sábado, 22 de março de 2025

Alvaredo (Melgaço), 24 de Junho de 1898: Festas em honra de S. João no Maninho

 



As origens da capela de São João Batista, sita do monte de São João, freguesia de Alvaredo, perdem-se no tempo e não se encontra no seu local original. De facto, estamos perante uma capela que poderá ter origens medievais, tendo sido reedificada em 1814 e mais tarde, transladada do primitivo local de implantação, em meados do século XX.  

É muito possível que este pequeno templo corresponda à velha Capela de São Vicente, que é referida nas Memórias Paroquiais da freguesia de 1758, construída na zona mais baixa da povoação, e posteriormente ter sofrido alteração de orago. De facto, no dito ano de 1758, a 25 Maio, o pároco de Alvaredo, António Rodrigues de Morais, nas Memórias Paroquiais da freguesia, refere apenas a existência de uma capela no lugar de Maninho, mas dedicada a São Vicente, pertencente aos seus moradores. No dito documento, pode ler-se “tem esta freguezia (...) a capella de Sam Vicente no lugar do Maninho que he dos moradores da freguezia.”  

Posteriormente, em 1814, esta velha capela terá sido reedificada no mesmo lugar do Maninho, conforme inscrição numa lápide da fachada principal. Na mesma, podemos ler: "REDEFICADA EN O ANO / DE 1814 E / TRANSLADADA EN / 1952". Desconhecemos quando terá mudado de orago e passado a chamar-se “capela de São João”. Contudo, ainda no século XIX, já aqui se celebrava uma festa anual ao São João no seu dia (24 de Junho). Se prestarmos atenção ao periódico melgacense “No Jornal de Melgaço”, de 23 de Junho de 1898, o mesmo fala-nos do programa das festas desse ano nesta capela, sita, à época, no lugar do Maninho: 

“Imponentes festejos em honra do milagroso S. João Baptista, em São 

Martinho, na Capella do Maninho. 

 

DIA 23 

Ao meio-dia, o repicar dos sinos e a fuzilaria de vastas girândolas de foguetes, annunciaram aos fiéis o começo dos festejos em honra de S. João. 

As trevas da noite deste dia, serão supplantadas por uma brilhante illuminação e grande variedade de fogos de artificio, que mais uma vez provarão o mérito do habil pyrotechnico Carvalheiras, incontestavelmente um dos primeiros da Comarca. 

Duas philarmonicas, uma desta villa e outra de Valladares, farão as delícias da noite, fazendo ouvir escolhidas peças do seu reportório. 

DIA 24 

A alvorada d'este dia, será saudada por uma girândola de foguetes e pelos sons das philarmonicas. 

Às 9 horas, terá começo a missa da festa a qual será realizada a grande instrumental e com toda a solenidade. A tribuna sagrada será occupada pelo illustre sacerdote padre Caetano Fernandes, do qual anciosos esperamos ouvir a sua bem elaborada palavra.  

Em procissão, percorrerá o itinerário do costume, o milagroso santo, fazendo-se ouvir durante o trajecto, os tradicionaes cânticos próprios daquelle acto. 

À tarde, música no arraial, fogos e outros divertimentos. Para a boa organização dos festejos e decoração da capella, consta-nos que tem sido incansável o muito digno reitor daquella freguezia, com o concurso dos Srs. José Capellas, Domingos Castro e José Gonçalves Torpina, encarregados dos festejos. 

É com prazer que notamos que esta imponente festa é realisada a expensas dos nossos conterrâneos e amigos do Pará, os irmãos Capellas, e mais um ou dois conterrâneos, dos quaes não nos foi possível saber o nome."

quinta-feira, 6 de março de 2025

Melgacenses no Tarrafal

 


 

A designada Colónia Penal de Cabo Verde, no Tarrafal, para presos políticos foi criada pelo decreto-lei n.º 26 539, de 23 de Abril de 1936. Trata-se de um dos maiores símbolos da repressão do Estado Novo contra opositores políticos ao regime. 

