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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Castro Laboreiro e a exploração do volfrâmio em tempo de guerra

Na vila de Castro Laboreiro, década de 40.

Em 1942, estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. Por essa altura, chegam ao conhecimento da diretoria da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, acontecimentos ocorridos em Castro Laboreiro (Melgaço), a propósito da exploração de volfrâmio  nas proximidades do lugar da Seara desta freguesia.
Em resposta, a diretoria da polícia política solicita ao Posto do Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) um relatório acerca de tais factos. No mesmo relatório, a Guarda Fiscal comunica que “…passo a informar Vossa Excelência de tudo  o que foi possível averiguar acerca dos incidentes ocorridos na concessão de volfrâmio a que alude o citado ofício. As explorações de minério estão a fazer-se nuns terrenos baldios da freguesia de Castro Laboreiro e, ao que consta, foram uns garotos que descobriram a existência de volfrâmio mas o “castrejo” José Esteves, do lugar das Cainheiras, foi propositadamente à Câmara Municipal de Melgaço para registar como propriedade sua, o terreno aonde apareceu o minério. Uma vez na Câmara, ao expor o assunto que ali o leveva, certos funcionários da Câmara, ou quase todos, ao que se diz, tentaram dissuadir o “Castrejo” do seu intento, alegando que esse registo não se podia fazer. O castrejo José Esteves, aborrecido com a atitude dos funcionários da Câmara, vai para a sua terra seriamente indignado e fazendo constar aos seus vizinhos o que se tinha passado, também dizia que o queriam vigarizar. Dias depois, constata-se que os funcionários da Câmara tratavam, a toda a pressa, desse registo e da compra do terreno e pedido de concessão de exploração de minas.
O castrejo continua a manifestar publicamente a sua indignação contra os funcionários da Câmara e o resultado é ir parar à cadeia por ordem, ao que se diz do fotógrafo Manuel Alves de San Payo a quem o baldio foi vendido por quinhentos escudos. Posto em liberdade, o castrejo vai para Castro Laboreiro e pede proteção do padre Manuel Domingues que imediatamente toma a defesa deste seu paroquiano e é de opinião que a exploração mineira dos referidos baldios deve ser feita pelos habitantes da freguesia, em proveito deles e para melhoramentos locais que são urgentes.
Constam então, publicamente os seguintes factos: o tal terreno que é baldio e pertence portanto ao estado, dependia da Junta de Freguesia mas foi vendido ao fotógrafo San Payo por indicação do seu muito amigo Secretário da Câmara Municipal de Melgaço que vê nele o sócio ideal dadas as boas relações que o San Payo diz ter em Lisboa, aonde tudo resolve. Vão ambos a Castro Laboreiro e o certo é que os da Junta vem a Melgaço e de comum acordo fazem a escritura da venda do terreno, por quinhentos escudos, e outra escritura de sociedade na qual entram os da Câmara, os da Junta e o regedor de Castro Laboreiro. Não foram afixados editais da venda do terreno como determina a Lei mas para se furtarem a qualquer contratempo, o San Payo fotografou um edital que esteve exposto apenas o tempo suficiente para ser fotografado. Também se diz que na Junta de Castro Laboreiro foram lavradas atas com datas que não correspondem à verdade, isto a conselho do Secretário da Câmara que já fazia o que queria dos membros da Junta. E enquanto se realizavam todas estas tarefas, a Guarda Fiscal policiou o terreno para evitar a exploração. Concedida a autorização para a exploração, a Guarda Fiscal abandona o local mas a Sociedade vendo que a maior parte do povo de Castro Laboreiro se encontrava revoltado contra ela, requisita praças da Marinha para manter a ordem e poder arrancar o volfrâmio. Mas a força pouco tempo ali estaciona por saber que o padre Manuel Domingues ia participar que ela estava ali sem ordem superior e a prestar um serviço que não se coaduna com a missão da Marinha de Guerra. A sociedade requisita a seguir a G. N. R. de melgaço mas o comandante se secção vendo agitado o estado de coisas, ordena às praças que se retirem por não ter recebido ordens do Comando do Batalhão para que elas lá permanecessem. De novo, a Sociedade se vê seriamente embaraçada com a atitude dos castrejos que se dizm roubados por ela, e não podendo contar com a colaboração das autoridades, nomeia cabos de ordens, arma-os e estes vão para as minas onde disparam tiros para o ar afim de amedrontar os mais exaltados.
Como esta espécie de mantedores da ordem não desse resultado, a sociedade pôs-se em contacto com o fotógrafo San Payo a  pedir providências e o certo é que no passado dia 12, parece, chegou um cabo e três praças da G. N. R. com destino às minas. Entretanto, a sociedade alarmada com a atividades do castrejo José Esteves, arranja uma nova sociedade, ou melhor, uma outra sociedade da qual este passou a fazer parte com os senhores: Dr. Cândido de Sá, antigo presidente da União Nacional e atual sub-delegado de saúde em Melgaço, Manuel José Domingues, o “Mareco” e Domingos António Domingues.
Mas o padre Manuel Domingues é que não está pelos ajustes e não se cansa de proclamar ofendidos os direitos e interesses dos seus paroquianos. Já quizeram suborna-lo com elevada quantia e já instaram para que entrasse numa das sociedades mas ele tem repudiado todas as ofertas e foi para Lisboa queixar-se. A população de Castro Laboreiro aguarda com ansiedade o regresso do padre que lhe prometeu defende-los mas por outro lado as tais sociedades também aguardam os bons ofícios do fotógrafo San Payo que diz que tem o quer com os Senhores Ministros a, b, c, etc.
Já consta aqui que o fotógrafo San Payo foi recebido pelos Exmos. Diretores da P. V. D. E.  e que as coisas se encaminham bem para as sociedades mas a verdade é que são de esperar graves acontecimentos que ainda não se deram graças aos conselhos do padre Manuel mas que virão a dar-se se o assunto não for resolvido com justiça. E pelo que consta, afigura-se que está do lado que o padre defende.
E para findar, junto envio a V. Exa. uma folha do jornal “Notícias de Melgaço” de 20 de Setembro, onde vem anunciada a escritura da primeira sociedade que é constituída pelos Srs. Manuel Alves San Payo, fotógrafo; Abílio Domingues, Vice- presidente da Câmara de Melgaço em exercício; Doutor João de Barros Durães, Presidente da União Nacional e Presidente da Câmara Municipal de Melgaço; Herculano Arsénio Gomes Pinheiro, secretário da Câmara; Henrique Cordeiro Lucena, Fical da Câmara; Armando da Mota Solheiro, Amanuense da Câmara; José Agusto Esteves, Amanuense da Câmara; Domingos Alves, Presidente da Junta de Castro Laboreiro; António Bento Esteves, vogal da mesma Junta; José António Gonçalves, vogal da Junta e Abílio Alves Carabel, regedor da freguesia de Castro Laboreiro.
Também consta que esta sociedade compra o volfrâmio, a quem o explora, a menos de 30 escudos o quilo para ir vender – quase todo – a Espanha, de contrabando.
A bem da Nação.
Peso, 17 de Outubro de 1942”

