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sexta-feira, 29 de julho de 2016

A misteriosa aparição da imagem da Nossa Senhora de Anamão (Castro Laboreiro)

Capela de Nossa Senhora do Anamão (Castro Laboreiro)
Há mais de 300 anos, o livro Santuário Mariano, publicado em 1712, da autoria de Frei Agostinho de Santa Maria, falava-nos de vários santuário dedicados a Nossa Senhora espalhados um pouco por todo o pais. Em particular, dedica bastantes linhas à capela de Nossa Senhora de Anamão, na freguesia de Castro Laboreiro (Melgaço) e na forma misteriosa como a santíssima imagem apareceu numa concavidade num rochedo. Além disso, dá-nos alguns pormenores da descrição da área envolvente na época. Ora leia:  “Duas léguas e meia da vila de Melgaço entre o ocidente e o meio dia, se vê situada a Vila de Castro Laboreiro. É esta terra montuosa, frigidíssima e de muita neve. A sua paróquia é dedicada a Nossa Senhora com o título de Castro. O seu castelo, que é inexpugnável, está fundado em rocha viva, que uns crêem que seja obra dos Mouros. É esta vila da casa de Bragança e ela pertence a apresentação da sua igreja.
Entre as mais ermidas que tem no seu distrito, uma delas é a de Nossa Senhora de Anumão, nome sem dúvida do lugar do seu aparecimento: esta santíssima imagem é buscada com grande devoção de todos aqueles povos circunvizinhos, pelas muitas e grandes maravilhas que obra.
Vê-se a sua casa situada em um humilde vale junto à raia do Reino da Galiza, metido entre umas serras de penhascos, aonde se manifestou. É tradição constante que apareceu numa concavidade, ou vácuo de um altíssimo penedo, que a natureza parece que formou para concha daquela preciosíssima pérola. Não consta já a quem a esta Senhora fez este favor, se foi a algum pastorinho, ou pastorinha, que por aquele sítio apascentasse algum gado, que não seria muito. Este ditoso inventor vendo a sagrada imagem daria parte da sua felicidade e afim com as notícias, que deu, vieram os moradores daquela vila a ver e a examinar o que se referia. É tradição que por duas ou três vezes, levam a sagrada imagem para a sua paróquia e que outras tantas se ausentará dela e sempre repetirá o seu antigo domicílio: a concavidade da sua pedra. Os da vila, de tão repetidas fugas, entenderam que a Senhora gostava do deserto, pois fugia para ele, e dar-lhe-iam as asas da grande águia para voar para ele, e nisto mostrava a sua vontade.
A entrada para este santuário é numa veiga, ou vale muito plano, e tão grande e dilatado, que em sua circunferência terá cinco para seis léguas. Nele nasce um pequeno rio, que cria regaladas trutas, no qual há uma pequena ponte, que chamam da Pedrinha, que se afirma ser obra dos Mouros. E quando se vai do Porto dos Cavaleiros, se passa por outro limitado ribeiro, pelo qual foi a pé o Santo Arcebispo de Braga, Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, a visitar aquela paróquia e Casa da Senhora. Tem a água deste ribeiro virtude para sarar a boca lixosa às crianças e para outros mais achaques, virtude comunicada da presença daquela misericordiosa Senhora, de cujo sítio parece, procede o seu nascimento. Passando o Arcebispo e vendo a aspereza daqueles caminhos e as levantadas serras que cercam aquele vale da Senhora, referem que dissera que tarde tornaria ali outro Arcebispo. Dom Sebastião de Matos de Noronha não o conseguiu. E só em nossos tempos o fez o Eminentíssimo Cardeal D. Veríssimo de Alencastre, quando era Arcebispo de Braga. E para prova da frialdade da terra, baste que o vinho congelasse no Inverno, de modo que para a Missa é necessário aquentá-lo. Obra esta Senhora muitos milagres e prodígios e é buscada de todos aqueles povos e vilas circunvizinhas no tempo do Verão.” (Nota: Fiz a transposição para a escrita atual.)

Extraído de: SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.

sábado, 12 de setembro de 2015

A Capela da Senhora de Anamão (Castro Laboreiro - Melgaço)

Capela de Nossa Senhora de Anamão (Castro Laboreiro - Melgaço)

