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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A freguesia de Remoães (Melgaço) em tempos antigos




Não encontramos, até 1258, referências documentais a Remoães. Apenas nas terceiras Inquirições de D. Dinis, datadas do ano de 1307, é mencionada esta terra, sendo que o inquiridor régio se refere a Remoães como tendo privilégio de "honra".
Em tempos antigos, Remoães foi vigairaria anexa à freguesia de São Paio de Melgaço e da apresentação do abade desta última, antes de se tornar freguesia independente.
São raras as descrições antigas desta pequena freguesia do nosso concelho. A descrição mais antiga com algum pormenor das terras de Remoães remonta ao início do século XVIII. O padre Carvalho da Costa na sua obra “Corografia Portuguesa”, publicada em 1706, descreve a freguesia nestes termos: “S. João de Remoães, é Vigairaria do mesmo Abade, a quem é anexa, rende ao Vigário vinte e cinco mil reis, os dízimos vão na Matriz. Tem oitenta e dois vizinhos. Aqui está a Juradia da Várzea sujeita a Melgaço, mas da Freguesia do Mosteiro de Paderne em Valadares.” Além disto, o autor elogia os presuntos e outros produtos do campo produzidos em terras de Remoães nesta época escrevendo que Melgaço “tem boas e férteis terras, pela maior parte, mas em particular o vale da Folia [designação antiga para o atual território da freguesia de Remoães, concelho de Melgaço] com grandes vantagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal...
Em meados do século XVIII, ficamos a conhecer algo de Remoães na época pelas Memórias Paroquiais redigidas em 13 de Maio de 1758. O padre de Remoães, na época, era um tal Gregório Salgado. O dito pároco deixou escrito que esta freguesia pertencia ao termo de Melgaço, comarca de Valença, arcebispado de Braga e, no secular, era da comarca de Barcelos, da Casa de Bragança. Remoães tinha 25 fogos inteiros e 25 meios fogos, 147 pessoas maiores e 11 menores. A igreja, com orago de São João Baptista, ficava no meio do lugar e não tinha naves. Tinha o altar-mor com as imagens da Senhora do Rosário, São Miguel e o padroeiro São João Baptista, o altar colateral do Evangelho com a imagem da Senhora da Purificação e São Domingos, e o colateral da Epístola com as imagens de Nossa senhora e Santo António. O pároco era vigário perpétuo ad nutum apresentado pelo abade de São Paio de Melgaço, tendo de rendimento 20 alqueires de pão, 2 alqueires de trigo, 12 potes de vinho e 8$000 em dinheiro. Na época, os fogos inteiros pagavam meio alqueire de pão e um pote de vinho e os meios fogos pagavam um quarto de pão e meio pote de vinho. Segundo o pároco, nesta época existia na freguesia um barco de duas dornas para passar as pessoas de uma margem para a outra no rio Minho.
Já no último terço do século XIX, encontramos duas curtas descrições da terra de Remoães. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal (1874) esta freguesia é assim descrita: “...comarca e concelho de Melgaço (foi do mesmo concelho, mas da comarca de Monção), 70 Kms ao norte de Braga, 430 ao norte de Lisboa, 56 fogos. Em 1757, tinha 50 fogos. O orago é S. João Baptista. Arcebispado de Braga, e districto administrativo de Vianna. O abbade de S. Payo de Melgaço, apresentava o vigário, collado, que tinha 8$000 réis de congrua e o pé d'altar. Clima excessivo e pouco fértil.”
No livro “O Minho Pittoresco”, publicado em 1886, o autor conta-nos que “contigua a Prado, ali está à beira-Minho REMOÃES, cuja multiplicidade de pequenos campanários em forma pyramidal, destaca ao longe d'entre as àrvores que rodeiam a egreja e lhe dão um aspecto pittoresco.
Como Prado, foi em tempo annexa à freguezia de S. Payo. Ultimamente descobriram-se em Remoães umas importantes nascentes de aguas minerais, alcalinas, ferruginosas e sulphureas, que uma empresa já organizada trata de explorar.”
Atualmente, a freguesia encontra-se unida à de Prado...

