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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A freguesia de Cubalhão (Melgaço) no tempo dos nossos antepassados




A freguesia de Nossa Senhora da Natividade de Cubalhão tem origem antiga e foi curato da apresentação anual dos cónegos regrantes do Mosteiro do Divino Salvador de Paderne. No séc. XIII, Cubalhão não aparece referenciada como freguesia.
Em 1567, Cubalhão foi elevada a paróquia dependente de Paderne por D. Frei Bartolomeu dos Mártires. A este propósito, no livro “Santuário Mariano”, publicado em 1712, refere-se que “Pelos tempos adiante, indo visitar aquelas igrejas o Venerável Arcebispo de Braga Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, visitando a Ermida da Senhora [da Natividade], a erigiu em paróquia, compadecido do trabalho que tinham aqueles moradores em ir ouvir missa ao Mosteiro de Paderne. Porque com a manifestação da Senhora se havia povoado muito aquele lugar e sítio de Cubalhão. Também nomeou o mesmo arcebispo a Senhora Padroeira do lugar, com o título de Nossa Senhora da Natividade e mandou que aos 8 de Setembro se lhe fizesse a sua festividade.” (…)
No mesmo livro, fala-se de uma lenda antiga e menciona que “é tradição constante, contínua e muito antiga naquela freguesia, que em tempos antigos, no lugar onde se vê edificada a sua igreja, eram campos e pastos dos gados de um lavrador do mesmo Couto de Paderne que, andando naqueles campos pastoreando o gado um seu filho pequeno, dissera este ao seu pai que lhe aparecera uma Senhora muito fermosa. Com esta notícia, foram ao mesmo lugar examinar o que o rapaz pastorinho referia e que nele acharam uma imagem de Nossa Senhora de pedra, com o Menino Deus encostado ao peito esquerdo e que a imagem da Senhora não tinha braços. E que no mesmo lugar se lhe edificara Casa”.
No início do século XVIII, a freguesia de Cubalhão é citada no livro “Corografia Portugueza” do Padre Carvalho da Costa e publicado em 1706 nestes termos: Nossa Senhora de Cubalhão, Curato do mesmo Mosteiro, rende trinta mil réis, e para os Frades [do mosteiro de Paderne] sessenta mil réis. tem oitenta vizinhos. Esta Imagem de Nossa Senhora he de pedra, e muy milagrosa. Ha aqui hum tio, a que chamam o Castro, que mostra ser fortificação antiga dos Romanos. (Carvalho da costa)
Um importante documento que nos dá um retrato de Cubalhão em meados do século XVIII é o das Memórias Paroquiais. Em 1758, a 23 Maio, segundo o cura Manuel Gonçalves nas Memórias Paroquiais, a freguesia pertencia ao couto de Paderne, termo de Valadares, comarca de Valença, Arcebispado de Braga, sendo terra do Infante D. Pedro. A freguesia tinha “121 vizinhos, 49 casados, 52 viúvos e solteiros e 357 pessoas de sacramento”. Confiando nestes dados, notamos que houve significativo aumento da sua população entre o início deste século e meados da mesma centúria.
Em 1758, o pároco desta freguesia escreveu que a igreja de Santa Maria de Cubalhão, com orago de Nossa Senhora da Natividade, ficava no meio do lugar, tinha naquela época, três altares, o altar-mor e dois colaterais, um de Santo António e outro de São Sebastião. O pároco era cura anual, apresentado pelos padres de Paderne e tinha de ordenado 8$000. A freguesia estava sujeita à justiça cível do couto de Paderne e o crime à vila de Valadares e também ao ouvidor de Valença. Não tinha correio, servindo-se do de Monção. O pároco menciona ainda que na época “frutos desta terra he centeio e milho pequeno e milho grosso e linho e feijão”. Refere ainda que esta freguesia na época estava “poboada de tojos e carquejas”, acrescentando que “nesta serra anda gado vacum e obelhas e cabras e cria perdizes e coelhos e algumas corsas, lobos e raposas e jabalis”. O pároco refere-se ao clima em terras de Cubalhão e menciona que “he no Verão quente e no inberno muito fria por causa dos temporais e neves que nella permanecem quinze dias e mais”.
Relativamente ao rio Mouro que cruza a freguesia, o pároco refere que “nasce na Portella do Lagarto, freguezia de Lamas de Mouro e nasce por várias fontes.” Ainda em relação a este curso de água, refere-se que “todo corre fragoso e corre todo o ano”, sendo que nas suas margens, na época, “todo he “todo he silvestre de arboredo, urzes e silvas, só o lugar de Além e Cortelhas que dá milho grande e delle tiram prezas para muinhos e campos”.
Em termos administrativos, Cubalhão pertenceu à comarca de Monção e concelho de Valadares até 1855. Neste ano, pelo Decreto de 24 de Outubro, este concelho foi suprimido, passando só nesta altura a integrar o de Melgaço.
Ainda no século XIX, a freguesia de Cubalhão é citada no livro “O Minho Pittoresco” onde lhe é dedicado um parágrafo e nele podemos ler: “Tomando a estrada antiga que de Castro Laboreiro seguia para esta villa sobre a margem direita do rio de Mouro, mas já em plena serra, encontra-se na confluência d'essa estrada com a que segue para Melgaço, CUBALHÃO, que outrora pertenceu também ao concelho de Valladares e foi curato do mosteiro de Paderne, recebendo o cura apenas os benesses.
No sitio do Crasto encontram-se vestígios de fortificação antiga, que, por não estudados ainda,não se sabe a que época atribui-los, sendo porém provável que sejam mais um marco da civilização romana na península. A freguezia é apenas fértil em centeio.”
Atualmente, a freguesia de Cubalhão encontra-se unida à de Parada do Monte.