No âmago dos Montes Laboreiro, transpondo a portela onde foi colocado um cruzeiro de pedra, aninhada ao fundo de uma garganta amena, ladeada por carvalhos e castanheiros, aparece uma exígua capela de invocação mariana – a capela da Senhora da Anamão – apadrinhada pela sua perene vigilante, a colossal e multimilenar fraga da Anamão.
Esta capela faz parte do espólio das 10 capelas actuais de Castro Laboreiro: a de S. Bento, em Várzea Travessa; a de S. Brás, na Açoreira; a de S. Miguel, em Mareco; a do Senhor da Boa Morte, na Ameixoeira; a da Senhora da Boavista, nas Cainheiras; a da Senhora dos Remédios, no Rodeiro, a da Senhora de Monserrate, nas Coriscadas, a do Senhor do Bonfim, no Ribeiro de Cima e de Santo António no Ribeiro de Baixo. Mas a de Anamão tem a particularidade de estar afastada de qualquer povoado, ficando o lugar mais próximo das Cainheiras a cerca de dois quilómetros. Esta peculiaridade, só por si, vaticina a existência de um presumível culto pré-cristão, espontaneamente confirmado pela vasta necrópole megalítica do planalto. A pena da Anamão é visível, praticamente, de qualquer ponto do planalto e a sua invulgar configuração criou – nos especialistas que, na década de 90, realizaram trabalhos de prospecção nesta necrópole, a suspeita de que a orientação dos dólmenes lhe pudesse estar relacionada. Num silhar do lado sul consta a data de 1663, memorando uma plausível reconstrução, no âmbito das intensas escaramuças da Restauração com os Galegos. Outra data próxima – 1690 – consta, em silhar invertido, no seu interior. As raízes inveteradas da capela de Anamão perdem-se, assim, na neblina fria do tempo, agasalhadas, durante séculos, numa milagrosa aparição, que os testemunhos dos autores setecentistas e a voz do povo se encarregaram de tornar perdurável até ao século XXI. Não faltam, por isso, motivos para acreditar que este local mítico tenha sido eleito para um qualquer vetusto culto pré-cristão. A tentativa do seu extermínio, por parte da Igreja, erigindo a capela de invocação a Nossa Senhora, não obteve um efeito total.
Reminiscências do paganismo estão bem latentes na tradição hodierna de, no dia da festividade (8 de Setembro, recentemente mudada para o primeiro domingo de Setembro), as raparigas solteiras lançarem, com a mão esquerda, uma pedra para um buraco cavado pela natureza num penedo, à margem do antigo caminho de acesso, a escassos metros da capela. Esse ritual pressagiava a passagem para o estado de casadas, ou seja, se a pedra ficasse na cavidade era sinal de que casaria ainda esse ano, caso contrário, ficava-lhe a consolação de tentar no ano seguinte. Ao efectuar o arremesso, a donzela devia pensar no seu pretendido; Quantas terão concretizado o seu anseio? Com certeza, as bastantes para fazer perdurar esta fantasia até aos nossos dias.
Em simultâneo com a construção do templo cristão propagou-se a lenda de que a Santa teria sido encontrada, por algum pegureiro ou pegureira, num buraco de um penedo e levada à igreja matriz, mas que Ela sempre voltara ao sítio onde tinha sido encontrada. Esta teima foi interpretada como vontade de que ali se lhe levantasse a sua casa religiosa, como efectivamente veio a realizar-se. Este milagre – semelhante a tantos outros espalhados por esse país fora – já vem referido na Corografia do P.e Carvalho da Costa, editada em 1706, mas com licença de 1701: “Senhora de Anamão, imagem milagrosa que está em hum valle junto da raya metida em huns grandes penhascos onde foy achada no buraco que a natureza obrou em hum monstruoso penedo; dizem a trouxerão por vezes à igreja, mas que outras tantas se tornou, causa de alli lhe fazerem Ermida”.
Esta capela possui uma planta rectangular simples e cobertura em telhado de duas águas. Paredes exteriores em aparelho de silhares graníticos com as juntas rebocadas a branco. Cruz latina remata as empenas e pináculos encimam os cunhais. Tem também um frontispício virado a Este, terminado em empena, com porta singela de vão recto flanqueada por duas pequenas frestas e encimada por vão. No alçado Sul. abrem-se duas pequenas janelas junto dos cunhais e porta de vão recto a um terço do comprimento, próxima do frontispício. Um dos silhares apresenta data inscrita: 1663. O alçado Oeste é cego e a Sul abre-se uma porta de vão recto. No interior, as paredes são rebocadas a branco com lambril pintado a vinoso, o pavimento é em lajeado granítico consolidado com cimento e o arco triunfal é pleno, sobre pilastras. O púlpito exterior granítico apresenta as guardas decoradas em baixo-relevo, orladas com moldura e ostentando como motivo central um hexafólio inscrito num círculo.

Informações extraídas de:
- http://www.geocaching.com/geocache/GC1P9VW_senhora-da-anamao
- www.monumentos.pt;

- CARVALHO, Pe. António Carvalho da Costa (1701)  – Cororgrafia portugueza, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, com as noticias das fundações das cidades, villas & lugares, que contem. Lisboa.