sexta-feira, 29 de março de 2019

A freguesia de Rouças (Melgaço) em finais do século XIX




A freguesia de Rouças pertence atualmente ao concelho de Melgaço. Em finais do século XIX, já pertencia à comarca e concelho de Melgaço mas já pertenceu em tempos à comarca de Monção. Em finais do século XIX, havia nesta freguesia 225 fogos ao passo que em 1757, havia apenas 88 fogos.
O orago desta freguesia é Santa Marinha de Antioquia, santa mártir do século IV. Contudo, no livro “Portugal Sacro e Profano” é referido que é Nossa Senhora dos Anjos. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, editado em 1876, fala-se da freguesia de Rouças nestes termos: A mitra apresentava o abade, que tinha 350 000 réis de rendimento. Esta paróquia foi primeiramente padroado da antiga e nobre família dos senhores do Paço de Rouças, que era nesta freguesia, mas que há alguns séculos pertence à de S. Payo, contigua a esta. Ainda se vêem as ruínas de uma antiquíssima casa chamada o Paço, solidamente construída, e, em parte, ainda habitada. O lugar em que está, chama-se mesmo Paço, nome tomado da dita casa. O padroado passou depois para Manoel Pereira (o Mil-Homens) da vila de Monção, e o solar para os Castros, de Melgaço. Por fim, passou o padroado para os arcebispos de Braga. O território desta freguesia, tem 7 kilómetros de comprido, por 5 de largo, estendendo-se desde a encosta oeste da serra de Pernidelo, até junto das muralhas da vila de Melgaço, pertencendo ainda à freguesia de Rouças, as primeiras casas da vila. Ainda que em terreno muito acidentado, os seus vales são fertilíssimos, e o vinho que produz é de óptima qualidade principalmente o dos sítios das Barreiras e Vale de Cavaleiros, em nada inferior ao excelente vinho de Monção. É nesta freguesia a grande quinta que foi do mosteiro de Fiães, deste concelho, e que, ficando sobranceira à vila, é uma belíssima vivenda. É hoje propriedade particular do Sr. Dr. José Joaquim Gomes. A igreja matriz é das maiores, não só da comarca, mas do distrito administrativo. O zelo do reverendo abade atual, e a devoção e religiosidade dos paroquianos, tem convergido para que este templo esteja ornado com a maior magnificência. Estes melhoramentos principiaram em 1864. Tem altar-mor e quatro laterais, todos ricamente adornados, e as santas imagens que os decoram, são de excelente escultura, sendo notável a de Nossa Senhora da Soledade, de tamanho quase natural, e oferecida à freguesia pela benemérita família Salgado, aqui residente. A sua torre dos sinos, é bastante alta e tem dois bons sinos. O coro é bom, e tem um pequeno órgão. Tem óptimas alfaias e paramentos, para o culto divino, tudo feito há poucos anos. No teto da igreja há boas pinturas, representando os apóstolos e os evangelistas; e a Fé, Esperança e Caridade. Na parede exterior da capela-mor, está embutida uma lapide, com esta inscrição:

BLAZIUS D'ANDRADA DA
GAMA, ABBAS, IN UTRO-
QUE JURE LAUREA-
TUS, A FUNDAMENTIS
EREXIT. MDCLXXXX

Colige-se desta inscrição que o templo foi fundado em 1690, à custa do benemérito abade da freguezia, Braz d'Andrada da Gama. Está construída em um formoso sitio, pela sua posição elevada, e com dilatados horizontes. A festa da padroeira, faz-se a 18 de julho, que é o seu dia. É uma romaria concorridíssima, vindo gente até da Galiza, em grande número, com ofertas, para que Santa Marinha os cure, ou preserve de sesões. O lugar presta-se maravilhosamente para a romaria, porque é um vasto terreiro, o maior que se vê na província, em frente das igrejas, depois do de Fiães. Fica ao sul da igreja, e é assombrado por gigantescos e vetustos castanheiros, contemporâneos do primitivo templo. A residência paroquial foi reconstruida em 1870, desde os alicerces. É um edifício no gosto moderno, cómodo e decente e feito à custa dos paroquianos, que da melhor vontade, e por amor ao seu digno pároco, se prestaram a esta não pequena despesa. Há nesta freguesia seis capelas, que são: Santa Rita, na aldeia de Vilela, com missa em todos os domingos e dias sancificados. É publica; Nossa Senhora da Conceição, no Côto do Preto. Tem uma bem esculpida pedra de armas, da ordem da Conceição, sobre a porta principal. É particular; Santo António, no logar da Corga. É particular; Nossa Senhora das Dores, no lugar de Cavaleiros, com missa em todos os domingos e dias santos. É publica; S. João Batista, no logar do Fecho. É particular; Nossa Senhora da Graça, a poucos metros de distância da antecedente, e que é a melhor de todas, tanto pela sua posição eminente à vila, como pela magnifica pedra de cantaria de que é construída. Do monte onde está a capela, é que sabe o finíssimo granito para as construções de todos os edifícios destes arredores.
Nasceu nesta freguesia, o padre Manoel Alves Salgado, que, enquanto estudante, foi o maior perito caçador do Minho. Foi servidor do infante D. Gaspar, arcebispo de Braga, filho natural reconhecido de D. João V, e depois secretário da câmara eclesiástica do arcebispado, no tempo do mesmo príncipe. Era o padre Manoel Alves Salgado, um eclesiástico exemplar, e muito inteligente, sabendo reunir ao rigoroso cumprimento dos deveres do seu então importantíssimo cargo, a maior modéstia e afabilidade. Era sumamente caridoso, pelo que a sua morte foi sinceramente chorada, pelos desvalidos a quem a sua beneficência jamais deixara de socorrer. Por sua morte, nomeou sua herdeira, sua sobrinha, a Sra. D. Thereza Alves Salgado da cidade de Braga, hoje representada por suas duas filhas, as Srs. morgadas do Carvalhal, da mesma cidade. Ao reverendíssimo Sr. José Manoel Alves Salgado de Castro, que, por varias vezes, se tem dignado mandar-me valiosos e curiosíssimos apontamentos, para várias povoações do Minho; e que teve a bondade de me mandar bastantes sobre esta freguezia, agradeço tanta generosidade. Se todos os homens ilustrados das províncias fizessem como o Sr. Padre Salgado, sairia esta obra mais completa e perfeita.”





