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Fronteira entre S. Gregório (Melgaço) e Ponte Barxas |
A revista Rua na sua edição online publicou uma reportagem acerca do contrabando e da emigração ilegal na raia do Minho, e em especial nas fronteiras de Melgaço com o título "Nada a declarar". Reproduzo aqui o texto "O contrabando foi o
sustento para muitas famílias. Após o 25 de abril e o Acordo de Shengen, a
atividade tornou-se obsoleta e a Guarda Fiscal foi suprimida. Percorremos a
fronteira em busca de memórias desses tempos. Contrabandistas, guardas-fiscais
e passadores eram vizinhos, amigos e até familiares. Hoje, a fronteira está
deserta.
“Na raia não havia
nacionalidade. Este espírito de fronteira era de facto diferente” conta Avelino
Fernandes, antigo guarda-fiscal. Hoje, aos 68 anos sente saudades da confraternização
com os colegas de profissão. Mais a sul, entre Caminha e Valença, onde o rio
Minho começa a alargar o seu leito em direção à foz, situa-se Vila Nova de
Cerveira. “Se não fosse a emigração isto estava tudo muito mal. O que é que
faríamos?”, a saga dos contrabandistas que atravessavam o rio Minho é contada
por João José Costa Oliveira, mais conhecido como ‘Catrelo’, hoje com 77 anos.
“São Gregório virou uma localidade fantasma. Havia três ou quatro lojas que
vendiam uma barbaridade. Acabou-se o cambio da moeda”, relembra Alfonso
Viso, um espanhol apaixonado pela história da região. Em Melgaço, todos dizem
conhecer alguém que andou no contrabando, mas poucos são os que têm vontade de
falar, quer por receio de represálias antigas, quer por pressões familiares.
“Infelizmente, algumas pessoas têm um certo receio de falar porque se sentem
reticentes, mas há outros que fazem-no com muito prazer, com muito orgulho”,
diz Catarina Oliveira, socióloga e funcionária do museu Espaço Memória e
Fronteira.
O Trancoso, um pequeno
afluente do rio Minho – que pode ser cruzado a pé – fez desta fronteira uma das mais conhecidas do país.
O rio, de curto caudal, também fazia parte da rota do contrabando. Trazer a
mercadoria de um lado para o outro era uma arte que podia ser crime mas que não
era pecado. Pão, açúcar, ovos, sabão, café e tecidos eram alguns dos produtos
contrabandeados. A fronteira não delimitava a ação de homens e mulheres,
adultos e crianças que percorriam a obscuridade para ir buscar ao lado de lá o
que fazia cá falta.
Estamos com um pé em
Portugal e outro em Espanha na fronteira de São Gregório, freguesia de
Cristóval. Andávamos à procura do marco número 1, em Cevide, a localidade
portuguesa conhecida por ser o lugar mais setentrional de Portugal, quando
decidimos dar um salto a Espanha. Nos dias de hoje, quando atravessamos a
fronteira para a Galiza não há nenhum guarda para nos pedir o passaporte.
Antigamente, para ir comprar alguma coisa ao outro lado – quer porque cá não
havia ou porque lá era mais barato –, a adrenalina seria diferente. Parámos no
café Frontera, em Ponte Barxas, Padrenda, onde encontramos Alfonso Gómez Viso.
O galego conta que anda a promover a localidade de Padrenda e que escreveu um
livro sobre a região, ainda à espera de ser editado. Convida-nos a fazer uma
visita guiada pela zona da antiga ramboia – o termo galego usado para falar do contrabando nesta
zona.
“Eu,
com quatro anos, dormia em cima das caixas das bananas”, conta Alfonso
Gómez Viso. Com 37 anos, as memórias que tem do contrabando cingem-se aos anos
80, quando o tráfico de mercadorias aparece em grande escala. Gado e bananas
são os produtos mais conhecidos, mas também se passavam outras frutas, vacas e
porcos de um lado para o outro. Nas aldeias raianas havia uns barracões, as
garagens, onde guardavam tudo. Catarina Oliveira conta que “as pessoas que se
recordam dessa altura, falam de um contrabando não tanto impactante como o de
antigamente”.
Subimos a Serra do
Laboreiro. Num instante estamos em Espanha e sem dar conta regressamos a
Portugal. Parámos na fronteira entre uma aldeia portuguesa e uma galega,
Alcobaça e Azureira, separadas pelo Rio Trancoso. Para além do tradicional
marco fronteiriço nada indica que mudámos de um país para outro, a fronteira
não passa de uma linha imaginária entre marcos situados a muitas centenas de
metros uns dos outros.