Informações extraídas de:
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A freguesia de Remoães (Melgaço) em tempos antigos




Não encontramos, até 1258, referências documentais a Remoães. Apenas nas terceiras Inquirições de D. Dinis, datadas do ano de 1307, é mencionada esta terra, sendo que o inquiridor régio se refere a Remoães como tendo privilégio de "honra".
Em tempos antigos, Remoães foi vigairaria anexa à freguesia de São Paio de Melgaço e da apresentação do abade desta última, antes de se tornar freguesia independente.
São raras as descrições antigas desta pequena freguesia do nosso concelho. A descrição mais antiga com algum pormenor das terras de Remoães remonta ao início do século XVIII. O padre Carvalho da Costa na sua obra “Corografia Portuguesa”, publicada em 1706, descreve a freguesia nestes termos: “S. João de Remoães, é Vigairaria do mesmo Abade, a quem é anexa, rende ao Vigário vinte e cinco mil reis, os dízimos vão na Matriz. Tem oitenta e dois vizinhos. Aqui está a Juradia da Várzea sujeita a Melgaço, mas da Freguesia do Mosteiro de Paderne em Valadares.” Além disto, o autor elogia os presuntos e outros produtos do campo produzidos em terras de Remoães nesta época escrevendo que Melgaço “tem boas e férteis terras, pela maior parte, mas em particular o vale da Folia [designação antiga para o atual território da freguesia de Remoães, concelho de Melgaço] com grandes vantagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal...
Em meados do século XVIII, ficamos a conhecer algo de Remoães na época pelas Memórias Paroquiais redigidas em 13 de Maio de 1758. O padre de Remoães, na época, era um tal Gregório Salgado. O dito pároco deixou escrito que esta freguesia pertencia ao termo de Melgaço, comarca de Valença, arcebispado de Braga e, no secular, era da comarca de Barcelos, da Casa de Bragança. Remoães tinha 25 fogos inteiros e 25 meios fogos, 147 pessoas maiores e 11 menores. A igreja, com orago de São João Baptista, ficava no meio do lugar e não tinha naves. Tinha o altar-mor com as imagens da Senhora do Rosário, São Miguel e o padroeiro São João Baptista, o altar colateral do Evangelho com a imagem da Senhora da Purificação e São Domingos, e o colateral da Epístola com as imagens de Nossa senhora e Santo António. O pároco era vigário perpétuo ad nutum apresentado pelo abade de São Paio de Melgaço, tendo de rendimento 20 alqueires de pão, 2 alqueires de trigo, 12 potes de vinho e 8$000 em dinheiro. Na época, os fogos inteiros pagavam meio alqueire de pão e um pote de vinho e os meios fogos pagavam um quarto de pão e meio pote de vinho. Segundo o pároco, nesta época existia na freguesia um barco de duas dornas para passar as pessoas de uma margem para a outra no rio Minho.
Já no último terço do século XIX, encontramos duas curtas descrições da terra de Remoães. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal (1874) esta freguesia é assim descrita: “...comarca e concelho de Melgaço (foi do mesmo concelho, mas da comarca de Monção), 70 Kms ao norte de Braga, 430 ao norte de Lisboa, 56 fogos. Em 1757, tinha 50 fogos. O orago é S. João Baptista. Arcebispado de Braga, e districto administrativo de Vianna. O abbade de S. Payo de Melgaço, apresentava o vigário, collado, que tinha 8$000 réis de congrua e o pé d'altar. Clima excessivo e pouco fértil.”
No livro “O Minho Pittoresco”, publicado em 1886, o autor conta-nos que “contigua a Prado, ali está à beira-Minho REMOÃES, cuja multiplicidade de pequenos campanários em forma pyramidal, destaca ao longe d'entre as àrvores que rodeiam a egreja e lhe dão um aspecto pittoresco.
Como Prado, foi em tempo annexa à freguezia de S. Payo. Ultimamente descobriram-se em Remoães umas importantes nascentes de aguas minerais, alcalinas, ferruginosas e sulphureas, que uma empresa já organizada trata de explorar.”
Atualmente, a freguesia encontra-se unida à de Prado...

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Um retrato do concelho de Melgaço no último quarto do século XIX





No livro "O Minho Pitoresco", publicado em 1886, o autor, não termina o longo capítulo dedicado a Melgaço sem nos deixar um retrato do concelho em termos estatísticos na época. Podemos ler que "Neste ponto, cumpre parar e lançar uma vista retrospetiva sobre todas as manifestações,pelas quais se revela povoação culta o primeiro concelho norte do país.
Serão ainda umas estatísticas curiosas, que tu apreciarás, leitor,sejas ou não filho desta terra, porque elas, por assim dizer, compendiam o movimento civilizador do teu país.
A escola e a imprensa são dois polos da vida intelectual. A segunda não existe em Melgaço, a primeira ramifica a sua luz segundo a distribuição seguinte: tem 8 escolas primárias do sexo masculino, 1 do feminino e 1 mista.
O numero de alunos que frequentou o ano letivo de 1883 – 1884 foi de 559 rapazes e 182 meninas. As escolas são nas seguintes freguesias : Cristoval (mista), Castro Laboreiro, Fiães, Melgaço (duas, uma do sexo masculino e outra do sexo feminino), Paderne, Paços, Parada de Monte, Penso e Remoães.
Como demonstração de moralidade, temos a estatística criminal, referida ao ano de 1880, a ultima publicada. Na comarca foram nesse ano julgados 35 réus, sendo 10 absolvidos e 23 condenados a penas correcionais. Os crimes eram 25, quatro dos quais classificados como atentados contra a ordem e 21 contra pessoas.
De entre os 35 criminosos, 27 eram homens e 8 mulheres e sabiam ler 20, sendo os outros 15 analfabetos. De entre os 35, 2 eram de fora da comarca e 2 estrangeiros.
Do trabalho, na sua tríplice ramificação de comércio, industria e agricultura, pode dizer-se quanto ao primeiro que existe um pouco florescente, atenta a riqueza do concelho, fazendo-se bastantes transações com a Galiza, e exportando para todo o país os celebres presuntos e para os concelhos próximos algum vinho, lãs, cereais e castanha.
A agricultura é a atividade predominante; reduzida, porém, quase ao período pastoril e de criação nas freguesias serranas, onde se apresenta a raça bovina cruzada de barrosã e galega, as ovelhas, e alguns péssimos exemplares de gado equino, asinino e muar, mal alimentados e vivendo pelas pastagens da serra. Nas freguesias da Ribeira Minho, o vinho, os cereais, as frutas, principalmente a castanha, têm já uma larga produção e tornam o concelho bastante fértil. O vinho verde é bastante ácido e taninoso, e usa-se a cultura da vinha pelas pequenas ramadas de arjoeiro, latadas e poucas uveiras. As freguesias mais produtoras são as de Penso, Parada, Passos, Cristoval e Chaviães.
O preço médio é de 26$000 réis por pipa. As castas vulgares são: o espadeiro, o cainho, o pical, e a tinta, vulgarmente chamada espadeiro de Basto.
As vindimas principiam ordinariamente a 20 de setembro. As uvas, sem escolha nem seleção, são lançadas nos lagares de cantaria ou em dornas de madeira. Pisadas logo, ficam em fermentação pelo espaço de 48 a 72 horas, no fim das quais o vinho é envasilhado, sendo em Abril trasfegado para outras vasilhas.
Fazem vinho branco e tinto, e destes distinguem uma qualidade melhor por ser fabricado com uvas de melhores castas, mais sazonadas e escolhidas. A duração do vinho não excede um ano.
O ultimo recenseamento dos gados feito em 1872 dá para o concelho um valor médio de 51.761 $ 810 réis, o que deve considerar-se abaixo da verdade.
As espécies pecuárias são assim divididas:


A vida económica é ainda fácil no concelho. A propriedade rural rende 3 por cento em média e no mercado, abundante de hortaliças, frutas, legumes e aves de criação, os preços regulam pela seguinte tabela:


As feiras efetuam-se nos dias 9 e 22, sendo porém de minguada concorrência esta ultima.
Na página que segue encontra o leitor o mapa elucidativo da população do concelho e do numero de fogos de cada freguesia, tal como o determina o censo de 1878, o ultimo elaborado no nosso país, e bem assim a enumeração dos principais lugares pertencentes a cada uma das paroquias. O leitor compreende, que não podem atingir a verdade rigorosa e exata os elementos de estatística que temos a honra de lhe apresentar.
Que muitas causas não houvesse para essa inexatidão, bastava atender a uma importantíssima,que todos os que se encarregam de trabalhos desta natureza, encontram na sua frente — a ignorância do povo, que nestes trabalhos vê sempre um agravamento do imposto."


- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.



sexta-feira, 5 de abril de 2019

A freguesia de S. Martinho de Alvaredo (Melgaço) em tempos antigos




A primeira referência conhecida à igreja de São Martinho de Alvaredo remonta a 1118, ano em que Onega Fernandes fez doação à Sé de Tui da quarta parte da igreja de São Paio de Paderne, equivalente da igreja de São Martinho de Valadares e outro tanto da vila chamada de São Vicente e da sua igreja. No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar, em 1320, para determinação da taxa a pagar, São Martinho de Alvaredo foi taxada em 60 libras. Enquadrava-se nessa época na Terra de Valadares.
No Censual de D. Frei Baltasar Limpo (1551-1581), que descreve a situação canónica dos benefícios eclesiásticos da comarca de Valença do Minho, diz-se que esta igreja era da apresentação de padroeiros, designadamente, de Pedro Gomes de Abreu.
Na obra do Padre Carvalho da Costa, publicada em 1706, diz-se de S. Martinho de Alvaredo que “em algum tempo se chamou de Paderne, é curato anual com título de Vigairaria do Morteiro de S. Fins dos Padres da Companhia de Jesus, com oito mil réis de ordenado, ao todo cincoenta mil reis, e para os Padres cento e vinte mil reis: tem cento sessenta vizinhos. Onega Fernandes senhora principal,sendo viúva, e tendo hábito de Religiosa deu a quarta parte desta Igreja a Dom Afonso, Bispo de Tui e àquela Sé em 15 de Abril da era de 1156, que é anno 1118, na qual confirmam seu filho Payo Dias e sua filha Aragonta Dias. Há nesta Freguesia duas Torres com alguma renda, chama-se uma de Vilar, outra a Torre somente, e de ambas são senhores os Marquezes de Tenorio. A que está defronte da Galiza é Solar dos Marinhos, que se entende haver sido do Dom Froyão, fidalgo Italiano, que veio a este Reyno com o Conde Dom Mendo ajudar a expulsar os Mouros dele. Entende-se que ele, ou algum filho fez esta Torre, e Casa solarenga de sua família, e não faz contra isto o que diz o Conde Dom Pedro, e outros Gallegos, que o segue, que os Marinhos são naturais da Galiza...”. A Torre da família dos Marinhos em Alvaredo era muito antiga. Já existia no século XIII sendo que esta família viveu nesta freguesia durante muitas gerações. Temos notícia que João Forjaz Marinho (1210 – 1250) foi Senhor Domus Fortis da Torre dos Marinhos. João Marinho terá nascido na Galiza e era Cavaleiro do Reino e foi governador por ordem real nas Terras de Valadares.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, segundo o pároco António Rodrigues de Morais, a freguesia de Alvaredo pertencia ao arcebispado de Braga, comarca de Valença e termo de Valadares. Tinha 220 fogos inteiros e meios fogos e 613 pessoas, entre ausentes, presentes e menores. A igreja ficava no meio do lugar de São Martinho, tinha duas naves com três arcos e os altares: o altar-mor, o de Nossa Senhora do Rosário, o altar das Almas, o altar de santo António, o altar da capela da Senhora da Expectação, o altar da capela de São Francisco e o altar da capela de São Miguel. A paróquia tinha uma confraria das Almas e o pároco era vigário anual apresentado pelo prior dos mosteiros de Sanfins e São João de Longos Vales, da Companhia de Jesus, como procurador do reitor do Colégio de Coimbra, e tinha de ordenado anual 8$000 e com o pé de altar ficava tudo em 60$000, de rendimentos certos e incertos.
Na obra “Portugal Antigo e Moderno” do Professor Pinho Leal, de 1876, replicam-se algumas informações que constam no livro do Padre Carvalho da Costa e acrescenta outras: “ALVAREDO, freguezia, Minho, (...) 160 fogos. Orago é S. Martinho. Arcebispado de Braga, distrito administrativo de Vianna. Chamava-se antigamente de Paderne. Foi de uma senhora, que depois de viúva se fez freira, chamada D. Onega Fernandes, que deu a quarta parte da freguesia ao bispo de Tui D. Afonso, em 13 de abril de 1118, o que confirmaram seus filhos Paio Dias e Aragonta Dias. Foi depois da Universidade de Coimbra. Há nesta freguesia duas torres, uma chamada de Vilar e outra simplesmente Torre. Eram dos marquezes de Tenório. A que está defronte da Galiza é solar dos Marinhos, e diz-se ser de D. Froylão, fidalgo italiano que veio a Portugal com o conde D. Mendo, a ajudar a expulsar os mouros, e fez esta torre. É o progenitor do atual sr. Pereira, morgado da Torre da Sobreira, em Pias, próximo a Monção.
Foi curato do couto de S. Fins, apresentado pela universidade de Coimbra, Há nesta freguesia a casa de Carvalharim, da qual procedem as casas de S. Cibrão, a de Sende e a de Aguiar dos Arcos.
Alguns anos mais tarde, no livro “Minho Pittoresco”, de 1886, as referências a esta freguesia fazem-se numa viagem que o autor faz de Melgaço em direção a Monção e de passagem por Paderne e Alvaredo onde o que chama mais à atenção do autor é a beleza das cangas do gado. O autor conta-nos que ”Deixando a histórica Paderne, fica-nos à esquerda, próximo da linha da estrada, ALVAREDO, chamada antigamente Alvaredo de Paderne e outrora curato do couto de S. Fins, em Valença. Onega Fernandes doou a quarta parte d'esta egreja ao bispo Afonso de Tuy, como já fizera com Prado.
A capela de S. Braz fica perto da estrada, e além, aquela outra ermida, que se vê junto do rio, e devotada a S. Bento e tem a sua festasinha em Julho.
Notámos em Alvaredo, como noutras freguesias limítrofes de Melgaço a singeleza das cangas dos bois, e a sua pequenez; talvez tenhamos ainda de referir-nos noutros pontos do nosso trabalho a estes aparelhos de jugo, tão rendilhados quando se desce para o sul da província,e que o nosso amigo e erudito investigador Leite de Vasconcelos estudou já no seu livrinho intitulado Estudo etnográfico a propósito da ornamentação dos jugos e cangas dos bois nas províncias portuguesas do Douro e Minho.