Capa do processo relativo às irregularidades na exploração de volfrâmio em Castro Laboreiro

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 1)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 2)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 3)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 4)

Cópia do relatório da Guarda Fiscal do Peso (Melgaço) acerca destes acontecimentos (Página 5)

Escritura da constituição da Sociedade de exploração mineira publicada no jornal "Notícias de Melgaço"

Adicionar legenda


É muito provável que pelo menos parte deste volfrâmio extraído em Castro Laboreiro tivesse como destino a Alemanha nazi. Num relatório dos Serviços Secretos americanos é citado o castrejo Manuel José Domingues, mais conhecido como o Mareco, um dos maiores contrabandistas da região e membro que integrava a Sociedade Mineira Castro Laboreiro, Limitada. No dito relatório refere-se claramente que o citado Mareco negociava ilegalmente o volfrâmio com os alemães juntamente com outros contrabandistas, entre os quais Artur Rodrigues. 
No referido relatório podemos ler:
Manuel José Domingues
Manuel José Domingues de Castro Laboreiro enviou anteriormente volfrâmio, ouro e moeda ilegalmente através de Espanha para os alemães, e, segundo as notícias, ainda está negociando barras de ouro. Os seus associados eram Barros da Costa, o tenente Walter Thoebe, Artur Teixeira, Manuel Lourenço de Melgaço, António Esteves, Francisco Esteves, Manuel Pereira de Lima e Adolfo Vieira de Monção. Antes da guerra, as suas propriedades imobiliárias em Castro Laboreiro valiam cerca de 200 000 escudos. Actualmente, possui um património imobiliário avaliado em cerca de 4 000 000 escudos no concelho de Melgaço e Valença. No início deste ano, Domingues foi preso com dezessete barras de ouro no valor de 660 000 escudos na sua posse. Nada resultou dessa prisão…”


Extrato do relatório dos Serviços Secretos Americanos, acerca de Manuel José Domingues, o Mareco

E a posição do Padre de Castro Laboreiro acerca deste assunto? Na próxima publicação…



Informações extraídas de:
-   "IRREGULARIDADES PRATICADAS COM A EXPLORAÇÃO E COMÉRCIO DE VOLFRÂMIO EM CASTRO LABOREIRO, CONCELHO DE MELGAÇO", Código de Referência "PT/TT/MI-DGAPC/E/3/244/10", Torre do Tombo.
- OSS Washington Secret Intelligence/Special Funds Records, 1942-1946 , Washington Office, Special Funds Division Finance, Intelligence (WASH-SPDF-INT)WASH-SPDF-INT-1: Documents 2301-2350, Page 171.

sábado, 19 de setembro de 2015

A história de um melgacense de Prado que combateu ao lado dos nazis na Rússia

Um soldado ao lado de uma sepultura de um combatente da Divisão  Azul

Apesar do estatuto de neutralidade do nosso país na II Guerra Mundial, muitos portugueses lutaram no maior de todos os conflitos. Praticamente desconhecidos, investigações recentes demonstram que cerca de 150 portugueses participaram na invasão alemã à União Soviética, integrados nas fileiras da Divisão Azul, arregimentada em Espanha e integrada na enorme máguina de guerra hitleriana.
E melgacenses? Sabemos que pelo menos houve dois melgacenses que combateram ao lado dos nazis na invasão à União Soviética de Estaline, integrados na chamada Divisão Azul. Um desses soldados era Aníbal Esteves Afonso, natural de Prado (Melgaço), nascido em 1917.


