sábado, 10 de outubro de 2015

Pelos caminhos de Roussas, em finais do séc. XIX

Igreja de Roussas (Melgaço)
(Fonte: coxo-melgaco.blogspot.com)

Em finais do século XIX, José Augusto Vieira, autor da obra "O Minho PIttoresco", percorreu os caminhos de Melgaço e perpetuou as sua impressões neste livro. Andou pelos caminhos da freguesia de Roussas e deixou-nos estas palavras que aqui transcrevo: 
"Eram meus companheiros de excursão João de Almeida, o artista que ilustra o maior número das páginas deste livro e Abel Seixas, aspirante da alfândega de Viana, então licenciado e conhecedor prático da localidade, porque na delegação de Melgaço havia feito serviço.
O guia, calçado com os grossos tamancos, cujo specimen se encontra na gravura de texto, ia secundado por um valente rapazito, que teve a audácia de aguentar a pé a ida e a volta, para se não separar do cavalito rinchão que nos havia alugado.

Tamancos da época (Melgaço, 1886)

O dia, não obstante estarmos em pleno verão, apresentara-se um pouco fresco, o que nos animava à longa caminhada através das aspereza da serra.
— Três léguas,— nos dizia o guia, que tínhamos a percorrer, mas se tu sabes, leitor, o que são as antigas léguas da província, podes bem calcular, que teríamos pelo menos na nossa frente uma distancia de 25 kilómetros por detestáveis veredas!
A ascensão principia logo ao sair de Melgaço, amenizada na encosta pela frescura viçosa do arvoredo, árida e fatigante depois que se está em plena serra. Atravessamos o pitoresco lugar de Cavaleiros, onde existe a capela da Senhora das Dores, cuja festa se realiza em setembro, e que domina um pequeno mas formoso vale, e assim vamos caminhando, levando à esquerda a montanha, e à direita os pequenos tabuleiros arrelvados, que descem até ao regato de Souto dos Loiros, sobre cujas margens se levantam frondosos soutos de castanheiros. Passamos em Cabana e vemos na baixa as pastagens de Lobiô, dum verde esmeralda macio e tenro.
Estes lugares pertencem a ROUSSAS, cuja paroquial igreja nos fica à direita. Roussas era padroado da antiga casa do Paço de Roussas e no lugar — chamado do Paço — se vêem ainda as ruínas do antiquíssimo edifício, em parte ainda hoje habitado. Este padroado passou depois para Manuel Pereira (o mil-homens) de Monção e o solar para os Castros de Melgaço, e mais tarde para os arcebispos de Braga.
O território da freguesia abrange 7 Kms de comprido por 5 Kms de largo, estendendo-se desde a encosta oeste da serra de Pernidelo até junto das muralhas de Melgaço, cujas primeiras casas lhe pertencem. Os seus vales são fertilíssimos e é precioso o seu vinho verde de Barreiras e Vale de Cavaleiros, em nada inferior ao de Monção. Nesta freguesia e sobranceira à vila, está a grande quinta, que foi do mosteiro de Fiães e que é uma belíssima vivenda.
A igreja matriz é uma das mais amplas do distrito, tem altar-mor e quatro laterais, sendo as imagens de boa escultura, especialmente a da Senhora da Soledade, de tamanho quase natural e oferecida à freguesia pela benemérita família Salgado, aqui residente. A torre é bastante elevada, com dois sinos. No coro, de espaço regular, existe um pequeno órgão.
Por uma inscrição em lápide existente na parede exterior da capela-mor se vê, que o templo foi fundado em 1690 pelo abade Braz d'Andrade Gama. O sítio é formoso, os horizontes largos, e na festa da padroeira, a 18 de julho, a romaria, concorridíssima de gente dos arredores e da Galiza, que à santa vem trazer grande número de ofertas para que os preserve de sezões, espalha-se alegremente pelo vasto terreiro ao sul da igreja, assombreado por castanheiros gigantes.
Além da capela que já mencionámos, Roussas tem ainda as seguintes: Santa Rita, em Vilela, com missa aos domingos e dias santificados. É publica. Nossa Senhora da Conceição, no Coto do Preto.Tem uma bem esculpida pedra d'armas sobre a porta principal. É particular. Santo António, no lugar da Corga, particular. João Baptista, no lugar do Fêxo, idem. Nossa Senhora da Graça, a poucos metros da antecedente é a melhor de todas, tanto pela sua posição eminente à vila,como pela magnifica pedra de cantaria de que é construída. Do monte, em que ela assenta, sai todo o granito para as construções dos arredores.
A ermida foi fundada em 1594 pelo abade Tristão de Castro em cumprimento d'um voto, cuja lenda é análoga à de D. Fuus Roupinho, pois há para assustar o cavaleiro e o cavalo um fantasma monstruoso, que faz desatinadamente correr o animal por soutos e ravinas, com grave risco da integridade anatómica do padre.

Serra acima, o horizonte é encantador para os lados de Melgaço e Galiza, e como que á vol d'oiseau se dominam as encostas e pequenos vales, onde os campanários destacam as suas agulhas brancas. O Minho corre em baixo, como serpente em voltas sinuosas. Para o norte, as serras de Galiza vão-se indistintamente fundindo no índigo esfumado da atmosfera. Dobramos a montanha, o horizonte largo desaparece e logo na encosta Vila de Conde, lugarejo pertencente a FIÃES, principia a dar o toque de melancolia às nossas impressões, até aí cheias do verde-claro da vegetação, dos sussurros da agua, do espelhar dos rios, do pitoresco das aldeias. Parece que entramos numa região inóspita e selvagem..."



Extraído de: 
VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

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