Informações extraídas de:

- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa.

sexta-feira, 22 de março de 2019

A freguesia de São Tiago de Penso (Melgaço) em tempos antigos



A primeira referência conhecida à igreja de São Tiago de Penso remonta ao ano de 1118. No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar em 1320 para a determinação da taxa a pagar, São Tiago de Penso pertencia então à Terra de Valadares.
Em 1546 há notícia de que se encontrava já anexada ao mosteiro de São Salvador de Paderne. Na cópia do Censual de D. Frei Baltasar Limpo (1551-1581) sobre a situação canónica destes benefícios, diz-se que o abade de Messegães beneficiava dos frutos da igreja do Penso, de consentimento com o prior e cónegos do mosteiro de Paderne. O direito de apresentação desta igreja pertencia ao mosteiro a que era anexa.
Américo Costa descreve-a como vigairaria da apresentação do mosteiro de Paderne e, mais tarde, da Casa dos Caldas, no termo de Valadares. O mosteiro vendeu o direito de apresentação a esta família, que ficou com o padroado da igreja, recebendo os seus vigários a denominação de reitores.
No início do século XVIII, o Padre Carvalho da Costa na sua obra descreve esta freguesia nestes termos: “Santiago de Penso, Vigairaria do Morteiro de Paderne com de dez mil reis, ao todo oitenta mil reis, e para os Frades cento e dezoito mil reis, tem duzentos vizinhos. Aqui está a Quinta de S. Sybrão, que possui Felippe de Araújo de Caldas, Cavalleiro do Habito de Cristo, Capitão-mor, e Monteiro-mor de Valladares ;tomou este nome de uma Capella antiga deste Santo Cipriano, que ali está; he tradição foy templo da Gentilidade dedicado a Júpiter. O tio é fúnebre, e desacomodado no meio de hum campo com pouca veneração, e menos o fora a não ser advogado das cézoens, ou maleitas, que muitos enfermos vem alli tremendo, e voltam sãos”.
Temos notícias de Penso nas Memórias Paroquiais de 1758. Na resposta ao inquérito, o pároco Diogo Manuel de Sousa Gama de S. Tiago de Penso refere que, além da igreja paroquial, “tem esta freguesia quatro ermidas, uma de Sam Bartolomeu, outra de Sam Thomé, outra da Senhora da Boa Morte e outra de Sam Sipriano”. Mais acrescenta que são pertencentes da freguesia “exceto a da Senhora da Boa Morte e a de Sam Sipriano que pertencem à Casa de Manuel Giraldo de Azevedo e Sotto Maior”, da Casa e Quinta de S. Cibrão. Diz-nos ainda que a freguesia tem 209 fogos.
O pároco memorialista da freguesia de Penso refere-se, ainda em 1758, ao lado de “pescarias livres e dízimas a Deus que os donos usam sem foro algum e se pagam tão só as dízimas a Deus”, outras de “vários donos e senhorios que pagam foros de peixe, especialmente aos religiosos de Santo Agostinho do Mosteiro de Paderne e aos religiosos de S. Bernardo do mosteiro de Fiães”.
O padre de Penso já em 1758 nos fala da chamada “Fonte Santa”, que seria rica em enxofre e teria “várias virtudes especialmente para” doença do fígado, lepra, tratamento de feridas e aumentaria o apetite de comer “se tiver fastio”, trataria também a dita água das doenças de “umores quentes”.
Em 1876, no livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, a freguesia de Penso é assim descrita: “PENSO—freguezia, Minho, comarca e concelho de Melgaço (foi da comarca de Monção, extinto concelho de Valladares) 65 kilometros a Nordeste de Braga, 425 ao Norte de Lisboa. Tem 255 fogos. Em 1757, tinha 209 fogos. Orago, S. Thiago, apostólo. O prior dos cónegos regrantes de Santo Agostinho (crúzios) de Paderne, apresentava o vigário, que tinha 130 000 réis de rendimento. O mosteiro vendeu isto aos Caldas, de Badim, que, desde então até 1834, ficaram com o padroado d'esta igreja passando os seus vigários a denominarem-se reitores.
É n'esta freguezia a quinta de S. Cybrão, do sr. Philippe d' Araújo Caldas. Segundo a tradição, no sitio onde está a capella d'esta quinta, houve um templo romano dedicado a Júpiter. Supõe-se que a existência do tal templo, foi uma fábula inventada para enobrecer esta propriedade; que, mesmo sem aquela circunstância, é notável, pela antiguidade e nobreza dos seus proprietários; e também por que produz óptimo vinho. É terra fértil, gado, peixe do rio Minho (que lhe passa próximo, ao norte) e caça.”
A referência à Quinta de S. Cibrão é uma constante em alguma literatura e outros documentos desde o século XVII o que atesta a extrema importância da quinta e dos senhores da mesma na região. A mesma volta a ser citada no livro “O Minho Pittoresco” de 1886. O autor escreve na sua chegada a Penso: O carro segue sempre e aqui nos fica à esquerda a freguezia de PENSO, uma villota em miniatura, antiga vigararia do mosteiro de Paderne e depois da casa dos Caldas, de Badim, por compra que fizeram ao mosteiro.
Na quinta de S. Cibrão (Cypriano) é tradição que existiu um antigo templo gentilico, dedicado a Júpiter, no ponto onde está hoje a capela. Há quem diga, porém, que essa tradição foi inventada apenas com o fim de enobrecer a quinta, já de si notável pela familia que a possuiu e pelo bom vinho que produz. Em Penso existe ainda a capela de Santa Comba, cuja festa é pelo mez de julho, e junto da estrada, à nossa esquerda, está a capelinha de S. Bartholomeu, cuja festa se faz em 24 de agosto.
Sobranceira a essa capelinha fica um templosinho modesto, mas da religião do mais largo ideal— a instrução do povo. Um bando de rapazes, rodeando o professor, entrava na escola, no momento em que nós passávamos. E foi gratíssima, devemos confessa-lo, essa impressão ultima que em nós deixou a derradeira freguezia que percorríamos do concelho do Melgaço”...




Extraído de:


- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

sexta-feira, 8 de março de 2019

A freguesia de Parada do Monte (Melgaço) no tempo dos nossos antepassados




Parada do Monte é uma freguesia que pertence ao concelho de Melgaço há pouco mais de 150 anos. Pertenceu ao antigo concelho de Valadares, tendo estado anexada, juntamente com a Gave, a Riba de Mouro, de Monção. Com a extinção deste concelho, por decreto de 24 de Outubro de 1855, foi desmembrada desta última freguesia, passando a fazer parte de Melgaço. No censo da população de 1864, figura sob a designação de Parada. Segundo o entendimento do saudoso padre Aníbal Rodrigues, o seu topónimo deverá indicar a existência de uma antiga via romana e do sítio onde os viandantes, a pé ou a cavalo, costumavam descansar depois de uma longa e difícil caminhada.
Há mais de 300 anos, mais concretamente em 1706, o Padre Carvalho da Costa, no seu livro refere-se a Parada do Monte nos seguintes termos: “S. Mamede de Parada do Monte, Vigairaria da mesma apresentação, que rende ao todo quarenta mil reis, e para o Commendador sessenta e seis mil reis. Tem cento e cincoenta vizinhos. Aqui se faz o melhor burel de lã das ovelhas Gallegas de todo o mais Reyno, donde he muy procurado para cubertas de camas de lavradores, ou criados, e ainda de muitos nobres para as meterem entre os cobertores. He muy branco, grosso e macio”. O Padre Carvalho da Costa refere-se ainda ao antigo Couto de Val de Poldros, que atingia os limites territoriais da freguesia de Parada do Monte: Nestas montanhas, em em que há muita caça e veação, houve antigamente hum Couto, a q chamavam Val de Poldros, o qual fez, marcou e defendeu Payo Rodrigues de Araujo, de que possui parte seu sexto neto Manoel de Araújo de Caldas, Sargento-mor de Valladares, ainda que atenuado em parte das grandes regalias que tinha”.
Em meados do século XVIII, o pároco Francisco de Caldelas Bacelar de Parada do Monte refere, nas Memórias Paroquiais de 1758, que os frutos que os moradores recolhem em maior abundância é o milho grosso, vulgarmente chamado milho maiz”. Cultivava-se nas leiras que bordejavam as margens do Mouro e onde também cresciam as latadas pois o vinho (12 cabaços) entrava na composição da renda que a freguesia pagava ao pároco. Na serra rodeavam-se as brandas de “centeio, algum milho miúdo, e pouco linho e muita herva no Verão de que fazem os labradores feno para darem de Inverno aos gados”. Mais afirma o pároco que “a criação de gados que tem esta serra é no tempo do Verão trazerem nella os labradores os seus bois de noutte [noite] e de dia dois outros mezes e as bacas e bezerros andam também na serra de dia e à noutte vão procurá-los e recolhem-nos nos lugares das brandas e o mesmo fazem ao gado miúdo de cabras e ovelhas”.
O Pároco de parada do Monte, em 1758, também refere que o rio Mouro tem um “curso arrebattado em toda a sua distância desde o seu nascimento até botar fora dos limites desta freguezia, somente em hum sítio chamado Agras de Mouro corre quite hum tiro de mosquete’. Rio pouco Mais refere que ”somente no tempo de Verão alguns rapazes caçam nelle algumas trutas pouca e pequenas, mas gostozas”.
