sábado, 28 de setembro de 2013

António Duque Gregório (1899-1970) de Cousso: Um emigrante melgacense no Brasil que nunca mais voltou...


O senhor António Duque Gregório nasceu no lugar da Cela, freguesia de Cousso, concelho de Melgaço, no ano de 1899. Era filho de Manoel Luiz Gregório e Angelina Afonso. Em 1919 embarcou em Vigo, Espanha, com destino ao Brasil. Ele foi trabalhar numa fazenda chamada "Fazenda dos Criminosos" que se situava no município de Silvestre Ferraz hoje chamado Carmo de Minas, no estado de Minas Gerais. Esse nome estranho, terá a ver com o facto de no século XIX ter sido uma fazenda de escravos.
Pelos anos 1931 ou 1932, o senhor António Duque Gregório fixou residência num outro município chamado Cristina, mais precisamente comarca de São Sebastião dos Campos, hoje um município chamado Olímpio Noronha. Então, deixou o trabalho na fazenda e passou a trabalhar na construção civil como pedreiro e carpinteiro. Ele veio a falecer em Maio de 1970 no Brasil.
O Sr. António Duque Gregório tinha uma irmã na sua terra, Cousso - Melgaço, chamada Emília Gregório, nascida a 1 de Abril de 1904. Viajou para o Brasil em Dezembro de 1946, chegando em 13 Janeiro de 1947. Estabeleceu-se na cidade de Niteroi. Morava à época na Travessa Júlio Froes, nº 74, na dita cidade de Niteroi. Era casada com Armindo Vaz e tinha uma filha chamada Arminda de Jesus Vaz que nasceu a 5 de Dezembro de 1926 em Melgaço.
O Sr. António Duque Gregório nunca voltou a Portugal à sua terra natal. A sua família no Brasil nunca teve contacto com a restante família em Melgaço. Por isso, a sua neta Maria Odete Alves Duque que nos segue no Brasil, tomou a iniciativa de procurar familiares descendentes de António Duque Gregório em Melgaço com vista a estabelecer contacto e conhecer a sua família e as suas raízes nesta linda terra.
Se for familiar do Sr. António Duque Gregório, pode entrar em contacto com a Maria Odete através de mensagem privada acedendo a https://www.facebook.com/mariaodetealvesduque?fref=ts ou utilizando o espaço de comentário desta publicação no facebook.
Manuel Duque Gregório em 1919 por altura da sua partida para o Brasil




José Gregório (irmão de António em 1943



Armindo ( cunhado ) - Provavelmente, na época que ele veio para 

Brasil,  em 1947.


Verso da foto anterior



Arminda Vaz (sobrinha de António Gregório) - Provavelmente, na época 

em que veio para o Brasil, em 1947.



 Irmã, de Manuel Duque Gregório da qual não sabemos o nome.




Familiares de António Duque Gregório. 

A sua mãe Angelina Afonso encontra-se no lado 

direito. Os restantes desconhecemos a identidade.




 Emilia Gregório (irmã de António) - Foto sem data exacta, provavelmente de 1920/1930



António Duque Gregório (de chapéu ) a trabalhar na construção em meados do século 

passado (Brasil).


Ficha no Consulado do Brasil no Porto de Emília Gregório 
(irmã de António Duque Gregório, que emigrou para o Brasil em 1946)

Ficha no Consulado do Brasil no Porto de Arminda Vaz 
(sobrinha de António Duque Gregório, que emigrou para o Brasil em 1946)




Fotos gentilmente enviadas por Maria Odete Alves Duque a quem muito agradeço esta bonita partilha!


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Nascente das Águas de Melgaço, 1906 - Postal Antigo

Postal enviado de Lisboa por uma senhora de nome Júlia para uma amiga sua chamada Florinda d' Araújo também residente em Lisboa. O mesmo foi escrito em 15 de março de 1906 e despachado pelo correio no dia seguinte. De reparar também no selo com o rei D. Carlos.
Na frente deste postal encontramos encontramos as Termas do Peso nos seus primeiros anos de atividade. Sobre a nascente das águas minerais, foi construído esta pequena infra-estrutura. O edifício principal que hoje observamos renovado foi construído apenas no início da década de 1920.




domingo, 22 de setembro de 2013

O Castelo de Melgaço em ruínas (viragem do séc. XIX para o séc. XX)

Castelo de Melgaço na década de 1930. Parte da muralha já não existe.

