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domingo, 12 de junho de 2022

O desaparecimento de duas capelas do Campo da Feira (vila de Melgaço)

 


Entre meados do século XVIII e meados do século XIX, existia, na vila de Melgaço, nos terrenos do Campo da Feira de Dentro, hoje Praça da República, não uma mas duas capelas.  

A mais antiga era chamada de Santo António do Campo da Feira de Dentro e ficava no Terreiro, muito próxima de onde é hoje a “desembocadura” da Rua Afonso Costa na dita praça, conforme se mostra na planta abaixo.


Planta da Praça Forte de Melgaço (1713)

Planta da Praça Forte de Melgaço (1758)

Em nenhuma destas plantas, não aparece ainda a capela da Senhora da Lapa, que ficava, mais ou menos, onde hoje se situa a esplanada da praça e ainda se pode ver em fotos do início do século passado . Nessa época, os terrenos onde hoje assenta a Praça da República e que se prolongavam para nascente até onde se situa o edifício do antigo Hospital, encontravam-se no interior de uma área amuralhada. Esta área fortificada tinha duas portas: uma a norte e outra a sul. Do lado sul, a entrada era no enfiamento do caminho que vinha do Rio do Porto e que subia através do atual traçado da rua Afonso Costa. Do lado norte, havia uma outra porta que fava para o caminho que desce para a rua da Fonte da Vila. Depois deste pequeno esclarecimento, acrescenta-se que havia na antiga Praça do Comércio, além da ermida de Santo António, uma outra dedicada a Nossa Senhora da Lapa, edificada na segunda metade do século XVIII em data após 1758 "...sem nunca fábrica lhe ser feita nem mesmo por António Manuel Teixeira da Gama, seu devoto que em 1766 pensava erguer-lha, à falta de outros, com os seus próprios bens." (ESTEVES, 1952) A documentação acerca desta capela é muito escassa ao contrário da de Santo António.

A construção da ermida de Santo António foi concluída na viragem para o século XVII a cargo da Misericórdia. Contudo, em meados do século XIX, dado o seu estado de conservação, ”...e pelo desejo de engrandecer a terra, alindando-a, tirando-lhe as belezas arcaicas…” (ESTEVES, A. (2003), em 1867, foi decretada pela Câmara a sua demolição. Num ofício datado de 29 de Julho desse ano, redigido pelo presidente da Câmara, podemos ler: “Tendo a Câmara da minha presidência tencionado regular e levar à melhor ordem possível, o terreiro do Campo da Feira de Dentro desta vila, ao nascente do qual se vai construir a Casa da aula do ensino primário, legada ao Concelho por virtude da disposição testamentária do benemérito Conde de Ferreira, sem cuja regularidade não é possível dar-se alguma assim no mesmo edifício, como na Rua Nova, com que tem de confinar pela parte do sul, é um dos obstáculos e o que mais entorpece o pensamento da Câmara, o alpendrado chamado de Santo António, e a capela antiga, de construção irregular, e em bastante ruína, de que é orago o mesmo Santo, que tudo se acha sob a administração, e gerência da Santa Casa da Misericórdia desta vila, da qual é V.a S.a, digno Provedor, e dignos mesários são pessoas que conhecem a necessidade da Câmara tomar a respeito medidas enérgicas. 

Decidia-se portanto a Câmara a promover a necessária expropriação, para qual tratava de se habilitar, mas sabendo deste desígnio o cidadão Tomás José Gonçalves, desta vila, que tem um edifício ao sul da mesma capela e que forçosamente o devia de chegar algum tanto à frente para o devido alinhamento, propôs à Câmara ocupar essa área de alinhamento sem embaraço, ou ónus: dar duzentos mil réis na expropriação se atender à indemnização do rendimento do alpendrado, e permitir todos os materiais deste e da capela para os fins que convenham; oferecendo mais à Câmara para regularidade do terreiro, e Rua Nova, e seu processo, ou preço de expropriação o terreno e casa que conserva ao nascente do alpendrado, e sul da mesma rua. 

Nestas circunstâncias, dirige-se a Câmara à Il.ma Mesa da Misericórdia e lhe propõem, ou expropriação do alpendrado, e capela nos termos regulares da Lei, ou lhe oferece tudo quanto aquele cidadão Tomás José Gonçalves lhe garante, que é duzentos mil réis em dinheiro, e todos os materiais do edifício; não cumprindo à Câmara ponderar razões para a deliberação que a V. S.as cumpre tomar. 

Também a Câmara podia propor a mudança à sua custa do edifício; porém, abstém-se de tal proposta por entender que talvez V. S.as possam aplicar a quantia com mais vantagem por haver capela na Vila que não tendo dotação, sendo de gosto elegante, e achando-se sob a administração da Junta da Paróquia, será fácil conseguir que ela passe para a Misericórdia. Aguarda a Câmara a resolução de V. S.as para, segundo ela, se deliberar convenientemente e com a prontidão que o caso pede, pois o oferecimento caduca havendo demora… 

Note-se que a Rua Nova, ou Rua Nova de Melo, a que se alude no ofício transcrito, corresponde, ao traçado da rua que ladeia a atual Praça da República do lado sul, que é o prolongamento da Rua da Calçada. Conforme se refere no ofício, para se rasgar esta Rua Nova, era essencial a demolição da capela. 

