sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Castro Laboreiro e a exploração do volfrâmio em tempo de guerra

Na vila de Castro Laboreiro, década de 40.

Em 1942, estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. Por essa altura, chegam ao conhecimento da diretoria da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, acontecimentos ocorridos em Castro Laboreiro (Melgaço), a propósito da exploração de volfrâmio  nas proximidades do lugar da Seara desta freguesia.
Em resposta, a diretoria da polícia política solicita ao Posto do Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) um relatório acerca de tais factos. No mesmo relatório, a Guarda Fiscal comunica que “…passo a informar Vossa Excelência de tudo  o que foi possível averiguar acerca dos incidentes ocorridos na concessão de volfrâmio a que alude o citado ofício. As explorações de minério estão a fazer-se nuns terrenos baldios da freguesia de Castro Laboreiro e, ao que consta, foram uns garotos que descobriram a existência de volfrâmio mas o “castrejo” José Esteves, do lugar das Cainheiras, foi propositadamente à Câmara Municipal de Melgaço para registar como propriedade sua, o terreno aonde apareceu o minério. Uma vez na Câmara, ao expor o assunto que ali o leveva, certos funcionários da Câmara, ou quase todos, ao que se diz, tentaram dissuadir o “Castrejo” do seu intento, alegando que esse registo não se podia fazer. O castrejo José Esteves, aborrecido com a atitude dos funcionários da Câmara, vai para a sua terra seriamente indignado e fazendo constar aos seus vizinhos o que se tinha passado, também dizia que o queriam vigarizar. Dias depois, constata-se que os funcionários da Câmara tratavam, a toda a pressa, desse registo e da compra do terreno e pedido de concessão de exploração de minas.
O castrejo continua a manifestar publicamente a sua indignação contra os funcionários da Câmara e o resultado é ir parar à cadeia por ordem, ao que se diz do fotógrafo Manuel Alves de San Payo a quem o baldio foi vendido por quinhentos escudos. Posto em liberdade, o castrejo vai para Castro Laboreiro e pede proteção do padre Manuel Domingues que imediatamente toma a defesa deste seu paroquiano e é de opinião que a exploração mineira dos referidos baldios deve ser feita pelos habitantes da freguesia, em proveito deles e para melhoramentos locais que são urgentes.
Constam então, publicamente os seguintes factos: o tal terreno que é baldio e pertence portanto ao estado, dependia da Junta de Freguesia mas foi vendido ao fotógrafo San Payo por indicação do seu muito amigo Secretário da Câmara Municipal de Melgaço que vê nele o sócio ideal dadas as boas relações que o San Payo diz ter em Lisboa, aonde tudo resolve. Vão ambos a Castro Laboreiro e o certo é que os da Junta vem a Melgaço e de comum acordo fazem a escritura da venda do terreno, por quinhentos escudos, e outra escritura de sociedade na qual entram os da Câmara, os da Junta e o regedor de Castro Laboreiro. Não foram afixados editais da venda do terreno como determina a Lei mas para se furtarem a qualquer contratempo, o San Payo fotografou um edital que esteve exposto apenas o tempo suficiente para ser fotografado. Também se diz que na Junta de Castro Laboreiro foram lavradas atas com datas que não correspondem à verdade, isto a conselho do Secretário da Câmara que já fazia o que queria dos membros da Junta. E enquanto se realizavam todas estas tarefas, a Guarda Fiscal policiou o terreno para evitar a exploração. Concedida a autorização para a exploração, a Guarda Fiscal abandona o local mas a Sociedade vendo que a maior parte do povo de Castro Laboreiro se encontrava revoltado contra ela, requisita praças da Marinha para manter a ordem e poder arrancar o volfrâmio. Mas a força pouco tempo ali estaciona por saber que o padre Manuel Domingues ia participar que ela estava ali sem ordem superior e a prestar um serviço que não se coaduna com a missão da Marinha de Guerra. A sociedade requisita a seguir a G. N. R. de melgaço mas o comandante se secção vendo agitado o estado de coisas, ordena às praças que se retirem por não ter recebido ordens do Comando do Batalhão para que elas lá permanecessem. De novo, a Sociedade se vê seriamente embaraçada com a atitude dos castrejos que se dizm roubados por ela, e não podendo contar com a colaboração das autoridades, nomeia cabos de ordens, arma-os e estes vão para as minas onde disparam tiros para o ar afim de amedrontar os mais exaltados.
Como esta espécie de mantedores da ordem não desse resultado, a sociedade pôs-se em contacto com o fotógrafo San Payo a  pedir providências e o certo é que no passado dia 12, parece, chegou um cabo e três praças da G. N. R. com destino às minas. Entretanto, a sociedade alarmada com a atividades do castrejo José Esteves, arranja uma nova sociedade, ou melhor, uma outra sociedade da qual este passou a fazer parte com os senhores: Dr. Cândido de Sá, antigo presidente da União Nacional e atual sub-delegado de saúde em Melgaço, Manuel José Domingues, o “Mareco” e Domingos António Domingues.
Mas o padre Manuel Domingues é que não está pelos ajustes e não se cansa de proclamar ofendidos os direitos e interesses dos seus paroquianos. Já quizeram suborna-lo com elevada quantia e já instaram para que entrasse numa das sociedades mas ele tem repudiado todas as ofertas e foi para Lisboa queixar-se. A população de Castro Laboreiro aguarda com ansiedade o regresso do padre que lhe prometeu defende-los mas por outro lado as tais sociedades também aguardam os bons ofícios do fotógrafo San Payo que diz que tem o quer com os Senhores Ministros a, b, c, etc.
Já consta aqui que o fotógrafo San Payo foi recebido pelos Exmos. Diretores da P. V. D. E.  e que as coisas se encaminham bem para as sociedades mas a verdade é que são de esperar graves acontecimentos que ainda não se deram graças aos conselhos do padre Manuel mas que virão a dar-se se o assunto não for resolvido com justiça. E pelo que consta, afigura-se que está do lado que o padre defende.
E para findar, junto envio a V. Exa. uma folha do jornal “Notícias de Melgaço” de 20 de Setembro, onde vem anunciada a escritura da primeira sociedade que é constituída pelos Srs. Manuel Alves San Payo, fotógrafo; Abílio Domingues, Vice- presidente da Câmara de Melgaço em exercício; Doutor João de Barros Durães, Presidente da União Nacional e Presidente da Câmara Municipal de Melgaço; Herculano Arsénio Gomes Pinheiro, secretário da Câmara; Henrique Cordeiro Lucena, Fical da Câmara; Armando da Mota Solheiro, Amanuense da Câmara; José Agusto Esteves, Amanuense da Câmara; Domingos Alves, Presidente da Junta de Castro Laboreiro; António Bento Esteves, vogal da mesma Junta; José António Gonçalves, vogal da Junta e Abílio Alves Carabel, regedor da freguesia de Castro Laboreiro.
Também consta que esta sociedade compra o volfrâmio, a quem o explora, a menos de 30 escudos o quilo para ir vender – quase todo – a Espanha, de contrabando.
A bem da Nação.
Peso, 17 de Outubro de 1942”