Fontes consultadas:
- CAPELA, José Viriato (2005) - As freguesias do Distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património Casa Museu de Monção/Universidade do Minho.
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

sexta-feira, 22 de março de 2019

A freguesia de São Tiago de Penso (Melgaço) em tempos antigos



A primeira referência conhecida à igreja de São Tiago de Penso remonta ao ano de 1118. No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar em 1320 para a determinação da taxa a pagar, São Tiago de Penso pertencia então à Terra de Valadares.
Em 1546 há notícia de que se encontrava já anexada ao mosteiro de São Salvador de Paderne. Na cópia do Censual de D. Frei Baltasar Limpo (1551-1581) sobre a situação canónica destes benefícios, diz-se que o abade de Messegães beneficiava dos frutos da igreja do Penso, de consentimento com o prior e cónegos do mosteiro de Paderne. O direito de apresentação desta igreja pertencia ao mosteiro a que era anexa.
Américo Costa descreve-a como vigairaria da apresentação do mosteiro de Paderne e, mais tarde, da Casa dos Caldas, no termo de Valadares. O mosteiro vendeu o direito de apresentação a esta família, que ficou com o padroado da igreja, recebendo os seus vigários a denominação de reitores.
No início do século XVIII, o Padre Carvalho da Costa na sua obra descreve esta freguesia nestes termos: “Santiago de Penso, Vigairaria do Morteiro de Paderne com de dez mil reis, ao todo oitenta mil reis, e para os Frades cento e dezoito mil reis, tem duzentos vizinhos. Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possui Felippe de Araújo de Caldas, Cavalleiro do Habito de Cristo, Capitão-mor, e Monteiro-mor de Valladares ;tomou este nome de uma Capella antiga deste Santo Cipriano, que ali está; he tradição foy templo da Gentilidade dedicado a Júpiter. O tio é fúnebre, e desacomodado no meio de hum campo com pouca veneração, e menos o fora a não ser advogado das cézoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem alli tremendo, e voltam sãos”.
Temos notícias de Penso nas Memórias Paroquiais de 1758. Na resposta ao inquérito, o pároco Diogo Manuel de Sousa Gama de S. Tiago de Penso refere que, além da igreja paroquial, “tem esta freguesia quatro ermidas, uma de Sam Bartolomeu, outra de Sam Thomé, outra da Senhora da Boa Morte e outra de Sam Sipriano”. Mais acrescenta que são pertencentes da freguesia “exceto a da Senhora da Boa Morte e a de Sam Sipriano que pertencem à Casa de Manuel Giraldo de Azevedo e Sotto Maior”, da Casa e Quinta de S. Cibrão. Diz-nos ainda que a freguesia tem 209 fogos.
O pároco memorialista da freguesia de Penso refere-se, ainda em 1758, ao lado de “pescarias livres e dízimas a Deus que os donos usam sem foro algum e se pagam tão só as dízimas a Deus”, outras de “vários donos e senhorios que pagam foros de peixe, especialmente aos religiosos de Santo Agostinho do Mosteiro de Paderne e aos religiosos de S. Bernardo do mosteiro de Fiães”.
O padre de Penso já em 1758 nos fala da chamada “Fonte Santa”, que seria rica em enxofre e teria “várias virtudes especialmente para” doença do fígado, lepra, tratamento de feridas e aumentaria o apetite de comer “se tiver fastio”, trataria também a dita água das doenças de “umores quentes”.
Em 1876, no livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, a freguesia de Penso é assim descrita: “PENSO—freguezia, Minho, comarca e concelho de Melgaço (foi da comarca de Monção, extinto concelho de Valladares) 65 kilometros a Nordeste de Braga, 425 ao Norte de Lisboa. Tem 255 fogos. Em 1757, tinha 209 fogos. Orago, S. Thiago, apostólo. O prior dos cónegos regrantes de Santo Agostinho (crúzios) de Paderne, apresentava o vigário, que tinha 130 000 réis de rendimento. O mosteiro vendeu isto aos Caldas, de Badim, que, desde então até 1834, ficaram com o padroado d'esta igreja passando os seus vigários a denominarem-se reitores.
É n'esta freguezia a quinta de S. Cybrão, do sr. Philippe d' Araújo Caldas. Segundo a tradição, no sitio onde está a capella d'esta quinta, houve um templo romano dedicado a Júpiter. Supõe-se que a existência do tal templo, foi uma fábula inventada para enobrecer esta propriedade; que, mesmo sem aquela circunstância, é notável, pela antiguidade e nobreza dos seus proprietários; e também por que produz óptimo vinho. É terra fértil, gado, peixe do rio Minho (que lhe passa próximo, ao norte) e caça.”
A referência à Quinta de S. Cibrão é uma constante em alguma literatura e outros documentos desde o século XVII o que atesta a extrema importância da quinta e dos senhores da mesma na região. A mesma volta a ser citada no livro “O Minho Pittoresco” de 1886. O autor escreve na sua chegada a Penso: O carro segue sempre e aqui nos fica à esquerda a freguezia de PENSO, uma villota em miniatura, antiga vigararia do mosteiro de Paderne e depois da casa dos Caldas, de Badim, por compra que fizeram ao mosteiro.
Na quinta de S. Cibrão (Cypriano) é tradição que existiu um antigo templo gentilico, dedicado a Júpiter, no ponto onde está hoje a capela. Há quem diga, porém, que essa tradição foi inventada apenas com o fim de enobrecer a quinta, já de si notável pela familia que a possuiu e pelo bom vinho que produz. Em Penso existe ainda a capela de Santa Comba, cuja festa é pelo mez de julho, e junto da estrada, à nossa esquerda, está a capelinha de S. Bartholomeu, cuja festa se faz em 24 de agosto.
Sobranceira a essa capelinha fica um templosinho modesto, mas da religião do mais largo ideal— a instrução do povo. Um bando de rapazes, rodeando o professor, entrava na escola, no momento em que nós passávamos. E foi gratíssima, devemos confessa-lo, essa impressão ultima que em nós deixou a derradeira freguezia que percorríamos do concelho do Melgaço”...




Extraído de:


- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

sexta-feira, 8 de março de 2019

A freguesia de Parada do Monte (Melgaço) no tempo dos nossos antepassados




Parada do Monte é uma freguesia que pertence ao concelho de Melgaço há pouco mais de 150 anos. Pertenceu ao antigo concelho de Valadares, tendo estado anexada, juntamente com a Gave, a Riba de Mouro, de Monção. Com a extinção deste concelho, por decreto de 24 de Outubro de 1855, foi desmembrada desta última freguesia, passando a fazer parte de Melgaço. No censo da população de 1864, figura sob a designação de Parada. Segundo o entendimento do saudoso padre Aníbal Rodrigues, o seu topónimo deverá indicar a existência de uma antiga via romana e do sítio onde os viandantes, a pé ou a cavalo, costumavam descansar depois de uma longa e difícil caminhada.
Há mais de 300 anos, mais concretamente em 1706, o Padre Carvalho da Costa, no seu livro refere-se a Parada do Monte nos seguintes termos: “S. Mamede de Parada do Monte, Vigairaria da mesma apresentação, que rende ao todo quarenta mil reis, e para o Commendador sessenta e seis mil reis. Tem cento e cincoenta vizinhos. Aqui se faz o melhor burel de lã das ovelhas Gallegas de todo o mais Reyno, donde he muy procurado para cubertas de camas de lavradores, ou criados, e ainda de muitos nobres para as meterem entre os cobertores. He muy branco, grosso e macio”. O Padre Carvalho da Costa refere-se ainda ao antigo Couto de Val de Poldros, que atingia os limites territoriais da freguesia de Parada do Monte: Nestas montanhas, em em que há muita caça e veação, houve antigamente hum Couto, a q chamavam Val de Poldros, o qual fez, marcou e defendeu Payo Rodrigues de Araujo, de que possui parte seu sexto neto Manoel de Araújo de Caldas, Sargento-mor de Valladares, ainda que atenuado em parte das grandes regalias que tinha”.
Em meados do século XVIII, o pároco Francisco de Caldelas Bacelar de Parada do Monte refere, nas Memórias Paroquiais de 1758, que os frutos que os moradores recolhem em maior abundância é o milho grosso, vulgarmente chamado milho maiz”. Cultivava-se nas leiras que bordejavam as margens do Mouro e onde também cresciam as latadas pois o vinho (12 cabaços) entrava na composição da renda que a freguesia pagava ao pároco. Na serra rodeavam-se as brandas de “centeio, algum milho miúdo, e pouco linho e muita herva no Verão de que fazem os labradores feno para darem de Inverno aos gados”. Mais afirma o pároco que “a criação de gados que tem esta serra é no tempo do Verão trazerem nella os labradores os seus bois de noutte [noite] e de dia dois outros mezes e as bacas e bezerros andam também na serra de dia e à noutte vão procurá-los e recolhem-nos nos lugares das brandas e o mesmo fazem ao gado miúdo de cabras e ovelhas”.
O Pároco de parada do Monte, em 1758, também refere que o rio Mouro tem um “curso arrebattado em toda a sua distância desde o seu nascimento até botar fora dos limites desta freguezia, somente em hum sítio chamado Agras de Mouro corre quite hum tiro de mosquete’. Rio pouco Mais refere que ”somente no tempo de Verão alguns rapazes caçam nelle algumas trutas pouca e pequenas, mas gostozas”.
Segundo LEITE, A. & LEITE, M. (2009), tendo como base as Memórias Paroquiais e ainda pela análise das prestações entregues pelos foreiros e rendeiros aos monges de Fiães e Paderne (MARQUES, J., 1990) é possível reconstruir a composição da dieta alimentar das populações do interior montanhoso do Vale do Mouro. “A base da alimentação era fundamentalmente constituída por caldo de couves e feijões engrossado com farinha de milho à qual, por vezes, se seguia alguma carne de aves de criação, de porco (conservada nas salgadeiras) e em certas ocasiões a do cabrito ou a obtida pela caça nos montes onde abundava a perdiz, o javali e em menor número os corços, cuja carne ‘he como a