Na perspetiva da demolição da ermida, a Santa Casa da Misericórdia de Melgaço requereu então à Arquidiocese de Braga, autorização para transferir a imagem do orago para a capela de Nossa Senhora da Lapa, nas proximidades, do lado oposto da praça. A resposta da autoridade eclesiástica é exposta neste despacho de 22 de Agosto de 1867: “Obrigando-se a administração da Misericórdia de Melgaço a edificar nova capela, em sítio conveniente, para a colocação da Santa Imagem do milagroso taumaturgo, empregando-se na construção da mesma, as madeiras da que se pretende demolir, deferimos… 

Contudo, segundo ESTEVES, A. (2003), a Câmara Municipal e os administradores da capela conseguiram influenciar o arcebispo a substituir o despacho. Assim, não havendo lugar à construção de uma nova capela, a velha ermida de Santo António, bem como o seu alpendrado, foram demolidos. A imagem de Santo António seria transferida para a ermida de Nossa Senhora da Lapa, que se situava do lado oposto da praça, ao fundo da praça, conforme se pode observar na fotografia que se apresenta de seguida do início do século XX. Paulatinamente, a capela foi tomando o nome de Santo António, caindo no esquecimento a Senhora da Lapa.


Praça do Comércio (Melgaço, início do século XX)

Note-se que essa capela, no início do século passado, a ermida de da Senhora da Lapa era frequentemente referida como capela de Santo António e cada vez menos as pessoas se lembravam de que, em tempos, tinha sido dedicada a Nossa Senhora da Lapa. 

Em 1884, a capela sofreu um pequeno incêndio que lhe queimou as portas deixando a entrada franqueada e foi assaltada por uns indivíduos espanhóis. Podemos conferir esse facto no jornal espanhol “La Republica”, na sua edição de 5 de Fevereiro, que escreve que “una partida de ex-carlistas españoles quemó la puerta de la iglesia de San Antonio de Melgazo em Portugal, y franca así la entrada, se llevaron la custodia, los vasos sagrados y cuantas alhajas encontraron... 

Em 7 de Agosto de 1915, em sessão da Câmara Municipal, foi deliberado expropriar a capela de Santo António, antes da Senhora da Lapa, que existiu ao fundo da Praça da República, e os três prédios contíguos; o primeiro com frente para a referida Praça, onde estava o Café Melgacense, e os dois últimos no antigo Largo do Chafariz. Contudo, este pequeno templo seria apenas demolido em meados da década de vinte do século XX. Todavia, foi um temporal que precipitou o desaparecimento desta pequena capela. Assim, no dia 1 de Novembro de 1926, de noite, um violento temporal fez ruir o telhado desta ermida, com um pouco menos de três séculos de existência. Menos de dois meses depois daquela intempérie, em 27 de Dezembro de 1926, deu-se início à demolição da capela.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Melgaço em meados do século XX em fotos

 

Largo Hermenegildo Solheiro (Paços do Concelho - Vila de Melgaço), década de 40

Percorremos vários pontos do concelho de Melgaço através de um pequeno conjunto de fotografias deste nosso concelho de Melgaço em meados da década de 40 do século passado. Passamos pela vila de Melgaço, pelas termas do Peso, Paderne, entre outros...


Vista sobre as Termas do Peso (Melgaço), década de 40


Vista sobre a vila de Melgaço, década de 40

Junto ao Cruzeiro da Orada, arredores da vila de Melgaço, década de 40

Perto da fronteira de São Gregório (Cristóval - Vila de Melgaço), década de 40

Na Praça da República (Vila de Melgaço), 1938

Convento de Paderne (Melgaço), década de 40


Vista parcial sobre a Vila de Melgaço, década de 40

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Vila de Melgaço em 1964 em reportagem



Recuamos no tempo mais de meio século. Neste vídeo, podemos ver uma reportagem que nos mostra a vila de Melgaço em 1964. Nela vemos com pormenor a Praça da República com aquele jardins, o castelo, as igrejas e várias ruas no centro histórico entre outros curiosos pormenores... 
Vale a pena ver!!!



Fonte: Cinemateca Portuguesa.

domingo, 21 de junho de 2020

Melgaço nos últimos tempos da Monarquia (1909)





