sábado, 14 de março de 2015

Viagem a Castro Laboreiro (1935) do Dr. Manuel Marques, autor do 1º estalão da Raça do Cão de Castro Laboreiro

Em Castro Laboreiro
(Foto de Ramón Dominguez Blanco)

O professor Manuel Marques, autor do 1º estalão da raça do Cão de Castro Laboreiro, conta-nos a viagem que fez, em 1935, até terras castrejas e deixa-nos as suas impressões sobre várias localidade melgacenses por onde passou no seu percurso de Melgaço até Castro Laboreiro.
No seu trabalho acerca do estalão da raça, lemos que: "O cão de Castro Laboreiro é uma das raças caninas mais interessantes mas pouco representada fora da sua origem, pelo que se vêem raros exemplares no centro do país e raríssimos no sul onde é quase desconhecida.
É uma raça onde se encontram formosos tipos de cães não só pela policromia da pelagem , como ainda pelo recorte da silhueta airosa que apresentam.
À semelhança do que fizemos para o Cão da Serra da Estrela, impunha-se o estudo da raça na região  minhota onde tem o seu habitat natural, de maneira a formarmos um juízo, tão perfeito quanto possível, dos caracteres étnicos, e dos serviços que presta como cão de utilidade que é.
Necessário se tornava, portanto, dispormos-nos a fazer a viagem que não é, positivamente, tão fácil nem deleitosa como muitos poderão supor.
Posto ao facto das vicissitudes porque íamos passar, graças aos pormenorizados esclarecimentos prestados por um antigo soldado da Guarda Fiscal, profundo conhecedor da região, e amavelmente cedido pelo comandante do Posto de Melgaço a fim de me  servir de companhia e mentor, combinamos a partida. E numa manhã brumosa, pelas 7 horas, metemos a caminho de Castro Laboreiro esperançados em que o tempo levantasse e então pudéssemos observar o vasto e o lindíssimo panorama que a subida para a montanha nos proporcionava. De facto, após uns borraceiros, as nuvens dissiparam-se e o sol apareceu radiante envolvendo a terra num esplendor de luz.
Melgaço já nos ficava para trás à distância de alguns quilómetros. Tínhamos passado Vila do Conde e estávamos chegados a Fiães.
Uma curta paragem para descanso das alimárias, foi aproveitada para vermos os restos do convento, um dos mais antigos do Alto Minho, e a igreja construída em estilo gótico, digna de admiração, pois está ainda menos mal conservada. Pena é que não a tenham restaurada como fizeram à torre, que está nova. Tinha-se desmoronado com o tempo, reconstruíram-na de 1922 a 1933.
Ora outra vez em marcha, atingimos o Outeiro da Loba, coroado de altas penedias, circundado de vastas bastezas, dando-nos a impressão de estarmos em plena selva africana. Árvores à poucas, e essas mesmas raquíticas, mas entre os matões, os piornais crescem frondosos e gigantescos.
A caça abunda, graças às defesas naturais que a protegem. É frequente o encontro do lobo em pleno dia. Passámos Alcobaça em direção à Portelinha, postos da Guarda Fiscal e pequenos povoados onde abeberámos as montadas. Prosseguindo, cautelosamente, chegamos a Castro Laboreiro já meio dia era dado. Isto é, cinco longas horas a dorso de quadrúpede, por sinuosos e quase intransitáveis caminhos que, na maior parte, mais parecem córregos.
Esta morosidade da viagem, que chega a ser fatigante, é devida à não existência de estradas entre as povoações montanhesas, de forma que o percurso só é suscetível de se fazer a pé ou montando animais habituados ao trilho da serra, quase sempre garranos ou agarranados, e através de densos matagais, de extensas penedias, de montanhosos cerros, cheios de precipícios difíceis de transpor, em que um simples escorregão pode ser fatal.
Isto nos leva a crer que a maioria das pessoas que falam de Castro Laboreiro, só dele tem conhecimento por tradição ou leitura.
Sem pretensões a descabida jactância, julgamos ser necessário a quem lá queira ir, um bom estado de espírito, algumas aptidões para cavaleiro e, acima de tudo, uma firme vontade de chegar, para que as desistências em curso não sejam um facto. Tais são as dificuldades que surgem no trajeto, algumas das quais obrigarão os menos corajosos a desmontarem-se e transporem a pé as passagens mais difícies.
Castro Laboreiro é uma povoação antiquíssima, que se encontra a quase duas dezenas de quilómetros da vila de Melgaço. Está situada do lado norte da serra da Peneda – a poucos kilómetros do santuário que existe em plena montanha, a Nossa Senhora da Peneda, de grande devoção no Alto Minho – sobre afloramentos de granito, por onde serpenteia um afluente do Lima que figura no mpa com a designação de Castro Laboreiro, mas chamado pelos castrejos de rio Fragoso por deslizar por entre extensas fragas.
A vila de Castro Laboreiro, assim conhecida desde antanho e mais designada pelo naturais por “Crasto”, é uma pequena aldeia compreendida na zona raiana, que tinha ao sul um castelo de origem mourisca ou talvez romana, construído sobre um aglomerado penhascoso, alto e abrupto, de dificílimo acesso, cujos vestígios ainda hoje existem.
Constuída por um reduzido número de casas, de aspecto miserável na quase totalidade, tendo a sobressair a igreja local com a sua torre sineira, construída em 1775. Perdida no meio de serranias e com elas se confundindo pelo pardacento do casario, assemelha-se-nos quase impossível se não houver um guia de confiança que, até lá, vá indicando o caminho.
Eis, de uma maneira muito perfunctória, onde se encontra e o que é, a terra donde provêm o nome da raça de cães que vamos tratar.
Impropriamente chamado também de Cão do Soajo, o Cão de Castro Laboreiro encontra-se no extremo da província do Minho, que fica a nordeste, habitando parte do maciço montanhoso galaico-duriense que vai da Peneda ao Soajo, entre os rios Minho e Lima, a altitudes variáveis, mas não chegando a atingir 1400 metros.

