Mostrar mensagens com a etiqueta convento das carvalhiças. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta convento das carvalhiças. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de dezembro de 2019

Quando o Convento das Carvalhiças (Melgaço) foi comprado (1839)




A vida do Convento das Carvalhiças em Melgaço foi curta. Foi começado a construir em 1748. Em 1834, foi extinta a comunidade de frades franciscanos no Convento das Carvalhiças. Enquanto a igreja ficou como propriedade da Ordem Terceira de São Francisco de Melgaço, a parte do convento foi leiloada em hasta pública, sendo comprada por um padre natural de São Paio de Melgaço, o reverendo António Gomes da Cunha. Pouco tempo depois, este foi queixar-se ao administrador distrital de Viana por causa de ”factos violentos” praticados pelo administrador do concelho no Convento das Carvalhiças e que aqui expõe: O reverendo António Bernardo Gomes da Cunha, Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo, e abade da freguesia de São Paio de Melgaço, não pode deixar de levar à presença e conhecimento de Vossa Excelência os violentos factos praticados na sua propriedade pelo Administrador do Concelho de Melgaço. Tendo o representante arrematado o edifício do convento de Santo António de Melgaço, e dele tomado posse, e em que habita, requereu ao Governo para mandar fechar as portas que comunicavam a Igreja com o Convento; mandou Sua Majestade fechar esta comunicação: cuja ordem Vossa Excelência transmitiu ao Administrador deste concelho para a cumprir. Acontece que indo este para cumprir a ordem exorbitou dos seus limites por paixão e sinistros fins particulares; querendo fazer repartimentos na casa do suplicante para o coro e púlpito; fechou as portas dos claustros; fazendo-os despejar, e considerando os como pertenças da Igreja e sagrados por juízo de três sacerdotes, que para isso mandou chamar, querendo desta maneira tornar sagrado aquilo que está legitimamente profanado, e é pertença do edifício, e não da Igreja! Fechou várias portas, que dão serventia do claustro para o edifício, para a casa da hospedaria, e outras casas baixas, etc., e não fechando aquelas que dão comunicação para a Igreja, e desta para o edifício, que são as que a Ordem de Sua Majestade lhe manda fechar, e não as que dão serventia para o edifício e casa do representante. Estes excessos, Excelentíssimo Senhor, cometeu este Administrador no dia 5 do corrente, fazendo e introduzindo, para os cometer, carpinteiros e vários homens em casa do representante; chegando até a dar-lhe a voz de preso à ordem de Sua Majestade por lhe dizer que não consentia que em sua casa se fizessem repartimentos e obras sem sua licença; não lhe embaraçando, que fechasse aquelas portas que devia fechar; que eram só as que comunicam a Igreja com o convento e este com a Igreja e que este era o sentido literal e espírito da Portaria de Sua Majestade. Porém, todos estes violentos excessos e procedimentos são filhos da inveja, e malevolência, que tem ao suplicante por ele ter comprado os bens dos extintos frades; por quem quase todo este Povo ainda suspira! Além disto, também procede isto do representante não consentir de que não passe pelo claustro a procissão da quinta-feira santa, que no tempo dos frades passava. Por cuja continuação instam, e trabalham de conluio todas as autoridades deste concelho, e a Misericórdia; querendo atacar e violar com um uso ou costume por sua natureza extinto, a propriedade deste representante que a arrematou em hasta pública à Fazenda Nacional, que não pode nem deve enganar. Nestas circunstâncias torna-se este Administrador (e todas as mais autoridades) deste concelho muito e muito suspeito ao suplicante. Portanto, digne-se Vossa Excelência mandar que este Administrador feche só as portas que comunicam a Igreja com o edifício do Convento: que é justamente o que Sua Majestade manda na indicada Portaria, e que se abstenha de praticar violências e excessos de tal natureza, ou então haver Vossa Excelência por bem mandar, que qualquer dos Administradores dos Concelhos mais vizinhos vá cumprir a Real Ordem de Sua Majestade na forma da mesma (...).
Melgaço, 12 de Agosto de 1839
Como procurador José Manuel Gomes de Sousa”
A resposta a esta exposição por parte do pároco de S. Paio é bastante clara por parte do administrador distrital de Viana e manda o seguinte: O Senhor Administrador do Concelho, cumprindo fielmente a portaria remetida por cópia, limite-se a tapar unicamente, todas as portas que dão comunicação da Igreja para o edifício do Convento, sendo só pertenças da Igreja e Sacristia e não os claustros.
Viana, 13 de Agosto de 1839
O Administrador Geral Interino Vasconcelos”

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

As origens do Convento das Carvalhiças (Melgaço)