Segundo LEITE, A. & LEITE, M. (2009), tendo como base as Memórias Paroquiais e ainda pela análise das prestações entregues pelos foreiros e rendeiros aos monges de Fiães e Paderne (MARQUES, J., 1990) é possível reconstruir a composição da dieta alimentar das populações do interior montanhoso do Vale do Mouro. “A base da alimentação era fundamentalmente constituída por caldo de couves e feijões engrossado com farinha de milho à qual, por vezes, se seguia alguma carne de aves de criação, de porco (conservada nas salgadeiras) e em certas ocasiões a do cabrito ou a obtida pela caça nos montes onde abundava a perdiz, o javali e em menor número os corços, cuja carne ‘he como a de vittela” no dizer do pároco memorialista. O pescado raramente entrava nas ementas e limitavase às sardinhas de Caminha descarregadas na Lapela ou vindas de Arbo (Galiza) e vendidas em Melgaço pelas ‘sardinheiras’ (MARQUES. J., 2004). A lampreia, o sável e o salmão “pilhados” nas cabaceiras e botirões armados nas pesqueiras do Rio Minho eram quase exclusivamente consumidos pelas populações ribeirinhas ou pelos monges de Paderne e Fiães, detentores da propriedade de grande parte daquelas construções fixas para a pesca fluvial (LEITE, A., 1999). Recebiam o sal vindo de Caminha em barcos pello Minho acima, até á Lapella e depois em carros até o lugar de S. Gregório, aonde há armazéns, aos quaes se vem prover todos os povos do bispado d’ Orense” (VILLASBOAS, J., 1800).
Em 1758, Parada do Monte possuía cento e oitenta e nove vizinhos [agregados familiares] e quinhentas e vinte e duas pessoas entre grandes e pequenos”. Segundo o pároco, a igreja paroquial tinha três altares estando o da capela-mor dotado de uma tribuna. O seu pároco era apresentado pela reitoria matriz de São Pedro de Riba de Mouro e tinha uma “renda doze mil réis, doze fanegas de pão, doze cabaços de vinha e dois alqueires de trigo pera hóstias, que lhe paga o colhedor dos fruttos desta terra e tem mais de cada freguês cazado hum alqueire de pão e sendo veuvos [viúvos] meio e solteiros hum coarto”.
Na segunda metade do século XIX, a freguesia volta a ser citada em algumas obras de referência da época. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal, publicado em 1876, a mesma é chamada de PARADA e descrita como freguesia já não pertecente a Valadares mas à comarca e concelho de Melgaço, 65 kilometros ao norte de Braga, 430 ao norte de Lisboa. Tem 180 fogos [agregados familiares]. Em 1757, tinha 189 fogos. O orago é S. Mamede. Arcebispado de Braga, districto administrativo de Vianna. O reitor de S. Pedro de Riba de Mouro, apresentava o vigário, collado, que tinha de rendimento 130 000 réis.” O autor volta a elogiar a qualidade da lã aqui produzida, nestes termos “Ha n'esta freguezia muito gado lanígero, que produz excelente Ian.” Replica a informação relativa ao antigo Couto de Vale de Poldros: Em Valle de Poldras, limites d'esta parochia, houve um couto, que marcou e defendeu Paio Rodrigues de Araujo. Em 1720, era este couto possuído pelo 6º neto do dito Paio, Manuel d' Araujo Caldas, de Valladares mas tinha já perdido a maior parte dos seus antigos privilégios.” Por último refere que “dá-se a esta freguezia, para a distinguir das outras, o nome de Parada do Monte.
Poucos anos depois, em 1886, é publicado o livro “O Minho Pittoresco”, obra incontornável da época para esta região. Na publicação, diz-se que ”a egreja de PARADA DE MONTE fica um kilometro ao sul do Rio de Mouro e dista de Melgaço uns dez kilometros. Foi reitoria que o reitor de Riba de Mouro apresentava e pertencia ao extincto concelho de Válladares. A freguezia é montanhosa e especialmente se entrega à industria do gado ovino, sendo muito apreciada a sua lã para a fabricação dos buréis e cobertores”. (VIEIRA, J., 1886).