Aníbal Afonso no tempo da guerra

 Antes de tudo, é importante explicar o que é afinal a Divisão Azul e a sua origem.
Recuemos então a 1941. A Europa estava em guerra desde 1 de Setembro de 1939 com a invasão da Polónia pelas tropas germânicas. Hitler dominava meia Europa. Contudo, no Verão de 1941, Hitler anuncia ao mundo a sua jogada mais ousada: a Operação Barbarossa. Na madrugada de 22 de Junho, lançou os seus exércitos na sua maior operação militar da História, a invasão da União Soviética, seguindo-se um duelo de morte entre os dois colossos militares.
Ainda que os países ibéricos se tenham mantido neutrais durante o conflito, em Espanha, Francisco Franco permitiu que voluntários se incorporassem ao exército alemão. Deste modo, podia manter a neutralidade espanhola enquanto, simultaneamente, recompensava Hitler pela sua ajuda durante a Guerra Civil Espanhola. O Ministro de Assuntos Exteriores da época, Ramón Serrano Súñer, sugeriu a criação de um corpo voluntário, no princípio da Operação Barbarossa, e Franco enviou uma oferta oficial da ajuda a Berlim. Hitler aprovou o uso de voluntários espanhóis em 24 de junho de 1941.
No país vizinho, não houve falta de voluntários e, a despeito de apenas 4.000 homens tivessem sido solicitados por Hitler, a procura foi tão grande que as autoridades rapidamente elevaram o número de voluntários permitidos, visando formar uma divisão completa (cerca de 19.000 homens). Regimentos de voluntários foram criados em Madrid, Barcelona, Sevilha, Valência e todas as outras regiões metropolitanas. Em 2 de Julho de 1941, os postos de recrutamento foram oficialmente fechados, com o número de voluntários tendo até mesmo superado a marca de uma divisão. A maioria desses homens tinham experiência de combate, muitos eram veteranos da Guerra Civil, acostumados com os rigores da vida militar.
Como estes soldados não eram membros do exército espanhol, um uniforme simbólico foi improvisado: uma boina vermelha do movimentos Carlista, a camisa azul do movimento Falangista (que por fim deu o nome à unidade) e as calças cáquis da Legião estrangeira espanhola. Esse uniforme era para ser usado enquanto permanecessem em Espanha mas, antes de partirem, receberam o tradicional uniforme do exército alemão, contendo um escudo com as cores nacionais e a palavra “España”, na parte superior da manga direita.
Em 13 de Julho de 1941, o primeiro comboio com voluntários deixou Madrid em direção a Grafenwohr (Alemenha). Na Alemanha, fariam toda a instrução militar. Aqui tinham sido recebidos de forma apoteótica. Neste primeiro contingente, havia já cerca de meia centena de portugueses na Divisão Azul que prestaram juramento de fidelidade a Hitler, na luta contra o comunismo. Da Alemanha, seguiram para a Polónia e daí até à Rússia numa caminhada de cerca de 1000 Km’s. Das estradas da Polónia, chegaram-nos relatos de grupos de soldados portugueses que, em marcha, cantavam o bem português Tiroliro.
Na noite de 12 de Outubro de 1941, a Divisão Azul teve seu batismo de fogo ao se defrontar com um batalhão soviético que tentava atravessar o rio Volkhov em meio a escuridão. A investida russa foi detida deixando para trás cerca de 50 mortos e 80 prisioneiros. Quatro dias depois, numa segunda tentativa, o Exército Vermelho foi, novamente, rechaçado. A batalha pela posse do rio tornou-se violenta, mas os soldados da Divisão Azul souberam manter uma cabeça-de-ponte do outro lado da margem mesmo sofrendo pesadas baixas da artilharia inimiga.
Em Agosto de 1942, a Divisão Azul foi transferida do flanco norte para o sudeste do cerco a Leninegrado (Rússia).
