivas. 

...CONTINUA...

Texto extraído de:
CONDE DA SABUGOSA (1918) - Neves de Antanho. Edição da Livraria Bertrand, Lisboa.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O cerco ao Castelo de Melgaço contado no livro "Neves de Antanho" (1918) pelo Conde da Sabugosa (parte II)

As tropas de D. João I chegam a Melgaço e começam as escaramuças...


-- Ano de 1388 --

Aqui e além deparavam-se numa volta do caminho povoações ou casas isoladas. E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rústicos tugúrios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, com as cabeças hirsutas os camponeses olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacâneas em que cavalgavam as donas, as aias, as criadas e as cristaleiras. Dos cancelos surdiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farnéis, enquanto bandos de galinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na espectativa de uma ceia restauradora. E a extensa comitiva coleando pelos caminhos do vale deixava à esquerda os montes levemente ondulados de Galiza a padrasto do rio Minho, e começando a subir a encosta, que vai ao Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Bouças.
A Rainha com a sua Corte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges beneditinos, com o Dom Abade à frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia à portaria do convento.  
El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afora a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial. Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camelo. D. Pedro de Castro, que havia pouco abraçara a causa de Portugal, JoãoFernandes Pacheco ; (filho de Diogo Lopes, assassino de Dona Inês), de quem Mem Rodrigues dizia ter as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitais e senhores. Tudo se preparou para a arremetida. Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Dinis envolvera a quadrada torre afonsina guarnecida de dentes que mordem o céu, era defendida por Álvaro Pais de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que tinham trezentos homens de armas e muitos peões.
Além da gente de guerra, era a pequena vila povoada por moradores pacíficos, cujas famílias habitavam as casinholas de granito, com pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos. Entre as famílias que nesse fim do século XIV se acoitavam naqueles habitáculos, havia a de uma portuguesa a quem, por se ter bandeado com os castelhanos, tinham dado a alcunha de Arrenegada. Era esforçada. Aquilo a que o povo chama uma refilona e, como todos os renegados, odiava fidalgamente os seus antigos compatriotas. Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas, os preparativos do campo português. Ardia em fúria e ância de arremeter ela própria. E não foi estranha aos primeiros lançamentos de trons contra os nossos. Assistiu também inquieta e fervilhante às primeiras escaramuças, rejubilando logo que viu que, com uma seta, fora ferido Pêro Lourenço de Távora, um português do arraial. Era uma verdadeira virago, mais aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos. Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial sessenta pedras de trons, ao que do lado português foi correspondido, não havendo grande dano de parte a parte. Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da vila, um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projecteis que destruiram algumas casas e caramanchões de Melgaço.
Ao mesmo tempo mandou que nas imediações se cortasse madeira, e se acarretassem materiais para se construírem duas escadas e uma bastida, formidável máquina de guerra sobre rodas, de temeroso efeito contra as praças fortes.
Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa bastida, muito larga de roda a roda, e de padral a padral; com os seus três sobrados madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas ; com estrados de mui grossos caniços para se andar por cima. Com escadas de alçapão e nos pontões superiores, três mil pedras de mão, que mandaram apanhar pelas regateiras. Havia também trebolhas cheias de vinagre para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar do fogo que viesse.
Era um rudimento do moderno tanque, era o precursor dessa máquina de guerra, que nos campos da Bélgica está actualmnte  exercendo a sua terrível acção devastadora.

Esta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu efeito, ainda antes de manobrar, foi eficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados à fabricação do aparatoso engenho, apressaram-se a pedir tréguas, propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Álvaro Pais. Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco à barbacã, e de dentro, encostado ao muro, falou-lhe o comissário castelão. Longo espaço de tempo durou esta conversação entre os dois guerreiros arvorados em plenipotenciários. E enquanto eles falavam, assediados e assediadores suspenderam as investidas, acudindo ao ânimo de uns, (os mais pacíficos) esperanças de uma concordância. Refervendo no de outros (os mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. Destes o mais irreprimível era o da Arrenegada que ardia em sanha. Sabendo que os dois chefes não se tinham acordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno dela. Era uma mulher daquela região, a quem chamavam Inez Negra.

...CONTINUA...