Fontes consultadas:
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- LEITE, Antero & LEITE, Maria Antónia Cardoso (2009) - Parada do Monte, História e Património. ACER;
- MARQUES, José (1990) – O Mosteiro de Fiães, Braga;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa;
- VILLASBOAS, Custódio Jozé Gomes de – Descripção Topographica das Commarcas Fronteiras da Província do Minho, 1800 (inserido em Fernando de Sousa e Jorge Fernandes Alves- ‘Alto Minho. População e Economia nos Finais de Setecentos, Editorial Presença, Lisboa, 1997.

sábado, 13 de setembro de 2014

Histórias de Fiães (Melgaço) de tempos passados

Interior da Igreja do Mosteiro de Fiães

Na obra "Portugal Antigo e Moderno", volume III, editado em 1874, Pinho Leal fala-nos como seria a freguesia na época e fala-nos de algumas estórias da terra:
"O clima d'esta freguesia é excessivo, e seu solo, apesar de abundante de águas, é em geral pouco fértil. Produz porém muito centeio, algum milho, pouco vinho, muita castanha e bastante fruta, em um estreito e profundo vale, que fica a este. Cria bastante gado, e os seus presuntos, curados sem sal, são os melhores da província.
Há aqui muita caça de varias espécies, principalmente no sitio das Ramalheiras, imensa floresta de carvalhos, urzes e giestas. Toda a freguesia está assente em terreno muito acidentado, e é vasto o seu território.
Tem montes quase a pique. Ainda li há poucos anos que em em 1841, perto do lugar de Portocarreiro, desabou um cabeço, ao longo de uns seiscentos metros, arrastando na sua queda grandes árvores e penedias, e destruindo uma aldeia, da qual morreram então 15 pessoas.
Esta avalanche monstruosa foi direita a uma capela na encosta, e quando todos se persuadiam que ela seria arrasada, aquela mole imensa se divide em duas, e se precipita pelos dois lados da ermida, ficando esta intacta.
Por muitas vezes se tem nesta freguesia dado deslocações idênticas, deixando sempre tristes consequências da sua passagem devastadora.
A 1500 metros ao sul do mosteiro, se está a majestosa e alta serra de Pernidelo, donde a vista se estende por um vastíssimo e formoso panorama. Ao sopé desta serra se estende na distancia de 6 a 7 Km's a verde e fértil veiga de Melgaço. O ribeiro de Várzeas divide aqui Portugal da província da Galiza.
Conta-se por aqui em Fiães que em 1861 foram devastadas as povoações gallegas de Padrenda, Monte Redondo e Gazgoa, por uma fera, que uns diziam ser lobo outros tigre, outros javali, etc. Dali passou a Portugal e encheu de terror as povoações de Castro Laboreiro, Fiães e outras, fazendo muitas vitimas. Só em um dia, matou duas crianças de 11 anos, em Castro Laboreiro, devorando uma e despedaçando outra. Não era raro encontrar aqui um braço, acolá uma perna, além um crânio, principalmente nas freguesias galegas.
Tudo andava horrorizado. Ninguém sabia de noite, e, mesmo de dia, só bem armado e nunca só. O povo, sempre propenso ao maravilhoso, ligou varias historias sobrenaturais a este acontecimento. Segundo uns, era a fera—um filho indigno, amaldiçoado pelos seus pais. Segundo outros, era um Caim que tinha assassinado um seu irmão. Outros pretendiam que era uma alma do outro mundo. Os mais espertos sustentavam que era um lobisomem e os mais sérios, teimavam que era, nem mais nem menos, o diabo em pessoa.
Combinaram-se todos os povos destes sítios para fazerem uma grande montaria ao animal feroz, qualquer que fosse a espécie a que pertencesse.
Reuniu-se grande numero de povo no terreiro da Capela de Alcobaça, limites de Fiães e Lamas de Mouro, e mais de 300 homens investiram na floresta das Ramalheiras. Não apareceu a fera, mas achou-se um rapaz, de 14 anos, horrorosamente ferido por ela, e salvo por umas vacas, que andava guardando, as quais se atiraram resolutamente ao animal feroz, e o fizeram fugir. O rapaz escapou. Esta fera apareceu nestes sítios por duas vezes, com intervalo de dois anos, demorando -se de cada uma alguns meses. 
Desapareceu sem se saber como, nem para onde. Também nunca se chegou a saber positivamente que espécie de animal era."