Tem os seu solar na região de Castro Laboreiro, mas a área de dispersão é grande. Encontra-se em quase todos os pontos habitados daquelas vastas serranias. Não é em Castro Laboreiro que, atualmente, se encontram bons cães. Os lugares dos Portos, Ameijoeira, Padrosouro e Curveira, além doutros, tem-nos melhores, sobretudo o primeiro."

Exemplar do Cão de Castro Laboreiro fotografado em 1935



Extraído de:
- MARQUES, Manuel F. (1935) - O Cão de Castro Laboreiro - Estalão da Raça. Subsídios para o estudo das raças caninas nacionais. in: Separata do nº 272 da Revista de Medicina Veterinária, Lisboa.

sábado, 7 de março de 2015

O antigo asilo da Quinta de Eiró (Melgaço)


O edifício do antigo asilo da Quinta do Eiró

Este edifício terá sido construído por volta de 1872 conforme a data inscrita em cartela na escadaria da fachada sul. O mesmo era propriedade de Dona Maria Pia Pereira de Sousa, da ilustre Casa de Galvão, que, no estado de viúva de Francisco Pereira de Sousa, por escritura de 6 de Agosto de 1919, fez doação à Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, com reserva de usufruto vitalício, deste edifício e dos terrenos da Quinta de Eiró, situados neste lugar dos arredores da vila de Melgaço. 
Na dita escritura de doação pode ler-se: ”Ela, doadora, faz esta doação para o fim altruísta de iniciação e base de uma obra de caridade, como preito de admiração e da sua maior homenagem pelo caráter austero de seus falecidos marido e cunhado, Francisco Pereira de Sousa e Dr. António Pereira de Sousa, que nesta linda e acolhedora terra de Melgaço viveram por longo tempo e que como sua adoptaram com afincada dedicação, como contador de Juízo e Médico Municipal, não podendo e não sabendo como melhor enaltecer-lhes as sua lídimas qualidades de coração e como que interpretando-lhes o seu sentimento caritativo, que possuem e exerciam com piedade, sendo esta doação feita com o fim de nos bens doados, se estabelecer um asilo de inválidos com as condições que seguem: este asilo denominar-se-á Pereira de Sousa e será destinado ou terá por fim receber e sustentar os inválidos de ambos os sexos, absolutamente indigentes, moradores nesta vila de Melgaço. Na falta de indigentes naquelas condições, serão admitidos, em igualdade de circunstâncias, os das freguesias do concelho preferindo os das mais próximas”. 
D. Maria Pia Pereira de Castro e Sousa viria a falecer em 24 de novembro de 1935 e como o estipulado na doação, nessa data, passaram os bens citados para a administração da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço. 
Dando cumprimento às vontades expressas na doação por D. Maria de Castro e Sousa, o asilo Pereira de Sousa viria a ser inaugurado em 20 de Setembro de 1936. 
Na ata da inauguração lemos: 
“Aos vinte dias do mês de Setembro de mil novecentos e trinta e seis, pelas dezasseis horas, no sitio de Eiró, extramuros desta vila de Melgaço, achando-se presente o provedor da Santa Casa da Misericórdia desta mesma vila, cidadão Duarte Augusto de Magalhães, comigo, José Maria Pereira, secretário, aí foram também presentes o Excelentíssimo Governador Civil, substituto, deste distrito, doutor João da Rocha Páris, doutor João de Barros Durães, na qualidade de Presidente da Câmara e Administrador deste concelho, doutor Victoriano da Glória Ribeiro Figueiredo e Castro, médico do Hospital, doutores Cândido Augusto da Rocha e Sá e Sérgio da Silva Saavedra, facultativos municipais, José de Sousa Lobato, professor e representante da Câmara Municipal e muitas outras pessoas, que devido ao seu grande número não podem ser mencionadas, procedendo-se assim à abertura solene deste Asilo, como previamente havia sido anunciado. 
Assim reunidos, pelo provedor foi dito, entre outras cousas que: 
- Agradecia a comparência do Excelentíssimo Governador Civil deste Distrito, que sempre se tem interessado por todos os assuntos, quer de ordem moral quer de ordem material, ocorridos e a tratar dentro da área da sua jurisdição, bem como ao Excelentíssimo Administrador deste concelho [sic] e a todos os outros assistentes. 