Recuamos até 1909, quando a monarquia estava próxima do fim e a República havia de chegar em breve. Como seria Melgaço nessa época?Nesse mesmo ano, é publicado o interessante “Portugal – Dicionário Histórico...” que dedica longos parágrafos a Melgaço: “MELGAÇO - Villa da prov. do Minho, sede de concelho e de comarca, distrito de Vianna do Castello, arcebispado de Braga, relação do Porto. Tem uma só freguezia, Santa Maria da Porta. Está situada n’um alto, na margem esquerda do rio Minho, que a separada Galliza, que lhe fica mesmo em frente, a 66 kilómetros da sede do distrito. A mitra e a Casa de Bragança apresentavam alternativamente o abbade que tinha 400$000 réis de rendimento.
Melgaço é povoação muito antiga, fundada pelos antigos lusitanos ou pelos romanos, mas ignora-se quando foi fundada e o seu nome primitivo. O que se sabe, com certeza, é que os árabes tinham aqui uma grande fortaleza, chamada Castello do Minho nome, que já no tempo do conde D. Henrique estava arruinada (Comentário: Este pormenor merece um reparo. O Castello do Minho não ficava em Melgaço mas sim perto de Ribadávia). D. Affonso Henriques achou a povoação deserta, por ter sido abandonada pelos árabes, e mandou-a povoar em 1170, reedificando lhe o castello. Outra versão diz que n’uma carta de couto dada em 1197 ao mosteiro de crúzios de Longovares, se declara ter sido a torre e a fortaleza mandadas edificar por D. Pedro Pires, prior do referido mosteiro, e à sua custa, e D. Affonso Henriques deu lhe o primeiro foral em 21 de julho de 1181, doando aos seus moradores a aldeia de Chaviães. Este foral foi confirmado em agosto de 1219 por D. Affonso II, dizendo que a povoação podia ter 350 vizinhos, e que escolhessem alcaide-mor, que sendo benemérito, elle o confirmaria. D. Affonso III deu-lhe outro foral, em Braga, a 29 de abril de 1258, que depois confirmou, em Guimarães, a 9 de Fevereiro de 1261. El-rei D. Manuel lhe deu foral novo, em Lisboa, a 3 de Novembro de 1513. El-Rei D. Diniz enobreceu Melgaço com a sua cinta de muralhas, em 1289. Estas muralhas tinham apenas 2 m de altura, e a sua configuração é quasi quadrada. Outros escritores dizem que foi D. Sancho I quem mandou construir o castello e as muralhas de .Melgaço, que D. Sancho II concedeu grandes privilégios à villa e que D. Affonso III os confirmou. Nas repetidas guerras de Portugal contra Castella, Melgaço e o seu concelho deram soldados intrépidos e destemidos, que muito se distinguiram nos combates e batalhas.
Nas guerras de D. João I de Portugal contra D. João I de Castella, se tornou celebre Ignez Negra, mulher natural de Melgaço. Os castelhanos haviam-se apoderado da maior parte das povoações fortificadas do Alto Minho, mas os portuguezes tinham obrigado a capitular o forte castello de Neiva. Vianna, de que era governador o castelhano Vasco Lourenço do Lira, tinha sacudido o jugo hespanhol pela bravura d’um escudeiro, appelidado o Frisus que, pondo-se à frente do povo, atacou o castello, fazendo prisioneiro toda a guarnição inimiga, mas ficando o valoroso escudeiro mortalmente ferido. Ponte do Lima foi resgatada pelo valor de alguns dos seus naturaes, em prémio do que, o lei lhe mandou collocar os bustos sobre as vergas das portas. Monção, V. N. da Cerveira e Caminha, entregaram-se sem custo.
Finalmente, em toda a provínda do Minho, só Melgaço estava sujeito a Castella. Era seu governador ou alcaide-mor Álvaro Paes Sotto Maior, castelhano, e tendo de guarnição 300 infantes e 300 cavallos, porfiava na resistência.
