sexta-feira, 10 de maio de 2019

Melgaço na História do Mosteiro da Batalha



O Mosteiro da Batalha foi mandado construir pelo rei D. João I em 1386, em cumprimento de uma promessa pela vitória na Batalha de Aljubarrota em 1385 e que garantiu a preservação da independência lusitana. Todavia, a História do Mosteiro da Batalha ficará para sempre ligada a Melgaço. Porquê?
Em inícios de 1388, a Praça de Melgaço era a única que permanecia nas mãos dos castelhanos pelo que o rei a mandou cercar durante 53 dias até que caiu em mãos lusas em Março do mesmo ano. Foi o próprio rei que veio comandar o seu cerco. Em Melgaço, encontrava-se, entre outros, Frei Lourenço Lampreia, que era confessor do rei e frade dominicano. Enquanto decorria a construção do Mosteiro da Batalha, em terras melgacenses o monarca luso deixou assente que iria entregar o dito mosteiro à Ordem de S. Domingos e o Frei Lourenço Lampreia viria a ser o primeiro Prior do Mosteiro da Batalha. Tudo isso é-nos contado no livro “Primeira Parte da História de S. Domingos”, publicado em 1866: E foi assim, que já havia três annos que a obra do Mosteiro corria, quando estando de cerco sobre o Castello de Melgaço, assentou de o dar à Ordem de São Domingos, segundo o achamos declarado no testamento, que muitos annos depois fez em huma verba, que diz assim: “Porque nós prometemos no dia da batalha que houvemos com el-Rei de Castella, de que Nosso Senhor Deus nos deu vitoria, de mandarmos fazer à honra de Nossa Senhora Santa Maria, cuja véspera então era, á cerca donde ella foi, hum Mosteiro: o qual depois que foi começado, nos requereu o Doutor João das Regas do nosso Conselho, e Frei Lourenço Lamprea, nosso Confessor, estando nós em cerco de Melgaço, que ordenássemos que fosse da Ordem de S. Domingos. E nós duvidamos de o fazer, porque assim foi nosso prometimento de se fazer à honra da dita Senhora Nossa Santa Maria. E responderão-nos que a dita Ordem especial era muito da dita Senhora, declarando-nos as razões porque: as quais vistas por nós, acordamos, e prove-nos de ordenar o dito Mosteiro que fosse da dita Ordem etc.”
Logo que a praça de Melgaço voltou para as mãos dos portugueses, o rei e o seu séquito abandonam terras melgacenses e seguiram até ao Porto onde parou, e nela mandou passar carta de doação à Ordem cujo traslado tirado do próprio que se guarda no Cartório do Convento, onde se pode ler o seguinte:
Dom João pela graça de Deus, Rei de Portugal, e do Algarve. A quantos está carta virem fazemos saber, que por honra da Virgem Maria, nossa defensora, e d’estes Reinos, considerando as muitas estremadas graças, que do seu bento Filho a rogo d'ella sempre recebemos, assim em guarda de nosso corpo, como exalçamento dos ditos Reinos em as guerras e mesteres em que somos postos, especialmente na batalha e campo que houvemos com os Castellãos, dando-nos deles vitória maravilhosa, mais por sua misericórdia, que polos nossos merecimentos, propozemos em renembrança dos benefícios por ella recebidos de edificar, e mandar fazer casa de oração, em a qual à honra, e louvor da dita Senhora se faça serviço a Deus. A qual de feito já mandamos começar apar da Canoeira. E porque segundo Deus, e verdade os Fraires Pregadores da Ordem de S, Domingos som mui devotos em ella, assim por as suas obras, como polo hábito que de suas mãos receberão, são outro si merecedores de todo bem, e mais, que a Nosso Senhor, e a dita Senhora, sua Madre servem em cada hum dia, e saberão servir ao diante rogando a elles por nós, e polos susoditos Reinos. Porende nós suzodito Rei a honra e louvor dos suzuditos Senhores de nosso próprio movimento, livre vontade, e por cumprir outro si aquillo que pressuposto haviamos, damos, doamos, e dedicamos à Ordem de S. Domingos o nosso Mosteiro de Santa Maria da Vitoria, que nós ora mandamos fazer a par do dito logo da Canoeira, termo de Leiria, à honra da dita Senhora com todos seus direitos e pertenças. E rogamos aos Frades da dita Ordem, áquelles, a que de direito he cometida a administração d'ella, especialmente a Frei Lourenço, nosso Confessar, que tome o encarrego e posse da dita casa, e Mosteiro por esta nossa carta: a qual queremos e outorgamos que seja firme e valedoura para todo sempre. E mandamos outro si, e rogamos a todos nossos filhos, nossos ereos, e sucessores que hajam o dito Mosteiro encomendado, e o acrescentem sempre de bem em melhor, e defendam em os privilégios e liberdades, que lhe per nós, e per as Padres Santos forem dados: em quanto seu poder abranger, e ao dito Mosteiro for necessário e compridouro, sob pena da nossa benção. E pera esto outro si haver mais pronta e comprida executação, rogamos, e mandamos ao Doutor João das Regas do nosso Conselho, que perante nos e suzoditos sucessores seja prometor e requeredor de todo o bem, prol, e honra do dito Mosteiro e Frayres d'elle. E em testemunho d'esto lhe mandamos dar esta carta assinada por nossa mão. Dada na cidade do Porto quatro dias de Abril. El Rei o mandou. Álvaro Gonçalvez a fez. Era de MCCCCXXVI annos. Rei. (Corresponde ao ano do Senhor de 1388).



Fonte consultada: SOUSA, Frei Luís de (1866) - Primeira Parte da História de S. Domingos.

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