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domingo, 19 de janeiro de 2014

O significado de inscrições em monumentos melgacenses V

A inscrição na muralha do castelo de Melgaço

A inscrição na muralha do castelo de Melgaço (Foto de C. H. Ivens - 1898)

Certamente, muito de vocês já passaram junto a esta inscrição que nos chegou até aos nossos dias em muito bom estado de conservação e que se encontra junto à porta da muralha ao fundo da rua Direita.  Mas o que diz esta inscrição?
Diz o seguinte:
(recorte retirado de VASCONCELOS, José Leite (1898))

Em português significa:


(recorte retirado de VASCONCELOS, José Leite (1898)

Trata-se de uma inscrição lavrada em latim comemorativa da construção de parte da muralha de Melgaço, gravada ao longo de três silhares da face externa do muro, à direita da porta que facultava acesso à via que conduzia a Valadares e a Monção.
A análise da inscrição da muralha de Melgaço foi publicada pela primeira vez nos fins do séc. XIX por José Leite de Vasconcelos numa versão correcta e acompanhada de magnífica gravura (VASCONCELOS J.L. 1898). Nesta ainda é possível ver, junto do A de VILLAN, uma argola de ferro, chumbada na parede, certamente destinada a prender animais de carga. Hoje essa argola foi retirada, o que se traduziu na mutilação da parte terminal da penúltima regra do letreiro, por lascagem do silhar. No entanto, a gravura publicada por José Leite de Vasconcelos permite a leitura integral de "VILLAN", confirmando a nossa transcrição. Alguns anos mais tarde, em 1921, a inscrição seria de novo referida, sem leitura, no Arrolamento de monumentos do distrito de Viana do Castelo estabelecido por Júlio de Lemos. No ano seguinte, em 1922, Francisco Marques de Sousa Viterbo registava o nome de Fernando, mestre construtor da muralha de Melgaço, no terceiro e último volume do seu Diccionário Histórico e Documental de Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, sem divulgar leitura do letreiro e remetendo o leitor para o artigo de Leite de Vasconcelos. Alguns anos mais tarde, Garcês Teixeira divulgou nova versão do letreiro de Melgaço, com pequeno erro no início da última regra, onde leu "[HAC]" em vez de IN (h)AC. Num momento de clara infelicidade, Garcês Teixeira apresentaria a inscrição como inédita e sublinhava que Sousa Viterbo não referia o nome de Mestre Fernando no seu Dicionário. Como já tivemos oportunidade de ver, a inscrição já fora publicada por Leite de Vasconcelos (lapso que Garcês Teixeira ainda teve oportunidade de corrigir, e o nome de Mestre Fernando fora referido por Sousa Viterbo.
Em 1975 o P.e M. A. Bernardo Pintor voltaria a publicar a inscrição da porta da Muralha de Melgaço, apresentando lição quase correcta mas onde se devem anotar algumas incorrecções: corrigiu para “M” todas as terminações em “N” da inscrição (um pormenor para o qual já chamara a atenção J. Leite de Vasconcelos), suprimiu um dos LL de CASTELLARIUS e transcreveu os numerais da Era em números árabes.
Em 1978 seria a vez de Carlos Alberto Ferreira de Almeida divulgar a sua versão da inscrição de Melgaço, apenas incorrendo em pequeno erro na parte terminal, onde leu "... VILLA IN / HAC PARTE", e corrigindo os NN para MM (em "COMPUSUIT", "MURUM" e "ISTUM"). Depois de Carlos Alberto Ferreira de Almeida, a inscrição de Melgaço não seria mais nenhuma vez publicada na sua versão original uma vez que Matos dos Reis se limitou a transcrever a tradução do seu conteúdo.
