![]() |
Paços (Melgaço) e a sua igreja paroquial |
Foi no princípio do
século XX, que José Leite de Vasconcelos visitou várias vezes Melgaço, à procura
da cultura popular e dos saberes ancestrais das gentes da nossa terra. Esteve
em vários pontos do concelho, desde o Peso, onde costumava ficar hospedado, até
Castro Laboreiro ou Paderne. Esteve também em Paços, onde terá conhecido uma
personagem singular da terra naquela época que dava pelo nome de Manuel Afonso.
Era contudo conhecido por “Sábio de Vila Draque” e seria habitante
daquele lugar da freguesia melgacense de Paços. Era natural de Castro
Laboreiro, e contava o povo na época que terá falado ainda no ventre da mãe,
circunstância que lhe conferiu a virtude, manifestada aos seis anos de idade,
de adivinhar (através das cartas) e curar. Conta José Leite de Vasconcelos no
livro Etnografia Portuguesa que a sua terapêutica se baseava nuns pós
de santos, com origem em antigos frades espanhóis do Mosteiro de Celanova. Segundo
ouviu o autor, com tais pós embrulhados num papel, fazia curas do ombro direito
para o joelho esquerdo e do ombro esquerdo para o joelho direito, recitando os
seguintes dizeres: «Negrozelo! Vai-te embora deste corpo, deixa-o são e salvo,
com pós de santos e negrozelo». Também curava a dor de dentes, de ossos e de
pés, com pedra-de-ara, embrulhada em papel e movendo-a em cruz.
No início do século
passado, eram frequentes outras crenças tais como aquelas ligadas a curiosos objetos
de aço. Acreditava-se que o aço que picava a terra fica benzido pela natureza.
Conforme registo de Leite de Vasconcelos, o «sábio da Vila Draque» curava
certas doenças pegando num objeto de aço, posto em cruz na casa, ou na cama
sobre o doente, e dizendo a seguinte oração: «Ó aço, que picaste em terra, sirvas
para benafício da minha casa! Deixa este corpo são e salvo!». Acrescenta
o mesmo autor que o «bruxo» possuía «um pedaço de aço de três pontas que mandou
fazer a um ferreiro e benzeram-lho num convento».
Uma outra crença da
época em terras de Melgaço estava ligada a encomendar ou aumentar de almas e consistia em ritual no
qual se lembravam os nomes das almas para as encomendar a Deus. A encomendação
é realizada dentro de um signo-saimão (parecido com uma estrela de cinco pontas,
para o operador não ser tentado pelo Diabo, concluindo a cerimónia com a
exclamação: «Peço um Padre Nosso e uma Ave Maria por todas as almas em geral que
estão nas penas do purgatório», seguida da respectiva recitação em voz muito
alta. Em Castro Laboreiro, consoante informação que deram ao antropólogo José Leite
de Vasconcelos, um homem ia (às quartas e sextas-feiras, de noite) a um lugar
ermo e alto, armado, «por causa das coisas más», desenhava um signo-saimão no
chão (parecido a uma estrela de cinco pontas), de modo que uma árvore ficasse
no meio dele, subia a ela e, em voz fúnebre, entoava um cântico religioso, com
o qual provocava medo a quem o ouvisse.
Em Melgaço, contaram
também a José Leite de Vasconcelos que havia pessoas que rezavam orações ao
contrário e que quando o faziam, estavam a fazer um chamamento ao Demónio.
Considera-se destinado
ao diabo o Pai-Nosso dito às avessas: “Céu no como, terra na assim, vontade
vossa a feita seja, nome vosso o seja, ficado santo, Céu no estais que, Nosso
Padre». O mesmo se diz da Ave Maria, rezada às avessas: «Amen morte nossa na
hora e agora pecadores nós por rogai Deus de mãe Maria Santa Jesus ventre vosso
do fruto o é bendito mulheres as entre vós sois bendita convosco é Senhor o
graça de cheia Maria Ave». Aplica-se também esta regra para a Salvé-Rainha.
Informações extraídas de:
VASCONCELOS, José Leite
de (1980) – Etnografia Portuguesa. Volume III, Tradições Portuguesas.
GRANJA, Manuel J. (ano
desconhecido) – Portugal Sobrenatural. Volume I. Edição
Esquilo.