Por esta altura, no Verão de 1942, Aníbal Afonso, natural de Prado (Melgaço), emigrante nas Astúrias, alista-se e segue num comboio de reforços para a Alemanha e dali vai juntar-se à Divisão Azul nas proximidades da cidade de Leninegrado.
Mas quem é o soldado melgacense Aníbal Esteves Afonso?
Nasceu no lugar do Coto, freguesia de Prado (Melgaço) em 18 de Julho de 1917. Era filho de José Bento Afonso, natural no lugar da Gaia, São Paio, por volta de 1886, carpinteiro, e de Constância da Pureza Esteves, doméstica, nascida no lugar do Coto, Prado, por volta de 1887.
Aos dezassete anos, Anibal Afonso vivia com os seus pais em Remoães, mas a sua família acabou por seguir o destino de muitos minhotos e emigrou para as Astúrias, onde Aníbal começou a trabalhar como mineiro e assentou residência em Olloniego, localidade próxima de Oviedo.
A 20 de Julho de 1942, alistou-se no Bandeirin de Enganche da Jefatura Provincial de Asturias e partiu para La Rioja, deixando como pessoa a contactar em caso de necessidade Alfredo Rodriguez Gonzalez, chefe da Falange de Olloniego e responsável do partido que redigiu um certificado em que constava que Aníbal Esteves era pessoa de conduta intocável e afecta ao glorioso movimento nacional, indicou também outro conhecido, André Garcia Gonzalez, cujo domicílio também era em Olloniego. Por esta informação, podemos concluir que o Anibal teria ideais alinhados com a causa franquista. Não consegui confirmar se terá combatido na Guerra Civil ou terá pertencido à Falange.
Em Logroño foi integrado no 14º Batalhão de Marcha. Nessa unidade encontravam-se mais cinco portugueses: os soldados Alberto Alves, Francisco Lopes, José Camacho, Mário Barbosa e o cabo José Barroso, e a 13 de Agosto a sua unidade atravessou a fronteira Hispano-Francesa, em direcção à Alemanha.
Já na Alemanha, na cidade de Hof, os guripas, como eram chamados os soldados desta divisão,  trocaram as suas fardas espanholas pelas da Wehrmacht, e à chegada à Rússia foi integrado na 6ª/263, onde participou em múltiplas escaramuças e diversas operações de maior envergadura.
Sabemos que combateu na batalha de Krasnyi-Bor. Ali, em Fevereiro de 1943, a Divisão Azul sofreu uma forte contra-ofensiva soviética (revigorada após a recente vitória em Estalinegrado), na cidade de Krasny Bor, próximo da via Leningrado-Moscovo. Mesmo sofrendo pesadas baixas, a Divisão Azul deteve os ataques russos, apoiados por tanques, em sete ocasiões. O assalto foi contido e o cerco à cidade de Leninegrado mantido por mais um ano. A estabilização da linha fez com que os generais alemães passassem a dar mais valor aos combatentes da Divisão Azul.
Além da Batalha de Krasny Bor, o soldados Aníbal Afonso combateu nas trincheiras de Leninegrado (Rússia) e nos pântanos do rio Ishora onde escapou ileso. Note o caro leitor que nas planícies das Rússia, terão morrido quase cinco mil soldados espanhóis e portugueses e outros terão ficado prisioneiros na Rússia.
Sabe-se que o Aníbal retornou a Espanha após a ordem de repatriação da Divisão Azul, tendo escapado incólume durante um ano que combateu em território soviético. Em Novembro de 1943, embarcou a bordo do comboio que trazia os homens do 21º Batalhão de Repatriação, entre os quais outros soldados portugueses António Ramos, Luís Rodrigues e Francisco Lopes.
Sabe-se que em 1945, estava de novo em Oviedo, onde casou com Maria Argentina Heria Fanjul no dia 8 de Dezembro desse mesmo ano na localidade de São Pelayo de Olloniego.
Não há registos ou testemunhos de que Aníbal Afonso tenha voltado a Melgaço após a guerra.

