Há 40 anos, a RTP esteve em Melgaço, mais concretamente em S. Gregório, junto ao posto fronteiriço em vésperas das eleições presidenciais. Realizou aí uma pequena série de entrevistas a melgacenses e a galegos que vinham a S. Gregório fazer compras.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Reportagem da RTP em S Gregório - Melgaço em 1980
Há 40 anos, a RTP esteve em Melgaço, mais concretamente em S. Gregório, junto ao posto fronteiriço em vésperas das eleições presidenciais. Realizou aí uma pequena série de entrevistas a melgacenses e a galegos que vinham a S. Gregório fazer compras.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
Sobre as origens da capela de S. Bento de Barata (S. Paio - Melgaço)
Temos
que recuar mais de 350 anos para encontrarmos as origens da capela de
S. Bento, construída no lugar de Barata, freguesia de S. Paio. A
mesma foi fundada por volta de 1651 por um tal padre João Lourenço
e na sua origem era dedicada a Nossa Senhora da Esperança. Cerca de
100 anos depois, esta mesma capela, em meados do século XVIII,
aparece referenciada num documento como “a capela de Nossa Senhora
do Bom Despacho”. Apenas muito mais tarde é que esta capela passa
a ser dedicada a S. Bento.
Segundo
MARQUES, J. (2020), “o fundador desta capela foi o Padre João
Lourenço e que a mesma já estava construída quando, em Março de
1651, fez a escritura do dote a favor da mesma, expressamente
destinado à sua conservação e do que fosse necessário adquirir
para para se poder celebrar missa e outros actos do culto divino,
nesta ermida dedicado à “Virgem Nossa Senhora da Esperança”
situada junto a Barata, pegada à estrada que vay da igreja de S.
Payo pera a villa de Melgaço. A escritura foi feita na casa do
dotador, Padre João Lourenço, situada no lugar da Quinta da Alote
pelo notário Francisco Soares de Brito, que para o efeito aí se
deslocou. O património então constituído para esta capela constava
de uma “vinha nova chamada das Fernandes”, com a extensão de
“sete cavaduras de vinha pouco mais ou menos”, cerrada e fechada
sobre si, confinando do lado nascente, com o caminho que vem dos
Barreiros para o Outeiro, e do poente com vinha de Lourenço da Gaia,
pai do padre João Lourenço. Além desta propriedade, que era a
parte mais significativa do dote, acrescentou-lhe “um pedaço do
souto que está por baixo da dita vinha que levará de semeadura dois
alqueires pouco mais ou menos que parte do nascente com souto de João
de Fontes, e do poente com caminho que vem dos Barreiros para o
Regueiro”.
Na
escritura, o fundador da capela, padre João Lourenço, dotou-a
também com cálice, missal, paramentos e outros objetos
indispensáveis para as funções litúrgicas, que aí teriam lugar,
pois sabia que a vistoria por que passaria, antes da concessão da
desejada licença, prestaria atenção ao estado do edifício e
existência e qualidade destes bens móveis.
Entre
as obrigações impostas aos futuros administradores, avulta a de
mandarem celebrar cada ano seis missas por ele, nos dias dedicados e
Nossa Senhora, seguindo a ordem litúrgica anual: Purificação,
Anunciação, Assunção, Nascimento, Conceição e Esperança, isto
é, Expectação ou Senhora do Ó, em 18 de Dezembro, oito dias antes
do Natal.
Este
processo de licenciamento da capela de Barata, na freguesia de S.
Paio, percorreu os trâmites normais, tendo sido incumbido de
proceder à indispensável vistoria o padre de Rouças, um tal João
Lopes Vilarinho, que deu parecer favorável à concessão da
necessária licença, tendo o processo sido finalizado em 9 de Julho
de 1651. (...)
O
padre João Lourenço a quem ficamos a dever esta capela,
inicialmente dedicada a Nossa Senhora da Esperança, era natural de
S. Paio, filho legítimo de Lourenço da Gaia e sua mulher, Maria
Rodrigues, moradores na sua Quinta da Alote.
