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sexta-feira, 17 de março de 2017

Soldados monárquicos ocupam o castelo de Castro Laboreiro (1911)


Em 5 de Outubro de 1910 era implantada a República em Portugal substituindo a Monarquia. Contudo, a transição para o novo regime não seria pacífica. Existia uma falange de apoio ao regime monárquico que iriam organizar a resistência contra a República. Chefiados pelo General Paiva Couceiro, as forças realistas iriam-se refugiar nas montanhas do norte do país e na Galiza e o ambiente nas fronteiras de Melgaço era tenso na época. Existiam rumores que se estaria a organizar uma invasão a partir de vários pontos da fronteira norte portuguesa, com o objetivo de voltar a implantar a monarquia.
Na realidade, pouco mais de seis meses depois da implantação da República, fala-se nos jornais no Brasil que estes combatentes estariam algures nas montanhas de Castro Laboreiro e na serra da Peneda. Tal informação é reiterada no jornal “O Pharol”, na sua edição de 28 de abril de 1911:
“Pelas mais recentes notícias do norte, sabe-se que as forças realistas que haviam tomado posição no ponto mais alto da serra da Peneda e em S. Gregório, marcharam para sul, fazendo o trajeto pelos pontos mais elevados da serra, vindo acampar nas vizinhanças de Castro Laboreiro, província do Minho, a poucos quilómetros da fronteira com a província espanhola de Orense.
Dizem os conhecedores daquela região que a posição das forças realistas tem grandes vantagens estratégicas mas poucos materiais para ser sustentada por muito tempo.”
Como se vê, a notícia diz-nos que existiriam combatentes monárquicos a acampar nas proximidades de Castro Laboreiro. Uma outra notícia da época que encontrei no jornal, também brasileiro, “Correio da Manhã”, na sua edição de 25 e Outubro de 1911, fala-nos de um acampamento de soldados monárquicos que estariam estacionados nas ruínas do castelo de Castro Laboreiro:
Portugal em plena revolução

Uma coluna de realistas apossou-se do castelo de Castro Laboreiro, no Minho

Telegrama recebido ontem de Lisboa diz que um grupo de forças realistas está acampado nas proximidades de Castro Laboreiro em magnífico ponto estratégico que está a 15 quilómetros de Melgaço, e a vila fica situada em um alto. Próximo à vila, há um castelo muito antigo edificado sobre uma rocha de dificílimo acesso à distância de 400 metros. Esta rocha já é um castelo natural. É um gigante coroado de pedra de cantaria. É inacessível e seria inexpugnável, se não fora uma espécie de istmo muito estreito que a põe em comunicação, embora bem dificilmente, com o exterior.
Referindo-se ao castelo, diz um cronista: “Os muros são baixos, parecendo presidir à sua construção mais o agradável do que as necessidades da guerra. Tem duas portas, uma para o sul e outra para o norte. Por aquele, dizem que outrora, ainda que arriscadamente, se podia entrar a cavalo. Para a do norte, que dá para o tal istmo de rocha viva, custa a ir de gatas, porque sendo esta rocha tão inclinada e resvaladia, foi preciso abrir-lhes a peão uns toscos e estreitos degraus para subir por eles.
Ma o perigo não está ali, está no chegar à tal porta, ou antes fresta, pois que é tão estreita que pouco passará de 60 centímetros.
Ainda o visitante vai arrepiado do perigo que venceu, mas na esperança de recuperar a serenidade, quando um novo susto, porém mais horrível, mais sem nome, se apodera dele. Destaca-se-lhe à direita um penedo, que terá, quando muito, três metros de alto, ali posto pela natureza, de figura rigorosamente cónica, o que fica mesmo fronteiro à porta e a tão pouca distância que qualquer homem em outro sítio que não fosse este, a poderia salvar de um salto, mas aqui está a morte!
É um abismo profundíssimo que terá aproximadamente 350 a 400 metros que é a distância que tem de percorrer o ousado curioso se porventura tiver a infelicidade de se lhe escorregar um pé ou de se assustar”.
Tal é local onde atualmente se encontra uma das colunas do exército de Paiva Couceiro. Muito se tem falado das forças de Paiva Couceiro, dizendo uns que ele apenas tem um exército de maltrapilhos, composto por algumas centenas de assalariados, levando outros os seus cálculos a alguns milhares de soldados.”
Vem por isso a propósito transcrever o “Diário de Notícias” de Lisboa: “O Faro de Vigo” tráz notícias importantes relativas às forças de Paiva Couceiro, dizendo que se compõem de duas divisões, uma de 2000 homens, comandados por Paiva Couceiro, com 12 peças de artilharia e uma outra de 1800 homens, com quatro peças e quatro metralhadoras.
Estas forças dividem-se em batalhões de 300 homens com oficiais e sargentos, médico, farmacêutico e capelão. Os soldados são todos portugueses, não querendo Paiva Couceiro aceitar os muitos oferecimentos de gente estrangeira”.
As informações, quanto à dimensão do exército de Paiva Couceiro, não são muito claras. No artigo “Governo de Pimenta de Castro - Um General no Labirinto da I República”, de Bruno Marçal, diz-se que na realidade, este suposto exército não chegava a mil homens.
Paiva Couceiro só seria preso em 1938 em Arbo, quando ia passar a fronteira rumo a Melgaço.