Nos encontrávamos numa casa modesta e pobre, para a sua inauguração em instituto de caridade e beneficência que, pelo seu significado, representa uma obra de grande alcance social e de reconhecido interesse regional. Que as pequenas iniciativas, com o decorrer do tempo, se podem converter em grandes empreendimentos. Dois prestantes cidadãos que, não sendo filhos desta terra, a ela muito se dedicaram, e pelos bons exemplos do seu digno procedimento, inspiraram nos seus sucessores o ardente desejo de perpetuar os seus nomes, com uma obra de caridade e beneficência na terra onde sempre foram respeitados e amados. 
Refiro-me aos senhores doutor António Pereira de Sousa, que exerceu o cargo de médico municipal neste concelho, e a seu irmão, Francisco Pereira de Sousa, que nesta comarca exerceu o seu cargo de funcionário judicial, ambos de saudosa memória. 
O último contraiu matrimónio com a excelentíssima senhora dona Maria Pia de Castro, desta vila de Melgaço. Esta nobre senhora, herdeira por falecimento de seu marido dos bens que lhe advieram por parte deste e seu referido irmão, quis ligar os nomes dos dois à sucessão dos seus bens e, para isso fez doação deles à Santa Casa da Misericórdia desta vila de Melgaço, destinando esta casa a um asilo para velhos necessitados, e consignando o rendimento dos restantes à sustentação do mesmo Asilo. Nobre exemplo de isenção, generosidade e altruísmo que torna venerável a memória daquela nobre e ilustre senhora. 
O seu gesto constitui mais um pergaminho de honra a acrescentar a tantos outros que muito nobilitam os atuais representantes do aristocrático Solar de Galvão e muito engrandecem a memória dos já falecidos membros de tão distinta família. 
É grande o fim desta instituição, e como os seus recursos são pequenos, cumpre aos vivos seguir o exemplo que os mortos nos deram. É esta a esperança que nos anima. A vida desta casa fica dependente da assistência pública e da assistência particular. Dominados pelo sentimento altruísta dos seus instituidores, empregaremos os nossos esforços para que nem uma nem outra lhe faltem. 
Posso já mencionar que algumas almas generosas têm concorrido para a sustentação e amparo dos velhinhos aqui recolhidos. O fim é altamente humanitário. 
Fica inaugurado o Asilo “Pereira de Sousa”. Que ele mereça a proteção de Deus para que lhe não possa faltar a protecção dos homens. 
Em seguida fez uso da palavra o senhor José de Sousa Lobato, que enalteceu as grandes qualidades dos doadores, e fazendo ver as vantagens de todos, os que possam, auxiliarem nas suas posses esta grande instituição. 
Findo o acto da abertura deste Asilo, foi este visitado por grande número de pessoas deste concelho e doutros limítrofes (...) ”. 
Apesar de inaugurado o asilo, os idosos continuaram nas duas salas do primeiro piso do hospital, devido às dificuldades financeiras, aproveitando-se assim o pessoal do serviço hospitalar para cuidar dos idosos. 
Também por esta época, formou-se em Melgaço uma Liga de Senhoras, constituída pelas mais ilustres da terra, para auxiliar na angariação de fundos para as obras sociais da Misericórdia. Em finais de 1949, a Misericórdia realiza obras na casa para transferir os idosos, contudo eles ainda permaneceram no hospital e só mais tarde seriam transferidos. 
Em 1955, é realizada uma campanha contra a tuberculose lançada pelo Provedor da Misericórdia. Nessa mesma altura, o deputado Elísio Alves Pimenta apresentou ao Subsecretário de Estado de Assistência Social o desejo do provedor de transformar a Casa de Eiró em Enfermaria abrigo para tuberculosos. Para isso, tornava-se necessário proceder a obras de reparação, no valor de cerca de 50.000$00, e que constituiriam em ripar e estucar de novo os tetos de várias divisões, reparar telhados, soalhos, portas e janelas. Além disso, era necessário a reparação e pintura de paredes interiores e exteriores, pavimentos a mosaico no primeiro andar e no piso térreo. Além disso, era ainda necessário, a colocação de silhar de azulejos em várias dependências do segundo piso e piso térreo, instalar água corrente nas dependências no segundo piso e fazer ajustes nas divisões, tapar portas e abrir outras. Era necessário também encanar águas de lavagem e esgotos bem como construir uma fossa, instalar sanitários, construir capela, reparar a instalação elétrica e estende-la ao piso térreo. Houve ainda necessidade de adquirir todo o mobiliário (camas para 18 doentes e 4 para o pessoal, mesinhas de noite, cadeiras, mesas, armários para roupas, etc.), adquirir roupas, loiças, fogão, artigos de cozinha, sanitários, entre outros materiais. 