– Para lá fica
Portugal, para cá fica Espanha.
É um sotaque português,
vindo de uma senhora vestida toda de preto, com um lenço na cabeça. Eu, do lado
português. Ela, do lado espanhol. Dois palmos distanciavam-nos.
– Não quer contar uma história do contrabando?
– Eu não sei nada do contrabando, ainda para mais sou
mulher de um guarda. Como é que posso saber?
A
proximidade do comércio espanhol fazia com que a população se deslocasse às
terras vizinhas para poupar. “Aqui, o contrabando era de alimentos,
televisores, marisco. Era o contrabando de não pagar o imposto. De passar de um
lado para o outro sem tirar dividendos disso”, explica Alfonso. Inicialmente,
na década de 40, o contrabando começou com o café porque Portugal tinha-o em
abundância e era de melhor qualidade. “Também levavam sabão porque as
principais fábricas situavam-se no norte. Em compensação, bens alimentares como
arroz, açúcar amêndoa, chocolate, eram mais baratos em Espanha e vinham de
Espanha para Portugal”, explica Catarina Oliveira.
“É muito curioso. Aqui
dizem que as vacas mudavam de cor. Mas o que acontecia é que mudavam de sítio.
O vitelo ia para Espanha e a vaca ia para Portugal”, conta Alfonso. É frequente
haver terras de cultivo de um mesmo proprietário com metade em Portugal e
metade em Espanha. “Era a desculpa perfeita para passar o gado de um lado para
o outro. Não era um contrabando mau, era de subsistência. As pessoas têm receio
de falar porque não querem assumir que era uma forma de vida que havia”,
acrescenta Alfonso.
A ponte é o que marca a
zona de contrabando das pessoas desta zona. Uma garagem, outra garagem, mais uma
garagem. “A sinalética é típica, quando deixavam uma janela aberta queria dizer
que podiam passar. Estava tudo acordado com o guarda”. Hoje em dia, está tudo
fechado. Destas garagens saiam e entravam produtos. Um dos locais era a
povoação de Cela, onde se construíram enormes garagens nos anos 70 e 80.
Regressamos a Alcobaça, a
aldeia onde começa a raia seca. A aldeã conta-nos: “Na Azureira havia ainda
aqui três lojas, veja lá, para vender a quem?” Durante as noites, as lojas
estavam abertas para se poder conviver, beber cerveja e petiscar. Alfonso
continua a nossa visita guiada: “Aqui era mais convivência porque toda a gente
conhecia tudo. Agora não há ninguém”. A aldeã remata: “Estavam abertas quando a
gente lhes batia à porta”.
“A ‘pareja’ já tinha
passado para cima. Havia a hora da muda, que era quando nós atuávamos”, explica
o antigo contrabandista. O chamado ‘aguardo’ era feito por dois soldados que
percorriam os locais por onde poderiam passar os contrabandistas. Havia um pacto
de cavalheiros: quando o guarda avistava alguém, gritava “larga!” ou dava
alguns tiros para o ar. O contrabandista devia deixar a mercadoria e fugir sem
que os guardas fossem no seu encalço. “Os contrabandistas têm histórias de como
nos conseguiam enganar e nós temos as nossas histórias. Às vezes, juntamo-nos e
até vamos tomar um café. É uma forma de revivermos um pouco esta vida e esse
tempo que aqui se passou”, conta Avelino Fernandes, conta o antigo
guarda-fiscal.
Evitavam-se
os guardas-fiscais do lado de cá e os carabineiros do lado de lá. O
contrabandista socorria-se de truques e artimanhas para passar a mercadoria. O
guarda-fiscal fazia o mesmo, mas no sentido inverso. Era o jogo do gato e do
rato que fazia parte do quotidiano e que serve hoje para confraternização nesta
zona. Era uma fronteira de oportunidades onde familiares, amigos e vizinhos
partilhavam o dia-a-dia. Hoje, a zona raiana está isolada, desertificada. O
antigo guarda-fiscal explica que a força tinha mais deveres do que fiscalizar os
bens que atravessavam a fronteira, sendo a vigia e a segurança nacional um das
missões mais importantes. “Isto era a sentinela da nação. A Guarda Fiscal fazia
apreensões aonde os apanhava. Havia aqueles mais habilidosos que diziam:
‘deixa-me ir embora e tal’. Hoje, se vai na estrada e a guarda quer multá-lo, o
que é que faz? Se ele tiver um coração mais mole, diz: ‘vá, vá-se lá embora’.
