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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Estórias da Senhora da Graça (Melgaço): Um fantasma, uma capela e um enforcado que não morreu


No livro "Santuário Mariano" publicado há cerca de 300 anos, o autor conta-nos uma história de um fantasma que apareceu ao abade de Roussas quando este vinha da vila de Melgaço no local onde se encontra esta capela. O abade ficou tão aterrorizado que prometeu construir uma capela caso Nossa Senhora o livrasse de tamanho aperto. E cumpriu...
Ora leia: "Em um eminente monte sobranceiro à Praça de Melgaço, na freguesia de Santa Marinha de Roussas, sítio, ainda que alto, é muito agradável e delicioso, não só pela variedade de horizontes. Dele se descobre muita parte do reino da Galiza, pela corrente do rio Minho acima e todas as terras do termo de Melgaço, Valadares, Monção e das mais que correm em frente do mesmo caudaloso Minho. Mas pela frescura dos arvoredos e pomares, se vê o santuário da Nossa Senhora da Graça.
Teve princípios este santuário no ano de 1594 e lhos deu um abade da mesma freguesia de Roussas a quem chamavam Tristão de Castro, obrigado de um voto que havia feito a Maria Santíssima, mãe de Divina Graça, em ação de agradecimento de um singular favor, que recebeu da sua piedosa clemência, no qual lhe prometeu de lhe erigir naquele sítio uma Casa, em que ela fosse perpetuamente louvada. E o grande perigo de que a Senhora o livrou, não foi só para ele favor, mas é benefício singular para todos aqueles povos, pois por este meio dispôs a Divian Providência, que tudo encaminha misericordiamente para bens dos homens, que tivessem tão grande Tutelar e Protetora. Foi o favor que a Senhora fez ao Abade o seguinte.
Vindo o Abade Tristão de Castro da Vila de Melgaço sendo já alta noite para sua casa, pela estrada, eu da mesma vila vai para a Igreja, em o mesmo lugar onde hoje se vê o Santuário da Senhora, o qual estava cercado de uma e outra parte de matas, arvoredos e bosques muito fechados. Neste sítio saiu-lhe ao encontro um fantasma de muito estranha grandeza, que não só o atemorizou muito, mas ao cavalo em que ia, o qual andava pelos ares à roda dando saltos. Vendo-se o Abade neste grande perigo, e em termos de perder a vida e de ser despedaçado, chamou por Nossa Senhora, de quem era muito devoto, pedindo-lhe que lhe valesse e o livrasse daquela grande aflição e evidente perigo em que se via. Porque ele Lhe prometia de lhe erigir naquele lugar uma Ermida em que perpetuamente fosse louvada. De repente, se desfez o fantasma e ficou tudo bem em sossego e o abade se recolheu a sua casa em paz porque a Senhora o sustentou para não cair em terra e se despenhar.
Obrigado de tão grande favor, o abade e da promessa que havia feito à Senhora, sem alguma demora, deu princípio à Ermida, que dedicou a Nossa Senhora da Graça sem dúvida pela grande que lhe havia feito de o livrar da morte que viu diante dos olhos. Também se denominou esta Senhora com o título da Carvalheira, dando-se-lhe o título do sítio em que se lhe edificou a Casa. Mas este título se extinguiu pelo decurso do tempo, preservando sempre o da Graça pela grande que o abade havia feito. É esta Santíssima Imagem de escultura de madeira, mas excelentemente obrada. A sua estatura são quatro palmos, é estofada e tem ao doce fruto do ventre encostado ao peito direito e pegando nele com tal graça com ambas as mãos, que causa grande devoção.
Não só edificou o abade a Ermida, mas para que sempre aquela Casa da Senhora tivesse renda com que se consertasse, lhe deixou aplicadas algumas fazendas e instituiu uma capela, para que o capelão dela fosse obrigado a dizer missa ao altar da Senhora em todos os dias das sua festividades, que se guardam naquele arcebispado. Desde os princípios que a Senhora foi colocada naquele santuário, começou a obrar infinitas maravilhas, como ainda ao presente obra, e assim são também muitas as romagens que se fazem à Senhora, não só pelos moradores da vila de Melgaço, mas de todas as freguesias do seu termo, principalmente em todos os domingos e dias santos do ano. E todos acedem aos poderes daquela grande Senhora, que como é Mãe amorosa, a todos ampara e favorece.