D. João I, que estava em Braga, onde reunira cortes, impacientou-se com a resistência da praça, e partiu para assumir a chefia das tropas que tinha mandado a pôr-lhe cerco. Tendo passado dez dias em que se haviam dado apenas umas escaramuças que nada decidiam, o monarca mandou fabricar um castello de madeira, que ficasse a cavalleiro das muralhas, cuja construcção levou vinte dias. Os cercados, receando o assalto, deram sinal de armistício, e João Fernandes Pacheco foi mandado propor a rendição da praça, mas Álvaro Paes exigiu taes condições, que nada se conseguiu. O rei mandou activar os preparativos do assalto, jurando que elle próprio o comandaria. D. João I havia casado pouco tempo antes, em 1387, com D. Filipa de Lencastre, e a rainha estava em Monsão com as suas damas, acompanhada pelo Dr. João das Regras e por João Affonso de Santarém, vindo do Porto ali visitar seu marido, e tencionando ir residir no convento de Fiães em quanto durasse o cerco da praça. Contam as crónicas que dentro dos muros de Melgaço havia uma mulher intrépida, partidária dos castelhanos, conhecida pela Arrenegada, por ter renegado a sua pátria, pois era natural de Melgaço. Sabendo que no arraial dos portuguezes estava uma sua patrícia, ousada e valorosa como ella, chamada Ignez Negra, mandou-a desafiar a um combate singular, que foi imediatamente aceite. Era o dia 3 de Março de 1388. Ignez dirigiu-se logo para o ponto designado, que era a meia distância do arraial e da villa, e já lá estava a Arrenegada. O combate começou encarniçado, terrível e desesperado, ferindo-se ambas com as mãos, unhas e dentes, depois de partidas as armas de que vieram munidas.
Duarte Nunes do Leão, na Crónica de D. João I, não diz a qualidade das armas. A agressora ficou vencida, tendo de fugir para dentro da villa, ferida e quasi sem cabello, levando nos focinhos muitas nódoas de punhadas da de fora, que ficou vitoriosa. No arraial portuguez foi ruidosamente celebrada a victória de Ignez Negra, e no dia seguinte Melgaço caia no poder do Mestre de Aviz. A intrépida mulher estava no alto da plantafórma, onde o pendão das quinas ondeava ovante, no próprio mastro em que na véspera ainda se ostentava orgulhosa a bandeira castelhana, e dizia no seu transporte de alegria para os besteiros que a cercavam; «Mas vencemos-te! Tornaste ao nosso poder! És do rei de Portugal!»
Em 1807, quando se deu a invasão franceza, Melgaço foi a primeira praça de guerra que expulsou os soldados de Napoleão, aclamando o príncipe regente D. João e a Liberdade, a 11 de junho de 1808. (Comentário: Este facto não corresponde à verdade. Os soldados franceses não chegaram a passar por Melgaço. A vila de Melgaço proclamou-se fiel ao príncipe regente D. João!) Bragança seguiu-lhe o exemplo, fazendo a aclamação a 11, pondo-se à frente dos restauradores o general Sepulveda.
Instantaneamente a revolução se propagou pelas províncias do norte, e o Porto fez a sua aclamação a 19. O Algarve e o Alentejo deram o grito da Liberdade no dia 20, tudo do referido mez de Junho.
A villa pertenceu à Casa de Bragança, e todos os ofícios eram dados pelos duques. Conserva ainda parte do seu antigo aspeto. A cinta de muralhas que protegia a villa tornou-se por fim um obstáculo à sua expansão, e apearam-na por isso, abrindo novas ruas e levantando novas edificações. Como que se divide assim em duas partes, chamadas fora da villa e dentro da villa. A primeira tem boas construções modernas, airosa e desafogada, sendo a segunda sombria e pesada, ainda com o característico das nossas antigas povoações. A igreja matriz de Melgaço é simples e d’uma só nave.
Próximo do convento dos religiosos da ordem Terceira de S. Francisco, que pertence hoje à Misericórdia, e n’uma elevação, vê-se a capella da Senhora da Pastoriza; o seu altar mor é de talha antiga. A 1 km da praça está o Santuário de Nossa Senhora da Orada, edificado sobre o cume d’um monte. Desde aquella igreja até à villa vê-se a estrada povoada, d’uma e d’outra parte, de casas, hortas, prados, fontes e pomares, que faz da estrada um bonito passeio. O templo é de boa cantaria. Foi até 1834 da jurisdição dos monges do convento de Santa Maria, de Fiães, por doação de D. Sancho I, que o havia herdado de seu pai. Este templo é muito antigo, e ignora-se a data da fundação. Dizem que já existia no tempo dos godos. D. Affonso Henriques, achando-o em ruínas, o mandou reedificar pelos annos de 1170, como consta d’uma escriptura de doação, feita por D. Sancho I, em Santarém, a 11 de Setembro de 1207, assinada pelo rei, todos os seus