Se encontra um com coração mais duro vai multá-lo e acabou! Aqui era
igual”.
A
gradual abertura à livre circulação provocou a extinção do contrabando
tradicional. Em Melgaço, encontrámos São Gregório, na freguesia de Cristóval,
que outrora vivia sob uma azáfama de pessoas à procura de um negócio ou de uma
oportunidade. Quando as fronteiras abriram os comércios fecharam e hoje é uma
localidade deserta marcada pelos vestígios da antiga alfândega moribunda e das
casas dos guardas.
Catarina
Oliveira recolhe testemunhos de contrabandistas e de passadores pela região de
Melgaço. “Conheci vários tipos de contrabandistas, desde aqueles que o
praticavam para sobreviver, porque as famílias eram numerosas na altura e
viviam principalmente da agricultura; os outros eram os patrões, os detentores
do monopólio. Havia hierarquias dentro do contrabando”.
“Vivia-se na miséria”,
conta Catrelo. Ser contrabandista era ter uma vida de perigos. A possibilidade
de se ser preso pela Guarda Fiscal, quando ainda em Portugal, ou, bem pior,
ser-se preso pelos carabineiros, quando já dentro de Espanha, era real. Havia
ainda o perigo de cair em algum poço de água. No entanto, o maior medo dos
contrabandistas portugueses era ser apanhado por uma bala perdida de um
carabineiro. Catarina Oliveira, socióloga na Câmara Municipal de Melgaço,
conta-nos que “os carabineiros atiravam a matar! Sem dó nem piedade. Os
guardas-fiscais eram mais fáceis. O ordenado deles não era excepcional”.
Catrelo acrescenta: “Os carabineiros, havia uns que comiam, outros que não. Eu
tinha muita confiança lá. Na zona raiana tenho mais amigos na Espanha do que
cá. Quando o Vaqueiro e o Gaúcho dissessem pára, tinha-se mesmo de parar”. Para
exemplificar conta-nos uma história: “Num dia que não pude ir aconteceu a
tragédia. O meu colega, (José Maria Pereira, o Ratinho) levou um rapaz novato.
O carabineiro gritou: Alto! Mas o rapaz não parou. Se ele parasse não lhe
acontecia nada porque ele não tinha nada. Mas assustou-se e começou a correr.
Aconteceu a desgraça. Matou, matou”. Não vemos lágrimas nos olhos do antigo
contrabandista mas a exaltação revela desconforto e angústia ao recordar a
situação. A socióloga explica que “a miséria era para todos e assim todos
tinham a ganhar. Cada um recebia a sua
parte. Em dinheiro ou em mercadoria. Temos registos de apreensões, tanto da
Guarda Fiscal como da Guarda Civil”.
Normalmente, o
contrabandista era pessoa conhecida. “Os criminosos, nós não sabíamos o que ali
estava. Podiam ser assaltantes de bancos, pessoas à mão armada que tentavam
fugir pela fronteira, clandestinamente. Chegamos a prender alguns indivíduos”.
Na zona fronteiriça, era obrigatório passar na alfandega quando se queria ir a
Espanha. Segundo Avelino Fernandes, as pessoas tinham de pagar para passar.
“Havia de tudo. Havia malfeitores. Havia pessoas que pediam para ir a Ourense
porque estavam doentes. Era a vida da fronteira”.
A
zona raiana, São Gregório e Chaviães eram as zonas da manobra. Ficavam lá e só
regressavam à terra ao fim de semana. “Íamos para lá ganhar seis escudinhos”. O
trabalho de contrabando era feito em rede e bastante organizado. Sempre que
havia mercadoria a passar, o trabalho de preparação começava cedo: o
“contrator”, responsável pela operação, mandava o “garoto” dar o recado aos
“carregadores” que transportavam, às costas, a mercadoria. Na zona de Vila Nova
de Cerveira, Catrelo conta que levaram um camião de barco para Espanha.
“Desmontámos um camião Volvo no meio de um campo de milho. Para a cabine, eram
nove homens. Quem trouxe o saco das ferramentas fui eu, centenas de chaves que
até arriava. Eu era um espia, eles iam no barco e eu ficava a vigiar. Havia os
guardas, uns enfiavam o barrete e outros não. Cada um safava-se”, conta.