As despesas de apetrechamento rondavam os 90 contos, mas o custo total da obra era de 120 mil escudos. Aprovando a ideia, o Subsecretário de Estado da Assistência Social concedeu 100 contos, para a obra. Em 1956, a 5 Janeiro, é feita a inauguração da enfermaria, com celebração de missa pelo Arcebispo Primaz de Braga e um discurso proferido pelo Provedor a partir da varanda do edifício, realizando-se ainda nesse mesmo dia a "Festa das Oferendas" para angariação de fundos. 
Em início de Dezembro de 1961, parece estar tudo preparado para a entrada em funcionamento do asilo. O Padre Carlos Vaz, provedor da Santa Casa, escreve na “Voz de Melgaço” de 1 de Dezembro, onde assegura: “Exatamente, no dia oito de Dezembro (…) começará a funcionar (…) na casa de Eiró, o “Lar dos Inválidos de Melgaço”. Vamos começar com dez internados. É nossa intenção recolher todos aqueles que procurem esta casa. Temos lugar para 20. 
Nas vésperas do dia 8, aqui chegarão as irmãzinhas, pois só elas com o seu desvelo e carinho, é que podem estar à frente duma obra como esta. Esperamos que uma ilustre Comissão de Senhoras da nossa terra possa dedicar a esta, o carinho e atenção que lhes for possível. 
Vamos começar.” 
Em 8 de Dezembro de 1961, o asilo recebe os idosos que estavam no hospital e começa a funcionar. O Padre Carlos Vaz escreveu no jornal “Voz de Melgaço”, na sua edição de dia 15 seguinte, onde nos conta tudo: “Foi no dia 8, como estava previsto. Sem festas, sem discursos, quase em silêncio, humildemente, inaugurou-se pelas 15:30 precisas, da tarde do dia 8, o Lar dos Inválidos (…) A casa foi benzida pelo Reverendo do Arcipreste que, a seguir, fez uma pequena alocução já na capelinha. Aludiu ao fim da obra que estava a inaugurar-se e lembrou o benemérito fundador, Sr. Dr. Passos de Almeida que, na sua alta missão, de médico, reconheceu a grande necessidade de se valer aos pobres inválidos da nossa terra. Lembrou o trabalho das Mesas anteriores que possibilitaram o clima propício para que esta obra fosse um dia uma realidade. Saudou as ilustres Senhoras Madrinhas e Protetoras desta obra, de quem há muito a esperar. 
Depois de algumas orações, foi dada a bênção do Santíssimo e a Casa ficou patente, durante a tarde, ao numeroso público que, apesar de não haver festa, quis associar-se à abertura desta Casa. E foram várias as almas caridosas que deixaram nas bondosas mãos da senhora Diretora, a Irmã Rosa, as primeiras ofertas”. 
Na década de 1980, o Asilo albergava 18 idosos. Como se mostrava insuficiente para as necessidades locais, a Misericórdia decide construir um novo Lar, para o qual comprou terrenos no Lugar da Loja Nova, junto ao Bairro do Santo Cristo, com capacidade para 60 idosos. 
Em 1989, a 5 Novembro, é realizada a inauguração do novo Lar pelo Professor Aníbal Cavaco Silva, na qualidade de Primeiro-ministro em funções. Em Julho de 1990, é concretizada a transferência dos idosos da Quinta do Eiró para o novo Lar. 
Em tempos recentes, foi construído em terrenos pertencentes a esta Quinta do Eiró, novas instalações para acolhimento de idosos que foram inauguradas em Junho de 2015. Nascia assim, o “Cantinho dos Avós”, que se constitui como mais uma resposta fundamental de apoio à terceira idade que esta Santa Casa presta a uma população de um concelho profundamente envelhecimento. 
Atualmente, o edifício e a quinta anexa continua a ser propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço procurando esta reabilitar o edifício para lhe dar uma novas e nobres utilidade. 