filhos e prelados do reino. A imagem de Nossa Senhora da Orada é de muita devoção dos povos d’estas localidades, e desde a quinta feira da Ascenção, até à festa do Espírito Santo, ainda hoje ali vão de romaria a maior parte das freguezias dos concelhos de Melgaço, Monção e de Valladares, oferecer à Senhora o resíduo do círio pascal, levando os seus respetivos párocos e ao menos uma pessoa de cada casa. É cumprimento d’um antigo voto, feito por ocasião d’uma grande peste, de cujo flagelo foram estas terras preservadas, tendo sofrido muito as outras. Ainda hoje se fazem procissões de penitência com um enorme cortejo. Perto d’esta igreja havia uma propriedade chamada Quinta da Orada, que a condessa D. Frouila deu ao mosteiro de Fiães, assim como a Quinta de Cavalleiros, na freguesia de Rouças, d’este concelho, em 16 de Dezembro de 1204. Melgaço pertence à 3ª Divisão Militar, 5ª Brigada, Grande Circunscrição do Norte, e ao distrito de recrutamento nº 3, com sede em Vianna do Castello. Tem escolas para ambos os sexos, estação de telégrafo e postal com serviço de emissão e pagamento de valles do correio e telegraphicos, cobrança de recibos, letras e obrigações, e serviço de encomendas, permutando malas com a R. A. M.
Tem Misericórdia, hospital, advogados, notário, médicos, pharmacias, agências bancárias e das companhias de seguros Previdência, Tagus, e da Equitativa dos Estados Unidos do Brazil, agência de vapores, casas de pasto e de bebidas, vice-cônsul hespanhol e do Brazil, sociedade Recreio Melgacense, feiras mensais nos dias 9 e 14.
Tem-se publicado em Melgaço os seguintes jornais: Espada do Norte, 7 de janeiro de 1892; é continuação do Melgacense, 1 de dezembro de 1887; Jornal de Melgaço, 1 de dezembro de 1893; em publicação, dezembro de 1908; Melgacense (O), 6 de novembro de 1887 a 18 de outubro de 1888; Melgacense, 16 de julho de 1896; No Jornal de Melgaço, 27 de janeiro de 1898.
Do castello ou torre do relógio, ainda bem conservada exteriormente, desfruta-se um bonito ponto de vista para a maior parte do concelho e para Hespanha. No local de Barzia, da freguesia de Paderne, do concelho de Melgaço, existe a quinta de Peso, em que há uma nascente de aguas mineraes, que são claras, transparentes, inodoras, de sabor picante e muito gazozas. As aguas de Pezo de Melgaço tornam se notáveis por serem as que em Portugal contem maior proporção de carbonato de cal, e das que mais acido carbónico apresentam.
São muito usadas contra as dyspepsias, lithiase biliar e diabetes. O concelho de Melgaço compõe-se de 18 freguezias com 3 776 fogos e 14 910 habitantes, sendo 6 400 do sexo masculino e 8 510 do feminino. As freguezias são: S. Martinho, de Alvaredo, 760 hab.: 332 do sexo masc. e 428 do fem.; Santa Maria, de Castro Laboreiro; 2 019 hab., 934 do sexo masc. e 1 116 do fem.; Santa Maria Magdalena, de Chaviães, 653 hab.: 263 do sexo masc. e 390 do fem.; S. Martinho, de Christoval, 755 habitantes: 290 do sexo masc. e 465 do fem ; S. Thomé, de Cousso, 551 hab.: 218 do sexo masc. e 333 do fem.; Santa Maria, de Cubalhão, 345 hab.: 158 do sexo masc. e 187 do fem.; Santa Maria, de Fiães, 783 hab.; 308 do sexo masc. e 475 do fem.; Santa Maria, de Gavea, 622 hab.: 260 do sexo masc. e 362 do fem.; S. João Baptista, de Lamas de Mouro, 205 hab.: 63 do sexo masc. e 142 do fem.; Santa Maria da Porta, de Melgaço, 1 080 hab.: 461 do sexo masc. e 619 do fem ; Santa Maria, de Paços, 667 hab.: 300 do sexo masc. e 367 do fem.; S. Salvador, de Paderne, 1:908 hab.: 829 do sexo masc. e 1:079 do fem.; S. Mamede, de Parada do Monte, 801 hab.: 375 do sexo masc. e 429 do fem.; S. Bartholomeu, de Penso, 1 072 hab.: 463 do sexo masc. e 609 do fem.; S. Lourenço, do Prado, 530 hab : 213 do sexo masc. e 317 do fem.; S. João Baptista, de Remoães, 165 hab.: 71 do sexo masc e 91 do fem.; Santa Marinha, de Rouças, 942 hab.: 414 do sexo masc. e 528 do fem.; S. Paio, de S. Paio de Melgaço, 1 019 hab.: 449 do sexo masc. e 570 do fem.
O principal comércio do concelho é milho, feijão, vinho e presuntos."





