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sábado, 10 de janeiro de 2015

Ser pastor em Cubalhão (Melgaço), em reportagem do Jornal de Notícias

(recordando a reportagem "Ser pastor está-lhe na alma há mais de 60 anos" do JN)


Cubalhão (Melgaço)
(Foto de Rapazao in Panoramio)

"Nasceu, cresceu e viveu os seus 67 anos nas montanhas, lá para os lados de Cubalhão, uma das freguesias mais interiores do concelho de Melgaço. Ser pastor está-lhe na alma, de tal forma que conseguiu que o filho, hoje com 34 anos, lhe seguisse os passos e seja o proprietário de um dos maiores rebanhos da região. Entre cabras, ovelhas e vacas, mais as suas crias, chegam a contar setecentas cabeças. O neto de cinco anos vai pelo mesmo caminho. Anselmo Esteves, que todos conhecem por "Selmo" na aldeia de Cubalhão e redondezas, é um homem feliz.
"Comecei de pequeno, descalço, a andar nesta vida com os meus pais e ainda cheguei a emigrar em 60, mas não gostei do estrangeiro. Estive em França dois meses e vim-me embora. Ser pastor era a minha paixão", conta de sorriso franco estampado no rosto curtido pelo sol, do qual sobressaem os olhos de um azul intenso. O cabelo totalmente branco evidencia-lhe as feições. E continua "Estava lá e a pastorícia era o que me lembrava de dia e de noite. Sonhava que andava no monte".
Anselmo Esteves é um homem que fala muito e de coração aberto, conta história atrás de história e quem o ouve não dá pelo passar do tempo, mas a forma como trata os animais fala por ele, sobre o ofício para o qual diz ter nascido. "Fui um homem criado no monte", orgulha-se. Por estes dias, o orgulho de "Selmo" é uma cabra "surgida do nada" nas montanhas e que se juntou não ao rebanho mas à sua manada de vacas. "Esta cabrinha apareceu perdida no monte e ficou aqui. Só que não quer saber das outras cabras. Nunca mais largou as vacas", comenta, divertido, enquanto afaga o animal que apresenta já alguns sinais de idade adiantada. Depois, desvia-se pouco mais de um metro e desata a brincar com um de três vitelinhos, dois castanhos e um branco, com apenas três dias, que repousam sobre palha. Acarinha-os como se fossem crianças.

A família de Anselmo é toda dedicada à pastorícia. A mulher, Maria Alves, 63 anos, casada há 36 com "Selmo", também sobe à montanha com os animais. Pequena, vestida de preto da cabeça aos pés e sempre sorridente, conta que já foi protagonista de "um reclame" na televisão espanhola com o seu rebanho. Fala dos ataques dos lobos e das raposas, e dos dias passados "em cima de um penedo" a vigiar o rebanho. O filho, José Alberto Esteves, tem a mesma ocupação. Aprendeu com os pais e aos 18 anos quis ter os seus próprios animais. "Meti um projecto de dez mil contos à CEE para ovinos e caprinos. Deram-me sete mil contos para cem ovelhas e duzentas cabras", conta, dizendo que "quem se agarrasse naquela altura à pastorícia ganhava dinheiro". Diferente é, contudo, a perspectiva que tem do futuro "Daqui a dez ou quinze anos, acabam-se os animais aqui na zona". Sobre o seu filho de cinco anos que "sabe tudo sobre os animais e que o pai não gosta do lobo", José Alberto refere: "Gostava que ele seguisse isto porque para já é bastante rentável, mas também gostava de o ver estudado". A casa do "Selmo" pastor é guardada por 12 cães, três dos quais são pastores e os restantes de caça e rafeiros."

Extraído de:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=934303