Informações extraídas de:
- 1936, Setembro 20, Melgaço – Acta da sessão de inauguração do Asilo Pereira de Sousa, da Misericórdia de Melgaço;
- PAIVA, José Pedro et al (2011) - Portugaliae Monumenta Misericordiarum - Misericórdias e Secularização num século turbulento (1910 - 2000). Volume 9, Tomo II; Centro de Estudos de História Religiosa; Universidade Católica Portuguesa. Edição da União das Misericórdias Portuguesas.
- www. monumentos.pt.

domingo, 1 de março de 2015

Melgaço atacado pela pandemia de Gripe Espanhola (1918-1919)

Vila de Melgaço, rua Nova de Melo à época


A «pneumónica» ou «gripe espanhola», designações dadas entre nós à pandemia de gripe de 1918, teve uma curta duração, já que os seus efeitos devastadores se fizeram sentir quase unicamente nos idos anos de 1918 e 1919, e caracterizou-se pela elevada morbilidade e mortalidade, especialmente nos estratos jovens da população.
O distrito de Viana do Castelo está entre os que registou um menor número de mortes causadas pela enfermidade. Com base na Estatística do Movimento Fisiológico da população Portuguesa de 1921, conclui-se que a gripe, ultrapassada a pandemia, deixa de ser a principal causa de morte no distrito de Viana do Castelo. Nesse ano, foi responsável pela morte de 21 pessoas, ao passo que a tuberculose vitimou 199. Contudo, esta circunscrição administrativa não deixou de sofrer, em diversos domínios, os efeitos dela decorrentes.
As notícias da pneumónica surgiram, na região, em inícios de Outubro de 1918, nos concelhos de Monção, Caminha, Viana do Castelo e Paredes de Coura. Imediatamente após as primeiras mortes ocorridas em Monção, foram lançadas medidas para conter o seu alastramento, que passavam pelos cuidados com a higiene pessoal e o asseio da casa e pela recomendação de recorrer a apoio médico logo que surgissem os primeiros sintomas.
Monção foi um dos municípios do Alto Minho afetados pela pneumónica. Apesar de em 1918 se registar uma ligeira subida do número de doentes ingressados no hospital da vila face aos anos anteriores, o certo é que, no período compreendido entre 1861 e 1926, houve anos em que o número total de enfermos superou o de 1918. Contudo, estamos em crer que nem todos os doentes optavam pelo internamento, devido aos preconceitos que ainda persistiam relativamente ao hospital e ao isolamento a que as populações estavam sujeitas.
Entre os 68 doentes infetados pela pneumónica que ingressaram no hospital de Monção entre outubro de 1918 e 1919, foi possível apurar a idade de 63: 33 tinham idades compreendidas entre os 20 e os 40 anos e 15 tinham menos de 20 anos. Como já referimos, a gripe pneumónica atingia, sobretudo, os mais jovens. Por ser esta a faixa etária mais afetada, o número de solteiros contagiados era também muito elevado.

A situação em Melgaço
A situação revelou-se particularmente difícil em Melgaço, sobretudo após a morte dos dois únicos médicos em serviço no hospital, vítimas da gripe pneumónica.