Extraído de:
- PINHO LEAL, Augusto Soares A. B. (1874) - Portugal Antigo e Moderno (Volume III). Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Lisboa.

domingo, 17 de agosto de 2014

Nos primórdios do Convento de Fiães

Igreja do Convento de Santa Maria de Fiães em 1918

O convento de Fiães é antiquíssimo. Diz-se que já existia no ano de 851, no tempo de D. Ramiro II de Leão e de sua mulher D. Paterna. Esta indicação ainda hoje gera discussão já que há autores que colocam a sua origem no século XII.
Consta que era o mosteiro mais rico das Hespanhas. Tinha foros e rendas no Minho, Trás-os-Montes e Galiza. Na igreja deste convento (como na de Alcobaça) havia Lausperene, no verdadeiro rigor da palavra, estando o santíssimo sacramento em exposição permanente, de dia e de noite.
Tinha regularmente 80 religiosos fora os conversos, minoristas, leigos, etc. Foram aqui sepultados alguns príncipes, três infantes e muitos fidalgos, portugueses e galegos que doaram rendas e propriedades ao convento. Também aqui foi sepultado Fernão Annes de Lima, pai do primeiro visconde de Vila Nova de Cerveira.
Era um edifício magnifíco que existiu mais de três séculos em grande prosperidade mas foi destruído por um pavoroso incêndio, onde arderam todos os papéis do cartório, incluindo todos os títulos das suas rendas reduzindo os frades à miséria, porque os foreiros subnegaram os seus títulos, recusando-se a pagar.
Afonso Paes e seus dois irmãos reedificaram o mosteiro dando-o aos religiosos de Alcobaça. Em 1154, mandaram pedir a Alcobaça um religioso de S. Bernardo (ordem de S. Bento reformada) para instruir os frades daqui que queriam adoptar o novo instituto. É por esta altura que o mosteiro adopta a regra de Cister.
Aqui perto, junto à raia fundaram uma aldeia a que chamaram Alcobaça em honra da vila capital da Ordem. Pagava este convento 40 000 réis à Capela Real e 25 000 réis ao Convento do Desterro em Lisboa. Julga-se, com fundamento, que este convento foi coutado do seu princípio pois já era couto no tempo do nosso primeiro rei que lhe confirmou o coutamento, assim como seu filho, D. Sancho I.
O abade de Fiães tinha jurisdição episcopal, metropolitana, com recurso somente para o pontífice. O provisor, nomeado pelo abade, recebia diretamente os breves apostólicos. O arcebispo de Braga não podia aqui fazer visitas, nem na Orada de Melgaço nem o bispo de Tui as podia fazer na Azoreira e em Lapela, por serem freguesias que, apesar de estarem dentro do se bispado, estavam dependentes deste mosteiro. Sendo abade D. João, deu a condessa D. Frouilla, em 1166, ao mosteiro de Fiães, as quintas da Orada e de Cavaleiros.
Ainda no fim do século XVI tinha este convento a apresentação de 20 abadias, entre as quais Lamas de Mouro, Cristoval, Chaviães, Santa Maria da Porta e Vilela bem como a igreja de Paderne, na Galiza. Tinha também na Galiza o couto de Freixomo, próximo de Allariz, que lhe doara Fernão Perez de Sandias, falecido neste mosteiro em 1386, além de outros coutos, fazendas, granjas e casas em diversos pontos da Galiza. 
Como se pode depreender, Fiães foi um mosteiro bastante rico, poderoso e próspero durante séculos especialmente na Idade Média.