Muitos e notáveis são os prodígios que esta Senhora tem obrado a favor dos seus devotos quando em suas aflições e trabalhos se valem da sua clemência . Nas guerras passadas, que sucederam depois da feliz aclamação del Rei Dom João o Quarto de saudosa memória, entre este reino e o de Castela indo cinco soldados de valor a reconhecer o movimento do exército inimigo, que se achava na Campanha dos Arcos. Caindo estes nas mãos do inimigo, três deles foram prisioneiros, (porque escaparam os dois) e foram levados à vila de Pontevedra, onde foram sentenciados à forca e como um deles fosse natural da freguesia de Santa Marinha de Roussas a quem chamavam Gregório Vaz. Tendo particular devoção à Senhora da Graça, disse aos dois companheiros, que se oferecessem à Senhora, para que ela os livrasse da morte, ao que responderam que ali já não havia outro remédio que morrer. O terceiro, que era Gregório, se encomendou com mais fé à Senhora, crendo ser poderosa para o livrar da forca, fazendo-lhe votos de a servir toda a sua vida, se lha conservasse. Sendo enforcados os dois e mortos, seguia-se Gregório, a quem fizeram o mesmo. A este se lhe quebrou a corda uma primeira e em seguida uma segunda vez, dobrando-lha na última e nesta caiu em terra com a garganta toda ferida e julgado como os demais morto, vindo ao outro dia os Religiosos de S. Francisco para os enterrarem, acharam Gregório sentado e encostado em uma mão e com as contas na outra. A vista desta maravilha, que era digna de estimar por milagrosa, não teve o algoz compaixão dele. Antes lhe deu todo raivoso duas lançadas, uma pela teta esquerda e outra mais acima e ambas passaram às costas. Tal é o antigo ódio que os castelhanos têm aos portugueses que ainda à vista de um espetáculo tão digno de compaixão o não fizeram dissimular. Assim o levaram com os outros, como mortos e segunda vez o acharam com milagrosa vida. E se estendeu por todos ser obra milagrosa e favor muito particular de Deus e de sua Santíssima Mãe a quem Gregório se havia encomendado. Remeteram-no depois à Corunha, cabeça daquele Reino da Galiza, mas preso. E deram conta do sucesso à Majestade de Filipe IV, rei de Espanha, com a narração do sucedido. Ao que respondeu como Príncipe Católico (em quem não podia entrar o ódio daqueles vis e malévolos corações, que ainda tinham em prisões e perseguiam com mortal ódio ao português Gregório) mais pio e misericordioso que os seus vassalos, que o remetessem a Portugal. Porque a quem a Virgem Maria concedera a vida, não era bem que lha tirassem os homens. E enfim veio Gregório Vaz a portugal e foi cumprir os seu voto e viver junto à ermida da Senhora da Graça, tomando o sobrenome da mesma Senhora, o qual, até ao presente vive servindo a Senhora e se chama Gregório da senhora da Graça, pela que a Senhora lha fez de o livrar da morte e de lhe conservar a vida em tanta crueldade. Ainda hoje conserva os sinais e cicatrizes das feridas, afistuladas, para maior final de maravilha. Tudo isto consta de papeis autênticos, que se conservam na Secretaria das Mercês e de um alvará assinado pela mão real, em que El-Rei lhe mandou dar um tostão cada dia para seu sustento. Da Senhora da Graça de Roussas escreve o Abade Brás de Andrade da Gama."


Extraído de:
Extraído de: SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Capela da Senhora da Graça (próximo da vila de Melgaço): algumas notas históricas



