sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte II)

Ruínas do Castelo de Castro Laboreiro

Na viagem a terras de Castro Laboreiro contada por José Augusto Vieira no livro “O Minho Pitoresco”, há 130 anos, este sobe ao castelo e contempla os belíssimos pormenores deste cenário. O autor conta que “Chegados à base do gigantesco morro, o Almeida fez o esboço e nós enchemo-nos entretanto de coragem para fazer a ascensão dessa mole de granito, ameaçadora e bruta, que quase a prumo se erguia sobre as nossas cabeças.
Era pela chamada porta do Sapo, a do norte, mal distinta na nossa gravura, que teríamos de penetrar no castelo; para lá chegar porém, necessário era subir uns estreitíssimos degraus abertos na rocha viva, o que fizemos com a agilidade de que disporiam valentes animais trepadores, lutando ainda contra o frigidíssimo vento que nos açoitava,  ameaçando a cada momento desequilibrar-nos.
Chegados acima, uma sensação de terror nos gelou a medula. Entre nós e a porta, uma pequena rocha estreita, de poucos decímetros de largura, era a única passagem a transpor, e essa passagem dava sobre um abismo que media aproximadamente 500 metros de alto.
Bastava o escorregar dum pé, um ligeiro desequilíbrio, um nervosismo impertinente para nos fazer conhecer essa distância respeitosa, ao fim da qual a morte seria a consequência indubitável.
Retroceder seria, além de pouco praticável, uma verdadeira nódoa nos nossos brios de excursionistas! Avançámos, pois, e soltámos um  profundíssimo AH! de satisfação e alívio, quando transpozemos essa porta, que para nós representava a realização dum desejo e a certeza da salvação dum perigo tão próximo!
Os escritos, que temos lido sobre Castro, dizem que essa porta é estreita e fazem-a quase uma fresta que se torna necessário atravessar de rastos. Não é verdade isto. Um homem a pé passa por ela perfeitamente à vontade, e onde o rastejar é quase uma necessidade, é apenas na tal passagem a que nos referimos.
O castelo, que o povo atribui aos mouros, é evidentemente construção romana. Dentro encontram-se ainda vestígios de quartéis e há igualmente um poço, que os antigos dizem ter possuído agua nativa. Os muros atuais, arruinados bastante, são baixos e como que apenas coroam o castelo natural da penedia. Duas portas dão entrada para este recinto: a do norte por onde penetrámos, e a do sul, de acesso um pouco mais fácil, mas ainda assim perigoso.
O aspeto da paisagem é triste e árido. A penedia rendilha todas as montanhas e desponta por todas as encostas, tomando as formas mais variadas e mais caprichosas.
No inverno um lençol de neve cobre o seu dorso escuro e pardacento, no verão apenas destaca do desolado da rocha um ou outro talho de centeio verde-amarelado e os vidoeiros que se erguem no fundo do vale estreito, como sentinelas perdidas do grande exercito vegetal. Os carvalhos não passam de raquíticos arbustos e servem, assim como as
giestas, apenas para lenha. Nem uma única árvore de fruto, nem o mesmo pinheiro bravo se divisa num ponto único da serra. Apesar de ser verão, o céu era brumoso, com uma ou outra nódoa de azul esparsa na cúpula celeste. Renques de neblina corriam dos lados da Peneda, quebrando-se em vapor húmido contra as arestas das rochas e contra os muros do crasto. No fundo, o ribeiro Fraguedo serpenteia, como ondeante cobra, indo perder-se além, entre as serras de Lindoso, que deste ponto se avistam, para confluir no Lima. Foi sobre as margens deste regato que seguiu a pé D. Fr. Bartholomeu dos Martyres, quando visitou esta isolada freguesia da sua diocese.
A vol d'oiseau ficam-nos à esquerda as Inverneiras, escondidas numa profunda garganta, e à direita a vila de Castro Laboreiro, de lápis, penhasco, constituída pela aglomeração de choupanas cobertas de giestas e colmo, de entre as quais apenas a igreja e uma ou outra casa destacam os seus telhados negros e paredes esfumadas.
A igreja foi primitivamente vigararia da matriz de Ponte de Lima, depois abadia do bispo de Tuy, que João Fernandes Sotto Maior trocou em 1 308 com o nosso rei D. Dinis.
A vila tinha foral velho dado por Afonso III em Lisboa em 1271, e D. Manuel lhe deu outro em 1513, dando-lhe neste foral o nome de Castro Laboreiro.
Vários réis concederam aos castrejos muitos privilégios, que D. João V confirmou, e entre estes o de se não fazerem aqui soldados.
A fundação de Castro atribui-se a S. Rosendo, neto de Hermenegildo, a quem D. Affonso III doou estas terras de Lima, como prémio de ter vencido o conde Witiza, senhor destes lugares e que se revoltara contra ele. Hoje a vila está anexada à comarca e concelho de Melgaço e não haveria realmente fundamento para a considerar com os antigos privilégios, visto ser uma povoação decadente e miserável.
— Só por desgraça é que a gente vive aqui, meu senhor — dizia-me uma pobre mulher castreja, com quem conversávamos,— ainda se o governo nos fizesse a esmolinha de mandar para cá uma estrada!
A terra é fria e pouco fértil. As aguas duma deliciosa leveza e frígidas de neve. No inverno os castrejos, principalmente os de serra acima, abandonam as povoações do alto e recolhem às suas choças no fundo dos vales, as inverneiras, para as quais transportam o seu limitado trém de cozinha, os instrumentos do trabalho, as roupas e os gados. Chegada a Primavera deixam as suas casas de inverno e voltam para as do alto.
Nos fins de S. Miguel, os homens robustos e validos emigram para o Douro e Beiras, onde vão fazer paredes nos matos e campos. Chamam-lhes nessas províncias os tapisas ou tapúas. Ficam apenas as mulheres, os velhos e as crianças.
— Não há quem deite a mão a qualquer coisa, senhor.
— Se acontece de a neve entulhar as portas dos currais, mal nos avímos (havemos) para poder tirar o gadinho.
Qualquer homem que não siga o destino dos outros e que se deixe ficar na povoação, o que é raro, é considerado desprezado e as mulheres evitam-o sempre, não o atendendo as raparigas nos seus requestos, visto ser um calaceiro e não dar boas garantias de marido trabalhador.
No mês de Junho regressam aos seus lares e fazem os trabalhos agrícolas da colheita do centeio e batata, a apanha das lenhas e dos matos para as cortes dos gados, compram ou vendem nas feiras algum animal, concertam as choupanas, e, quando o inverno chega, depois de deixarem
feitas as sementeiras do centeio barrozo, emigram novamente. A cultura desta gramínea é feita roubando à serra pequenos canteiros de esteva por meio do incêndio; chamam a isto uma lavoura e é nesse rescaldo adubado pelas cinzas vegetais, que, depois de lavrado, se lança a semente. Nenhuma curiosidade oferecem os seus outros trabalhos agrícolas. Neles, como em quase todo o Minho, o auxilio mútuo é quase um princípio tradicional. Assim nas malhadas, por exemplo, os jornais não se pagam a dinheiro e são os vizinhos que reciprocamente se ajudam.”

::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::

Para ler a PARTE I, CLIQUE AQUI

Extraído de: 
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

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