No
documento da título da capela podemos ler: “Saybam quantos este
instromento de doação e obrigação ou como em Direito mais valha e
haja lugar no anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil
e seiscentos e sincoenta e hum annos aos vinte e hum dias do mez de
Março do dito anno no lugar da Ponte d’ Alote que he na freguesia
de São Payo do termo de Melgaço e casas de morada do reverendo
Padre João Lourenço ahi onde eu Francisco Soares Britto tabalião
cheguei, ahi perante mim tabalião e das testemunhas ao diante
escritas pareceo prezente e outorgante o Reverendo Padre João
Lourenço pessoa por mim tabaliã recohecida e por elle foi dito que
elle com a ajuda de Deos Nosso Senhor tinha determinado de fazer como
de feito tinha feito huma hermida junto a Barata pegada da estrada
que vay da igreja de S. Payo pera a villa de Melgaço do orago e
invocação de Virgem Senhora Nossa da Esperança; e pera a fábrica
e repairo e ornamentos e missas e culto divino pera nella se
celebrar, e mais cousas necessárias a queria dotar como de feito
logo dotou de hoje pera todo o sempre jamais
a dita hermida e capella, as pessoas e propriedades seguintes, a
saber: a sua vinha nova chamada Das Fernandes, sita na dita freguesia
de S. Payo assi como está serrada e cercada sobre si, que serão
sete cavaduras de terra pouco mais ou menos, que parte do nascente
que vem dos Ferreiros para o Outeiro, e do poente com vinha de
Lourenço da Gaia pai delle dotador e das mais partes com quem
diretamente deve partir que he dizimo a Deos , e assi mais lhe dotava
hum pedasso de souto que está por baixo da ditta vinha que levará
de semeadura dois alqueires pouco mais ou menos que parte do nascente
com souto de João de Fontes, e do poente com caminho que vem dos
Barreiros para o Regueiro e das mais partes com quem direito partir
deva que he dizimo a deos as quais propriedades dottava e havia por
dottadas pera todo o sempre jamais a dotta capella
para a fábrica e ornamentos della e era contente de em tempo algum
não fazer das dittas propriedades cousa alguma elle nem seus
herdeiros e sucessores porque sempre estarão obrigados a ditta
capella contanto que o Senhor Arcebispo ou seus Governadores e
Comissários sejam contentes que na ditta capella e hermida se possam
dizer missa e fazer ofícios divinos como se costuma em semelhantes
capellas e hermidas e que deixaria nomeado por sua morte
administrador da dita capella, e não nomeando ficaria por
administrador della seu irmão ou irmã que a esse tempo se achar ser
mais velho contanto que o nomeado não caze com pessoa de nação,
digo, com pessoa que tenha rassa de mouro nem judeu, nem de outra mor
septa e fazendo o contrário perderá o direito todo da ditta capella
e dos bens a ella impostos, e
sucedem nelle o parente mais chegado, ainda que tenha que seja
clérigo, e o que suceder na ditta capela por nomeação ou sucessão
em nos bens a ella dottados que sempre serão os acima nomeados à
ditta vinha e souto andará sempre no parente mais chegado, os quais
bens obrigados não poderão ser vendidos alheados, nem troquados,
nem descambados, nem apenhados, nem sobre eles feito algum contrato
de penhora, nem venda nem os frutos della, e fazendo penhora, e
fazendo o ocntrário tudo fique nullo, e de nenhum valor.”
Informações
extraídas de:
-
Arquivo Nacional da Torre do Tombo - “Memórias paroquiais da
freguesia de S. Paio (Melgaço)”, in Dicionário Geográfico de
Portugal, volume 27, nº 25, p. 149 a 152.
-
MARQUES, J. (2020) – Origem da Capela de Barata – S. Paio. In: A
Voz de Melgaço. Edição de 1 de fevereiro de 2020.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Notícias das romarias de Melgaço em tempos antigos nos jornais locais
Desde
tempos imemoriais que, pelas aldeias de Melgaço, se celebram festas
e romarias, algumas delas bastante concorridos. Desde que existem
jornais em terras melgacenses, em finais do século XIX, os mesmos
costumavam fazer eco das ditas festividades, especialmente quando
aconteciam cenas de pancadaria. Se passarmos os olhos pelos jornais
locais de Melgaço de há cerca de 100 anos, vemos frequentes
notícias de desacatos com uma certa violência, em romarias da nossa terra.
Por
exemplo, no jornal “Correio de Melgaço”, na sua edição de 18
de Janeiro de 1914, conta-nos que a 15 do mesmo mês e ano, foi a
festa de Santo Amaro, realizada na freguesia de Prado. Ao terminar a
romaria, quando a Filarmónica Nova, regida por Rafael Paulo
Fernandes, vinha saindo do arraial, tocando um ordinário,
originou-se uma desordem, tendo sido agredido António Joaquim, que
vinha acompanhando a dita filarmónica, com bengaladas dadas por
Manuel Joaquim Barreiros, solteiro, lavrador, natural de Prado. O
agredido pegou numa pedra e atirou-a à cabeça do agressor,
causando-lhe um ferimento na cabeça «fazendo-lhe jorrar sangue em
abundância.» «Depois, prisões, socos, revólveres em cena, o
diabo, terminando por António Joaquim de Sousa ter dado entrada na
cadeia e o Barreiros ter-se ido curar a uma farmácia. Dizem que, a
causa desta desordem são rixas velhas entre rapazes da Vila e da
freguesia de Prado”.