O Convento das Carvalhiças albergou, em tempos, uma comunidade de frades franciscanos e tem origens em meados do século XVIII. Pertenceu à Ordem Terceira de S. Francisco e integrava a rede de conventos de Nossa Senhora da Conceição. Quais as razões para a sua edificação em Melgaço? 
Encontramos todas as respostas num manuscrito da época lavrado por um dos primeiros frades do convento, um tal Frei Manuel de Jesus Maria, a que deu o título de “Relação Sumária da Vinda dos Religiosos para esta Vila de Melgaço e do motivo que para ela houve”. Neste documento, o autor conta-nos como foi a construção deste convento com algum pormenor a partir de 1748. No manuscrito, podemos ler: "Mas porque a devoção dos principais da vila se não satisfaziam com a erecção da venerável Ordem Terceira, e tudo era pedir ao sobredito Provincial religiosos que lhe viesse assistir, determinou o ministro provincial para este efeito ao Irmão Pregador Frei Francisco da Trindade, com o Irmão Frei Paulo da Soledade ex leitor de Moral para que como Comissários da mesma Ordem residissem na mesma vila e dela fossem também assistir a de Monção, enquanto se não dava outra providencia. Para satisfazer pois a obediência do Prelado que assim o determinava, chegaram a esta vila os ditos religiosos a 29 de Julho do sobredito ano de 1746 e enquanto se não preparavam umas casas que descobriram neste Campo da Feira para poderem assistir se hospedaram em casa de Silvestre Teixeira Torres, que era um dos mais empenhados na sua vinda para esta vila e a quem o sobredito Provincial tinha mandado patente de síndico dos mesmos religiosos (...) Compostas as casas conforme pedia a Nossa Santa pobreza, foram os dois companheiros morar para elas e juntamente provendo-se pouco a pouco do necessário com um Irmão Donato, que lhes assistia a fazer a Cozinha (...) depois de vir para o Hospício o Irmão Pregador Frei André de Jesus Maria (...) sucedeu chegar a porta do hospício um homem pobre, no que mostrava, perguntando pelo síndico dos Padres que não achara em casa, para lhe entregar um dinheiro. Sabido o recado eram vinte moedas de 4.800, que lhe entregara em Lisboa um homem de Rouças, chamado Pedro Fernandes da Silva, sem mais segurança, nem cautela, que um escrito com elas embrulhado, em que dizia: que se entregassem aquelas vinte moedas a Silvestre Teixeira para as obras dos Padres Capuchos e passasse recibo (…)
Ajustado que foi o sítio, vieram os pedreiros de Lanhelas a vê-lo, e feita a planta se fez o ajuste da Capela-Mor com o primeiro dormitório que é dobrado, em quinhentos mil réis, e depois com os acréscimos que houve passou a seiscentos (…) Principiaram os pedreiros a arrancar a pedra a 10 de Outubro de 1748. Lançou-se a primeira pedra no cunhal da Capela Mor da parte da vila a 28 de Novembro do mesmo ano (...); e depois de acabadas as paredes se lançou a primeira pedra no cunhal do dormitório também da parte da vila, a 30 de Maio de 1749 e acabada por 12 de Dezembro do mesmo ano; e depois de se cobrir tudo, de se forrar e fazer as taipas e algumas janelas, fizemos a nossa muda das casas do Campo da Feira para o novo hospício a 8 de Setembro de 1750 (...)
Acomodados no novo hospício, entramos a fazer as janelas mais precisas e reparos para o Inverno, que foi o mais rigoroso que há muitos anos tinha vindo, e sendo um dos principais reparos os telhados seguros já com cal, foi tanta a violência do vento pelos grandes temporais, e desamparo do sítio, que se alagaram as celas da parte do poente em água, de sorte que não tínhamos os Religiosos donde escapar da chuva, senão em algumas celas que ficavam da outra parte contraria, e assim passamos o inverno com muito trabalho e desconsolação, enquanto não chegou tempo oportuno para dar outra providencia aos telhados, como se deu no verão seguinte mandado vir os homens mais experimentados do termo de Viana, que ao mesmo tempo que fizeram o estuque da Capela Mor, também deram volta aos telhados, fazendo-os dobrados como se veem da parte do temporal, da mesma sorte que os da Capela, e com isso se pôs remédio às coisas.
Já por este tempo se tinha encomendado a imagem da Conceição, em Ponte do Lima, e como em Viana se tinha feito a tribuna nova com intuito de darem para esta Capela a antiga, se fez conduzir este mesmo verão, de sorte que quando vieram os caiadores já ela estava assentada (...) Irmão Pregador Frei Manuel de São Francisco, natural de Grovelas, termo da Barca, que foi mandado de Caminha onde acabara de guardião para Regente deste Hospício tomando posse dele nos últimos dias deste mês de Dezembro do mesmo ano de 1751. E com as esmolas, que a Divina Providência lhe ia administrando, a deligência que alguns religiosos zelosos ia fazendo, continuou com a obra de paredes desde a Cozinha, até fechar na Capela Maior, conduzindo com grande trabalho todas as traves, que foram necessárias de Parada do Monte e do lugar das Cavencas de Riba de Mouro (...) Maio de 1753, em que saiu eleito para Regente deste Hospicio o Irmão Pregador Frei Félix de Santa Teresa, natural de Ponte do Lima (...), e solhou o meio dormitório, desde a cozinha até à Casa última, fez as taipas, e celas e concluiu a Casa última no estado em que se acha. Fez também o muro desde a Capela da Pastoriza até à volta que fez em roda da tomada de Caetano de Abreu. O qual muro continuou depois o Irmão Pregador Frei Manuel de São Francisco até o canto da Cruz de pedra, que está para a parte da Pigarra (...) e plantou de novo o pomar com várias árvores de fruto no último canteiro da mata, que fica onde está a Cruz de Pedra (...)
Depois da sua extinção, a igreja fez parte do património da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço durante um curto período de tempo de pouco mais de meio século, entre finais do século XIX e 1963.




Extraído de: AMM, Convento das Carvalhiças, MARIA, Frei Manuel de Jesus, "Relação Sumária da Vinda dos Religiosos para esta Vila de Melgaço e do motivo que para ela houve, iniciado em 1758."