A inscrição da muralha de Melgaço apresenta uma curiosa paginação, que nenhum dos autores que a ela se reportou teve ensejo de sublinhar. Efectivamente, o primeiro silhar, uma pedra de grandes dimensões, tem a sua superfície dividida de forma quase equitativa em três regras, onde o texto se distribui de forma uniforme e regular. Ela revela uma programação relativamente cuidada por parte do seu autor. No final da terceira regra, encontramos a data - Era Ma CCCa Ia - que parece encerrar o letreiro tal como ele foi planeado inicialmente. E, efectivamente, as três linhas seguintes, que já não obedecem ao rigor de paginação da primeira parte, parecem corresponder, em termos de conteúdo e redacção, a um acrescento ao texto original, feito em momento posterior. No entanto, devemos sublinhar que, paleograficamente, o letreiro foi feito pelo mesmo autor ou lapicida, quer na "primeira" quer na "segunda" parte. Os dois momentos teriam sido, portanto, muito pouco afastados entre si, talvez quase consecutivos. Poderemos, portanto, estar perante uma inscrição que foi gravada em versão curta (até à indicação da Era) e que depois foi completada com o restante texto. Os motivos que estiveram, eventualmente, por detrás dessa circunstância poderiam ter a ver com a vontade pessoal de Martinho Gonçalves, Casteleiro do monarca em Melgaço, de ter o seu nome perpetuado junto do muro da vila. Ou, como veremos de seguida, talvez pela necessidade de esclarecer que a iniciativa régia apenas se circunscrevera a essa porção do muro, e não se estendera à sua totalidade.
Melgaço recebeu Carta de Foral das mãos de D. Afonso Henriques em 21 de Julho de [1183], um diploma que seria confirmado por D. Afonso II em 1219. Este diploma seria substituído em 1258 por nova Carta de Foral, outorgada por D. Afonso III a 29 de Abril desse ano. No entanto, e perante a resistência oferecida pelos habitantes de Melgaço, o novo diploma seria suspenso e o primeiro de novo restaurado em 1261.
O início da construção da muralha de Melgaço remonta, pelo menos, aos tempos de D. Sancho II. A necessidade de dotar a povoação de um sistema defensivo eficaz foi sublinhada pelos eventos que, no quadro da contenda entre D. Afonso II e as Infantas suas irmãs, conduziram à invasão do Norte de Portugal pelas forças leonesas, em 1211-1212, altura em que Melgaço foi tomada. Não admira, portanto, que no reinado de D. Sancho II, a construção de uma muralha em Melgaço estivesse na ordem do dia. E, efectivamente, em Fevereiro de 1245 o Mosteiro de Fiães comprometeu-se a comparticipar na empresa com a construção de 18 braças de muro na zona onde se encontrava a adega, incluindo-se nessa extensão uma torre. Este documento não pode deixar de ser equacionado com os conturbados tempos que o país atravessava e que culminariam em verdadeira Guerra Civil a partir dos meados desse ano, levando D. Afonso III ao poder. O diploma revela-nos que em 1245 o muro já estaria em construção e ajuda-nos, também, a compreender melhor as circunstâncias que ditaram que, na nossa inscrição o lapicida se preocupasse em assinalar que Martinho Gonçalves circundara a vila nessa parte (CIRCUNDAVIT HANC VILLAN IN (h)AC PARTE). É que nem todas as partes do muro foram construídas por responsabilidade do concelho e erguidas no tempo de D. Afonso III. Havia, por certo, porções que tinham sido construídas por outras entidades e nos fins do reinado de D. Sancho II.
E como no diploma de Fevereiro de 1245 o Abade e Mosteiro de Fiães se comprometiam a reparar, sempre que fosse necessário, a porção de muro que iriam erguer, convinha esclarecer definitivamente que a iniciativa do monarca e do Casteleiro se devia circunscrever a essa parte e não alargar a toda a extensão do muro defensivo da vila. E que se a inscrição declarasse que a muralha fora erguida na sua totalidade por D. Afonso III, o Mosteiro de Fiães poderia sempre alegar, em futuros momentos, que não tinha responsabilidade sobre a sua construção e, logo, sobre a sua reparação.