No
mesmo periódico, na sua edição de 22 de Agosto de 1915, ficamos a
saber que na festa da Senhora dos Remédios, realizada em Sante
(Paderne) no dia 15 do mesmo mês e ano, houve pancadaria. Um dos
feridos foi Manuel José Soares, conhecido por o “Cerdeira”, de
Cavaleiro Alvo, o qual teve de ir fazer tratamento ao hospital da
Vila. Outro dos atingidos foi Joaquim Garelha, do lugar de Pomares,
freguesia de Paderne, tendo um dos contendores cortado uma das suas
orelhas a meio, parecendo ter o desgraçado três orelhas.”
Desacatos
nas romarias melgacenses eram de facto muito frequentes. No Jornal de
Melgaço, na sua edição de 3 de Agosto de 1919 escreve: “Está em
moda, nas romarias, à tarde ou à noite, haver grossa bordoada. Em
Pomares, quando no dia 25 se realizava a festividade em honra de São
Tiago (Santo Iago), foi o que se viu. No dia 27, quando em Paços se
realizava a festividade em honra de Santa Ana, também não faltou a
traulitada entre a rapaziada de Paços e a de Chaviães. Que ela se
desse em Pomares, quando se festejava o São Tiago, admitimos, visto
tratar-se de um herói na traulitada aos moiros; mas tratando-se da
avó de Jesus, que decerto devia ser toda bondosa, parece que não
fica bem. Mas, como os desordeiros acham sempre bem, toda a vez que
podem pregar a sua traulitada, à tarde, pouco depois de recolher a
procissão, houve alguns socos, misturados com bengaladas, o que deu
em resultado alguns dos de Paços virem até ao lugar do Esporão
onde perguntaram aos de Chaviães se queriam guerra ou harmonia. E
como os de Chaviães respondessem que se estavam ali era para bater,
e como logo em seguida fizessem com uma traulitada baixar ao chão o
Ricardo Alves, de Paços, os companheiros deste desafrontam-no,
fazendo também ir a terra uns quatro ou cinco de Chaviães. Não
podemos de forma alguma elogiar tais proezas, mas se temos de
censurar estas, como não devemos classificar o facto de os
“valentes” de Chaviães, depois desse dia, baterem em qualquer
pessoa que à Portela do Couto passasse, pelo simples facto de ser de
Paços? Desconhecemos as razões anteriores que naquele dia os
levaram a vias de facto, não podendo, por isso, avaliar bem a
responsabilidade de cada grupo, mas o que toda a gente, desconhecendo
embora essas razões e até esses factos, tem de censurar com toda a
energia dos seus nervos, é o facto de certos “valentes” da
Portela do Couto baterem há dias numa mulher de Sá, conhecida por
Maria do Romão. Essa mulher deve ter 60 anos de idade
aproximadamente, é viúva e doente, e vive distante um único filho
que tem. Nada mais julgo necessário para aquela mulher ser digna de
todo o respeito; mas os “valentes” da Portela não o entenderam
assim. Saem à estrada, onde lhe perguntam de onde é, e – como ela
dissesse que era de Paços – dão-lhe logo duas bofetadas. Por
acaso será crime o ser natural de Paços porque os desta freguesia
bateram nos de Chaviães? Mais juízo, ó “valentes” da Portela,
pois do contrário teremos de chamar a atenção da digna autoridade
administrativa para as vossas proezas, mandando-vos chamar a
capítulo!”
A
festa de S. Bento em Fiães no ano de 1932 também foi notícia pelas
más razões, tal como nos conta o “Notícias de Melgaço”, na
sua edição de 17 de Julho de 1932: “A
romaria de São Bento, em Fiães, ficou assinalada por algumas
desordens que se desenrolaram durante o arraial da tarde do dia 11
(Julho
de 1932), e de que resultaram bastantes feridos, sendo dois
gravemente. O princípio da desordem foi provocado por dois rapazes
da Vila de Melgaço. Generalizou-se, e das várias refregas havidas
saíram muito maltratados, em estado grave um rapaz de Sante e um
outro conhecido por José Canelas, com uma facada no rosto o
comerciante desta Vila, senhor José Maria de Sousa, tendo este, em
sua defesa, agredido com um guarda-sol o senhor José Correia de
Amorim, de Cristóval. Houve alguns feridos mais, sem gravidade, e
felizmente não houve mortes. Bom seria que os arraiais não fossem
perturbados com estas alterações da ordem que bastantes prejuízos
acarretam, não só a quem ali acorre para fazer o seu negócio, como
a quem vai com devoção, ou [apenas] para se distrair.”