Extraído de: PEREIRA, Esteves & RODRIGUES, Guilherme (1909) - Portugal - Diccionário Histórico, Chorographico, Biográphico, Bibliográphico, Heráldico, Numismático e Artístico. João Romano Torres & Companhia; Lisboa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A História da Capela de Santo António do Campo da Feira de Melgaço



A extinta capela de Santo António, ficava situada no antigo Largo do Comércio, ao fundo da atual Praça da República, na vila de Melgaço mas foi demolida no início do século XX. Foi mandada construir por Pêro de Castro, fidalgo melgacense e alcaide-mor da vila, morto na batalha de Alcácer-Quibir e era local de paragem obrigatória das principais procissões organizadas pela Misericórdia.
A sua construção terá começado por volta de 1570 mas apenas foi concluída alguns anos mais tarde já no tempo de Gil Gonçalves Leitão, juiz de fora de Melgaço e provedor desta Santa Casa da Misericórdia. Sabemos que este determinou em 1595 que se terminassem as paredes desta ermida. Estas informações podemos encontrá-las no Livro dos Provedores, onde se lê numa memória posterior de 1597: O Licenciado Gil Gonçalves Leitão juiz de fora que foi nesta vila e provedor que foi nesta casa fez acabar a ermida de Santo António de paredes que havia muitos anos que estava começada por ordem de Pêro de Castro, alcaide-mor desta vila”.
Foi já com outro provedor em funções, também juiz de fora, António de Távora, que a capela foi concluída, logo depois de uma pequena festa organizada por sua esposa, Dona Maria de Anciães, para comemorar o dia do batizado de seu filho Jerónimo em 16 de Janeiro daquele ano de 1600, festa que marcou pela roda de fidalgos amigos reunidos à sua volta. Nessa altura, o carpinteiro tinha-lhe dito que o retábulo da capela estava terminado mas para o santo sacrifício, faltavam os últimos retoques. Urgia dar-lhos e não desperdiçou tempo.
Em 16 de Fevereiro de 1600, reuniram-se os irmãos nobres Gonçalo Rodrigues de Araújo, escrivão e tabelião, o comerciante Henrique Coronel, Estevão d’Amorim, sargento-mor das Ordenanças, Manuel da Cunha, para quem tinha sempre um gracejo por causa dos compadrios, Manuel Ribeiro, casado com Isabel Gomes, morador em Eiró e secretário da Câmara e João Gomes Ribas, mercador e homem de grandes negócios ao tempo e os irmãos mecânicos João Dias, Pero Gomes, António Martins, Gonçalo Coelho, o carpinteiro Álvaro Vaz e Gaspar Rodrigues Pereira, alfaiate e então deixam escrito para memória futura “assentou-se em mesa que por a Casa de Santo António do campo da feira ser anexa a esta Casa é esta consertada e ordenada para nela se dizer missa e sagrar Francisco Soares, abade na vila, o capelão desta Casa e provedor e mais irmãos abaixo assinados em seu nome e dos que em diante foram ditos que eles se obrigavam com as esmolas da dita casa a fabricar todo o necessário à fábrica da dita igreja de Santo António e isto com declaração que não chegando as esmolas desta casa, a dita fábrica se obriga a tudo satisfazer de suas fazendas e o irmão que for do mês será obrigado a arrecadar as esmolas que aí se derem para todo o ano; cada irmão seu mês para as dar para as dar aos tesoureiros da dita casa que agora e em diante forem e sendo necessário fazer nesta caso escritura pública se obrigavam a fazer logo para o qual requereram ao arcebispo a licença de se dizer missa na dita capela”.
O Sargento-mor Estevão d’Amorim deixou um relato da festa da benção da pequena ermida em 27 de Março de 1600, que era segunda-feira da semana santa. Nele pode ler-se: ”Aos vinte e sete do mês de Março do ano de mil e seiscentos anos nesta Casa da Santa Misericórdia desta vila de Melgaço onde estava o provedor e irmãos em cabido com campa tangida se levou desta Casa da Santa Misericórdia se levou o bem-aventurado Santo António com procissão a sua Casa que para ele estava fabricada no Campo da Feira por ordem da dita Casa no qual dia acima se disse a primeira missa cantada com licença do Vigário Geral desta Comarca como dela e dos papeis consta que estão no Cartório desta Casa de que mandou fazer este assento para todo o sempre constar desta verdade e assinaram estando presente o senhor abade Francisco Soares…”
Para o culto de Santo António mais uma capela se construíra e esta foi a primeira a erigir-se no nosso concelho ao santo de quem o juiz de fora era tão devoto, que aproveitando a animosidade dos almocreves, por serem obrigados a fazer o papel de diabretes nas procissões do ano, conseguiu comutar aquele jogo numa confraria instituída na dita ermida, em honra do glorioso Santo António, com duas missas em cada mês, o que se fez com consentimento dos vereadores de então.
Contudo, já durante a segunda metade do século XVIII, esta capela encontrava-se num estado bastante degradado. O arrefecimento da devoção a este santo veio com o rodar dos tempos e a consequência do facto foi o desinteresse de todos pela capela. Em 1773, ameaçava ruína e por isso «dentro dela se anda rectificando e se lhe faz um grande acrescentamento», registou o Padre Manuel da Ribeira, abade da vila de Melgaço.
No ano confrarístico de 1842-1843, gastou a Misericórdia mais de duas dezenas de escudos na compra de barrotes para o telhado desta capelinha e o conserto do mesmo. Sabemos porém que nos princípios de 1854 estava «em partes completamente arruinada e até próxima a ir a terra».
Dado o seu delicado estado de conservação, em 1867 foi decretada pela Câmara a sua demolição. Contudo, este pequeno templo apenas seria demolido no início do século XX.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Viagem a Melgaço de meados do século XX