Vários foram os melgacenses que passaram pelo Tarrafal, sobretudo nas décadas de trinta e início da de quarenta do século passado. Estávamos numa época em que Salazar e Franco tinham estabelecido um plano de cooperação na sua atuação repressiva contra opositores aos regimes ibéricos. Assim, as autoridades portuguesas comprometiam-se a entregar a Espanha todos os opositores políticos ao franquismo que por cá capturasse e o país vizinho procederia da mesma forma, entregando todos os opositores ao Estado Novo capturados em território espanhol. Assim, alguns deles foram lá detidos e entregues às autoridades lusas.

No que toca aos naturais de Melgaço, são quase todos conotados com a militância em movimentos de esquerda de oposição ao franquismo em Espanha. Mas vejamos com algum detalhe as suas biografias:


Vitorino Domingues

Vitorino Domingues nasceu em 4 de Março de 1888, em Castro Laboreiro, Melgaço. Morador à época em Várzea Travessa, foi entregue pela Comarca de Melgaço à Delegação do Porto da Polícia de Vigilância do Estado em 12 de Julho de 1940, ficando à disposição do TME. Foi condenado, em 20 de Agosto de 1940, a 8 anos de degredo, «pena esta que substitui a pena de prisão correcional imposta no cível», «por ser detentor de um revolver de calibre 9 mm, arma proibida por lei, e com o qual no dia 3-05-1939 fez uso, disparando-o contra o seu irmão Manuel José Domingues, a quem causou ferimentos». Foi transferido, em 10 de Novembro de 1940, para Caxias, e embarcou, no dia seguinte, para o Tarrafal, fazendo parte daqueles deportados que não eram politizados, nem integravam nenhuma das organizações criadas por afinidades ideológicas, tendo sido enviados para o Campo por possuírem, apenas, armas proibidas. Foi abrangido pela amnistia de 18 de Outubro de 1945 e regressou em 1 de Fevereiro de 1946, saindo em liberdade. 



Artur Esteves

Artur Esteves nasceu em 21 de Março de 1904, na freguesia de Chaviães, em Melgaço. Sendo cesteiro de profissão, e estando a residir e a trabalhar em Espanha, foi preso no posto fronteiriço do Peso, Melgaço, em 7 de Setembro de 1936, entregue pelas autoridades espanholas que o detiveram e o expulsaram por estar indocumentado, e «ter tomado parte ativa, ao lado dos comunistas, nos recentes acontecimentos revolucionários do País vizinho» e ser filiado no Partido Comunista Espanhol. Levado para a cadeia da Comarca de Melgaço, seria transferido, no dia seguinte, para Valença e, depois, no dia 9, para a Delegação do Porto da PVDE. Foi enviado, em 15 de Outubro de 1936, para a prisão de Caxias, Reduto Norte, e embarcou, em 17 de Outubro de 1936, para o Tarrafal, sem sequer ter sido julgado. Regressou em 8 de Fevereiro de 1940 e saiu em liberdade. No entanto, foi detido novamente, em 12 de Outubro de 1942, no posto fronteiriço de Valença, entregue pelas autoridades espanholas e acusado de emigração clandestina. Levado para a cadeia da Comarca, passou, em 26 de outubro de 1942, para a jurisdição do Tribunal da Comarca de Melgaço. Quando foi libertado, declarou que ia residir no lugar da Bouça, Chaviães.



 Luís Rebelo

Luís Rebelo nasceu em 8 de Novembro de 1909, na freguesia de São Paio, Melgaço. Era pedreiro de profissão e foi preso pela Guarda Fiscal na fronteira de Peso (Melgaço) em 2 de Setembro de 1936 e entregue no respetivo Posto da PVDE, «sob a acusação de ter atravessado clandestinamente a fronteira», «suspeita de ter tomado parte, como comunista, no movimento revolucionário do País vizinho» e estar indocumentado. Levado para a cadeia da Comarca de Melgaço, seria transferido, no dia seguinte, para Valença e, depois, em 5 de Setembro de 1936, para a Delegação do Porto da PVDE. Entrou, em 15 de Outubro de 1936, em Caxias e, dois dias depois, embarcou para o Tarrafal, sem sequer ter sido julgado. Regressou em 8 de Fevereiro de 1940 e saiu em liberdade, tendo declarado que ia residir no lugar do Cruzeiro, freguesia de São Paio. 



