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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A freguesia de Cubalhão (Melgaço) no tempo dos nossos antepassados




A freguesia de Nossa Senhora da Natividade de Cubalhão tem origem antiga e foi curato da apresentação anual dos cónegos regrantes do Mosteiro do Divino Salvador de Paderne. No séc. XIII, Cubalhão não aparece referenciada como freguesia.
Em 1567, Cubalhão foi elevada a paróquia dependente de Paderne por D. Frei Bartolomeu dos Mártires. A este propósito, no livro “Santuário Mariano”, publicado em 1712, refere-se que “Pelos tempos adiante, indo visitar aquelas igrejas o Venerável Arcebispo de Braga Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, visitando a Ermida da Senhora [da Natividade], a erigiu em paróquia, compadecido do trabalho que tinham aqueles moradores em ir ouvir missa ao Mosteiro de Paderne. Porque com a manifestação da Senhora se havia povoado muito aquele lugar e sítio de Cubalhão. Também nomeou o mesmo arcebispo a Senhora Padroeira do lugar, com o título de Nossa Senhora da Natividade e mandou que aos 8 de Setembro se lhe fizesse a sua festividade.” (…)
No mesmo livro, fala-se de uma lenda antiga e menciona que “é tradição constante, contínua e muito antiga naquela freguesia, que em tempos antigos, no lugar onde se vê edificada a sua igreja, eram campos e pastos dos gados de um lavrador do mesmo Couto de Paderne que, andando naqueles campos pastoreando o gado um seu filho pequeno, dissera este ao seu pai que lhe aparecera uma Senhora muito fermosa. Com esta notícia, foram ao mesmo lugar examinar o que o rapaz pastorinho referia e que nele acharam uma imagem de Nossa Senhora de pedra, com o Menino Deus encostado ao peito esquerdo e que a imagem da Senhora não tinha braços. E que no mesmo lugar se lhe edificara Casa”.
No início do século XVIII, a freguesia de Cubalhão é citada no livro “Corografia Portugueza” do Padre Carvalho da Costa e publicado em 1706 nestes termos: Nossa Senhora de Cubalhão, Curato do mesmo Mosteiro, rende trinta mil réis, e para os Frades [do mosteiro de Paderne] sessenta mil réis. tem oitenta vizinhos. Esta Imagem de Nossa Senhora he de pedra, e muy milagrosa. Ha aqui hum tio, a que chamam o Castro, que mostra ser fortificação antiga dos Romanos. (Carvalho da costa)
Um importante documento que nos dá um retrato de Cubalhão em meados do século XVIII é o das Memórias Paroquiais. Em 1758, a 23 Maio, segundo o cura Manuel Gonçalves nas Memórias Paroquiais, a freguesia pertencia ao couto de Paderne, termo de Valadares, comarca de Valença, Arcebispado de Braga, sendo terra do Infante D. Pedro. A freguesia tinha “121 vizinhos, 49 casados, 52 viúvos e solteiros e 357 pessoas de sacramento”. Confiando nestes dados, notamos que houve significativo aumento da sua população entre o início deste século e meados da mesma centúria.
Em 1758, o pároco desta freguesia escreveu que a igreja de Santa Maria de Cubalhão, com orago de Nossa Senhora da Natividade, ficava no meio do lugar, tinha naquela época, três altares, o altar-mor e dois colaterais, um de Santo António e outro de São Sebastião. O pároco era cura anual, apresentado pelos padres de Paderne e tinha de ordenado 8$000. A freguesia estava sujeita à justiça cível do couto de Paderne e o crime à vila de Valadares e também ao ouvidor de Valença. Não tinha correio, servindo-se do de Monção. O pároco menciona ainda que na época “frutos desta terra he centeio e milho pequeno e milho grosso e linho e feijão”. Refere ainda que esta freguesia na época estava “poboada de tojos e carquejas”, acrescentando que “nesta serra anda gado vacum e obelhas e cabras e cria perdizes e coelhos e algumas corsas, lobos e raposas e jabalis”. O pároco refere-se ao clima em terras de Cubalhão e menciona que “he no Verão quente e no inberno muito fria por causa dos temporais e neves que nella permanecem quinze dias e mais”.
Relativamente ao rio Mouro que cruza a freguesia, o pároco refere que “nasce na Portella do Lagarto, freguezia de Lamas de Mouro e nasce por várias fontes.” Ainda em relação a este curso de água, refere-se que “todo corre fragoso e corre todo o ano”, sendo que nas suas margens, na época, “todo he “todo he silvestre de arboredo, urzes e silvas, só o lugar de Além e Cortelhas que dá milho grande e delle tiram prezas para muinhos e campos”.
Em termos administrativos, Cubalhão pertenceu à comarca de Monção e concelho de Valadares até 1855. Neste ano, pelo Decreto de 24 de Outubro, este concelho foi suprimido, passando só nesta altura a integrar o de Melgaço.
Ainda no século XIX, a freguesia de Cubalhão é citada no livro “O Minho Pittoresco” onde lhe é dedicado um parágrafo e nele podemos ler: “Tomando a estrada antiga que de Castro Laboreiro seguia para esta villa sobre a margem direita do rio de Mouro, mas já em plena serra, encontra-se na confluência d'essa estrada com a que segue para Melgaço, CUBALHÃO, que outrora pertenceu também ao concelho de Valladares e foi curato do mosteiro de Paderne, recebendo o cura apenas os benesses.
No sitio do Crasto encontram-se vestígios de fortificação antiga, que, por não estudados ainda,não se sabe a que época atribui-los, sendo porém provável que sejam mais um marco da civilização romana na península. A freguezia é apenas fértil em centeio.”
Atualmente, a freguesia de Cubalhão encontra-se unida à de Parada do Monte.