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
A capela e a velhinha ponte da Minhoteira (Parada do Monte - Melgaço): algumas notas históricas
Na freguesia melgacense de Parada do Monte, ao pé do rio Mouro, encontramos o lugar da Minhoteira com a sua capela da Nossa Senhora da Vista e onde em tempos havia uma velha ponte em pedra, já desaparecida.
A primeira questão que é importante esclarecer é o significado do nome deste aprazível local. Na realidade, o termo “Minhoteira” é de uso muito antigo e significa “pequena ponte de madeira composta por uma ou duas tábuas para passagem de pessoas”. Certamente, que muitos se lembram de ali existir até há cerca de 35 anos, uma ponte em pedra mas ninguém tem memória de ter ali existido uma ponte em madeira. Na verdade, quem nos esclarece este assunto é o padre de Parada do Monte num documento redigido em 1758. Nele, o pároco Francisco de Caldas Bacellar escreve que, na época, na Minhoteira existia “uma ponte de cantaria há poucos anos, que antes era de pau em o sítio chamado Minhoteira, sítio horrendo e medonho". Assim, ficamos a saber que a antiga ponte em pedra foi construída em meados do século XVIII e que antes dessa ponte em pedra, já ali havia uma pequena ponte em madeira, sendo essa a razão para o nome do lugar.
![]() |
Ponte e Capela da Minhoteira (Parada do Monte - Melgaço) em meados dos anos 80 |
Conforme se disse, existe na Minhoteira uma capela dedicada a Nossa Senhora Vista. Desconhece-se a data exata da sua construção. No documento das Memórias Paroquiais de 1758, o pároco de Parada do Monte não faz referência à existência de nenhuma capela na Minhoteira. Creio que esta capela terá sido construída algures no último terço do século XVIII. Temos referência a um documento datado de 1790 que faz alusão à obrigação à fábrica da capela do Senhor dos Aflitos, no sítio de Ponte de Minhoteira a favor dos moradores do dito lugar, que pedem para se rezar missa. Assim, inicialmente, esta capela estava dedicada ao Senhor dos Aflitos e apenas posteriormente passará a ser dedicada à Nossa Senhora da Vista. Esta mudança é relativamente recente. Em 1914, no documento relativo ao inventário dos bens da paróquia de Parada do Monte, refere-se que existe "a capela do Senhor do Aflitos no sítio da Minhoteira com três altares". Desta forma, a mudança de orago para "Nossa Senhora da Vista" terá ocorrido algures durante o século passado.
Segundo CERVEIRA, A. (1999), a capela da Nossa Senhora da Vista possui uma planta longitudinal composta por nave única retangular e capela-mor quadrangular. Apresenta volumes escalonados, com coberturas diferenciadas em telhado de duas águas. Cunhais apilastrados encimados por pináculos e ângulos das empenas rematados por cruz latina. Apresenta frontispício virado a sudeste, de remate em empena, aparelho granítico com as juntas pintadas a branco. Podemos observar portal de verga reta encimado por frontão triangular de volutas interrompido, com porta metálica de duas folhas gradeada na metade superior. Flaqueiam o portal duas janelas quadrangulares e encima-o óculo galbado. O alçado sudoeste tem no pano da nave porta acedida por escada lateral adossada, e duas janelas, uma na nave e outra na capela-mor. A fachada posterior é cega e no alçado noroeste rasga-se janela na capela-mor e a porta é encimada por janela no pano da nave.
No interior, as paredes encontram-se rebocadas a branco, o coro-alto é em madeira, o pavimento é em lajeado granítico cimentado e o teto é em abóbada de berço. O púlpito do lado do Evangelho, apresenta-se apenas com a base sobre mísula e a escada de acesso. Encontramos uma porta lateral no lado da Epístola e arco triunfal, pleno, flanqueado por pilastras ornamentais em granito. A capela-mor alberga cruzeiro granítico integrando pedestal quandrangular, coluna e cruz latina com imagem escultórica de Cristo e na parede testeira, um painel de madeira formando retábulo.
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