Metade da população da paróquia de Santa Maria da Porta, estava infetada. Neste concelho, que entre os do Alto Minho foi o que registou a maior mortalidade, os enfermeiros, receando o contágio, abandonaram o hospital da Misericórdia. As autoridades distritais reconheciam a gravidade do problema neste concelho e no de Paredes de Coura. O governador civil concedeu, por isso, um donativo no valor de 200 escudos aos respectivos administradores para ser distribuído pelos doentes mais carenciados. Mais uma vez, a intervenção da Cruz Vermelha foi crucial, montando um hospital de campanha em Melgaço, onde a dificuldade em controlar a enfermidade era agravada pela sua localização junto à fronteira espanhola.
A intervenção da Cruz Vermelha em Melgaço  é noticiada no jornal “A Gazeta do Lima” na sua edição de 31 de Outubro de 1918 onde podemos ler “Para Melgaço, onde as cousas se encontravam n’um estado pavoroso, pois até os enfermeiros da Misericórdia tinham fugido abandonando os doentes, foi uma columna da delegação da Cruz Vermelha d’esta cidade para fazer serviço n’um hospital de campanha que se instalou na casa da Escola. Para o organizar, esteve alli o nosso querido amigo sr. Eugénio Martins, seu presidente e zelosíssimo presidente”.
Conta-se também que, durante o surto de gripe penumónica no nosso concelho, o Dr. Vitoriano de Figueiredo e Castro, à data sub-delegado de saúde de Melgaço, foi acusado pela oposição política do concelho, de se fazer passar por doente para não ir para Castro Laboreiro. Mandou para lá um tal de Dr. Salvador, que viera substituir o Dr. Magalhães, um dos médicos mortos pela gripe. Contudo, o médico não quis ir e fez finca-pé, sendo depois enviado compulsivamente para Valença.
A propósito do tal Dr. Vitoriano, sub-delegado de saúde de Melgaço, existe uma carta de um tal “João do Cabo” de Penso, que foi publicada no Jornal de Melgaço de 6 de Dezembro de 1918: “Na epidemia bronco-pneumónica que grassava com uma intensidade assustadora, o Dr. Vitoriano lembrou-se do velho adágio: Mais vale burro vivo do que sábio morto, fingindo-se doente e conservando-se em casa, com as fendas bem calafetadas, a caldos de galinha. Nem uma mulher parida, coitado!”
Em Melgaço, nesta época, a maior parte das pessoas doentes não queria ir para o Hospital da Misericórdia. No entanto, José Augusto Domingues (conhecido como o Cabanal), castrejo, a residir em Prado, sendo atacado pela doença, solicitou a hospitalização. Lê-se no Jornal de Melgaço de 15 de Novembro de 1918: “Nota-se neste concelho uma grande repugnância que não tem razão de ser. É a repugnância que muitos doentes sentem em ir para o hospital e essa repugnância vem de se dizer que lá só dão aos doentes leite e caldo e alguns querem presunto no Inverno e salada no Verão. Ora, no hospital, quando dirigido por um bom médico e haja escrupulosos enfermeiros, ao doente só é ministrado o alimento compatível com as forças do seu organismo, mas o necessário para a vida. Por isso, o nosso amigo Cabanal deu um grande exemplo que deve seguir-se: estava ele e a mulher com a doença – e como os filhos são ainda crianças – não podendo por isso, tratá-los, e ainda como naquele tempo não era fácil encontrar-se uma criada, pois em Prado, estava quase tudo doente, depois de bastantes dias estar de cama, resolve ir com a mulher para o hospital, onde se encontra ainda, mas já livre de perigo...”                                                                                             