de vittela” no dizer do pároco memorialista. O pescado raramente entrava nas ementas e limitavase às sardinhas de Caminha descarregadas na Lapela ou vindas de Arbo (Galiza) e vendidas em Melgaço pelas ‘sardinheiras’ (MARQUES. J., 2004). A lampreia, o sável e o salmão “pilhados” nas cabaceiras e botirões armados nas pesqueiras do Rio Minho eram quase exclusivamente consumidos pelas populações ribeirinhas ou pelos monges de Paderne e Fiães, detentores da propriedade de grande parte daquelas construções fixas para a pesca fluvial (LEITE, A., 1999). Recebiam o sal vindo de Caminha em barcos pello Minho acima, até á Lapella e depois em carros até o lugar de S. Gregório, aonde há armazéns, aos quaes se vem prover todos os povos do bispado d’ Orense” (VILLASBOAS, J., 1800).
Em 1758, Parada do Monte possuía cento e oitenta e nove vizinhos [agregados familiares] e quinhentas e vinte e duas pessoas entre grandes e pequenos”. Segundo o pároco, a igreja paroquial tinha três altares estando o da capela-mor dotado de uma tribuna. O seu pároco era apresentado pela reitoria matriz de São Pedro de Riba de Mouro e tinha uma “renda doze mil réis, doze fanegas de pão, doze cabaços de vinha e dois alqueires de trigo pera hóstias, que lhe paga o colhedor dos fruttos desta terra e tem mais de cada freguês cazado hum alqueire de pão e sendo veuvos [viúvos] meio e solteiros hum coarto”.
Na segunda metade do século XIX, a freguesia volta a ser citada em algumas obras de referência da época. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, publicado em 1876, a mesma é chamada de PARADA e descrita como freguesia já não pertecente a Valadares mas à comarca e concelho de Melgaço, 65 kilometros ao norte de Braga, 430 ao norte de Lisboa. Tem 180 fogos [agregados familiares]. Em 1757, tinha 189 fogos. O orago é S. Mamede. Arcebispado de Braga, districto administrativo de Vianna. O reitor de S. Pedro de Riba de Mouro, apresentava o vigário, collado, que tinha de rendimento 130 000 réis.” O autor volta a elogiar a qualidade da lã aqui produzida, nestes termos “Ha n'esta freguezia muito gado lanígero, que produz excelente Ian.” Replica a informação relativa ao antigo Couto de Vale de Poldros: Em Valle de Poldras, limites d'esta parochia, houve um couto, que marcou e defendeu Paio Rodrigues de Araujo. Em 1720, era este couto possuído pelo 6º neto do dito Paio, Manuel d' Araujo Caldas, de Valladares mas tinha já perdido a maior parte dos seus antigos privilégios.” Por último refere que “dá-se a esta freguezia, para a distinguir das outras, o nome de Parada do Monte.
Poucos anos depois, em 1886, é publicado o livro “O Minho Pittoresco”, obra incontornável da época para esta região. Na publicação, diz-se que ”a egreja de PARADA DE MONTE fica um kilometro ao sul do Rio de Mouro e dista de Melgaço uns dez kilometros. Foi reitoria que o reitor de Riba de Mouro apresentava e pertencia ao extincto concelho de Válladares. A freguezia é montanhosa e especialmente se entrega à industria do gado ovino, sendo muito apreciada a sua lã para a fabricação dos buréis e cobertores”. (VIEIRA, J., 1886).



Fontes consultadas:
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- LEITE, Antero & LEITE, Maria Antónia Cardoso (2009) - Parada do Monte, História e Património. ACER;
- MARQUES, José (1990) – O Mosteiro de Fiães, Braga;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa;
- VILLASBOAS, Custódio Jozé Gomes de – Descripção Topographica das Commarcas Fronteiras da Província do Minho, 1800 (inserido em Fernando de Sousa e Jorge Fernandes Alves- ‘Alto Minho. População e Economia nos Finais de Setecentos, Editorial Presença, Lisboa, 1997.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O antigo solar e Quinta de S. Cibrão (Penso - Melgaço): algumas notas históricas


Solar da Quinta de S. Cibrão
(Foto em www.idealista.pt)

