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sábado, 21 de dezembro de 2019

Chocolates e muito mais num jornal de Castro Laboreiro de há 100 anos atrás




Há cerca de 100 anos, publicava-se em Castro Laboreiro um jornal chamado “A Neve”. Este era propriedade da família Carabel, donos também da célebre fábrica de chocolates castreja, fundada em 1908.
Entre outros artigos de interesse, lá podemos encontrar uma secção de publicidade, dedicada sobretudo a estabelecimentos comerciais de Castro Laboreiro. Entre os anúncios que por lá podiamos ver, encontramos os dedicados aos chocolates fabricados em terras castrejas, alguns deles, deveras curiosos. Um deles contem estes dizeres: “Quereis um bom casamento? - Tomai o chocolate da afamada fábrica “Caravelos” de Castro Laboreiro que atrai a simpatia”. 




Há um outro anúncio também bastante curioso que diz o seguinte: “Quereis engordar em pouco tempo? Tomai todos os dias chocolate da afamada fábrica “Caravelos” de Castro Laboreiro”.



Podemos ver ainda um que nos conta algo acerca da fábrica:

À Espanhola
Fábrica de chocolates movida à força hidráulica, fundada em 1908 e reconstruida em 1919. Chocolates fabricados pelos últimos sistemas adotados em Madrid e Barcelona: cacau, caraca, açúcar, canela, baunilha e uma pequena quantidade de manteiga de vaca.”




Encontramos ainda outros anúncios, uns dedicados a estabelecimentos de Castro Laboreiro, outros dedicados a casas de Melgaço e Prado.












domingo, 30 de março de 2014

A família Carabel e a Fábrica de Chocolates de Castro Laboreiro

(PARTE II)

Germano Carabel, já depois de regressar dos Estados Unidos.

Foi por adorar o Chocolate Carabel que Aurora Rodrigues, uma bonita viúva de Melgaço com bens no Brasil, se enamorou de Germano Carabel. Foi pelo Setembro de 1920, no fim da romaria da Senhora da Peneda. Aurora tinha ido lá com a mãe, D. Ana, em cumprimento de uma promessa. Rezou, benzeu-se e, antes de regressar a Melgaço, quis comprar chocolates. Germano estava em fim de feira e só tinham sobrado duas tabletes. Aurora insistiu que precisava de mais. Germano e o irmão Abílio arrumavam a banca dos chocolates. Aurora fora lá cumprir promessa e não queira regressar a casa sem levar tabletes de chocolate para oferecer a amigos e caseiros. Até parecia mal não levar nada. Mas só sobravam duas tabletes. Era pouco. “Quando é que fazemos mais chocolates?”, perguntara Germano ao irmão. “Para a semana...”, retorquiu Abílio. “Pois minha senhora: na próxima semana sou eu mesmo que lhas levo a sua casa, a Melgaço. Fique descansada.”
Aurora e Germano não paravam de se entreolhar nesse fim de feira. Foi em Setembro de 1920. Em 25 de Dezembro, dia de Natal, desse mesmo ano, casavam-se. Amaram-se até ao fim da vida. Aurora morreu aos 45 anos e o marido faleceu seis anos depois, também com 45 anos (era mais novo que ela seis anos).
Anos antes, Germano Carabel viu-se sozinho em Havana, Cuba, mal o obrigaram a desembarcar. Tinha 14 anos. Fugira da casa paterna, em Castro Laboreiro. Queria ir para a América, mas entrara no navio em Vigo, como clandestino. O capitão apanhou-o, pouco depois de terem zarpado de Vigo, mas condescendeu que fosse até Cuba. Depois que se arranjasse. Até lá, a viagem ser-lhe-ia penosa, pois o dinheiro escasseava. No navio viajava um galego que queimava o tempo a tocar concertina. Germano sabia tocar acordeão. Pediu então ao galego que lhe deixasse experimentar a concertina. Os passageiros deliciaram-se com o jeito do rapaz. Proporcionou mesmo momentos animados no alto mar. As moças galegas insistiam que ele tocasse, e passaram boa parte da viagem a dançar. “Cartos, cartos” (dinheiro, dinheiro!), reclamava o dono da concertina aos patrícios. As moedas tinham que cair, senão o rapaz não dava música, nem fazia dançar ninguém. Não fosse assim, e Germano também não teria arrecadado tanto dinheiro para gastar na viagem. Chegado a Havana, foi deixado à sua sorte. Quase sem dinheiro, dirigiu-se a uma pensão e pediu emprego. Mal pôde, mandou carta para Castro Laboreiro, pedindo perdão ao pai, Domingos Carabel. E dava conta que precisava de dinheiro para chegar à América. Domingos Carabel escreveu a um compadre nos Estados Unidos e conseguiu que o filho chegasse à América. Regressou a Castro Laboreiro poucos anos depois, já o pai tinha falecido. Mas continuou com o seu irmão Abílio a fábrica de chocolate que o pai fundara.