Texto extraído de:
CONDE DA SABUGOSA (1918) - Neves de Antanho. Edição da Livraria Bertrand, Lisboa.

domingo, 8 de setembro de 2013

O cerco ao Castelo de Melgaço contado no livro "Neves de Antanho" (1918) pelo Conde da Sabugosa (parte I)

As tropas do rei marcham em direcção a Melgaço




Cumpria caminhar sobre Melgaço, única praça que no Minho ainda conservava voz por Castela. Foi resolvido partir logo, de Coimbra para o Porto, onde El-Rei e a Rainha, que o acompanhava, despediram o Duque de Lancastre e a sua reduzida hoste, que, em seis galés, numa clara manhã de fins de Setembro largou de foz em fora, para Bayonna, então inglesa.
Desembaraçado assim do hóspede, e aviados outros assuntos, que se antolhavam urgentes, dirigiu-se D. João I para Braga a reunir as Cortes. Foi durante elas que D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, teve notícia da morte de sua mulher. Correu ao Porto onde ela falecera, fez-lhe exéquias solenes, mandou a filhinha para Lisboa à guarda da Avó—Iria Gonçalves—e, arrumadas assim as cousas domésticas, voltou para Braga onde o reclamava o interesse do Estado, verdadeiro fulcro do seu espírito.
Negócio de Estado eram também por certo e de alta importância para D. João I, essa viuvez de Nuno Álvares. Grande conchavador de casamentos, até mesmo sem audiência prévia dos interessados, El-Rei resolveu logo, de acordo com a Rainha, casar o seu Condestável com D. Beatriz de Castro, filha do Conde D. Álvaro Pires, «uma donzella assaz formosa e bem filha d'algo». Próxima parenta da linda Inês, collo de garça possuía porventura o mesmo poder de encanto, que seduzira o Rei D. Pedro. Este viúvo, porém, era pouco susceptível de se deixar captivar com graças femininas.
Avesso por índole ao tracto conjugal, não lhe sofria também o ânimo independente aquela imposição de um consórcio, assim improvisado. Resistiu bisonhamente, —ao Rei com uma simples negativa ; à Rainha, pela qual professava um respeitoso afecto, respondeu esquivamente : — «Para offerecer a D. Brites os braços, era preciso que estivessem desarmados e não convém ainda lançar a espada.» Escusa de guerreiro ! Sentir de monge!
Desobrigado assim, e livre da teia em que podia ser enleiado, levantou voo para entre Tejo e Guadiana, onde a fronteira estava ameaçada. D. João I conhecia o seu irmão de armas. Era inútil insistir, podendo até qualquer teima provocar alguma daquelas desavenças, que entre os dois às vezes surgiam.
D. Beatriz, se acaso edificara naquele terreno o castelo da sua felicidade, viu-o desfeito em névoa, antes mesmo de o habitar. E continuou, (até que ao diante levou outro destino) a ser ornamento na Corte de D. Filipa, acompanhando-a
como as outras na jornada que logo El-Rei empreendeu sobre Melgaço, e onde por certo foi das que mais aplaudiram a aventura da aguerrida Inês Negra, que logo vamos presencear. Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras
que El-Rei puzera ao seu serviço. A ela pertenciam : como aia a camareira-mór D. Beatriz Gonçalves de Moura viúva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil, e como damas a filha desta, Tareja Vasques Coutinho, viúva do filho do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Teles ; a irmã daquela, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Biringueira Nunes Pereira, prima do Condestável e filha de Rui Pereira, que morrera na peleja das naus ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido batalhão volante, nesse cortejo que ia assistir ao mais típico episódio daquela época.
D. João I preparava-o adrede para mostrar à Rainha como se assediava uma praça, e para exibir perante a sua Corte, a valentia dos homens de armas, que vinham consolidando a independência do Remo. Era uma genuína galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de fazer assistir a fina flor da Corte feminina ao rude embate dos seus besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da dextreza, e do valor com que se pelejava. Era também uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares mulheris, o mais aguilhoante estímulo da cavalaria gloriosa.
Era, finalmente, uma ala de namorados de nova espécie, batalhando em frente de suas damas. Era, em resumo, uma fantasia de herói! Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filipa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-na João das Regras —o Doutor, João Afonso de Santarém, e ainda outros letrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Institutas, que no brandir das espadas e dos arremeções.
Corria o mês de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A paisagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os páteos das habitações; com os fetos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as eras e musgos revestindo os penedos graníticos; com o veludo esmeraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das tílias opulentas ; com a pradaria clara rindo alegremente