A Quinta de S. Cibrão situa-se na freguesia de Penso, no concelho de Melgaço, localizada entre a margem do rio Minho e a estrada nacional, no limite administrativo entre este concelho e Monção.  Hoje, creio ser conhecida como a Quinta da Casa Nova, e trata-se de uma propriedade com um antigo solar e capela no interior e que tem vários séculos de História, encontrando-se aqueles em processo de degradação. O nome da quinta é uma derivação de S. Cipriano, santo a quem tinha sido construída uma primitiva capela dentro da propriedade. De facto, há referências bibliográficas do século XIX que citam que no local onde se encontra atualmente a capela, existiu em tempos muito antigos um templo, de evocação a Júpiter, de origem romana. Contudo, creio não haver provas físicas da existência do mesmo sendo aludido até, como se pode ler adiante, que tal não passaria de um estória inventada para valorizar a quinta.
A Quinta de São Cibrão deve ter passado a pertencer a João de Araújo e Caldas e sua esposa Filipa de Sousa de Faria, por volta de anos 1620, já que alguns filhos deste casal nascerem na freguesia de Paderne e em 1640, estes ainda viviam nesta quinta de S. Cibrão. Posteriormente, foi senhor desta quinta o seu filho, o capitão-mor de Valadares Filipe de Araújo e Caldas, casado com Isabel de Sousa e Castro, e o irmão Manuel de Araújo e Caldas, veio viver para a quinta do Rosal em Valadares e foi sargento-mor. A Quinta de S. Cibrão foi destruída nos anos 1656 pelos Espanhóis, durante a Guerra da Restauração, pelo facto de o capitão Filipe de Araújo e Caldas ter destruído algumas aldeias na Galiza. A quinta depois passou, sucessivamente, para o filho de Filipe Caldas, Luís de Azevedo Araújo que era casado com Maria Teresa de Araújo, seu neto João de Araújo Azevedo casado com Maria Lima de Melo, seu bisneto Manuel Giraldo de Sousa Azevedo "Sottomaior" casado com uma terceira ou quarta prima da quinta do Rosal, Mariana de Araújo Azevedo Sottomaior.
O Padre Carvalho da Costa no seu livro “Corografia Portuguesa”, publicado em 1706, menciona que o nome da Quinta de S. Cibrão refere-se a uma capela dedicada ao dito santo que inclusivamente era, na época, destino de enfermos à procura de curas para certas maleitas. O autor refere acerca desta quinta que Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possui Felippe de Araújo de Caldas, Cavaleiro do Hábito de Cristo, Capitão-mor e Monteiro-mor de Valadares. Tomou este nome de uma capela antiga deste Santo Cipriano, que ali está; é tradição que foi templo da Gentilidade dedicado a Júpiter; o tio é fúnebre e desacomodado no meio de um campo com pouca veneração e menos o fora a não ser advogado das cézoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem ali tremendo e voltam sãos”.
No livro “Portugal Antigo e Moderno”, volume VI, do professor Pinho Leal, publicado em 1875, menciona-se sobre a quinta que “É nesta freguesia a quinta de S. Cybrão, do Sr. Philippe d'Araújo Caldas. Segundo a tradição, no sítio onde está a capela desta quinta, houve um templo romano dedicado a Júpiter. Supõe-se que a existência do tal templo, foi uma fábula inventada para enobrecer esta propriedade, que, mesmo sem aquela circunstância, é notável, pela antiguidade e nobreza dos seus proprietários; e também porque produz óptimo vinho.”
No livro “O Minho Pittoresco”, José Augusto Vieira descrevia a freguesia de Penso, em 1886, como “uma vilota em miniatura” e confirma algumas informações já escritas pelo Padre Carvalho da Costa 180 anos antes. Replica também alguma informação já descrita pelo professor Pinho Leal: “Na quinta de S. Cibrião [Cipriano], é tradição que existiu um templo gentílico, dedicado a Júpiter, no ponto onde está hoje a capela. Há quem diga, porém, que essa tradição foi inventada com o fim de enobrecer a quinta, já de si notável pela família que possui e pelo bom vinho que produz.”

sábado, 16 de junho de 2018

A velhinha Ponte Internacional de S. Gregório (Melgaço): algumas notas históricas



