sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Uma visita à romaria da Nossa Senhora da Peneda de 1912


Vista para o Santuário da Senhora da Peneda
Na revista "Ilustração Portugueza", na sua edição de 12 de Outubro de 1912, encontramos uma reportagem intitulada "No Minho Pitoresco - A célebre romaria da Peneda". Na mesma, os autores contam-nos uma viagem que eles fizeram àquela que ainda hoje é uma das maiores romarias do Minho. Partilho aqui o conteúdo da dita reportagem:


"NO MINHO PITORESCO - A CÉLEBRE ROMARIA DA PENEDA
Depois de visitar os principais centros do país, o sociólogo francês Poinsard escreveu um livro intitulado “Le Portugal Inconnu” que desvenda à Europa culta aquilo que nos poucos dias da sua permanência entre nós poderia observar o espírito penetrante dum estrangeiro. Poinsard ficou conhecendo alguma coisa do Portugal urbano ou citadino, mas que diria ele se jornadeasse pelas serranias de Soajo, em longas caminhadas, e, ávido de sensações novas, fosse presenciar no Santuário da Peneda do Minho!
Nos subúrbios de Guimarães, S. Torcato, um dos celestes ímans milagreiros com mais créditos granjeados no espírito do povo minhoto, pela tradição de bastantes séculos, atrai anualmente ao seu templo milhares e milhares de visitantes.
E é por isso que nos dias de festa lá afluem aos terraços e espaçosas alamedas inúmeras peregrinações de devotos, na ânsia de se abeirarem daquele santo, para assim cumprirem as promessas solenemente feitas em horas de indizíveis atribulações ou nos transes dolorosos duma doença grave. Entretanto, a romaria de S. Torcato, apesar da concorrência assombrosa dos forasteiros, nada tem de característico ou peculiar, destacando-se apenas pelo grande formigueiro humano que vai procurar ali o folguedo compensador das habituais canseiras da lavoura, depois de contemplar com acafamento próprio de uma crença inveterada os restos mumificados do santo vimaranense. A Senhora da Peneda, porém, alapardada entre distanciadas montanhas, cujas cristas parecem topetar nos astros, sem proporcionar aos crentes ou aos turistas meios razoáveis de comunicação ou facilidade de transporte, indubitavelmente exerce na religiosidade do povo uma ação magnética superior à do consócio S. Torcato, arrastando por serranias inóspitas, por barrancos e despenhadeiros escabrosos, e por fraguedos de perigoso acesso, a massa anónima das aldeias galegas e minhotas. O aprazível local da romaria é defendido por um castelo natural em que as serras parecem fazer o papel de muralhas impermeáveis ao influxo osmótico da modernidade e civilizadora. É por isso que, enquanto S. Torcato, nos arredores  Guimarães, nos dá a impressão duma romaria atualizada, a Senhora da Peneda, pelo contrário, conserva como primitivas características aquelas práticas constantes dum ascetismo grosseiro, sobejamente evidenciadas nas exibições grotescas da crendice popular.
E é por isso que a Peneda, não obliterando a linha tradicional das suas usanças religiosas, se nos afigura mais interessante para quem quiser, em viagem de estudo e observação, ajuizar das antigas costumeiras litúrgicas, fossilizadas nas populações ruraes do Minho e da Galiza.
Quem decidiu o autor destas linhas a afoutar-se às contingências duma caminhada morosa e estopante para atingira a meta desejada - o santurio da Peneda - foi o incansável engenheiro agrónomo deste distrito, Sr. Conde de Bobone, que anceia conhecer “de visu” toda a área constitutiva da sua esfera de ação profissional para depois falar, com os elementos fornecidos pela observação, dos serviços agronómicos que mais convéem à região a seu cargo.
Ele, o seu amigo António Pereira da Cunha, filho e neto de dois ilustres poetas do Minho, e eu partimos desta vila dos Arcos de Valdevez, na tarde do dia 4 do mês corrente, transpondo sucessivamente as freguesias de Giela, Azere, Grade e Cabana Maior, e, depois de vaguearmos, incertos, no Alto do Mesio, já com os membros lassos e o estômago a recordar a fábula de Menenu Agripa, fomos saborear a conhecida hospitalidade do abade de Soajo, hospitalidade que previamente haviarnos impetrado. Ao entrarmos no povoado principal da freguesia, vimos com surpresa extinguirem-se as luzernas que mais de longe se divisavam nos rústicos casebres. Com uma noite caliginosa, a percorrer lobregos caminhos velhos, sem a cooperação de um guia experimentado e sem uma frouxa lanterna que rasgasse uma linha de luz na espessa escuridão noturna, talvez fosse impossível ultimar o itinerário até à residência paroquial de Soajo se, depois de várias chamadas infrutíferas à porta duma casa, não obtivéssemos a ansiada resposta.
- Ó mulherzinha, venha cá ! Olhe que está aqui o administrador dos Arcos.
A portada duma janela abriu-se, enfim, e uma soajeira assomou então a atender a interpelação dos viandantes.
- Então porque foi que vossemecês apagaram a luz quando nós nos aproximávamos? - inquiriu curioso o sr. conde de Bobone.
- Nós -, tartamudeou indecisa a mulherzinha,  - temos ouvido dizer que anda por aí tudo revolvido...
Feita esta bronca alusão à conspirata fronteiriça e cedidas umas lumieiras de colmaço - improvisadas fachos a produzirem mais incomodativo fumo que benéfica luz - chegámos à residência.