na voluptuosidade das regas abundantes ; toda essa sinfonia de verde, executada a grande orquestra, sob a regência de um sol brilhante, que vivifica o torrão ; que se reflecte nas lantejoulas de feldspato e de mica, tapete dos caminhos feito como do pó de diamantes, e que dá a essa região o geito de um sorriso da natureza; essa paisagem apresentava naquela quadra do ano a fisionomia rabujenta de uma criança amuada. O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas, e avolumado os regatos, dificultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o séquito proseguia lentamente, mas sem desfalecimento. O tropear dos cavalos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e dali à aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas relíquias de eras já idas), que as urzes e as eras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e condutores de equipagens, alvoraçavam a gente do campo.

...CONTINUA...

Texto extraído de:
CONDE DA SABUGOSA (1918) - Neves de Antanho. Edição da Livraria Bertrand, Lisboa.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

1388 - Conquista do Castelo de Melgaço aos castelhanos (contada no livro O Minho Pittoresco, 1886)



Aqui estamos de novo junto à tua sombra gloriosa, ó velha torre de menagem, e desta vez para evocar algumas das tradições honrosas que se ligam ao teu passado glorioso e sob a recordação das quaes queremos deixar Melgaço.
Nas guerras de D. João I contra Castella, todo o Alto-Minho tinha sacudido já o jugo castelhano e só Melgaço resistia ainda, confiado na sua guarnição de 300 infantes e outros tantos cavalos, que o alcaide-mor Álvaro Paes Sotto-Mayor capitaneava com denodo.
Impaciente, D. João I por tal notícia, dirigiu-se ele próprio de Braga, onde reunira cortes, para o alto da província,  e pessoalmente tomou o comando das tropas do sítio. Iam perdidos dez dias em escaramuças ligeiras e, como nada se conseguisse, mandou o rei edificar um castelo de madeira, que fosse em altura superior aos baluartes, enviando antes de uma tentativa de força, que dizia ser a última, João Fernandes Pacheco para tratar à boa paz das condições da rendição da praça.
Não se quis dar a partido Álvaro Paes e  D. João, impaciente deveras, ordenou que tudo se ativasse para o assalto, a que ele próprio iria.
Os seus brios de guerreiro acendiam-se ainda, porque à sua mulher e quase noiva, Filipa de Lencastre, queria oferecer, como espetáculo de bravura, o assalto geral da praça.
A rainha achava-se já em Monção com João das Regras e João Affonso de Santarem, damas e criados da sua casa, e dali tencionava passar ao mosteiro de Fiães, para ficar mais perto do arraial.
Foi nesta ocasião que um facto de acaso, um combate singular entre duas mulheres, decidiu a sorte da campanha.
Vivia dentro da praça uma mulher valente, parcial dos castelhanos, e a quem os de fora chamavam a  Arrenegada, por ser uma portuguesa que contra a sua pátria combatia. Soube esta mulher que no acampamento estava a sua conterrânea Ignez Negra, que tinha por igual uma aureola de virago. Mandou-a desafiar a combate singular e Ignez, que era mulher de não levar “duas em capello”, pronta aceitou o desafio, que devia ter lugar a igual distância das muralhas e do arraial e para esse ponto se dirigiu.
A Arrenegada esperava-a já e a luta começou logo, encarniçada e terrível, ferindo-se com as mãos, unhas, e dentes, depois de partidas as armas, de que iam munidas. Não diz Duarte Nunes de Leão (Crónicas de D. João I) que qualidade de armas eram essas; mas o que ele assevera é que a pimpona da Arrenegada, depois de ficar de baixo, foi para dentro da vila, corrida, com os cabelos arrancados, e levando nos focinhos muitas nódoas das punhadas da de fora, que ficou vitoriosa.
Imagine-se a grande algazarra que os portugueses fizeram aos castelhanos e o desânimo que estes experimentaram.
No dia seguinte, a praça era de D. João I e Ignez Negra, na plataforma da torre, onde o pendão das quinas ondeava doravante, dizia para os besteiros ques c a rodeavam, olhando com orgulho a velha praça:
-- Mas vencemos-te! Tornaste ao nosso poder! És do rei de Portugal!
E eis aí como uma melgacense de heróicos brios e pulso sólido deixou na história da sua terra uma tradição gloriosa!


Texto extraído de:
 VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco. Tomo I; Edição da Livraria António Maria Pereira; Lisboa.