Manuel Molina Vailó ou Manuel Molina Bailão ou Manuel Molina Bailó
Nasceu em 27 de Maio de 1909, em Parada do Monte, Melgaço. Era mineiro de profissão, com residência em Perpignan, França, tendo sido preso pelo Posto de Beirã em 3 de Abril de 1941 e transferido, no dia seguinte, para a diretoria da PVDE. Recolheu à 1.ª esquadra e entrou no ciclo de transferências entre presídios. Passou pela prisão do Aljube (em 10 de Abril de 1937), Forte de Caxias (20 de Junho de 1941) e Peniche (22 de Junho de 1941). Embarcou, em 4 de Setembro de 1941, para o Tarrafal, por ter vindo de Espanha. Regressou em 20 de Fevereiro de 1945 e foi entregue, de imediato, ao Governo Militar de Lisboa.


A Colónia Penal de Cabo Verde seria encerrada em até 1954. Mais tarde, em 1961, o campo de concentração é reaberto, com a nova designação de “Campo de Trabalho de Chão Bom” e que funcionará até à sua libertação, no dia 1 de maio de 1974.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O Padre Raimundo Prieto, de São Paio (Melgaço) - de dirigente da União Nacional à prisão da polícia política.

 



Apenas os mais velhos terão memória do padre Raimundo na freguesia de São Paio e as circunstâncias da parte final da sua vida. Foi ele quem mandou reformar a igreja por volta de 1930 e que deu à mesma a configuração que tem na atualidade. Foi também complexo o seu posicionamento ideológico perante o Estado Novo. Foi dirigente da União Nacional de Melgaço mas também foi preso pela polícia política.

O padre Raimundo Prieto era filho de Francisco Prieto e de Maria Joana Lamosa, oriundos de São Bartolomeu de Lamosa, Galiza. Nasceu na Peneda, Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez em 9 de Agosto de 1878. Antes da viragem do século, já morava com a família em Cousso, neste concelho de Melgaço. Andou no Seminário em Braga e foi ordenado padre em 1901.   

Foi pároco da freguesia de Cousso, passando em 1928 para São Paio, onde foi pároco um pouco mais que uma década. Da sua passagem pela freguesia de São Paio ficou a profunda reforma que realizou ao nível da igreja cujas obras decorreram 1930, conforme data inscrita na parede frontal.  

A transformação na igreja foi bastante criticada, tendo sido demolidos os arcos no interior da igreja e que a dividiam em três naves. A este propósito, o padre Bernardo Pintor escreveu "Por acanhada e insuficiente para a vida da paróquia, foi reconstruída pelo falecido P.e Raimundo Prieto, (...) que inconscientemente praticou um crime de lesa-arte, mas teve o bom gosto de conservar um dos pórticos da frente e o melhor de seus altares de estilo renascença.” E acrescenta que “Quando se procedeu à inauguração da nova igreja, tive a confiança de dizer ao P.e Raimundo: “julgo que foi mal feito alagar a velha igreja! Ele teve a franqueza de responder: “Não é só você a dizer-me isso, mas agora não tem remédio!”. A igreja, reconstruída em 1930, foi solenemente inaugurada em 20 de setembro de 1931. 