Dr. Vitoriano de Figueiredo e Castro


Informações extraídas de:
 - ESTEVES, Alexandra (2014) - O impacto da pneumónica em alguns concelhos do Alto Minho. in: CEM, nº 5, Cultura, Espaço & Memória, Universidade do Porto, Porto.
- ROCHA, Joaquim (2007) - A Febre Tifóide e os seus protagonistas. Boletim Cultural de Melgaço. Câmara Municipal de Melgaço, Melgaço.
- Jornal “A Gazeta do Lima”, edição de 31 de Outubro de 1918.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Castro Laboreiro no programa da RTP "Mudança na Paisagem" (2011)



“Mudança na Paisagem” é um documentário sobre a identidade do campo português. A paisagem vivida da nossa infância e das nossas raízes. A paisagem entendida como a casa comum onde nos relacionamos uns com os outros. A paisagem marcada pela natureza, pelos homens e pelo progresso. De norte para sul, um olhar sobre as mudanças no território num documentário sobre o Portugal recente.
Assim do planalto de Castro Laboreiro ao Algarve - passando pelo Douro e pela renovação do Alentejo por via do Alqueva - o documentário aborda o tema da paisagem em sentido lato.
O programa de estreia dedica boa parte a Castro Laboreiro. Afinal, como é viver aqui? A paisagem, as suas gentes a falarem da sua vida por cá....
Entre “centros históricos” e “aldeias típicas”, os portugueses buscam na paisagem um lugar para passar férias mas a verdade é que ocupação do território mudou de forma irreversível nos últimos cinquenta anos, por via da emigração, do despovoamento e da fuga para os grandes centros urbanos do litoral.
Veja o programa completo aqui!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Castro Laboreiro: Refúgio para os galegos fugidos à Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939) - PARTE 2