Informações recolhidas em:
Fontes: AGMAV, C. 1996, Cp. 12, D. 1/81 “Relación Nominal – 21º Batallón de Repatriación”; AGMAV, C. 3809, Cp. 11/23 e 52 “Justificantes de Revista – 14º Batallón de Marcha”; AGMAV, C. 4612, Cp. 26 “D.E.V. – Expediente Personal”; AGMAV, C. 5481, Cp. 47 “Jefatura Provincial de la F.E.T. y de las J.O.N.S. de Asturias – Expediente Personal”; Arq. Mun. de Melgaço - Livro de Recenseamento Militar de 1934 (Recenseamento dos 17 anos), Freguesia de Prado; Conservatória do Registo Civil de Melgaço: Assento de Nascimento nº 232 do ano de 1917.


Nota: Um especial obrigado aos investigadores Ricardo Silva e Joaquim Rocha pela partilha de informações que tornaram possível esta publicação.

quinta-feira, 13 de março de 2014

As irmãs Touza de Ribadavia e a fuga dos judeus a Hitler pela rota do contrabando por Cevide (Cristóval - Melgaço)

As irmãs Touza

Entre 1941 e 1945, três irmãs galegas de Ribadavia, as Touza, montaram uma rede que apoiou a fuga de centenas de judeus sem visto, fazendo-os entrar ilegalmente em Portugal. O neto de Lola Touza acredita que ela conheceu o cônsul Aristides Sousa Mendes.
Imagine-o como um velho filme de espiões a preto e branco. Haveria nevoeiro como na cena final de Casablanca, quando Ilse e Rick se separam. Mas, em vez de um avião que parte, chega um comboio a uma pequena estação de província. A locomotiva chia e detém-se entre uma nuvem de vapor. Alguns passageiros descem das carruagens e dirigem-se ao quiosque onde três mulheres oferecem bebidas frescas.
Entre Março de 1927 e o final de 1929, o cônsul de Portugal em Vigo, Aristides Sousa Mendes, deslocar-se-ia a Madrid com alguma regularidade, para se avistar com o embaixador Melo Barreto. Em Ribadavia, o comboio fazia uma paragem de 20 minutos para meter água e muitos passageiros desciam das carruagens para tomar um refresco, um licor, um copo de vinho, ou comer os famosos biscoitos que se vendiam no quiosque da estação, gerido por três irmãs solteiras, as Touza (Lola, Amparo e Julia).
Julio Touza, neto de Lola, acredita que a sua avó e o cônsul português se podem ter conhecido aí, numa dessas paragens. "O comboio parava em Ribadavia e eu acredito que tenha conhecido a minha avó nessa altura. As pessoas boas, generosas, valentes e nobres têm um sentido especial para se reconhecerem", diz.
Trata-se, é verdade, de uma mera suposição. Julio Touza, arquitecto em Madrid, está ainda a reunir dados que permitam confirmá-la ou desmenti-la. Mas não deixa de ser verosímil que, tendo ou não chegado a conversar, Aristides Sousa Mendes e as irmãs Touza se tenham cruzado, alguma vez, na estação ferroviária de Ribadavia. Oito décadas depois, não há dúvidas de que estão juntos: no jardim do Museu Yad Vashem, de Jerusalém, onde se plantam árvores em homenagem àqueles que, durante a Segunda Guerra Mundial, ajudaram a salvar judeus em fuga da perseguição nazi.
A forma como Aristides Sousa Mendes, então cônsul em Bordéus, emitiu, em 1940, à revelia do Governo de Salazar, vistos que permitiram a fuga de cerca de trinta mil pessoas (dez mil das quais eram judeus), obteve reconhecimento internacional pouco tempo depois da derrota dos nazis. A história das irmãs Touza, porém, permaneceu em segredo durante décadas e só foi desvendada em 2005. Chamam-lhes, agora, as Schindler galegas.