Capa do processo relativo às irregularidades na exploração de volfrâmio em Castro Laboreiro

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 1)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 2)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 3)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 4)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 5)

Escritura da constituição da Sociedade de exploração mineira publicada no jornal "Notícias de Melgaço"

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É muito provável que pelo menos parte deste volfrâmio extraído em Castro Laboreiro tivesse como destino a Alemanha nazi. Num relatório dos Serviços Secretos americanos é citado o castrejo Manuel José Domingues, mais conhecido como o Mareco, um dos maiores contrabandistas da região e membro que integrava a Sociedade Mineira Castro Laboreiro, Limitada. No dito relatório refere-se claramente que o citado Mareco negociava ilegalmente o volfrâmio com os alemães juntamente com outros contrabandistas, entre os quais Artur Rodrigues. 
No referido relatório podemos ler:
Manuel José Domingues
Manuel José Domingues de Castro Laboreiro enviou anteriormente volfrâmio, ouro e moeda ilegalmente através de Espanha para os alemães, e, segundo as notícias, ainda está negociando barras de ouro. Os seus associados eram Barros da Costa, o tenente Walter Thoebe, Artur Teixeira, Manuel Lourenço de Melgaço, António Esteves, Francisco Esteves, Manuel Pereira de Lima e Adolfo Vieira de Monção. Antes da guerra, as suas propriedades imobiliárias em Castro Laboreiro valiam cerca de 200 000 escudos. Actualmente, possui um património imobiliário avaliado em cerca de 4 000 000 escudos no concelho de Melgaço e Valença. No início deste ano, Domingues foi preso com dezessete barras de ouro no valor de 660 000 escudos na sua posse. Nada resultou dessa prisão…”


Extrato do relatório dos Serviços Secretos Americanos, acerca de Manuel José Domingues, o Mareco

E a posição do Padre de Castro Laboreiro acerca deste assunto? Na próxima publicação…



Informações extraídas de:
-   "IRREGULARIDADES PRATICADAS COM A EXPLORAÇÃO E COMÉRCIO DE VOLFRÂMIO EM CASTRO LABOREIRO, CONCELHO DE MELGAÇO", Código de Referência "PT/TT/MI-DGAPC/E/3/244/10", Torre do Tombo.
- OSS Washington Secret Intelligence/Special Funds Records, 1942-1946 , Washington Office, Special Funds Division Finance, Intelligence (WASH-SPDF-INT)WASH-SPDF-INT-1: Documents 2301-2350, Page 171.

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