A Família Carabel era mão para toda a obra. O fabrico de chocolates constituía a sua principal fonte de rendimento, mas, não contente com o que ganharia com isso, ainda tinha loja aberta, em Castro Laboreiro. Entre tamancos, miudezas e fazendas, também arranjava tempo para tratar de caixões e funerais. Mais tarde, começara a publicar a publicar um jornal, “A Neve”. Utilizava-o até para anunciar os seus esmerados chocolates. A  publicidade era também deliciosa nos dizeres: Quereis um bom casamento? – Tomai o chocolate da afamada fábrica “Caravelos” de Castro Laboreiro, que atrai a simpatia”. A alcunha era “Carabel”, mas vá-se lá hoje saber qual o porquê da designação de “Caravelos” no dito anúncio. O jornal surge já quando a fábrica estava sob a gerência dos irmãos Abílio e Germano Carabel. Ambos eram redatores do jornal, tinham jeito para a escrita. Sobretudo, o Abílio Alves Carabel. Ainda se está para saber que guinada deu aos irmãos para fazerem um jornal no meio de uma serra tão agreste como a de Laboreiro. O diretor era um tal Abílio Domingos, professor primário, que depois se radicou em Braga, onde morreu. Seriam os três que financiavam o jornal, mas que deixou de se publicar, quando Germano Carabel foi dirigir a filial em Melgaço da Fábrica de Chocolates Carabeis Sucessores, antes de ter viajado para o Brasil, com a mulher e filhos, onde permaneceu alguns anos para gerir os bens da esposa. O negócio das fazendas e dos tamancos já viria do tempo do velho Domingos Carabel, pai de Abílio e Germano. O dos caixões e funerais terá surgido depois. A Fábrica de chocolates deixou de laborar há cerca de 70 anos.


Para ver a 1ª parte desta reportagem, clique em
 http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/03/a-familia-carabel-e-fabrica-de.html


Informações extraídas de:
- "A Fábrica de Chocolates da família Carabel e os sabor que se desfez ao redor de... Castro Laboreiro", reportagem de Pedro Leitão in: SIM, Revista do Minho, nº 143 de Dezembro de 2013.


Nota: Um enorme OBRIGADO à Sra. Teresa Lobato. Ao jornalista Pedro Leitão, um especial OBRIGADO por esta magnífica reportagem e pela partilha!

quarta-feira, 26 de março de 2014

A família Carabel e a Fábrica de Chocolates de Castro Laboreiro

(PARTE I)

Domingos "Carabel", fundador da Fábrica de Chocolates de Castro Laboreiro 
(Início do século XX)