Em 1941, a Espanha sob a ditadura de Francisco Franco tinha ainda muito viva a memória do envolvimento de Hitler na guerra civil de 1936-39, o qual permitiu às tropas franquistas vencerem os republicanos. Apesar da aliança, o regime era relativamente tolerante para com os judeus em trânsito para os portos portugueses ou africanos durante a Segunda Guerra Mundial. As irmãs Touza, porém, tinham chegado a ser presas durante a guerra civil, por levarem comida a republicanos detidos, e, por isso, mantiveram sempre em segredo toda a operação que terá permitido que cerca de 500 judeus fugidos do nazismo chegassem a Portugal, a caminho da liberdade.
O silêncio só foi quebrado aquando da morte de Antón Patiño Regueira, um livreiro de Vigo que tomou conhecimento do caso por intermédio de um emigrante galego regressado de Nova Iorque, onde tinha mantido contacto, na década de 1960, com Isaac Retzmann, um dos judeus auxiliados pelas Touza. A edição do livro Memória de Ferro, em 2005, revelou o esboço da investigação que Regueira tinha efectuado, a qual permitiu, mais tarde, homenagear as três irmãs de Ribadavia. Mais recentemente, a história foi também narrada no livro Entre Bestias y Héroes, do conceituado jornalista Diego Carcedo.
Tanto quanto é possível saber, a história começa numa noite de Abril de 1941, na mesma estação ferroviária por onde, às vezes, Aristides Sousa Mendes passava em trânsito entre Vigo e Madrid. Lola Touza reparou num homem alto, sujo e com a barba por fazer, o qual permanecia sentado, há horas, num banco de madeira a um canto da gare, vendo os vagões passarem Minho acima, Minho abaixo. Acercou-se dele e, mesmo não entendendo o idioma em que falava, ajudou-o. Chamava-se Abraham Bendayem e terá sido o primeiro a ser salvo pela pequena rede que as Touza, com Lola à cabeça, montaram nos anos seguintes, abrindo aquela que seria uma das mais importantes rotas clandestinas de fuga de judeus pela Península Ibérica.
Para assegurar a confidencialidade da operação, a rede era composta por um contingente mínimo: as três irmãs, dois taxistas, o Rocha e o "Caveira", que conduziam um Dodge preto, um emigrante retornado, a quem chamavam "O Evangelista" e que servia de tradutor, e um barqueiro, Ramón Estévez - que ainda está vivo. Conta, por exemplo, que estava a ajudar o pai, Francisco Estévez, a descarregar uma carreta de tijolos, quando Lola apareceu a perguntar se ia pescar e se, nesse caso, podia fazer o favor de passar para Portugal uma pessoa que não podia viajar de carro ou comboio. Era um alemão.
"Nessa mesma madrugada, às quatro em ponto, fomos a casa de Lola levando canas de pesca. Dissemos ao estrangeiro que não falasse. Fomos directamente para as margens do Minho e andámos toda a noite. Ninguém suspeitaria de nada, uma vez que era comum os pescadores saírem a essa hora para pescarem trutas e enguias para matar a fome." Horas depois, tinham percorrido 40 quilómetros por um caminho empedrado. Chegaram a Frieira, uma aldeia galega junto a uma das partes mais estreitas do rio. "Como eu era um miúdo - recordou Ramón Estévez no livro de Carcedo -, o alemão perguntou-me se eu me importava que tirasse a roupa. Disse-lhe que não. Ele dobrou-a e prendeu-a à cabeça com o cinto. Disse-me que nunca mais me esqueceria e deu-me um duro de prata. Vi como entrou na água e como alcançou a margem portuguesa e, desde aí, nunca mais soube nada dele. Tinha o número 451 tatuado no antebraço. Disse que se chamava Abraham Bendayem."