Em termos ideológicos, o Padre Raimundo esteve ligado ao regime do Estado Novo, chegando a desempenhar o cargo da vice-presidência da comissão concelhia da União Nacional de Melgaço. Contudo, na parte final da sua vida chegou a ser preso pela polícia política, a PVDE, e levado para a Delegação do Porto. Fomos vasculhar os registos da polícia política e encontramos a ficha de preso do Padre Raimundo. Segundo o mesmo,  “Preso pelo Posto do Peso em 24 – 06 – 1939, por incubridor, usando de má fé para com todas as autoridades. Arranjando forma de documentar ilegalmente um súbdito espanhol, fugido do seu paiz, conseguindo-lhe um passaporte paraguayano e um bilhete de identidade de nacionalidade portuguesa, recolhendo à cadeia civil daquela comarca (OS – 179). Transferido para a Delegação do Porto em 29 – 06 – 1939 (OS – 184). Restituído à liberdade em 24 – 7 – 1939 (OS – 208)”.

ROCHA (2011) no seu “Dicionário Enciclopédico de Melgaço” alude que o Padre Raimundo também terá albergado em sua casa esse indivíduo que lutara na guerra civil de Espanha contra as forças do Franco ainda que este aspeto não venha descrito do documento transcrito. 

Note-se que entre Salazar e Franco havia um pacto para entregar os opositores aos regimes que fugissem para o outro lado da fronteira. Em Melgaço, foram muitos os espanhóis opositores a Franco que se refugiaram nesta terra, sobretudo em Castro Laboreiro. Uns foram capturados e entregues na fronteira às autoridades espanholas. Outros, como este caso, entrando em Portugal como indocumentados, conseguiam documentos falsos para fugirem de Portugal, neste caso para o Paraguai.

O padre Raimundo apareceu morto no dia 5 de Dezembro de 1939, uma terça feira, na residência paroquial de São Paio. O seu funeral realizou-se no dia sete, dois dias depois da sua morte. Encontra-se sepultado no cemitério de São Paio.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

São Martinho de Alvaredo (Melgaço) - 20 de Outubro de 1939



A igreja de São Martinho de Alvaredo é bastante antiga e resulta provavelmente da reconstrução de um templo primitivo.

Em Outubro de 1939, o telhado da igreja desabou ficando a estrutura bastante afetada. Fomos procurar notícias do sucedido nos jornais melgacenses e no periódico “Notícias de Melgaço”, na sua edição de 23 de Outubro dessa ano, podemos ler: “No dia vinte do corrente, pelas seis horas da manhã, quando o pároco de Alvaredo se dirigia à sua igreja para proceder aos exercícios do Santo Rosário, já se encontrava junto à igreja e verificou que lhe era completamente impossível entrar dentro do templo, visto que naquele momento tinha sido reduzido a escombros. O tecto desabou na sua maior parte; as paredes ficaram muito danificadas, e bem assim alguns altares que também sofreram. A derrocada, na nossa opinião, poder-se-ia ter evitado se os paroquianos de Alvaredo se tivessem guiado pelos conselhos do seu pároco, que muitas vezes os aconselhou que era preciso tratar de evitar o desastre que agora se deu, mas não foi só o reverendo pároco que aconselhou os paroquianos a tratarem da reconstrução daquele templo sagrado, que estava já há muito a ameaçar ruínas, foi também o Notícias de Melgaço que ainda há pouco tempo pediu por caridade aos paroquianos que não deixassem ao abandono a casa de Deus, que fossem mais zelosos, que iniciassem as obras da igreja antes de principiar o Inverno e se assim não fizessem, a derrocada era certa, como aconteceu. E graças a Deus, que foi muito misericordioso, porque se a derrocada se dá pouco depois, os fiéis que estavam a assistir ao Santíssimo Rosário ficariam subterrados nos escombros, mas Deus não quis que houvesse a lamentar tão grande desastre. Agora, segundo nos informam, brevemente vão principiar as obras de reconstrução da casa de Deus.” 

As obras de reconstrução foram concluídas em 5 de Julho de 1942, abrindo de novo as suas portas ao culto em 1943. Numa das paredes exteriores, é possível encontrar a placa comemorativa da obra realizada e o ano em questão.