Nascido em 1937, João
José Costa Oliveira foi para Melgaço em 1957. “Foi lá que aprendi com o Manuel
da Garagem, o maior contrabandista que houve na zona norte. Era o chefe da
equipa daqui da zona do contrabando: lingotes, cobre, emigração, café”. Era à hora
combinada, sempre à “primeira hora”, quando o dia adormecia que o grupo se
juntava e ia buscar a carga, tomando conhecimento do percurso e do
destinatário. “Diziam-nos: precisas de estar ali em tal sítio. Não há que
falhar! Mais tarde é que abri os olhos e trabalhei por minha conta. Mas antes é
que foi o duro do contrabando”. Quando interrogado acerca da sensação que
sentia, Catrelo não hesita em responder: “Não sentia medo nenhum porque a gente
já estava viciado naquilo e o serviço tinha que se fazer sem prejudicar o
patronato. Nunca falhei aos meus patronatos!”
O contrabando não era só
de mercearia. Pelo rio Minho passava também gado. Catarina Oliveira fala-nos
que os porcos levavam-se pelo rio. “Há quem conte que também os passavam a
nado”. No rio Minho usavam uma batela para fazer a passagem. Quase sempre
durante a noite. Havia uma grande conveniência com a Guarda Fiscal, mas havia
aqueles que eram mais fiéis ao regime e que não contemplavam a atividade. O
contrabandista cerveirense exemplifica: “Cheguei a trazer suínos injetados no
barco, de lá para cá. Trouxemos três. Quando vínhamos do barco já
estrabuchavam”.
Emigração
O contrabando de
mercadorias também o foi de pessoas. “É engraçado que estas pessoas esquecem-se
de muitas coisas, mas não têm dúvidas sobre o dia que marcaram a viagem, o dia
que partiram e o dia que chegaram a França”, conta Catarina Oliveira.
Catrelo percorria o Alto
Minho como árbitro da associação de futebol de Viana do Castelo. Usava-o para
ir recrutando pessoas para dar o ‘salto’. “Quando aqui não se podia passar na
emigração, arrancava-se com eles nos carros. Telefonávamos para a Dona Maria e
para os filhos. Ficavam lá numa serração e ia um táxi levar as malas.”
Conta-nos que tinha já tudo combinado com os passadores em Espanha e que um dos
cafés, próximos da linha de comboio, abrigavam os portugueses até a hora de
partir chegar.
Depois do 25 de abril, o
contrabando e a emigração não pararam. “Levei centenas delas. Trabalhava para
os outros, ganhava 500 escudos”. Aprendida a arte de passar as pessoas para o
outro lado, começou o negócio por conta própria. “Eram 1500 escudos para os por
lá na França”. Numa madrugada, pelas cinco da manhã, um táxi parou à porta da
sua casa. Ao lado do condutor estava o chefe da polícia de Vila Fria. “Era o
senhor Abel.” Catrelo recorda: “Perguntei se havia novidade”. Havia sim, o
taxista, Joaquim Vilaça pediu-lhe para levar a filha do senhor Abel para
França, porque esta iria casar dentro de dois dias. Catrelo teve receio que
fosse uma ratoeira e ainda tentou escapulir-se. No entanto, após verificar que
o assunto era sério, aceitou fazer o serviço. “Aqui há ratoeira, tive medo! Mas
disse que ainda que fosse preso, se ela quisesse ir no dia seguinte, que
estivesse na caseta ao dar o meio-dia”. A filha do Senhor Abel partiu e nada
aconteceu a Catrelo. São muitas as histórias que nos conta e as atuais são
sobre as pessoas que regressam e o reconhecem. “Às vezes, aparecem aqui tantos
e tantos que me dizem: ‘já não me conhece mas foi você que me levou para a
França”.
A Guarda Fiscal
Em
São Gregório encontramos Avelino Fernandes, um antigo guarda-fiscal. “Vivi
naquele período que toda a gente detestava. No dia que abriu a fronteira
deitaram foguetes ali no bar. Passado uns anos estavam todos a chorar”. A
Guarda Fiscal foi o braço armado do Ministério das Finanças, particularmente da
Alfândega Portuguesa. Tinha como principal missão evitar e reprimir as
infrações fiscais. O objetivo era a obtenção de receitas, defendendo os
interesses da Fazenda Pública. Aos guardas era exigido o cumprimento da lei,
independentemente dos atos que tivessem de tomar. Qualquer objeto era considerado
suspeito e todas as pessoas que passassem a fronteira eram alvo de
fiscalização.
Os habitantes de São
Gregório sentem imensa pena de ver a antiga alfândega e as casas dos guardas
degradadas. “Na altura, havia imenso movimento. Havia uma senhora que tinha uma
taberna. Ela ajudava-os a passar. Tudo se sabia aqui. Quando via que alguém
vinha para emigrar fazia um sinal de divisa, para informar que ali estava um
guarda”, conta Catarina Oliveira.