Na rota do contrabando
Do outro lado do rio, no concelho de Melgaço, Cevide orgulha-se de ser "o lugar mais a norte de Portugal". Em São Gregório, ali perto, havia, na época, um posto da Guarda Fiscal, o que não impedia que passasse por Cevide uma das mais importantes rotas de contrabando entre os dois países, beneficiando da mancha florestal que ainda persiste, cortada pelo cursos do Minho e do Trancoso, que ali se encontram. Sabendo-se que o quiosque das Touza na gare de Ribadavia era utilizado como esconderijo para o café Sical que vinha do lado português da fronteira, não é difícil imaginar que os judeus em fuga tenham percorrido, para chegar a Portugal, os mesmos caminhos que eram utilizados pelos contrabandistas. "Mas nunca nenhum dos antigos contrabandistas com quem falei mencionou essas histórias", ressalva Angelina Esteves, chefe da Divisão de Cultura da Câmara de Melgaço, que tem a seu cargo o Espaço Memória e Fronteira, com uma sala dedicada ao contrabando.
O segredo era, também do lado de cá, a alma do negócio. Não só pela ilegalidade daquela actividade, mas também porque, a partir de 1942, a autorização para a circulação de judeus em Portugal passou a carecer de autorização da PIDE. Em Ribadavia, o silêncio durou 60 anos, quanto mais não fosse porque, em 1941, a Gestapo tinha agentes destacados em Vigo, acompanhando o comércio de volfrâmio a partir dos portos galegos. Dois desses agentes terão, de resto, chegado a deslocar-se a Ribadavia, à procura de um judeu alemão fugido de França - seria o mesmo Abraham Bendayem que escapara de um campo de detenção de Lyon com um asturiano que foi abatido a tiro.
A necessidade de nunca falar do assunto, mesmo após o fim da guerra, justifica também o facto de, até 2005, Julio Touza nunca ter ouvido falar das actividades clandestinas da avó. "O meu pai, sim, sabia da história e deve ter ajudado. Tinha, na altura, 26 anos. Mas nunca me contou nada", disse ao P2. "Ele foi professor até à década de 1950 e, quando abandonou o ensino, ocupou um cargo de direcção numa empresa de electrodomésticos, com direito a carro e motorista. Escolheu, para o lugar, José Rocha, o filho de um dos taxistas que ajudavam a minha avó e as minhas tias. Depois, quando este emigrou, contratou José Miguez, filho do "Caveira". Sem dúvida que o meu pai não só sabia da história, como continuou a ter a seu lado os filhos daqueles que colaboraram com a minha avó."