Fontes consultadas:
- Jornal “Correio da Manhã”, edição de 25 e Outubro de 1911;
- Jornal “O Pharol”, na sua edição de 28 de abril de 1911;
- MARÇAL, Bruno José Navarro - (2010) - Governo de Pimenta de Castro - Um General no Labirinto da I República. Universidade de LIsboa, Faculdade de Letras, Departamento de História. 


Página do jornal “O Pharol”, edição de 28 de abril de 1911 com a notícia citada (clique na imagem para ampliar)

Página do jornal “Correio da Manhã”, edição de 25 e Outubro de 1911 com a notícia citada (clique na imagem para ampliar)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Castro Laboreiro (Melgaço) à beira de uma invasão? (1912)

Castro Laboreiro (Melgaço)
Após a implantação da República em Portugal em 5 de Outubro de 1910, os partidários da monarquia puseram-se em fuga. Falava-se que se refugiaram no norte do país e depois na Galiza. Acreditava-se que se estava a preparar uma invasão a partir de terras galegas com o objetivo de derrubar a República e restaurar a Monarquia. As forças monáquicas eram lideradas pelo General Paiva Couceiro e aquelas estariam a fazer entrar em Portugal uma grande quantidade de armas antes da grande invasão. Esta teria lugar pelas fronteiras norte do Minho e Trás-os Montes. A raia melgacense estava bastante vigiada já que havia rumores que as forças monárquicas estariam prestes a atravessar a fronteira. A esse respeito, numa sessão do Senado, a 8 de Maio de 1912 o deputado Alves da Cunha demonstrava preocupação com um rumor de uma possível invassão pela fronteira castreja da Ameixoeira. Fala então nestes termos: “Eu desejava que estivesse presente algum dos Srs. Ministros, para formular as observações que tenho em mira, não obstante a falta de S. Ex.as informarei o Senado. Desde há dias que vem sendo narrado nos jornais um acto que, dalguma maneira, tem sobressaltado a cidade de Lisboa e parte.do país. Quero referir-me àquela invasão couceirista ao porto da Ameixoeira, Castro Laboreiro, em Melgaço. Todos nós estamos convencidos de que a projectada contra-revolução monárquica não pode frutificar, nem dar mais do que o resultado de não deixar caminhar o trabalho nacional com o sossego e serenidade de que precisa. Mas a verdade é que não se trata duma incursão couceirista, cujas hostes assinalaram já o seu valor, fugindo aos primeiros tiros dos soldados da República. Trata-se, apenas, duma habilidade de contrabandistas, conforme se lê em um jornal do Alto Minho, e que é a terceira no género. Vou, pois, informar o Senado, para que todos estejamos de sobreaviso, a fim de que estes boatos não venham impedir a marcha regular da República, pelo alarme que, em geral, produzem. Há muito tempo — não digo bem — desde que os couceiristas estão na Galiza, espalhou-se que em casas da raia do Norte havia armas escondidas, destinadas aos conspiradores; e entre elas apontou-se o convento de Ganfey, próximo da Praça de Valença, de que é coproprietário um genro do digníssimo Presidente da nossa República. O convento foi cercado, despovoando-se para isso os postos fiscais até Cerveira. Resultado... ser introduzido no país importante contrabando, que os negociantes de Tuy avaliaram em muitos contos de réis. Uma habilidade. O boato tinha produzido os seus desejados efeitos e o mal-estar geral sentiu-se. Mais: S. Mamede é uma freguesia entre Valença e Monção, onde existe uma quinta e casa pertencentes a um irmão do ex-Ministro da Guerra, o Sr. Pimenta de Castro. Pois bem, espalhou-se que havia lá um grande depósito de armas destinadas aos conspiradores, e tanto bastou para a guarda fiscal se deslocar, que era o que se pretendia para a salvo se introduzir o contrabando, e ir pôr cerco à casa. Dirigiram-se para a quinta de S. Mamede, foram até muito bem recebidos pelo Sr. Caetano Pimenta e, afinal, verificou-se que não havia lá armas. O que houve foi um truque para iludir a guarda fiscal. Ultimamente, na Ameixoeira, Castro Laboreiro, deu-se o mesmo caso. Apareceu um homem a cavalo, ofegante, galopando, e anunciando aos pobres guardas que fugissem, porque sobre eles ia cair uma avalanche de couceiristas, que se dirigiam àquele posto fiscal. Os pobres homens abandonaram, com efeito, os seus postos e o contrabando entrou. Seria de armas? Seria de mercadorias? Não sei. Diz-se que o bando levou do posto fiscal as armas e munições que os guardas lá tinham, mas o jornal a que me referi diz não ser isso verdade. Esta invasão, pois, transformou-se numa incursão de contrabandistas. Disse-se aqui que o General da Divisão informara o Sr. Ministro da Guerra, dizendo-lhe que se tratava de couceirisias, de realistas. Não o creio. Nestas circunstâncias, são duas vezes prejudiciais estes boatos para a República: primeira, porque as fazendas introduzidas fogem ao imposto devido, e que tinham de pagar; segunda, porque sobressaltam e incomodam o espírito nacional. Embora não esteja presente nenhum dos Srs. Ministros, eu não podia deixar de prestar estas informações nesta casa do Parlamento, para tranquilidade de todos, as quais, decerto, chegarão ao conhecimento dos Srs. Ministros.”