Mas, por outro lado, a inscrição da muralha de Melgaço não pode deixar de ser equacionada no contexto de um esforço régio de dotar o país de uma defesa mais eficaz junto da fronteira terrestre e fluvial com o vizinho reino de Leão e Castela, e no qual se devem incluir as inscrições de Caminha (de 1260), de Estremoz (de 1261) e de Castro Marim (de 1274), para apenas focar as que foram devidas à iniciativa de D. Afonso III ou cuja conclusão foi incrementada pelo monarca.

Nota: Na inscrição, o ano de 1301 corresponde ao ano de 1263, devido à passagem da era de César para a era cristã para efeitos de contagem dos anos. Até então os anos contavam-se a partir do nascimento do imperador romano Caio Júlio César Augusto (38 a C.). A partir de 1422 (ano de 1460 da era de César), por iniciativa do rei D. João I, a referência para a contagem dos anos passa a ser o nascimento de Jesus Cristo. Daí a diferença de 38 anos.



Informações extraídas de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.
- VASCONCELOS, José Leite (1898) - Inscrição latina de Melgaço do século XIII. Revista "O Archeologo Português".

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O significado de inscrições em monumentos melgacenses II


Inscrições em sepultura medieval junto ao Mosteiro de Fiães


Inscrição gravada em tampa de sepultura em granito. Comprimento: 189 cm. Altura: 62 cm/50 cm (Cabeceira/Pés).
Leitura:
Era Ma CCCa L IIII KaLendaS IULII / Obiit Maria I(o)HannIS  DE CAVALEIROS
Inscrição funerária de D. Maria Anes, natural de Cavaleiros (Freguesia de Roucas, Concelho de Melgaço), gravada na tampa de sua sepultura, que se conserva hoje fora de contexto, encostada à parede Norte da Nave da Igreja de Fiães.
A insc. de D. Maria Anes foi publicada apenas por dois autores, em ambos com leitura distinta da que aqui apresentamos no que respeita ao nome próprio de D. Maria Anes. O primeiro autor a divulgar esta inscrição foi o P.e Bernardo Pintor, na sua monografia dedicada a Melgaço Medieval, quando dá notícia do aparecimento da tampa de sepultura em 1958, desenterrada da zona envolvente da Capela-Mor de Fiães. Nesse estudo, o P.e Pintor propõe a seguinte leitura para este epitáfio:
"E : M : CCC : L IIII KL S IULII
O' M : IHTS . DE CAVALEIROS" desdobrando:
"Era 1345 Calendis Julii Obiit Martinus Johanis de Cavaleiros" (PINTOR 1975, p. 44). O P.e Bernardo Pintor ressalvava, ainda, que o desdobramento de M por "Martinus" era apenas uma hipótese, podendo ser igualmente desdobrado por "Mendo" ou "Múnio" (PINTOR 1975, p. 44). Depois da referência do P.e Bernardo Pintor, a insc. de Fiães seria apenas de novo referida em 1987, por nós próprios, quando procedemos ao estudo dos vestígios funerários medievais de Entre-Douro-e--Minho, e onde perfilhámos a leitura proposta pelo P.e Pintor, optando pela primeira solução de desdobramento («Martinus»), por parecer ser a mais usual para a época, sendo portanto a mais plausível (BARROCA 1987, p. 410 e p. 482). Julgamos, hoje, que estávamos equivocados, tal como o P.e Pintor. Na realidade, o M apresenta-se coroado por pequeno A aberto, de herança visigótica, revelador do género feminino da palavra aí abreviada. Ora, a sua presença afasta desde já, e de forma radical, a possibilidade de se tratar de um Martinho, Mendo ou Múnio. A conjugação de um M com a terminação em A, na forma «Ma» recomenda que se desdobre por Maria, o que aqui fazemos pela primeira vez.
A inscrição de Maria Anes, natural de Cavaleiros, encontra-se gravada na sua tampa sepulcral, decorada com uma enorme cruz latina que ocupa as dimensões maiores da tampa acompanhando o eixo principal desta, com braços definidos a duplo traço e remates terminais flordelizados. Acompanhando o braço maior da cruz, e ocupando os dois "campos" rectangulares por ele definidos, foram gravadas as duas regras deste modesto epitáfio. 
Apenas uma palavra, Obiit (abreviada na primeira letra, «O»), que abre a segunda regra, foi gravada à esquerda desse "campo" epigráfico, portanto no que poderíamos designar por primeiro quadrante da tampa. Esta palavra constitui, igualmente, o principal motivo de interesse desta inscrição, já que se trata de uma abreviatura particular da palavra Obiit, grafada na forma de O cortado por pequeno segmento de recta oblíquo (0). Ora, esta forma peculiar de abreviar a palavra Obiit ocorre apenas em Coimbra e, sobretudo, em Alcobaça, sendo típica dos "ateliers" epigráficos cistercienses. Julgamos que o seu aparecimento em Fiães não pode deixar de espelhar contactos culturais entre as diversas instituições cistercienses, que sabemos terem existido, e que encontram aqui uma comprovação epigráfica.
O Mosteiro de Fiães encontra-se documentado desde 1142, tendo começado por abraçar a Regra de S. Bento (que ainda seguia em 1173), e mudando mais tarde para a Regra de Cister (que já se documenta nesta instituição em 1194).