Em Castro Laboreiro, a Ponte Velha


"Nos primeiros días de decembro de 1936 o tenente de infantería Fernando José Lopes destina un grupo de homes ós postos da serra e a Ribeiro de Abaixo para averiguar sobre a “capitana dos refuxiados españois” daquela poboación, a devandita Rosa Alves. Nos dous Ribeiros, de Cima e de Baixo, lugares fixos, lévase tempo
notando a presión policial. A PVDE captura a Rosa Alves “A Africana” o 26 de outubro de 1937, moi popular no val de Pereira e con familia na aldea arraiana galega de Olelas, fronte do lugar fixo da Várzea. A comunicación secular entre os dous Ribeiros e as aldeas entrimeñas de Bouzadrago e Pereira tiñan fomentado a creación de roteiros vinculados ó contrabando, empregados polos familiares dos escapados para abastecelos de comida e roupa, evitando ser controlados polos carabineiros españois ou pola garda fiscal portuguesa. En Lamas de Mouro a policía ten constancia tamén da presencia de refuxiados antifranquistas. Algúns deles optan por vestir elegantemente porque lles permite alixeirar certa presión das forzas represivas, aínda que prefiren ir armados por se se ven na obriga de defenderse. Na branda de Seara, doutro lado da Pena de Anamán, hai varios refuxiados espanhois, entre eles Manuel Fernández González “O Curto”, acollido na casa da súa amante. Sospeitando da presión das forzas represivas, pernocta nunhas fragas próximas. Algúns habitantes destas serras son reincidentes en agachar refuxiados españois na serra, polo que se ven sometidos frecuentemente a rexistros nas súas vivendas. Nesa mesma branda está agachada unha familia enteira. Como todos, esperan documentación para internarse ó centro do país, pero resúltalles complexo porque Eudosia Lorenzo Diz, de vintecinco anos, quen antes do golpe militar era mestra en San Ginés no concello limítrofe de Lobeira, ten un fillo. Para non levantar sospeitas viste o traxe típico de castrexa.
Ademais, móvese cos seus pais: Agustín Lorenzo, un home de cincuenta anos, que sofre as inclemencias dunha hernia, e Basilisa Diz, cinco anos máis nova e que ten un sinal característico na faciana. Outras testemuñas, conseguidas pola policía tras interrogar
os veciños, sitúaos na inverneira de Entalada ou na branda de Rodeiro; outras din que están nos lugares fixos dos Ribeiro, quizais na inverneira de Alagoa ou nas brandas dos Portos. En realidade, ó integrarse coa poboación local acompáñanos nas súas migracións anuais, e as veces, ante a abafante presión policial e dos confidentes, saltan a algunha aldea galega, como Cabanelas, onde tamén consiguen acocho.
No labor de control da fronteira, a Garda Fiscal de Melgaço e Ponte da Barca encárganse de reforzar os postos da Peneda e Ameijoeira para evitar que os refuxiados na serra da Peneda cruzen a fronteira ou escapen para o sur. Saben que se esconden en cavernas e o aumento no número obrígalles a realizar expedicións periódicas moitas delas pola noite para empregar o factor sorpresa.
Vista a temperá interrelación entre contrabandistas e refuxiados españois, a policía portuguesa preocupouse da represión violenta dos primeiros para evitar que os segundos andivesen libremente polo monte e puidesen internarse en Portugal, esixindo ós comandantes dos carabineiros e os seus subordinados que disparasen contra os individuos que intentasen atravesar a fronteira.

Algúns refuxiados acabaron coñecendo perfectamente as rutas alternativas pola fronteira, ían armados sempre con carácter defensivo e nalgún casos cometeron actos de represalia de tipo económico que lles levou a misturarse coas redes de contrabandistas, que terminaron por percatarse do valor estratéxico dun continxente moi elevado para a importancia socio-económica que adquiriu daquela o contrabando. Esas dúas redes de tránsito pola fronteira obrigou, por tanto, a extrema a vixilancia da mesma."

:::::::::: FIM :::::::::

Para ler a parte 1 deste texto clique em 


Texto extraído de:

A represion franquista en Galicia. Actas dos traballos presentados ao Congreso da Memoria; Narón, 4 a 7 de decembro de 2003; Asociación Cultural Memoria Histórica Democrática.