Paços do concelho (vila de Melgaço) em meados do século XX

Viaje no tempo e veja ou reveja a vila de Melgaço de outro tempo. Momentos captados na vila de Melgaço em meados do século XX. Cenários que ainda fazem parte das memórias de alguns...
Veja o vídeo!...

domingo, 22 de novembro de 2015

Praça da República (Melgaço): Uma viagem pelos últimos 100 anos



No início do século XX, era chamada de Praça do Comércio mas com a mudança de regime político, esta praça passou a evocar o regime republicano. Esta é Praça da República na vila de Melgaço!
Conheça as transformações nestes últimos 100 anos neste que é um dos mais bonitos espaços na vila de Melgaço... Veja o vídeo abaixo!

sábado, 9 de agosto de 2014

A fortaleza de Melgaço: Da construção da tenalha à Praça da República

Aspeto da fortaleza de Melgaço no século XVIII, com a tenalha que ocuparia o espaço da atual Praça da República

No século XVII, no contexto da Guerra da Restauração da independência portuguesa (1640-1668), as defesas da vila de Melgaço sofreram obras de adaptação aos avanços da artilharia, recebendo linhas abaluartadas que envolveram o recinto medieval, destacando-se a inutilização da porta meridional do túnel do fosso com a construção de uma nova linha de muralhas, a abertura de uma nova porta no recinto do castelo provido por uma barbacã de porta, o acréscimo de novos elementos como falsas bragas ao redor de todo o perímetro da cerca, seguindo o antigo traçado do fosso, três baluartes orientados para os principais pontos de defesa, e uma tenalha, exteriormente defendida com um través e com uma das portas defendida por uma barbacã poligonal.
Durante as escaramuças fronteiriças com os castelhanos em 1641 (quando daqui partiu a invasão da Galiza por forças sob o comando de D. Gastão de Sousa Coutinho), 1657 e 1666, a fortaleza de Melgaço cumpriu o seu papel de dissuasor de qualquer investida inimiga.
A praça ainda se revestia de interesse estratégico ao final do século, quando sofreu nova campanha de obras. Neste momento foram alteradas as paredes laterais da antiga couraça para uma planta sensivelmente triangular, mantendo a cabeceira semicircular, com porta orientada para a Porta do Campo da Feira, foi atulhado o fosso medieval, aberta uma nova porta na couraça, entre duas casas, na parede voltada a norte para dar acesso a um espaço adjacente à falsa braga.
Sob o reinado de João V de Portugal (1706-1750) uma planta de Manuel Pinto de Villalobos, datada de 6 de novembro de 1713, mostra a vila medieval envolvida por uma fortificação abaluartada. A nova fortificação tinha os baluartes orientados para os principais pontos de defesa: dois para o curso do rio Minho e o terceiro, cobria o flanco meridional, voltado ao rio do Porto e à única ponte que o atravessava. Dos três baluartes o mais importante era o virado a sul, constituído por dois meios baluartes geminados, no local onde hoje existe a praça fronteira à Câmara Municipal. A tenalha, imponente, tinha acesso ao interior por duas portas quase simétricas, uma no enfiamento do caminho que vinha da ponte sobre o rio do Porto (atual Rua Afonso Costa) e a outra na abertura da porta voltada à Rua do Castelo e à Igreja Matriz, defendida por uma barbacã poligonal, destruindo uma das torres da muralha do castelo, e, consequentemente, desmontando o antigo paiol, reconstruído noutro local. A tenalha e a muralha descobertas na Praça da República a fechar uma das passagens do fosso denotam ser uma construção apressada, que utilizou pedra de qualidade técnica aligeirada, de fraco aparelhamento e assentamento irregular.
Posteriormente, uma planta elaborada pelo sargento Gonçallo Luís da Sylva Brandão, com data de 1758, retrata ainda os três principais pontos de abastecimento de água à época: a cisterna, um poço no interior da povoação e a fonte da vila. No ano seguinte, a 8 de outubro de 1759, a praça foi inspecionada pelo Comissário da Vedoria Geral de Província, Estêvão Barbosa de Araújo, acompanhado pelos engenheiros Francisco de Barros e José Maria da Cruz.
Em 17 de dezembro de 1761 o relatório de inspeção, enviado a D. Luís da Cunha pelo Sargento-mor de Batalha, António Carlos de Castro, referiu a necessidade de duas tarimbas no quartel dos soldados, de se fazer as duas faces do cunhal sul, de se colocar uma porta nova na barbacã da porta, e de refazerem-se as portas de baixo, e serventia da Praça da parte da Galiza. Adicionalmente precisavam-se fazer portas novas para as entradas norte e sul da tenalha, repor cantaria no parapeito da praça na distância de 200 palmos e na altura de 5, mandar fazer as plataformas de madeira para a artilharia, consertar e retalhar os armazéns e o quartel de infantaria, visto estarem em "mizeravel estado", e recomendava-se ainda olear as portas novas e as janelas dos armazéns das armas e da praça, e fazer a porta interior do paiol, que tinha 6 palmos de altura e 4 de largura.
Em 1786, aquando do falecimento do alcaide-mor Sebastião de Castro Lemos, o castelo estava arruinado ou quase todo caído. Nesse ano procedeu-se a reparação do mesmo, em caráter de urgência, mandada executar pelo juiz de fora Dr. António José Pinto da Rocha, com a renda da alcaidaria, tendo-se, no entanto, reparado essencialmente a torre de menagem.
Entre 1789 e 1800 uma nova inspeção à praça de Melgaço descreve-a como obra antiga com uma torre e uma muralha simples, possuindo da parte de fora alguns baluartes "muito pequenos, de pouca consideração incapazes de poder jogar a Artilharia"; os armazéns e os quartéis estavam em grande ruína; declarava-se que a fortaleza não tinha préstimo militar. Nesse período, em 1792 o soberano proibiu a existência de edifício ou cultura dentro dos fossos ou sobre qualquer obra de fortificação das praças e fortalezas da Província do Minho.
Em fevereiro de 1797 teve lugar a inspeção pelo Sargento-mor de Engenharia, Maximiano José da Serra, que determinou a reparação de soalhos e telhados, e a construção de portas e janelas com ferragens adequadas. Nesse mesmo ano foi feitas a reparação do telhado do paiol e do edifício do corpo da Guarda, onde haviam abatido várias "porções" de paredes, construída lareira na Casa da Guarda nos quartéis e conclusão das tarimbas.
Custódio José Gomes de Villasboas, em 1800 descreveu o castelo de Melgaço como “hum castello de construcção antiga, e muralhas altas, em que laboravão algumas peças de que ha pouco se desguarneceo; tem corpo da guarda, e pequenos quarteis, com huma espécie de obra coroa, dominando a estrada que por alli vai a Cristoval para a Galiza”.