Finem dedit Deus magnis itineribus ab illo die! A afabilidade do polido pároco de Soajo e uma ceia reparadora, naquelas alturas, indemnizaram os caminheiros dos dispêndios de energia que uma viagem em estafados rocinantes implacavelmente exigia. Depois, custa a crer que entre serras, onde a viação não faz progressos, os tenha feito entretanto a culinária, proporcionando as delícias duma bem servida mesa a esfomeados adventícios. Aquela residência foi também a nossa pousada noturna, onde o sono reconfortante nos insuflou novos alentos para a caminhada do dia imediato. Com efeito, na manhã seguinte, orientados por melhores guias, com o abade e regedor de Soajo a desbravar caminhos, prosseguimos na continuação do nosso longo itinerário, cujo percurso, sem espalhafatosas gloriolas, chega a ser um ato heróico de resistência desportiva. Ao atravessarmos a serrania, o Sr. Conde de Bobone preconizava a necessidade imediata de se submeterem ao regime florestal os montes circunjacentes, arborizando-os para futura riqueza daquela região acidentada.
- Isso daria lugar a um levantamento do povo, - atalhou o regedor do Soajo convicto.
- Onde é que nós haviamos de ir buscar o pasto para o gado e o roço para o adubo das terras?
Então o Sr. Conde de Bobone, mostrando mais uma vez ter sido na agronomia que a sua inteligência especializou os seus conhecimentos científicos, começou a dizer-lhe que a arborização se faria parcialmente, por lotes de terreno, a fim de que a freguesia se não ressentisse da falta de montados, durante o período de proteção às plantas.
Passada a capela do Senhora da paz e o lugar de Adrão, começamos a escalar o Alto do Miradouro. Como eu recordei então a frase de Aníbal, quando ele exortava, ao atravessar os Alpes, as tropas cartaginesas:
- Lembrai-vos, soldados, que galgando estas cumeadas alpinas, vós escalais os muros da própria Roma!
E nós também prosseguimos, afoitos. Já da parte superior de uma encosta se defrontava, perto, a povoação de Olelas, na Galiza, quando o abade nos referiu:
-Aqui, estiveram descansando, extenuados pela fadiga, aqueles doze conspiradores que fugiram de Valença, sob o comando do Marujinho... E acolá, junto daquela cruz, já se lobriga, no fundo, o santuário da Peneda.
Com efeito, ao longe, na garganta da serra, alvejava o anelado término da jornada.
Mas que interminável peregrinação pelas montanhas. De Soajo ao Senhor da Paz, do Senhor da Paz a Adrão, de Adrão a Tibo, de Tibo ao Baleiral... sempre a nossa caravana a quilometrar distancias em alimarias de passo lento, o único compatível com a escabrosidade daqueles caminhos, apenas trilhados nas outras épocas do ano por bestas de carga e respetivos almocreves. Todavia, recordando mais tarde estas dificuldades de trajeto por invias fragas, forsam et hoec otim meminissa juvabil, como dizia Eneias, segundo a passagem de Virgílio.
Depois do Baleiral, em três quartos de hora de caminho, atingimos a meta desejada. Até que enfim! Entrámos ufanos num dos espaçosos largos da Peneda. O edifício da filial do Grande Hotel dos Arcos, onde se está confortavelmente, dá-nos a impressão de que o progresso para ali só poderia ser remetido... em aeroplanos.
Entretanto, a multidão apinha-se, a música toca com retumbância, os caixões de “pseudo defuntos” desfilam aos nossos olhos curiosos, outros penitentes rastejam em ascéticas jenuflexões, e por fim a procissão do Terço, levantando o estrondoso clamor dos fieis, evoca a Lourdes do cosmopolitismo católico. Falta aqui um Lasserre para fazer a história da Senhora da Peneda e um Zola para fazer a descrição da “gritaria” fervorosa dos peregrinos. Quando os avanços da meteorologia permitirem o estudo completo das correntes atmosféricas e quando os aeroplanos sulcarem com segurança o oceano aéreo, a Senhora da Peneda será visitada pela gente de Lisboa e de Madrid.
Afora o templo, a Senhora possui uma loja comercial que está aberta durante os dias festivos. Esse estabelecimento encontra-se bem provido de caixões, mortalhas, rosários, estampas e medalhinhas. E para haver a equiponderação dos tributos, lá está uma balança decimal onde os miraculados se costumam ir pesar a cera e a cobre. Só falta à Senhora da Peneda um curral para nele meter as vacas e as juntas de bois que o povo de Hespanha e de Portugal lhe costuma levar de promessas. Estava eu a pensar nestas coisas, verificando que cada um pagava o milagre na proporção do peso do seu corpo, quando um padre coxo, português, se abeirou dum médico galego dirigindo-se-lhe em hespanhol. O Hipocrates da Galiza olhou, sobranceiro, para o interlocutor e respondeu, empertigado:
- Hable usted en su lengua que ya no hace poco, pues mi idioma no es para todos los hombres.
- Desculpe, - replicou o padre. Eu sou realmente um bruto por ter para consigo a deferência de lhe falar na própria língua. Mas você é outro bruto por corresponder a uma amabilidade minha com uma grosseria sua. Somos, portanto, dois brutos.
- Bien contestado,  conveio o médico de Entrimo.
E a situação explicava-se explicava-se com bom senso e com bom humor, sem que o génio hespanhol e português tivessem de derimir pleitos no campo da batalha.

Arcos de Val-de-Vez, Setembro de 1912."


Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912
Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912


Extraído de: Reportagem "No Minho Pitoresco - A Célebre romaria da Peneda". In: Ilustração Portugueza", Edição de 14 de Outubro de 1912, Nº 347.

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