Com a implementação em
1992 do Acordo de Livre Circulação de Pessoas e Bens no território da
Comunidade Europeia, a fronteira terrestre deixa de ser relevante como marco de
defesa do território. A Guarda Fiscal é extinta em 1993, sendo desativados
todos os postos. “Não houve drama nenhum. Uns foram integrados na Guarda
Nacional Republicana (GNR) e outros reformaram-se. O drama não foi por aí.
Houve sempre um sentimento da Guarda Fiscal que ainda hoje existe. Ainda hoje
fazemos convívios. Aquele sentimento mítico é muito difícil de se apagar. Nós
éramos como uma grande família. Fui para a GNR e fui muito bem estimado lá.
Integrei-me muito bem. Mas, claro que estive muitos anos na Guarda Fiscal e é
difícil”, ouvimos estas palavras de um saudoso Avelino Fernandes. No entanto, a
indignação também toma conta da sua voz: “Quantos empregos se perderam na
fronteira? Foram milhares! Nós éramos privilegiados. Havia um nível de vida
alto. Vivia-se bem. Ganhava-se dinheiro, gastava-se.”
Avelino conta-nos que foi
destacado para São Gregório em 1973, ano em que o Almirante Américo Tomás veio
visitar a fronteira. ‘Aqui começou Portugal’, lia-se na pedra recém inaugurada
pelo Almirante. “As letras roubaram-nas, a pedra ainda lá está”, refere o
antigo guarda-fiscal e continua: “Quando se deu o 25 de abril, as pessoas que
apoiavam o Almirante e apoiavam o regime fascista viraram-se”.
O antigo guarda-fiscal
recorda: “Vim para a Guarda Fiscal com o Marcelo Caetano. Verificou-se ali uma
abertura liberal. Claro, a mentalidade dos guardas mais antigos era diferente
da nossa. O guarda tinha que ter um comportamento muito disciplinar em relação
ao contrabando. Eles (os guardas mais velhos) apreendiam qualquer coisa e os
mais novos já eram mais passivos”.
Apesar de desempenhar as
suas funções como guarda-fiscal, não estava de acordo com muito do que se
passava no antigo regime, “chegámos a ter conflitos com a polícia política.
Eles eram capazes de nos complicar a vida, no entanto, tínhamos boas relações.
Havia determinados assuntos que a gente dizia ‘isto não está bem’” e a resposta
não tardava “Cale-se que o senhor pode ser incomodado”, recorda Avelino.
A antiga casa da
alfândega é feita em pedra com grandes arcos que antecipam a entrada. “Ninguém
gosta de ver uma casa destruída, gosta? Uma arquitetura tão linda”. Os
edifícios, na grande maioria foram entregues ao abandono, à degradação e à vandalização.
“A nossa autarquia devia arranjar aquilo conforme a sua arquitetura
original.”
Avelino gostaria de ver
este património aproveitado, como por exemplo, um incentivo ao turismo. “Como o
Museu Memória e Fronteira. O contrabando foi aqui, não foi lá (Melgaço). Não há
nacionalismo nenhum. Como é que se pode abandonar um edifício assim? Como se
pode abandonar Portugal? Criou-se ali o museu do contrabando, mas abandonou-se
um pouco o tema. Era como fazer em Lisboa um museu da agricultura”, partilha connosco.
Entramos na alfândega.
Avelino caminha ao longo de todas as salas como se tivesse acabado de entrar em
casa. Por momentos, parece estar novamente em tempos longínquos. A secretaria,
o sítio de transmissões, a zona reservada aos oficiais, o quarto do oficial, o
quarto de banho, a cozinha, a caserna. “Agora já não dá gosto vir aqui porque
está tudo destruído”.
No
entanto, Avelino Fernandes reflete acerca do impacto que o contrabando tinha na
vida dos que habitavam estas localidades: “O contrabando na fronteira terrestre
era feito pela nobreza, pelo clero e pelo povo”. Corremos contra o tempo para
preservar a memória dos tempos dos contrabandistas. Já não são tantas as
memórias vivas que nos podem esclarecer sobre aquela época para percebermos que
no Alto Minho a fronteira era apenas uma linha invisível. “Foi um sistema de
vida. O melhor da minha vida já foi. A vida intensiva que tive aqui, acabou”.
Texto de Luís
Leite. Leia a reportagem na íntegra em http://www.revistarua.pt/Noticias/Nada-a-declarar