domingo, 3 de novembro de 2013

Nas fronteiras de Melgaço e Monção...em busca de Paiva Couceiro (1911)


 "É entre estas vilas portuguesas, da província do Minho, que se defrontam com Galisa, que se vê a velha ponte romana, compondo o cenário extremamente pitoresco de toda a região do nosso lindo Portugal.
   São estas duas vilas, Melgaço e Monsão, das mais históricas do Minho, por feitos heróicos dos seus filhos nas guerras em defesa da integridade da pátria contra os assaltos de seus visinhos de Espanha.
   Então como agora são as terras de fronteira que despertam as atenções do publico por serem o campo de acção dos que conspiram contra o novo regime.
   Refugiados na Galisa, mercê do governo de Espanha que lhes dá quartel,  os conspiradores portuguêses tentaram passar as fronteiras pelo Minho, antes de o fazerem agora por Traz-os-Montes, realisando de facto a incursão das suas forças por Vinhaes, entre Chaves e Bragança.
   O insucesso dessa incursão foi noticiado pelos telegramas, mais ou menos contraditórios sobre os resultados da aventura, sendo, todavia, certo que houve recontro com as tropas do governo, em que de parte a parte se deram ferimentos e até mortes.
   Entretanto os conspiradores não lograram seu intento, e debandaram novamente para a fronteira da Galisa, onde parece que se conservam uns, enquanto outros desanimados dispersaram-se abandonando seus camaradas, à frente dos quaes se encontra Paiva Couceiro.
   Agora voltam novamente suas vistas para o Alto Minho, tentando entrar em Portugal por algum destes postos de fronteira.
   Não é fácil prever quanto durará tal situação desde que estas incursões tomaram o caracter de guerrilhas, como em tempos, que já lá vão, aconteceu com os celebres Remichido e Galamba, nas lutas liberaes, que por muito tempo inquietaram e não pouco prejudicaram as provincias do Alentejo e do Algarve, especialmente.

   A Historia vae, infelizmente repetindo-se. É o mesmo povo, é o mesmo país, são as mesmas paixões, e quasi um seculo decorrido, parece tudo encontrar-se na mesma ignorancia e por isso no mesmo fanatismo!"

Nota: O General Paiva Couceiro era um opositor ao novo regime republicano e tentou restabelecer a monarquia pela via militar. Perseguido pelas tropas republicanas, refugiou-se em terras galegas e por várias vezes tentou voltar a entrar em Portugal para voltar a proclamar a monarquia. Seria preso em Arbo quando tentava entrar em Melgaço em 1918.

Extraído de:
- O OCCIDENTE, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro. Nº 1181; 20 de Outubro de 1911.