Extraído de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O significado de inscrições em monumentos melgacenses I


Inscrição na Capela de Nossa Senhora da Orada


Inscrição comemorativa da Fundação da Ermida de N.a S.a da Orada, gravada em silhar do ombral direito do Portal Ocidental do templo. A inscrição revela-nos o papel desempenhado pelo Prior de Fiães na fundação deste templo rural.
Foi o Padre. Bernardo Pintor o primeiro autor a publicar a inscrição de Orada, oferecendo leitura quase correcta do letreiro, primeiro sem desdobramentos:
"P'IOR MONAC DE / FENALIB ISTAM / ECCIÃ FUND" depois com desdobramento de abreviaturas:
"PRIOR MONACHORUM DE FENALIBUS ISTAM ECCLESIAM
FUNDAVIT" e depois da respectiva tradução:
"O Prior dos Monges de Fiães Esta Igreja Fundou" (PINTOR 1975. Anotemos apenas que a inscrição apresenta ECCLA e não ECCIA, e que a MONAC se segue o sinal de abreviatura, parcialmente gravado no silhar superior, pelo que deveria transcrever MONAC. A leitura do Padre Bernardo Pintor, correcta nas suas linhas gerais, seria citada por Lúcia M. Cardoso Rosas (ROSAS 1987).
Já tivemos oportunidade de referir as ligações profundas que uniam a Ermida de N.a S.a da Orada ao Mosteiro de Fiães. O Mosteiro teria recebido a herdade de St.a Maria da Orada das mãos de D. Afonso Henriques por diploma hoje desconhecido mas confirmado indirectamente por outro de seu filho, D. Sancho I, de 1199. É possível que a doação tenha sido realizada no quadro do diploma de 1173 pelo qual o primeiro monarca português entregou diversos e alargados bens ao Abade D. João e aos frades do Mosteiro de Fiães. A construção da Ermida, como Carlos Alberto Ferreira de Almeida teve oportunidade de sublinhar, deve ser colocada nos meados do século XIII (ALMEIDA C.A.F. 1988) e à qual talvez se deva associar a inscrição de 1245. É possível que tenha sido no final das obras dessa centúria que se gravou o letreiro que aqui nos ocupa, consagrando o papel do Prior de Fiães na construção deste prestigiado centro de devoção, implantado em plena mancha rural, à saída de Melgaço.


Extraído de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.