A construção desta capela remonta ao século XVII. Os documentos mais antigos levam-nos a  1609, a 10 Julho e referem-se à instituição de 6 missas na Capela da Graça pelo abade da freguesia, Tristão de Castro, por sua alma e de seus defuntos. Em 1610, a 12 Fevereiro dá-se a abertura do testamento do Abade Tristão na Quinta de Surribas. Foii primeiro administrador da capela Gregório de Castro, filho do instituidor. Em 1618, a 8 Julho é a data em que este já era falecido. Sucedeu-lhe na administração Gregório de Castro, filho do anterior e de D. Crecência da Rocha, morrendo solteiro sem descendência. A administração da capela passou assim para Pedro de Castro, irmão do primeiro e tio do segundo, sendo casado com a filha e herdeira de Marcos Pereira Velho e mulher D. Eulália Tabeira da Costa, senhores da Casa do Supegal. Em 1644, Pedro de Castro já era falecido. O quarto administrador foi Diogo Pereira de Castro, filho primogénito de Pedro de Casto, casado com D. Ana Soares Lobato de Lanções. Sabe-se que já no século XVIII sucedeu-lhe seu filho Mateus Pereira de Castro, cavaleiro professo da Ordem de Cristo e, por morte deste, seu irmão Bernardo Pereira de Castro e Lanções. Herdou depois a Quinta de Sopegal e a capela anexa ao morgado sua filha D. Ana Maria Pereira de Castro e Lira, que casou com António Luís Malheiro Pereira. Este foi o sétimo administrador da capela, a que sucedeu seu filho João Malheiro Pereira de Castro e Lira, que casou com D. Maria Joaquina de Abreu Coutinho, não gerando filhos. Em 1806, a 10 Dezembro, a capela da Senhora da Graça pertencia à Casa e Morgado de Sopegal, de que era senhor e administrador João Malheiro Pereira de Castro e Lira, Fidalgo da Casa Real. Neste documento, a capela é descrita como sendo de pedra de cantaria, com cornija e pirâmides nos quatro cantos, com cruz lavrada para Este, com seu entablamento de pedra lavrada e campanário na fronteira e duas frestas. Tinha a porta para Oeste com seu rocio murado à volta da capela, com a entrada por um corte na parede do lado Sul. Estava madeirada e forrada de novo, com porta nova de castanho, e ainda não se tinha feito o retábulo, por se ter arruinado o que tinha. O rocio da capela tinha para Este 20 varas, a Norte 13, a Oeste 13 e a Sul, partindo para a estrada que ia da vila para Rouças 16 varas. Enquanto duravam as obras, a imagem de Nossa Senhora da Graça estava na Igreja Matriz da freguesia. Sabe-se que em 1831, a 13 Maio João Malheiro instituiu por testamento a herdeira universal de todos os bens vinculados D. Maria Antónia de Almada Leite Machado Malheiro, filha de Inácio Leite Pereira de Almeida Pinheiro e de D. Grácia Flávia Machado de Melo Pereira Malheiro, prima co-irmã do testador. Em 1836, a 17 Janeiro, ocorre a morte de D. Maria Antónia, solteira e ainda em vida do testador. A 23 Fevereiro desse ano, João Malheiro P. Celina indicou como sua herdeira uma irmã de D. Maria Antónia, D. Grácia Xavier, Viscondessa da Azenha. A 1840, a 2 Março, após a morte da viscondessa, herdou a capela da Senhora da Graça e sua fábrica, a filha D. Emília Correia Leite de Almada. Em 1847, a 13 Maio, D. Emília casou com Dom Santiago Garcia Y Mendoza, o qual acabou por desbaratar o grande dote de esposa;  Em 1860, a 5 Maio, verifica-se a compra da capela pelo reverendo António Joaquim Feijó, reitor de São Miguel da Facha, filho dos Senhores do Morgado da Casa da Torre. Em 1864, a 6 Março, ocorre a compra da Capela por Manuel José Esteves Melgaço, bem como os foros pertencentes à mesma, por 250$000. No ano de 1871, a 29 Setembro,  achando-se a capela ao abandono e completamente inútil para o culto, Manuel José Esteves Melgaço e esposa D. Maria Rita Alves reedificaram-na e aumentaram-na. Como para a devida habilitação para o culto, o arcebispo de Braga exigia que os pretendentes reconstituíam o património dos bens imobiliários necessários à sua manutenção permanente de 6$000 livres de encargos, os outorgantes doam para património da capela e sua fábrica a sua propriedade, que produzia pão e vinho e era terra de rega e lima, com suas águas, regalias e servidões, e que eles compraram ao reverendo Dinis Ferraz de Araújo, ex-abade de Rouças, a qual rendia anualmente 14$000. Esta ficava no lugar do Telheiro, freguesia de Rouças. Em 1872, a 12 Junho é a data do autuamento do requerimento apresentado no cartório da Câmara Arquiepiscopal de Braga, onde substituíam o património anteriormente referido por outro sobre inscrições da divida pública portuguesa. No 25 Junho do mesmo ano, depois de organizado o processo, foi deferido a pretensão da capela ser benzida de novo e nela se celebrar missa, pelo arcebispo D. José Joaquim de Azevedo Moura. A 12 Agosto regista-se a provisão de licença para se continuar a celebrar missa na capela. Em 1877, a 14 Agosto, ocorre o casamento de D. Maria de Nazaré Esteves com Francisco António Cerdeira, natural de Rouças. Em 1887, a 14 Agosto, regista-se a morte de Francisco António Cerdeira. Em 1889, a 31 Julho, dá-se o falecimento de Manuel José Esteves Melgaço, ficando a Quinta de Eiró e a capela da Graça para a sua filha D. Maria de Nazaré Esteves. Em 1888, a 2 Setembro é a data do casamento em segundas núpcias de D. Maria de Nazaré Esteves com Vitorino Augusto dos Santos Lima. Posteriormente, D. Maria de Nazaré vendeu a capela da Graça a Ernesto Viriato dos Passos Ferreira da Silva, natural de Braga e casado com uma senhora de Melgaço. Sabia-se que em 1955 este era ainda o administrador da capela. 

Informações recolhidas em:
www. monumentos.pt