Extraído de:
- PINHO LEAL, Augusto Soares A. B. (1874) - Portugal Antigo e Moderno (Volume III). Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Lisboa.



sexta-feira, 11 de julho de 2014

Castro Laboreiro em finais do século XIX

Castro Laboreiro na viragem para o século XX

Castro Laboreiro é terra de um clima extremo. Sente-se aí no Inverno um frio polar, e de Verão, um calor tropical. O padre Carvalho diz que o vinho chega ali a congelar naquela estação invernal.
O solo é sáfaro e desabrido. Nenhuns frutos produz mais do que centeio, nabos e batatas. Mas a providência, para compensar talvez os seus habitantes da falta de mais frutos, dotou-lhes estes com uma qualidade tão superlativa, que não sei se haverá melhores.
Abunda o gado vacum e lanígero. O primeiro de má qualidade, pela incúria dos seus habitantes em aperfeiçoar a raça mas o segundo goza de reputação do melhor de Portugal, o que decerto é devido às excelentes pastagens que aqui se criam no Verão.
A terra é absolutamente desprovida de árvores, se bem que o autor da Chorographia Portugueza (Carvalho) lhe dê alguns poucos e pequenos carvalhos, e pouco milho miúdo, coisas que nunca lá viram, a não ser que as levassem de fora, à excepção dos primeiros que alguns tem em raríssimos sítios, mas muito enfezados. Estes mesmos não passam de poucos palmos de altura. A árvore indigna é o piorno e a urze.
A freguesia é a mais extensa e dilatada em área que se conhece, pois até há pouco ela só formava um concelho, sendo depois anexada à comarca e concelho de Melgaço.
É cercada de elevadíssimas serras, que desde a sua base atá ao topo estão eriçadas de penhascos, de um aspeto rude e selvagem que se desenham nas nuvens com mil formas caprichosas e fantásticas.
É abundante a caça de todo o género. Criam-se aqui mastins de uma corpolência e vigor extraordinários. Qualquer um deles, é capaz de matar um lobo.
Há uma emigração espantosa pois desde que entra o mês de Setembro tudo o que é homem de idade de oito anos para cima, estando em circunstâncias de se arrastar, lá marcha para o Douro, Trás-os-Montes, Beira Alta e outras partes, não recolhendo senão na Páscoa, que é o termo fatal em que hão-de aparecer por força.
Fica a terra tão despovoada de homens, que os cadáveres são conduzidos para a igreja pelas mulheres, havendo antes disso, em casa dos doridos, grande comesana para todas as pessoas que quiserem aproveitarem-se dela, o que todos da melhor vontade fazem, e às vezes em número e muitas dezenas, mas que ninguém estranha por ser uso da terra.
Diante do cortejo (que é como vimos, conduzido por mulheres) segue uma comitiva delas, umas com broas de pão, outras com açafates de bacalhau e outras coisas, à cabeça, tudo para a igreja, e que lá é entregue ao pároco.
Quem encontrasse um costume destes e não conhecesse a tradição da terra, teria que se persuadir que esta pobre mas boa gente estava embebida na crença de alguns, que estão convencidos que os cadáveres comem debaixo da terra, recebendo por essa ocasião muitos presente.
Ao ofício da sepultura, assistem quantas pessoas aí estiverem de todas as idades e de ambos os sexos, cada qual com uma vela na mão, arrancando gemidos uns, soluços outros, mas todos manifestando uma dor e mágoa tão profundas que não se poderiam fingir.
A igreja é boa, para aquela terra. A chamada vila é uma pequena e pobre povoação, cujas casas, assim como as de toda a freguesia, são cobertas de colmo e se alguma tem telhas, ainda assim, não dispensam o colmo por baixo.
No trato, em geral, a gente ressente-se da dureza da terra, advertindo que é muito obsequiadora e hospitaleira para com os estranhos. Não obstante a inquestionável aspereza desta paragem selvática, têm saído daqui estudantes muito distintos, e que tem sido laureados em diversas faculdades, o que vem contrariar a opinião dos que dizem que as comidas delicadas e as terras mimosas concorrem para o talento.


Informações extraídas de: 
- PINHO LEAL, Augusto Soares A. B. (1874) - Portugal Antigo e Moderno (Volume II). Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Lisboa.