Em 1910, quando da classificação do castelo de Melgaço, este encontrava-se em adiantado estado de ruína e, da cerca, já pouco restava. Desde 1884 que a Câmara Municipal tinha decidido vender boa parte da pedra da muralha.
Entre 10 de Outubro de 1914 e 3 de abril, de 1916 efetuou-se a escritura de compra do que restava da fortificação da vila para demolir, incluindo a Porta de Baixo com a inscrição medieval, a título de alargamento e aformoseamento da vila. Desse modo, a 14 de Outubro de 1914, procedeu-se à demolição da cerca desde a Porta de Cima, a que ligava com a couraça nova, para a Porta de Baixo, vendendo-se a pedra. Em 1916 a Câmara cedeu oito carros de pedra da muralha por troca de um pedaço de terreno pertencente a D. Maria da Nazareth Esteves dos Santos Lima, para o município abrir uma servidão junto à estrada de Prado a Paderne, no sítio de Cortinhas.
Em 1917 pretendeu-se acabar com este resto e se não fora o alarme lançado por António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, 9º conde de Sabugosa a que se seguiu um movimento encabeçado pelo jornalista Humberto Beça, hoje nada restaria da fortificação.
A este respeito, escreveu o Conde de Sabugosa uma nota no livro “Neves de Antanho” que dizia que “Ainda hoje, enquanto isto escrevemos, (Agosto 1917), a vila conserva algumas dessas vielas de pitoresco aspecto, e é, em parte, cintada com as veneráveis muralhas que tanto a enobrecem. Consta-me, porém, que o município, com a deplorável mania de «modernizar», vício incorrigível das nossas edilidades. umas boçais, outras mal orientadas, está atentando criminosamente contra a majestade da sua terra, dilacerando-lhe os vetustos flancos para «fazer dinheiro» e colher materiais destinados a um edifício público, um tribunal, segundo me informam, que será provavelmente semelhante ao matadouro com que já se orgulha! Que lástima! Se alguma entidade há, que possa impedir o sacrilégio, acuda breve a afastar esta vergonha de Portugal!”
Em consequência, a 5 de Dezembro de 1917 um ofício do presidente do Conselho de Arte e Arqueologia indagava à Câmara por que motivo se demoliram as muralhas da vila, sem ser ouvida a Comissão dos Monumentos. A Câmara entendeu que a suspensão dos trabalhos era contrária aos interesses do município, decidindo informar a Inspecção-Geral das Fortificações e Obras Militares para garantir os seus direitos. Como resultado, em 23 de Janeiro de 1918, um despacho do Ministério da Guerra anulou a venda de talhões. Todavia, a Câmara decidiu vender o material proveniente da demolição de uma casa situada no largo do Chafariz e a pedra da muralha da couraça nova (26 de Junho de 1919). O entulho deveria ser deitado no espaço onde estavam os canastros, sobranceiro ao antigo lavadouro público (o atual jardim que rodeia o castelo). O Inspetor do Conselho de Arte e Arqueologia pediu que a Câmara o informasse sobre o plano de melhoramentos do castelo.
Contudo, Em 5 de Maio de 1920 a Repartição de Turismo solicitou a constituição de uma Comissão que tivesse como objetivo a "guarda e defesa do castelo". Nesse mesmo ano, a 24 de Novembro, tendo recebido um reforço orçamental, a Repartição de Turismo solicitou à Câmara o envio de lista das obras a empreender e o respetivo custo.
Sem preocupação de preservação, a 25 de Fevereiro de 1925 a Câmara deliberou vender a pedra dos alicerces das muralhas da vila, desde a extremidade do quintal das senhoras Almeidas até a extremidade do quintal de Emiliano Igrejas por oito escudos cada carro. A 1 de Abril seguinte, licitou dois lotes de pedra, um por 400$00 e o outro por 600$00. A 15 de Julho subsequente, colocou novamente em praça um terceiro lote de pedra das muralhas. À época, ainda, o presidente da Junta de Freguesia da vila solicitou à Câmara o refugo de pedra das muralhas para consertar o caminho público da Pigarra. No ano seguinte (1926), José Augusto da Cunha requereu à Câmara que lhe facultasse mais 80 carros de pedra, para além dos 120 que já havia levado, a qual se encontrava à entrada da vila, no lado sul, entulhada e em monte (27 de Outubro).

Depois de tudo isto, podemos olhar para o estado da torre e da muralha que restava na foto ao cimo. Sem mais palavras...