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814) quando da primeira invasão do país pelas tropas napoleónicas (1807-1808), as muralhas de Melgaço encontravam-se arruinadas. Por volta de 1808, em uma nova avaliação do estado das fronteiras do rio Minho o engenheiro militar responsável considerou que seria mais vantajoso gastar o dinheiro na construção de pequenas baterias, que se poderiam estabelecer em tempo de guerra em locais oportunos, do que na reparação e conservação daquelas praças.
GUERRA (1926) informa que cabe a Melgaço a honra de ser a terra de Portugal que primeiro se levantou contra o domínio francês, erguendo a bandeira nacional a 9 de junho de 1808. Conservava, naquele momento, 7 peças de artilharia.
No mesmo momento, o Sargento-mor Engenheiro Custódio José Gomes Vilas Boas descreveu Melgaço como um pequeno recinto que encerrava parte da vila com muralhas altas, mas que tinha um terrapleno com parapeito tão escasso que mal se podia manobrar a artilharia; a única serventia era como ponto de reunião e de permanência temporária, de onde se podia partir para defender a Ponte das Várzeas (15 de junho de 1808).
Em 1810 para a defesa da praça de Melgaço, construíram-se baterias em pontos vitais para a entrada de um exército invasor pela Galiza: uma em São Gregório, outras na estrada entre a vila e a Ponte das Várzeas, outras ainda foram projetadas mas não construídas. Essas baterias de campanha eram feitas com parapeitos de terra, próprias para receber soldados com armas ligeiras, mas também onde se poderiam colocar peças de artilharia.
Em um documento de 23 de maio de 1840 a antiga torre de menagem encontra-se referida como “torre do relógio”, informando-se que o castelo era circundado por exteriormente por um "caminho de piquetes", tendo a leste um hornaveque, e a norte algumas obras baixas; a fortificação encerrava um quartel para uma campanha e um armazém convertido em quartel; o recinto magistral estava em bom estado, o castelo tinha uma parte da muralha arruinada, as portas e os quartéis precisavam de conserto; o hornaveque estava arruinado e cheio de casas particulares por dentro e por fora; ao longo do "ramal" sul tinha casas adossadas, algumas mais altas do que a muralha; as obras baixas estavam em bom estado.
Neste momento, em meados do século XIX, registou-se a desativação da tenalha que, por Aviso do Ministério da Guerra de 13 de agosto de 1856 viria a ser demolida. Uma planta da época mostra a couraça com adarve, ao qual se acedia por escadas interiores. Outra planta, com data de 1857 mostra boa parte da área militar e sua envolvente aproveitada para a agricultura. Ainda à época, uma planta com data de 1859 mostra que ainda subsistia a "couraça nova" desenhada por Duarte de Armas no século XVI, embora agora tivesse adossada pelo lado de fora uma casa e, pelo lado de dentro, três prédios.
Entretanto, a vila ia crescendo fora de muros e, ao atingir-se o último quartel do século, Melgaço, como outras vilas e cidades muralhadas no país, acabou por ser alvo das ideias desenvolvimentistas que viam nas antigas fortificações um estorvo ao crescimento urbano.
Da demolição da tenalha, surge a Praça do Comércio, mais tarde chamada de Praça da República. Tal é corroborado pelo Prof. Carlos A. Brochado de Almeida, que afirma “a Praça da República, na sua actual configuração, corresponde à área da antiga tenalha, obra defensiva projectada e erguida por causa das Guerras da Independência ou da Aclamação”em meados do século XVII.
Esta praça, de forma triangular, cujo eixo longitudinal se orienta a nascente/poente, constitui um mostruário da casa urbana minhota de oitocentos, sendo alguns exemplares de referência.
É o caso do prédio, no extremo norte/este, com um corpo rectangular, de dois pisos em cantaria autoportante de granito aparente, de aparelho irregular com juntas provavelmente em cimento, e mansarda rebocada e pintada a branco excepto molduras, cunhais e frontão triangular de remate da mesma. A dita mansarda e a varanda central do piso inferior compõem e acentuam a centralidade e a simetria da frontaria, quebrando a sua horizontalidade sublinhada pelo correr das varandas do piso 1 (a central para três vãos e as laterais para um vão), pela cornija e pela platibanda. A fenestração, alinhada entre todos os pisos, no corpo principal consiste em cinco vãos em arco quebrado (por piso) e o corpo da mansarda apresenta-se com três janelas de padieira ligeiramente encurvada.
Pode-se também citar, o edifício da farmácia, de planta longitudinal, de dois pisos e cuja fachada, de frontaria marcadamente horizontal, rebocada e pintada a branco excepto molduras, cunhais, frisos, embasamento e cornija, apresenta uma sucessão de cinco janelas de balcão sobrepostas a outras tantas portas rectangulares no piso térreo. De notar as ‘pinhas’ em vidro das varandas gradeadas e as grinaldas lavradas no lintel encurvado das janelas de sacada. Sobre a linha do telhado implantou-se uma fila de mansardas revestidas a folha de zinco ondulada pintada a branco e com janela de guilhotina.
Do lado oposto da praça, a sul/oeste, destaca-se um outro edifício, de três pisos, rebocado e pintado a cinza excepto molduras, cunhais, embasamento e cornijas. No piso térreo as portas e janelas são rectangulares com vergas rectas e encurvada (na porta central) e possuem molduras ligadas ás varandas do piso intermédio detentor de janelas de sacada em arco ogival. Este piso é rematado por cornija sob varanda corrida gradeada e ladeada por urnas sobre os cunhais. A rematar a fachada e ao centro ergue-se o último piso, mais estreito, coberto com telhado de quatro águas e fenestrado por três janelas rectangulares. Destacam-se a cancela e os lavrados da porta central do piso térreo e o belo desenho das bandeiras das janelas ogivais.
Os espaços públicos desta praça já foram alvo de vários arranjos. Um desses é aquele que mostramos na foto com a praça jardinada e que data de meados do século passado.

Praça da República por volta de 1950


Extraído de:
 - ALMEIDA, Pedro Miguel D. Brochado de e ALMEIDA, Carlos A. Brochado de (2006) - A intervenção arqueológica na casa n.º 92 da Rua Hermenegildo Solheiro, in ‘Boletim Cultural’, n.º 5, Ed. Câmara Municipal de Melgaço, Melgaço.
- MARTINS, Andreia et al (2008) – Melgaço – Defesa e morfologia urbana. HAP, FAUP, Porto.
 - Revista Municipal, n.º 35, Ano 23, Ed. Câmara Municipal de Melgaço, Melgaço, Abril 2005.
- ACER (Antero Leite e Susana Ferraz, 2007).

- www.fortalezas.org.