terça-feira, 25 de junho de 2013

Histórias da Guerra da Restauração IV




Ano de 1641


Morre o sol entre as nuvens pretas, enormes, a encherem o horizonte.
      - ‘’Ai meu senhor, não me lebe! Quem bai colher o binhinho! Ai meu senhor! Sou doente. Pelas ‘aurmas’ deixe-me ficar! Ai meu senhor!...”
      - “E o prebilégio? E o prebilégio? Somos caseiros da Senhora da Oliveira. Ele não bai, boa! Ai meu senhor!...”
      Atiram-se ao chão. Rogam. O lavrador, a mulher, os filhos, mocetões e tremerem como folhas ao vento. Lá vai a leva. Mais uma, os soldados a venderem as toucas e saias das mulheres e depois as armas, a deixarem-se ficar pelos caminhos dizimados pela fome e doença.
“Em 1641, a 1 de Abril, os capitães desta vila requerem que lhes fossem dados os socorros precisos para eles e soldados, porquanto já haviam ido duas companhias para guarda da vila de Melgaço, tendo, para a grande jornada os soldados vendido as toucas das mulheres, não chegando lá muitos, por adoecerem com fome e ficarem pelo caminho”
      Ares pesados, a terra sufocada, assombrada aqui e além por relâmpagos. Escaramuças, sortidas, entradas “a parecerem mais de bandoleiros que de soldados”. Gente sem disciplina, sem comando, a rastejar pelas veredas, a fugir com os despojos. Chicotes a zunirem, a estalarem nas costas dos mais temerosos, a obrigá-los a combater. Do outro lado da raia impiedosas mãos de oficiais, tomadas de fúria, estrangulam soldados apavorados a recusarem o combate. Terras da fronteira, aldeias cobertas de colmo e paz, a saque, a arderem inocentes!
      A Guerra. O horror da Guerra. Pior ainda é ver os castelhanos a entrarem, a Pátria mais uma vez a correr perigo. Vamos! Marchemos com a Companhia de Ordenanças de Frei Pedro Cirne de Sousa. Entre os fidalgos vai também o Capitão Dionísio do Amaral Barbosa, já experimentado em vários rebates, filho mais novo de Gregório do Amaral. Avante! Sempre a direito, rumo ao Castelo de Lindoso. Prestes, a cumprir a ordem: juntar-se aos de Braga, entrar pela Galiza.
      Na iminência daquele monte, o inimigo! Avistam-se 200 homens; tem mosquetes, arcabuzes e outras armas. Pelo vale, junto ao Lima, avançam mais 400. Portugueses são só 70. Não se hesita. Escala-se o monte. Ataca-se como “leões os peitos descobertos”.
      - Atirai inimigos, que lá vos imos buscar! Atirai!
      A primeira carga. Desbarataram-se as trincheiras castelhanas. No encalço, as forças de Guimarães. Mais um reencontro, continuam a fugir. Vamos! Pela Galiza adentro, a marchar saquear seis lugares, a espalhar o medo. Nesta entrada “que se fez por Castro Laboreiro foi Dionísio do Amaral dos primeiros que se empenhou com os inimigos e ajudou a por fogo em vários lugares com tão particular valor que se lhe atribuiu grande parte do bom sucesso desta empreza”.
      Duas léguas acima de Melgaço fica Lamas de Mouro “terra da Galiza” já tomada pelos portugueses. Para reforçar a defesa: a hoste vimaranense, duas companhias pagas, outros soldados. Queimam o reduto, esperam com balas, pólvora e cordas o adversário que não chega. Agora o objectivo é Padrenda, entre Porto de Cavaleiros e Ponte das Várzeas, bem guarnecida pelo exército castelhano. Entram os portugueses pela Portela do Homem, por Lindoso, avançam de Melgaço. Atacam. Há quem fuja, há quem roube, há quem combate com valentia. Vencemos. Fazem-se prisioneiros. Ardem as vilas de Lobios e Compostela. “Tomam-se assim num só dia nove redutos rompendo ao inimigo dentro dos seus mesmos quarteis e fortificações”. Dionísio do Amaral cumpre como devia.

 Maria Adelaide Pereira de Moraes

Casa de Sezim
Boletim de Trabalhos Históricos
Revista de Guimarães

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