Informações recolhidas em:
CONDE DA SABUGOSA (1918) - Neves de Antanho. Edição da Livraria Bertrand, Lisboa. 
- www.fortalezas.org.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O cerco ao Castelo de Melgaço contado no livro "Neves de Antanho" (1918) pelo Conde da Sabugosa (parte IV)

A rendição dos castelhanos



Alguns escritores, seduzidos pela ideia de atribuir a este episódio o resultado da empresa, outros copiando aqueles, (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações) afirmam ter sido decisiva para a entrega do castelo a pugna entre as duas mulheres. Fantasias!
A verdade é que, se este duelo animou e excitou a coragem dos Portugueses, foi só daí a horas, na manhã de Segunda-feira, três de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos. Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças. Depois à escalada dos que «se chegavam tanto à Villa que punham um pé no muro outro na escala», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital. A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) enquanto outros se atiravam ao muro com grossos paus, De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com imprecações e insultos («desmesuradas palavras») que assanhavam o animo de D. João I. Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a própria inferioridade, pediam novamente tréguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assédio à viva força. Então João Rodrigues de Sá, o das Gales, —voz sensata— alvitrou que era de boa política aceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu : — «Quem medo houver não vá na escala». Subiu uma onda de sangue às faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés na Ribeira de Lisboa. E resentido respondeu : 
— «Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conhecestes».
E o Rei, caindo em si, pois que nele estes assomos de cólera eram logo dominados pela força calmante da razão, emendou : — «Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, porque os hei já por tomados.»
Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta presa. Outros seguiam o alvitre razoável do ponderado Sá, com o qual o Rei concordou afinal, enviando o Prior do Hospital a aceitar a preitesia e estipular as condições. Foram todas aceites. Não só entregariam a vila e castelo a El-Rei, mas obrigavam-se a sair da fortaleza em gibões sem outra coisa...
Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castelo ia saindo era, por escárneo, obrigado a empunhar um desses ramos. Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.
Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a desonra, ao que D. João I galhardamente acedeu. Outros, contudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente «por sabor» de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes : — «Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa».
Não ficou nenhum ! Quando na Quinta-feira seguinte, depois de cinquenta e três dias de assalto, o castelo e vila de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar. E quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava esse pendão redentor. Era Inês Negra a batalhadora, imagem simbólica das energias femininas, proclamando assim a vitória que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal. Se Aljubarrota tem a ilustrá-la pitorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendária proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopeia joanina, entre as lutas pela independência, o feito autêntico e mais significativo de Inês Negra a heroína de Melgaço.

Texto extraído de:
CONDE DA SABUGOSA (1918) - Neves de Antanho. Edição da Livraria Bertrand, Lisboa. 

domingo, 15 de setembro de 2013

O cerco ao Castelo de Melgaço contado no livro "Neves de Antanho" (1918) pelo Conde da Sabugosa (parte III)