Informações extraídas de:
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A lenda da Nossa Senhora da Natividade de Cubalhão (Melgaço)

Igreja Paroquial de Cubalhão (Melgaço)
Um livro publicado há 300 anos, conta-nos uma lenda que nos fala no misterioso aparecimento da imagem da Nossa Senhora da Natividade em Cubalhão, quando um menino pastor andava com o gado num pasto. Ora leia esta estória: “Uma légua distante para a parte do sul do Mosteiro de S. Salvador de Paderne, e quase duas léguas e meia da Praça de Melgaço, no termo de Valadares, e a algumas doze da cidade de Braga, se vê o Santuário e Casa de Nossa Senhora da Natividade de Cubalhão, nome do lugar, ou aldeia que deu também à Senhora o título. É esta Igreja Curata e Paróquia do mesmo lugar, cujos dízimos pertencem ao Convento de Paderne, que é dos Cónegos Regulares que guardam a regra de Santo Agostinho e é anexa ao seu Convento. Chama-se Paderne por memória da sua fundadora, a Condessa Dona Paterna.
 Neste Santuário de Cubalhão, que fica dentro do mesmo Couto de Paderne, se vê colocada no seu altar-mor, a milagrosa imagem de Nossa Senhora que é formada em pedra e de perfeitíssima escultura, mas para maior veneração a adornaram com vestidos. A sua estatura são quatro palmos. Antigamente, obrava muitos milagres e prodígios o omnipotente Senhor pela invocação por intercessão de sua Santíssima Mãe. Mas já hoje a devoção para com esta Senhora é muito fria, por se haverem suspendido de algum modo as suas maravilhas, de que seria, sem dúvida a causa, a ingratidão daqueles mesmos, por quem a Senhora as obrava.
Quanto à sua origem e princípios, são todos prodigiosos. É tradição constante, contínua e muito antiga naquela freguesia, que em tempos antigos, no lugar onde se vê edificada a sua igreja, eram campos e pastos dos gados de um lavrador do mesmo Couto de Paderne que, andando naqueles campos pastoreando o gado um seu filho pequeno, dissera este ao seu pai que lhe aparecera uma Senhora muito fermosa. Com esta notícia, foram ao mesmo lugar examinar o que o rapaz pastorinho referia e que nele acharam uma imagem de Nossa Senhora de pedra, com o Menino Deus encostado ao peito esquerdo e que a imagem da Senhora não tinha braços. E que no mesmo lugar se lhe edificara Casa. Bem poderá ser que a levaram daquele lugar para a igreja principal da paróquia e que a Senhora voltasse a repetir o primeiro lugar da sua manifestação e que teimando (digamos assim) em a levar, quebrando-se por desatento dos que procuravam a mudança, os braços. Com estes finais de que era vontade sua e venerada naquele lugar de Cubalhão, se lhe daria princípio à sua Casa. Alguns crêem que no tempo dos Godos, fugindo os Cristãos à fúria dos Mouros, para que estes não fizessem à Senhora alguma injúria ou irreverência, a esconderam ali em alguma lapa e que nesta diligência com o temor de poder cair a imagem das mãos dos que a traziam, por ser muito pesada, e então terá sucedido que a terão maltratado, quebrando-lhe os braços. Deste lugar onde estava oculta a tiraram os anjos e a terão posto em parte onde fosse vista, louvada e venerada por todos. Não faz dúvida que a manifestação seria prodigiosa e que logo a Senhora começaria a obrar muitas maravilhas e seriam naquele tempo muitos os prodígios e a sua Casa muito frequentada.
Pelos tempos adiante, indo visitar aquelas igrejas o Venerável Arcebispo de Braga Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, visitando a Ermida da Senhora, a erigiu em paróquia, compadecido do trabalho que tinham aqueles moradores em ir ouvir missa ao Mosteiro de Paderne. Porque com a manifestação da Senhora se havia povoado muito aquele lugar e sítio de Cubalhão. Também nomeou o mesmo arcebispo a Senhora Padroeira do lugar, com o título de Nossa Senhora da Natividade e mandou que aos 8 de Setembro se lhe fizesse a sua festividade, e neste dia é muito grande o concurso (a afluência de pessoas) .
Mandaram os devotos da Senhora, concertar-lhe muito bem aquela falta e por-lhe uns braços de madeira. Logo, começaram a compor com roupas e vestidos que nunca se lhes ajustaram bem, visto ter o Menino Jesus encostado ao peito. É advogada das mulheres que padecem de falta de leite para  haverem de criar os seus caros filhinhos, as quais a vão visitar ou lhe mandam alguma oferta, que será alguma bilha de leite pedindo-lhe que se compadeça dos inocentes filhos. Com esta diligência, logo têm leite em abundância para os criar. Esta devoção se estendeu tanto, que de muitos lugares de Castela e Galiza, vinham a implorar a favor de Nossa Senhora da Natividade de Cubalhão, e com tanta fé o fazem ainda hoje, que conseguem logo o que pretendem.”


Extraído de: SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.