A velha Ponte Internacional de S. Gregório era uma passagem sobre o rio Trancoso que se localizava ao fundo da Rua Verde no referido lugar da freguesia de Cristóval, deste concelho de Melgaço e ligava à margem galega, à localidade de Ponte Barxas.
Neste sentido, é bom salientar que a existência desta ponte é muito antiga dando inclusivamente nome ao próprio lugar que tinha uma designação comum de ambos os lados o rio: Ponte das Várzeas/Ponte Barxas. Todavia, do lado português, o nome entrou em desuso algures no início do século XX, enquanto que do lado galego, a localidade conserva o nome arcaico (Ponte Barxas).
Esta ponte era tão rudimentar como estratégica em termos militares. Historicamente, daquilo que se conhece, era a principal passagem de Melgaço para a Galiza no vale do rio Trancoso e por isso, um ponto fronteiriço sempre sensível em tempos de guerra. Sabendo que em tempos antigos, o rio Minho era intransponível em praticamente todo o troço que passa por Melgaço, restavam as outras linhas de fronteira natural, entre as quais o traçado do rio Trancoso. Nesta linha fronteiriça, a importância da Ponte das Várzeas é destacada por MOREIRA, L. (2008) que refere que Desde Castro Laboreiro, à entrada do rio Minho, a fronteira era estabelecida pelo vale do rio Trancoso - também designado por “rio das Várzeas” - cujo vale de margens abruptas era considerado impenetrável. Os únicos pontos de passagem seriam duas pontes: a Ponte de Pouzafolles, ainda em área de montanha, e a Ponte das Várzeas, construída em madeira no lugar de S. Gregório”, relativamente próximo do rio Minho.
De facto, esta ponte internacional, com toda a importância que a sua localização estratégica lhe oferece, é aqui referida como sendo construída de madeira. Tal informação é confirmada na memória paroquial de 1758 de Cristóval, onde o sacerdote refere que a paróquia “tem mais o lugar de  Sam Gregório com uma capela antiga do mesmo santo e com vinte vizinhos (fogos), por onde é a estrada deste Reino de Portugal para a Galiza passando-se o regato por uma ponte de táboa que chamam a Ponte das Varges.
A sua importância estratégica da perspetiva militar durante a Guerra da Restauração (século XVII) é comprovada pela frequência com que é utilizada por portugueses e espanhóis nas suas incursões em território inimigo, além do cuidado por parte dos nossos em guardar esse ponto fronteiriço. Podemos citar um trecho do livro “História do Portugal Restaurado” que nos fala das manobras militares nas fronteiras desta região: D. Gastão, com outro troço, ficou alojado na Ponte das Várzeas (Cristóval) e para que o inimigo divertisse o poder que tinha junto, mandou entrar na Galiza pela Portela do Homem a Vasco de Azevedo Coutinho e por Lindoso a Manuel de Sousa de Abreu, ordenando-lhes, que segunda feira, nove de Setembro, entrassem na Galiza. No mesmo dia ao amanhecer, dividiu D. Gastão a infantaria em três troços e levantando uma plataforma, fez jogar as duas peças de artilharia que levava, contra o reduto da Ponte da Várzeas (junto a Ponte Barxas) e foram de grande efeito, recebendo o inimigo considerável dano. Os três troços, que governavam Lourenço de Morim, Sargento Mor de Caminha e os Capitães Gaspar Casado Manuel e Martim Coelho Vieira, com grande valor e pouca ordem, superando o embargo de algumas estacadas, avançaram três redutos, e entraram ao mesmo tempo, degolando os soldados que os guarneciam. Ficando aberto o caminho para Monte Redondo, que os galegos haviam reparado, se retiraram os que fugiram para este lugar que ficava vizinho. Depois de arruinados os redutos galegos, os portugueses investiram contra as trincheiras de Monte Redondo, e desemparando o inimigo, entraram no lugar e saquearam-no uma segunda vez. O mesmo fizeram a algumas aldeias que ficavam pouco distantes. Os galegos acudiram àquela parte com três mil infantes e 400 cavalos e achando a gente carregada de despojos, avançaram com resolução e os soldados da ordenança, não querendo pôr em contingência o que haviam roubado, voltaram as costas, não valendo a D. Gastão as grandes diligências que fez para os deter na Ponte das Várzeas. Os oficiais e 500 soldados que ficaram, fizeram rosto ao inimigo e valendo-lhe a aspereza do sítio, se vieram retirando pelas veredas mais estreitas, e deixando 15 soldados mortos e dez prisioneiros, conseguiram valorosamente passar a Ponte das Várzeas sem maior dano.
Em finais do século XIX, os tempos já são outros mas esta estratégica Ponte Internacional de S. Gregório conserva-se como uma estrutura rudimentar em madeira. No livro “O Minho Pittoresco” (1886), podemos ler uma curiosa mas detalhada descrição da ponte e refere-se que “S. Gregório é, por assim dizer, uma rua única, uma rua verde, em ladeira íngreme até à ponte da Várzea, essa ponte que o nosso desenho representa, e que é a primeira ponte internacional lançada entre os dois países, se não quisermos falar nas poldras de Pousafoles, mais ao nascente, no curso do Trancoso.
Mas, enfim, a ponte da Várzea tem já os seus 4 metros de altura, 6 de comprimento e 2 de largo! É quase a ponte de um lagosinho!
Não se riam dela, contudo, que ali onde a vêem, com os seus dois troncos de castanheiro, lançados de margem a margem, e os seus torrões como pavimento macio, é um símbolo de fraternidade entre dois países que vivem em plena paz, e seria um baluarte de independência a conquistar, quando o clarim de guerra ressoasse desoladoramente por aquelas quebradas fora.
Ponte Várzea é o lugar espanhol, donde o pontilhão tira o nome e que pertence à alcaidaria de Padrenda, com quem S. Gregório faz o seu comércio meio lícito, meio... de contrabando!
Que diabo queriam, porém, que fizesse S. Gregório, se no inverno é a margem de Ponte Várzea que lhe dá por empréstimo um bocadito de sol, a cujos raios vão aquecer-se aqueles pobres friorentos gelados das suas sombras de meses!”
Em 1911, a singularidade desta ponte de S. Gregório chegaria a provocar risos o Parlamento numa altura em que se temia que Paiva Couceiro e as forças realistas entrassem em Portugal por esta mesma ponte. Num livro que se debruça sobre o Governo de Pimenta de Castro, pode ler-se que Circulava o rumor de que Paiva Couceiro estava atravessando a ponte internacional de S. Gregório com sete mil homens. — «Como o caso é gravíssimo, quero saber, senhor Ministro da Guerra, que medidas de defesa adoptou e quais as que tenciona adoptar?» — Pimenta de Castro, natural de Monção, sabia que a ponte internacional sobre o rio S. Gregório, não passava de um tronco de árvore atravessado sobre o pequeno rio. Desfrutou o mulato dizendo-lhe:
«Sete mil homens devem despender quinze dias a atravessar a ponte internacional de S. Gregório».
«Que defesa pensa estabelecer o senhor Ministro da Guerra e que tropas mandou para lá?»
«Tenho lá as tropas que lá estavam (não estavam nenhumas!) e mais as que para lá vou mandar (não mandou coisa alguma!)».
Paiva Couceiro não estava em S. Gregório, nem pessoa alguma. Isso porém é que ele não quis confessar...”
Esta ponte seria destruída nos tempos da guerra civil espanhola e nunca mais seria reconstruida. A Nova Ponte Internacional de S. Gregório já era uma realidade desde 1935...



Informações extraídas de:

- MARÇAL, Bruno José Navarro - (2010) - Governo de Pimenta de Castro - Um General no Labirinto da I República. Universidade de LIsboa, Faculdade de Letras, Departamento de História;
- MENEZES, Luiz de (1751) – História de Portugal Restaurado. Tomo I; Oficcina de Domingos Rodrigues; Lisboa;
- MOREIRA, Luís Miguel (2008) - O sistema defensivo do Alto Minho em finais do sés. XVIII. In: Cad. Vianenses; nº 41;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.