O episódio da Inês Negra




Sabendo que os dois chefes não se tinham acordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno dela. Era uma mulher daquela região, a quem chamavam Inez Negra. Negra por apelido de família ? Talvez.
David Negro se chamava o rabi de Castela que urdiu o enredo contra D. Leonor Teles. E Afonso Pires—o Negro —era o escudeiro de Nun'Alvares na véspera de Valverde. Famílias com o nome de Negrão e Negreiros tem havido em Portugal, pertencendo à primeira, no século XVIII, o poeta da Arcádia — Almeno Sincero. Ou, seria antes a nossa Inês, negra, porque a sua pele exageradamente trigueira, como a da Sulamite do Cântico dos cânticos, contrastasse com a das suas conterrâneas, quási todas alvas, de olhos claros cabelos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?
A iconografia portuguesa é assas pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres ilustres careça de qualquer documentação acerca das feições da modesta, mas valente portuguesa dos arredores de Melgaço. Figuramo-la, porém, por artifício de imaginação, com encrespado cabelo da côr do seu apelido. De olhos igneos como o seu nome de Inês, a pele acastanhada, adusta e curtida pelo mordente
sol dos campos, na ceifa. Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o lábio superior. Peito chato como a das amazonas. Tipo levemente aciganado e plebeu, mas não destituído de encanto. E no seu todo o interêssse que provoca
sempre uma personalidade fortemente acentuada. Visitando a casa onde segundo a tradição ela habitou depois da sua proesa, —a Venda de Angelina—(hoje um prédio modernizado), ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até à porta de D. Afonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompor uma efígie da Inês Negra, porventura sua remota parente. Devia ser assim como a evocámos!
Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da Arrenegada aceitou o repto. Entretanto El-Rei enviara à Rainha recado para que viesse. Os engenhos estavam concluídos, e quási aplanado o caminho pelo qual se de via fazer rodar a bastida e encostá-la às muralhas. É possível que o mensageiro anunciasse também no Mosteiro de Fiais, onde D. Filipa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço. E isso seria certamente escutado com curiosa atenção pelo mundo feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas Damas e cuvilheiras, de distrações e recreios, tão escassos naquela solidão. E logo entre o mulherio quantos comentários sobre o projectado duelo! Nas velhas, altos escarcéus, e motivo para ralharem de tão descomposta escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa de comoções. Por isso quando naquela manhã do princípio de Março a Rainha, com a sua Corte, se aprontou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas as discussões acerca do projectado combate. A primavera anunciava-se prometedora. O ar gelado da manhã bafejava a pele do rosto das senhoras, que, ao montarem, se embuçavam friorentas nos seus mantéus e biocos. Na descida, quási a pique, da íngreme ladeira, que durante uma hora percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das boas donas iam só atentas ao perigo, que oferecia o marchar hesitante dos cavalos sobre os pedregulhos das veredas agrestes. E quando as facas em que iam montadas punham o pé com menos segurança, o que trazia a iminência de um tropeção, ouviam-se exclamações aflitas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre as resolutas .Outras olhavam maravilhadas a paisagem deslumbrante, o panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se espreguiça voluptuosamente o rio Minho.
Além à esquerda os montes de Pernidclo, em cuja verdura se aninhava o conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a terra de Deu-la-Deu. E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quási se distinguia a nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra estranha, as pequenas povoações galegas tão maneirinhas... que apetecia dá-las como brinquedo a uma criança!
A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a vila de Melgaço, ali em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma coroa de ameias enfeitava, e para a povoação em redor dela, metida nas faixas das muralhas defensoras, prometendo um espectáculo atraente, quando se rendesse à força, como fêmea dominada pelo seu legítimo senhor. Por de fora dessa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de campanha o arraial português, sobresaindo a barraca elegante tomada em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para firmar a aliança inglesa.
E, informe, como um animal antediluviano, destacava-se a medonha bastida, pronta a atacar. A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descente. O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dois de fundo todos os do acampamento, sendo difícil a passagem quando de frente encontravam um boizinho barrosão de hastes enormes, ou as recuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quási escadaria) de mais de meia légua, desembocava abruptamente em pleno acampamento Neste, o Rei que logo veiu receber a Rainha, começou explicando o modo de arremeter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres. Na Corte dos Valois perto de três séculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo julgamento de Deus, tornaram-se solenidades quási festivas, que chegariam ao apogeu de brilho no célebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duqueza d'Etampes, i arretou o pomposo Chataignerie, defensor de Diana Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as sumidades da França.
Aqui, porém, nesse final do século XIV, e neste canto da Península, as escaramuças, perante uma Corte mais guerreira, que polida, mais austera que licenciosa, se não tinham o esplendor das cerimónias teatrais que deslumbram, não eram menos importantes os seus resultados. Pelo contrário. Na Corte de Henrique II digladeavam-se dois adversários para liquidarem uma intriga de alcova.
No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dois exércitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino. Nessa manhã do começo de Março em que a Arrenegada saiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora Inês Negra, todos, de um lado e outro, se dispuzeram a presenciar o espectáculo desta pugna de nova espécie, a que deram foros de combate, e que a crónica regista com a designação honrosa de escaramuça entre duas mulheres bravas. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas. Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do ariaial formavam círculo em volta das lutadoras, saudando com vozearia carinhosa Inês Negra a portuguesa, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã. As almas também têm sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicáveis, tantas anomalias flagrantes—homens mulherengos, mulheres viragos.
Nos corpos destas duas moravam almas de lutadores valentes, herdadas talvez de seus avoengos, dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Península as raças invasoras. Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com fúria, com sanha, com rancor atiraram-se uma à outra sem mais armas do que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacelavam. Atropelando-se, arrancando os cabelos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na luta. Ensanguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja. Davam mais a impressão de dois monstruosos animais enovelados em trapos, cabelos e sangue, que de duas mulheres humanamente construídas.

O drama começava a abalar o ânimo ainda dos menos- susceptíveis de sofrer comoções, quando a Arrenegada, ou porque tivesse menos elasticidade nos másculos que a Inês Negra, ou porque o espírito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, saindo logo desfalecida. Então Inês, que a suplantara, foi gloriosamente levada em triunfo e saudada com aclamações, ao som de trombetas e charamelas festivas. 

...CONTINUA...

Texto extraído de:
CONDE DA SABUGOSA (1918) - Neves de Antanho. Edição da Livraria Bertrand, Lisboa.