História de silêncios
Desde o dia em que a história foi revelada, Julio Touza recebe quase diariamente contactos de escritores, jornalistas e cineastas interessados em contar a história "ao estilo da lista de Schindler". "Respondo a todos que ainda não é o momento. Que uma história de silêncios, como esta, deve tranquilizar-se na alma antes de poder ser contada com simplicidade, mas com toda a crueza, para que não se repita a sangria do Holocausto", diz.
Apesar do resguardo, o arquitecto vai narrando alguns episódios que ajudam a compor o quadro da época. Recorda, por exemplo, a bolsa de moedas de prata que Lola guardava num gavetão do velho aparador. "Ela não queria que ninguém lhe mexesse. Eu pensava que ela coleccionava moedas, mas agora percebo que as guardava como recordação de outros tempos. Usara-as para pagar favores e ajudar os judeus em fuga. Mas nunca ninguém na família o soube, nem sequer o seu único filho, o meu pai", contou numa entrevista.
Guillermo, outro dos netos de Lola, recordou ao jornal La Opiniónter encontrado uma vez uma cama num sótão da casa, entre enormes vigas e sempre fechado. Seria a cama onde os judeus pernoitavam, escondidos numa divisão obscura.
Lola era, nos anos 1940, conhecida como "a mãe", por ter tido um filho de pai incógnito. Seria, de resto, uma bela mulher, cuja fotografia tinha chegado a circular pela frente republicana, para animar os soldados. Vivia com as irmãs numa espécie de casino, geria o quiosque da estação e esperava os comboios com uma cesta de doces nas mãos. Umas vezes oferecia os caramelos e biscoitos de amêndoa pelas janelas das carruagens, outras entrava nos comboios. Nessas ocasiões, tomava conhecimento do dia e da hora da chegada dos judeus, através de contactos mantidos entre Girona, Medina del Campo e Monforte. Os fugitivos eram escondidos, alimentados e, depois, seguiam para a fronteira um a um, ou em pequenos grupos de três ou quatro pessoas, esperando chegar aos portos portugueses onde podiam embarcar para o continente americano.
Ao P2 Julio Touza acrescentou que a fuga também utilizava, às vezes, o comboio: "A minha avó e as minha tias, gerindo o quiosque da estação, conheciam muitos empregados da ferrovia. Creio que, às vezes, escondiam os judeus em vagões de mercadorias e conseguiam que algum funcionário os ajudasse a saltar onde fosse mais fácil passar para Portugal. Suponho que também pagassem a alguns guardas para que os não detivessem, embora quase sempre evitassem as fronteiras e passassem pelo rio ou pelos montes."
O segredo da operação manteve-se. Lola morreu em 1966, Amparo em 1981 e Julia em 1983 - sem que nada daquela história fosse revelado. Só em Setembro de 2008 as irmãs Touza foram homenageadas em Ribadavia pela ajuda prestada aos judeus. "Recordar as irmãs Touza é um exemplo para o futuro, de amor e de valor, princípios tão escassos nestes tempos de ódios", escreveu, então, Ron Pundak, director-geral do Peres Center for Peace.


Extraída de: "Irmãs galegas ajudaram judeus a escapar a Hitler". Reportagem de Jorge Marmelo in: P2, edição de 4 de Fevereiro de 2012.