A Família Carabel era mão para toda a obra. O fabrico de chocolates constituía a sua principal fonte de rendimento, mas, não contente com o que ganharia com isso, ainda tinha loja aberta, em Castro Laboreiro, há 70 anos. Entre tamancos, miudezas e fazendas, também arranjava tempo para tratar de caixões e funerais, além de publicar um jornal.
Ainda hoje ninguém sabe explicar que guinada deu a Domingos António Alves, Carabel por alcunha, para... montar uma fábrica de chocolates em terra bem alta e fragosa, flagelada pela neve de Dezembro a Fevereiro, agreste como poucas, cheia de agruras (e amarguras), de invernias infindáveis, onde o cacau não aparecia aos pontapés, nem com alquimias elaboradíssimas, e ainda mais numa época de isolamento total! A verdade é que a imprescindível matéria-prima subia à aldeia serrana de Castro Laboreiro, vinda lá do Brasil, com a mesma facilidade com que as trutas sobem ainda o rio Laboreiro.
Parece que o homem andara por Trás-os-Montes, parece que terá corrido meio-mundo, entregando-se à arte de pedreiro ou a outras que para aí calhassem, mas dar-lhe assim para a doçaria, e logo de chocolate, será cousa que a memória da terra não registará assim do pé para a mão.
Corria o ano de 1908, quando Domingos Carabel, já talvez homem para os seus 38 anos, se pôs a fazer tabletes de um saboroso chocolate, que ganhara fama nas décadas que se seguiram, ao redor de Melgaço, ao redor de Monção, ao redor de Valença, tendo chegado, mais tarde, aos olhos e ouvidos dos ingleses, que até mandaram pedir, por carta, amostras dos rótulos do dito produto, vá lá hoje saber-se porquê. Domingos Carabel faleceu em 1918, e o negócio dos chocolates, se não acabava por aí, teria, pelo menos, conhecido uma pausa ou abrandado o ritmo produtivo.
Deu-se o caso de o seu filho Abílio Alves, que ainda andaria de luto por ele, ter assentado praça no Regimento de Caçadores nº 9, à época sediado em Valença do Minho. Parece que já andaria preocupado com o futuro do negócio, quando ainda batia o “esquerdo e o direito” lá pela parada do quartel. Pelos vistos, mal regressasse à vida civil, a cousa fiava fino, agora que não tinha o pai para lhe valer.
Parece que do melhor apuro em chocolates saberia tanto como os seus colegas de camarata perceberiam de jesuítas. Um dia, estando de licença, vai à Fábrica de Chocolates de Valença, assim como quem não quer a coisa, passando então por um tropa que apenas lá ia sem ter mais para onde ir ou que fazer.
Fez-se desentendido e muito mais de desinteressado e, durante a visita, se mais não viu, foi porque não quis: abriram-lhe a fábrica como quem abre um livro com todos os capítulos. Espiou os ingredientes, numa rápida introdução à matéria, espreitou a melhor aplicação das fórmulas, tomou o gosto e o cheiro ao cacau que por lá se gastava, e depressa aprendeu a receita da casa. Estava com ela ferrada!
Acabado o serviço militar, andou, ainda, por terras galegas a micar umas quantas outras receitas e, já catedrático na cousa, aperfeiçoou a sua própria receita, a tal que deu sabor especial aos “Chocolates Carabeis, Sucessor” ou “Chocolates Castro Laboreiro”, como era mais conhecidos. Abílio Alves Carabel fez então contas à melhor rentabilidade do fabrico, para relançar o negócio.
As primitavas instalações que ocupavam parte do edifício em pedra do atual Núcleo Museológico de Castro Laboreiro, não tinham ao tempo energia elétrica, e o carvão, a que o pai Domingos Carabel sempre recorrera, onerava os custos.
Abílio Carabel consegue então autorização dos Serviços Hidráulicos, onde chegou a trabalhar, para um barracão no rio Laboreiro, e aproveita a força motriz da água. Energia assim de borla não havia, nem haverá para fazer chocolate.
Por essa maré, ainda o seu irmão Germano Carabel estava emigrado na América do Norte, pensando talvez no regresso, após uma longa ausência. Germano tinha sido um aventureiro como poucos: aos 14 anos, conhecer um galego de Entrimo, concelho da Galiza contíguo a Castro Laboreiro, que o influenciou a emigrar.
“Queres ir para a América? Olhas que lá ganhas mais do que aqui, e não estás sujeito a tantos trabalhos.” Estas palavras do galego desencaminhador deram a volta à cabeça do rapaz. Correu a pedir autorização ao pai, mas Domingos António Carabel disse redondamente que não. Tinha quatro filhos, três rapazes e uma rapariga e, se germano partisse, era menos uma mão na lide da fábrica.
O moço cismou, porém, que haveria de ir, o galego prometeu-lhe que o ajudava a emigrar, e um dia fugiu de casa paterna seguindo o vizinho de Entrimo. Apanha com ele o comboio até Vigo, e daqui embarca, clandestinamente, rumo às Américas. No alto mar é descoberto, mas o compincha convence o capitão do navio a deixar o rapaz em paz. Em Havana, Cuba, é obrigado a desembarcar. À América do Norte só chegaria muitos meses depois. Regressa a Castro Laboreiro já feito homem, e associa-se ao irmão Abílio, que continuava solteiro e solteiro continuou até ao fim da vida, apesar das aventuras amorosas, envolvendo-se até com uma criada “de alto lá com ela”.
Os dois irmãos, Abílio e Germano, deram-se bem no negócio dos chocolates. E até ao fim da vida também nunca andaram desavindos. Só uma ida de Germano ao Rio de Janeiro, para uma permanência prolongada, os separa, novamente. As encomendas de cacau eram feitas a importadores do Porto, os pedidos iam por carta, quem as escrevia era sempre Abílio Carabel.

Forneciam os chocolates a casas comerciais da região, mas dedicavam-se à venda direta pelas feiras e romarias. As tabletes iam metidas em papel especial, que nunca se soube onde o arranjavam, mas que conservava o chocolate com a mesma eficácia das pratas. Ricos e pobres adoravam o produto!


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Informações extraídas de:
- "A Fábrica de Chocolates da família Carabel e os sabor que se desfez ao redor de... Castro Laboreiro", reportagem de Pedro Leitão in: SIM, Revista do Minho, nº 143 de Dezembro de 2013.


Nota: Um enorme OBRIGADO à Sra. Teresa Lobato. Ao jornalista Pedro Leitão, um especial OBRIGADO por esta magnífica reportagem e pela partilha!